{"id":436,"date":"2014-02-25T12:15:04","date_gmt":"2014-02-25T12:15:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=436"},"modified":"2014-12-27T13:17:24","modified_gmt":"2014-12-27T13:17:24","slug":"lourival-de-jesus-serejo-sousa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/lourival-de-jesus-serejo-sousa\/","title":{"rendered":"Lourival de Jesus Serejo Sousa"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu na cidade de Viana, Maranh\u00e3o. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito P\u00fablico, pela Faculdade de Direito do Cear\u00e1, em 1980 e, posteriormente, em Direito Processual Civil pela Universidade Federal de Pernambuco, em conv\u00eanio com a Escola Superior da Magistratura do Maranh\u00e3o. Atualmente \u00e9 desembargador do Tribunal de Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de ingressar na magistratura, Lourival Serejo foi advogado e Promotor de Justi\u00e7a. Na magistratura j\u00e1 exerceu as seguintes atividades: Diretor da Escola Superior da Magistratura do Estado do Maranh\u00e3o, Juiz Auditor da Justi\u00e7a Militar, membro do Tribunal Regional Eleitoral do Maranh\u00e3o e Ouvidor do Tribunal de Justi\u00e7a do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Lourival Serejo ocupa a Cadeira n\u00ba 35 da Academia Maranhense de Letras. \u00c9 tamb\u00e9m membro fundador da Academia Maranhense de Letras Jur\u00eddicas, da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia Vianense de Letras.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p>Obras publicadas: <em>O<\/em> <em>pres\u00e9pio queimad<\/em>o, <em>Rua do porto, O baile de S\u00e3o Gon\u00e7alo,<\/em> <em>Do alto da Matriz, Na casa de Ant\u00f4nio Lobo, Da aldeia de Maracu \u00e0 Vila de Viana, Entre Viana e Viena <\/em>e<em> Pescador de mem\u00f3rias.<\/em><\/p>\n<p>Na \u00e1rea jur\u00eddica, Lourival Serejo tem v\u00e1rios trabalhos publicados nas principais revistas do pa\u00eds e os seguintes livros de sua autoria: <em>Contribui\u00e7\u00f5es ao estudo do Direito;<\/em> <em>Direito Constitucional da Fam\u00edlia;<\/em>\u00a0 <em>Provas il\u00edcitas no direito de fam\u00edlia; A fam\u00edlia partida ao meio; Forma\u00e7\u00e3o do Juiz: anota\u00e7\u00f5es de uma experi\u00eancia, Coment\u00e1rios ao C\u00f3digo de \u00c9tica da Magistratura Nacional <\/em>e<em> Os novos di\u00e1logos do direito de fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE POSSE<\/h5>\n<p>Ilustr\u00edssimo Senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras, na pessoa de quem sa\u00fado os demais membros da Mesa Diretora e os Acad\u00eamicos presentes,<\/p>\n<p>Excelent\u00edssimas Autoridades, Caros Confrades da Academia Maranhense de Letras Jur\u00eddicas, da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia Vianense de Letras e Representantes das demais Academias de Letras deste Estado,\u00a0Caros colegas da Magistratura, Ju\u00edzes e Desembargadores, Membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico estadual e do federal, Senhores\u00a0Advogados,<br \/>\nEstimados conterr\u00e2neos,<br \/>\nMeus familiares, Senhoras e Senhores:<\/p>\n<p><em>J\u00e1 tinha dito S\u00eaneca elegantemente, e disse depois com mais eleg\u00e2ncia S\u00e3o Bernardo, que a primeira parte do agradecimento, e as prim\u00edcias que mais agradam e\u00a0satisfazem a quem faz o benef\u00edcio, \u00e9 o gosto, a alegria e a estima\u00e7\u00e3o com que o mesmo benef\u00edcio se abra\u00e7a, aceita e recebe.<\/em><\/p>\n<p>Eis, senhores acad\u00eamicos, nestas palavras colhidas do padre Ant\u00f4nio Vieira, em seu Serm\u00e3o de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, o resumo dos meus sentimentos neste instante: o gosto, a alegria e a estima\u00e7\u00e3o pela honra e o elogio que recebi de vossas m\u00e3os em conceder\u00ad-me o privil\u00e9gio de entrar nesta Academia.<\/p>\n<p>Minha emo\u00e7\u00e3o tem a extens\u00e3o do ideal que plantei um dia: o de integrar o quadro dos membros da Casa de Ant\u00f4nio Lobo e o impacto de me ver pertencendo a um mundo, que nos meus tempos de gin\u00e1sio, s\u00f3 via como destinado aos grandes homens, cujas biografias vinham ao fim de cada texto do nosso livro de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Recebo os amigos e convidados nesta solenidade como testemunhas de um fato e de uma realiza\u00e7\u00e3o pessoal que me enleva de contentamento. Est\u00e3o aqui, chamados a vir ajudar o homenageado a suportar a for\u00e7a desta emo\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o se apoia e consola s\u00f3 os doentes, mas os vitoriosos tamb\u00e9m, porque o homem n\u00e3o \u00e9 uma ilha para experimentar, sozinho, dores e alegrias, sem o conforto do calor humano que o mant\u00e9m vivo e ligado a seu grupo social.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o a todos os presentes e aos meus familiares, especialmente \u00e0 minha mulher e aos meus filhos, que cultivaram para mim o ambiente prop\u00edcio para minhas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e jur\u00eddicas que me deram o passaporte para ser o merecedor desta solenidade.<\/p>\n<p>Permiti\u00ad-me, ainda, senhores acad\u00eamicos, que dedique esta noite aos meus pais ausentes na eternidade, Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa, que me apontaram os caminhos da vida, com o exemplo do trabalho, do estudo e da ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso deixar de compartilhar esta alegria e envaidecimento com todas aquelas personagens que visualizei do alto da matriz da minha terra, da minha cidade de Viana, daqueles perfis que circularam em torno da minha circunst\u00e2ncia e contribu\u00edram, de qualquer modo, para formar o feixe da minha personalidade.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 tamb\u00e9m uma noite vianense. Noite que me faz reviver os encantos daquela cidade que acolheu meus pais e onde nasci e vivi enlevado pelo imagin\u00e1rio de suas lendas, pelo aconchego de suas ruas estreitas, pela b\u00ean\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o do Maracu e pelo embalo das \u00e1guas do seu lago, que o poeta Astolfo Serra exalta em seus versos: \u201c\u00c1guas cristalinas, \u00e1guas azuladas,\/ Sempre murmurando em notas comovidas\/ As can\u00e7\u00f5es das flores, \u2014 l\u00e2mpadas perdidas,\/ Acendendo em chamas as p\u00e9talas douradas&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>De forma especial, minha posse relembra a dos quatro vianenses que j\u00e1 passaram por este mesmo momento de gl\u00f3ria: Astolfo Serra, Raimundo Lopes, Ant\u00f4nio Lopes e Carlos Gaspar. Vale lembrar ainda Celso Magalh\u00e3es, patrono da Cadeira N\u00ba 5 desta Academia. Alio\u00ad-me a eles como numa corrente de filhos orgulhosos de sua maternidade.<\/p>\n<p>Se eu for buscar a origem mais remota que marque o in\u00edcio da minha jornada, em dire\u00e7\u00e3o ao farol desta Casa, a encontrarei no dia em que retirei o primeiro livro de Monteiro Lobato da estante l\u00e1 de casa e comecei a sua leitura, ali mesmo, na sala de visita. Desde a\u00ed n\u00e3o parei mais; fui absorvido por um redemoinho de aventuras, emo\u00e7\u00f5es e prazer em cada leitura, at\u00e9 entregar\u00ad-me totalmente a esse v\u00edcio rejuvenescedor, a essa forma de felicidade, como dizia Jorge Luis Borges, desse mundo povoado de sonhos e da m\u00e1gica das palavras. Expressa bem esse estado de esp\u00edrito o poeta de nossa gera\u00e7\u00e3o tropicalista, Caetano Veloso, quando canta: \u201cMas os livros que em nossa vi da entraram\/ s\u00e3o como a radia\u00e7\u00e3o de um corpo negro\/ apontando pra expans\u00e3o do Universo\/ porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem d\u00favida, sobretudo o verso) \u00e9 o que pode lan\u00e7ar mundos no mundo\u201d.<\/p>\n<p>Depois, como uma consequ\u00eancia natural, veio a necessidade de expressar-\u00adme pela escrita. E esse intermin\u00e1vel of\u00edcio de escrever conduziu\u00ad-me ao atrevimento de publica\u00e7\u00f5es j\u00e1 realizadas e outras tantas em fase de planejamento.<\/p>\n<p>Vivendo esses est\u00edmulos, naturalmente senti\u00ad-me compelido a tentar uma vaga neste Sodal\u00edcio para conquistar um ambiente prop\u00edcio \u00e0 expans\u00e3o do meu ser\/literatura, como os p\u00e1ssaros de plumas iguais que se atraem. Entretanto, para externar esse desejo e depois torn\u00e1\u00ad-lo realidade, precisei do est\u00edmulo de amigos que me fizeram suplantar minha timidez, dando\u00ad-me o impulso para transpor os umbrais deste Cen\u00e1culo de Intelig\u00eancia e ser ungido pela imortalidade.<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o de acad\u00eamico \u00e9, a meu ver, a primeira condi\u00e7\u00e3o de admissibilidade em uma academia. Depois, afirmar-\u00adse como acad\u00eamico \u00e9 um processo permanente de aprimoramento que se perfaz pelo desempenho de atividades culturais, pela produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e pela conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao deparar\u00ad-me como membro de uma institui\u00e7\u00e3o t\u00e3o s\u00e9ria e respeit\u00e1vel que abriga em seu seio, por tradi\u00e7\u00e3o, a quintess\u00eancia da intelectualidade maranhense, questiono-\u00adme sobre a fun\u00e7\u00e3o que o intelectual deve desempenhar na comunidade para corresponder ao respeito que infunde. Na sociedade moderna, creio que n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para o intelectual nefelibata, alheio \u00e0s renova\u00e7\u00f5es do mundo. A participa\u00e7\u00e3o nos grandes debates sociais deve ser a t\u00f4nica para servir\u00ad-lhe de est\u00edmulo e atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Norberto Bobbio, que foi um intelectual org\u00e2nico, participativo, em sua obra <em>Os intelectuais e o poder,<\/em> faz um alerta que bem cabe repetir: \u201cO intelectual tem o dever de iluminar a opini\u00e3o p\u00fablica a respeito dos perigos que amea\u00e7am a conserva\u00e7\u00e3o de alguns bens supremos, aos quais a sociedade civil n\u00e3o pode renunciar. O intelectual como protetor de valores superiores\u201d.<\/p>\n<p>Esse mesmo entendimento j\u00e1 foi defendido antes, nesta tribuna, pelo nosso confrade Joaquim Itapary quando, em seu discurso de posse, enfatizou: \u201cEntendo que esta Academia n\u00e3o se pode dar ao prazer de ser apenas um lugar de culto \u00e0 Literatura e \u00e0s Belas Artes. Pela qualidade de seus membros e pelo conceito de que desfruta, ela deve ser, tamb\u00e9m, uma ponte de resist\u00eancia, um centro de reflex\u00e3o e cr\u00edtica, um f\u00f3rum de debates, um porto de forma\u00e7\u00e3o de dirigentes culturais\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que visualizo a responsabilidade do intelectual recebido em uma academia. E sendo maranhense esta academia, que contribua para a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social e pol\u00edtica deste Estado e favore\u00e7a a divulga\u00e7\u00e3o das nossas letras, para assegurarmos o prest\u00edgio que conquistamos na hist\u00f3ria da intelig\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores:<\/p>\n<p>Passo, agora, em obedi\u00eancia \u00e0 liturgia acad\u00eamica, a falar dos meus antecessores.<\/p>\n<p>Por esta Cadeira de n\u00famero 35, patroneada por C\u00e9sar Marques, passaram ilustres intelectuais como Raul de Azevedo, Jos\u00e9 Vera\u00ad-Cruz Santana e Cl\u00f3vis Pereira Ramos.<\/p>\n<p>Dos meus tr\u00eas antecessores, conheci apenas, de longe, devotando-\u00adlhe o respeito que merecia, o advogado Jos\u00e9 Vera\u00ad-Cruz Santana. Invoco a sua condi\u00e7\u00e3o de advogado porque nessa \u00e9poca eu estava como estudante de Direito, j\u00e1 envolvido pelo c\u00edrculo forense, e s\u00f3 ouvia refer\u00eancias elogiosas \u00e0 sua pessoa como profissional modelo a quem desejasse se aventurar pelos caminhos da advocacia. Conhecia tamb\u00e9m sua atua\u00e7\u00e3o como jornalista e como membro do Tribunal Regional Eleitoral, na categoria de jurista. Em todas essas atividades, e, ainda, como escritor, marcou sua personalidade, forjada no trabalho, na disciplina e no talento.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Vera\u00ad-Cruz Santana nasceu no munic\u00edpio de Coelho Neto, em 24 de outubro de 1923 e faleceu, nesta cidade, em 24 de agosto de 1988. Deixou uma consider\u00e1vel produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria consistente em contos e artigos jornal\u00edsticos sobre os assuntos mais diversos, al\u00e9m de v\u00e1rios estudos jur\u00eddicos de reconhecida utilidade.<\/p>\n<p>Na Academia Maranhense de Letras Jur\u00eddicas, Jos\u00e9 Vera-\u00adCruz Santana \u00e9 o patrono da Cadeira N\u00ba 33, cujo titular \u00e9 o seu filho, dr. Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Pav\u00e3o Santana, jurista de prest\u00edgio reconhecido em nosso Estado.<\/p>\n<p>O fundador da Cadeira N\u00ba 35, Raul de Azevedo, tem uma biografia rica em diversas ocupa\u00e7\u00f5es, mas desconhecida em sua terra natal. Al\u00e9m da Academia Maranhense de Letras, pertenceu \u00e0 Academia Amazonense de Letras, onde fundou a Cadeira N\u00ba 25, que tem como patrono Alu\u00edsio Azevedo, e era s\u00f3cio correspondente da Academia Cearense de Letras. Foi romancista, contista, teatr\u00f3logo, cr\u00edtico, ensa\u00edsta e conferencista. Dedicou-\u00adse, paralelamente a essas atividades, \u00e0 pol\u00edtica partid\u00e1ria, chegando a exercer o mandato de deputado estadual no Estado do Amazonas.<\/p>\n<p>Nasceu Raul de Azevedo em S\u00e3o Lu\u00eds, em 3 de fevereiro de 1875, e faleceu no Rio de Janeiro, em 29 de abril de 1957.<\/p>\n<p>A bibliografia de Raul de Azevedo \u00e9 vasta e marcada por uma multiplicidade de assuntos, com obras publicadas por editoras de Lisboa, Porto, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Manaus, o que reflete o alcance de sua atua\u00e7\u00e3o como intelectual e a receptividade que seus livros mereceram, a ponto de ser considerado pela cr\u00edtica de ent\u00e3o como \u201cnome dos mais cintilantes da literatura luso\u00ad-brasileira, pela sua qualidade de escritor eminente que tem dado \u00e0s letras contempor\u00e2neas romances, cr\u00edticas, cr\u00f4nicas, ensaios, confer\u00eancias e contos, al\u00e9m de colabora\u00e7\u00e3o diuturna aos \u00f3rg\u00e3os da imprensa, do pa\u00eds e do estrangeiro\u201d.<\/p>\n<p>O desconhecimento de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria deve ser tomado como um desafio para os programas editoriais deste Estado. Para aquilatar-\u00adse a import\u00e2ncia desta reivindica\u00e7\u00e3o, encontra\u00ad-se dispon\u00edvel no <em>site<\/em> da Biblioteca P\u00fablica do Estado do Amazonas quatro livros de Raul de Azevedo, a saber: <em>A alma inquieta das mulheres<\/em> (confer\u00eancias), <em>Amigos e amigas<\/em> (teatro), <em>Confabula\u00e7\u00f5es: p\u00e1ginas de outrora e de hoje<\/em> (cr\u00f4nicas) e <em>Terra a terra o meu jornal.<\/em><\/p>\n<p>S\u00f3 para confirmar seu amor pelo Maranh\u00e3o, vale a pena ressaltar dois par\u00e1grafos da confer\u00eancia que pronunciou no dia 28 de julho de 1923, a pedido da col\u00f4nia maranhense, em Manaus, para comemorar o centen\u00e1rio de ades\u00e3o do Maranh\u00e3o \u00e0 Independ\u00eancia. Disse Raul de Azevedo, com justific\u00e1vel ufanismo:<\/p>\n<p><em>O Maranh\u00e3o foi sempre imagina\u00e7\u00e3o. Ele tem p\u00e1ginas de Ariosto no <\/em>Orlando Furioso<em>, de Dante no <\/em>Inferno<em>, de Milton no <\/em>Para\u00edso<em>, de Virg\u00edlio na <\/em>Eneida<em>. Mas tamb\u00e9m foi sempre o Feito, a cruzada em prol da P\u00e1tria, m\u00faltiplas fa\u00e7anhas por uma liberdade que era aspira\u00e7\u00e3o suprema, por uma independ\u00eancia que era uma obceca\u00e7\u00e3o da Ra\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>E da\u00ed o seu triunfo, o seu apogeu, a sua Gl\u00f3ria, nas \u00e9pocas douradas de antanho, nimbadas de luz, preponderante e dominador nas letras e nas guerras; da\u00ed nos dias cru\u00e9is e decepcionadores de hoje, ser a Tradi\u00e7\u00e3o que se ama e se respeita, clar\u00e3o que ainda e sempre irradiar\u00e1 saber puro e cultura apurada, para o nosso encanto e a nossa fama. \u00c9 como se fosse uma Gr\u00e9cia bem amada&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Sobre C\u00e9sar Marques, antes de tra\u00e7ar seu perfil, merece que eu destaque, a t\u00edtulo de homenagem, o devotamento do presidente desta Casa, o acad\u00eamico Jomar Moraes, porque h\u00e1 alguns anos ele vive t\u00e3o intrinsecamente ligado a C\u00e9sar Marques que n\u00e3o seria exagero dizer que Jomar Moraes conhece at\u00e9 a alma de C\u00e9sar Marques. \u00c9 que nesse trabalho a que se atirou de revisar o <em>Dicion\u00e1rio hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o,<\/em> ele tem estudado palavra por palavra e conferido v\u00edrgula por v\u00edrgula de toda a obra genial do patrono desta Cadeira. E como se n\u00e3o bastasse essa dedica\u00e7\u00e3o, ainda fez de C\u00e9sar Marques o tema de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em Hist\u00f3ria pela ufpe, com o t\u00edtulo <em>O homem-dicion\u00e1rio: a vida em obras de C\u00e9sar Marques.<\/em><\/p>\n<p>C\u00e9sar Augusto Marques, Cavaleiro da Real Ordem Militar Portuguesa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa, Reitor do Internato do Imperial Col\u00e9gio Pedro ii, nasceu na cidade de Caxias, aos 12 de dezembro de 1826 e faleceu no Rio de Janeiro em 5 de outubro de 1900. Era filho do farmac\u00eautico Augusto Jos\u00e9 Marques, portugu\u00eas de Caldas de Rainha, e de dona Feliciana Maria Barros Marques, descendente de nobres portugueses. Foi para Portugal, com o prop\u00f3sito de estudar Medicina, na Universidade de Coimbra, mas teve que interromper os estudos por causa da instabilidade da pol\u00edtica portuguesa que desencadeou o movimento popular conhecido pelo nome de Revolu\u00e7\u00e3o de Maria da Fonte. De regresso ao Brasil, matriculou-\u00adse na Faculdade de Medicina da Bahia, a\u00ed colando grau em 1854.<\/p>\n<p>Pelo espa\u00e7o que se permite a um discurso de posse, n\u00e3o me preocupei em ser exaustivo ao enumerar todos os t\u00edtulos recebidos por C\u00e9sar Marques, nem todas as atividades que desempenhou. Assim, al\u00e9m do que j\u00e1 foi destacado, lembro ainda que o patrono da Cadeira N\u00ba 35 foi membro da Sociedade Geogr\u00e1fica de Paris, membro do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro e s\u00f3cio correspondente de institutos hist\u00f3ricos de v\u00e1rios Estados brasileiros. \u00c9 o patrono da Cadeira N\u00ba 22 do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o e da Cadeira N\u00ba 9, da Academia Maranhense de Medicina.<\/p>\n<p>Para bem vislumbrar a personalidade de C\u00e9sar Marques, passo a destacar quatro de suas atividades que marcaram sua trajet\u00f3ria de vida: o historiador, o tradutor, o m\u00e9dico e o religioso.<\/p>\n<p>O historiador C\u00e9sar Marques foi um eterno apaixonado pela hist\u00f3ria e um pesquisador infatig\u00e1vel. Publicou, em 1861, o <em>Almanaque hist\u00f3rico de lembran\u00e7as brasileiras<\/em>, que teve mais dois n\u00fameros publicados posteriormente (em 1862 e 1868). Ainda em 1862, publicou <em>Breve mem\u00f3ria sobre a introdu\u00e7\u00e3o da vacina em Maranh\u00e3o<\/em> e, em 1864, <em>Apontamentos para o dicion\u00e1rio hist\u00f3rico, geogr\u00e1fico, topon\u00edmico e estat\u00edstico da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o<\/em>, sendo este, em 1870, conclu\u00eddo e publicado com o t\u00edtulo definitivo de <em>Dicion\u00e1rio hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Mas a dedica\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar Marques \u00e0 hist\u00f3ria vai al\u00e9m do seu Estado, levando-\u00ado \u00e0 ousadia de publicar, em 1878, o <em>Dicion\u00e1rio hist\u00f3rico, geogr\u00e1fico e estat\u00edstico da Prov\u00edncia do Esp\u00edrito Santo<\/em>.<\/p>\n<p>Pela <em>Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro <\/em>s\u00e3o v\u00e1rios os trabalhos publicados por C\u00e9sar Marques, com temas de suma import\u00e2ncia \u00e0 mem\u00f3ria maranhense.<\/p>\n<p>O m\u00e9rito de C\u00e9sar Marques como desbravador do document\u00e1rio hist\u00f3rico maranhense pode ser avaliado pela informa\u00e7\u00e3o de Raimundo Nonato Cardoso, em seu estudo sobre a documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Maranh\u00e3o<em>,<\/em> na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 segunda edi\u00e7\u00e3o do <em>Dicion\u00e1rio, <\/em>quando se refere \u00e0 vinda do poeta Gon\u00e7alves Dias ao Maranh\u00e3o, em 1851, em miss\u00e3o do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro, \u00e0 procura de documentos para o levantamento de dados sobre nossa Hist\u00f3ria. Ressalta Cardoso a decep\u00e7\u00e3o que teve o autor de <em>Os Timbiras,<\/em> ao constatar o estado lastim\u00e1vel em que se encontravam nossos arquivos, pois<\/p>\n<p><em>em lugar nenhum, nem na biblioteca do Convento de Santo Ant\u00f4nio, nem no convento das Merc\u00eas, onde n\u00e3o havia sequer\u00a0uma b\u00edblia, nem no Convento do Carmo \u2014 verificou o poeta \u2014 onde n\u00e3o havia nem estantes nem livros, nem no Pal\u00e1cio do Governo, em nenhum lugar quase nada havia que correspondesse melhor aos objetivos de sua miss\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que surge o m\u00e9rito de C\u00e9sar Marques, em vencer tantas dificuldades para fazer tantas pesquisas e coligir as mais variadas informa\u00e7\u00f5es encontradas em seus diversos trabalhos publicados. N\u00e3o se deve analisar o historiador C\u00e9sar Marques \u00e0 luz de uma metodologia rigorosa de pesquisa, pr\u00f3pria dos historiadores modernos, pois n\u00e3o se pode esquecer de que C\u00e9sar Marques era um m\u00e9dico em pleno exerc\u00edcio de sua profiss\u00e3o e que se atirou \u00e0 pesquisa hist\u00f3rica por pura paix\u00e3o e esp\u00edrito cient\u00edfico, mesmo sem os rigores de um <em>scholar<\/em>.<\/p>\n<p>S\u00f3 o acendrado idealismo de C\u00e9sar Marques pela nossa hist\u00f3ria lhe daria tantas for\u00e7as para resistir aos dissabores que teve para publicar a 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o do seu <em>Dicion\u00e1rio<\/em> e lhe daria tamb\u00e9m o conforto de sonhar at\u00e9 o \u00faltimo momento de sua vida com a reedi\u00e7\u00e3o dessa mesma obra, que s\u00f3 viria a ocorrer em 1970, patrocinada pela sudema, sob a presid\u00eancia do nosso confrade Joaquim Itapary.<\/p>\n<p>Como tradutor, C\u00e9sar Marques foi o respons\u00e1vel pela tradu\u00e7\u00e3o de obras de consider\u00e1vel relev\u00e2ncia, dentre as quais se destacam, pela sua import\u00e2ncia \u00e0 mem\u00f3ria maranhense, <em>Hist\u00f3ria da miss\u00e3o dos padres capuchinhos na Ilha do Maranh\u00e3o e suas circunvizinhan\u00e7as<\/em>, do padre Claude D\u2019Abbeville, em 1874, e <em>Viagem ao norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614,<\/em> do padre Ives d\u2019Evreux.<\/p>\n<p>Como m\u00e9dico, em 1854, ao defender sua tese intitulada<\/p>\n<p><em>Breve mem\u00f3ria sobre o<\/em> c<em>lima e mol\u00e9stias mais frequentes da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o, <\/em>j\u00e1 denunciava a sua voca\u00e7\u00e3o de pesquisador e a concorr\u00eancia que teria essa op\u00e7\u00e3o com o exerc\u00edcio da Medicina. Posteriormente, ingressou no Corpo de Sa\u00fade do Ex\u00e9rcito, tendo prestado servi\u00e7os no Par\u00e1, Piau\u00ed, Amazonas e Maranh\u00e3o. Na capital maranhense, foi provedor de sa\u00fade do Porto de S\u00e3o Lu\u00eds e assumiu outras importantes fun\u00e7\u00f5es at\u00e9 ser investido na patente de 2\u00ba cirurgi\u00e3o\u00ad-tenente do Corpo de Sa\u00fade do Ex\u00e9rcito, em setembro de 1859, posto em que permaneceu at\u00e9 novembro daquele ano, ocasi\u00e3o em que pediu exonera\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito, quando servia no Estado do Par\u00e1. As m\u00faltiplas atividades que C\u00e9sar Marques exerceu como m\u00e9dico demonstram que ele abra\u00e7ou a Medicina por disposi\u00e7\u00e3o vocacional e a exerceu com todo o afinco, muito acima do comodismo e da mediocridade.<\/p>\n<p>O religioso C\u00e9sar Marques se revela, ao se constatar em sua biografia que pertenceu a tr\u00eas ordens religiosas: Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, Irmandade Bom Jesus dos Navegantes e Irmandade Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios. E mais ainda, como disse desta tribuna meu antecessor, em seu discurso de posse, C\u00e9sar Marques publicou \u201ccom ardor de homem da Igreja\u201d, v\u00e1rios trabalhos, dos quais destacam-\u00adse: a <em>Biografia do Exmo. Sr. D. Manuel Joaquim da Silveira, Arcebispo da Bahia<\/em>; <em>Estabelecimento da Igreja Cat\u00f3lica, Apost\u00f3lica, Romana, do Maranh\u00e3o <\/em>e<em> Vida e feitos de Dom Frei Miguel de Bulh\u00f5es e Sousa,<\/em> <em>3\u00ba Bispo do Gr\u00e3o-Par\u00e1<\/em>. At\u00e9 mesmo o seu <em>Dicion\u00e1rio<\/em> teve como est\u00edmulo inicial a rever\u00eancia que dedicava aos homens da Igreja, pois resultou de uma promessa que fez aos apelos do arcebispo da Bahia, dom Romualdo Ant\u00f4nio de Seixas, no \u00faltimo ano do seu do curso de Medicina, em 1854.<\/p>\n<p>Feita essa an\u00e1lise geral sobre a vida de C\u00e9sar Marques, volto \u00e0 falar da obra que o imortalizou. N\u00e3o se pode desconhecer que o ponto culminante da sua vida como pesquisador e historiador ocorreu em 1870, com a publica\u00e7\u00e3o do seu <em>Dicion\u00e1rio Hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o,<\/em> o que contribuiu para consolidar seu prest\u00edgio em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Qualquer estudioso de Hist\u00f3ria, versado nos modernos m\u00e9todos de pesquisa e historiografia, percebe com facilidade as falhas do <em>Dicion\u00e1rio <\/em>de C\u00e9sar Marques. Mas essa conclus\u00e3o t\u00e9cnica n\u00e3o afastar\u00e1 o valor que os estudos dele representam porque foram frutos de um esfor\u00e7o pessoal, de uma vontade f\u00e9rrea, \u201croubando ao sono o descanso do corpo e do esp\u00edrito, depois de dias bem trabalhosos, bem cheios de fadigas\u201d,<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span>conforme seu mesmo desabafo.<\/p>\n<p>Exemplo da permanente utilidade dos estudos de C\u00e9sar Marques \u00e9 o livro <em>Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o,<\/em> do nosso saudoso M\u00e1rio Meireles, respeitado historiador e consulta obrigat\u00f3ria de estudantes e professores. Ao longo dessa obra, o autor faz doze alus\u00f5es a C\u00e9sar Marques e ao seu \u201cnunca assaz louvado <em>Dicion\u00e1rio\u201d,<\/em>\u00a0para citar sua pr\u00f3pria refer\u00eancia, o que bem\u00a0reflete o valor que emprestava a esse catecismo de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nesse af\u00e3 de enaltecer meu patrono e a obra que o notabilizou, encontrei\u00ad-me com um vianense, que colocou todo seu talento de professor e historiador a rever o <em>Dicion\u00e1rio<\/em> de C\u00e9sar Marques, para complet\u00e1\u00ad-lo e reparar seus equ\u00edvocos. Trata\u00ad-se de Ant\u00f4nio Lopes da Cunha, que dedicou a esse objetivo uma contribui\u00e7\u00e3o de tal monta, como disse Jomar Moraes, em sua disserta\u00e7\u00e3o, que a bem dizer \u201cf\u00ea\u00ad-lo seu coautor\u201d.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise sistem\u00e1tica e minuciosa do <em>Dicion\u00e1rio<\/em>,\u00a0leva-me a constatar que, na elabora\u00e7\u00e3o de sua obra, o dr. C\u00e9sar Marques deixou-\u00adse influenciar pela postura de um anatomista, preocupado em dissecar parte por parte de um organismo e nominar cada \u00f3rg\u00e3o, cada detalhe, cada fun\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim, com essa vis\u00e3o de um cientista, que ele buscou, em cada munic\u00edpio do Estado, sua origem hist\u00f3rica, seu relevo, todos os seus dados geogr\u00e1ficos, o nome de cada rio, de cada riacho. Assim, o m\u00e9dico e o historiador se completaram para produzir uma obra com a dimens\u00e3o que se configurou, revelando, na express\u00e3o de Henriques Leal, \u201cem seu autor muito amor pelas coisas p\u00e1trias, trabalho aturado e paciente, e infatig\u00e1vel zelo em desentranhar tantas not\u00edcias, escondidas nas secretarias e cart\u00f3rios dessa cidade\u201d.<\/p>\n<p>Todo estudo de Geografia e Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o, no per\u00edodo colonial e imperial, come\u00e7a com C\u00e9sar Marques, seja para concordar-se, seja para complet\u00e1\u00ad-lo ou corrigi-\u00adlo.<\/p>\n<p>Pela percep\u00e7\u00e3o que C\u00e9sar Marques teve, no seu momento, de resguardar dados hist\u00f3ricos que teriam fatalmente se perdido no tempo, tenho-o como um profeta, n\u00e3o do passado, como j\u00e1 foi dito sobre todo historiador, mas um profeta na sua acep\u00e7\u00e3o verdadeira, daquele que antevisa o futuro, o futuro dos estudos da Hist\u00f3ria e da Geografia do Maranh\u00e3o que seriam mais reduzidos sem as suas pesquisas.<\/p>\n<p>Resta\u00ad-me, agora, o \u00faltimo ponto obrigat\u00f3rio da minha ora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 falar sobre o ocupante anterior da Cadeira N\u00ba 35. Para a maioria dos empossados, essa \u00faltima tarefa se torna mais eloquente pelo conhecimento, conviv\u00eancia, contatos e at\u00e9 familiaridade mantida com o seu antecessor imediato. No meu caso, faltou-\u00adme essa facilidade por n\u00e3o ter conhecido Cl\u00f3vis Ramos. Para suprir essa defici\u00eancia, procurei seus amigos e admiradores para, por meio dos seus depoimentos, aquilatar a sua personalidade. O resultado da pesquisa n\u00e3o poderia ter sido melhor. Por unanimidade dos entrevistados, dentre eles Jos\u00e9\u00a0Filgueiras, M\u00edlson Coutinho, Jomar Moraes, Nemias Carvalho, Manuel Lopes e Carlos Gaspar, posso afirmar-\u00advos que Cl\u00f3vis Ramos era um homem bom, na acep\u00e7\u00e3o maior da palavra, abrangendo sua cordialidade no trato para com as pessoas, sua dedica\u00e7\u00e3o e espiritualidade, at\u00e9 porque era um disc\u00edpulo de Alan Kardec, desenvolvendo no seu dia a dia a benqueren\u00e7a e o amor ao pr\u00f3ximo como conduta efetiva de vida.<\/p>\n<p>Cl\u00f3vis Pereira Ramos foi jornalista, poeta, historiador e pesquisador. Tinha o plasma da maranhensidade em suas veias, embora tenha nascido l\u00e1 pelas fronteiras do Brasil com o Peru, onde seu pai servia como militar, no forte Tabatinga, ent\u00e3o munic\u00edpio de Benjamin Constant, no Estado do Amazonas. Era filho do casal de maranhenses Jos\u00e9 Silva Maia Ramos e Josefina Pereira Ramos. Chegou a S\u00e3o Lu\u00eds aos 5 anos de idade. Formou\u00ad-se em Direito, no Rio de Janeiro, e, retornando ao Maranh\u00e3o, tornou-\u00adse promotor p\u00fablico, com titularidade nas comarcas de Vargem Grande e S\u00e3o Vicente F\u00e9rrer, entre 1955 e 1958. Posteriormente, foi assessor de comunica\u00e7\u00e3o da Secretaria de Cultura do Maranh\u00e3o e delegado regional do trabalho.<\/p>\n<p>Pertenceu Cl\u00f3vis Ramos, ainda, ao Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, ao Instituto Campista de Letras, \u00e0 Academia de Letras e Artes de Bras\u00edlia, \u00e0 Academia Brasileira de Trova, ao Instituto de Cultura Esp\u00edrita do Brasil e \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o das Academias de Letras do Brasil.<\/p>\n<p>Em cr\u00f4nica que lhe foi dedicada, em seu espa\u00e7o da quarta\u00ad-feira de 15 de outubro de 2003, n\u2019<em>O Estado do Maranh\u00e3o<\/em>, Jomar Moraes fez uma an\u00e1lise em que projeta o homem e o pesquisador que foi Cl\u00f3vis Ramos, retratando-\u00ado como uma pessoa que \u201ctinha t\u00e3o grande e nobre cora\u00e7\u00e3o que\u00a0nele n\u00e3o cabiam as mesquinharias do despeito e da inveja\u201d.<\/p>\n<p>Uma pessoa com qualidades t\u00e3o distintas, de sensibilidade acurada, n\u00e3o poderia deixar de ser um poeta \u201ceternamente voltado \u00e0s mais belas manifesta\u00e7\u00f5es do pensamento criador\u201d,\u00a0na express\u00e3o de Nonato Masson. E nessa condi\u00e7\u00e3o exprimiu-\u00adse em versos que, reunidos, formaram sete livros de poesias, come\u00e7ando com <em>Evangelho do poeta<\/em>, em 1953, seguindo\u00ad-se <em>O pranto ao limiar<\/em> (1956); <em>Rosa de cinza <\/em>(1957); <em>Amarga tatuagem<\/em> (1960);<em> Estrela mansa<\/em> (1985); <em>Leito dos ventos <\/em>(1988) e <em>Est\u00e3o florindo os roseirais<\/em> (2000).<\/p>\n<p>A poesia de Cl\u00f3vis Ramos \u00e9 essencialmente l\u00edrica, em que predominam o subjetivismo, a abund\u00e2ncia de sentimentos, dores, sensa\u00e7\u00f5es, saudades. E, sobretudo, \u00e9 permeada de musicalidade e de ritmo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Pesquisador incans\u00e1vel, Cl\u00f3vis Ramos preocupou\u00adse em selecionar os poetas maranhenses e escrever toda a hist\u00f3ria liter\u00e1ria do Maranh\u00e3o, retirando nomes do esquecimento e contribuindo para manter viva nossa tradi\u00e7\u00e3o cultural. Desse trabalho exaustivo de pesquisa e sob inspira\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alves Dias, surgiu o quinteto com t\u00edtulos curiosos de sua autoria, a come\u00e7ar com <em>Minha terra tem palmeiras<\/em> (1970); <em>Onde canta o sabi\u00e1<\/em> (1972); <em>Nosso c\u00e9u tem mais estrelas<\/em> (1973); <em>Nossas v\u00e1rzeas t\u00eam mais flores<\/em> (1975) e <em>As aves que aqui gorjeiam<\/em> (1993).<\/p>\n<p>O sentimento de amor que Cl\u00f3vis Ramos dispensava a S\u00e3o Lu\u00eds igualava-\u00adse \u00e0s varia\u00e7\u00f5es das nossas mar\u00e9s. Quando estava aqui, vivia cheio de emo\u00e7\u00f5es e sua satisfa\u00e7\u00e3o era notada por todos os seus amigos, at\u00e9 pelas poesias em que externava essa alegria:<\/p>\n<p><em>Estou em S\u00e3o Lu\u00eds e, novamente,<br \/>\n<\/em><em>Cantarola em meu peito um amor<br \/>\nantigo. Digo num verso comovido e<br \/>\nardente, Tudo o que sinto como meu<br \/>\ncastigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Por uma rua ensolarada sigo<\/em><br \/>\n<em>E meu pensar, talvez, ningu\u00e9m pressente.<\/em><br \/>\n<em>Ah! meu sonho de amor, que ainda persigo!<\/em><br \/>\n<em>Ai! Saudade que fere ferozmente!<\/em><br \/>\n<em>Pelas pra\u00e7as, que flores perfumosas!<\/em><br \/>\n<em>O sol as beija como beija as rosas<\/em><br \/>\n<em>Dos l\u00e1bios da mulher que se quer bem.<\/em><br \/>\n<em>S\u00e3o Lu\u00eds \u00e9 a cidade da ternura&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Em cada canto um sonho meu perdura,<\/em><br \/>\n<em>Perdura, em cada canto, o olhar de algu\u00e9m!<\/em><\/p>\n<p>Na vazante, era levado para o Rio de Janeiro e, ali, suspirava\u00a0de saudades destilando versos de lembran\u00e7as:<\/p>\n<p><em>Ah! tudo em S\u00e3o Lu\u00eds vira poesia<\/em><br \/>\n<em>na saudade que vem, terna saudade,<\/em><br \/>\n<em>que nos maltrata e nos alivia!<\/em><br \/>\n<em>E sonhando um amor, espero, ainda,<\/em><br \/>\n<em>Rever a terra da felicidade,<\/em><br \/>\n<em>Que tanto quero, com ternura infinda.<\/em><\/p>\n<p>Assim, nesse vai e vem, consumiu sua vida numa permanente busca, at\u00e9 que a \u00faltima baixa\u00ad-mar o fixou definitivamente em Niter\u00f3i, quando de sua morte, em 7 de outubro de 2003, com 81 anos de idade, pois nascera em 20 de novembro de 1922.<\/p>\n<p>No campo do espiritismo, Cl\u00f3vis Ramos chegou a publicar seis obras, como express\u00e3o do seu devotamento \u00e0 doutrina kardecista.<\/p>\n<p>Curiosa coincid\u00eancia da Cadeira N\u00ba 35 \u00e9 que entre tr\u00eas dos seus integrantes, h\u00e1 um denominador comum: o Estado do\u00a0Amazonas. Em Manaus, C\u00e9sar Marques, o patrono, foi nomeado provedor de Sa\u00fade do Porto de Manaus, lecionou Aritm\u00e9tica, \u00c1lgebra e Geometria, no Liceu Amazonense, e chegou a ser nomeado m\u00e9dico da C\u00e2mara Municipal de Manaus; Raul de Azevedo desempenhou, naquele Estado, atividades pol\u00edticas e liter\u00e1rias, chegando a ter assento na Academia Amazonense de Letras e a exercer o mandato de deputado estadual. Por fim, ali nasceu Cl\u00f3vis Ramos, no munic\u00edpio de Tabatinga.<\/p>\n<p>Outra coincid\u00eancia \u00e9 que, tanto C\u00e9sar Marques, quanto Cl\u00f3vis Ramos, morreram no Rio de Janeiro, suspirando as dores do ex\u00edlio, sem <em>desfrutar os primores que s\u00f3 se encontram por c\u00e1.<\/em><\/p>\n<p>Senhoras e senhores,<br \/>\nEstimados acad\u00eamicos:<\/p>\n<p>Duas voca\u00e7\u00f5es sustentaram o itiner\u00e1rio da minha exist\u00eancia at\u00e9 hoje: a magistratura e a literatura. No exerc\u00edcio da magistratura, percorri diversas regi\u00f5es deste Estado, procurando distribuir justi\u00e7a \u00e0queles que clamavam pela sua atua\u00e7\u00e3o. Paralela a essa atividade e para amenizar suas intemp\u00e9ries, busquei na literatura a satisfa\u00e7\u00e3o que me transporta para o mundo do fant\u00e1stico e me leva para cidades invis\u00edveis, em companhia de Italo Calvino, Garcia M\u00e1rquez, Juan Rulfo e tanta gente amiga que se encontra pelos caminhos.<\/p>\n<p>Compat\u00edveis entre si, tanto a magistratura quanto a literatura convivem na minha prefer\u00eancia, no mesmo n\u00edvel de valora\u00e7\u00e3o, buscando, inclusive, em fatos reais e no contato com os mais diversos tipos humanos, inspira\u00e7\u00e3o para algumas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias j\u00e1 publicadas e outras por publicar.<\/p>\n<p>Particularmente, no desempenho de minhas fun\u00e7\u00f5es judicantes em uma vara de fam\u00edlia, tenho formado o arcabou\u00e7o das emo\u00e7\u00f5es e absorvido os perfis mais variados, ao aquilatar, no dia a dia, as vicissitudes do homem em suas m\u00faltiplas facetas: do santo ao perverso, do virtuoso ao desprovido de sensibilidade, formando o tiroc\u00ednio que me leva \u00e0 pretens\u00e3o de parodiar Ter\u00eancio, para dizer: \u201cNada que \u00e9 humano me \u00e9 estranho\u201d.<\/p>\n<p>Essa conviv\u00eancia do Direito com a Literatura n\u00e3o \u00e9 fato recente; vem desde a Antiguidade, de onde sobressai a pe\u00e7a <em>Ant\u00edgona,<\/em> de S\u00f3focles, verdadeiro tratado de Direito Natural com repercuss\u00e3o na \u00c9tica e no Direito Penal grego. No Brasil e no Maranh\u00e3o, s\u00f3 para ilustrar, cito alguns nomes que viveram e vivem essa duplicidade de voca\u00e7\u00e3o: Cl\u00f3vis Bevil\u00e1qua, Jos\u00e9 de Alencar, Monteiro Lobato, L\u00edgia Fagundes Teles, Gra\u00e7a Aranha, Carlos Madeira, M\u00edlson Coutinho e tantos e tantos outros. Senhores acad\u00eamicos:<\/p>\n<p>Ao final da minha ora\u00e7\u00e3o, agrade\u00e7o a Deus a realiza\u00e7\u00e3o deste ideal e volto a externar meus agradecimentos \u00e0 generosidade de cada um de v\u00f3s que depositastes vossa confian\u00e7a em minha admiss\u00e3o nesta Academia quase secular. Garanto-\u00advos, sob inspira\u00e7\u00e3o do meu modesto percurso liter\u00e1rio, depois de ter meu <em>Pres\u00e9pio queimado<\/em>, de andar pela <em>Rua do Porto<\/em>, envolver-\u00adme com um <em>Baile de S\u00e3o Gon\u00e7alo <\/em>e desfiar minhas mem\u00f3rias Do <em>alto da matriz<\/em>, garanto-\u00advos que chego a esta Academia com a humildade de quem ainda precisa aprender muito e a ambi\u00e7\u00e3o de ser um bom confrade. Obrigado.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE RECEP\u00c7\u00c3O por Carlos Gaspar<\/h5>\n<p>Excelent\u00edssimo Senhor Presidente da Academia Maranhense\u00a0de Letras e componentes da Mesa Diretiva desta solenidade,<br \/>\nCaros Confrades,<br \/>\nExcelent\u00edssimas Autoridades,<br \/>\nMinhas Senhoras e meus Senhores,<br \/>\nSenhor Lourival de Jesus Serejo Sousa:<\/p>\n<p>Estou nesta tribuna, sob a alegria do meu esp\u00edrito, para vos acolher na Casa de Ant\u00f4nio Lobo, com o abra\u00e7o e o sentimento de boas\u00ad-vindas, manifestados por todos os seus membros. Cumpro a regra estatut\u00e1ria, interpretada pelo Presidente, que permitiu a indica\u00e7\u00e3o do nome de quem desejar\u00edeis para vos receber, da\u00ed porque recaiu sobre os meus ombros a responsabilidade de transmitir-vos o meu c\u00e2ntico de louva\u00e7\u00e3o, visto terdes sido consagrado titular, nesta Academia, da Cadeira de n\u00famero 35, patroneada por C\u00e9sar Augusto Marques.<\/p>\n<p>Os motivos porque me escolhestes para abrir\u00ad-vos o portal desta confraria, entrardes nas suas depend\u00eancias e tomardes assento definitivo na Cadeira para a qual fostes eleito, naturalmente decorreram das afinidades de pensamentos a nos aproximar, da amizade que vimos\u00a0cultivando, e de sermos procedentes do mesmo torr\u00e3o natal. Amigos tendes outros, dentre os que comp\u00f5em esta Congrega\u00e7\u00e3o, capazes de vos acolher de modo n\u00e3o menos efusivo do que eu, neste momento significativo da vossa caminhada como homem de letras. Todos eles dotados de imenso saber e desusada cortesia, assaz competentes para se desincumbirem, com brilhantismo, da sauda\u00e7\u00e3o que ora vos dirijo, nesta marcante solenidade, que registrar\u00e1 para sempre o vosso encontro primeiro com os demais cons\u00f3cios desta quase secular institui\u00e7\u00e3o, cujo quadro passastes a integrar.<\/p>\n<p>Assim como se manifestou Jo\u00e3o Neves da Fontoura, respondendo ao discurso de \u00c1lvaro Lins, na Academia Brasileira de Letras, devo tamb\u00e9m ressaltar, seguindo id\u00eantica linha de racioc\u00ednio, que esta Academia, de algum tempo para c\u00e1, passou a se situar entre os vossos objetivos, em decorr\u00eancia da consci\u00eancia que tivestes da vossa intelectualidade, e \u00e9 certo, tamb\u00e9m, que n\u00f3s vos aguard\u00e1vamos, pelo mesmo motivo. Deu\u00ad-se, dessa maneira, uma evidente converg\u00eancia de vontades, revelada sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os dos sufr\u00e1gios determinantes do vosso ingresso nesta Casa, acrescentados com os aplausos de quem conhece vossas qualidades.<\/p>\n<p>Disse ainda Jo\u00e3o Neves da Fontoura, naquela oportunidade, que havendo \u00c1lvaro Lins sido acolhido pela vontade un\u00e2nime dos membros da Casa de Machado de Assis, o seu elogio j\u00e1 estaria feito, tal a revela\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca dos que o consagraram como novo confrade. Id\u00eanticas foram as circunst\u00e2ncias em que vos acolheu a Academia Maranhense de Letras, o que poderia eximir\u00ad-me do compromisso de que agora me desincumbo, ficando esta seleta assist\u00eancia dispensada do castigo de escutar\u00ad-me, ap\u00f3s haver aplaudido vosso primoroso discurso. Mas, a bem dizer, a presente solenidade n\u00e3o se completaria, \u00e0 luz do ritual acad\u00eamico, se esta fase fosse suprimida.<\/p>\n<p>Chegais aqui, senhor Lourival Serejo, com o vosso bornal recoberto de pedras cintilantes, a conduzir, atrav\u00e9s das obras que publicastes, a express\u00e3o do vosso talento e da vossa verve de jurista, de cronista e contista, de memorialista e folclorista. Seguistes, portanto, as li\u00e7\u00f5es dos nossos ancestrais, cujos nomes acabastes de mencionar, que honram as tradi\u00e7\u00f5es culturais da Viana, a terra em que nascestes, sob a beleza de paisagens verdejantes, a cingi-\u00adla e a aformose\u00e1-\u00adla.<\/p>\n<p>Vindes, tamb\u00e9m, envolto pela convic\u00e7\u00e3o de que aqui deveis permanecer para sempre, assim como vos cabe prestar rever\u00eancias a tantos homens consagrados pela imortalidade acad\u00eamica, que deixaram marcas indel\u00e9veis de sua cultura, fontes inspiradoras e paradigmas no mundo das ci\u00eancias e das letras. Da\u00ed porque, ao ingressardes neste instituto, sois acolhido sob justificados aplausos, nesta noite de gala, iluminada pela aur\u00e9ola de vosso merecimento. \u00c0s qualidades de pesquisador infatig\u00e1vel e abnegado cultor da literatura e das letras jur\u00eddicas, com que engrandeceis este Sodal\u00edcio, aliastes o vosso comportamento exemplar, cativante de todos n\u00f3s. Ademais, possu\u00eds a virtude da boa conviv\u00eancia, t\u00e3o importante no fortalecimento dos la\u00e7os de solidariedade que nos unem.<\/p>\n<p>Senhor Lourival de Jesus Serejo Sousa:<\/p>\n<p>Nesta S\u00e3o Lu\u00eds vos fixastes para cursar o ent\u00e3o segundo grau, a partir de 1969. Ao tempo, parecia, teriam ficado para tr\u00e1s os anos da meninice e j\u00e1 os da adolesc\u00eancia, trocados pelo impulso do vosso talento, que pacientemente soubestes cinzelar. Mas, na verdade, sem perceberdes, trouxestes esses anos primaveris da vossa exist\u00eancia, incrustados na vossa alma alimentada pelos sonhos de um futuro auspicioso. \u00c0quela altura, como bem dissestes, n\u00e3o pens\u00e1veis que a esta institui\u00e7\u00e3o passar\u00edeis a pertencer e que hoje proferir\u00edeis vosso discurso de posse, bem ao estilo da vossa simplicidade e n\u00e3o menos da vossa obedi\u00eancia aos preceitos da Casa. Por essa raz\u00e3o, delimitastes a fala que acabais de pronunciar, homenageando o patrono da Cadeira que ireis ocupar, bem como os que nela se sentaram ao longo de d\u00e9cadas, desde sua funda\u00e7\u00e3o. Nenhum registro de realce fizestes sobre vossa pessoa, magistrado exemplar que sois, obediente \u00e0s normas regimentais desta entidade e, sem d\u00favida, em decorr\u00eancia do vosso temperamento talhado de mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>Essa conduta vos enobrece sobremodo, dado que preferistes manter a coer\u00eancia com que pautastes a brilhante trajet\u00f3ria que vos trouxe at\u00e9 aqui. Para que venc\u00easseis tal percurso, devo confirmar, muitas refregas travastes, e uma delas, orgulho da vossa abnega\u00e7\u00e3o, fez com que abra\u00e7\u00e1sseis a magistratura, e, no exerc\u00edcio dessa espinhosa fun\u00e7\u00e3o, nela vos revel\u00e1sseis operoso, sensato no trato do Direito e da Justi\u00e7a, e estudioso incans\u00e1vel nos deslindes das teses, das teorias e das doutrinas jur\u00eddicas. N\u00e3o vos limitastes, pois, \u00e0s simples an\u00e1lises dos processos, tampouco \u00e0s senten\u00e7as prolatadas com isen\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, recorro \u00e0 mitologia grega, para bem acentuar a linha do vosso comportamento de magistrado: T\u00eamis, filha de Urano e Gaia, primitivamente sem venda, apresentava-\u00adse portando uma balan\u00e7a na m\u00e3o direita, s\u00edmbolo da ordem e do Direito divino. Consideravam\u00ad-na deusa da Justi\u00e7a. Por isso costumavam invoc\u00e1-\u00adla nos juramentos dos magistrados.<\/p>\n<p>A venda teria sido inven\u00e7\u00e3o dos artistas alem\u00e3es do s\u00e9culo xvi, retirando\u00ad-lhe a vis\u00e3o. Essa faixa, cobrindo-\u00adlhe os olhos, significava imparcialidade. Assim ela n\u00e3o veria diferen\u00e7a entre as partes em lit\u00edgio, fossem ricas ou pobres, poderosas ou humildes, grandes ou pequenas. Suas decis\u00f5es eram, desse modo, fundamentadas na sabedoria das leis.<\/p>\n<p>Os tempos passaram, os conceitos evolu\u00edram, adequaram\u00ad-se a uma nova realidade social e, seguindo o pensamento de renomados juristas, a Justi\u00e7a n\u00e3o mais deve ser cega, mas de olhos abertos, \u00e1gil, acess\u00edvel a todos, altiva, democr\u00e1tica e efetiva. Tirando\u00adse\u00ad-lhe a venda, fica liberta para que possa ver. E, assim, ela poder\u00e1 enxergar, com a vis\u00e3o desperta, a impunidade, a pobreza, o choro, o sofrimento, a tortura, os gritos de dor e as desesperan\u00e7as dos necessitados que lhe batem \u00e0 porta. Sob essa forma, passa a conhecer de onde partem os clamores, nomeadamente dos menos favorecidos pela sorte. Seus olhos atentos, ent\u00e3o, derramam l\u00e1grimas, mas pela ang\u00fastia de nem sempre poder ser verdadeiramente justa, no dizer de Dam\u00e1sio Sodr\u00e9.<\/p>\n<p>Sob esse prisma pode\u00ad-se afirmar que, ao aplicar Direito e distribuir Justi\u00e7a, incumbe ao magistrado produzir um conjunto sim\u00e9trico, de forma a que sua decis\u00e3o, em vez de traduzir apenas a eventual estreiteza de textos legais, adquira a dimens\u00e3o harm\u00f4nica da prote\u00e7\u00e3o ao ser humano, tendo em vista as fragilidades sociais que sobre ele pesem, como parte no lit\u00edgio.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s terdes experimentado a labuta na banca advocat\u00edcia, exercido o cargo de promotor de Justi\u00e7a, que galgastes atrav\u00e9s de concurso p\u00fablico em 1979, ao in\u00edcio da vossa judicatura, em 1981, quando a alcan\u00e7astes sob o mesmo rigor probat\u00f3rio, senhor Lourival Serejo Sousa, percorrestes diversas cidades do interior maranhense, de comarca em comarca, distribuindo Justi\u00e7a, como acabais de afirmar, e vos deparastes com os mais variados quadros, todos eles envolvendo pessoas de m\u00faltiplas classes sociais, em que prevaleciam, embora com menor intensidade do que hoje, a mis\u00e9ria e as contradi\u00e7\u00f5es de que \u00e9 v\u00edtima a popula\u00e7\u00e3o do nosso Estado. Como afirmastes no vosso trabalho intitulado <em>Realidade e fic\u00e7\u00e3o na vida do magistrado<\/em>, encontrado \u00e0s p\u00e1ginas da <em>Revista da Academia Brasileira de Letras Jur\u00eddicas<\/em>, tivestes o privil\u00e9gio, \u201cque talvez outra fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o proporcione, de conhecer o homem em sua inteireza\u201d, fruto das dificuldades em que vos vistes envolvido. Essas circunst\u00e2ncias serviram, ao meu parecer, para completardes a mat\u00e9ria-\u00adprima de que necessitar\u00edeis, com vistas a produzirdes a vossa j\u00e1 extensa obra doutrin\u00e1ria, digna dos elogios e aplausos de renomados estudiosos nacionais da ci\u00eancia do Direito.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de in\u00fameros trabalhos que publicastes em revistas especializadas, de \u00e2mbito nacional, todos merecedores de\u00a0reflex\u00e3o pelos mais famosos juristas do pa\u00eds, nas suas \u00e1reas espec\u00edficas, j\u00e1 v\u00e3o a n\u00famero de sete os livros de vossa autoria e coautoria, n\u00e3o menos referenciados pelos vossos colegas magistrados. O \u00faltimo deles, <em>As provas il\u00edcitas no Direito de<\/em> <em>Fam\u00edlia<\/em>, acaba de ser lan\u00e7ado, em \u00e2mbito nacional, pela Editora Thomson. Trata\u00ad-se de uma obra que, dada a import\u00e2ncia do tema, por certo alcan\u00e7ar\u00e1 imensa repercuss\u00e3o, visto que ele n\u00e3o encerra mat\u00e9ria pac\u00edfica. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 controverso, pol\u00eamico, e nem na pr\u00f3pria jurisprud\u00eancia goza de acolhimento irrefrag\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quem comenta, com absoluta propriedade, acerca de <em>As provas il\u00edcitas no Direito de Fam\u00edlia<\/em>, \u00e9 o professor doutor S\u00e9rgio Torres Teixeira, da Universidade Federal de Pernambuco, que assim se expressa:<\/p>\n<p><em>No livro, o autor descreve com maestria os contornos da prova judici\u00e1ria e dos problemas relacionados \u00e0 sua licitude, passando pela relev\u00e2ncia da busca pela verdade e a preserva\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 intimidade. Destacando a disciplina do procedimento probat\u00f3rio e da utiliza\u00e7\u00e3o das provas, exp\u00f5e as implica\u00e7\u00f5es das provas il\u00edcitas na seara do Direito de Fam\u00edlia, e, por fim, examina o papel do magistrado na defini\u00e7\u00e3o dos maiores justificadores da sua concess\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Em cap\u00edtulo de grande destaque, trata de considera\u00e7\u00f5es sobre a preponder\u00e2ncia do bem ou interesse jur\u00eddico relevante, demonstrando profundo conhecimento acerca dos mecanismos de efetiva distribui\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a. <\/em>E, adiante, se manifesta novamente:<\/p>\n<p><em>Corresponde, sem sombra de d\u00favida, a uma obra absolutamente imprescind\u00edvel na biblioteca de todos os operadores do Direito, notadamente aqueles que atuam no \u00e2mbito do Direito de Fam\u00edlia, pois est\u00e1 destinada a ser uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria nos estudos e trabalhos dos respectivos profissionais.<\/em><\/p>\n<p>Deixais transparecer, senhor Lourival Serejo, ao palmilhardes os espinhosos caminhos da magistratura, em que sobremodo vos destacais como civilista dos melhores, que a fam\u00edlia vem sendo o foco de vossas aten\u00e7\u00f5es, dedica\u00e7\u00f5es e estudos, haja vista a ela haverdes dedicado a maioria das vossas aten\u00e7\u00f5es. Como c\u00e9lula, por certo tendes convic\u00e7\u00e3o de sua essencial import\u00e2ncia no tecido social, o que justifica vosso devotamento ao estudo aprofundado, sob todos os \u00e2ngulos, da institui\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n<p>Perder\u00ad-me\u00ad-ia noite adentro se me dispusesse, aqui, a citar, um por um, todos os estudos que publicastes em revistas e jornais, todas as confer\u00eancias que proferistes, todos os eventos de que participastes, todos os cursos de especializa\u00e7\u00e3o em que fostes titulado, todas as institui\u00e7\u00f5es de que fazeis parte, todos os t\u00edtulos honor\u00edficos com que fostes agraciado, todos os cargos que ocupastes, e alguns deles ainda ocupais, no \u00e2mbito da vossa brilhante e irrepreens\u00edvel carreira na magistratura.<\/p>\n<p>A par dessa sublime atividade, n\u00e3o menos foi prof\u00edcua a vossa atua\u00e7\u00e3o no magist\u00e9rio, inicialmente como professor de 1\u00b0 e 2\u00ba graus, em S\u00e3o Lu\u00eds, Viana e S\u00e3o Bernardo, a partir de 1973. No magist\u00e9rio de n\u00edvel superior, em espec\u00edfico na Universidade Federal do Maranh\u00e3o, tanto em S\u00e3o Lu\u00eds quanto em Imperatriz, al\u00e9m de professor da Escola Superior da Magistratura do Estado do Maranh\u00e3o, sempre vos haveis com desusada sali\u00eancia.<\/p>\n<p>Tal como vos tendes conduzido na magistratura, vos afirmais, tamb\u00e9m, na literatura, demonstrando vossa capacidade de conciliar esses dois pendores, essas duas vertentes do vosso esp\u00edrito, pois assim confessastes, no correr da fala com que acabais de brindar a todos n\u00f3s. Tanto que, assim como membro fundador da Academia Maranhense de Letras Jur\u00eddicas, preocupado em congregar os amantes de T\u00eamis, igualmente, sob o mesmo sentimento, buscastes\u00a0arregimentar os afei\u00e7oados \u00e0 beleza da literatura, ao edificardes, a partir dos alicerces, a Academia Imperatrizense de Letras e a Academia Vianense de Letras.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores, car\u00edssimos acad\u00eamicos:<\/p>\n<p>Pablo Neruda, em seu livro <em>Confesso que vivi<\/em>, nos d\u00e1 o ensinamento necess\u00e1rio para sabermos distinguir a mem\u00f3ria do memorialista, da mem\u00f3ria do poeta. Aquele, isto \u00e9, o memorialista, diz Neruda, vive talvez menos, por\u00e9m fotografa muito mais e nos diverte com a perfei\u00e7\u00e3o dos detalhes.<\/p>\n<p>Gabriel Garcia M\u00e1rquez, escritor, Pr\u00eamio Nobel colombiano, autor do incompar\u00e1vel <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, vem agora, em seu <em>Viver para contar,<\/em> no p\u00f3rtico dessa obra, lembrar\u00ad-nos que \u201ca vida n\u00e3o \u00e9 a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para cont\u00e1-\u00adla\u201d.<\/p>\n<p>O homem de mem\u00f3rias \u00e9 um recriador, um fabricador permanente do passado, por\u00e9m n\u00e3o pode faz\u00ea-\u00adlo sem que aprenda o presente. No dizer de Pedro Nava, a t\u00edtulo explicativo, o memorialista \u00e9 aquele que \u201cfaz uma paisagem mais ou menos \u00e0 moda daqueles pintores primitivos que pintavam Jesus Cristo, a Virgem Maria, S\u00e3o Jos\u00e9 com roupas medievais\u201d. Sabe ele contar com a mem\u00f3ria, no presente, para uma reinven\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do passado.<\/p>\n<p>Assim, \u00e0 an\u00e1lise feita no plano da narra\u00e7\u00e3o memorial\u00edstica, completam-\u00adse Neruda e Garcia M\u00e1rquez, ao dizer o primeiro que o memorialista fotografa muito mais e, ao afirmar o segundo, que a vida \u00e9 a que a gente recorda, e recorda para cont\u00e1\u00ad-la. Conv\u00e9m, no entanto, acrescentar que<\/p>\n<p><em>o compromisso do memorialista com a verdade ou com o lend\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o mesmo do historiador. Ou seja: a este incumbe transmitir a verdade, somente a verdade; enquanto o outro, o memorialista, interpreta a verdade \u00e0 sua maneira, de acordo com a sua emo\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Ou com o clique de sua m\u00e1quina fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Lavradas essas considera\u00e7\u00f5es, deve\u00ad-se sempre levar em conta a rela\u00e7\u00e3o entre o tempo e a mem\u00f3ria. Esta, mesmo sendo volunt\u00e1ria, pertence ao dom\u00ednio do que hesita entre o simples relato e a fic\u00e7\u00e3o, fic\u00e7\u00e3o feita da massa de lembran\u00e7as elaboradas com a experi\u00eancia do narrador. E a\u00ed, quando a recorda\u00e7\u00e3o escolhe seu tema, \u00e9 provocada pela pr\u00f3pria pessoa, e pode vir na sua verdade ou, ent\u00e3o, falsificada pelas proibi\u00e7\u00f5es da censura. J\u00e1 a mem\u00f3ria involunt\u00e1ria pode manifestar\u00ad-se em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, a partir de um sonho ou de um pesadelo, de um encontro imprevisto com algum lugar, um ser, um cheiro que pens\u00e1vamos ter esquecido, mas que estavam prontos para renascer.<\/p>\n<p>Os ensinamentos de Monique Le Moing, transmitidos em seu livro <em>Solid\u00e3o povoada<\/em>, em que longamente aborda a problem\u00e1tica da mem\u00f3ria, \u00e0 luz da obra de Proust e com reflexos no que nos legou Pedro Nava, fornecem elementos suficientes para que possa ser analisada, de modo mais intelig\u00edvel, qualquer produ\u00e7\u00e3o intelectual voltada para o tempo passado, revivenciado atrav\u00e9s da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Lourival Serejo, a quem dedico o presente elogio, apresenta\u00ad-se a esta Casa, tamb\u00e9m como um memorialista excepcional. \u00c9 daqueles que recorda para contar, assim como, por um motivo inesperado, conta porque lhe veio a recorda\u00e7\u00e3o. Nessa sua caminhada, em linguagem simples, por\u00e9m dotada de um qu\u00ea especial, a distingui\u00ad-la pela sua peculiaridade, nos legou, sucessivamente <em>Pres\u00e9pio queimado, Rua do Porto <\/em>e<em> Do alto da matriz<\/em>. Trata\u00ad-se de uma trilogia memorial\u00edstica, tecida de modo gradativo, inicialmente entremeada de pequenos contos que, pelo seu conte\u00fado, se fazem grandes, alguns deles reflexo de relembran\u00e7as de fatos, coisas e gentes.<\/p>\n<p>No texto que elaborou, a t\u00edtulo de apresenta\u00e7\u00e3o do seu <em>Pres\u00e9pio queimado<\/em>, o novo confrade faz sua pr\u00f3pria cr\u00edtica\u00a0acerca do que escrevera. E, para ilustrar tal aprecia\u00e7\u00e3o, busca Humberto de Campos que, em <em>Mealheiro de Agripa<\/em>, relata a hist\u00f3ria de um ourives que perseverou durante dois anos polindo uma pedra que supunha ser diamante. E o cronista de Miritiba compara esse ourives sonhador com alguns homens de letras, que gastam a vida brunindo obras de pouca valia, como se fossem elas um diamante.<\/p>\n<p>Lourival Serejo, como ele revela no corpo da apresenta\u00e7\u00e3o, deteve\u00ad-se a pensar no longo tempo que consumiu, polindo, tal o ourives de Humberto de Campos, seus contos e cr\u00f4nicas. E \u00e9 ele quem, logo a seguir, questiona: \u201cSer\u00e1 que o meu <em>Pres\u00e9pio queimado<\/em> n\u00e3o passa de uma pedra de vidro, que, por for\u00e7a de tanto polimento, procuro acreditar que se trata de uma pedra preciosa?\u201d Ao final o pr\u00f3prio autor responde: \u201cVidro ou diamante? N\u00e3o importa, foi polido com a dedica\u00e7\u00e3o e a ansiedade de quem \u00e9 pai pela primeira vez\u201d. Estava nascendo o escritor memorialista.<\/p>\n<p>Em seguida veio ele com uma colet\u00e2nea de reminisc\u00eancias, express\u00e3o dos bons anos em que residiu na cidade de Brejo, munic\u00edpio em que aportou, no exerc\u00edcio de sua judicatura. <em>Rua do Porto<strong>, <\/strong><\/em>o segundo livro da s\u00e9rie, ganhou nome de um dos principais logradouros daquela comuna. Traduz, na integridade, o cotidiano da art\u00e9ria, sob as aten\u00e7\u00f5es do ent\u00e3o juiz de Direito, no transitar pela fascinante, talvez mais fascinante que importante rua. Nesse livro j\u00e1 aprimora seu estilo de observador cr\u00edtico e ficcionista. O percurso que faz de sua casa para o local de trabalho \u00e9 o foco dessa sua obra. No trajeto di\u00e1rio, tudo observa, p\u00f5e uma dose de ironia e se coloca entre a realidade e o sonho. Assim, atento ao que acontece a seu redor, usando imagens no realce do que conta, com a gra\u00e7a do seu estilo, de modo perfeito,\u00a0al\u00e9m dos costumes da terra, do dia a dia da cidade, a pra\u00e7a, a igreja e os devotos, e tantas outras constata\u00e7\u00f5es, descreve, tamb\u00e9m, certos personagens ou tipos que mais lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o. E a\u00ed, n\u00e3o esquece o velho Sin\u00e9sio, tr\u00f4pego, \u201cprocurando o tempo perdido\u201d; a Maria Bina, que \u201c\u00e9 do morro, do alto da Rua do porto; \u00e9 de cima de sua pobreza que olha a vida de todos e vive a sua\u201d; o doutor Clemente Arag\u00e3o, t\u00edtulo de doutor trazido da Bahia, pol\u00edtico \u00e0 moda coronel, j\u00e1 envelhecido, cadeira pregui\u00e7osa \u00e0 porta de sua casa na rua do Porto, ele sentado, querendo saber o conte\u00fado das cartas, geralmente abertas, que eram levadas para o Correio, chamando: \u201cvem c\u00e1 bestidade, traz essa carta aqui\u201d. E tantos mais se seguem.<\/p>\n<p>Para o memorialista, o fundamental na vida \u00e9 o que j\u00e1 se foi, mat\u00e9ria que transfere ao leitor, em forma de realidade e fic\u00e7\u00e3o bem pr\u00f3ximas do romance. Tanto \u00e9 verdade que Lourival Serejo, no pr\u00f3logo de <em>Rua do Porto<\/em>, assim se manifesta: \u201cS\u00e3o cr\u00f4nicas e casos do que vi e senti naquela rua e que, tudo reunido, formam como que um romance&#8230; o romance de uma rua\u201d. Senhoras e senhores, estimados cons\u00f3cios:<\/p>\n<p>Da trilogia que vos enunciei, envolveu-\u00adme e emocionou\u00ad-me sobremodo o \u00faltimo t\u00edtulo que a comp\u00f5e: <em>Do alto da matriz<\/em>. Embora de todos pudesse a mim afigurar-\u00adse a obra que com maior facilidade e desenvoltura iria aqui me estender, tornou\u00ad-se mais dif\u00edcil, pois de repente dei\u00ad-me embara\u00e7ado, em face de raz\u00f5es sentimentais. Da\u00ed nem sei por onde come\u00e7ar. Sei, sim, que o autor canta a sua terra, e minha tamb\u00e9m, com a mesma musicalidade dos grandes compositores que a colocaram no cen\u00e1rio maior da criatividade harm\u00f4nica, do <em>Entre-Acto<\/em> sa\u00eddo dos sons instrumentais de Tem\u00edstocles Lima, ou da maviosa valsa denominada <em>Promenade sur le Lac<\/em>, de Alexandre Raiol. Conven\u00e7o-\u00adme, igualmente, de que jamais algu\u00e9m a desnudou como ele, Lourival Serejo, mostrando a beleza f\u00edsica com que foi agraciada por Deus; a conviv\u00eancia fascinante de sua gente;\u00a0sua cultura, suas festas e tradi\u00e7\u00f5es; o \u00eaxtase proporcionado pela sua flora exuberante; e o encanto de sua fauna, outrora rica em gar\u00e7as brancas e morenas, marrecas e japia\u00e7ocas, que ficaram perpetuadas nas minhas lembran\u00e7as juvenis.<\/p>\n<p>Viana \u00e9 obsessiva, transparece Lourival Serejo. Quem pelos seus bra\u00e7os foi transitoriamente acalentado, e, muito mais aqueles que do seu ventre sa\u00edram, jamais ter\u00e3o cortados os la\u00e7os de imorredoura saudade ou cord\u00f5es umbilicais com essa apaixonante cidade. Ela que festeja os lagos que a circundam, que a emolduram, na afirma\u00e7\u00e3o do desejo de preserv\u00e1\u00ad-la para sempre, guardando-\u00adlhe as fei\u00e7\u00f5es de crian\u00e7a, de adolescente e de mulher, de mulher madura, que sabe amar intensamente e se sente envaidecida pela reciprocidade de sentimentos, tanto dos que transitoriamente experimentaram o prazer de sua conviv\u00eancia, quanto daqueles que do seu corpo vieram \u00e0 luz.<\/p>\n<p>A Viana guardada comigo foi aquela de sessenta anos passados, e continuo mantendo vivos os seus detalhes que puderam ser calados na mem\u00f3ria de um menino de quase cinco anos de idade. Tempos depois, j\u00e1 ao princ\u00edpio da minha adolesc\u00eancia, fui rev\u00ea-\u00adla, \u00e0 concess\u00e3o familiar, por\u00e9m impulsionado pela saudade, alimentada a partir de quando a deixara. E, assim, em datas intermitentes, por\u00e9m sempre atendendo aos imperativos do meu cora\u00e7\u00e3o, por diversas vezes prestei\u00ad-lhe a minha perene homenagem.<\/p>\n<p>Mas, em todas essas ocasi\u00f5es, busquei desembrulhar os fios da meada que muito cedo, mesmo sem saber o que fazia, comecei a tecer. E o fiz desde o subir e descer as escadas do sobrado onde nasci, no meu andar curioso pelas suas ruas estreitas; na aprecia\u00e7\u00e3o de sua arquitetura colonial, nas visitas \u00e0s pessoas que escondera em mim, e das outras que fui conhecendo, de modo gradativo; nas ora\u00e7\u00f5es que havia decorado e que balbuciei nas igrejas, nas prim\u00edcias de minha vida, enfim, em tudo o mais que me envolveu e continua ainda a me enlear.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores, dign\u00edssimos confrades:<\/p>\n<p>Perdoem-\u00adme todos, pois j\u00e1 me ia desviando da incumb\u00eancia que me foi delegada, sob o enlevo de que me vi tomado, al\u00e9m de que j\u00e1 se alongam as horas e n\u00e3o me acho aqui, nesta noite \u00edmpar de Lourival Serejo, para falar de mim. Mas n\u00e3o posso esconder que, ainda mo\u00e7o, ao penetrar nos lagos de Viana, rompendo balsedos ou mururus, deparando-\u00adme com o morro do Mocoroca e vislumbrando a torre da igreja de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, nunca imaginei que eu e Lourival Serejo um dia na vida vi\u00e9ssemos a ter nossos caminhos encontrados, em especial sob testemunho especial dos que aqui acorreram pra homenage\u00e1-\u00adlo, com suas presen\u00e7as e seus contentamentos.<\/p>\n<p>O meu canto de louva\u00e7\u00e3o, embora desprovido da suavidade desta voz pouco afinada, que o pronuncia, longe de conseguir combinar os sons de modo harm\u00f4nico ao ouvido de todos, mas repleto do sentimento de plena afei\u00e7\u00e3o que lhe dedico, e de glorifica\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa terra \u2014 o meu canto de louva\u00e7\u00e3o, repito, \u00e9 a Lourival Serejo que, do alto da matriz, com os olhos de quem tudo sabe ver, a mem\u00f3ria em que tudo sabe guardar e a sensibilidade de sua alma, nos ofereceu, sobre Viana, a maior obra memorial\u00edstica de que tenho not\u00edcia, sem esquecer dos legados de v\u00e1rios homens ilustres que o antecederem em id\u00eantica manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vou me permitir, ao prevalecendo\u00ad-me da paci\u00eancia dos que enriquecem esta singular solenidade, a transcrever um trecho do pref\u00e1cio de <em>Do alto da<\/em> <em>matriz<\/em>, por mim subscrito, privil\u00e9gio com que fui agraciado pelo seu autor:<\/p>\n<p><em>A obra, analisada sob o ponto de vista do cotidiano das pessoas, conduz, atrav\u00e9s de sua leitura, a que seja observada sob tr\u00eas \u00e2ngulos, aparentemente diferentes, mas que se conjugam de forma sequencial e harm\u00f4nica. O primeiro deles \u00e9 o passado, rico na aprendizagem, nas alegrias, nas <\/em><em>decep\u00e7\u00f5es, nos sonhos, nos desejos, na introspec\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a, enfim, em todos os componentes que v\u00e3o formando, par a par, a personalidade humana; o segundo \u00e9 o esquecimento, que destr\u00f3i o passado, de forma aparentemente propositada, por for\u00e7a da adapta\u00e7\u00e3o individual \u00e0 realidade que o homem passa a viver; e, finalmente, o terceiro, \u00e9 a relembran\u00e7a, saborosa ou n\u00e3o, no todo ou em parte, de um dos per\u00edodos da exist\u00eancia de cada um, talvez o mais importante deles, que se achava encoberto: o passado esquecido. <\/em>Adiante, prossigo nos meus coment\u00e1rios:<\/p>\n<p><em><em>O livro, pelo conte\u00fado que encerra, dista de um simples relato. Este, indispens\u00e1vel \u00e0 composi\u00e7\u00e3o textual, deu-se com detalhes e na linguagem expressiva de quem o escreveu. Parece at\u00e9 que estou a ouvir o escritor, na sua voz calma, cuidadosa, \u00e0s vezes um pouco picante, mas que agrada a quem o escuta. A obra \u00e9 riqu\u00edssima no traduzir a alma de uma cidade. Cidade de ruas, de pra\u00e7as, de igrejas, de campos, de sinos badalando, de festas de largo, de m\u00fasicas, de manifesta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas, de gente indo e voltando, de crian\u00e7as e diabruras, por\u00e9m diferente de tantas outras. Porque nela o autor soube colocar alma. Ou soube colocar a terra natal na sua alma. As duas situa\u00e7\u00f5es se confundem e por isso proporcionam a beleza de estilo, aliada ao conte\u00fado repleto de minud\u00eancias, que prendem o leitor, em especial aquele pressuroso no despertar o que lhe estava dormente.<\/em><\/em><\/p>\n<p>Que mais poderei eu dizer sobre essa obra magistral que ultrapassa os limites da mem\u00f3ria restrita de um homem, para se situar na sua hist\u00f3ria, atual e pret\u00e9rita, enleada com a hist\u00f3ria de sua gleba, transmitida com autenticidade irrepreens\u00edvel de quem soube fotografar o que nenhuma c\u00e2mera, por mais moderna que fosse, p\u00f4de faz\u00ea-\u00adlo at\u00e9 agora?<\/p>\n<p>Em <em>Do alto da matriz<\/em> e no alto da matriz, na torre dessa\u00a0igreja, que representa tamb\u00e9m um marco na funda\u00e7\u00e3o de Viana, o lugar mais panor\u00e2mico da cidade, Lourival Serejo, ao revelar suas pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias, os anos primaveris incrustados na sua alma, a par dessa manifesta\u00e7\u00e3o memorial\u00edstica, ofereceu\u00ad-nos a vis\u00e3o sociol\u00f3gica da urbe em reviv\u00eancia e de todo o seu derredor.<\/p>\n<p>A obra, ao contr\u00e1rio da morbidez que preenche o fundo de tantas outras similares, sendo um filme que p\u00f5e a plateia em \u00eaxtase, \u00e9 ela mesma a alegria e a vida, a vida repleta de alegria, que o autor n\u00e3o inventa, pois ali est\u00e1 patente o seu estado de esp\u00edrito, jovial e prazenteiro. Come\u00e7a falando-\u00adnos da cidade, em ritmo de quem escreve um poema, sem nada esquecer, at\u00e9 nem mesmo da ladainha dos mortos, em que homenageia os homens e as mulheres que ele conheceu e se despediram deste mundo para sempre, talvez levados por Deus para o repouso no ros\u00e1rio dos lagos crescidos e irmanados pelas \u00e1guas invernosas.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, nela desfiou os tipos populares de sua \u00e9poca, ao falar\u00ad-nos, com a gra\u00e7a de suas palavras, na descri\u00e7\u00e3o resumida desses personagens, de Chico Beicinho, Janu\u00e1ria e Lib\u00e2nia, de Isabel\u00ad-sem-\u00adovo, de Raimundo Xixi e Prisco. E assim, ele vagueia pelos diversos pontos da cidade, passando pelo campo de avia\u00e7\u00e3o e pelo cemit\u00e9rio, escutando os sinos da matriz e o som dos alto-\u00adfalantes da festa de Nazar\u00e9; apreciando as tardes da semana, de segunda a s\u00e1bado todas g\u00eameas, e descrevendo as noites escuras repletas de fantasmas e almas perdidas. Penetra na casa onde morou, onde foi plasmada sua forma\u00e7\u00e3o moral, e, espantado, rev\u00ea no seu burburinho, dona Belinha e seu Nozor no az\u00e1fama do dia a dia, Nezinho, o h\u00f3spede mais constante, Coc\u00f3, um anjo em figura de tia, os m\u00f3veis sob a etiqueta de Bubu e seu Boa, o petisqueiro e o guarda\u00ad-lou\u00e7as, o santu\u00e1rio e o Cristo entronizado. E se deixa invadir pelas perenes lembran\u00e7as\u00a0guardadas nesse reposit\u00f3rio, isto \u00e9, na casa que ficava e fica no mesmo lugar, na rua Grande, do jeito que era, repetindo suas pr\u00f3prias letras.<\/p>\n<p>Senhor Lourival Serejo:<\/p>\n<p>De modo especial agora eu vos sa\u00fado, porque, refletindo o esp\u00edrito de filho e irm\u00e3o exemplar, ligado permanentemente aos vossos familiares, a eles dedicastes um cap\u00edtulo no vosso <em>Do alto da matriz<\/em>, e assim demonstrais, \u00e0 clareza do firmamento a refletir seus raios sobre a paisagem \u00edmpar de Viana, o inequ\u00edvoco sentimento que vos liga \u00e0 fam\u00edlia. Enaltecestes as qualidades dos vossos pais e em passagem alguma a menor observa\u00e7\u00e3o fizestes a suscitar d\u00favidas quanto ao afeto carinhoso que a eles sempre dedicastes. A rela\u00e7\u00e3o que com eles constru\u00edstes, na qualidade de obreiro perfeito, bem atesta a qualidade que possu\u00eds, transmudada para o vosso cotidiano, a espelhar vossa conduta ilibada no trato com as pessoas que conheceis. Sendo eu, tamb\u00e9m, um homem apaixonado pela minha fam\u00edlia, a partir daqueles que me colocaram neste universo, tomei\u00ad-me, simultaneamente, de emo\u00e7\u00e3o e prazer, pelo modo carinhoso com que vos referis, em cap\u00edtulos distintos, mas que se entrela\u00e7am, tal marido e mulher na intimidade de um amor eterno, \u00e0 imagem perfeita de um casamento n\u00e3o menos perfeito, a seu Nozor e a Dona Belinha, casal exemplar que conheci, bem antes que pis\u00e1sseis o solo da nossa Viana.<\/p>\n<p>J\u00e1 nem devo mais comentar vossa obra\u00ad-prima, pois, como j\u00e1 disse, ela calou fundo em minha alma, envolvendo-\u00ada pelos benfazejos ares das reminisc\u00eancias de um mundo m\u00e1gico que permeou minha meninice e parte da minha juventude. E assim, confesso, convosco desejaria estar na torre da matriz, olhando para a nossa cidade, a saudar os que\u00a0chegam, dizendo-\u00adlhes bem\u00ad-vindos, e os que se despendem, com um at\u00e9 breve, tal como vos expressastes \u00e0s primeiras p\u00e1ginas de <em>Do alto da matriz<\/em>, na parte introdut\u00f3ria, sob vossa assinatura.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores, car\u00edssimos acad\u00eamicos:<\/p>\n<p>Desde tempos imemoriais Viana vem cultivando tradi\u00e7\u00f5es, assentadas em express\u00f5es transmitidas sob\u00a0in\u00fameras formas, todas originadas da singeleza das manifesta\u00e7\u00f5es populares. Traduzem o sincretismo formado por culturas e ra\u00e7as, anos a fio conservado na pureza de cren\u00e7as, lendas e festejos, mas que o desenvolvimento socioecon\u00f4mico avassalador, ao alcan\u00e7ar a Baixada Maranhense, um casulo que se supunha intoc\u00e1vel, tem contribu\u00eddo para seu desvirtuamento. Ainda assim, algumas express\u00f5es do cancioneiro portugu\u00eas resistem \u00e0s amea\u00e7as \u00e0 sua autenticidade, a despeito das gentes que chegam e ali se assentam, sem o menor compromisso com os usos e costumes da terra que as acolhe.<\/p>\n<p>Lourival Serejo preocupou\u00ad-se em registrar uma das representa\u00e7\u00f5es do popul\u00e1rio, das mais importantes, at\u00e9 porque, embora ainda salva dos perigos das descaracteriza\u00e7\u00f5es, \u00e9 tamb\u00e9m, tal como as demais, suscet\u00edvel de ser deformada. Trata-\u00adse do <em>Baile de S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/em>, cujas letras de cantorias, fotografias de encena\u00e7\u00f5es e partituras v\u00e1rias integram o livro que publicou sob o mesmo t\u00edtulo. A\u00ed o autor registra relatos e acompanha pessoalmente o desenrolar das homenagens prestadas ao santo de Amarante. Neste ponto, segue ele os exemplos deixados pelos nossos patr\u00edcios Celso Magalh\u00e3es e Ant\u00f4nio Lopes, ambos intelectuais de renome. Aquele, autor de <em>A poesia popular brasileira<\/em>, desenvolveu, no Brasil, os primeiros trabalhos de car\u00e1ter cient\u00edfico acerca do folclore. O segundo, Ant\u00f4nio Lopes, que escreveu <em>A presen\u00e7a do romanceiro<\/em>, o mais importante estudo de pesquisa que re\u00fane setenta e uma vers\u00f5es de trinta e tr\u00eas romances \u2014 poesia tradicional que atravessa os s\u00e9culos atrav\u00e9s da oralidade \u2014 foi folclorista da cepa de S\u00edlvio Romero.<\/p>\n<p>Senhor Lourival Serejo:<\/p>\n<p>Eu vos sa\u00fado novamente, ilustre ocupante da Cadeira patroneada por C\u00e9sar Marques, posto que me escolhestes como guia para conhecerdes os meandros desta Casa, eu vos sa\u00fado, repito, como se tamb\u00e9m fosse eu o Guia de um Baile de S\u00e3o Gon\u00e7alo:<\/p>\n<p>Quando entrei neste sal\u00e3o<br \/>\nFoi com imensa devo\u00e7\u00e3o<br \/>\nAs flores que trago comigo<br \/>\nMinhas companheiras s\u00e3o:<br \/>\nO Cravo e a Rosa<br \/>\nO Girassol e a Borboleta<br \/>\nO Manjeric\u00e3o e a Sempre-viva.<br \/>\nEsta por ser derradeira,<br \/>\nO Alecrim e a Laranjeira.<br \/>\nEsta referida flor<br \/>\nQue fala por derradeiro<br \/>\nAgora apare\u00e7am em figura<br \/>\nFalando o Cravo primeiro.<br \/>\nVenho eu, que sou o Cravo,<br \/>\nFlor de toda ousadia,<br \/>\nVenho trazer este ramo<br \/>\nA S\u00e3o Gon\u00e7alo neste dia.<br \/>\nOh! Que palma t\u00e3o formosa<br \/>\nQue hoje veio aparecer.<br \/>\nAgora torno a dizer:<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 outra mais formosa,<br \/>\nSiga-se agora e fale,<br \/>\nA flor da bela Rosa.<br \/>\nVenho eu, que sou a Rosa,<br \/>\nQue o Cravo me chamou,<br \/>\nA chamar o Girassol<br \/>\nFoi quem Deus alumiou.<br \/>\nE porque ele rogou<\/p>\n<p>A nos dar a caridade,<br \/>\nVamos fazer este baile<br \/>\nCom muita felicidade.<br \/>\nCom alguma brevidade<br \/>\nQueremos fazer melhor,<br \/>\nSiga-se agora e fale<br \/>\nA flor do Girassol<br \/>\nVenho eu, o Girassol,<br \/>\nQue a Rosa me deu o sinal<br \/>\nA chamar a Borboleta<br \/>\nE a ela publicar:<br \/>\nEu tamb\u00e9m sou uma flor<br \/>\nDe toda modera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAceitai meu S\u00e3o Gon\u00e7alo,<br \/>\nDe todo meu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPedimos a S\u00e3o Gon\u00e7alo<br \/>\nQue a promessa seja aceita,<br \/>\nSiga-se agora e fale<br \/>\nA flor da Borboleta.<br \/>\nVenho eu, a Borboleta,<br \/>\nQue o Girassol me ofereceu<br \/>\nA S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante<br \/>\nPara companheiro seu<br \/>\nE a v\u00f3s que prometeu<br \/>\nDar sa\u00fade aos doentes,<br \/>\nVamos fazer um baile<br \/>\nQue admire toda gente.<br \/>\nPedimos a S\u00e3o Gon\u00e7alo<br \/>\nQue nos d\u00ea anima\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSiga-se agora e fale<br \/>\nA flor do Manjeric\u00e3o.<br \/>\nVenho eu, o Manjeric\u00e3o,<\/p>\n<p>Como um raio de formosura.<br \/>\nDe todas as flores<br \/>\nEu fa\u00e7o a melhor figura.<br \/>\nE a Virgem pura<br \/>\nQue no mundo deu abalo<br \/>\nEu com v\u00f3s falo<br \/>\n\u00c9 ajuda decisiva.<br \/>\nSiga-se agora e fale<br \/>\nA querida Sempre-viva.<br \/>\nVenho eu, a Sempre-viva,<br \/>\nFlor mais bonita e galante.<br \/>\nVenho trazer este ramo<br \/>\nA S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante,<br \/>\nPor ele ser muito constante,<br \/>\nQue todos dizem assim.<br \/>\nSiga-se agora e fale<br \/>\nA flor do Alecrim.<br \/>\nVenho eu, o Alecrim,<br \/>\nFlor do mundo em geral<br \/>\nO nome que trago no meio<br \/>\n\u00c9 S\u00e3o Gon\u00e7alo exemplar.<br \/>\nPor ele devemos chamar<br \/>\nQuando for a ocasi\u00e3o,<br \/>\nPara que nos acuda sempre<br \/>\nCom a sua prote\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuerida assim por ser verdadeira<br \/>\nSiga-se agora e fale<br \/>\nA flor da Laranjeira.<br \/>\nVenho eu, a flor da Laranjeira,<br \/>\nFicando por derradeiro.<br \/>\nS\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante<br \/>\n\u00c9 santo de Deus verdadeiro.<\/p>\n<p>V\u00f3s \u00e9 muito desejado<br \/>\nQue a todos dizem viva<br \/>\nEste Santo venerado<br \/>\nQue por Deus \u00e9 abra\u00e7ado<br \/>\nSenhor guia e dan\u00e7antes<br \/>\nQueremos este baile formado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s diversas passagens e cantorias, j\u00e1 ao encerrar o Baile,\u00a0vai, novamente, a manifesta\u00e7\u00e3o do Guia:<\/p>\n<p>Est\u00e1 terminado o baile,<br \/>\nEst\u00e1 acabada a fun\u00e7\u00e3o,<br \/>\nQueremos do nobre audit\u00f3rio<br \/>\nDos nossos erros o perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Confrade Lourival de Jesus Serejo Sousa:<\/p>\n<p>J\u00e1 que me preferistes como guia, eu vos dou de entrardes nesta Casa, mas entrai portando o vosso bornal recoberto de pedras cintilantes a conduzir a express\u00e3o do vosso talento. Entrai, tamb\u00e9m, com imensa devo\u00e7\u00e3o, trazendo em vossas m\u00e3os o Cravo e a Rosa, o Girassol e a Borboleta, o Manjeric\u00e3o e a Sem pre\u00adviva, o Alecrim e a Laranjeira, do vosso e do nosso baile vianense de S\u00e3o Gon\u00e7alo, flores com que vindes perfumar a vossa imortalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A LEITURA COMO VE\u00cdCULO DE TRANSFORMA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho muita prefer\u00eancia pela literatura oriental, talvez pelo estilo e pelos temas de suas hist\u00f3rias, al\u00e9m de que seus autores s\u00e3o geralmente desconhecidos. Por recomenda\u00e7\u00e3o de um livro sobre livros e pelo filme com o mesmo nome, o qual\u00a0 j\u00e1 havia assistido, h\u00e1 algum tempo, procurei ler o romance de Da\u00ed Sijie, <em>Balzac e a Costureirinha chinesa,<\/em>\u00a0 edi\u00e7\u00e3o de 2007, da editora Objetiva.<\/p>\n<p>O romance de Dai Sijie tem a for\u00e7a da raiz autobiogr\u00e1fica. O autor viveu tr\u00eas anos em um campo de reeduca\u00e7\u00e3o rural, no tempo da desastrosa pol\u00edtica de Mao Ts\u00e9-tung, denominada de Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, iniciada no fim da d\u00e9cada de sessenta.<\/p>\n<p>Os pontos essenciais que se destacam no romance do escritor chin\u00eas, radicado na Fran\u00e7a, s\u00e3o a busca pelo prazer da leitura e o poder transformador do livro.<\/p>\n<p>Dois rapazes, filhos de fam\u00edlias estruturadas econ\u00f4mica e culturalmente, moradores da cidade de Chengtu, capital da prov\u00edncia, s\u00e3o mandados para uma aldeia, \u00a0de nome F\u00eanix Celestial, localizada nas montanhas, onde passam a fazer os mesmos trabalhos dos alde\u00f5es, lidando com a planta\u00e7\u00e3o e colheita de arroz e explora\u00e7\u00e3o de cobre.\u00a0 Suas atividades s\u00e3o fiscalizadas e cobradas por um l\u00edder local. A perman\u00eancia deles naquela aldeia era por tempo indeterminado, o que podia significar a vida inteira. Seus estudos foram interrompidos e seus sonhos estancados aos 18 anos de idade.<\/p>\n<p>Naquela imensid\u00e3o isolada, descobriram que um terceiro rapaz reeducando, chamado de Quatro-olhos, detinha um tesouro secreto, escondido de todos, com medo da repress\u00e3o pol\u00edtica: uma sacola de livros de literatura de escritores ocidentais. Mas o rapaz nega compartilhar com eles a leitura daqueles livros. Com muito custo, empresta-lhes um romance de Balzac: <em>\u00darsula Mirou\u00ebt.<\/em><\/p>\n<p>Por essa mesma ocasi\u00e3o, conhecem uma jovem que vive com o av\u00f4, o \u00fanico alfaiate da regi\u00e3o. Passam a cham\u00e1-la de a Costureirinha. Os dois jovens apaixonam-se por ela, mas s\u00f3 o amor de Luo \u00e9 correspondido.\u00a0 Pela intelig\u00eancia e interesse que ela revela, resolvem educ\u00e1-la com a leitura de livros. Ela se embevece com as hist\u00f3rias que contam Luo e seu amigo, o narrador. At\u00e9 o chefe da aldeia se interessa por essas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>O amigo de Luo, antes de devolver o livro a Quatro-olhos, copia alguns trechos que considera \u00a0mais tocantes, no avesso de um casaco de couro. A Costureirinha se encanta com a leitura \u00a0daquelas passagens de Balzac, feita pelos seus amigos reeducandos.<\/p>\n<p>Tempos depois, \u00e0s v\u00e9speras do retorno de Quatro-olhos, os jovens furtam a sacola deste e passam a ler todos os livros ali reunidos, dos mais renomados autores: Victor Hugo, Stendhal, Tolstoi, Gogol, Dostoievski, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Romain Roland, Rousseau, Dickens, Kipling e Emily Bront\u00eb. Ao avaliar esse tesouro, Luo exclamou: \u201cCom estes livros, vou transformar a Costureirinha. Ela nunca mais ser\u00e1 uma simples montanhesa\u201d. Esse fen\u00f4meno transformador ocorreu com o pr\u00f3prio narrador, ap\u00f3s a leitura do primeiro volume do romance <em>Jean-Cristophe,<\/em> de Romain Rolland: \u201cPara mim, era o livro sonhado: ao t\u00e9rmino da leitura, nem a maldita vida nem o maldito mundo poderiam ser como antes.\u201d<\/p>\n<p>Realmente, foi o que aconteceu. Com essas leituras, a Costureirinha transformou-se em outra pessoa e resolveu romper com aquele mundo reduzido. Decidiu deixar o pai, a namorado e o amigo, e ir embora para um mundo grande, capaz de germinar seus sonhos.<\/p>\n<p>Nessa obra, o autor demonstra quanto tem o livro de libertador e transformador. S\u00f3 a leitura daquelas obras faziam os jovens esquecerem o ex\u00edlio a que foram submetidos. Para a Costureirinha, sua personalidade, at\u00e9 ent\u00e3o simpl\u00f3ria, descortinou um futuro diferente do que aguardava sua perman\u00eancia naquele lugar. Com a tomada de consci\u00eancia e a conquista da autoestima (Ela me disse \u2013 revela o namorado Luo \u2013 que Balzac fez com que compreendesse uma coisa: a beleza de uma mulher \u00e9 um tesouro que n\u00e3o tem pre\u00e7o).<\/p>\n<p>Em resumo, o romance de Dai Sijie trata de uma hist\u00f3ria de amor e da educa\u00e7\u00e3o pelos livros. O amor e a leitura s\u00e3o a grande li\u00e7\u00e3o dessa obra. A li\u00e7\u00e3o de quanto os livros podem transformar uma pessoa. \u00a0\u00c8 vero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O M\u00c1GICO DE MACONDO<\/strong><\/p>\n<p>Certos escritores, assim como certos \u00a0artistas que tanto bem fazem \u00e0 humanidade n\u00e3o deveriam morrer. Mas, de repente, essa expectativa de imortalidade se rompe e nos deparamos com a realidade t\u00e3o distante da fic\u00e7\u00e3o: a morte chega e tudo se acaba. O s\u00f3lido se desmancha no ar. S\u00f3 ficam para a eternidade as obras e as li\u00e7\u00f5es de cada um.<\/p>\n<p>N\u00e3o custava nada o destino conferir a Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez a longevidade dos seus personagens de Macondo. Se ele fosse um Buend\u00eda viraria borboleta e sairia voando pelo seu espa\u00e7o m\u00e1gico.<\/p>\n<p>A vida de Garcia M\u00e1rquez, narrada por ele mesmo, em sua obra <em>Viver para contar,<\/em> \u00e9 um reposit\u00f3rio de aventuras, ousadias e sucessos.<\/p>\n<p>Como Garc\u00eda M\u00e1rquez, possuidor de uma timidez de codorna, conforme ele mesmo avaliou-se em sua autobiografia, como p\u00f4de ele ter obtido tanto sucesso? Ser\u00e1 num passe de m\u00e1gica ou de sorte? Com certeza, n\u00e3o foi assim. Toda a consagra\u00e7\u00e3o de Gabo foi o resultado da dedica\u00e7\u00e3o exclusiva ao of\u00edcio de escrever e do cultivo do seu talento. Como um lance sobrenatural, ele percebeu que deveria largar tudo e viver exclusivamente para escrever. S\u00f3 assim seria constru\u00eddo o escritor que desejou tornar-se. Os passos e as dificuldades para chegar \u00e0 gl\u00f3ria s\u00e3o esclarecidos, com detalhes, em <em>Viver para contar<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o pin\u00e1culo da literatura fant\u00e1stica, na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 o romance <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, embora n\u00e3o tenha sido o pioneiro nessa categoria. Por esse m\u00e9rito \u00e9 que o cr\u00edtico americano Ilan Stavans denominou essa obra de B\u00edblia da Am\u00e9rica Latina. Desde seu lan\u00e7amento, em 1967, esse romance revolucionou a literatura neste continente e em todo o mundo, trazendo \u00e0 tona o poder da fic\u00e7\u00e3o, for\u00e7a que se sente desde o nocaute da primeira frase: \u201cMuitos anos depois, diante do pelot\u00e3o de fuzilamento, o coronel Aureliano Buend\u00eda havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo\u201d.<\/p>\n<p>Quem conhece\u00a0 <em>Amor em tempo de c\u00f3lera, Cem anos de solid\u00e3o, Cr\u00f4nica de uma morte anunciada, Os funerais da Mam\u00e3e Grande, O general e seu labirinto, Mem\u00f3rias de minhas putas tristes, O outono do patriarca e Relato de um n\u00e1ufrago,<\/em> dentre outras obras de Garc\u00eda M\u00e1rquez, pode aquilatar o grau de criatividade do escritor que deu ao realismo m\u00e1gico o melhor tratamento liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Coincidentemente, eu estava em Havana, no dia seguinte \u00e0 morte dele e, ali, tive a oportunidade de sentir, pelas p\u00e1ginas do jornal <em>Granma<\/em> a repercuss\u00e3o daquele fato, inclusive com a divulga\u00e7\u00e3o de um artigo do pr\u00f3prio Fidel Castro, em louvor da genialidade do falecido, seu amigo pessoal e admirador.<\/p>\n<p>Pelo poder de sua fic\u00e7\u00e3o transgressora do poss\u00edvel, \u00e9 que optei por cham\u00e1-lo de M\u00e1gico de Macondo e n\u00e3o de Aracataca, sua terra natal, perdida nas entranhas da Col\u00f4mbia. Afinal, como j\u00e1 foi dito por algu\u00e9m, Macondo \u00e9 um lugar em que cabe todos os lugares do mundo. Naquele cen\u00e1rio encantado, as gera\u00e7\u00f5es dos Buend\u00eda viveram sucessivas aventuras contadas e inventadas pelo imagin\u00e1rio popular. O ponto mais remoto dessa \u00e1rvore geneal\u00f3gica \u00e9 o casal Jos\u00e9 Arcadio Buend\u00eda e \u00darsula Iguar\u00e1n. S\u00e3o sete gera\u00e7\u00f5es, nas quais destacaram-se dezessete Aurelianos.<\/p>\n<p>Na geografia imagin\u00e1ria da literatura latino-americana, despontam tr\u00eas lugares que a fantasia dos seus criadores cravou num mapa em que o leitor \u00e9 compensado pelos tesouros ali existentes. S\u00e3o eles: Comala, em<em> Pedro P\u00e1ramo,<\/em> de Juan Rulfo; Santa Maria, em <em>Junta-cad\u00e1veres<\/em> e outras obras, de Juan Carlos Onetti; e Macondo, em <em>Cem anos de solid\u00e3o,<\/em> de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. Mesmo sendo real, Belo Monte, em Canudos, como descrita por Vargas Llosa, em <em>A guerra do fim do mundo,<\/em> pode ser alinhada entre esses lugares fant\u00e1sticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As homenagens e os elogios lan\u00e7ados, por toda parte, \u00e0 mem\u00f3ria de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez s\u00e3o merecidos pelo que ele representou com seu talento, para as letras da Am\u00e9rica Latina, assegurando aos seus leitores momentos de lazer e aprendizagem pelo universo da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>HUMBERTO DE CAMPOS REDIVIVO<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, em breve palestra sobre Coelho Neto, no Caf\u00e9 Liter\u00e1rio do Centro de Criatividade Odilo Costa, filho, fiz, logo de in\u00edcio, esta pergunta: \u00c9 poss\u00edvel reabilitar Coelho Neto?\u00a0 A resposta s\u00f3 podia ser n\u00e3o, apesar de tantas e tantas tentativas feitas por intelectuais como Brito Broca, Alfredo Bosi etc. \u00a0Essa mesma pergunta vale para Humberto de Campos, com a mesma resposta.<\/p>\n<p>O destino de Coelho Neto e de Humberto de Campos se entrela\u00e7a pela amizade, pela morte e pelo esquecimento a que foram condenados. Morreram no mesmo ano \u2013 1934 \u2013, apenas com uma semana de diferen\u00e7a. Ambos fizeram, por consequ\u00eancia, neste 2014, 80 anos de falecimento. Coelho Neto faleceu com 70 anos de idade, enquanto Humberto de Campos tinha apenas 48 anos. O autor de <em>Turbilh\u00e3o<\/em> ainda faz, neste ano, \u00a0150 anos de nascimento.<\/p>\n<p>Eis que, para surpresa dos admiradores de Humberto de Campos, surge, agora, uma publica\u00e7\u00e3o especial de algumas obras suas para comemorar a passagem dessa data.\u00a0 A not\u00edcia lida no Caderno <em>Prosa e Verso,<\/em> do jornal <em>O Globo<\/em>, de 6 de dezembro passado, informa o lan\u00e7amento de quatro volumes da S\u00e9rie Humberto de Campos \u2013 Renascendo 80 anos depois, pela editora Tinta Negra. A cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 acondicionada numa caixa e comp\u00f5e-se dos seguintes t\u00edtulos: a) Di\u00e1rio secreto; b) Poesias completas; c) Contos sat\u00edricos do Conselheiro XX; e d) Contos e cr\u00f4nicas. O lan\u00e7amento ocorreu na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Essa publica\u00e7\u00e3o reabilita Humberto de Campos do esquecimento em que dormitava. N\u00e3o importa que seja fugaz. Para marcar essa data, n\u00e3o haveria melhor presente \u00e0 mem\u00f3ria de quem t\u00e3o bem soube trabalhar a memorial\u00edstica em nossa literatura.<\/p>\n<p>Depois de sua morte, Humberto de Campos mereceu o privil\u00e9gio da publica\u00e7\u00e3o de sete biografias, o que \u00e9 raro para um escritor brasileiro. Refiro-me \u00e0s biografias que conhe\u00e7o e que se encontram em minha biblioteca. S\u00e3o elas: a) Pican\u00e7o, Macario de Lemos. <em>Humberto de Campos<\/em>. Rio de Janeiro: Minerva, 1937; b) Vieira, Hermes.<em> Humberto de Campos e sua express\u00e3o liter\u00e1ria. <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Moderna, sem data; c) Reis, Roberto; Carvalho, L\u00facia Helena;\u00a0 Souza, Roberto Ac\u00edzelo de. <em>O miolo e o p\u00e3o.<\/em> Rio de Janeiro: EDFF &#8211; INL, 1986; d) Lebert, Maria de Lourdes. <em>Humberto de Campos. <\/em>S\u00e3o Paulo: Melhoramentos, sem data; e) Ramos, Cl\u00f3vis. <em>Ano centen\u00e1rio de Humberto de Campos.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: Sioge, 1986; f) Campos Filho, Humberto de. <em>Irm\u00e3o X, meu pai.<\/em> S\u00e3o Paulo: L\u00famen Editorial, 1997; g) Coelho, Amparo.<em> Humberto de Campos, evoca\u00e7\u00f5es de uma vida.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds, 2005.<\/p>\n<p>Aqui, no Maranh\u00e3o, em 2009 e 2010, o Instituto Geia teve a iniciativa de editar tr\u00eas obras de Humberto de Campos: <em>Mem\u00f3rias, Mem\u00f3rias Inacabadas<\/em> e\u00a0 <em>Di\u00e1rio Secreto<\/em>. Uma atitude que j\u00e1 tive oportunidade de elogiar em cr\u00f4nica anterior. As obras completas de Humberto de Campos foram lan\u00e7adas pela Editora \u00a0W. M. Jackson, em 1945, com sucessivas reedi\u00e7\u00f5es.\u00a0 Depois sa\u00edram alguns t\u00edtulos esparsos. O <em>Di\u00e1rio Secreto<\/em>, em dois volumes, \u00a0teve sua primeira edi\u00e7\u00e3o patrocinada pela editora da Revista <em>Cruzeiro<\/em> e s\u00f3 era encontrado em sebos. Desde a publica\u00e7\u00e3o do Geia, os leitores tiveram oportunidade de conhecer a mais pol\u00eamica das obras do escritor maranhense.<\/p>\n<p>Nossos cursos de Letras deveriam insistir na pesquisa e na divulga\u00e7\u00e3o das obras de Coelho Neto e de Humberto de Campos, pelo valor que encerram, como fez agora a professora Aline Haluch, respons\u00e1vel por essa publica\u00e7\u00e3o que ora se anuncia, depois de dedicar-se, em tese \u00a0de doutorado, ao estudo da revista ilustrada <em>A<\/em> m<em>a\u00e7\u00e3<\/em>, editada pelo autor de \u00a0<em>Sombras que sofrem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Volto a insistir, embora de efeito breve, essa publica\u00e7\u00e3o revive\u00a0 Humberto de Campos,\u00a0 em seus 80 anos de falecimento.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu na cidade de Viana, Maranh\u00e3o. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito P\u00fablico, pela Faculdade de Direito do Cear\u00e1, em 1980 e, posteriormente, em Direito Processual Civil pela Universidade Federal de Pernambuco, em conv\u00eanio com a Escola Superior da Magistratura do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1647,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[54],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/436"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=436"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/436\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1655,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/436\/revisions\/1655"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1647"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}