{"id":87,"date":"2014-03-21T13:51:49","date_gmt":"2014-03-21T13:51:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=87"},"modified":"2016-03-21T14:32:20","modified_gmt":"2016-03-21T14:32:20","slug":"ewerton-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/ewerton-neto\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Ribamar Ewerton Neto"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p><strong>N<\/strong>asceu em Guimar\u00e3es, MA, em 4 de abril de 1953, sendo o segundo filho de Juvenil Amorim Ewerton (desembargador) e de Teresa de Jesus Martins Ewerton.<\/p>\n<p>Iniciou os estudos no Col\u00e9gio Municipal Urbano Santos, de Guimar\u00e3es, onde permaneceu at\u00e9 1959 quando se transferiu para o Col\u00e9gio Henriques Leal, em S\u00e3o Luis. Ap\u00f3s prestar exame de admiss\u00e3o ao gin\u00e1sio, matriculou-se no Col\u00e9gio Maristas, em 1963, onde estudou at\u00e9 ser aprovado no vestibular de Engenharia Civil da Universidade Estadual do Maranh\u00e3o, UEMA, em 1971.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Dois anos ap\u00f3s iniciar os estudos de Engenharia Civil transferiu-se para Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Engenharia Metal\u00fargica pela Universidade Federal Fluminense, em julho de 1976.<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia Profissional <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Trabalhou de setembro de 1976 at\u00e9 novembro de 1977 como engenheiro de Alto Forno, na Cia Sider\u00fargica Nacional de Volta Redonda, RJ.<\/p>\n<p>Transferiu-se para a Cia Sider\u00fargica Belgo-Mineira, Jo\u00e3o Monlevade, MG, onde, no per\u00edodo de dezembro de 1977 a fevereiro de 1979 trabalhou como engenheiro assistente do Chefe de Divis\u00e3o de Refrat\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em outubro de 1979 foi contratado pela Usina Sider\u00fargica da Bahia, Salvador, BA.\u00a0 L\u00e1 permaneceu como Chefe de Divis\u00e3o de Forno El\u00e9trico at\u00e9 1988.<\/p>\n<p>Em junho de 1988 retornou a S\u00e3o Luis, quando iniciou sua atividade profissional no Cons\u00f3rcio de Alum\u00ednio do Maranh\u00e3o, ALUMAR, onde permaneceu at\u00e9 2006, quando se aposentou e abandonou suas atividades ocupando ent\u00e3o o cargo de Consultor de Engenharia de Processo e Qualidade.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s aposentar-se concluiu, em 2006, o Curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras e Literatura, da Faculdade Atenas Maranhense, FAMA.<\/p>\n<p>Em 2007 concluiu o curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo Cultural, da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, UFMA.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Desde que se transferiu para S\u00e3o Luis exerceu atividade jornal\u00edstica regular, inicialmente no jornal O Imparcial e, depois no jornal o Estado do Maranh\u00e3o, escrevendo cr\u00f4nicas, como colaborador. A partir de 2008 assumiu o espa\u00e7o Hoje \u00e9 dia de&#8230; no Caderno Alternativo, jornal <em>O Estado do Maranh\u00e3o<\/em>, aos s\u00e1bados, em substitui\u00e7\u00e3o\u00a0 ao consagrado cronista, poeta, e tamb\u00e9m acad\u00eamico\u00a0 Jos\u00e9 Chagas.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p>Iniciou-se nas letras com a publica\u00e7\u00e3o de um poema na antologia <em>Esperando a missa do galo<\/em> do escritor e acad\u00eamico Jos\u00e9 Nascimento Moraes, edi\u00e7\u00f5es Sioge, em 1978.<\/p>\n<p>Em 1979 publicou seu primeiro livro, <em>Est\u00e1tua da noite<\/em>, de poesias, editado pelo Sioge.<\/p>\n<p>Em 1985 teve o conto <em>Um dia na Copa do Mundo de 1954<\/em>, premiado em segundo lugar no concurso nacional de minicontos, da revista Manchete, de circula\u00e7\u00e3o nacional, sobre copas do mundo de futebol.<\/p>\n<p>Em 1993 seu romance <em>O prazer de matar<\/em> foi premiado e editado pelo SIOGE. Em 1999 o romance foi reeditado pela editora Revan, Rio de Janeiro, com o t\u00edtulo de <em>O of\u00edcio de matar<\/em>, ocasi\u00e3o em que\u00a0 foi resenhado por importantes ve\u00edculos de divulga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria nacional , como o Caderno <em>Prosa e Verso<\/em>, do jornal O Globo, Rio; Caderno <em>Ideias <\/em>do <em>Jornal do Brasil<\/em>; revista <em>Bravo<\/em> etc.<\/p>\n<p>Em 1994 sua novela <em>A \u00e2nsia do prazer<\/em> foi premiada na categoria novela do Concurso Liter\u00e1rio e Art\u00edstico Cidade de S\u00e3o Luis e editada pela entidade promotora do concurso, FUNC (Funda\u00e7\u00e3o Cultural da Prefeitura de S\u00e3o Luis).<\/p>\n<p>Em 1995 seu livro <em>Cidade aritm\u00e9tica<\/em>, de poesias, obteve o pr\u00eamio Sous\u00e2ndrade do Concurso Liter\u00e1rio e Art\u00edstico Cidade de S\u00e3o Luis e foi publicado pela FUNC.<\/p>\n<p>Em 1996, sua novela infanto-juvenil <em>O menino que via o al\u00e9m<\/em> foi premiada e editada pela FUNC. Em 2001 foi reeditada pela Editora\u00a0 Escrituras de S\u00e3o Paulo, ocasi\u00e3o em que foi considerada altamente recomend\u00e1vel para leitura pela sele\u00e7\u00e3o anual da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do Livro Infanto- Juvenil.<\/p>\n<p>Em 1998 teve publicado o livro de contos <em>A morte dos Mamonas Assassinas e outros contos<\/em>, premiado no concurso da Secretaria de Cultura do Estado do Maranh\u00e3o, SECMA.<\/p>\n<p>Em julho de 2000 foi vencedor do pr\u00eamio liter\u00e1rio Marianela Vasconcelos, pelo conjunto de poesias, promovido pelo Concelho Municipal de Sever do Vouga, Portugal.<\/p>\n<p>Em 2004 seu conto <em>Volte ao meu romance<\/em>, recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa no concurso nacional Paulo Leminski, da Universidade de Toledo, no Paran\u00e1 e foi inclu\u00eddo na antologia nacional dos melhores contos do concurso.<\/p>\n<p>Em 2007 classificou-se em segundo lugar no concurso da Secretaria de Cultura do Estado do Maranh\u00e3o, SECMA, na categoria romance, com o livro <em>O infinito em minhas m\u00e3os, <\/em>editado em 2009.<\/p>\n<p>Em 2007 classificou-se em primeiro lugar na categoria contos do Concurso Liter\u00e1rio e Art\u00edstico Cidade de S\u00e3o Luis com o livro <em>Ei, voc\u00ea conhece Alexander Guaracy?,<\/em> publicado em\u00a0 dezembro de 2009.<\/p>\n<p>Em Novembro de 2008, uma terceira edi\u00e7\u00e3o de 10000 exemplares do livro <em>O menino que via o al\u00e9m <\/em>foi adquirida pela Secretaria de Cultura de Belo Horizonte para compor o acervo das bibliotecas do Ensino P\u00fablico, ap\u00f3s licita\u00e7\u00e3o para a qual concorreram grandes nomes da atual literatura infanto-juvenil e cl\u00e1ssicos tradicionais.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2010 o conto de sua autoria <em>Tamb\u00e9m as ondas<\/em> recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa e foi selecionado pelo 19\u00ba concurso de contos Luis Vilela, Ituiutaba, MG, para fazer parte de uma antologia nacional com os dez melhores contos do concurso publicada em 2011.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em 2011 seu conto <em>Pequeno dicion\u00e1rio de paix\u00f5es cruzadas <\/em>recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa na edi\u00e7\u00e3o 22\u00ba do Concurso Paulo Leminski e foi selecionado para uma antologia dos melhores contos do concurso que ser\u00e1 publicada em 2013.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Exmo. Presidente da Academia Maranhense de Letras, Dr. Lino Moreira; ilustres acad\u00eamicos, senhoras e senhores:<\/p>\n<p>Navegar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9 preciso.<br \/>\nViver n\u00e3o \u00e9 preciso?<\/p>\n<p>Estes versos, que escutei pela primeira vez na juventude, cantados por Caetano Veloso, impressionaram-\u00adme com o que possu\u00edam de press\u00e1gio, de misterioso e indecifr\u00e1vel por tr\u00e1s de uma melodia que volta e meia pulsou em meus ouvidos, ao longo de toda a minha viagem de vida. Como todos os senhores sabem, a vida \u00e9 uma viagem.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o ajuda ao poeta Manuel Caetano Bandeira de Melo, que hoje tenho a incumb\u00eancia, n\u00e3o de substituir, que isso \u00e9 imposs\u00edvel, mas de honrar a gl\u00f3ria, ocupando um espa\u00e7o que at\u00e9 hoje foi seu, que me ajude a interpretar a sedu\u00e7\u00e3o que senti. E ele me responde na poesia A Voz do Poema, inspirado por sua vez, numa leitura de Natalia Thimberg para um poema de Cam\u00f5es:<\/p>\n<p><em>O que se encontra no verso \u00e9 como a<br \/>\nnota Da pauta musical para leitura.<br \/>\nSomente a voz que l\u00ea a partitura,<br \/>\nPelo tom que lhe d\u00e1 lhe tra\u00e7a a rota<br \/>\nQuem diz o poema sente de onde<br \/>\nbrota A m\u00fasica onde o poema se<br \/>\nenclausura.<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1, pois, desvendado o fetiche. O verso enclausura-\u00adse na m\u00fasica, ao mesmo tempo em que a liberta. Sabe-\u00adse que s\u00e3o poucos os poetas, mesmo os grandes, que s\u00e3o capazes de explicar a poesia. Manuel Caetano Bandeira de Melo, como acabamos de ver, \u00e9 um deles.<\/p>\n<p>Explicado o encantamento que se descobre no repente de um verso que nos atravessa a alma, resta a segunda parte do enigma. Quer dizer ent\u00e3o que viver n\u00e3o \u00e9 preciso?<\/p>\n<p>Partamos em busca da explica\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo em que chamo a aten\u00e7\u00e3o de todos para lembrar que, como j\u00e1 deu para perceber, tamb\u00e9m aqui estamos fazendo uma viagem, senhores, este discurso \u00e9 tamb\u00e9m uma jornada e sou eu quem est\u00e1 tendo a ousadia de tentar conduzi\u00ad-los.<\/p>\n<p>Recorro ao que descobri. Os versos, como desde cedo deduzi, n\u00e3o s\u00e3o de Caetano Veloso. Existem d\u00favidas sobre a origem dos mesmos, h\u00e1 gente quem sustente que esses versos seriam de Cam\u00f5es, talvez por ter sido ele um poeta-\u00adnavegador. Outros acreditam que tenham sido de Fernando Pessoa porque ele ajudou a tornar mais famosa ainda a frase quando escreveu:<\/p>\n<p><em>Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:<br \/>\nNavegar \u00e9 preciso; viver n\u00e3o \u00e9 preciso.<br \/>\nQuero para mim o esp\u00edrito dessa frase,<br \/>\nTransformada a forma para a casar como eu<br \/>\nsou:<br \/>\nViver n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio; o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 criar.<br \/>\nN\u00e3o conto gozar a minha vida: nem em goz\u00e1-la penso.<br \/>\nS\u00f3 quero torn\u00e1-la grande, Ainda que<br \/>\npara isso tenha de ser o meu corpo (e a<br \/>\nminha alma) a lenha desse fogo.<\/em><\/p>\n<p>Tudo indica, no entanto, que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da verdade os que a atribuem a Pompeu, general romano que viveu nos anos 106\u00ad48 a.C. Ele dizia aos marinheiros que, amedrontados, recusavam-\u00adse a viajar durante a guerra: <em>Navigare necesse; vivere non est necesse<\/em>, ou seja: Navegar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9 preciso. Assim, dessa forma: dura, precisa, contundente e, com a delicadeza reclamada s\u00e9culos ap\u00f3s pelo guerrilheiro Che Guevara quando concebeu outra frase que se tornou emblem\u00e1tica: \u201c\u00c9 preciso ser duro sim, por\u00e9m sem jamais perder a ternura\u201d.<\/p>\n<p>Toda a ternura, delicadeza, emo\u00e7\u00e3o, press\u00e1gio e contund\u00eancia que existem nesses versos eram tamb\u00e9m caracteres presentes nos poemas de Manuel Caetano Bandeira de Melo onde tamb\u00e9m vamos encontrar, vez por outra, recorr\u00eancia \u00e0 simbologia mar\u00edtima para tangenciar os limites da realidade. No livro <em>Ap\u00f3s a solid\u00e3o de certas horas,<\/em> ele diz:<\/p>\n<p><em>Por\u00e9m, como voltar se j\u00e1 os<br \/>\nnavios no mar que os trouxe<br \/>\nforam incendiados? Como<br \/>\nn\u00e3o enfrentar os desafios<br \/>\nque por mim mesmo foram<br \/>\nprovocados?<\/em><\/p>\n<p>No seu primeiro livro de sonetos, <em>O mergulhador<\/em>, vamos encontrar tamb\u00e9m, no poema que deu t\u00edtulo ao livro, esta evoca\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Sobre ti te sust\u00e9ns e sobre o arame<br \/>\nEm dist\u00e2ncias que imagens emudece<br \/>\nO mar, imenso apelo que te chame<br \/>\nN\u00e3o apaga o corpo que desaparece<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\nEmbebido nos pr\u00f3prios movimentos<br \/>\nA dan\u00e7ar sobre linhas paralelas<br \/>\nFormada pelos fict\u00edcios tra\u00e7os<br \/>\nPassam as vagas levadas pelos<br \/>\nventos, Mas fica sobre a cinza de<br \/>\noutras telas O corte do teu corpo<br \/>\nnos espa\u00e7os<\/em><\/p>\n<p>Era, portanto, Manuel Caetano Bandeira de Melo tamb\u00e9m um poeta\u00ad-navegador que fazia uso frequente das representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas nas viagens \u2014 e mergulhos \u2014 que fazia pelos rumos da sua escrita. Pela facilidade com que recorria a signos da realidade cotidiana sem se ater aos mitos liter\u00e1rios tradicionais, Bandeira de Melo torna mais f\u00e1cil a quem quer que seja a tarefa de dimensionar seu g\u00eanio quando nos coloca sempre um verso pronto como uma boia salvadora para qualquer ila\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a, um porto seguro para ancorar os nossos navios quando for maior a sede de navegar pela interpreta\u00e7\u00e3o das \u00e1guas turvas da arte e da poesia.<\/p>\n<p>Essa fus\u00e3o entre simbolismo e precis\u00e3o, peculiar a seus versos, \u00e9, sem d\u00favida, do mesmo teor daquele com que iniciamos esta viagem, a ponto da interpreta\u00e7\u00e3o de muita gente ter enveredado pela op\u00e7\u00e3o de tentar entender o verso inicial pelo sentido da precis\u00e3o, antes at\u00e9 do que da necessidade ou prem\u00eancia. Para estes quando o poeta, o cantor ou algu\u00e9m diz \u201cNavegar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9 preciso\u201d, n\u00e3o estaria se referindo \u00e0 conota\u00e7\u00e3o do necess\u00e1rio, do urgente, mas \u00e0 do acerto e da compet\u00eancia. Isso \u00e9 compreens\u00edvel. Porque o ato de navegar tem a obriga\u00e7\u00e3o da precis\u00e3o, s\u00f3 s\u00e3o capazes de encarar e sobreviver aos mares revoltos aqueles que navegam com precis\u00e3o e objetividade. Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, Pedro \u00c1lvares Cabral e outros grandes navegadores s\u00f3 chegaram ao seu objetivo por causa disso. A vida, nesse aspecto, difere do mar, ela n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel, infal\u00edvel \u00e9 a morte, a vida tem imprevisibilidades, inconst\u00e2ncias, sortes, azares e futuros caoticamente atravessados em nossos caminhos. Viver \u00e9 absurdo, j\u00e1 disse Clarice Lispector, enquanto o grande compositor de sambas Paulinho da Viola recomendava prud\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s viagens da vida: \u201cFa\u00e7a como o velho marinheiro que diante do nevoeiro leva o barco devagar\u201d.<\/p>\n<p>Mais uma vez, nesse ponto de nossas reflex\u00f5es podemos nos socorrer do farol sempre generoso de Manuel Caetano Bandeira de Melo para nos referenciarmos em nossa viagem. Ele diz:<\/p>\n<p><em>A vida \u00e9 absurda e absurdo, \u00e9 dela<br \/>\no sentimento que me assalta e<br \/>\nquanto mais lhe alguma trama<br \/>\nurdo o seu sentimento mais me<br \/>\nfalta Ao rumor do mist\u00e9rio sempre<br \/>\nsurdo<br \/>\nQual um outro oceano de onda em<br \/>\nalta Pairasse sobre a terra onde me<br \/>\naturdo Ao plano de onde a mente<br \/>\nnunca salta.<\/em><\/p>\n<p>O que j\u00e1 parece ser suficiente, a esta altura de nossa viagem, para nos deixar pouca d\u00favida a respeito da genialidade contida em seus desataviados, mas contundentes versos. A viagem dos amantes das letras ou n\u00e3o, atrav\u00e9s dos seus versos, ser\u00e1 sempre uma aventura precisa, como acentuou o cr\u00edtico consagrado Ant\u00f4nio Olinto ao dele dizer: \u201cDir\u00ad-se\u00ad-\u00e1 que na fase cl\u00e1ssica do modernismo Manuel Caetano Bandeira de Melo se imp\u00f5e como um dos herdeiros do simbolismo. O subjetivismo denso, transfigurando sempre, mesmo quando a realidade \u00e9 f\u00edsica e direta, n\u00e3o invalida a logicidade\u201d.<\/p>\n<p>Logicidade esta que carece tamb\u00e9m estar presente na viagem que fazemos juntos e que deve ser a mais breve poss\u00edvel para n\u00e3o enfadarmos os viajantes.<\/p>\n<p>Tranquilizem-\u00adse, pois. Tenho certeza de que n\u00e3o perdemos o rumo mesmo enlevados e emocionados pela poesia deste grande poeta que agora sobrepaira entre n\u00f3s. Estamos ainda, com certeza, navegando nas mesmas \u00e1guas a que se refere outro poeta, este franc\u00eas, simbolista e igualmente grande Stefhane Mallarm\u00e9, quando dizia:<\/p>\n<p><em>Navegamos, \u00f3 meus fraternos amigos<br \/>\nEu \u00e0 proa, v\u00f3s a popa<br \/>\nNuma pompa que topa<br \/>\nUma onda de raios e de invernos.<\/em><\/p>\n<p>Pois a vida, repito, \u00e9 uma viagem e naveg\u00e1-\u00adla, \u00e9 sina maior do que a pr\u00f3pria vida. N\u00e3o seria essa, de tantas explica\u00e7\u00f5es, a mais perfeita para o verso cantado por Caetano Veloso, nesse bel\u00edssimo fado chamado de Os Argonautas? Se a vida \u00e9 um breve sonho no intervalo de dois sonos profundos, cabe ao navegador torn\u00e1\u00ad-la infinita no breve momento em que ela se passa, pois quem tem o leme do infinito em suas pr\u00f3prias vidas \u00e9 o donat\u00e1rio dos seus momentos; cada um, quer queira quer n\u00e3o, \u00e9 o maior navegador de si pr\u00f3prio. Vidas temos todos, navegadores somos todos, mas bons navegadores s\u00e3o poucos, como o foram com perfei\u00e7\u00e3o Castro Alves, Gon\u00e7alves Dias, \u00c1lvares de Azevedo, e Artur Rimbaud, e repito uma vez mais, Manuel Caetano Bandeira de Melo, juntando ao poeta aqui homenageado alguns poetas de vida t\u00e3o breve, mas de viagens infinitas.<\/p>\n<p>Recordo neste instante de minha inf\u00e2ncia e revejo a minha m\u00e3e, minha tia ou outra pessoa, me perguntando o queria ser quando crescesse. Eu respondia ent\u00e3o que queria ser chofer de lancha. \u00c9 que mor\u00e1vamos no bairro do Desterro, eu tinha cinco ou seis anos, e das janelas de nossa casa era f\u00e1cil vermos, de bem perto, as lanchas que chegavam. Nessa \u00e9poca, n\u00e3o havia o aterro do Bacanga e, at\u00e9 bem perto das casas do Desterro que hoje ficam no limite das ruas que hoje fazem parte do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, atracavam barcos e lanchas. Anos mais tarde, mais crescido, mas ainda fascinado pelo mar eu mudei um pouco o tom. A essas alturas j\u00e1 morava no interior, em Guimar\u00e3es, e n\u00e3o via mais lanchas t\u00e3o de perto. Ent\u00e3o quando perguntado eu dizia agora que queria ser oficial da marinha. Como ao inv\u00e9s disso me tornei engenheiro metal\u00fargico e escritor \u00e9 de se acreditar que a crian\u00e7a j\u00e1 iniciara, sem escrever ainda uma p\u00e1gina sequer, a viagem por mares nunca dantes navegados que \u00e9 a sina de todo aquele que se pretende escritor, quando recria seus mundos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia ainda que j\u00e1 cumpria esse tipo de viagem, quando, anos mais tarde devido \u00e0s novas fun\u00e7\u00f5es do meu pai, ex-\u00adpromotor e agora juiz de Direito, nos transferimos de Guimar\u00e3es para S\u00e3o Lu\u00eds. Nessa \u00e9poca, quando eu saltava do bonde Gon\u00e7alves Dias na pra\u00e7a Jo\u00e3o Lisboa, seguia rumo ao Desterro onde meu pai e meus av\u00f3s mantinham um com\u00e9rcio de variedades e uma pequena f\u00e1brica de gelo. De longe, ao saltar, eu via a est\u00e1tua de Jo\u00e3o Francisco Lisboa. Ent\u00e3o eu deparava com a figura solene de um homem que devera ter sido muito ilustre para ter virado est\u00e1tua o que, para mim tinha o dom de incompreens\u00edveis raz\u00f5es entre o misterioso e lit\u00fargico, como coisas da Igreja e das divindades. Ora, as est\u00e1tuas, como aprendi depois, s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es solenes de uma vida, s\u00e3o mem\u00f3rias estratificadas n\u00e3o de peles e ossos, mas de uma viagem bem constru\u00edda. A crian\u00e7a, embora n\u00e3o soubesse o porqu\u00ea, no seu inconsciente infantil j\u00e1 suspeitava, provavelmente. Pois n\u00e3o se fazem est\u00e1tuas a torto e a direito. Poucas mem\u00f3rias existem por a\u00ed, dignas de serem estratificadas em m\u00e1rmore. A crian\u00e7a jamais saberia a essa altura de sua viagem, que muitos c\u00e9us, muitos portos, arrecifes, e tempestades ap\u00f3s, estaria ancorando com a sua nave neste porto chamado Academia Maranhense de Letras, neste exato momento para homenagear quem, a partir desta noite, passa a ser meu glorioso patrono. A est\u00e1tua, que foi transformada em s\u00edmbolo, se desfazendo novamente para que possamos ver mais uma vez, ainda que rapidamente, a paisagem da crian\u00e7a e do homem.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Francisco Lisboa que, segundo Josu\u00e9 Montelo foi o nosso mais importante prosador na gera\u00e7\u00e3o que precedeu a de Machado de Assis e Rui Barbosa, nasceu em 22 de mar\u00e7o de 1812 na fazenda de seus av\u00f3s maternos, situada na freguesia de Nossa Senhora das Dores do Iguar\u00e1, terras do atual munic\u00edpio de Pirapemas, localidade sujeita ent\u00e3o \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o de Itapecuru-\u00adMirim (na \u00e9poca chamada de Itapicuru ou Itapucuru).<\/p>\n<p>Estudou as primeiras letras em S\u00e3o Lu\u00eds e voltou para Pirapemas at\u00e9 retornar em definitivo para a capital, onde se dedicou ao saber, sob a tutela do professor de latim Francisco Sotero dos Reis. No principal de sua forma\u00e7\u00e3o era um autodidata, o que significa que a sua sina de navegador j\u00e1 tinha norte pr\u00f3prio determinado pelo talento, conforme acentuou o historiador M\u00e1rio Meireles sobre o per\u00edodo compreendido entre 1832 e 1868:<\/p>\n<p><em>Dentre os prosadores a figura maior \u00e9, sem d\u00favida, a de Jo\u00e3o Lisboa, historiador, publicista, sem t\u00edtulos universit\u00e1rios e simples disc\u00edpulo de Sotero dos Reis, que tamb\u00e9m n\u00e3o os t\u00eam: n\u00e3o obstante, o mais l\u00facido esp\u00edrito e o estilista do seu tempo, na opini\u00e3o cr\u00edtica de Ronald Carvalho.<\/em><\/p>\n<p>Cumpre destacar que nessa \u00e9poca o Brasil n\u00e3o contava com nenhuma universidade, os cursos jur\u00eddicos eram ministrados apenas em Pernambuco e S\u00e3o Paulo e os de Medicina na Bahia e Rio de Janeiro. Por essa raz\u00e3o os estudantes da Prov\u00edncia eram enviados para esses centros ou para a Europa a fim de matricularem-\u00adse na velha universidade de Coimbra o que sucedeu, entre outros, com o poeta Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<p>Era, portanto, muito dif\u00edcil viajar pelas p\u00e1ginas do saber. Era \u00e1rdua a vida, a ponto de ser preciso viajar sempre, com ou sem met\u00e1foras. Basta dizer que somente em 31 de outubro de 1821 chegou a S\u00e3o Lu\u00eds a primeira tipografia, mecanismo este que facilitaria e muito, para Jo\u00e3o Lisboa cumprir seu destino liter\u00e1rio. Sim, porque o jovem Jo\u00e3o Lisboa abra\u00e7ou de pleno cora\u00e7\u00e3o, disposto a vencer ventos e procelas, o of\u00edcio do jornalismo definindo tamb\u00e9m a sua op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, neste breve discurso, n\u00e3o cabe citar nem comentar. Trabalhou em sucessivos peri\u00f3dicos at\u00e9 chegar ao que se considera o \u00e1pice do seu trabalho jornal\u00edstico e liter\u00e1rio, o <em>Jornal de T\u00edmon<\/em> que, lan\u00e7ado em primeira edi\u00e7\u00e3o a 25 de junho de 1852, expunha uma not\u00e1vel peculiaridade. Tinha 100 p\u00e1ginas e era inteiramente redigido por ele, Jo\u00e3o Francisco Lisboa. Ou seja, n\u00e3o era um jornal no sentido em que hoje temos esse arauto essencial das liberdades democr\u00e1ticas, era um livro. N\u00e3o era apenas um livro, era um manancial, era um reposit\u00f3rio de grandes ideias, um convite aos debates e reflex\u00f5es, enfim, era uma viagem.<\/p>\n<p><em>Jornal de T\u00edmon<\/em> por qu\u00ea?<br \/>\nEle assim o explica nessa primeira edi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>O leitor me perguntar\u00e1 a que prop\u00f3sito o nome T\u00edmon? Que sou eu? Esse nome pertenceu na Antiguidade a um homem singular e estranho que, azedado pelas injusti\u00e7as e ingratid\u00e3o, votou um \u00f3dio t\u00e3o entranh\u00e1vel ao g\u00eanero humano, e de tal maneira os rejeitava entregues aos crimes e aos v\u00edcios, que se pagava mais do desprezo que da estima dos homens.<\/em><\/p>\n<p>Portanto, o nome T\u00edmon deveu-\u00adse \u00e0 escolha de um homem que no passado grego foi o s\u00edmbolo da virtude, o c\u00e9lebre T\u00edmon de Atenas, tamb\u00e9m cognominado O Misantropo, cabendo aditar que Jo\u00e3o Francisco Lisboa, pela retid\u00e3o do seu car\u00e1ter, por sua intoler\u00e2ncia em face da corrup\u00e7\u00e3o dos costumes, foi de uma certa forma tamb\u00e9m, 0 T\u00edmon desta nossa Atenas.<\/p>\n<p>A receptividade alcan\u00e7ada pelo <em>Jornal de T\u00edmon<\/em> \u2014 escrito, como j\u00e1 dissemos, por um homem s\u00f3 \u2014, excedeu a todas as expectativas. O autor labutava na Prov\u00edncia, o que n\u00e3o impediu que seu nome passasse a ser conhecido na capital do Imp\u00e9rio, onde recebia elogiosas refer\u00eancias, a ponto de Francisco Otaviano ter escrito sobre ele no <em>Correio Mercantil<\/em>, \u00f3rg\u00e3o da imprensa do Rio de Janeiro:<\/p>\n<p><em>O seu livro, apesar de tra\u00e7os epigram\u00e1ticos \u00e9 um testemunho hist\u00f3rico de um merecimento t\u00e3o transcendental que um dos nossos colegas de mais esp\u00edrito conversando h\u00e1 alguns dias em um grupo de jornalistas da C\u00e2mara disse que ainda duvidava que aquele livro fosse, em semelhante g\u00eanero, uma publica\u00e7\u00e3o brasileira.<\/em><\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o do <em>Jornal de T\u00edmon<\/em> proporcionou, em seguida, a Jo\u00e3o Lisboa o ingresso no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico e Brasileiro, sediado na cidade do Rio de Janeiro. A proposta foi apresentada por ningu\u00e9m menos que Gon\u00e7alves Dias, tamb\u00e9m historiador e que residia na capital do Imp\u00e9rio. Nesse tempo a institui\u00e7\u00e3o contava com o patroc\u00ednio do pr\u00f3prio imperador dom Pedro ii, que comparecia a quase todas as sess\u00f5es.<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer que neste ponto de sua viagem liter\u00e1ria Jo\u00e3o Francisco Lisboa j\u00e1 fazia parte de uma pl\u00eaiade que constitu\u00eda o grupo de escol que legou a S\u00e3o Lu\u00eds o t\u00edtulo de Atenas Brasileira.<\/p>\n<p>Em 1855 empreendeu sua \u00faltima e definitiva viagem f\u00edsica, primeiro at\u00e9 o Rio de Janeiro e depois a Portugal com a esposa e a filha adotiva. A febre amarela o apanhara e j\u00e1 amea\u00e7ava a sua trajet\u00f3ria de vida que, como diriam os navegantes, come\u00e7ava a fazer \u00e1gua, embora a liter\u00e1ria continuasse a pleno vapor, j\u00e1 que, em Lisboa, come\u00e7ou a preparar a coleta de informa\u00e7\u00f5es documentais sobre o padre Ant\u00f4nio Vieira com as quais escreveu uma importante biografia do grande e imortal jesu\u00edta.<\/p>\n<p>\u00c0s duas horas da madrugada de 26 de abril de 1863 exalou seu ultimo suspiro longe do Maranh\u00e3o e do seu pa\u00eds. Seu corpo foi conservado em um caix\u00e3o de chumbo, depositado na igreja de S\u00e3o Paulo e transferido para o mausol\u00e9u do negociante Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Abreu, no cemit\u00e9rio dos Prazeres, em Lisboa. Quando foi transladado um ano depois para S\u00e3o Lu\u00eds partindo de Lisboa aqui chegou em 24 de maio de 1864 no brigue Ang\u00e9lica 1 que entrou na ba\u00eda de vergas cruzadas em sinal de luto, tendo sido acompanhado nessa homenagem pelos navios que se encontravam surtos no porto. A bordo vinham os restos mortais de Jo\u00e3o Lisboa, e a bela homenagem deve t\u00ea\u00ad-lo alcan\u00e7ado em esp\u00edrito, pairando sobre as \u00e1guas, em pleno gozo de sua aventura p\u00f3stuma quando, segundo a frase navegar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9, ele continuou navegando pelos rios da eternidade, pois agora seu talento o tornara imortal.<\/p>\n<p>Quando a crian\u00e7a que eu fui se deparou pela primeira vez com a est\u00e1tua de Jo\u00e3o Lisboa, que foi inaugurada em 1916, quatro anos depois, portanto, do festejo do centen\u00e1rio do seu nascimento, eu ainda n\u00e3o tinha consci\u00eancia da gl\u00f3ria que transforma seres em pedras e depois em s\u00edmbolos. Ainda n\u00e3o imaginara que a depender das viagens que algu\u00e9m faz, pode se perpetuar ou n\u00e3o. Que a eternidade \u00e9 apenas a cota que sobra do ato do viver bem navegado, mas que a aventura escolhida por ele para chegar a isso que, no seu caso foi bem sucedida, \u00e9 na maioria das vezes para aquele que se prop\u00f5e ao of\u00edcio da escrita, apenas uma aventura v\u00e3 e dolorosa.<\/p>\n<p>Que esp\u00e9cie de aventura \u00e9 essa, a de escrever por mares sempre nunca navegados, tendo como b\u00fassola, apenas a solid\u00e3o? Isso, ao final de contas, principalmente nos dias de hoje, dos <em>big brothers<\/em>, do forr\u00f3 eletr\u00f4nico, das calcinhas pretas e da desenfreada procura por quinze segundos de fama na televis\u00e3o, vale a pena? Quanto e quando vale?<\/p>\n<p>Existem coisas certamente muito mais prazerosas na vida do que escrever, tais como jogar futebol, namorar, ver shows, curtir as praias e viajar de avi\u00e3o ou de carro, contemplando deliciosas paisagens ao inv\u00e9s de viajar pelas profundezas do ser e dos seres, esta t\u00e3o longa viagem de si para si mesmo de que falava Fernando Pessoa. Lutando e brigando com as palavras, ontem com uma caneta, depois com uma m\u00e1quina de escrever e hoje com um computador, em eterna viagem solit\u00e1ria como quem perdeu o rumo da vida. Por que perder-\u00adse na ilha solit\u00e1ria das p\u00e1ginas como um Robinson Crusoe, que nunca encontrar\u00e1 seu retorno?<\/p>\n<p>Disse um escritor norte\u00ad-americano que a \u00fanica vantagem de ser escritor \u00e9 que ningu\u00e9m o chama de burro por ganhar t\u00e3o pouco. Existem outras? Sei que alguns dir\u00e3o, muitos ganham muito dinheiro, est\u00e3o a\u00ed o Paulo Coelho e o Chico Buarque para provar isso. Esquecem de que Chico Buarque ganha muito dinheiro com livros porque \u00e9 cantor e Paulo Coelho porque \u00e9 mago como ele pr\u00f3prio n\u00e3o se cansa de dizer. Talvez, ou certamente, um mago m\u00e1gico que tirou um livro da cabe\u00e7a como um coelho da cartola.<\/p>\n<p>E a imortalidade? Mas a imortalidade, da forma em que s\u00e3o for\u00e7ados a praticarem os escritores de hoje surge da forma mais dolorosa poss\u00edvel que \u00e1 da sobreviv\u00eancia heroica, esse dom de n\u00e3o morrer ganhando t\u00e3o mal e t\u00e3o pouco. Como dizia um amigo, todo escritor \u00e9 imortal, independentemente do seu sucesso e talento, j\u00e1 que seu exerc\u00edcio \u00e9 a imortalidade no sentido da sobreviv\u00eancia a todo instante. Se ainda n\u00e3o morreu at\u00e9 agora, \u00e9 sinal de que n\u00e3o morrer\u00e1 nunca.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, se um escritor escrever um livro, um s\u00f3 que seja e este vier a ser lembrado por gera\u00e7\u00f5es vindouras n\u00e3o se saber\u00e1 efetivamente se ele um dia se foi, pois para uma correta indaga\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1rio perguntar de qual dos mundos ele se ter\u00e1 ido, do mundo real ou daquele que ficou em seu livro E, desta vez, ningu\u00e9m obter\u00e1 resposta.<\/p>\n<p>E, se quisermos, uma outra vantagem, quer queiram quer n\u00e3o, \u00e9 a possibilidade de um dia poder estar aqui numa Academia de Letras, neste caso especial a Academia Maranhense de Letras, um clube ao qual pertenceram de uma forma ou outra, Erasmo Dias, Jos\u00e9 do Nascimento Morais, Manuel Caetano Bandeira de Melo e muitos outros, entre eles Sous\u00e2ndrade, patrono de uma Cadeira desta Casa, e Gon\u00e7alves Dias, patrono maior desta Academia. Como n\u00e3o almejar pertencer a um clube desses? Esses homens ilustres acima citados estiveram ou est\u00e3o n\u00e3o porque foram ricos ou pobres, bonitos ou feios, alegres ou tristes, mas pelo que escreveram, pelos seus livros.<\/p>\n<p>Vim pelos meus livros, falava\u00ad-me um dia emocionado, na minha juventude, Erasmo Dias ao recordar a frase de um grande escritor frente ao Pr\u00eamio Nobel.<\/p>\n<p>Pelos seus livros aqui chegou tamb\u00e9m Jos\u00e9 Ribeiro de Amaral que foi fundador desta Cadeira. Seu livro <em>Funda\u00e7\u00e3o do Maranh\u00e3o<\/em>, essencial a todo aquele que queira conhecer a hist\u00f3ria do nosso Estado e que foi h\u00e1 pouco reeditado num esfor\u00e7o gigantesco e conjunto dos membros desta aml e das institui\u00e7\u00f5es maranhenses reapareceu (e reaparecer\u00e1 muitas vezes) por motivo da celebra\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo quarto centen\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Lu\u00eds. A seu respeito escreveu Mont\u2019Alverne Frota, mestre e acad\u00eamico que aqui se encontra:<\/p>\n<p><em>Ribeiro do Amaral passou a vida entre livros e jornais. O pioneirismo dos franceses na funda\u00e7\u00e3o da cidade que tanto amava, estava pra ele sedimentado em provas irrefut\u00e1veis. A vida de Ribeiro do Amaral foi uma comprova\u00e7\u00e3o desse empenho de ir buscar \u00e1gua na fonte cristalina da verdade hist\u00f3rica.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>Pelos seus livros <em>Vencidos e degenerados,<\/em> <em>Neurose do medo<\/em> e <em>Contos de Val\u00e9rio Santiago <\/em>tamb\u00e9m esteve aqui, antes do j\u00e1 citado Manuel Caetano Bandeira de Melo, Jos\u00e9 do Nascimento Morais, sobre quem escreveu Josu\u00e9 Montelo:<\/p>\n<p><em>Na reda\u00e7\u00e3o, noite alta, Nascimento Morais tinha o seu m\u00e9todo de escrever. Escrevia numa ponta de mesa, de vez em quando parava, deixava a cabe\u00e7a cair sobre o bra\u00e7o, dormia, levantava a cabe\u00e7a, retomava a composi\u00e7\u00e3o, sem precisar ler o que ia para tr\u00e1s, e assim prosseguia at\u00e9 encher o n\u00famero de laudas necess\u00e1rio para completar meia p\u00e1gina de jornal.<\/em><\/p>\n<p>E, acrescentou tamb\u00e9m sobre o livro <em>Neurose do medo<\/em>:<\/p>\n<p><em>No entanto, \u00e9 em <\/em>Neurose do medo<em> que minha mem\u00f3ria reencontra a mais bela p\u00e1gina do romancista Nascimento Morais. Faz mais de trinta anos que a li e, ainda hoje, \u00e9 como se estivesse vendo a hora matinal que serviu de cen\u00e1rio ao crime que sua pena de mestre descreveu.<\/em><\/p>\n<p>Recapitulo aqui, os luminares que pertencem \u00e0 hist\u00f3ria da Cadeira que hoje passo a ocupar:<br \/>\nPatrono: Jo\u00e3o Francisco Lisboa.<br \/>\nFundador: Jos\u00e9 Ribeiro do Amaral.<br \/>\nAntecessores: Jos\u00e9 do Nascimento Morais e Manuel Caetano Bandeira de Melo.<br \/>\nPelos seus livros, tamb\u00e9m chegou aqui este navegador. Vim pelos meus livros, mas n\u00e3o posso esquecer que vim tamb\u00e9m pelas muitas pessoas a quem sou grato nessa trajet\u00f3ria das letras e da vida.<\/p>\n<p>Vim por Nascimento Morais Filho que h\u00e1 pouco tempo nos deixou e que foi quem primeiro publicou um poema meu, acreditando no jovem que tentava se iniciar na literatura e lhe entregara para aprecia\u00e7\u00e3o um poema que, generosamente, foi agraciado com a sua inclus\u00e3o numa antologia sobre o Natal, <em>Esperando a Missa do Galo<\/em>. Vim por Jomar Moraes, escritor e mestre, cuja viagem de vida se confunde com a desta pr\u00f3pria Academia, e que pela primeira vez acreditou no potencial do jovem e publicou o meu primeiro livro: o volume de poesias chamado <em>A est\u00e1tua da noite<\/em>, com capa do meu irm\u00e3o Ivanildo Ewerton, que era tamb\u00e9m artista pl\u00e1stico. Que leu meu primeiro romance <em>O prazer de matar, <\/em>indicou-\u00ado a Jos\u00e9 Louzeiro e me incentivou a concorrer pela primeira vez a um concurso, do qual sa\u00ed vitorioso. Vim por Erasmo Dias, escritor de cuja conviv\u00eancia privei em encontros memor\u00e1veis, regados \u00e0 alguma cerveja (talvez mais que algumas) no qual grupos de jovens se reuniam para discutir literatura e cultura em geral e que doou-\u00adme a quantifica\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima que jamais encontrei, da equa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da melhor sensibilidade art\u00edstica, inclusive quando, por generosidade ou n\u00e3o, se emocionou at\u00e9 as l\u00e1grimas com o primeiro poema que lhe mostrei e que se chamava justamente A Chamada.<\/p>\n<p>Vim pelo meu av\u00f4 Jos\u00e9 Ewerton, de quem herdei o nome, que era marinheiro na verdadeira acep\u00e7\u00e3o da palavra, que come\u00e7ou pobre e fez com\u00e9rcio de pesca, buscando no mar a fonte do seu progresso e depois veio a ser prefeito de Guimar\u00e3es e depois de Cedral. Vim pelas minhas av\u00f3s Assun\u00e7\u00e3o e Til\u00f3. Pela minha m\u00e3e Teresa que, sem instru\u00e7\u00e3o superior, doou\u00ad-se por inteira \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de formar seus filhos. Pelo meu pai Juvenil Ewerton que navegou com brilhantismo pela \u00e1rea jur\u00eddica, onde se tornou desembargador, mas nunca deixou a veia art\u00edstica herdada do pai e que se fez m\u00fasico e conhecedor profundo da melhor m\u00fasica popular brasileira. Vim pelo meu falecido irm\u00e3o que aqui est\u00e3o e sempre me ajudaram nesta trajet\u00f3ria, pelo meu irm\u00e3o que est\u00e1 em Salvador, pela sobrinha, parentes e minhas duas netinhas, pelos escritores amigos e professores que me trouxeram sempre ideias e horizontes novos, e enfim, por todos aqueles que tantas vezes fizeram com que esta caravela n\u00e3o so\u00e7obrasse apesar dos ventos transformados em tempestades que nem sempre sopram a favor.<\/p>\n<p>E vim pelos meus livros. Recordo da frase de outro escritor que dizia que a feitura de um livro \u00e9 o fen\u00f4meno mais equivalente que um homem pode sentir da cria\u00e7\u00e3o feminina do ser humano. O humorista Ziraldo, por sua vez, dizia que o nome desse ato sublime da gesta\u00e7\u00e3o do ser n\u00e3o devia ser parto, mas fico. Afinal de contas, a crian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 partindo, mas chegando.<\/p>\n<p>Nesse ponto final de minha viagem, ao mesmo tempo em que lhes agrade\u00e7o pela companhia, espero que me desculpem se por acaso os enfadei nesta viagem de palavras. Ao sentir que tamb\u00e9m estou partindo e ficando, partindo por que estou chegando ao final desta viagem e ficando porque a generosidade dos acad\u00eamicos que me elegeram est\u00e1 me fazendo incluir em seu glorioso conv\u00edvio, n\u00e3o posso e nem quero disfar\u00e7ar a minha embriaguez. Essa embriaguez n\u00e3o \u00e9 de bebida e sequer \u00e9 de vit\u00f3ria posto que tenho a convic\u00e7\u00e3o de que a ningu\u00e9m deve ser concedida a possibilidade de disputar consigo mesmo a pr\u00f3pria viagem de vida. Somos os \u00fanicos capazes de derrotar a n\u00f3s mesmos, como bem sabiam os marinheiros. Esta \u00e9 a embriaguez da chegada a um porto ansiosamente esperado. A embriaguez de que falava o grande poeta simbolista franc\u00eas Mallarm\u00e9, com cujas palavras os convido a fazerem comigo um \u00faltimo brinde.<\/p>\n<p><em>Minha embriaguez me faz arauto<\/em><br \/>\n<em>Sem medo ao jogo do mar alto<\/em><br \/>\n<em>Para erguer, de p\u00e9, este brinde:<\/em><br \/>\n<em>Solitude, recife, estrela<\/em><br \/>\n<em>A n\u00e3o importa o que h\u00e1 no fim<\/em><br \/>\n<em>de um branco af\u00e3 de nossas velas.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em Guimar\u00e3es, MA, em 4 de abril de 1953, sendo o segundo filho de Juvenil Amorim Ewerton (desembargador) e de Teresa de Jesus Martins Ewerton. Iniciou os estudos no Col\u00e9gio Municipal Urbano Santos, de Guimar\u00e3es, onde permaneceu at\u00e9 1959 quando se transferiu para o Col\u00e9gio Henriques Leal, em S\u00e3o Luis. 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