{"id":97,"date":"2014-03-24T13:53:48","date_gmt":"2014-03-24T13:53:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=97"},"modified":"2014-09-30T22:38:05","modified_gmt":"2014-09-30T22:38:05","slug":"lino-moreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/lino-moreira\/","title":{"rendered":"Lino Ant\u00f4nio Raposo Moreira"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\">Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds-MA, a 15 de fevereiro de 1948. Fez o antigo curso prim\u00e1rio no Col\u00e9gio Santa Teresinha, das irm\u00e3s Valois, e o secund\u00e1rio no Col\u00e9gio Maranhense, dos Irm\u00e3os Maristas, e no Liceu Maranhense. Bacharelou-se em Economia em 1970 pela Faculdade de Economia do Maranh\u00e3o. Nesse ano, fez o Curso Intensivo de Treinamento em Problemas de Desenvolvimento Econ\u00f4mico da Cepal. Entre 1978 e 1983, estudou nos Estados Unidos, obtendo os graus de mestre e doutor em Economia pela Universidade de Notre Dame, no Estado de Indiana. Sua tese doutoral tem o t\u00edtulo The Choice of Technology of Multinational Corporations in Brazil and its Implications for Employment Creation (A Escolha de Tecnologia por Corpora\u00e7\u00f5es Multinacionais no Brasil e suas Implica\u00e7\u00f5es para a Cria\u00e7\u00e3o de Empregos).<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Suas atividades profissionais tiveram in\u00edcio no Banco de Desenvolvimento do Estado do Maranh\u00e3o, como estagi\u00e1rio, em 1968, sendo admitido como t\u00e9cnico de n\u00edvel superior em 1970. Ocupou na institui\u00e7\u00e3o os cargos de Chefe da Divis\u00e3o de An\u00e1lise de Projetos do Departamento de Industrializa\u00e7\u00e3o; Chefe do Departamento de Cr\u00e9dito Rural; Chefe da Coordenadoria de Planejamento, Organiza\u00e7\u00e3o e M\u00e9todos. Na Secretaria de Fazenda do Estado foi, entre 1971 e 1975, Assessor Especial e Instrutor do Centro de Treinamento.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Fez parte da equipe t\u00e9cnica (comiss\u00e3o central) encarregada de elaborar o Plano de Governo do Maranh\u00e3o para o per\u00edodo 1976-79 e do grupo encarregado de elaborar o Plano de A\u00e7\u00e3o do Banco de Desenvolvimento do Maranh\u00e3o para o mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">De 1985 a 1990, ocupou os cargos de Secret\u00e1rio Adjunto da Secretaria de Articula\u00e7\u00e3o com os Estados e Munic\u00edpios-Sarem, da Secretaria de Planejamento da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u2013 Seplan-PR; Secret\u00e1rio de Planejamento do Estado do Maranh\u00e3o; Secret\u00e1rio Geral Adjunto da Seplan-PR; Secret\u00e1rio Executivo do Conselho Interministerial do Programa Grande Caraj\u00e1s, tamb\u00e9m da Seplan-PR. No Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada \u2013 Ipea, foi T\u00e9cnico de Planejamento e Pesquisa a partir de 1987. No per\u00edodo 1990-94, foi Assessor Parlamentar na C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Exerceu, de 1995 a 2000, o cargo de Secret\u00e1rio de Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos do Estado do Maranh\u00e3o; de 2000 a 2002, o de Auditor Geral do Estado; de 2002 a 2004, o de Secret\u00e1rio-Adjunto de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, da Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico do Maranh\u00e3o; durante o ano de 2005, o de Assessor do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Maranh\u00e3o. Atualmente \u00e9 aposentado do Ipea e presta servi\u00e7os de consultoria na \u00e1rea econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Agraciado com as medalhas: da Ordem dos Timbiras, no grau de grande oficial, do governo do Estado do Maranh\u00e3o; Brigadeiro Falc\u00e3o, da Pol\u00edcia Militar do Maranh\u00e3o; Sim\u00e3o Est\u00e1cio da Silveira, da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Lu\u00eds; do Bicenten\u00e1rio de Nascimento de Francisco Sotero dos Reis e do Bicenten\u00e1rio de Nascimento de Manuel Odorico Mendes, da Academia Maranhense de Letras.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\">Employment and Technological Choice of Multinational Enterprises in Developing Countries. International Labour Organization &#8211; ILO Publications, volume 23, 1983, pag. 1-37, em co-autoria com Lawrence Marsh, da Universidade de Notre Dame e Richard Newfarmer, do Banco Mundial; Multinationals, Employment and Income Distribution in Brazil, Journal of Economic Development, volume 19, n\u00famero 1, junho de 1994, pag. 39-60, em co-autoria com Benedict Clements, do FMI; Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, Ceuma Perspectivas, volume 3, agosto de 1999, p\u00e1g. 39-48; Peda\u00e7os da Eternidade, livro de cr\u00f4nicas, 2002; Dois estudos econ\u00f4micos, 2003.<br \/>\nEscreve cr\u00f4nicas semanais no jornal O Estado do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Talvez seja de surpresa a rea\u00e7\u00e3o de muitos \u00e0 presen\u00e7a entre os membros da Academia Maranhense de Letras de um\u00a0economista, profissional que, frequentemente, trata com n\u00fameros. Mas, exceto pelo fato de serem estes letras de outro tipo e de sentir-me avalizado pelo patrono da Cadeira 8, Gomes de Sousa, o Sousinha, um matem\u00e1tico, acostumado, portanto, ao trato com os algarismos, devo o estar aqui \u00e0 evidente benevol\u00eancia dos acad\u00eamicos em rela\u00e7\u00e3o a meus eventuais m\u00e9ritos. Os confrades, ao darem apoio \u00e0 minha elei\u00e7\u00e3o, confirmam uma das mais salutares tradi\u00e7\u00f5es desta Casa, a da valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade, conduta ben\u00e9fica para qualquer entidade e caracter\u00edstica do saud\u00e1vel interc\u00e2mbio de ideias e vis\u00f5es praticado nesta Casa. N\u00e3o fora assim, se realizado esse di\u00e1logo exclusivamente entre os da mesma g\u00eanese, resultaria do equ\u00edvoco o definhamento e n\u00e3o o revigoramento permanente da Academia.<\/p>\n<p>Isso me leva a refletir sobre sua natureza e de suas cong\u00eaneres. Elas, como disse Josu\u00e9 Montello em seu discurso de posse, \u201cn\u00e3o nasceram para as rebeli\u00f5es\u201d? Certamente. Sociedades como essas procuram a autopreserva\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, tendem ao conservadorismo porque sentem o\u00a0novo, o desconhecido, como uma amea\u00e7a potencial \u00e0 sua sobreviv\u00eancia. Percebe-se com mais nitidez essa realidade quando a pr\u00f3pria sociedade \u00e9 conservadora, postura comum na prov\u00edncia. As academias s\u00e3o o produto do meio onde nascem. T\u00eam a necessidade de manter o equil\u00edbrio na transforma\u00e7\u00e3o e evitar conflitos. N\u00e3o assumem a lideran\u00e7a das revolu\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o se op\u00f5em \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es aceitas pela sociedade porque conhecem esta verdade: se tudo se destr\u00f3i, como desejam os revolucion\u00e1rios, haver\u00e1 sempre um\u00a0eterno recome\u00e7o a partir do nada, com perda do conhecimento previamente adquirido. Se nada muda, contudo, se tudo se conserva, a destrui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 da mesma forma inevit\u00e1vel, porque a cultura morrer\u00e1 por falta de renova\u00e7\u00e3o. \u00c9, deste modo, compreens\u00edvel a cautela dessas institui\u00e7\u00f5es. Elas procuram em verdade um ponto de equil\u00edbrio nesse processo dial\u00e9tico de conserva\u00e7\u00e3o versus mudan\u00e7a. A nossa Casa comportou-se assim no passado, desde sua primeira administra\u00e7\u00e3o, de Jos\u00e9 Ribeiro do Amaral, e continua a faz\u00ea-lo hoje. \u00c9 exatamente por causa da modera\u00e7\u00e3o de suas atitudes, da procura da virtude no meio termo, que as academias s\u00e3o t\u00e3o atacadas pelos revolucion\u00e1rios, aut\u00eanticos ou falsos, e louvada acriticamente pelos reacion\u00e1rios. Ambos parecem n\u00e3o entender a natureza delas.<\/p>\n<p>Houve decerto per\u00edodos de apatia na hist\u00f3ria desta Academia, quando algumas poltronas ficaram vazias durante muitos anos. Mas, a sociedade maranhense igualmente estava ap\u00e1tica, numa longa fase de decad\u00eancia, ap\u00f3s a euforia do crescimento econ\u00f4mico do final do s\u00e9culo 18 e grande parte do 19. Como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, embora n\u00e3o suficiente, o excedente econ\u00f4mico produzido naquele per\u00edodo ofereceu a base material da nossa grandeza art\u00edstica. N\u00e3o \u00e9 preciso ser marxista para reconhecer a correla\u00e7\u00e3o da vida cultural com a base econ\u00f4mica. Recordemos a Gr\u00e9cia, j\u00e1 que gostamos de ser atenienses. Ela foi t\u00e3o marcante na vida espiritual da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental porque dispunha das necess\u00e1rias pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es materiais para isso, assim como Roma durante seu apogeu. No nosso caso, perdida a riqueza econ\u00f4mica, diminuiu, tamb\u00e9m, pouco a pouco, o brilho anterior das nossas letras.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o modernista de 1922 teve de esperar o retorno, em 1946, de Bandeira Tribuzi, de Portugal, e de Lucy Teixeira, de Minas Gerais, para ter aceita\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s. Ressalto ter vindo de Lucy o primeiro e mais forte incentivo para minha experi\u00eancia de escrever cr\u00f4nicas e, depois, com a sele\u00e7\u00e3o de algumas delas, publicar o livro <em>Peda\u00e7os da eternidade<\/em>, que, imagino, teve boa acolhida do p\u00fablico. Ela, que ora me recepciona, e Tribuzi, com quem eu, um jovem economista rec\u00e9m-formado, trabalhei no extinto Banco de Desenvolvimento do Maranh\u00e3o, difundiram a partir daquela \u00e9poca o modernismo entre n\u00f3s. O acad\u00eamico Jos\u00e9 Sarney, ao recepcion\u00e1-la aqui, disse:<\/p>\n<p><em>Dois grandes polos marcam a vida liter\u00e1ria daqueles anos. A import\u00e2ncia que iriam ter na nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 marcante [&#8230;] Tribuzi traz os poetas novos portugueses, lan\u00e7a em termos do presente os reencontros da l\u00edrica portuguesa no Maranh\u00e3o. E Lucy o acompanha nos caminhos da nova poesia, nas perplexidades dos jovens, numa busca angustiosa de novas formas, novas express\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p>Inicialmente, formou-se um pequeno grupo em volta dos dois: Carlos Madeira, Lu\u00eds Carlos Bello Parga, Murilo Ferreira, Evandro Sarney, Jos\u00e9 Sarney. Logo depois, Ferreira Gullar e Lago Burnett. Um pouco mais adiante, Manuel Lopes, Cadmo Silva, Domingos Vieira Filho, Reginaldo Telles, Vera Cruz Santana, Jos\u00e9 Bento, Jos\u00e9 Filgueiras, Jos\u00e9 Brasil, Raimundo Bog\u00e9a, Jos\u00e9 Chagas, Agnor Lincoln da Costa. Quase toda a nossa produ\u00e7\u00e3o intelectual at\u00e9 aquele momento voltava-se para um passado idealizado, clara forma de compensa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica pela decad\u00eancia do presente, e continuava aprisionada aos padr\u00f5es rom\u00e2nticos e parnasianos vigentes no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, j\u00e1 superados havia quase tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A Academia, por\u00e9m, n\u00e3o esteve alheia \u00e0s mudan\u00e7as, quando elas se impuseram. Sob a presid\u00eancia de Clodoaldo Cardoso, a partir de 1947, ela se revigorou. J\u00e1 em 1950, dela faziam parte v\u00e1rios daqueles jovens ligados aos movimentos de renova\u00e7\u00e3o, como Franklin de Oliveira, Pedro Braga Filho e Corr\u00eaa da Silva, e, pouco mais tarde, Lago Burnett, Odylo Costa, filho, Jos\u00e9 Sarney e Domingos Vieira Filho.<\/p>\n<p>Apesar de algumas mudan\u00e7as de l\u00e1 para c\u00e1, apesar de todo o esfor\u00e7o de muitos de nossos confrades, da Academia, de outras institui\u00e7\u00f5es e de algumas pessoas solitariamente, nossa sociedade padece ainda das limita\u00e7\u00f5es onipresentes, embora, felizmente, n\u00e3o onipotentes, de nossa atmosfera mental. Permanecemos deficientes em estudos e pesquisas consistentes sobre as nossas realidades econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. N\u00e3o valorizamos a pesquisa cient\u00edfica s\u00e9ria e sistem\u00e1tica. Consideramos o estudo e uso da teoria como ocupa\u00e7\u00e3o de sonhadores desligados da realidade, como os nossos chamados \u201chomens pr\u00e1ticos\u201d consideram, na suposi\u00e7\u00e3o de serem as teorias antag\u00f4nicas \u00e0 pr\u00e1tica e n\u00e3o um guia seguro para a a\u00e7\u00e3o consequente e respons\u00e1vel. As universidades continuam desligadas da nossa realidade socioecon\u00f4mica. Fazemos muitos versos e pouca poesia, com as boas exce\u00e7\u00f5es de sempre. N\u00e3o escrevemos quase nenhuma fic\u00e7\u00e3o. Quando o fazemos, corremos o risco de reinventar a roda ou redescobrir como acender o fogo, porque n\u00e3o nos preocupamos em acompanhar as novas correntes de pensamento ou os novos movimentos de renova\u00e7\u00e3o surgidos fora daqui. Em tudo ressalvo os esfor\u00e7os isolados de muita gente, bravos lutadores contra as for\u00e7as da entropia intelectual e a favor da sintonia com a din\u00e2mica do mundo moderno.<\/p>\n<p>A Casa de Ant\u00f4nio Lobo tem demonstrado invulgar capacidade de elevar-se acima dessas limita\u00e7\u00f5es. Ela participou e participa constantemente de muitas atividades importantes ligadas \u00e0 nossa cultura, da erudita e da popular. A ideia da cria\u00e7\u00e3o de uma Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, no Maranh\u00e3o, surgiu na Academia, em cujo sal\u00e3o nobre foi proferida a aula inaugural da nova institui\u00e7\u00e3o. Ela realiza concursos liter\u00e1rios, palestras, cursos e confer\u00eancias, e faz\u00a0parte de comiss\u00f5es e grupos de trabalho encarregados de emitir pareceres e elaborar documentos sobre assuntos de interesse da cultura maranhense. Haver\u00e1, ademais, evid\u00eancia mais forte do seu prest\u00edgio do que o vivo interesse de muitos de pertencer a ela?<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa a raz\u00e3o de me sentir honrado com a receptividade a meu nome. Quando me perguntam pelo melhor caminho para aqui aportar, digo serem eles t\u00e3o numerosos quanto s\u00e3o os confrades de hoje e do passado. Cada um constr\u00f3i o seu. O meu teve idas e vindas, partidas e chegadas a esta querida terra-m\u00e3e, por uma trama das circunst\u00e2ncias, do destino, do acaso, ou como se queira chamar o sempre imprevis\u00edvel correr da vida. At\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, eu n\u00e3o imaginava um dia ser membro da Casa de Ant\u00f4nio Lobo, apesar de os livros e a literatura terem sempre feito parte insepar\u00e1vel de minha vida. Antes de considerar-me um escritor, vejo-me como um bom e obsessivo leitor. As minhas mais antigas lembran\u00e7as est\u00e3o ligadas \u00e0 leitura. Desde que aprendi, bem pequeno, a interpretar a mensagem por tr\u00e1s dos s\u00edmbolos chamados letras, nunca mais pude parar de ler. A minha conviv\u00eancia praticamente di\u00e1ria com as obras de grandes escritores e, especialmente, o eterno Machado de Assis, deu-me a certeza de que se eu me dedicasse apenas a l\u00ea-los, sem escrever uma linha sequer, eu n\u00e3o poderia me acusar de levar uma vida desprovida de sentido.<\/p>\n<p>Confesso com orgulho me sentir verdadeiramente em casa nesta Casa. N\u00e3o chego para conhec\u00ea-la. Eu j\u00e1 a conhe\u00e7o, pois tenho participado de v\u00e1rias de suas atividades como colaborador e convivo com muitos acad\u00eamicos, todos eles meus amigos fraternos. Essa conviv\u00eancia revelou-se, sem surpresa alguma de minha parte, um inestim\u00e1vel aprendizado e me deu a oportunidade de crescer intelectualmente. Vejo este momento, portanto, como a consequ\u00eancia natural desse conjunto de fatores: as conspira\u00e7\u00f5es do acaso, o amor \u00e0 leitura, as sinceras amizades e a benevol\u00eancia no julgamento de meus m\u00e9ritos. A alegria de entrar nesta Casa n\u00e3o tem dimens\u00e3o nos comuns sistemas de medidas. Esta \u00e9, verdadeiramente, a gl\u00f3ria que eleva, honra e consola.<\/p>\n<p>As pessoas que me antecederam no lugar que ora passo a ocupar merecem especial rever\u00eancia. Vejam se n\u00e3o carrego uma grande responsabilidade tendo a obriga\u00e7\u00e3o de honrar a mem\u00f3ria de t\u00e3o luminosas personalidades.<\/p>\n<p>Armando Vieira da Silva, nascido em S\u00e3o Lu\u00eds a 30 de agosto de 1887, estava entre os 12 fundadores da Academia Maranhense de Letras. Ele foi fundador duas vezes porque fundou tamb\u00e9m a Cadeira 8. Mais tarde, assumiu a presid\u00eancia da Casa, de 15 de janeiro de 1939 at\u00e9 seu falecimento no Rio de Janeiro a 8 de outubro de 1940. Publicou <em>Vibra\u00e7\u00f5es da noite<\/em>, poesia, 1907, <em>Poesias<\/em>, 1908, <em>Portugal<\/em>, 1934, <em>Consola\u00e7\u00e3o, <\/em>cr\u00f4nicas, 1937, e diversos discursos, palestras e confer\u00eancias em folhetos.<\/p>\n<p>Vieira da Silva pertenceu ao chamado terceiro ciclo da hist\u00f3ria liter\u00e1ria maranhense, correspondente, aproximadamente, ao per\u00edodo de 1894 a 1936, de acordo com a periodiza\u00e7\u00e3o proposta por M\u00e1rio Meireles, no seu <em>Panorama da literatura maranhense<\/em>, com base em<em> A literatura maranhense<\/em>, de A. Reis Carvalho. Nessa \u00e9poca, houve uma tentativa que acabou se revelando passageira, de parte de um grupo de intelectuais chamados por Ant\u00f4nio Lobo de Novos Atenienses, de fazer renascer no Maranh\u00e3o o fulgor experimentado no primeiro ciclo com os neocl\u00e1ssicos e rom\u00e2nticos do Grupo Maranhense, no per\u00edodo aproximado de 1832 a 1868, que deu lugar ao segundo ciclo, de 1868 a 1894, caracterizado pela preval\u00eancia do Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo, com seus principais representantes deixando o Maranh\u00e3o para adquirir proje\u00e7\u00e3o no sul do Brasil, talvez por n\u00e3o contarem mais com as condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas adequadas a um proveitoso lavor, como seus predecessores contaram.<\/p>\n<p>Nas palavras de Franklin de Oliveira \u201c[&#8230;] Vieira da Silva, o poeta, \u00e9 mesmo t\u00e3o grande, t\u00e3o soberbo que sacrifica o pensador. O seu lirismo generoso, como o de Pascal, p\u00f5e o cora\u00e7\u00e3o acima da intelig\u00eancia. [&#8230;]. Ou\u00e7am, agora o justamente famoso soneto Carro de Bois:<\/p>\n<p><em>Velho carro de bois, pesado, aos solavancos,<\/em><br \/>\n<em>Em busca do sert\u00e3o, sem ter uma pousada,<\/em><br \/>\n<em>De calhau em calhau, por cima dos barrancos,<\/em><br \/>\n<em>Vagaroso l\u00e1 vai&#8230; cantando pela estrada.<\/em><br \/>\n<em>Velho, vai se quebrando aos \u00faltimos arrancos.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o h\u00e1 sol, nem fadiga e nem mesmo invernada,<\/em><br \/>\n<em>Que lhe detenha o andar. Lento, caminha aos trancos,<\/em><br \/>\n<em>Pouco a pouco vencendo a penosa jornada.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1 vinte anos atr\u00e1s viveu num pequizeiro,<\/em><br \/>\n<em>Cortaram-no sem d\u00f3. Sem paz e sem repouso<\/em><br \/>\n<em>Hoje vive de andar pelo sert\u00e3o inteiro,<\/em><br \/>\n<em>Lento e triste a rolar naquelas soledades&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Sempre por\u00e9m cantando e cantando saudoso<\/em><br \/>\n<em>Como quem canta s\u00f3 para matar saudades!&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Franklin de Oliveira assegura mais: \u201cNa prosa, Vieira da Silva \u00e9 o mesmo vate soberbo. Transvia-se apenas. As suas confer\u00eancias, os seus discursos, os seus artigos, as suas cr\u00f4nicas s\u00e3o poemas ritmados, que se libertaram do preconceito do metro unicamente\u201d. Valendo-se de t\u00e3o apurada sensibilidade, Vieira da Silva escolheu Joaquim Gomes de Sousa, o Sousinha, como patrono desta Cadeira.<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 se disse e muito ainda se dir\u00e1 sobre essa figura luminar de nossa terra, pois sua intelig\u00eancia incomum e interesse por v\u00e1rios campos do conhecimento humano, durante sua curta exist\u00eancia de trinta e cinco anos, o recomendar\u00e3o\u00a0sempre aos p\u00f3steros, seus sucessores nessa espl\u00eandida aventura de viver, cujo fim maior, e talvez \u00fanico, \u00e9 a busca da felicidade, do belo, da justi\u00e7a e da liberdade, a recusa do materialismo vulgar, da aliena\u00e7\u00e3o do dinheiro, do sentimento de posse de coisas e de pessoas, do desespero e da desesperan\u00e7a, e a exalta\u00e7\u00e3o da grandeza da alma e n\u00e3o de sua pequenez.<\/p>\n<p>Gomes de Sousa nasceu \u00e0 margem esquerda do Itapecuru, na fazenda Concei\u00e7\u00e3o, em 1829, a 15 de fevereiro, mesmo dia e m\u00eas de meu nascimento em 1948. O nome Joaquim representou uma homenagem a seu tio, o desembargador Joaquim Vieira da Silva e Sousa, parlamentar, presidente da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o, magistrado, senador e ministro, casado com Columba de Santo Ant\u00f4nio de Sousa Gaioso, filha de Raimundo Jos\u00e9 de Sousa Gaioso, autor do cl\u00e1ssico <em>Comp\u00eandio hist\u00f3rico-pol\u00edtico dos princ\u00edpios da lavoura do Maranh\u00e3o<\/em>, analisado por mim no livro <em>Dois estudos econ\u00f4micos<\/em>. Uma das irm\u00e3s de Sousinha, Maria Gertrudes Gomes de Sousa, era casada com Lu\u00eds Ant\u00f4nio Vieira da Silva, filho do desembargador, logo, primo dela, autor da not\u00e1vel<em> Hist\u00f3ria da Independ\u00eancia do Maranh\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>O rico fazendeiro da regi\u00e3o do Itapecuru, In\u00e1cio Jos\u00e9 Gomes de Sousa, filho de Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Gomes de Sousa e de Lu\u00edsa Maria de Sousa, era o pai de Gomes de Sousa. Sua m\u00e3e, Ant\u00f4nia Carneiro de Brito e Sousa, era filha de Raimundo de Brito Magalh\u00e3es e Cunha, antigo ouvidor-geral do Maranh\u00e3o, e de Gertrudes Carneiro Homem Souto-Maior.<\/p>\n<p>Em 1841, com apenas 12 anos, Sousinha foi estudar em Olinda, onde faria a prepara\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para ingressar na Faculdade de Direito. O irm\u00e3o mais velho, Jos\u00e9 Gomes de Sousa, j\u00e1 se encontrava l\u00e1, mas faleceu no ano seguinte. Tendo de retornar ao Maranh\u00e3o, ap\u00f3s a morte inesperada, encontrou a fam\u00edlia instalada no belo sobrado da rua do Sol, sede, atualmente, do Museu Hist\u00f3rico do Maranh\u00e3o. Ele passaria ali boa parte de sua juventude. Como informa o acad\u00eamico M\u00edlson Coutinho, em livro a ser publicado em breve, ainda existe uma inscri\u00e7\u00e3o lapidar na frontaria do pr\u00e9dio, em formato de monograma, com as iniciais IJGS, de In\u00e1cio Jos\u00e9 Gomes de Sousa.<\/p>\n<p>Os pais de Sousinha decidiram ent\u00e3o encaminh\u00e1-lo, em 1843, \u00e0 carreira das armas no Rio de Janeiro. Ele fez sua matr\u00edcula na Escola Militar da Corte, que havia institu\u00eddo o grau de doutor em Matem\u00e1tica em 1842. Simultaneamente, sentou pra\u00e7a como soldado do Ex\u00e9rcito. Em fevereiro de 1844, tendo cursado o primeiro ano de Engenharia, pediu licen\u00e7a por seis meses para tratamento de sa\u00fade. Um atestado, dos dois juntados ao pedido, do m\u00e9dico Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Andrade, continha esta avalia\u00e7\u00e3o: \u201c[&#8230;] o soldado da 5\u00aa Companhia do referido Batalh\u00e3o e aluno da escola militar sofre les\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, de onde prov\u00eam peri\u00f3dicos ataques asm\u00e1ticos, sofre mais uma bronquite cr\u00f4nica, bem apreci\u00e1vel pela sens\u00edvel altera\u00e7\u00e3o da voz [&#8230;]\u201d. O outro atestado, do doutor Mure, refere-se apenas \u00e0 asma, mas n\u00e3o a problemas coron\u00e1rios. Apresentando pouca melhora, decide dar baixa e abandonar temporariamente os estudos.<\/p>\n<p>Em 1845, matriculou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e foi morar numa rep\u00fablica de estudantes \u00e0\u00a0travessa do Pa\u00e7o. L\u00e1, se hospedava tamb\u00e9m Ant\u00f4nio Henriques Leal seu futuro bi\u00f3grafo. Nesse per\u00edodo, os colegas passaram a cham\u00e1-lo de Sousinha. Fez o primeiro e o segundo anos do curso m\u00e9dico e requereu em 1847 os chamados exames vagos em todas as mat\u00e9rias de Engenharia da Escola Militar. A Medicina ficaria para depois. A Congrega\u00e7\u00e3o negou o pedido. Gra\u00e7as, no entanto, a Maria Constan\u00e7a Martins Brito, filha de Jos\u00e9 de Oliveira Barbosa, visconde do Rio Comprido e ministro do Ex\u00e9rcito, em 1823, aproximou-se do senador Jos\u00e9 Saturnino da Costa Pereira, igualmente ministro do Ex\u00e9rcito, em 1837, inicialmente opositor da solicita\u00e7\u00e3o, bem como do conselheiro C\u00e2ndido Batista, ministro da Fazenda e da Marinha, senador e primeiro estudioso a reproduzir no Brasil o famoso experimento, de Foucault, que comprova o movimento de rota\u00e7\u00e3o da Terra. Ambos, Saturnino e C\u00e2ndido, eram professores da Escola. Com essas amizades, obteve a licen\u00e7a para fazer os exames em novembro. Surpreendentemente, recebeu uma avalia\u00e7\u00e3o ruim em Mec\u00e2nica, nos exames do 3\u00ba. ano, dada pelo professor Gomes Jardim, seu vizinho no pr\u00e9dio onde moravam, ap\u00f3s uma discuss\u00e3o sobre uma f\u00f3rmula. Do incidente, resultou a cassa\u00e7\u00e3o pela Congrega\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a para os outros exames de Engenharia, embora a nota n\u00e3o o reprovasse. Em de zembro desse mesmo ano de 1847, conseguiu aprova\u00e7\u00e3o nos exames do 3\u00ba ano de Medicina.<\/p>\n<p>Em 1848, obteve a licen\u00e7a cassada no ano anterior. Sub meteu-se, a seguir, aos exames remanescentes na \u00e1rea de Engenharia, obtendo a 10 de junho o grau de bacharel em Ci\u00eancias Matem\u00e1ticas e F\u00edsicas e, em 14 de outubro, o de doutor em Matem\u00e1tica, o primeiro concedido pela Escola, com a tese <em>Disserta\u00e7\u00e3o sobre o modo de indagar novos astros sem aux\u00edlio das observa\u00e7\u00f5es diretas.<\/em> Em novembro, foi aprovado no concurso de professor substituto da Escola e em dezembro nos exames do 4\u00ba ano de Medicina. Nesse per\u00edodo, como se v\u00ea, Sousinha desenvolveu intensa atividade intelectual. Seus pais, sabendo-o doente, mandaram busc\u00e1-lo no fim do ano.<\/p>\n<p>Ele ficou na fazenda Concei\u00e7\u00e3o durante todo o primeiro semestre do ano seguinte, 1849. Nesse pouco tempo, de acordo com seus bi\u00f3grafos, estudou alem\u00e3o, italiano, Economia Pol\u00edtica, Direito Constitucional e Filosofia, especialmente Kant, Hegel, Fitche e Krause, nos originais em alem\u00e3o. N\u00e3o tardou, por\u00e9m, a retornar ao Rio de Janeiro. No segundo semestre, assumiu sua c\u00e1tedra na Escola e fez pesquisas sobre m\u00e9todos gerais de integra\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es, teoria do som e propaga\u00e7\u00e3o em meios el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>Sousinha publicou dois artigos em 1850, no primeiro n\u00famero da revista <em>Guanabara<\/em>, importante publica\u00e7\u00e3o do movimento rom\u00e2ntico no Brasil, fundada no ano anterior por Gon\u00e7alves Dias, Joaquim Manoel de Macedo e Ara\u00fajo Porto Alegre. Um era a Exposi\u00e7\u00e3o Sucinta de um M\u00e9todo de Integrar Equa\u00e7\u00f5es Diferenciais Parciais por Integrais Definidas e o outro, Resolu\u00e7\u00e3o das Equa\u00e7\u00f5es Num\u00e9ricas. Depois de entregar este \u00faltimo a Gon\u00e7alves Dias, para publica\u00e7\u00e3o, descobriu um erro em uma f\u00f3rmula. Tarde demais. A revista saiu sem a retifica\u00e7\u00e3o. O n\u00famero seguinte trouxe a corre\u00e7\u00e3o ao lado de uma cr\u00edtica do professor Joaquim Jos\u00e9 de Oliveira. Sousinha havia mencionado o erro a Oliveira e este lhe expusera suas observa\u00e7\u00f5es. No entanto, o professor, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do segundo n\u00famero da Guanabara, passou a dizer que s\u00f3 depois de sua cr\u00edtica Sousinha corrigira o equ\u00edvoco. Estabeleceu-se uma pol\u00eamica. Oliveira criticava seu oponente com base na f\u00f3rmula errada e Sousinha s\u00f3 admitia discutir sobre a f\u00f3rmula corrigida. Depois da publica\u00e7\u00e3o por Gon\u00e7alves Dias de uma carta aberta a Oliveira, em defesa de Sousinha, a pol\u00eamica terminou. Nesse mesmo segundo n\u00famero, o matem\u00e1tico maranhense publicou tamb\u00e9m o M\u00e9todos Gerais de Integra\u00e7\u00e3o e da Integral da Equa\u00e7\u00e3o Diferencial do Problema do Som.<\/p>\n<p>Em 1854, ele fez sua primeira viagem \u00e0 Europa. Tendo sido designado pelo imperador d. Pedro II, em 1852, para uma comiss\u00e3o encarregada de estudar a aplica\u00e7\u00e3o de medidas necess\u00e1rias \u00e0 reforma do sistema penitenci\u00e1rio brasileiro, oficialmente ia examinar a experi\u00eancia da Europa nesse campo, mas, seu interesse maior eram os seus estudos.<\/p>\n<p>Em 1856, ano em que obteve o grau de doutor em Medicina na Faculdade de Medicina de Paris, ap\u00f3s submeter-se a exames com defesa de tese, completando os estudos iniciados no Rio de Janeiro, viajou para a Alemanha onde se encontrou, em Dresde, com Gon\u00e7alves Dias. Este escreveu ao\u00a0bar\u00e3o de Capanema:<\/p>\n<p><em>O Sousa aqui chegou tamb\u00e9m, vindo n\u00e3o sei donde, 4 ou 5 dias depois de mim; mora em cascos de rolha com um m\u00e9dico casado de fresco, e parece que vai bem. Creio que ele est\u00e1 em via de descobrir que o seu g\u00eanio n\u00e3o \u00e9 matem\u00e1tico, \u2013 a s\u00edntese dos grandes princ\u00edpios filos\u00f3ficos \u2013 a harmonia \u00e0 Leibnitz, se poder\u00e1 tamb\u00e9m chamar \u2013 preestab\u2019lecida (sic) \u2013 das ci\u00eancias entre si, eis o que para que se acha ele com queda e talento [&#8230;] quando o escuto um quarto d\u2019hora, sinto-me tomado de vertigem, como se me quisessem explicar as teorias de Taylor, ou os infinit\u00e9simos de Laplace.<\/em><\/p>\n<p>Em 1857 ou 1858, n\u00e3o se sabe ao certo, Gomes de Sou sa publicou na Alemanha a <em>Cole\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de an\u00e1lise e f\u00edsica matem\u00e1tica<\/em>, do qual n\u00e3o se conhece atualmente nenhum exemplar. Constavam dela: 1) Mem\u00f3ria sobre os m\u00e9todos gerais de integra\u00e7\u00e3o; 2) Adi\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria sobre os m\u00e9todos gerais de integra\u00e7\u00e3o; 3) Mem\u00f3ria sobre a determina\u00e7\u00e3o de constantes que, entre os problemas de f\u00edsica matem\u00e1tica, entram nas integrais de equa\u00e7\u00f5es diferenciais parciais, em fun\u00e7\u00e3o do estado inicial do sistema; 4) Demonstra\u00e7\u00e3o de alguns teoremas gerais pela compara\u00e7\u00e3o de novas fun\u00e7\u00f5es transcendentes; 5) Mem\u00f3ria sobre um teorema de c\u00e1lculo integral e suas aplica\u00e7\u00f5es \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de problemas de f\u00edsica matem\u00e1tica; 6) Mem\u00f3ria sobre a determina\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es inc\u00f3gnitas sob o sinal de integra\u00e7\u00e3o definida; 7) Mem\u00f3ria sobre a analogia entre as equa\u00e7\u00f5es diferenciais lineares e as equa\u00e7\u00f5es alg\u00e9bricas ordin\u00e1rias \u2013 muitas aplica\u00e7\u00f5es \u00e0 teoria das integrais definidas e \u00e0 teoria das fun\u00e7\u00f5es el\u00edpticas \u2013 alguns teoremas sobre a natureza das transcendentes encerradas nas equa\u00e7\u00f5es lineares diferenciais lineares, de coeficientes alg\u00e9bricos. Dessas mem\u00f3rias, foram submetidas \u00e0 Academia de Ci\u00eancias de Paris e levadas a M. Liouville, Lam\u00e9 e Bienaym, membros da comiss\u00e3o encarregada de examin\u00e1-las, a primeira, a segunda e a sexta. O parecer sobre esta (Mem\u00f3ria sobre a determina\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es inc\u00f3gnitas sob o sinal de integra\u00e7\u00e3o definida) nunca foi elaborado. Quando Gomes de Sousa, que atribui o fato a \u201cpequenos ci\u00fames\u201d, exigiu uma resposta, Lam\u00e9 observou: \u201cLi sua mem\u00f3ria: ela prova que o senhor \u00e9 um bom analista; eu o sa\u00fado como tal e penso que meus colegas n\u00e3o ser\u00e3o de outra opini\u00e3o\u201d. As outras duas, a primeira e a segunda, foram objeto de duas notas de Liouville nos tomos 40 e 41 dos Relat\u00f3rios da Academia de Paris que examinou ainda uma Adi\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria sobre a determina\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es inc\u00f3gnitas sob o sinal de integra\u00e7\u00e3o definida, uma Segunda adi\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria sobre a determina\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es inc\u00f3gnitas sob o sinal de integra\u00e7\u00e3o definida e uma Mem\u00f3ria sobre a teoria do som. A primeira mem\u00f3ria, sobre m\u00e9todos gerais de integra\u00e7\u00e3o, foi, ainda, encaminhada em estado embrion\u00e1rio \u00e0 Sociedade Real de Londres, e publicada num pequeno extrato, nos seus <em>Anais<\/em> em 1856.<\/p>\n<p>Sousinha pretendia incluir na Cole\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o chegou a faz\u00ea-lo: 1) Mem\u00f3ria sobre a teoria do som; 2) Mem\u00f3ria sobre\u00a0a propaga\u00e7\u00e3o do movimento nos meios el\u00e1sticos compreendendo o movimento dos meios cristalisoides e teoria da luz; 3) Mem\u00f3ria sobre vibra\u00e7\u00f5es dos meios el\u00e1sticos; 4) Mem\u00f3ria sobre as resolu\u00e7\u00f5es alg\u00e9bricas ou transcendentes por integrais definidas, 5) Mem\u00f3ria sobre duas esp\u00e9cies de c\u00e1lculos novos, compreendendo toda a teoria das caracter\u00edsticas, e sobre os princ\u00edpios fundamentais da an\u00e1lise geral; 6) Filosofia geral das ci\u00eancias matem\u00e1ticas e uniformiza\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos anal\u00edticos; 7) Mem\u00f3ria sobre o c\u00e1lculos dos res\u00edduos; 8) Mem\u00f3ria sobre a aplica\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise \u00e0 f\u00edsica matem\u00e1tica, com aplica\u00e7\u00f5es a muitas quest\u00f5es gerais e constru\u00e7\u00e3o das f\u00f3rmulas anal\u00edticas como representando fen\u00f4menos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>O matem\u00e1tico maranhense fez refer\u00eancia a uma obra nun ca publicada, chamada <em>Leis da natureza<\/em>, em 3 volumes \u201c\u00c9 nos nossos tempos o que Bacon fez no seu, com um plano totalmente diferente. Nesta obra passo em revista todos os sistemas de filosofia\u201d, disse ele.<\/p>\n<p>Em 1859, saiu a <em>Antologia Universal: escolha das melhores poesias l\u00edricas das diversas na\u00e7\u00f5es em suas l\u00ednguas originais<\/em>, em dezessete l\u00ednguas. N\u00e3o se trata de uma edi\u00e7\u00e3o que contemple a tradu\u00e7\u00e3o dos poemas nela inclu\u00eddos, o que, evidentemente, limita o alcance da <em>Antologia<\/em>, que contemple a tradu\u00e7\u00e3o dos poemas nela inclu\u00eddos. Ali\u00e1s, Gomes de Sousa, impossibilitado de julgar por si mesmo em muitos casos, menciona a ajuda de \u201cpessoas competentes sob todos os aspectos\u201d, sem, entretanto, indicar seus nomes. Como bem assinala Wilson Martins, a antologia deve ser encarada como representativa das aspira\u00e7\u00f5es cosmopolitas do Romantismo, paradoxalmente num tempo em que as nacionalidades se afirmavam sob os aplausos dos poetas rom\u00e2nticos.<\/p>\n<p>Postumamente, saiu, em 1882, a <em>Cole\u00e7\u00e3o de c\u00e1lculo integral<\/em>, com pref\u00e1cio de Charles Henry e revis\u00e3o da matem\u00e1tica por \u00c9dou ard Lucas. Ela cont\u00e9m a <em>Cole\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de an\u00e1lise e f\u00edsica matem\u00e1tica<\/em>, mencionada anteriormente, \u00e0 qual foram adicionados os manuscritos contendo os estudos sobre o som e sobre vibra\u00e7\u00f5es nos meios el\u00e1sticos, existentes nos arquivos da Academia de Ci\u00eancias de Paris.<\/p>\n<p>Em 1857, Gomes de Sousa recebera na Alemanha a not\u00edcia de sua elei\u00e7\u00e3o \u00e0 C\u00e2mara pelo Maranh\u00e3o, para a 10\u00aa Legislatura de 1857 a 1860. Quando amigos e admiradores indicaram seu nome, Henriques Leal op\u00f4s-se \u00e0 candidatura do amigo. A pol\u00edtica, achava ele, iria interferir negativamente nas atividades cient\u00edficas de Sousinha. Leal diria mais tarde: \u201cEncarregou-se o tempo de confirmar meus pensamentos [&#8230;] a ci\u00eancia perdeu quem a poderia adiantar, ao passo que o pa\u00eds n\u00e3o ganhou um bom pol\u00edtico!\u201d. No entanto, n\u00e3o deixou de trabalhar com afinco pela elei\u00e7\u00e3o do amigo e tanto que se viu acusado na sess\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados de 16 de maio de 1857 de fraude nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Antes de retornar ao Brasil, a fim de assumir o mandato na C\u00e2mara dos Deputados, Gomes de Sousa dirigiu-se a Londres com o fim de se casar com uma mo\u00e7a que conhecera anteriormente, Rosa Edith, de 18 anos de idade, filha de um pastor anglicano, reverendo Hamber. Ap\u00f3s o casamento, deixou a esposa com os pais e veio para o Brasil. Na escala em Lisboa, encontrou-se com Jo\u00e3o Lisboa que mais tarde escreveria a Henriques Leal uma carta sobre o encontro. Sua posse deu-se a 19 de maio de 1857. Ele proferiu seu primeiro discurso a 25 de junho, com uma den\u00fancia contra o deputado Jos\u00e9 Thomaz Nabuco de Ara\u00fajo, ex-ministro da Justi\u00e7a, por ter Nabuco aposentado com metade de seus vencimentos os desembargadores de Pernambuco Severo Amorim do Vale e Bernardo Rabelo da Silva Pereira.<\/p>\n<p>Seria novamente eleito \u00e0 11\u00aa Legislatura, de 1861 a 1864, e \u00e0 12\u00aa. de 1864 a 1867. Na C\u00e2mara, adotou sempre uma\u00a0posi\u00e7\u00e3o equidistante de liberais e conservadores e teve atua\u00e7\u00e3o destacada. Pronunciou-se sobre o sistema banc\u00e1rio, a r\u00edgida centraliza\u00e7\u00e3o administrativa do Brasil, estabelecida na Constitui\u00e7\u00e3o de 1824, o casamento misto, isto \u00e9, entre cat\u00f3licos e pessoas de outras religi\u00f5es, considerados clandestinos pela Igreja Cat\u00f3lica, as finan\u00e7as p\u00fablicas, os assuntos constitucionais, a educa\u00e7\u00e3o, a reforma do ensino de matem\u00e1tica e f\u00edsica bem como das escolas militares e o sistema m\u00e9trico decimal. De especial interesse para o Maranh\u00e3o, foi seu discurso sobre o melhor modo de combater o assoreamento do porto de S\u00e3o Lu\u00eds, pr\u00f3ximo \u00e0 avenida Beira Mar, proferido na mesma sess\u00e3o em que defendeu o tenente-coronel Raimundo de Brito Gomes de Sousa, seu irm\u00e3o, da acusa\u00e7\u00e3o feita pelo presidente da Prov\u00edncia, major Primo de Aguiar, de participa\u00e7\u00e3o na falsifica\u00e7\u00e3o de um testamento.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o-tenente Giacomo Raja Gabaglia, da Marinha, recomendara que, entre outras medidas de melhoramento do porto, se dragassem os canais obstru\u00eddos e as \u00e1reas pr\u00f3ximas aos ancoradouros. Gomes de Sousa discordava do capit\u00e3o sobre as causas do problema bem como das recomenda\u00e7\u00f5es dele para sua solu\u00e7\u00e3o, embora concordasse sobre a necessidade da dragagem. Para dar fundamento a sua an\u00e1lise, Sousinha examinou fatores como as mar\u00e9s, os ventos, a Corrente do Golfo, a Corrente Equatorial nas costas do Brasil e outros. De uma maneira bem caracter\u00edstica ele afirmou: \u201cH\u00e1 tr\u00eas dias, Sr. Presidente, eu nada sabia de obstru\u00e7\u00e3o ou desobstru\u00e7\u00e3o de portos; [&#8230;] mas as explica\u00e7\u00f5es exc\u00eantricas que vejo dar sobre as causas que tendem a arruin\u00e1-lo [o porto] \u00e0 vista de olhos, me conduziram \u00e0 teoria que vou apresentar [&#8230;]\u201d.<\/p>\n<p>Ainda em 1857, voltou \u00e0 Inglaterra a fim de buscar a esposa. Ela morreria apenas tr\u00eas anos mais tarde no Maranh\u00e3o, depois de uma longa viagem pelo interior da prov\u00edncia, com Sousinha, que desejava avaliar as necessidades do segundo distrito pelo qual fora eleito, estabelecer contatos pol\u00edticos e estudar a economia e a topografia da regi\u00e3o. Provavelmente, ela contraiu tifo durante a excurs\u00e3o. O \u00fanico filho do casal morreu em maio de 1862.<\/p>\n<p>A sa\u00fade de Sousinha sempre fora fr\u00e1gil. A perda da mulher e a do filho mais o debilitou. No Rio de Janeiro, decidiu morar em um s\u00edtio no tranquilo morro de Santa Teresa. L\u00e1, conheceu Paulina Guerra, uma vizinha, vindo a casar-se novamente em 8 de fevereiro de 1863. Decidiu ent\u00e3o voltar \u00e0 Europa em busca de cura, em v\u00e3o. Ele faleceu em Londres a 1\u00ba de junho de 1864, e n\u00e3o 1863 como assegura Henriques Leal. Ele mesmo assevera que com trinta e cinco anos, \u201cfinou-se\u201d Gomes de Sousa. Ora, tendo nascido em 1829, teria 34 anos e n\u00e3o trinta e cinco em 1863.<\/p>\n<p>Como se pode hoje avaliar Gomes de Sousa, depois de 140 anos de sua morte? Alguns analistas t\u00eam mostrado um patrio tismo simpl\u00f3rio e um tom francamente provinciano, com uma tend\u00eancia a elogios ing\u00eanuos. N\u00e3o h\u00e1, \u00e9 claro, raz\u00e3o para se questionar os muitos m\u00e9ritos dele. Sua gl\u00f3ria estar\u00e1 mais bem servida, no entanto, se tivermos uma vis\u00e3o equilibrada e objetiva de suas realiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vejamos, por exemplo, estas palavras de Humberto de Campos:<\/p>\n<p><em>Em 1854 segue para a Europa e, chegando a Paris, corre a assistir uma aula do famoso professor Cauchy, que era, na opini\u00e3o geral, o maior matem\u00e1tico do tempo. Em meio da sala, apresentada por este uma equa\u00e7\u00e3o como n\u00e3o integraliz\u00e1vel, Gomes de Souza ergue-se, e pe de: \u201cD\u00e1 licen\u00e7a?\u2019\u201dE, dirigindo-se \u00e0 pedra, mostra, por duas vezes, o engano do s\u00e1bio, que, diz-se, o abra\u00e7ou, comovido, e se tornou, depois, o maior dos seus amigos.<\/em><\/p>\n<p>Malba Tahan, na <em>Antologia da Matem\u00e1tica<\/em>, ao citar essa passagem, afirma entrar a\u00ed \u201cum pouco da fantasia de Humberto de Campos\u201d. O grande matem\u00e1tico Cauchy era considerado por seus contempor\u00e2neos como invejoso, ego\u00edsta e rancoroso. Seria de ataque a Sousinha e n\u00e3o de reconhecimento do erro a mais prov\u00e1vel rea\u00e7\u00e3o do franc\u00eas. As palavras de Humberto de Campos mostram um ufanismo e, at\u00e9, uma certa ingenuidade, conflitantes com a estatura intelectual de um escritor como ele, mas s\u00e3o representativas de uma vis\u00e3o sobre a carreira de Sousinha, tendente a folcloriz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Henriques Leal adota posi\u00e7\u00e3o mais prudente. De um lado, mostra um grande entusiasmo, como nesta passagem do <em>Pantheon Maranhense<\/em>: \u201cLogo no primeiro exame fez tanta sensa\u00e7\u00e3o o triunfo que nele obteve, que S. M. o Imperador n\u00e3o quis perder mais nenhum de seus atos, concorrendo assim com\u00a0sua augusta presen\u00e7a para abrilhant\u00e1-los\u201d. Ora, \u00e9 bem conhecido o h\u00e1bito do imperador de comparecer regularmente aos exames em diversas institui\u00e7\u00f5es de ensino sediadas no Rio de Janeiro. Seria plaus\u00edvel ele ter not\u00edcia do bom desempenho de Gomes de Sousa e, curioso, assistir a seus exames. Mas, dizer isso sem mencionar o h\u00e1bito de Pedro II \u00e9 induzir o leitor a ver como excepcional um gesto comum no soberano. Jer\u00f4nimo de Viveiros, ocupante desta Cadeira, afirmou na sua posse que o autor do <em>Pantheon <\/em>preferiu poetisar os feitos de Sousinha \u201cem per\u00edodos lapidares\u201d, em lugar de explic\u00e1-los.<\/p>\n<p>Henriques Leal ameniza o entusiasmo dizendo n\u00e3o ter Gomes de Sousa efetivado todas as suas potencialidades porque morreu muito cedo. Ele \u201c[&#8230;] encheria o mundo com o seu nome, se perseverasse na carreira t\u00e3o bem estreada e houvesse ao menos terminado e dado \u00e0 luz os trabalhos que havia concebido e rascunhado\u201d. A\u00ed est\u00e1 um dos fatores a levar em considera\u00e7\u00e3o na aprecia\u00e7\u00e3o dos feitos de Sousinha. A esse respeito, Wilson Martins na <em>Historia da intelig\u00eancia brasileira<\/em> tem esta vis\u00e3o: \u201cA obra cient\u00edfica de Gomes de Sousa [&#8230;] seria um pouco \u00e0 imagem da <em>Anthologie Universelle<\/em>: magn\u00edfica ru\u00edna de um edif\u00edcio majestoso cuja constru\u00e7\u00e3o jamais se concluiu\u201d.<\/p>\n<p>Pode-se apenas imaginar a grandiosidade da anunciada, mas nunca executada, <em>Leis da natureza<\/em>. O matem\u00e1tico maranhense se referiu a esse projeto como uma realiza\u00e7\u00e3o grandiosa: <em>Leis da Natureza<\/em>, c\u00f3digo de legisla\u00e7\u00e3o em que, passando em revista o universo inteiro, pretendo expor as leis fixas, gerais e invari\u00e1veis que presidiram \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o\u201d. Seguramente ele se referia ao grande objetivo da F\u00edsica de nossos dias, o estabelecimento de uma teoria \u00fanica que descreva todos os fen\u00f4menos da natureza. Seria, tal proeza, alcan\u00e7ada pela unifica\u00e7\u00e3o da relatividade geral com a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica. As duas constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas s\u00e3o v\u00e1lidas somente nos seus pr\u00f3prios campos. Unific\u00e1-las seria achar essas leis \u201cfixas, gerais e invari\u00e1veis\u201d mencionadas por Sousinha.<\/p>\n<p>Diz ainda ele sobre a obra projetada: \u201c[&#8230;] escrita em franc\u00eas <em>ou je ne vois pas avoir totalement manqu\u00e9 de g\u00e9nie<\/em>, [&#8230;] distingue-se [&#8230;] pelo seu car\u00e1ter de universalidade, e pelas suas formas necess\u00e1rias e imperiosas, de cujas p\u00e1ginas o arb\u00edtrio se acha banido para sempre\u201d. Pode-se sentir a\u00ed, claramente, a atitude confiante de Gomes de Sousa. Mas, como a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 feita de possibilidades, podemos dizer apenas que uma bela ideia se perdeu. Independentemente, por\u00e9m, do quanto ele fez, devemos considerar as virtudes intr\u00ednsecas de sua obra e a posi\u00e7\u00e3o dela perante a ci\u00eancia matem\u00e1tica da sua \u00e9poca, o realizado e n\u00e3o a poss\u00edvel realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1998, Cl\u00f3vis Pereira da Silva analisou, em <em>A matem\u00e1tica no Brasil \u2013 uma hist\u00f3ria de seu desenvolvimento, para o per\u00edodo de 1848 a 1918<\/em>, vinte e quatro disserta\u00e7\u00f5es em Matem\u00e1tica, desde a de Sousinha, de 1848, at\u00e9 a de Theodoro Augusto Ramos, <em>Sobre as fun\u00e7\u00f5es de vari\u00e1veis reais<\/em>, de 1918.<\/p>\n<p>Sua avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 ter sido Gomes de Sousa \u201co mais importante matem\u00e1tico brasileiro nas duas primeiras d\u00e9cadas da segunda metade do s\u00e9culo XIX\u201d e de sua produ\u00e7\u00e3o impressionar n\u00e3o tanto pelo rigor, mas por ter sido desenvolvida apesar do isolamento dele do mundo cient\u00edfico europeu daquele tempo, como no caso de sua disserta\u00e7\u00e3o sobre o modo de indagar novos astros, versando sobre assuntos da astronomia, elaborada quando Sousinha n\u00e3o fora ainda \u00e0 Europa. Na aprecia\u00e7\u00e3o ainda de Cl\u00f3vis Pereira da Silva, esse<\/p>\n<p><em>n\u00e3o \u00e9 um trabalho acad\u00eamico de excepcional qualidade. Contudo, \u00e9 um importante marco na historiografia da ci\u00eancia no Brasil, porque ela corresponde ao in\u00edcio de uma importante atividade cient\u00edfica, a saber, a pesquisa matem\u00e1tica s\u00e9ria em nosso pa\u00eds. N\u00e3o devemos esquecer as dificuldades que tiveram,\u00a0no Brasil da \u00e9poca, aquelas pessoas interessadas em obter livros e revistas especializadas em Matem\u00e1ticas e publicados no velho continente, enfim a dificuldade em obter resultados recentes, face o isolamento cient\u00edfico no Brasil de ent\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Francisco Mendes de Oliveira Castro no seu <em>A matem\u00e1tica no Brasil<\/em>, de 1953, afirma: \u201cAinda que do ponto de vista f\u00edsico o trabalho de Gomes de Sousa n\u00e3o apresente, talvez, grande interesse, conv\u00e9m observar que a pr\u00f3pria maneira por que ele formula o problema, levando em conta a eventual exist\u00eancia de mais de uma solu\u00e7\u00e3o, logo revela os pendores matem\u00e1ticos do seu brilhante esp\u00edrito\u201d. V\u00e1rios outros matem\u00e1ticos citados por Castro analisaram a produ\u00e7\u00e3o de Gomes de Sousa. Amoroso Costa em 1918 disse que a de Gomes de Sousa \u00e9 uma \u201cobra matem\u00e1tica que honra a cultura brasileira de seu tempo\u201d. Em 1929, Teodoro Ramos considerou Sousinha \u201ctalvez o mais vigoroso esp\u00edrito matem\u00e1tico que o Brasil tem produzido\u201d. Lu\u00eds Freire em 1931 o classificou como genial.<\/p>\n<p>Com respeito a seus m\u00e9todos matem\u00e1ticos, Amoroso Costa e Theodoro Ramos assinalaram que o emprego de s\u00e9ries de converg\u00eancia n\u00e3o comprovada e o car\u00e1ter formal dos resultados constituem o principal defeito da obra de Sousinha, havendo, no entanto, de acordo com Ramos, \u201cineg\u00e1vel analogia\u201d entre as ideias do matem\u00e1tico maranhense e as da teoria moderna das s\u00e9ries divergentes. Quanto \u00e0s equa\u00e7\u00f5es integrais \u00e9 mais uma vez Theodoro Ramos quem afirma que \u201cas condi\u00e7\u00f5es de validade das f\u00f3rmulas obtidas por Gomes de Sousa\u201d devem ser avaliadas com os par\u00e2metros da an\u00e1lise moderna, o que at\u00e9 agora est\u00e1 por ser feito.<\/p>\n<p>O renomado professor de matem\u00e1tica Ubiratan D\u2019Ambrosio fez o seguinte julgamento no seu <em>Joaquim Gomes de Souza, o Souzinha <\/em>(1829-1864), apresentado em Campinas, S\u00e3o Paulo, no 3\u00ba Encontro de Filosofia e Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia no Cone Sul, e publicado em 2004, como cap\u00edtulo de um livro com o mesmo nome do encontro:<\/p>\n<p><em>Sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica no Brasil foi nenhuma. Seus trabalhos tiveram nenhuma repercuss\u00e3o na matem\u00e1tica, que em meados do s\u00e9culo XIX estava atingindo seu apogeu. [&#8230;] ele d\u00e1 a impress\u00e3o de ser um autodidata e suas leituras e cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o vastas, mas um tanto confusas. [&#8230;] Tamb\u00e9m seu tom de escrever revela uma certa pretens\u00e3o, dizendo generalizar e corrigir trabalhos de outros. [&#8230;] Um estudo da vida e obras da figura fascinante de Joaquim Gomes de Souza falta na historiografia da matem\u00e1tica brasileira.<\/em><\/p>\n<p>Eis, pois, a s\u00edntese do intelectual Joaquim Gomes de Sousa. Intelig\u00eancia excepcional, incomensur\u00e1vel curiosidade intelectual, criatividade, vontade de saber, diversidade de interesses, consci\u00eancia de suas qualidades, imensa autoconfian\u00e7a, grande talento matem\u00e1tico e disposi\u00e7\u00e3o para o trabalho. Sua obra e personalidade ainda n\u00e3o tiveram o estudo profundo e consistente a que t\u00eam direito. Ele continuar\u00e1, n\u00e3o tenho d\u00favida, a conviver harmoniosamente com os mitos em torno dele, pois com estes tamb\u00e9m se fazem os povos e se constr\u00f3i a identidade nacional. Seu nome ficar\u00e1 eternamente como s\u00edmbolo das nossas mais caras tradi\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e cultura e ser\u00e1 a fonte perene de inspira\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ao fundador da Cadeira patroneada por Gomes de Sousa sucedeu um dos maiores historiadores do Maranh\u00e3o. Somente o ter escrito em 1954 a <em>Hist\u00f3ria do com\u00e9rcio do Maranh\u00e3o<\/em>, que podemos chamar de monumental sem o receio de parecer exagerados, j\u00e1 seria suficiente para explicar o reconhecimento dos maranhenses a Jer\u00f4nimo Jos\u00e9 de Viveiros como um\u00a0estudioso de incomum estatura intelectual e grande import\u00e2ncia no estudo de nosso passado. \u00c9 de Gilberto Freyre este julgamento: \u201cSeu trabalho n\u00e3o \u00e9 mera compila\u00e7\u00e3o nem simples esfor\u00e7o de antiqu\u00e1rio de prov\u00edncia.[&#8230;] Obra de historiador aut\u00eantico, dos v\u00e1rios que, em recantos de prov\u00edncias brasileiras, continuam, \u00e0s vezes, quase sem repercuss\u00e3o no Rio, uma atividade honesta que vem de dias remotos\u201d.<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo Viveiros nasceu a 11 de agosto de 1884, em S\u00e3o Lu\u00eds, no chamado Sobrado da Baronesa, de propriedade de sua fam\u00edlia a partir de 1868. Nesse pr\u00e9dio funcionou antes o Col\u00e9gio Episcopal, de Domingos Feliciano Marques Perdig\u00e3o. Ali estudaram, entre outros, Gentil Braga, C\u00e9sar Marques, Ant\u00f4nio e Felipe Franco de S\u00e1 e Jos\u00e9 Cursino da Silva Raposo, meu bisav\u00f4 e, claro, de meu irm\u00e3o Jos\u00e9 Cursino Raposo Moreira, e av\u00f4 de meu tio Jos\u00e9 Cursino dos Santos Raposo, presentes, estes dois Cursinos, a esta solenidade.<\/p>\n<p>Teve aulas particulares com Ant\u00f4nio Lobo e estudou no Liceu Maranhense, do qual se tornou professor em substitui\u00e7\u00e3o a Clodoaldo Freitas, depois de examinado pelo pr\u00f3prio governador do Estado, Benedito Leite. Foi tamb\u00e9m professor do Col\u00e9gio Pedro II, tendo feito curso de Direito at\u00e9 o terceiro ano, no Rio de Janeiro, sem nunca complet\u00e1-lo. Ao ter conhecimento do desejo de amigos de v\u00ea-lo nesta Academia, disse jamais haver perpetrado, como eu tamb\u00e9m jamais fiz, um verso sequer, conforme afirmativa de Ruben Almeida no seu discurso de recep\u00e7\u00e3o a ele. Disseram-lhe ent\u00e3o que o patrono tampouco o fizera, levando Jer\u00f4nimo a aceitar a indica\u00e7\u00e3o. Outras obras suas s\u00e3o: <em>Apontamentos para a hist\u00f3ria da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica e particular do Maranh\u00e3o<\/em>, 1937, <em>O centen\u00e1rio de Them\u00edstocles Aranha<\/em>, 1937, <em>O coronel Lu\u00eds Alves de Lima e Silva no Maranh\u00e3o<\/em>, 1948, <em>Alc\u00e2ntara no seu passado econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico<\/em>, 1950, <em>O Engenho Central de S\u00e3o Pedro<\/em>, 1954, <em>Uma luta pol\u00edtica no Segundo Reinado<\/em>, 1954, <em>Benedito Leite, um verdadeiro republicano<\/em>, 1957, <em>A rainha do Maranh\u00e3o<\/em>, 1965, <em>A ficha de Adelino Fontoura na Academia<\/em>, 1967, obra p\u00f3stuma. Ele morreu em 29 de mar\u00e7o de 1965 em S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>O sucessor de Jer\u00f4nimo Viveiros, Jo\u00e3o Freire Medeiros, nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds a 8 de fevereiro de 1915 e morreu a 24 de dezembro de 1991. Era contador e formado em Direito pela Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds. Como jornalista, colaborou em <em>O Combate<\/em>, <em>Correio do Nordeste<\/em>, <em>Jornal do Povo<\/em>, <em>Jornal do Dia<\/em> e <em>O Imparcial<\/em>. Foi juiz do trabalho, membro do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, do Instituto de Direito Social, de S\u00e3o Paulo, da Societ\u00e9 Internacionale de Droit du Travail et de la S\u00e9curit\u00e9 Sociale, da Su\u00ed\u00e7a, e professor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o. Publicou na <em>Revista da Academia Maranhense de Letras<\/em> O Sacrif\u00edcio de S\u00f3crates, no volume 14, de agosto de 1981, e A Rebeldia de Epicuro, no 15, de agosto de 1983. Ele fez o discurso de sauda\u00e7\u00e3o a Jo\u00e3o Mohana em 4 de agosto de 1970.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Ribamar Chaves Caldeira, o sucessor de Jo\u00e3o Medeiros, honrou a Cadeira 8 durante 11 anos, de dezembro de 1992 at\u00e9 agosto de 2003. Dedicou-se exemplarmente, durante sua produtiva vida, \u00e0 pesquisa e ao ensino universit\u00e1rios, tirando especial prazer da conviv\u00eancia com seus alunos. Em Pedreiras, sua cidade natal, fez o primeiro grau. Em S\u00e3o Lu\u00eds, cursou o segundo no Col\u00e9gio de S\u00e3o Luiz, do inesquec\u00edvel Presidente desta Casa, professor Luiz de Moraes Rego. Logo seguiria para S\u00e3o Paulo, onde se bacharelou em Sociologia e Pol\u00edtica, pela Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo em 1966.<\/p>\n<p>Na Unicamp, Universidade Estadual de Campinas, a pre sentou tese de mestrado em Ci\u00eancias Sociais, na \u00e1rea de Sociologia, em 1982, sob o t\u00edtulo <em>As interventorias estaduais no Maranh\u00e3o \u2013 um estudo sobre as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas regionais no p\u00f3s 30<\/em>. Na Universidade de S\u00e3o Paulo, elaborou a tese doutoral <em>Origens da ind\u00fastria no sistema\u00a0agroexportador maranhense \u2013 1875\/1895, defendida em 1989. Publicou ainda: <em>A ANL no Maranh\u00e3o<\/em>, em 1990, <em>O Maranh\u00e3o na literatura dos viajantes do s\u00e9culo XIX<\/em>, em 1991, <em>A crian\u00e7a e a mulher tupinamb\u00e1<\/em>, em 2000, e <em>Escritos<\/em>, em 2001.<\/em><\/p>\n<p>Apressei-me em mencionar logo as teses acad\u00eamicas de Caldeira e os livros publicados ap\u00f3s o t\u00e9rmino de seu doutorado porque desejo destacar tanto a variedade de seus interesses, quanto a sua grande disciplina intelectual. Tal caracter\u00edstica lhe permitiu publicar quatro volumes no per\u00edodo de pouco mais de 10 anos. O \u00faltimo, <em>Escritos<\/em>, \u00e9 representativo de sua inquietude intelectual. Num dos cap\u00edtulos, ele trata de um tema ligado \u00e0 literatura, o c\u00e2none liter\u00e1rio do Ocidente e do Brasil. Caldeira, com base nas opini\u00f5es dos acad\u00eamicos Jomar Moraes, Jos\u00e9 Chagas, Bernardo Coelho de Almeida, Ubiratan Teixeira e Waldemiro Viana, concluiu ser \u201c[&#8230;] poss\u00edvel evidenciar, na prefer\u00eancia dos acad\u00eamicos, a indica\u00e7\u00e3o de que a melhor produ\u00e7\u00e3o ficcional brasileira do s\u00e9culo 20 \u00e9 a regional que tem por palco o meio rural\u201d. Da\u00ed, no cap\u00edtulo seguinte, ele passa \u00e0 sociologia da educa\u00e7\u00e3o ao analisar as rela\u00e7\u00f5es entre as aspira\u00e7\u00f5es da classe m\u00e9dia e o tipo de escola p\u00fablica por ela desejada. Mais \u00e0 frente, volta-se para a Sociologia e a Ci\u00eancia Pol\u00edtica com uma an\u00e1lise das elei\u00e7\u00f5es de 1994 e 1998 no Maranh\u00e3o, as \u00faltimas de car\u00e1ter estadual e federal realizadas no Estado no s\u00e9culo 20. Antes, logo no in\u00edcio do volume, tenta responder \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es de seus alunos da Universidade Federal do Maranh\u00e3o sobre o conceito de p\u00f3s-modernidade, de caracteriza\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Seus interesses m\u00faltiplos ficam da mesma forma evidentes em suas resenhas de livros de diversos autores, inclu\u00eddas nos <em>Escritos<\/em> e publicadas anteriormente em v\u00e1rias revistas acad\u00eamicas: A Verdade sobre o Iseb, de N\u00e9lson Werneck Sodr\u00e9; Para\u00edso Tropical \u2013 a Ideologia do Civismo na Tve do Maranh\u00e3o, de Helena Maria Bousquet-Bomeny; Tumbeiros: O Tr\u00e1fico Escravista para o Brasil, de Ro bert Edgar Conrad; A Balaiada e a Insurrei\u00e7\u00e3o de Escravos no Maranh\u00e3o, de Maria Janu\u00e1ria Vilela Santos; Preconceito Racial no Brasil-Col\u00f4nia \u2013 Os Crist\u00e3os Novos, de Maria Luiza Tucci Carneiro; e A volta de McLuhanaima \u2013 Cinco Estudos Solenes e uma Brincadeira S\u00e9ria, de Richard Moses.<\/p>\n<p>O mais caracter\u00edstico, todavia, da amplitude de interesses de Caldeira, da preocupa\u00e7\u00e3o com a cultura, da sensibilidade \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, encontra-se na cria\u00e7\u00e3o do Cine Clube do Maranh\u00e3o. Em associa\u00e7\u00e3o com o arquiteto Reinaldo Marques, ele proporcionou \u00e0 sociedade local a oportunidade de acesso a filmes de grande import\u00e2ncia art\u00edstica, mas, ou por isso mesmo, fora do circuito comercial. Chegou mesmo a produzir um filme de curta metragem em 16 mil\u00edmetros, O cotidiano de um funcion\u00e1rio p\u00fablico, e a escrever seu roteiro, ficando a dire\u00e7\u00e3o com Reinaldo. Carlos de Lima e Regina Teles participaram como atores.<\/p>\n<p>Caldeira foi um homem da ci\u00eancia, professor universit\u00e1rio de muita dedica\u00e7\u00e3o ao ensino, pesquisador determinado, disciplinado e entusiasmado com seu trabalho, atitude indispens\u00e1vel para bem realiz\u00e1-lo, seguro de seus conhecimentos e de suas convic\u00e7\u00f5es, das quais n\u00e3o abria m\u00e3o por conveni\u00eancias de qualquer natureza, mas aberto \u00e0 discuss\u00e3o franca e honesta. Esteve sempre atualizado com os avan\u00e7os no seu campo de estudo e tinha uma vis\u00e3o cr\u00edtica do mundo moderno e de suas for\u00e7as potencialmente alienantes e desumanizantes. Transitou entre duas tradi\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas, a weberiana e a marxista que, apesar de divergentes n\u00e3o s\u00e3o, de fato, antag\u00f4nicas. Max Weber, em verdade, nunca tentou refutar Marx, mas completar suas teorias. Em sua vis\u00e3o, a burocratiza\u00e7\u00e3o e a racionaliza\u00e7\u00e3o instrumental do mundo eram inevit\u00e1veis. Nesse ponto, h\u00e1 \u00f3bvias similaridades de suas ideias com o conceito de aliena\u00e7\u00e3o de Marx, que considera este\u00a0fen\u00f4meno uma fase passageira, at\u00e9 sua elimina\u00e7\u00e3o pela verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o humana na sociedade comunista. Weber, por seu lado, dizia que a aliena\u00e7\u00e3o t\u00e3o bem apontada na teoria marxista, n\u00e3o deriva da forma de propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, no caso, do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que tira do trabalhador o controle de seu pr\u00f3prio trabalho, que passa a ser vendido aos capitalistas, mas do fato de essas pessoas, nas sociedades modernas, n\u00e3o poderem participar de atividades socialmente significantes, a menos que perten\u00e7am a grandes organiza\u00e7\u00f5es. Todavia, ao integrarem-se nelas, eles t\u00eam de sacrificar a maior parte de suas aspira\u00e7\u00f5es pessoais. Como consequ\u00eancia, os seres humanos separam-se de uma parte de si mesmos, tornando-os alienados. Caldeira percebeu esses pontos de aproxima\u00e7\u00e3o e distanciamento entre os dois grandes pensadores alem\u00e3es e trabalhou criativamente com as duas tradi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Ele, ao lado de sua querida Marlene, soube despertar nos filhos o interesse e o gosto pela atividade intelectual do que eles v\u00eam dando repetidas provas nestes \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Eis, portanto, a linha sucess\u00f3ria que vem de Armando Vieira da Silva at\u00e9 mim. O instituto da sucess\u00e3o e a lembran\u00e7a dos antecessores, mais do que a n\u00f3s acad\u00eamicos, confere imortalidade \u00e0 Academia, que sobrevive porque perecemos fisicamente. Se n\u00e3o fosse assim, ela n\u00e3o conseguiria ser imortal, como \u00e9, por n\u00e3o poder renovar-se. Chegar\u00e1 o dia de minha pr\u00f3pria sucess\u00e3o, quando eu tamb\u00e9m serei lembrado. Se esse momento demorar a chegar, como espero, terei tempo de dar toda a contribui\u00e7\u00e3o ao alcance de minhas for\u00e7as para honr\u00e1-la, revigor\u00e1-la e engrandec\u00ea-la, produzindo uma obra digna dos predecessores de nossas quarenta Cadeiras.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores:<\/p>\n<p>Finalmente, dirijo mais uma vez meu olhar a este audit\u00f3rio e sou capaz de sentir em algum lugar, juntos, embora n\u00e3o materialmente, insepar\u00e1veis, Carlos Saturnino e Maria da Concei\u00e7\u00e3o, fundadores, eles tamb\u00e9m, no filho, das coisas do esp\u00edrito. S xcvg6t9 tnkem a segura orienta\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo que me deram, eu n\u00e3o poderia sequer sonhar com este dia. Eu os vejo nesta solenidade t\u00e3o claramente como vejo Gra\u00e7a, minha mulher, companheira e primeira leitora, que muito tem evitado\u00a0grandes e pequenos erros nos meus escritos e na minha vida, e em tudo mais me apoia e me incentiva. Como vejo tamb\u00e9m meus filhos Daniela e Lino Filho, o aniversariante de hoje, com a tranquila certeza de meu amor pelos livros ser infinitamente menor do que meu amor pelos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Muito obrigado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds-MA, a 15 de fevereiro de 1948. Fez o antigo curso prim\u00e1rio no Col\u00e9gio Santa Teresinha, das irm\u00e3s Valois, e o secund\u00e1rio no Col\u00e9gio Maranhense, dos Irm\u00e3os Maristas, e no Liceu Maranhense. Bacharelou-se em Economia em 1970 pela Faculdade de Economia do Maranh\u00e3o. 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