{"id":442,"date":"2014-02-22T12:19:24","date_gmt":"2014-02-22T15:19:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=442"},"modified":"2020-08-01T11:47:50","modified_gmt":"2020-08-01T14:47:50","slug":"jose-maria-cabral-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/jose-maria-cabral-marques\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Maria Cabral Marques"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds, a 17 de setembro de 1929. Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds e em Servi\u00e7o Social pela Escola de Servi\u00e7o Social da antiga Universidade do Maranh\u00e3o. Doutorou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Recife \u2013 UFPE e fez mestrado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, pelo Instituto Superior de Ci\u00eancias Sociais e Pol\u00edticas, da Universidade T\u00e9cnica de Lisboa.<\/p>\n<p>Fez ainda os cursos de Filosofia Jur\u00eddica, de Direito Pol\u00edtico e de Teoria Geral do Estado, todos pela Universidade de Mog\u00fancia, Alemanha; de Planejamento Educacional, patrocinado pela ONU\/Unesco-Ilpes-CEPAL, Buenos Aires; Est\u00e1gio em Administra\u00e7\u00e3o de R\u00e1dio e TV Educativos, sob a supervis\u00e3o do\u00a0<em>Institut P\u00e9dagogique National<\/em>, Paris; em Capacita\u00e7\u00e3o de Recursos Humanos, no Centro Interamericano do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Humanas, Universidade de Loyola, New Orleans, Estados Unidos; Foi\u00a0<em>Visiting Scholar<\/em>\u00a0em Estudos e Pesquisas, no Centro de Estudos Latino-Americanos, da Universidade da Fl\u00f3rida, Gainesville, Estados Unidos.<\/p>\n<p>Participou dos seguintes congressos, confer\u00eancias, ciclos de estudos e semin\u00e1rios: A Sociedade Brasileira no Fim do S\u00e9culo XX, seus rumos e perspectivas, Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro; Semin\u00e1rio da Uni\u00e3o dos Estudantes \u00ad\u2013 D.V.S., Berlim; Segundo Semin\u00e1rio Brasileiro de Televis\u00e3o Educativa, Rio de Janeiro; S\u00e9timo Encontro Ibero-Americano de Educa\u00e7\u00e3o Superior a Dist\u00e2ncia, Universidade Salgado de Oliveira \u2013 Universo, Rio de Janeiro; Quinto Congresso Internacional de Educa\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo; O Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia no Quadro Mundial, Associa\u00e7\u00e3o de Direito e Economia Europeia, Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; Soberania e Integra\u00e7\u00e3o, Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; Segunda Confer\u00eancia Nacional de Tecnologias Educacionais, Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Conselho de Reitores de Universidades Brasileiras, S\u00e3o Paulo; Sexto Semin\u00e1rio Latino-Americano de Teleduca\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria, Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenauer, Caracas;. Seminario Latino-Americano de Teleducaci\u00f3n para Directivos de Teleducaci\u00f3n e Quarto Semin\u00e1rio Intenacional de TV Educativa, Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenauer e Ministerio de Educaci\u00f3n Nacional da Col\u00f4mbia, Bogot\u00e1; Sexta Reuni\u00e3o Trienal da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Reitores de Universidades, San Jos\u00e9, Costa Rica; Oitava Reuni\u00e3o Trienal da IAUP, Guadalajara, M\u00e9xico; Quinto Congresso da OUI, M\u00e9rida, M\u00e9xico; Segunda Reuni\u00e3o do Conselho de Reitores das Universidades de L\u00edngua Portuguesa \u2013 AULP, Maputo, Mo\u00e7ambique; Reuni\u00e3o Trienal da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Reitores de Universidades \u2013 IAUP, Kioto, Jap\u00e3o.<br \/>\nCabral Marques foi, por concurso, escritur\u00e1rio do Instituto dos Industri\u00e1rios \u2013 IAPI, S\u00e3o Lu\u00eds; oficial de administra\u00e7\u00e3o do IAPI, Aracaju, Sergipe; promotor p\u00fablico e juiz de direito no Maranh\u00e3o; procurador aut\u00e1rquico do IAPI, S\u00e3o Lu\u00eds; professor de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Ci\u00eancia do Direito, Faculdade de Direito da Universidade Federal do Maranh\u00e3o \u2013 UFMA.<\/p>\n<p>Exerceu os seguintes cargos:<\/p>\n<p><strong>a)<\/strong>\u00a0Setor P\u00fablico:<\/p>\n<p><em>No Maranh\u00e3o<\/em>: Secret\u00e1rio de Estado da Administra\u00e7\u00e3o; da Fazenda (interino); da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura; do Trabalho e A\u00e7\u00e3o Social.\u00a0<em>No Amazonas<\/em>: Secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura; Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Educacional do Amazonas; Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Amazonas; Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Televis\u00e3o Educativa do Amazonas.<br \/>\n<strong>b)<\/strong>\u00a0Setor Privado:<\/p>\n<p>Diretor-geral do Departamento Regional do Sesc e do Senac, no Maranh\u00e3o; diretor-geral da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Teleduca\u00e7\u00e3o \u2013 ABT, Rio de Janeiro.<br \/>\n<strong>c)<\/strong>\u00a0Institui\u00e7\u00f5es Universit\u00e1rias p\u00fablicas e privadas:<\/p>\n<p>Diretor interino da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, da Universidade do Maranh\u00e3o (cat\u00f3lica); Vice-reitor da Universidade do Maranh\u00e3o (cat\u00f3lica); reitor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o \u2013 UFMA; vice-diretor-geral, cumulativo com o exerc\u00edcio do cargo de diretor-geral das Faculdades Integradas \u2013 Ceuma; reitor do Centro de Ensino Universit\u00e1rio do Maranh\u00e3o \u2013 Uniceuma; diretor-geral da Faculdade do Vale do Itapecuru \u2013 FAI, Caxias-MA.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>d)<\/strong>\u00a0Associa\u00e7\u00f5es Universit\u00e1rias:<\/p>\n<p>\u2013\u00a0<em>no Brasil<\/em>: Presidente (interino), vice-presidente e membro do Diret\u00f3rio Executivo do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras \u2013 CRUB, Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0<em>no exterior<\/em>: 1\u00ba vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o das Universidades de L\u00edngua Portuguesa \u2013 AULP, Lisboa; membro do Conselho Consultivo e presidente interino para o Brasil da Organiza\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria Interamericana \u2013 OUI, Qu\u00e9bec; presidente, interino, do Cap\u00edtulo Brasileiro da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Reitores de Universidade \u2013 IAUP, Guadalajara, M\u00e9xico; vice-presidente para o Brasil e membro do Conselho Assessor da Presid\u00eancia do Conselho Interamericano para o Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social \u2013 CUIDES, Little Rock, Estados Unidos;. 1\u00ba vice-presidente da AULP, Lisboa.<\/p>\n<p>Recebeu ainda as seguintes medalhas: Sim\u00e3o Est\u00e1cio da Silveira, da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Lu\u00eds; do M\u00e9rito Timbira, do Governo do Estado do Maranh\u00e3o; Olavo Bilac, da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do Estado do Par\u00e1; Benjamin Constant, do Centro Regional de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do Estado do Rio de Janeiro; Prado J\u00fanior, do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o, Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado do Rio de Janeiro; Brigadeiro Falc\u00e3o, da Pol\u00edcia Militar do Estado do Maranh\u00e3o; M\u00e9rito Judici\u00e1rio Desembargador Antonio Rodrigues Vellozo, do Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Maranh\u00e3o; M\u00e9rito Educacional Professora Ana Maria Saldanha, do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, Estado do Maranh\u00e3o; Comemorativa do 20\u00b0 ano de cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Alagoas; Comemorativa do 20\u00b0 ano de cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Par\u00e1; Sous\u00e2ndrade do M\u00e9rito Universit\u00e1rio, no Grau Ouro, da Universidade Federal do Maranh\u00e3o; Comemorativa Dr. Jos\u00e9 Viana Vaz, do 80\u00ba anivers\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o do Curso de Direito da UFMA; Almyr Moraes Corr\u00eaa do M\u00e9rito Profissional, no Grau Ouro, do Rotary Club de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>No Exterior foi agraciado com os seguintes t\u00edtulos: Cidad\u00e3o Honor\u00e1rio, pela cidade de Nova Orleans, Estados Unidos; Doutor h<em>onoris causa,\u00a0<\/em>\u00a0pelo Rhode Island College, Providence, Estados Unidos; Medalha de Prata Comemorativa do 1\u00ba Centen\u00e1rio de Funda\u00e7\u00e3o da Escola de Minas do Colorado, Estados Unidos; Professor <em>honoris causa<\/em>, da Universidade de Arkansas, Little Rock, Estados Unidos; Diploma de Embaixador da Boa Vontade (<em>Arkansas Traveler<\/em>), do Governo do Estado de Arkansas, Estados Unidos; Ordem das Palmas Acad\u00eamicas, no Grau de Oficial, do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, Fran\u00e7a; Ordem da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica, no Grau de comendador, da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica de Portugal; Medalha de Prata Comemorativa dos 450 anos de funda\u00e7\u00e3o da Universidade Julius Maximilian, W\u00fcrzburg, Alemanha; Diploma de Visitante Distinguido, Presid\u00eancia do Munic\u00edpio de Zapopan, M\u00e9xico; Diploma de Reconhecimento por Relevantes Servi\u00e7os Prestados, da Diretoria da \u2013 IAUP.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p><em>O Pensamento do Reitor Cabral Marques expresso em palavras<\/em>\u00a0(discursos). S\u00e3o Lu\u00eds: UFMA, 1988; Jos\u00e9 Sarney (70 anos), um perfil de sua hist\u00f3ria (depoimento). S\u00e3o Lu\u00eds: Editora Alc\u00e2ntara, 2000; Discurso de Posse na Academia Maranhense de Letras. S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2001; Mem\u00f3rias. In\u00a0<em>Mem\u00f3rias de Professores. Hist\u00f3rias da UFMA e outras hist\u00f3rias<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: UFMA, 2005;\u00a0<em>Hist\u00f3ria Oral do Ex\u00e9rcito: Hist\u00f3ria Oral do Projeto Rondon <\/em>(depoimento). Rio de Janeiro: Biblioteca do Ex\u00e9rcito Editora, 2007.<\/p>\n<p>Tem, in\u00e9ditos, um livro de poemas e monografias de Ci\u00eancia Pol\u00edtica.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p><em>ATRA\u00c7\u00c3O E REPULS\u00c3O<\/em>\u00a0de Adelino Fontoura<\/p>\n<p><em>Eu nada mais sonhava nem queria<\/em><br \/>\n<em>que de ti n\u00e3o viesse, ou n\u00e3o falasse;<\/em><br \/>\n<em>e como a ti te amei, que algu\u00e9m te amasse<\/em><br \/>\n<em>coisa incr\u00edvel at\u00e9 me parecia.<\/em><br \/>\n<em>Uma estrela mais l\u00facida eu n\u00e3o via<\/em><br \/>\n<em>que nesta vida os passos me guiasse,<\/em><br \/>\n<em>e tinha f\u00e9, cuidando que encontrasse,<\/em><br \/>\n<em>ap\u00f3s tanta amargura, uma alegria.<\/em><br \/>\n<em>Mas t\u00e3o cedo extinguiste este risonho,<\/em><br \/>\n<em>este encantado e deleitoso engano,<\/em><br \/>\n<em>que o bem que achar supus, j\u00e1 n\u00e3o suponho.<\/em><br \/>\n<em>Vejo, enfim, que \u00e9s um peito desumano;<\/em><br \/>\n<em>Se fui ter junto a ti, de sonho em sonho,<\/em><br \/>\n<em>Voltei de desengano em desengano.<\/em><\/p>\n<p><em>SONETO<\/em>\u00a0de Artur Azevedo, dedicado a Adelino Fontoura,\u00a0ap\u00f3s a morte do poeta.<\/p>\n<p><em>Em dura rocha a fibra de amianto<\/em><br \/>\n<em>Nasce, viceja, estende-se, subsiste,<\/em><br \/>\n<em>Por\u00e9m, fem\u00edneo cora\u00e7\u00e3o resiste<\/em><br \/>\n<em>Da poesia ao langoroso encanto.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 que ontem vi passar, p\u00e1lida e triste,<\/em><br \/>\n<em>A mo\u00e7a injusta que adoravas tanto&#8230;<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o tinha os olhos t\u00famidos de pranto<\/em><br \/>\n<em>Aquela a quem debalde amor pediste.<\/em><\/p>\n<p><em>Desses olhos, um dia, bem no fundo,<\/em><br \/>\n<em>Num flamejar de brilhos inquietos,<\/em><br \/>\n<em>Viste fantasma de um desd\u00e9m profundo.<\/em><\/p>\n<p><em>Vingado est\u00e1s daqueles olhos pretos,<\/em><br \/>\n<em>Ela, a tua musa, ficar\u00e1 no mundo<\/em><br \/>\n<em>\u00d3rf\u00e3 dos teus espl\u00eandidos sonetos.<\/em><\/p>\n<p>Excelent\u00edssimo senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras:<\/p>\n<p>Excelent\u00edssimos senhores acad\u00eamicos, a quem, pela primeira vez, tenho a satisfa\u00e7\u00e3o de saudar na condi\u00e7\u00e3o de confrades.<\/p>\n<p>Sei que, ao iniciar este ato de minha investidura como titular de uma das c\u00e1tedras deste venerando Cen\u00e1culo, violei regras de orat\u00f3ria aqui consagradas pela tradi\u00e7\u00e3o.Pe\u00e7o-\u00adlhes perd\u00e3o pela infra\u00e7\u00e3o cometida. E isto porque, se assim o fiz propositadamente, n\u00e3o foi pelo desejo de afrontar os usos e costumes, que aqui t\u00eam peso e apre\u00e7o singulares. Foi o recurso de que me vali para come\u00e7ar prestando minhas homenagens a essa figura extraordin\u00e1ria de homem de letras que foi Adelino da Fontoura Chaves, nascido no dia 30 de mar\u00e7o de 1859, no povoado Axix\u00e1, hoje munic\u00edpio do mesmo nome, neste Estado.<\/p>\n<p>O soneto, h\u00e1 pouco ouvido, de estilo camoniano, bem caracteriza a sua grande paix\u00e3o amorosa n\u00e3o correspondida. Ele \u00e9 um dos que justificam por que o autor est\u00e1 inclu\u00eddo entre os melhores poetas l\u00edricos do Brasil. Tamanha admira\u00e7\u00e3o me inspira Adelino Fontoura, que n\u00e3o hesitei em iniciar o seu louvor oferecendo a todos os que me ouvem uma poesia de sua lavra. Suas composi\u00e7\u00f5es desse g\u00eanero s\u00e3o antol\u00f3gicas; foram recitadas nos saraus l\u00edtero\u00ad-musicais, reproduzidas nas se\u00e7\u00f5es especializadas de jornais e de revistas e inclu\u00eddas nas melhores seletas po\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Falarei da obra de Adelino Fontoura e de circunst\u00e2ncias relevantes de sua vida, sem a preocupa\u00e7\u00e3o de demarcar aquela e estas.<\/p>\n<p>O patrono da Cadeira n\u00ba 38 tinha uma personalidade bem singular. Com alguma frequ\u00eancia, dizia ou fazia as cousas diferentemente do que dele se podia esperar. Dava a impress\u00e3o, fora do seu plat\u00f4nico amor, que se comprazia em contrariar. Para p\u00f4r em relevo essa faceta da personalidade do poeta, basta lembrar o que escreveu Alu\u00edsio Azevedo, seu conterr\u00e2neo, quando ambos j\u00e1 residiam no Rio de Janeiro:<\/p>\n<p>[&#8230;] Diz abruptamente o que pensa sobre qualquer assunto ou sobre\u00a0qualquer sujeito [&#8230;]<br \/>\nPor isso algumas pessoas veem nele um bicho; outras pretendem ver\u00a0um grande esp\u00edrito de contradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu vou com os \u00faltimos. Fontoura \u00e9 um imenso esp\u00edrito de contradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEle deixa transparecer o seu talento, porque sup\u00f5e que com isso desagrada.<br \/>\nNo dia em que se convencesse que o desejavam inteligente,\u00a0ele se fingiria est\u00fapido.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe agradava sempre ter que acatar as conven\u00e7\u00f5es sociais!<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, nada melhor, para evocar essa \u201calma apaixonada e sentimentalista profundo,\u201d do que surpreender o seleto p\u00fablico, aqui presente, com um inusitado prel\u00fadio de discurso acad\u00eamico de posse.<\/p>\n<p>Excelent\u00edssimas autoridades, senhoras e senhores, meus convidados, meus queridos familiares:<\/p>\n<p>Comecei com versos. Gosto de poesia. Quando era ainda muito jovem, foi noticiado que Margarida, filha da poetisa J\u00falia Lopes de Almeida, iria recitar poesias no Teatro Artur Azevedo. No dia e hora anunciados, l\u00e1 estava eu, de terno e gravata, sentado na primeira fila. Imaginei deleitar meus ouvidos com a declama\u00e7\u00e3o e meus olhos com uma mulher jovem e bonita. Na minha imagina\u00e7\u00e3o ela seria bela como as musas dos poetas. Minha surpresa e desagrado vieram juntos. Uma senhora de idade, gorda, trajando um vestido, modelo do in\u00edcio do s\u00e9culo, cheia de babados, entrou no palco. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi retirar-\u00adme. Certamente n\u00e3o iria gostar do espet\u00e1culo. N\u00e3o tive coragem de sair e me detive. Sentado bem \u00e0 frente, muito pr\u00f3ximo ao palco, fiquei pensando que todos iriam ver\u00adme sair e dizer: \u201cEsse menino n\u00e3o sabe apreciar bons espet\u00e1culos!\u201d. Foi bom ter ficado. Ainda hoje recordo o \u00eaxtase que se apossou de mim. Margarida come\u00e7ou a recitar divinamente. De repente, todo o meu ser ficou reduzido \u00e0 dimens\u00e3o dos ouvidos. N\u00e3o falava, estava im\u00f3vel e absorto; creio at\u00e9 que prendi a respira\u00e7\u00e3o para n\u00e3o perturbar o espet\u00e1culo. Parecia que eu estava a s\u00f3s com aquela voz.<\/p>\n<p><strong>Adelino Fontoura<\/strong><\/p>\n<p>Vou falar sobre um jovem poeta maranhense, que viveu e morreu no s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Adelino da Fontoura Chaves, ou, simplesmente, Adelino Fontoura, teve uma trajet\u00f3ria de vida impressionante, apesar de breve. Seus pais, Ant\u00f4nio Fontoura Chaves e Francisca Dias Fontoura, eram pessoas de parcos recursos financeiros. Ainda menino, deixou-\u00ados em Axix\u00e1 e veio tentar a vida aqui na capital. Empregou-\u00adse como caixeiro na Praia Grande. Aos dez anos de idade, em S\u00e3o Lu\u00eds, conheceu o tamb\u00e9m caixeiro Artur Azevedo, quatro anos mais velho, de quem se tornou grande amigo pela vida a fora.<\/p>\n<p>Alguns anos depois, tentou usar seus talentos, atuando numa companhia recifense de teatro; esta se apresentava em cidades do Norte. Na capital pernambucana, al\u00e9m de ator, foi colaborador em um peri\u00f3dico sat\u00edrico,<em> Os X\u00eanios.<\/em> Ao deixar a companhia de com\u00e9dia, alistou-\u00adse na Pol\u00edcia Militar, segundo uns; segundo outros, alistou-\u00adse no Ex\u00e9rcito. Aos vinte anos, mudou-\u00adse para o Rio de Janeiro. L\u00e1, foi procurar Artur Azevedo, que trabalhava como amanuense na Secretaria de Agricultura. Adelino estava \u00e0 busca de emprego. Confessou ao amigo sua paix\u00e3o pelo teatro. Escarmentado com o que lhe acontecera no Maranh\u00e3o, n\u00e3o queria mais ser ator; preferiria ser ponto, contrarregra, copista de pap\u00e9is ou secret\u00e1rio. Naquele mesmo dia, sa\u00edram os dois percorrendo os teatros da cidade \u00e0 procura de emprego. N\u00e3o tiveram sorte, n\u00e3o havia um sequer dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Como bem lembra Artur Azevedo, Adelino Fontoura em \u201cnem um instante perdeu aquele quase ang\u00e9lico bom-\u00adhumor, que era o enlevo de quantos com ele conversavam ou o liam\u201d. Mantinha o humor, ainda que \u201catormentado constantemente pela falta absoluta de recursos pecuni\u00e1rios\u201d. E acrescenta: \u201cNingu\u00e9m sabia rir como ele, disse acertadamente, num artigo escrito com l\u00e1grimas disfar\u00e7adas, Valentim Magalh\u00e3es\u201d.<\/p>\n<p>Reproduzo, para deleite dos que me ouvem, o quase aned\u00f3tico di\u00e1logo do nosso teatr\u00f3logo maior com o vate ora lembrado.<\/p>\n<p>O fato ocorreu depois da busca de emprego nos teatros do Rio:\u00a0<em>Encontramo\u2011nos dias depois: \u2013 Sabe? \u2013 disse\u2011me ele \u2013\u00a0empreguei\u2011me ontem. \u2013 Sim? Em que teatro? \u2013 Num teatro de modas e novidades: no armarinho [do sr. C.], \u00e0 Rua da Quitanda. \u2013 Parab\u00e9ns, se est\u00e1 sa tisfeito. \u2013 Satisfeit\u00edssimo: desempreguei\u2011me hoje. \u2013 Oh!&#8230; \u2013 Que quer v.? Decididamente n\u00e3o me reconcilio com o diabo do com\u00e9rcio!<\/em><\/p>\n<p>Um outro momento, de que se tem registro da verve e das desditas de Adelino Fontoura, ocorrera anos antes, ainda no Maranh\u00e3o:<\/p>\n<p>Novamente, recorro a Artur Azevedo, que relata o primeiro encontro dos dois no Rio de Janeiro, quando conta por que Adelino n\u00e3o queria mais ser ator. Ocorrera que uma senhora da alta sociedade ludovicense fora processada criminalmente, porque seviciara um menino, seu escravo, o qual, em consequ\u00eancia, falecera. Um conceituado m\u00e9dico local, para evitar que a ilustre dama fosse condenada, forneceu um atestado, registrando <em>ancil\u00f3stomo<\/em> como a <em>causa<\/em> <em>mortis.<\/em> Foi o bastante para aquele profissional virar chacota na boca do povo. A estudantada do Liceu aproveitou bem a oportunidade para, tamb\u00e9m, fazer suas tro\u00e7as. Nas paredes da cidade, de repente, escrita a carv\u00e3o, lia-\u00adse <em>ancil\u00f3stomo.<\/em><\/p>\n<p>Uma companhia de com\u00e9dia estava na cidade com a pe\u00e7a <em>Os m\u00e9dicos. <\/em>E Adelino fazia parte do elenco. A certa altura do espet\u00e1culo, quando ele auscultava um \u201cpaciente\u201d, para identificar-\u00adlhe a doen\u00e7a, levantou a voz e perguntou seriamente: \u201cN\u00e3o ser\u00e1 um ancil\u00f3stomo?\u201d. Foi o bastante para a plateia prorromper numa gostosa e un\u00edssona gargalhada. Resultado: quando Adelino j\u00e1 se retirava do teatro, dois soldados prenderam-\u00adno por ordem do dr. chefe de pol\u00edcia, tudo sem qualquer explica\u00e7\u00e3o. O ator, nosso conterr\u00e2neo, saiu muito ressabiado do epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>O talento de Adelino Fontoura brotou, na sua plenitude, no Rio de Janeiro, quando surpreende \u201cem si uma tend\u00eancia flagrante para as belas letras\u201d. \u00c1lvares de Azevedo Sobrinho comenta que Adelino, \u201cantes de tudo, foi um grande, um riqu\u00edssimo poeta. Ele tinha uma imagina\u00e7\u00e3o poderosa e levantada e conhecia melhor do que ningu\u00e9m os segredos da arte\u201d. Antes, j\u00e1 destacara Alu\u00edsio Azevedo: \u201cSabe fazer versos e, quando algu\u00e9m o desagrada, ele ataca seis adjetivos e oito adv\u00e9rbios explosivos, que atordoam o advers\u00e1rio. De resto, um car\u00e1ter perfeito. Tem garras ferinas no estilo, mas penugens ang\u00e9licas no cora\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 na imprensa que se revelam os primeiros sinais de sua intelig\u00eancia privilegiada. Em 1880, \u00e9 admitido por Manuel Carneiro na <em>Folha Nova,<\/em> onde estreita rela\u00e7\u00f5es com Hugo Leal. O pai desse amigo era Ant\u00f4nio Henriques Leal, escritor e maranhense ilustre, \u201cem cuja casa (Adelino) encontrara paternal hospitalidade\u201d. Eu acrescentaria: onde encontrou uma sobrinha do autor do <em>Panteon maranhense,<\/em> e por ela apaixonou-se perdidamente. Essa jovem tornou-\u00adse sua misteriosa musa inspiradora. Nunca, por\u00e9m, se permitiu revelar-\u00adlhe o segredo aninhado em seu cora\u00e7\u00e3o: al\u00e9m de franzino, cabe\u00e7a redonda e grande, nosso poeta n\u00e3o tinha posses nem t\u00edtulos, e passava grandes priva\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Lopes Trov\u00e3o, propriet\u00e1rio de <em>O Combate,<\/em> consagrado \u00e0 propaganda republicana, iniciou\u00ad-o na grande imprensa. Foi a\u00ed, e nessa ocasi\u00e3o, que o nosso bardo escreveu o terceiro cap\u00edtulo de um romance, <em>O imbroglio, <\/em>em parceria com vinte autores<em>,<\/em> e publicou poemas seus.<\/p>\n<p>Esse jornal deixou de circular. E Ferreira de Meneses, em 1882, convidou-\u00ado para ser redator da <em>Gazeta da Tarde,<\/em> que acabava de fundar, isto porque \u201clhe apreciara o talento invulgar n\u2019<em>O Combate\u201d.<\/em> Redator da <em>Gazeta,<\/em> escreveu tamb\u00e9m na <em>Gazetinha.<\/em> Segundo Artur Azevedo, ambas \u201cs\u00e3o o reposit\u00f3rio dos melhores escritos em prosa e verso\u201d de Adelino.<\/p>\n<p>A <em>Gazeta da Tarde,<\/em> posteriormente, foi adquirida por Jo s\u00e9 do Patroc\u00ednio e Adelino Fontoura foi mantido na fun\u00e7\u00e3o de redator. Sua reputa\u00e7\u00e3o continuou crescendo a ponto de, em\u00a0pouco tempo, ser distinguido com a miss\u00e3o de correspondente do jornal em Paris.<\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de maio de 1883, Adelino Fontoura embarcou no vapor Gironde. Seu destino final era a capital francesa. Antes dessa data, por ser \u00edntimo da casa de Henriques Leal, vira sua musa enamorar\u00ad-se e casar\u00ad-se com outro homem. Por coincid\u00eancia, os rec\u00e9m\u00ad-casados, em lua de mel, viajaram no mesmo dia e no mesmo vapor em que o poeta era passageiro. Pode-\u00adse imaginar a ang\u00fastia e o desespero de Adelino ao ver a bordo \u201cas naturais expans\u00f5es de amor daquela mulher, que era seu \u00fanico amor, ligada a outro homem, seu leg\u00edtimo esposo\u201d.<\/p>\n<p>De Paris, enviou bem elaboradas mat\u00e9rias, onde havia \u201cespl\u00eandidas revela\u00e7\u00f5es da nota po\u00e9tica que sempre dava a todos os seus escritos\u201d. Dessas, s\u00e3o citadas, como primorosas, a descri\u00e7\u00e3o da data nacional, o l4 de Julho, e o estudo sobre a vida e obra do poeta Victor Laprade e do historiador Henri Martin, por ocasi\u00e3o do falecimento desses dois grandes nomes da Literatura Francesa.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Jer\u00f4nimo de Viveiros, Adelino, sobre aquela data magna francesa, \u201cdescreveu ponto por ponto da cidade de Paris, procurando todas as recorda\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas [&#8230;], que mais parecia[m] uma tela espl\u00eandida, onde se refletiam os acontecimentos narrados em escrito feito <em>currente calamo<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O longo tempo da travessia do Atl\u00e2ntico, sua decep\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o amorosas, o inverno da Fran\u00e7a, a vida bo\u00eamia que tivera e as dificuldades financeiras pelas quais passou, minaram-\u00adlhe a sa\u00fade.<\/p>\n<p>De Paris viajou para Portugal em busca de melhora da sa\u00fade. Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio foi encontr\u00e1-\u00adlo, na expectativa de convenc\u00ea\u00ad-lo a embarcar de volta para o Brasil. Contudo, Adelino faleceu no dia 2 de maio de 1884, no Real Hospital de S\u00e3o Jos\u00e9, em Lisboa. Seus restos mortais jazem na carneira n\u00ba 5.244, no Cemit\u00e9rio Oriental, na capital lusitana.<\/p>\n<p>Nas hist\u00f3rias da literatura brasileira, que cada um escreveu, S\u00edlvio Romero, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Ronald Carvalho, nenhum deles menciona sequer a exist\u00eancia de Adelino Fontoura. Em <em>Panorama da literatura brasileira,<\/em> de Afr\u00e2nio Peixoto, todavia, \u00e9 contemplado, bem como em <em>Obras\u2011primas da l\u00edrica brasileira,<\/em> de Manuel Bernardes e Edgar Cavalheiro. Fora do pa\u00eds, Victor Orban inscreveu\u00ad-o na sua <em>Litt\u00e9rature br\u00e9silienne.<\/em><\/p>\n<p>A obra de Adelino Fontoura foi produzida por um talento despreocupado, que a deixou dispersa ao longo do seu caminho. Acredito que n\u00e3o sup\u00f4s morrer t\u00e3o cedo. Seus amigos e admiradores fizeram v\u00e1rias tentativas para reunir-\u00adlhe a obra: Artur Azevedo, Coelho Neto, Alberto Faria, Escragnolle D\u00f3ria e Alberto de Oliveira. A <em>Revista da Academia<\/em> (n\u00fameros 93 e 117) publicou as suas poesias conhecidas. Pelo centen\u00e1rio de seu nascimento e por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, M\u00facio Le\u00e3o garimpou as pedras preciosas, cuidando da organiza\u00e7\u00e3o e anota\u00e7\u00e3o em cada uma delas; e publicou, no suplemento Autores e Livros, cerca de quarenta poesias e alguns trabalhos de prosa. Isso permitiu-\u00adlhe comentar a vida e a obra do poeta, quando saiu, em 1955, o volume <em>Dispersos,<\/em> na s\u00e9rie In\u00e9dita, da Cole\u00e7\u00e3o Afr\u00e2nio Peixoto.<\/p>\n<p>O n\u00famero de fontes bibliogr\u00e1ficas sobre esse vate maranhense vem crescendo, o que significa um reconhecimento, embora tardio. Seu talento vers\u00e1til revelou\u00ad-se tamb\u00e9m em quintilhas. E ainda mereceu de Josu\u00e9 Montello o t\u00edtulo de Mestre do Triol\u00e9.<\/p>\n<p>Quando a Academia Brasileira de Letras surgiu, em 1897, Adelino Fontoura, 12 anos depois de sua morte, foi lembrado para ser o patrono da Cadeira n\u00ba. 1, por iniciativa do fundador desta, Lu\u00eds Murat. Ivan Lins que, anos depois, foi ocupante dessa cadeira, diz: \u201cA impress\u00e3o deixada por Adelino\u00a0na roda bo\u00eamia que frequentou foi de tal ordem [&#8230;] que os organizadores da Academia acharam perfeitamente cab\u00edvel faz\u00ea-\u00adlo patrono da cadeira fundada pelo vate de <em>Ondas\u201d.<\/em> Agora, declino eu os nomes: organizadores da estirpe de um Medeiros de Albuquerque, L\u00facio Mendon\u00e7a, Machado de Assis e Joaquim Nabuco deram o aval para essa indica\u00e7\u00e3o consagradora. Ali\u00e1s, diga-\u00adse, repetindo Afr\u00e2nio Peixoto, que foi um seguro de vida liter\u00e1ria com que o aquinhoaram.<\/p>\n<p>Adelino Fontoura, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, teve uma vida que me surpreende. Para mim, \u00e9 um g\u00eanio. Nascido em um povoado do interior do Maranh\u00e3o, com apenas instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, muito pobre, sem qualquer linhagem fidalga ou elevada posi\u00e7\u00e3o social, morrendo aos 25 anos de idade, sepultado longe da p\u00e1tria, sem ter publicado um livro sequer, imp\u00f4s-\u00adse intelectualmente no Rio de Janeiro e veio a ser patrono da Cadeira n\u00b0 1 da Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p>O que se escreveu na <em>Pacotilha<\/em>, no primeiro anivers\u00e1rio de falecimento daquele de quem ora fazemos o paneg\u00edrico, bem serviria para ser o seu epit\u00e1fio:<\/p>\n<p><em>Na aurora da exist\u00eancia, tendo criado para si uma reputa\u00e7\u00e3o invej\u00e1vel de jornalista e poeta, pela per\u00edcia inexced\u00edvel com que manejava a pena e pela facilidade com que do seu estro divino irrompiam as rimas entre fulgura\u00e7\u00f5es espl\u00eandidas de imagens cinzeladas no fundo de sua imagina\u00e7\u00e3o, foi ele mais um maranhense cuja mem\u00f3ria faz honra a esta prov\u00edncia.<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s, seus conterr\u00e2neos em geral, ainda n\u00e3o conhecemos tudo sobre Adelino Fontoura. Lembro\u00ad-me que Afonso Taunay, o sucessor de Lu\u00eds Murat na Academia Brasileira de Letras, apenas citou o nome de Adelino \u201csem tecer qualquer coment\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Ele enfrentou uma vida de adversidades e venceu a morte com a for\u00e7a do seu talento. Adelino Fontoura a tudo sobreviveu. Nem a vida nem a morte conseguiram p\u00f4\u00ad-lo no anonimato.<\/p>\n<p>Apesar disso, cumpre ter sempre lembrado o apelo de \u00c1lvares de Azevedo Sobrinho, em 1890:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o deixemos esquecer inteiramente o nome de Adelino Fontoura. Procuremos os meios necess\u00e1rios para encontrar os seus trabalhos, escavemos as bibliotecas, os folhetos, os almanaques, as cole\u00e7\u00f5es de jornais e fa\u00e7amos um ramalhete das flores de seu talento.<\/em><\/p>\n<p>Ao empossar\u00ad-me na Cadeira que tem o artista de Atra\u00e7\u00e3o e Repuls\u00e3o como patrono, creio ser do meu dever assumir, perante esta distinta assembleia, o compromisso de contribuir, na medida das minhas possibilidades, para tornar mais conhecido e admirado esse poeta maranhense.<\/p>\n<p>Diferentemente de Adelino, tive a fortuna de residir com meus pais at\u00e9 os vinte e cinco anos de idade. Eles tiveram um papel importante na minha vida, eu diria decisivo.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, apesar do pouco tempo dispon\u00edvel, depois dos afazeres dom\u00e9sticos, lia muito. Fazia economia com o dinheiro das despesas da casa e comprava romances em fasc\u00edculos. Presumo que poucas pessoas, das que aqui est\u00e3o, sabem que se vendia nesta cidade, de porta em porta, nos bairros pobres, romances em fasc\u00edculos. Ela me incutiu o gosto pela leitura, contando-\u00adme, por exemplo, hist\u00f3rias do lend\u00e1rio rei Artur e os Cavaleiros da T\u00e1vola Redonda, d\u2019<em>Os tr\u00eas mosqueteiros<\/em>; e trechos de <em>Os miser\u00e1veis,<\/em> de Victor Hugo. Ela me iniciou, a seu modo, na literatura universal. Creio que isso me fez ser encontrado muitas vezes, na minha adolesc\u00eancia e mocidade, nesta Casa de Ant\u00f4nio Lobo, quando aqui funcionava a Biblioteca P\u00fablica. Com certeza, vinha guiado pela m\u00e3o invis\u00edvel de minha m\u00e3e, para ler os livros que eu n\u00e3o podia comprar: <em>O tesouro da juventude,<\/em> cl\u00e1ssicos da literatura e at\u00e9 livros did\u00e1ticos. Esta \u00e9 a raz\u00e3o por que lhe rendo uma especial homenagem <em>post mortem,<\/em> na v\u00e9spera de seu anivers\u00e1rio de nascimento.<\/p>\n<p>Hoje, depois de tantos e muitos anos, volto a esta Casa n\u00e3o mais como leitor ass\u00edduo, mas como o mais novo membro desta confraria intelectual que generosamente me aceitou. Agrade\u00e7o a todos a elei\u00e7\u00e3o e a oportunidade do conv\u00edvio fraterno e amigo que me oferecem, para aqui cultivar as cousas da intelig\u00eancia, do cora\u00e7\u00e3o, do esp\u00edrito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Franklin de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p>A Cadeira em que vou sentar\u00ad-me foi fundada, em 1948, por Jos\u00e9 Ribamar de Oliveira Franklin da Costa. O nome liter\u00e1rio Franklin de Oliveira foi proposto pela criatividade de Dante Costa e Joel Silveira, seus amigos, no Rio de Janeiro. Franklin n\u00e3o queria usar o nome inteiro nem um fragmento de nome, como chega a confessar. Posteriormente, \u00e9 certo, passou a chamar-\u00adse, legalmente, Franklin de Oliveira.<\/p>\n<p>Louvo o fundador da Cadeira n\u00ba 38 pela escolha do patrono. Eu sei que ele as leu, assim como eu as li, as severas cr\u00edticas de Humberto de Campos quando, com sua verrina, trata das obscuridades e d\u00favidas na hist\u00f3ria e evolu\u00e7\u00e3o das duas academias, a Francesa e a Brasileira. E a\u00ed, traz \u00e0 baila os \u201cilustr\u00edssimos desconhecid\u00edssimos\u201d intelectuais, referindo-\u00adse, entre outros, ao patrono da Cadeira n\u00ba. 1 da Academia Brasileira de Letras, ao qual negava m\u00e9rito para ser patrono.<\/p>\n<p>Quem escolheu Adelino para patrono, na Academia Brasileira, foi o fundador da cadeira, Lu\u00eds Murat. F\u00ea-\u00adlo cerca de doze anos depois da morte daquele poeta. Eram amigos. Conheceram-\u00adse mutuante no plano intelectual, que os aproximou. Se a indica\u00e7\u00e3o foi obra do sentimento, sem nenhuma d\u00favida o foi, ao mesmo tempo, da intelig\u00eancia. O fundador da cadeira sabia bem avaliar suas decis\u00f5es; era, al\u00e9m de fil\u00f3sofo, homem de grande cultura, liter\u00e1ria e cl\u00e1ssica. Ivan Lins, um dos seus sucessores na Cadeira n\u00ba 1, confirmando essas qualidades intelectuais, disse ainda a respeito de seu antecessor: era \u201c\u00edntimo de Homero, \u00c9squilo, S\u00f3focles, Eur\u00edpedes, Plat\u00e3o, Hes\u00edodo, P\u00edndaro, Shakespeare, Dante, V\u00edtor Hugo e Augusto Comte\u201d.<\/p>\n<p>Quando Franklin de Oliveira indicou Adelino Fontoura para patrono da Cadeira de que irei ser titular, fez-\u00adlhe um reconhecimento p\u00fablico, a exemplo de Lu\u00eds Murat. Foi com esse gesto de grandeza rara, com a marca de intelectual brilhante, que Franklin de Oliveira resgatou a mem\u00f3ria do poeta nascido \u00e0 margem esquerda do rio Munim, para ser sempre lembrado entre n\u00f3s, assim como \u00e9 lembrado em sua terra natal pela rua que tem seu nome. \u00c9 o sentimento de justi\u00e7a, no epis\u00f3dio revelado, sem d\u00favida, uma das caracter\u00edsticas da personalidade desse homem de imprensa, cronista, redator pol\u00edtico, cr\u00edtico liter\u00e1rio e escritor erudito.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero ressaltar-\u00adlhe, hoje, apenas o sentimento de justi\u00e7a; quero ressaltar\u00ad-lhe, tamb\u00e9m, o sentimento de solidariedade humana. Franklin de Oliveira era um inconformado com a mis\u00e9ria e o sofrimento humanos. Isso explica suas andan\u00e7as di\u00e1rias pelos bairros pobres de S\u00e3o Lu\u00eds, acompanhando o dr. Odorico Amaral de Mattos, que se fizera ap\u00f3stolo da inf\u00e2ncia desvalida desta cidade. Creio que os sentimentos de solidariedade e de justi\u00e7a e esse conhecimento da realidade atrav\u00e9s de suas peregrina\u00e7\u00f5es pelos bairros, levaram-\u00adno \u00e0 op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo socialismo. Para ele, era a solu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais. Creio, tamb\u00e9m, que Jos\u00e9 Maria dos Reis Perdig\u00e3o, revolucion\u00e1rio devoto, deve ter-\u00adlhe refor\u00e7ado as convic\u00e7\u00f5es socialistas, quando trabalharam no <em>Di\u00e1rio da Tarde.<\/em><\/p>\n<p>Nasceu, esse nosso ilustre conterr\u00e2neo, em S\u00e3o Lu\u00eds, aos 12 dias de mar\u00e7o de 1916, e deixou sua terra natal aos 22 anos, para fixar-\u00adse no antigo Estado da Guanabara, hoje, novamente Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Enquanto aqui conviveu com sua fam\u00edlia, aprendeu teoria musical com o maestro Pedro Gromwell e violino com Henrique Blum. O fato n\u00e3o \u00e9 surpresa, porque seus pais, Waldimir Franklin da Costa e Guiomar Oliveira da Costa, eram amantes da boa m\u00fasica. Um quinteto dom\u00e9stico, \u201ctodas as noites, ap\u00f3s o jantar, executava as partituras de prefer\u00eancia da fam\u00edlia\u201d. Ao piano, a filha Ibana; com o bandolim italiano, a m\u00e3e, e com tr\u00eas violinos, os filhos Heitor, Dan\u00fazio e Franklin. Certamente, esse registro pode explicar a raz\u00e3o por que Franklin de Oliveira ir\u00e1 assinar uma coluna sobre m\u00fasica no <em>Correio da Manh\u00e3<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive o privil\u00e9gio de conhecer pessoalmente Franklin de Oliveira. Conheci seu irm\u00e3o Gast\u00e3o e sua irm\u00e3 Guiomar, minha colega de turma ginasial, hoje freira da Congrega\u00e7\u00e3o de Santa Doroteia, em Bel\u00e9m do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Franklin fez seus primeiros estudos no Col\u00e9gio S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga, concluindo o curso secund\u00e1rio no Liceu Maranhense. \u201cNa sua vida liter\u00e1ria foi estimulado pelos seus mestres Nascimento Moraes, Ruben Almeida, Mata Roma, Alcides Costa&#8230;\u201d, mestres de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, inclusive da minha. Ant\u00f4nio Lopes foi, todavia, seu mestre de maior influ\u00eancia: chegou a matricular-\u00adse na Faculdade de Direito somente \u201cpara usufruir mais intensamente o conv\u00edvio [com ele]\u201d.<\/p>\n<p>Posso imaginar a atra\u00e7\u00e3o intelectual exercida por Ant\u00f4nio Lopes na mocidade maranhense. Para mim, o curso de Direito somente teve dimens\u00e3o e apaixonante grandeza, porque fui aluno dele em Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Ci\u00eancia do Direito. Um s\u00e1bio, que me ajudou a encontrar o prazer na leitura da Teoria do Direito e do Estado, da Filosofia e da Sociologia Jur\u00eddicas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa breve digress\u00e3o sobre o grande mestre Ant\u00f4nio Lopes, volto a tratar de Franklin de Oliveira. Sua voca\u00e7\u00e3o para o jornalismo cedo revelou\u00ad-se: aos treze anos j\u00e1 era redator d\u2019<em>A<\/em> <em>Tribuna,<\/em> jornal de seu tio Agnelo Costa. Ainda em S\u00e3o Lu\u00eds, militou, ao lado de grandes nomes da imprensa: em <em>O Imparcial,<\/em> com Ant\u00f4nio Lopes; na <em>Folha do Povo,<\/em> com Tarqu\u00ednio Lopes Filho; na <em>Pacotilha,<\/em> com Nascimento Moraes; no <em>Di\u00e1rio do Norte<\/em>, novamente com Ant\u00f4nio Lopes, e no <em>Di\u00e1rio da Tarde<\/em>, com Reis Perdig\u00e3o, que restaurava a tradi\u00e7\u00e3o do jornalismo doutrin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pertenceu ao Cen\u00e1culo Gra\u00e7a Aranha, onde continuou aperfei\u00e7oando seus pendores liter\u00e1rios. Seu pai, primo-\u00adirm\u00e3o do poeta Vespasiano Ramos, incutira-\u00adlhe o gosto pela literatura. Depois, buscou conhecer os autores maranhenses. Com eles teve intimidade devido a suas leituras e pesquisas na famosa biblioteca particular de Wilson Soares; o acesso a ela foi-\u00adlhe propiciado por Jos\u00e9 Neves de Andrade, seu amigo.<\/p>\n<p>Em fins de mar\u00e7o de 1938, com Manoel Caetano Bandeira de Mello, partiu, a bordo do Comandante Ripper, para a antiga capital federal, onde passou a residir. Abandoncias vou o curso jur\u00eddico em que aqui ingressara.<\/p>\n<p>L\u00e1, com o artigo Riso e Ternura da Hungria, estreia suas atividades liter\u00e1rias no seman\u00e1rio <em>Dom Casmurro,<\/em> dirigido por \u00c1lvaro Moreyra<em>.<\/em> Come\u00e7a a fazer seu c\u00edrculo de amizades, que conta, entre outros, com Joel Silveira, Jorge Amado, Marques Rebelo, Victor Nunes Leal e C\u00e2ndido Portinari; depois ampliado com a participa\u00e7\u00e3o de Mill\u00f4r Fernandes, H\u00e9lio Fernandes, Herberto Sales e Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p>Suas afinidades intelectuais levaram\u00ad-no a aproximar\u00ad-se de maranhenses como Josu\u00e9 Montello, j\u00e1 festejado escritor; como Ara\u00fajo Castro, destacado diplomata e \u201cprofundo conhecedor da Literatura Inglesa\u201d; como Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, figura proeminente como estudioso da economia nacional; como Viegas Neto, que, na imprensa paulista, iria\u00a0destacar\u00ad-se como comentarista pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Com a milit\u00e2ncia anterior no jornalismo di\u00e1rio, foi-\u00adlhe f\u00e1cil ingressar nas reda\u00e7\u00f5es da imprensa carioca. Destacou\u00ad-se em <em>A Not\u00edcia<\/em>, <em>O Radical, Di\u00e1rio da Noite, Boletim Mercantil, Correio da Manh\u00e3<\/em>; e manteve se\u00e7\u00f5es nas revistas <em>O Cruzeiro <\/em>(Sete Dias), <em>A Cigarra <\/em>(Imagens do Instante Perdido), <em>Letras e Artes<\/em> (As Horas Antigas), e, por \u00faltimo, na revista <em>Senhor\/Isto\u00a0\u00c9.<\/em><\/p>\n<p>Para obter o emprego em <em>A Not\u00edcia, <\/em>foi submetido a um dif\u00edcil concurso: teve de escrever um editorial sobre a invas\u00e3o da Tchecoslov\u00e1quia por Hitler; um artigo sobre a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico\u00ad-social do Brasil e, por \u00faltimo, uma cr\u00f4nica liter\u00e1ria e uma croniqueta de abertura da coluna social. Quinze dias depois, recebeu a not\u00edcia de sua aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O <em>Correio da Manh\u00e3<\/em> era um nicho de intelectuais do porte de Ant\u00f4nio Callado (redator-\u00adchefe) e \u00c1lvaro Lins (editorialista). Quando este foi fazer a campanha presidencial de Juscelino Kubitschek, teve por substituto Franklin de Oliveira, que revezava com Otto Maria Carpeaux na assinatura da cr\u00edtica liter\u00e1ria. Nosso intelectual e conterr\u00e2neo exerceu ali, tamb\u00e9m, a fun\u00e7\u00e3o de principal redator pol\u00edtico por escolha direta de Paulo Bittencourt, o dirigente principal daquele jornal.<\/p>\n<p>Foi redator-\u00adchefe, numa das fases mais dif\u00edceis daquele matutino: a \u00e9poca dos governos militares. Parece que estou ouvindo o jornalista Carlos Tavares a dizer\u00ad-lhe: [&#8230;] \u201cporque conservou o esp\u00edrito insuborn\u00e1vel, mesmo nos momentos mais amargos \u2013 o da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da deser\u00e7\u00e3o dos amigos \u2013 voc\u00ea teve amigos a seu lado e foi a sua coragem que os reteve\u201d. Desejo agregar, agora, \u00e0s virtudes da justi\u00e7a e da solidariedade, um novo valor destacado da personalidade de quem ora te\u00e7o o enc\u00f4mio: a coragem perante a vida, a forte resist\u00eancia \u00e0 adversidade. Sabe\u00ad-se que essa qualidade herdou-\u00ada do pai, Waldimir Franklin da Costa.<\/p>\n<p>Creio que o nosso homenageado era um grande sentimental e um temperamental. N\u00e3o dava lugar para a pequenez de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>C\u00e2ndido Campos, quando dirigia <em>A Not\u00edcia,<\/em> levava o pessoal da reda\u00e7\u00e3o, diariamente, para um verdadeiro almo\u00e7o em uma confeitaria em frente ao jornal. Franklin n\u00e3o acompanhava o grupo. Certa feita, o chefe perguntou a Franklin, por que n\u00e3o ia ao rega\u00adbofe. A resposta veio curta, embora delicada: \u201cPorque n\u00e3o quero\u201d. C\u00e2ndido Campos n\u00e3o gostou e disse-\u00adlhe que gente orgulhosa e altiva com ele n\u00e3o trabalhava. Foi o bastante para Franklin imediatamente levantar-\u00adse, vestir o palet\u00f3 e deixar o emprego. Por tr\u00e1s daquele temperamento indom\u00e1vel, estava a defesa do direito \u00e0 liberdade de escolha. Tempos depois, C\u00e2ndido Campos redimiu-\u00adse, convidando o \u201corgulhoso e altivo\u201d para um jantar especial em sua casa; ao final, disse-\u00adlhe: \u201cO seu lugar em <em>A Not\u00edcia <\/em>est\u00e1 lhe esperando. Quero v\u00ea\u00ad-lo l\u00e1, amanh\u00e3, na hora habitual\u201d.<\/p>\n<p>Trabalhava em <em>O Cruzeiro,<\/em> quando Assis Chateaubriand, diretor-\u00adpresidente dos Di\u00e1rios Associados, foi lan\u00e7ado candidato a senador pelo Maranh\u00e3o. Franklin foi chamado para apoiar o dono da revista em que trabalhava; recusou-\u00adse, por entender que a candidatura fora imposta e era produto de arranjos pol\u00edticos. As consequ\u00eancias vieram. N\u00e3o puderam demiti-\u00adlo, por proibi\u00e7\u00e3o legal, pois tinha cerca de doze anos de casa. Mas as intimida\u00e7\u00f5es n\u00e3o cessaram. Cortaram-\u00adlhe a coluna que escrevia. Dava\u00ad-se, ainda, curso a avisos de que teria de mudar de profiss\u00e3o, porque Chateaubriand, como retalia\u00e7\u00e3o, faria tudo para que ele n\u00e3o mais conseguisse emprego em qualquer jornal carioca. Apesar da for\u00e7a das press\u00f5es, n\u00e3o se dobrou. Mas as partes chegaram a um acordo de demiss\u00e3o \u201camig\u00e1vel\u201d e justa, com os oportunos pr\u00e9stimos de Victor Nunes Leal.<\/p>\n<p>De outra feita, quando era editor internacional do <em>Di\u00e1rio da Noite, <\/em>recebeu not\u00edcia, vinda de S\u00e3o Lu\u00eds, de que a senhora sua m\u00e3e estava em coma, pois tivera um derrame cerebral. S\u00f3\u00a0lhe faltava licen\u00e7a do servi\u00e7o para viajar pelo hidroavi\u00e3o que o traria a esta capital. O primo, Jos\u00e9 Serra, empres\u00e1rio no Rio de Janeiro, iria financiar\u00ad-lhe a compra da passagem. Foi, ent\u00e3o, direto ao gabinete do editor\u00ad-chefe, Carlos Eiras, a quem contou o que estava ocorrendo e disse que queria permiss\u00e3o para viajar, sem \u00f4nus para o jornal. Ouviu um grosseiro e sonoro n\u00e3o. Reagiu e gritou-\u00adlhe alguns palavr\u00f5es. E viajou. Por tr\u00e1s daquela rea\u00e7\u00e3o, estava outro sentimento profundo: a exig\u00eancia de respeito ao ser humano e do atendimento \u00e0s suas necessidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1, em contraposi\u00e7\u00e3o, fatos que denunciam seu lado sentimental intensamente cultivado. \u00c9 isso que explica por que Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa escreveu um poema (Grande Louva\u00e7\u00e3o Pastoril \u00e0 Linda Lygia Maria), para celebrar o nascimento da neta de Franklin de Oliveira. Isso denota o imenso lado afetivo que alimentava entre amigos. Li a dedicat\u00f3ria de um livro de sua autoria, onde expressa a lhaneza de trato a entes queridos: \u201cAo trio da<\/p>\n<p>Poesia \u2013 Arlete, Nauro, Frederico \u2013 com o abra\u00e7o muito afetuoso&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Era um excelente profissional da pena, com intensa e f\u00e9rtil atividade.<\/p>\n<p>Em tudo quanto escreveu, e que se eleva, pela soma, \u00e0 casa dos milhares, entre cr\u00f4nicas, editoriais, artigos, resenhas, ensaios breves, verbetes de enciclop\u00e9dias e trabalhos especialmente elaborados para livros, Franklin de Oliveira p\u00f4s sua alma e seu cora\u00e7\u00e3o. E mais que isso: p\u00f4s a for\u00e7a admir\u00e1vel de seu talento e o peso incomum de sua erudi\u00e7\u00e3o, que era rara, pela vastid\u00e3o que dominou. Ia da literatura \u00e0 m\u00fasica, das artes pl\u00e1sticas \u00e0 sociologia, \u00e0 economia e \u00e0 pol\u00edtica, no elevado sentido de promover o bem comum.<\/p>\n<p>O cronista, que rapidamente conquistou a admira\u00e7\u00e3o nacional com uma se\u00e7\u00e3o, publicada em <em>O Cruzeiro,<\/em> logo reuniria esses trabalhos no volume intitulado <em>Sete dias. A fantasia exata<\/em>, que viria depois, \u00e9 um conjunto de percucientes ensaios sobre literatura e m\u00fasica, assim como segue a mesma linha seu livro <em>Viola d\u00b4amore.<\/em><\/p>\n<p>O inconformado social, que ele foi, clama sua revolta em <em>A trag\u00e9dia da renova\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>, quando denuncia a mis\u00e9ria dentro do progresso, nos estados de Minas Gerais e S\u00e3o Paulo. Mant\u00e9m\u00ad-se ele na mesma linha de pensamento em <em>Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o <\/em>e em <em>Rio Grande do Sul: um novo Nordeste.<\/em><\/p>\n<p>O homem de cultura, que era ao mesmo tempo intelectual militante, faz uma candente den\u00fancia, um libelo, ainda hoje atual, em <em>Morte da mem\u00f3ria nacional,<\/em> que \u00e9 um veemente manifesto contra o descaso com que s\u00e3o tratados os valiosos bens do nosso patrim\u00f4nio cultural.<\/p>\n<p>Vale a pena mencionar outros livros de sua autoria: <em>Literatura e civiliza\u00e7\u00e3o; Euclydes: a espada e a letra; A Semana de Arte Moderna na contram\u00e3o da hist\u00f3ria e outros ensaios; A dan\u00e7a das letras: antologia cr\u00edtica.<\/em><\/p>\n<p>Escreveu <em>O morto e o vivo na revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>, que \u00e9 um ensaio de sociologia pol\u00edtica. Os originais, ainda em fase conclusiva, foram apreendidos pelo DOPS, na resid\u00eancia do autor, em 9 de abril de 1964. Nunca foram restitu\u00eddos.<\/p>\n<p>Quando exercia elevadas fun\u00e7\u00f5es na Petrobras, teve, por suas ideias e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, seus direitos pol\u00edticos cassados por dez anos pela Revolu\u00e7\u00e3o de 64. Retornou ao jornalismo e foi trabalhar em <em>O Globo<\/em>. Ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o do Ato Institucional N<sup>o<\/sup> 2, o ministro da Justi\u00e7a quis impedir, com determina\u00e7\u00e3o expressa, os jornalistas cassados de exercerem sua profiss\u00e3o. Roberto Marinho, corajosamente, naqueles dif\u00edceis tempos, n\u00e3o aceitou o arb\u00edtrio que atingia nosso conterr\u00e2neo e garantiu-\u00adlhe o trabalho. Com a anistia, o emprego na Petrobras foi reconquistado.<\/p>\n<p>Uma vez voltou a S\u00e3o Lu\u00eds, para tentar eleger-\u00adse deputado federal pelo Maranh\u00e3o. N\u00e3o conseguiu o n\u00famero de votos maior que o \u00faltimo dos eleitos. Nunca mais tentou.<\/p>\n<p>Seu talento e valor intelectual foram v\u00e1rias vezes reconhecidos e premiados os seus m\u00e9ritos.<\/p>\n<p>Eu mesmo, quando reitor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, propus ao Conselho Universit\u00e1rio, e este aprovou por unanimidade, fosse concedida a ele a Medalha Sous\u00e2ndrade do M\u00e9rito Universit\u00e1rio, a mais alta condecora\u00e7\u00e3o daquela Casa de Saberes.<\/p>\n<p>O Conselho de Literatura do Museu da Imagem e do Som, unanimemente, concedeu-\u00adlhe o Pr\u00eamio Golfinho de Ouro de Literatura do Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A Academia Brasileira de Letras, em 1982, por unanimidade de votos, conferiu-\u00adlhe o Pr\u00eamio Machado de Assis.<\/p>\n<p>A sec\u00e7\u00e3o paulista da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores designou\u00ad-o para proferir confer\u00eancia no V Congresso Nacional dos Escritores Brasileiros, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina. O tema sobre o qual discorreu foi A Miss\u00e3o Social do Escritor.<\/p>\n<p>A Mesa Redonda sobre Graciliamo Ramos, que a Editora \u00c1tica levou a efeito em S\u00e3o Paulo, teve a sua participa\u00e7\u00e3o, a de Antonio Candido, de Alfredo Bosi e de Jos\u00e9 Carlos Garbuglio.<\/p>\n<p>Ao lado de Jos\u00e9 Guilherme Merquior e Affonso Romano de Sant\u2019Anna, participou da Comiss\u00e3o Julgadora do Concurso de Literatura do Estado do Paran\u00e1, em 1981.<\/p>\n<p>No dia 6 de junho do ano passado, faleceu Franklin de Oliveira, aos 84 anos, no Rio de Janeiro. Jomar Moraes, presidente desta Casa de Intelectuais, fez um desej\u00e1vel registro do passamento do fundador da Cadeira n\u00ba. 38, no jornal <em>O Estado do Maranh\u00e3o. <\/em>Com a natural eleg\u00e2ncia de quem bem escreve, anota que o fato \u201cn\u00e3o teve, na grande imprensa, o destaque merecido. Notas sum\u00e1rias de revistas semanais, registros ligeiros e t\u00f3picos nas se\u00e7\u00f5es de obitu\u00e1rio foram tudo o que a grande imprensa entendeu dever a quem muito a engrandeceu\u201d.<\/p>\n<p>Concordo com o nosso Presidente quando, no citado artigo, invectiva o descaso com as cousas e as pessoas que contribuem para a constru\u00e7\u00e3o cultural deste pa\u00eds:<\/p>\n<p><em>[&#8230;] a pressa dos dias que vivemos e a acachapante superposi\u00e7\u00e3o de figuras que desfilam na m\u00eddia com um brilho que tanto satura quanto \u00e9 fugaz, parece haver instaurado o imp\u00e9rio do descart\u00e1vel que arquiva ou \u2018deleta\u2019 das aten\u00e7\u00f5es gerais valores efetivos e, por todos os motivos, dignos do tratamento que lhes vem sendo progressivamente negado.<\/em><\/p>\n<p>Ao lado desse e de outros momentos de censura, lembra, com propriedade e oportunidade, que \u201cFranklin deixou uma obra que responde por sua permanente lembran\u00e7a entre n\u00f3s, e que servir\u00e1 tamb\u00e9m de testemunho de sua atua\u00e7\u00e3o positiva na cena cultural brasileira de seu tempo\u201d. Reapresenta, tamb\u00e9m, o testemunho da qualidade e singularidade do trabalho do nosso conterr\u00e2neo, invocando a palavra erudita do saudoso Jos\u00e9 Guilherme Merquior, um indiscut\u00edvel grande valor da intelectualidade brasileira.<\/p>\n<p>Palavras finais<\/p>\n<p>Desculpem\u00ad-me, senhoras e senhores, a demora em concluir. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil falar sobre a vida de intelectuais cuja mem\u00f3ria n\u00f3s devemos cultuar. O que acabo de apresentar \u00e9 apenas uma s\u00edntese da riqueza intelectual de duas vidas. De acordo com disposi\u00e7\u00e3o do Regimento Interno desta Academia, o novo acad\u00eamico, ao empossar-\u00adse, apreciar\u00e1, obrigatoriamente, a personalidade e a obra do patrono de sua Cadeira e de seu antecessor imediato.<\/p>\n<p>Volto a frequentar esta Casa, que frequentei na minha adolesc\u00eancia, quando aqui funcionava a Biblioteca P\u00fablica.<\/p>\n<p>Naquele tempo, sentia-\u00adme feliz, porque satisfazia as minhas necessidades intelectuais e espirituais. Hoje, senti vontade de voltar para satisfazer, em plano bem elevado, aquelas mesmas necessidades. Que bom que meus agora confrades me acolheram. Lisonjeado e muito honrado aqui estou, reencontrando antigos companheiros de outras frentes de trabalho. Espero tudo fazer para n\u00e3o decepcionar. E tudo fazer, como j\u00e1 vem sendo feito pelos que aqui chegaram antes de mim, para o crescimento continuado do papel da Academia Maranhense de Letras na cultura deste Estado; isto \u00e9, o de reencontrar, no tempo, a Atenas Brasileira em sua grandeza e apogeu.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o este momento a Deus, a meus pais (<em>in memoriam<\/em>), a meus mestres, a minha esposa e filhos. Agrade\u00e7o aos confrades desta Oficina de Intelectuais. Agrade\u00e7o a presen\u00e7a das autoridades, que deram mais brilho a esta solenidade. Agrade\u00e7o aos parentes e amigos, inclusive \u00e0s sobrinhas de Franklin de Oliveira, S\u00edlvia e Cl\u00e1udia Helena, que\u00a0aqui vieram compartilhar comigo o prazer e o orgulho de ser membro da Academia Maranhense de Letras.<\/p>\n<p>\u00c9 o que gostaria de dizer-\u00adlhes nesta noite para mim festiva, de Poesia e Prosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds, a 17 de setembro de 1929. Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds e em Servi\u00e7o Social pela Escola de Servi\u00e7o Social da antiga Universidade do Maranh\u00e3o. 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