{"id":426,"date":"2014-02-28T12:08:57","date_gmt":"2014-02-28T15:08:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=426"},"modified":"2020-10-07T11:25:48","modified_gmt":"2020-10-07T14:25:48","slug":"salvio-dino-jesus-de-castro-e-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/salvio-dino-jesus-de-castro-e-costa\/","title":{"rendered":"S\u00e1lvio Dino Jesus de Castro e Costa"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em Graja\u00fa-MA, a 5 de junho de 1932. Fez o curso secund\u00e1rio no Col\u00e9gio de S\u00e3o Luiz, da capital maranhense, e bacharelou-se em Ci\u00eancias Jur\u00eddicas e Sociais pela Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds, onde participou de movimentos estudantis e liter\u00e1rios.<br \/>\nIngressou muito jovem no jornalismo, como revisor e rep\u00f3rter dos Di\u00e1rios Associados. Advogado, atuou em numerosos j\u00faris populares no interior e na capital do Estado, e foi o autor do projeto de cria\u00e7\u00e3o, no interior do Estado, da primeira Subse\u00e7\u00e3o da Ordem dos Advogados do Brasil- Se\u00e7\u00e3o do Maranh\u00e3o, n\u00facleo instalado em Imperatriz, e do qual foi conselheiro.<br \/>\nL\u00edder estudantil, foi atuante membro da Uni\u00e3o Maranhense dos Estudantes Secund\u00e1rios-UMES; pertenceu ao Parlamento Escola da Faculdade de Direito e foi eleito orador oficial do Centro Acad\u00eamico Clodomir Cardoso, da referida institui\u00e7\u00e3o de ensino superior.<br \/>\nVocacionado para as atividades pol\u00edticas, elegeu-se, em 1954, vereador de S\u00e3o Lu\u00eds e, em 1962, conquistou seu primeiro mandato de deputado estadual, havendo sido cassado em 1964, sob a acusa\u00e7\u00e3o de atividades subversivas. De volta \u00e0 Assembl\u00e9ia Legislativa do Estado, foi distinguido, em 1977, pelo Centro Social Estudantil Maranhense, com o t\u00edtulo de Melhor Deputado Estadual desse ano. Foi prefeito municipal de Jo\u00e3o Lisboa-MA em 1989 e 1997.<br \/>\nPresidente, por dois mandatos, da Associa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios da Regi\u00e3o Tocantina-AMRT e da Associa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios do Sul do Maranh\u00e3o-AMSUL. Exerceu diversos cargos em comiss\u00e3o no Governo do Estado do Maranh\u00e3o.<br \/>\nMembro fundador da Academia Imperatrizense de Letras e seu vice-presidente em 1991\/92.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p>a) contos: Nas barrancas do Tocantins (1981).<br \/>\nb) poesia: Semeando manh\u00e3s (1985); Luzia, quase uma lenda de amor (1990).<br \/>\nc) estudos biogr\u00e1ficos: Quem passar por Jo\u00e3o Lisboa (1989); Clarindo Santiago: o poeta maranhense desaparecido no rio Tocantins (1997).<br \/>\nd) cr\u00f4nicas: Verde sert\u00f5es e vidas. S\u00e3o Lu\u00eds: 1999.<br \/>\ne) hist\u00f3ria: Ra\u00edzes hist\u00f3ricas de Graja\u00fa (1974); Onde \u00e9 Par\u00e1, onde \u00e9 Maranh\u00e3o? S\u00e3o Lu\u00eds: Sioge. 1990; O perfil hist\u00f3rico do rio Tocantins (1992); A Faculdade de Direito do Maranh\u00e3o (1918-1941), S\u00e3o Lu\u00eds: Edufma, 1996; Le\u00f5es: um pal\u00e1cio de hist\u00f3rias, lenda, mitos &amp; chef\u00f5es. S\u00e3o Lu\u00eds: Sioge.1997.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE\u00a0POSSE<\/h5>\n<p>Minhas Senhoras, Meus Senhores:<\/p>\n<p>Desejo de vero sentir, evocar, no p\u00f3rtico deste pronunciamento, para o qual suplico a benevol\u00eancia de todos, uma par\u00e1bola, de sabor esf\u00edngico, que bem espelha a grandeza de esp\u00edrito dos homens que exercitam a palavra com maestria.<\/p>\n<p>Essa pequena f\u00e1bula, o ilustre escritor e jornalista Edmilson Sanches recolheu\u00ad-a de cadernos amarelecidos e deu-\u00adlhe uma nova roupagem, tal qual o ex\u00edmio ourives que manipulando o ouro fino transforma-\u00ado em bela obra de arte.<\/p>\n<p>O jovem disc\u00edpulo aprisionou um pequeno p\u00e1ssaro entre as m\u00e3os. Colocou\u00ad-se atr\u00e1s do seu mestre e falou\u00ad-lhe: \u2013 Mestre, tenho um p\u00e1ssaro nas m\u00e3os. O Senhor, que sabe todas as respostas, diga\u00ad-me: ele est\u00e1 vivo ou morto?<\/p>\n<p>Se o mestre respondesse: est\u00e1 vivo, o disc\u00edpulo esmagaria o p\u00e1ssaro e o exibiria morto. Se a resposta fosse: est\u00e1 morto, ele libertaria o p\u00e1ssaro que voaria frente ao mestre, agora desmoralizado.<\/p>\n<p>O que falar, o que dizer?<\/p>\n<p>O que se deve dizer em um momento t\u00e3o festivo, quando nossa alma embriagada de forte emo\u00e7\u00e3o deixa-\u00adse dominar pela mais feliz das ilus\u00f5es do outono existencial de que vivemos, o sonho dourado da imortalidade acad\u00eamica?<\/p>\n<p>Da genialidade de Rui Barbosa colho esta s\u00e1bia li\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Embora as maiores institui\u00e7\u00f5es humanas se alienem, ou enxovalhem, resta-nos sempre uma, t\u00e3o nova nos l\u00e1bios de Gladstone, como nos de P\u00e9ricles: a institui\u00e7\u00e3o divina da palavra<\/em>.<\/p>\n<p>T\u00e3o divina, realmente, \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o da palavra que atrav\u00e9s dela, no princ\u00edpio, Deus criou os c\u00e9us, a terra e tudo o que neles h\u00e1. T\u00e3o extraordin\u00e1rio \u00e9 o poder verbal que desde os memor\u00e1veis tempos dos profetas, passando pela grandiosidade hel\u00eanica e a arrancada do novo mundo decorrente das ousadas conquistas mar\u00edtimas, pedras sobre pedras desabaram, no entanto, a palavra, os versos do maior monumento liter\u00e1rio da l\u00edngua portuguesa, <em>Os Lus\u00edadas<\/em>, embora parecessem fr\u00e1geis, de pouca resist\u00eancia, jamais deixaram de existir, s\u00e3o eternos como a casa b\u00edblica que n\u00e3o desaba, pois \u00e9 constru\u00edda sobre a rocha.<\/p>\n<p>Santo Agostinho, o incompar\u00e1vel te\u00f3logo das bem\u00ad-aventuran\u00e7as, agrupando as palavras do Senhor no quadro de reflex\u00f5es sobre o Serm\u00e3o da Montanha, ensina\u00ad-nos que, sendo Cristo a rocha, edificar sobre o Cristo significa p\u00f4r em pr\u00e1tica uma din\u00e2mica visando \u00e0 grande escalada da montanha da reden\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Perdoem\u00ad-me um registro todo pessoal. Nos idos de 1964, estive por largos dias no c\u00e1rcere militar ao lado do poeta Bandeira Tribuzi e do saudoso jornalista Vera\u00ad-Cruz Marques. Pois bem. Do primeiro, o sempre querido Tribuzi, ouvi certa manh\u00e3 uma marcante li\u00e7\u00e3o, como todas dadas pelo inolvid\u00e1vel homem de letras maranhense: \u201cToda causa est\u00e1 associada ao esp\u00edrito, a termos como eloqu\u00eancia verbal, luta libert\u00e1ria. Jamais deve-\u00adse desassoci\u00e1-\u00adla, sob pena de cair-\u00adse em retumbante fracasso\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, Darcy Ribeiro, um dos intelectuais mais brilhantes da Am\u00e9rica Latina, confessa eloquentemente: \u201cSou um homem de causas. Vivi sempre pregando e lutando, como um cruzado pelas causas que me comovem\u201d.<\/p>\n<p>Os mestres t\u00eam raz\u00e3o. Desde o G\u00eanesis, quando Deus tirou do verbo todas as coisas materiais e seres viventes, passando por ciclos hist\u00f3ricos que se perderam nas madrugadas dos tempos, as grandes causas associadas ao bom combate de que fala o ap\u00f3stolo Paulo t\u00eam sido a estrela polar que ilumina os nossos caminhos, na busca eterna por melhores dias de vida compat\u00edveis com a dignidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>Da\u00ed o porqu\u00ea de Von Lhering, em not\u00e1vel ensinamento, sustentar que todas as grandes conquistas que a hist\u00f3ria registra foram alcan\u00e7adas \u00e0 custa de lutas ardentes, na maior parte das vezes continuadas atrav\u00e9s de s\u00e9culos.\u00a0 Minhas senhores, Meus senhores:<\/p>\n<p>Todo esse encadeamento de ideias leva\u00ad-me ao relato de car\u00e1ter esf\u00edngico de que falei no in\u00edcio.<\/p>\n<p>Quando o disc\u00edpulo pensava que o mestre nada tinha para dizer, este ent\u00e3o fala: \u201cMeu caro jovem, o destino do p\u00e1ssaro est\u00e1 em tuas m\u00e3os. Pensa e age como quiseres\u201d.<\/p>\n<p>Numa ocasi\u00e3o t\u00e3o solene como esta, onde se pensa que a noite \u00e9 nossa e \u00e9 para n\u00f3s a festa dos luminares da cultura, confesso que uma for\u00e7a irresist\u00edvel me leva a dizer alto e a bom som: tamb\u00e9m sou um homem de causas. Sim. Ao longo de minha vida p\u00fablica, muito embora com voos de pequeno alcance, tendo a palavra como b\u00fassola maior, sempre defendi nobres causas, todas voltadas para a grandeza de nossa terra e o sentir de nossa gente.<\/p>\n<p>Volto as vistas para o passado. Mergulho no fundo do po\u00e7o de minha alma de ra\u00edzes sertanejas. Jamais me esqueci de minhas origens tel\u00faricas. E foi l\u00e1 no sert\u00e3o de dentro, em \u00e9poca long\u00ednqua, no velho e hist\u00f3rico Graja\u00fa, que embalou meus doces sonhos de menino, que abracei a causa primeira, de tantas arrojadas outras que iria enfrentar ao longo de minha vida.<\/p>\n<p>T\u00e3o doce e saudosa quadra primaveril, assim tento descrev\u00ea-\u00adla no meu poema Perfume de Reminisc\u00eancias:<\/p>\n<p><em>Um tempo de<br \/>\ncheiro de primeiras<br \/>\nchuvas, De<br \/>\nchapadas floridas<br \/>\n<\/em><em>Frutas maduras<br \/>\n<\/em><em>Terra molhada<br \/>\n<\/em><em>Aroma da natureza<br \/>\n<\/em><em>Folha machucada<br \/>\n<\/em><em>Arapucas armadas<br \/>\n<\/em><em>Brejos fartos<br \/>\n<\/em><em>Mergulho em fontes fundas<br \/>\n<\/em><em>descendo gementes&#8230; sonoras&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Vejo\u00ad-me menino de cal\u00e7as curtas. Era uma manh\u00e3 ensolarada, de raios energizantes. Dirigia\u00ad-me para a escola. Na esquina de uma pra\u00e7a, os meus olhos de crian\u00e7a, olhos de menino ing\u00eanuo, assistiram a uma cena revoltante que atrav\u00e9s dos tempos jamais sairia de minha retina.<\/p>\n<p>Um homem salta por cima do balc\u00e3o de uma casa comercial. Com um gesto corajoso e inesperado dirige-se aos soldados que conduziam um preso espancando-\u00ado impiedosamente: \u201cUm homem se prende. N\u00e3o se bate nem mesmo num animal. Levem-\u00adno com respeito&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Aquela corajosa interven\u00e7\u00e3o foi aprovada com vivos aplausos pelas pessoas que presenciavam t\u00e3o chocante cena. Revejo\u00ad-me colocando os livros em cima de uma cal\u00e7ada alta e tamb\u00e9m batendo palmas em um espont\u00e2neo gesto de solidariedade humana. Esta foi a primeira causa dentre tantas outras que iria abra\u00e7ar, com sacrif\u00edcio at\u00e9 mesmo de minha liberdade pessoal. Creio ser tamb\u00e9m oportuno revelar o nome do autor de t\u00e3o marcante fa\u00e7anha. Chamava-\u00adse Jos\u00e9 Raposo Gon\u00e7alves da Silva. Sim. Refiro\u00ad-me ao sempre saudoso jornalista Amaral Raposo, que tanto honrou as letras maranhenses, bem como as tradi\u00e7\u00f5es de civismo da nossa gente.<\/p>\n<p>Ainda nos verdores de meus anos, outra nobre causa muito marcou minha vida p\u00fablica. Passava eu pela edilidade ao lado de figuras de escol como Mata Roma, Casemiro Carvalho, M\u00e1rio Silva, Teixeira Mota e Jo\u00e3o Itapary. Vereador cheio de sonhos, logo vim a saber que em S\u00e3o Lu\u00eds n\u00e3o existia na \u00e1rea do ensino p\u00fablico municipal sequer um gin\u00e1sio. Entendia que tal situa\u00e7\u00e3o era uma vergonha para todos n\u00f3s. Quebrei lan\u00e7as na \u00c1frica do meu entusiasmo de jovem. Criei, por lei, um estabelecimento de ensino p\u00fablico de n\u00edvel secund\u00e1rio \u00e0 altura de atender \u00e0s necessidades da clientela escolar, principalmente a de baixa renda dos bairros s\u00e3o-\u00adluisenses.<\/p>\n<p>O sonho se transformou em realidade. Tenho o dever de ressaltar a excelente assessoria t\u00e9cnica que \u00e0 \u00e9poca me foi prestada, de maneira espont\u00e2nea, pelo meu querido amigo, o poeta e jornalista Manuel Lopes, um dos expoentes maiores desta Egr\u00e9gia Casa de Cultura.<\/p>\n<p>Ao longo de minha caminhada sempre batida pelo sol do bem servir, abracei muitas outras nobres causas, das quais muito me orgulho, guardando-\u00adas com o maior carinho.<\/p>\n<p>No entanto, dentre tantas, h\u00e1 uma que nas dobras do tempo me deixou profunda ferida. Tenho a certeza de que a levarei comigo para a \u00faltima morada, quando o destino assim o determinar.<\/p>\n<p>Eram jovens. O esp\u00edrito povoado de idealismo. Exerciam o mandato outorgado pela soberana vontade popular. Defendiam teses ent\u00e3o consideradas avan\u00e7adas no contexto de uma civiliza\u00e7\u00e3o ag\u00f4nica, dominada pelas rivalidades e conflitos e no quadro de um pa\u00eds oprimido por tens\u00f5es e crises sociais.<\/p>\n<p>A prega\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constitu\u00eda inven\u00e7\u00e3o de ne\u00f3fitos no campo pol\u00edtico. Maritain, um dos maiores fil\u00f3sofos de nossos\u00a0tempos, j\u00e1 exaltava um novo regime de predomin\u00e2ncia social, no exato entendimento da import\u00e2ncia de uma participa\u00e7\u00e3o mais ampla de todos para o aperfei\u00e7oamento do Estado Democr\u00e1tico de Direito.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram entendidos. Nos primeiros arrancos do regime militar que subjugou toda a na\u00e7\u00e3o, eles foram as primeiras v\u00edtimas de um in\u00edquo e revoltante processo de cassa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que estou me referindo ao companheiro de causas, ao irm\u00e3o de ideal, o meu querido compadre Benedito Buzar e a mim pr\u00f3prio, ambos v\u00edtimas de uma teratol\u00f3gica decis\u00e3o que enodoou at\u00e9 o sagrado direito de defesa, comezinho princ\u00edpio que se encontra inserido mesmo nas Constitui\u00e7\u00f5es dos povos menos civilizados do mundo.<\/p>\n<p>Sr. Presidente!<\/p>\n<p>O meu saudoso mestre Antenor Bog\u00e9a, quando de sua investidura nesta vener\u00e1vel Casa, disse com propriedade:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o ignoro que o ritual de posse, em solenidades [&#8230;] como esta, prescreve que o orador recipiente \u00e9 quem analisa a vida do acad\u00eamico recipiend\u00e1rio. Todavia a evoca\u00e7\u00e3o sentimental de minha <\/em>vita anteacta<em>, no seu profundo subjetivismo \u00e9 obra t\u00e3o pessoal que s\u00f3 eu pr\u00f3prio poderia realiz\u00e1-lo no r\u00e1pido bosquejo autobiogr\u00e1fico aqui feito.<\/em><\/p>\n<p>Parafraseando o inolvid\u00e1vel conterr\u00e2neo, registro que o bosquejo autobiogr\u00e1fico ora feito decorre de uma irresist\u00edvel evoca\u00e7\u00e3o emotiva, t\u00e3o pessoal que \u00e9 imperativo que eu mesmo o fa\u00e7a em profundo sentir, arrancado do alforje da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>A Responsabilidade da Cadeira N\u00ba 32<\/strong><\/p>\n<p>Passo agora a fazer uma avalia\u00e7\u00e3o sobre a responsabilidade que assumo nesta noite de luminosidade intelectual.<\/p>\n<p>A Cadeira em que tenho a honra de ser empossado foi fundada com a inten\u00e7\u00e3o de homenagear um filho de Caxias, nascido com a sina de brilhar no mundo da poesia.<\/p>\n<p>O meu ilustre antecessor, Raymundo Carvalho Guimar\u00e3es, nos disse que a escolha do patronato pela poetisa Mariana Luz prende\u00ad-se a raz\u00f5es sentimentais, visto como, al\u00e9m de admiradora, manteve estreitas rela\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias com Vespasiano em Caxias.<\/p>\n<p>Recebo, portanto, como um legado patrimonial da melhor qualidade, a Cadeira com o signo da poesia, uma vez que quem a cinzelou foram dois inspirados ourives das letras po\u00e9ticas, nascidos na ribeira do fecundo Itapecuru, historicamente, como sabemos, ber\u00e7o de figuras cimeiras do altar da cultura maranhense.<\/p>\n<p>Oh! Vespasiano Ramos!<\/p>\n<p>Como e quando simbolicamente o conheci?<\/p>\n<p>Nos meus tempos de adolescente a minha saudosa m\u00e3e Maria Jos\u00e9 de Castro e Costa guardava, com muito carinho, um caderno amarelecido pelo tempo. Certa feita, abrindo-\u00ado, recitou para mim uma poesia que jamais sairia de minha cabe\u00e7a. Era o famoso soneto Samaritana, uma das joias mais finas da lavra do vate caxiense. Tal caderno ainda hoje o guardo, heran\u00e7a materna das mais gratificantes.<\/p>\n<p>O segundo encontro com o festejado autor de Sulamita deu\u00ad-se nos tempos de colegial. Era um fim de ano letivo. Terminava o curso \u00e0 \u00e9poca chamado de cient\u00edfico no Ateneu Teixeira Mendes. Prova oral de literatura. Quem nos examinava era o respeit\u00e1vel professor Ruben Almeida. Todos n\u00f3s trem\u00edamos na base s\u00f3 em olhar o famoso mestre de cabelos bastos e grisalhos.<\/p>\n<p>O examinador olhou\u00adme demoradamente e com um ligeiro sorriso ir\u00f4nico nos l\u00e1bios soltou a pergunta:<\/p>\n<p>\u2013 Meu jovem, voc\u00ea \u00e9 capaz de declamar uma poesia de algum poeta maranhense?<\/p>\n<p>E eu \u00e0 queima\u00adroupa:<\/p>\n<p>\u2013 Sou, professor.<br \/>\n\u2013 Pois ent\u00e3o diga o nome do poeta e declame.<\/p>\n<p>Sem maiores rodeios disse que o poeta se chamava\u00a0Vespasiano Ramos e logo passei a declamar o c\u00e9lebre soneto \u2013 Samaritana. lembro-\u00adme como se fosse agora, eu de olhos meio fechados e concentrando-\u00adme, com medo de errar, declamando:<\/p>\n<p><em>Piedosa e gentil Samaritana<br \/>\nVenho de longe, tr\u00eamulo, bater<br \/>\nem vossa humilde e pl\u00e1cida<br \/>\ncabana pedindo al\u00edvio para o<br \/>\nmeu viver.<\/em><\/p>\n<p><em>Sou perseguido pela sede insana<br \/>\ndo amor que anima e nos faz<br \/>\nsofrer:<\/em><\/p>\n<p><em>Tenho sede demais, Samaritana.<br \/>\nTenho sede demais: quero beber.<\/em><\/p>\n<p><em>Fugis, ent\u00e3o ao m\u00edsero que<br \/>\nimplora o saciar da sede que o<br \/>\nconsome o saciar da sede que o<br \/>\ndevora?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0Pecais, assim, Samaritana! Vede:<br \/>\nfilho, dai de comer a quem tem<br \/>\nfome&#8230;\u00a0 filho, dai de beber a quem<br \/>\ntem sede&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Entre o sorriso aberto do velho mestre que me deu a nota 10 e as palmas de alguns colegas deixei a sala e acompanhado da alguns outros, do chamado time da pesada, fomos comemorar a grande e inesperada vit\u00f3ria, em um daqueles conhecidos bares da \u00e9poca, ali no velho Canto da Vira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vespasiano Ramos!<\/p>\n<p>O melhor trabalho sobre a sua obra deve-\u00adse ao escritor Walfredo Machado (seu conterr\u00e2neo).<\/p>\n<p>E \u00e9 seu bi\u00f3grafo maior quem nos conta passagens pirotescas do filho de Ant\u00f4nio L\u00facio Ramos e dona Leon\u00edlia Caldas Ramos, nascido em Caxias a 13 de agosto de 1884 no largo da igreja de S\u00e3o Benedito.<\/p>\n<p>Diz\u00ad-nos ele que bem cedo Vespasiano evidenciou sua voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Com 13 anos foi trabalhar no com\u00e9rcio como caixeiro de balc\u00e3o. A um canto da loja, em momentos de descanso, ele lia livros e mais livros e escrevia em folhas de papel de embrulho os seus primeiros versos.<\/p>\n<p>Nas festas p\u00fablicas e reuni\u00f5es familiares de Caxias, os rapazes faziam pulsar os cora\u00e7\u00f5es das mo\u00e7as recitando ou escrevendo-\u00adlhes emocionantes pensamentos repassados de amor e romantismo. Vespasiano, com seu modo insinuante e af\u00e1vel, fascinava as almas femininas com o enlevo de seus versos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que Caxias daquela \u00e9poca era um meio deveras pequeno para um poeta que sonhava alcan\u00e7ar voos mais altos. Busca S\u00e3o Lu\u00eds. Colabora em jornais escrevendo poesias e cr\u00f4nicas. Da\u00ed segue para Bel\u00e9m, onde passou a maior parte de sua vida. Por esse tempo encontrava-\u00adse na capital paraense seus conterr\u00e2neos Humberto de Campos, Maranh\u00e3o Sobrinho e Alfredo de Assis. Juntos fundam a revista <em>Alma Nova<\/em>. Em Bel\u00e9m todos simpatizavam com o poeta que vivia declamando pelos bares e confeitarias.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia atribulada e aflita do poeta n\u00e3o o prende na cidade das mangueiras. Dali parte para Manaus, onde o acolheram bem, pois j\u00e1 o admiravam pela leitura de suas poesias. O seu esp\u00edrito errante o chama para outras terras. J\u00e1 no Rio de Janeiro, com a ajuda do seu irm\u00e3o, em maio de 1916, consegue publicar o seu \u00fanico livro intitulado <em>Cousa alguma<\/em>.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, a sua obra \u00e9 bem recebida pela cr\u00edtica. Figuras eminentes das letras nacionais n\u00e3o lhe negaram rasgados elogios. Volta para a sua amada Caxias. Logo busca o Amazonas donde vinham not\u00edcias sedutoras do alto pre\u00e7o da borracha e lucrativos neg\u00f3cios. Busca Porto Velho sempre carregando em sua bagagem sonhos\u00a0e poesias. Seu estado de sa\u00fade \u00e9 grave. Aproxima-se o Natal. Pedem-\u00adlhe que fa\u00e7a uma poesia sobre a data maior da cristandade. Um amigo toma o l\u00e1pis e papel e o poeta, improvisando, dita a sua \u00faltima poesia, denominada Prece, na qual rev\u00ea a sua f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p>Desse belo soneto transcrevo os dois \u00faltimos tercetos, que, na verdade, s\u00e3o de um realismo impressionante:<\/p>\n<p><em>Prometes voltar! N\u00e3o voltes, Cristo:<br \/>\nSer\u00e1s preso, de novo, \u00e0s horas<br \/>\nmudas, Depois de novos e divinos<br \/>\natos.<\/em><\/p>\n<p><em>Porque, na terra, deu-se apenas isto:<br \/>\nMultiplicou-se o n\u00famero de Judas<br \/>\n<\/em><em>E vai crescendo a prole de Pilatos.<\/em><\/p>\n<p>Minhas senhoras e meus senhores:<\/p>\n<p>Como tra\u00e7ar o perfil de Vespasiano Ramos? Em que \u00e1rvores de influ\u00eancias liter\u00e1rias ele se abrigou? A que escola po\u00e9tica era filiado?<\/p>\n<p>O mestre Ant\u00f4nio Lopes observa:<\/p>\n<p><em>O seu verso n\u00e3o tinha o crepitar de inc\u00eandio e o tropel de batalhas que vibram na poesia de Corr\u00eaa de Ara\u00fajo, nem o requinte bizarro dos sonetos desse grande sonetista que era Maranh\u00e3o Sobrinho. Mas tinha naturalidade como nenhum dos outros a possu\u00eda. Os versos de Corr\u00eaa de Ara\u00fajo exaltam o c\u00e9rebro; os de Maranh\u00e3o Sobrinho embriagam os sentidos; os de Vespasiano Ramos v\u00e3o direto ao cora\u00e7\u00e3o, o poeta preexcelente do amor.<\/em><\/p>\n<p>O elemento amor. Da\u00ed sim, tem de partir toda e qualquer an\u00e1lise da vida e da obra do poeta caxiense.<\/p>\n<p>Nos versos de tradi\u00e7\u00e3o medieval, o poeta extravasa seu estado de esp\u00edrito: ora de alegria, ora de dor, ora de profunda nostalgia. Este estado d\u00b4alma bem aparecia na cantiga popular ing\u00eanua, espanhola ou portuguesa com forte carga de musicalidade.<\/p>\n<p>Donzelas p\u00e1lidas, rostos ser\u00e1ficos, olhos verdes, saudades, amor n\u00e3o correspondidos s\u00e3o heran\u00e7as dos trovadores.<\/p>\n<p>Vem da\u00ed a onda do lirismo exacerbado, base dos sonetos amorosos de Petrarca, o novo modelo imitado inclusive por Cam\u00f5es. Nessa escala po\u00e9tica, a amada \u00e9 considerada um ser superior, alvo de um endeusamento exagerado. A\u00ed o predom\u00ednio do sentimento, saudade, beleza, paix\u00e3o, amor decorrente da aus\u00eancia, da perda e at\u00e9 da morte, de modo impulsivo \u2013 estimula a inspira\u00e7\u00e3o e os poetas comp\u00f5em belos poemas.<\/p>\n<p>L\u00facia Miguel Pereira, figura de relevo no pensamento cr\u00edtico nacional, cita como exemplo dessa situa\u00e7\u00e3o po\u00e9tica o nosso vate maior, Gon\u00e7alves Dias. Diz ela que no autor de Leito de Folhas Verdes a imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o igualava a sensibilidade nem o poder criador, a simpatia. Foi menos um poeta das coisas e dos fatos do que um poeta da vida. A morte e o amor s\u00e3o os seus grandes temas. Temas eternos dos grandes poetas. A melhor parte de sua obra, a definitiva, \u00e9 autobiogr\u00e1fica \u2013 e a vida do poeta foi toda voltada para o amor. Esse amor que buscou sem nunca encontrar, ligava-\u00ado mais ao sacrif\u00edcio que ao prazer.<\/p>\n<p>Ainda que o seu grande amor, Ana Am\u00e9lia Ferreira do Vale, cunhada de seu amigo Te\u00f3filo Leal, lhe tivesse sido dada, talvez Gon\u00e7alves Dias continuasse a sofrer, pois o amor era para ele o irm\u00e3o da morte e das l\u00e1grimas que s\u00f3 vive inteiramente na adversidade.<\/p>\n<p>Minhas senhoras e meus senhores:<\/p>\n<p>Como definir o estilo de um jovem, bo\u00eamio, andarilho, que adorava fazer poesias em papel de embrulho sobre balc\u00f5es?<\/p>\n<p>Humberto de Campos, que o conheceu bem de perto, afirma que ele procurou na poesia uma consola\u00e7\u00e3o generosa para os momentos de intimidade com sua alma, nas horas n\u00e3o dissipadas em sua vida bo\u00eamia, torturado sempre por um grande amor sem esperan\u00e7a. E acrescenta: \u201cA vida do autor de <em>Cousa alguma<\/em> foi toda de sofrimento e poesia. Ele foi o lirismo feito homem\u201d.<\/p>\n<p>E o corte l\u00edrico, no dizer do nosso mestre Josu\u00e9 Montello, revela o homem que sente, que sofre, que se defronta com seus reveses e faz do verso a sua consola\u00e7\u00e3o e o seu ref\u00fagio.<\/p>\n<p>Vespasiano foi, sim, um obcecado pelo mito do amor em todas as formas de express\u00e3o. Em certos momentos do seu versejar, em longos poemas, atinge o \u00eaxtase em busca de uma mulher idealizada e que jamais poder\u00e1 ser alcan\u00e7ada. Ent\u00e3o ele apela agindo momentos de verdadeira loucura amorosa que o levam a cair em profundo estado de depress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a escalada, como observa L\u00facia Miguel Pereira, em que o amor para o poeta n\u00e3o passa de um irm\u00e3o do desespero, da dor, das l\u00e1grimas&#8230; que s\u00f3 consegue sobreviver na adversidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 realmente perfeita similitude entre o lirismo exacerbado dos dois citados poetas maranhenses.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio referente aos encontros casuais com as suas bem-\u00adamadas, Gon\u00e7alves Dias com Ana Am\u00e9lia em Lisboa e Vespasiano Ramos com Lili Bitencourt em S\u00e3o Lu\u00eds, pode-\u00adse sentir o fio condutor do desesperado estado d\u00b4alma que os arrebatou em tal ocasi\u00e3o Ser\u00e1 que ambos quando avistaram as suas eternas musas se igualaram no desequil\u00edbrio emocional? Ser\u00e1 que, sob o incontrol\u00e1vel impulso do amor ou do \u00edntimo de cada um, sentindo a necessidade de sofrer mais ainda os transes e sofrendo-\u00ados, como ex\u00edmios artistas do verso, conseguiram produzir dois dos mais belos e tocantes poemas l\u00edricos que ainda hoje enriquecem o patrim\u00f4nio liter\u00e1rio brasileiro?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo! O que se sabe \u00e9 que raz\u00e3o tem, e de sobra, o imortal autor de <em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em>, ao afirmar: \u201cAinda uma vez adeus, exclama Gon\u00e7alves Dias, e todos n\u00f3s sentimos confranger-\u00adnos o cora\u00e7\u00e3o de saudade\u201d.<\/p>\n<p>Realmente faz\u00ad-nos tremer de emo\u00e7\u00e3o esses versos arrancados d\u00b4alma do poeta eternamente apaixonado:<\/p>\n<p><em>Enfim te vejo! \u2013 enfim posso,<br \/>\n<\/em><em>Curvado a teus p\u00e9s, dizer-te<br \/>\nQue n\u00e3o cessei de querer-te,<br \/>\nPesar de quanto sofri.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 outro o nosso estado de esp\u00edrito ao ouvir a tormentosa paix\u00e3o do outro inspirado poeta caxiense, para quem o amor era irm\u00e3o do desespero, ao avistar a musa de sua vida:<\/p>\n<p><em>Procuro te esquecer,<br \/>\n<\/em><em>Procuro te esquecer, um s\u00f3 momento<br \/>\n<\/em><em>Mas, Ah! como te dar o esquecimento,<br \/>\n<\/em><em>Sem deixares de ser, Sem deixares<br \/>\nde ser meu pensamento!<br \/>\n<\/em><em>Desgra\u00e7ada a paix\u00e3o que me inspiraste.<br \/>\nDesgra\u00e7ado de mim que te amo ainda!<\/em><\/p>\n<p>Minhas senhoras e meus senhores:<\/p>\n<p>Quando da aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do livro <em>Cousa alguma<\/em>, o renomado fil\u00f3logo e poeta Jo\u00e3o Ribeiro considerou Vespasiano Ramos o herdeiro da lira l\u00edrica de Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, o festejado e querido autor de Samaritana vive esquecido.<\/p>\n<p>No momento em que tomo pose na Cadeira 32, aproveito o ensejo para fazer uma sugest\u00e3o no sentido de que se proceda \u00e0 traslada\u00e7\u00e3o dos restos mortais de Vespasiano do cemit\u00e9rio de\u00a0Porto Velho para a sua cidade natal e l\u00e1 sejam colocados na pra\u00e7a p\u00fablica que tem o seu nome. Tenho certeza de que o povo caxiense jamais deixar\u00e1 de participar de t\u00e3o justa e merecida homenagem a um dos seus maiores cantores.<\/p>\n<p>No mundo de hoje t\u00e3o agredido nos seus valores morais e \u00e9ticos, t\u00e3o abalado em sua economia, falar\u00ad-se em venera\u00e7\u00e3o ao passado, em caras tradi\u00e7\u00f5es culturais, \u00e9 de fato pregar no Saara.<\/p>\n<p>Mas, devemos sempre reafirmar que a sociedade n\u00e3o somente vive em fun\u00e7\u00e3o de bens materiais, riquezas mundanas e patrim\u00f4nios f\u00edsicos. Ela tamb\u00e9m cresce e se engrandece em raz\u00e3o de seus valores \u00e9ticos, de seus bens imateriais, de sua cultura, da intelig\u00eancia e o saber de seus filhos.<\/p>\n<p>Coelho Neto, o eterno pr\u00edncipe dos prosadores brasileiros, dizia com acerto:<\/p>\n<p><em>Reconstroem-se as cidades destru\u00eddas, refazem-se as muralhas, restauram-se edif\u00edcios, mas um povo que perde a sua l\u00edngua desaparece. Que resta dos etruscos? que ficou dos fen\u00edcios? Lendas&#8230; A Gr\u00e9cia e Roma subsistem nos seus poetas e pensadores!<\/em><\/p>\n<p>Meus prezados confrades!<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 se tem dito sobre as herc\u00faleas lutas que a mulher enfrentou ao longo dos tempos para ter a sua plena equipara\u00e7\u00e3o ao homem em seus direitos civis e sociais.<\/p>\n<p>Sua luta tem sido \u00e1rdua. O movimento pioneiro feminista \u00e9 conhecido com o some de sufragista. Em nosso pa\u00eds, desde o s\u00e9culo 19 que j\u00e1 se ouviam vozes no Parlamento advogando a participa\u00e7\u00e3o da mulher no governo, atrav\u00e9s do voto. Um dos grandes batalhadores foi Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o Patriarca da Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Mais tarde, com a reforma constitucional de 1926, a mulher conquistou o seu direito de voto e por via de consequ\u00eancia o direito de ser votada, sendo eleita para a Constituinte Federal a primeira parlamentar brasileira, a m\u00e9dica paulista Carlota Pereira de Queiroz. Em nosso Estado, em 1935, para a Assembleia Constituinte Estadual foram eleitas as professoras Rosa Castro e Zuleide Bog\u00e9a.<\/p>\n<p>O meu ilustre antecessor registra que:<\/p>\n<p><em>Foi o Maranh\u00e3o o primeiro estado brasileiro onde a mulher se identificou como escritora e poetisa e foi a Academia Maranhense de Letras a primeira que recebeu a mulher no seu seio, com a elei\u00e7\u00e3o em 1948 de Mariana Luz. A Cadeira n\u00ba 26 foi ocupada por Laura Rosa. Muitos anos depois \u00e9 que Rachel de Queiroz, em 1978, conseguiu quebrar as amarras que vedavam \u00e0 mulher eleger-se para a Academia Brasileira de Letras.<\/em><\/p>\n<p>A fundadora da nossa Cadeira, Mariana Luz, nasceu e passou toda a sua vida na cidade de Itapecuru, sempre integrada como professora normalista \u00e0 causa do ensino da juventude. Poetisa, escritora, teatr\u00f3loga, teve intensa colabora\u00e7\u00e3o na imprensa gon\u00e7alvina. Lembro\u00ad-me como se fosse hoje: em 1956 eu integrava o centro acad\u00eamico Clodomir Cardoso, da Faculdade de Direito do Maranh\u00e3o, na qualidade de seu orador oficial. Entidade estudantil de vanguarda, ao lado do Orbis Clube, editamos o livro de poesias Murm\u00farios, de autoria da festejada poetisa conterr\u00e2nea, que tamb\u00e9m deu valiosa contribui\u00e7\u00e3o na luta que a mulher sempre enfrentou para conquistar o seu justo lugar ao sol.<\/p>\n<p>Outro ocupante da Cadeira N\u00ba 32 foi F\u00e9lix Aires, nascido em 14 de janeiro de 1904, no munic\u00edpio de Buriti Bravo. Fez o curso prim\u00e1rio em sua terra natal, tendo ainda estudado em Caxias. Em 1926, mudou-\u00adse para S\u00e3o Lu\u00eds, com a fam\u00edlia, ingressando no servi\u00e7o p\u00fablico. Tendo voca\u00e7\u00e3o para as letras, logo se engajou na vida liter\u00e1ria, colaborando na imprensa e\u00a0participando ativamente no processo de funda\u00e7\u00e3o da famosa Academia dos Novos, semente maior deste Sodal\u00edcio ao lado dos seus ilustres companheiros Astolfo Serra, Travassos Furtado, Virg\u00edlio Domingues, Vicente Maia, S\u00e1 Vale, Manoel Sobrinho, Ruben Almeida, Raymundo Carvalho Guimar\u00e3es e muitos outros intelectuais da \u00e9poca.<\/p>\n<p>A sua condi\u00e7\u00e3o de servidor p\u00fablico afastou-\u00ado do Maranh\u00e3o por largos anos, mas por onde passou deixou um brilhante rastro de homem de letras, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Trovas.<\/p>\n<p>Em 1977, o poeta veio a S\u00e3o Lu\u00eds a fim de fazer o lan\u00e7amento do livro <em>O Maranh\u00e3o na poesia popular.<\/em><\/p>\n<p>Aqui faleceu na madrugada de 16 de novembro de 1979, recebendo as justas homenagens desta Academia.<\/p>\n<p><strong>O Antecessor<\/strong><\/p>\n<p>Minhas senhoras e meus senhores:<\/p>\n<p>Tenho diante dos meus olhos a figura simp\u00e1tica, comunicativa, de conversa agrad\u00e1vel do querido por todos, Raymundo Carvalho Guimar\u00e3es. Nossa amizade nasceu na d\u00e9cada de 70, quando eu trabalhava na assessoria jur\u00eddica do professor Pedro Neiva de Santana, ilustre e saudoso governador do Maranh\u00e3o. Carvalho Guimar\u00e3es gostava de passar por mim na sala de servi\u00e7o, onde mant\u00ednhamos bons momentos conversando sobre fatos hist\u00f3ricos e literatura, assuntos de sua predile\u00e7\u00e3o. Sempre me incentivava a fazer uma profunda pesquisa a respeito de um vulto hist\u00f3rico que fora brutalmente assassinado quando das lutas da nossa Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Referia\u00ad-se ao major Francisco Paula Ribeiro, no seu entendimento competente comandante do Regimento Militar nos Pastos Bons de outrora, a quem devemos a bem sucedida demarca\u00e7\u00e3o de limites territoriais entre o Maranh\u00e3o e o velho Goi\u00e1s. Recomendava\u00ad-me que procurasse ler os seus livros <em>Viagem ao rio Tocantins pelos sert\u00f5es do Maranh\u00e3o<\/em>, <em>Descri\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio de Pastos Bons nos sert\u00f5es do Maranh\u00e3o<\/em> e <em>Mem\u00f3rias das na\u00e7\u00f5es gentias que presentemente habitam o continente do Maranh\u00e3o<\/em>, obras de alto f\u00f4lego do militar intelectual que ainda hoje s\u00e3o de grande valia para todo e qualquer estudo sobre o processo de conquista, ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o do sul maranhense.<\/p>\n<p>Muitas \u00e1guas passaram pela ponte do tempo.<\/p>\n<p>A minha migra\u00e7\u00e3o para o Tocantins dele distanciou\u00ad-me por longo tempo. Logo integrei\u00ad-me na valorosa pl\u00eaiade de intelectuais que sem medir esfor\u00e7os deu vida \u00e0 Egr\u00e9gia Academia Imperatrizense de Letras. E foi da\u00ed que passei a escrever os trabalhos sobre os homens, as coisas e as belezas naturais que deram um relevo todo especial \u00e0 hist\u00f3ria passada nas barrancas do Tocantins.<\/p>\n<p>Na obra rara <em>A Carolina ou a definitiva fixa\u00e7\u00e3o de limites entre as prov\u00edncias do Maranh\u00e3o e de Goi\u00e1s<\/em>, de autoria do renomado C\u00e2ndido Mendes de Almeida, encontrei com riqueza de detalhes os lances do assass\u00ednio do desditoso militar lusitano. A hist\u00f3rica ilha da Botica no rio Tocantins, onde aconteceu a capitula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as portuguesas, j\u00e1 consegui (re)descobri\u00ad-la, assim como outros locais da ribeira onde ocorreram outros renhidos combates das chamadas Guerras da Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje, juntamente com os ilustres escritores, professor Jo\u00e3o Ren\u00f4r de Carvalho e Adalberto Franklin, este \u00faltimo da Academia Imperatrizense de Letras, estamos compilando documentos e as importantes obras que d\u00e3o a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da figura do major Paula Ribeiro. Brevemente, em forma de livro, pretendemos resgatar a vida e os feitos de um homem do Brasil Col\u00f4nia que muito contribuiu, tra\u00e7ando rumos e fincando balizas, para que o Maranh\u00e3o hoje ocupe o\u00a0lugar de alto relevo no cen\u00e1rio nacional.<\/p>\n<p>Destarte estamos transformando em realidade o velho sonho do ilustre autor de <em>Buriti Bravo, nesga do sert\u00e3o<\/em>. Carvalho Guimar\u00e3es sempre foi merecedor do maior apre\u00e7o entre todos aqueles que o conheceram bem de perto.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 que o nosso querido e festejado poeta maior, Jos\u00e9 Chagas, estrela cintilante da constela\u00e7\u00e3o gon\u00e7alvina, ao receb\u00ea-\u00adlo nesta augusta Casa disse:<\/p>\n<p><em>Quando o conheci mais profundamente, fiquei admirado de ver como esse homem, de m\u00faltiplas e variadas atividades, tantas vezes secret\u00e1rio de prefeitura, tantas vezes coletor estadual, tantas vezes inspetor fiscal de rendas e ora chefe do Posto Fiscal do Maranh\u00e3o em Teresina tinha tempo para discorrer sobre literatura e interessar-se de modo t\u00e3o vivo pelos trabalhos liter\u00e1rios da terra.<\/em><\/p>\n<p>Eis a\u00ed o retrato completo, perfeito, sem retoques do meu antecessor de saudosa mem\u00f3ria que, por certo, orgulha e sempre orgulhar\u00e1 a sua terra natal, seus familiares, em particular o seu querido filho e nosso prezado amigo, o conceituado m\u00e9dico Jairo Guimar\u00e3es, que tanto brilho e honradez tem trazido \u00e0 edilidade s\u00e3o-\u00adluisense.<\/p>\n<p>Hoje temos a honra de comemorar o centen\u00e1rio de nascimento desse ilustre maranhense a quem substituo na Cadeira N\u00ba 32. Para ele, a saudade que temos de sua presen\u00e7a e a palavra da venera\u00e7\u00e3o por tudo quanto representou em nossa vida p\u00fablica e cultural.<\/p>\n<p><strong>A Chegada<\/strong><\/p>\n<p>Longe j\u00e1 est\u00e1 se tornando a minha caminhada. Perdoem\u00ad-me se os cansei. \u00c9 que a noite de tantas luzes deu\u00ad-me mais energia para, como diria Fernando Pessoa, com os olhos fixos no horizonte, n\u00e3o sentir a febre em mim navegar. Chego numa hora em que dentre tantas crises que nos afetam, uma abala bem de perto a todos n\u00f3s que fazemos e vivemos o mundo das letras.<\/p>\n<p>Na hora presente, de fato, a disputa acirrada entre os instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o de massa enfraquece a for\u00e7a do livro a tal ponto que o h\u00e1bito da leitura decresceu a olhos vistos em todos os setores da atividade humana.<\/p>\n<p>Em abono a essa assertiva trago a lume o s\u00e1bio entendimento do mestre Josu\u00e9 Montello:<\/p>\n<p><em>A televis\u00e3o, num pa\u00eds em que ainda se l\u00ea muito pouco, e em que s\u00e3o ex\u00edguas as tiragens dos nossos livros, preencheu com a imagem e o som o espa\u00e7o mental vazio, da\u00ed decorrendo o seu prest\u00edgio instant\u00e2neo, e que deu a muita gente a impress\u00e3o de que o televisor viera suplantar o livro como ve\u00edculo de informa\u00e7\u00e3o, de arte e de saber.<\/em><\/p>\n<p>O fen\u00f4meno, no entanto, tem foros universais. Leyla Perrone-\u00adMois\u00e9s, em\u00e9rita professora da USP, diz\u00ad-nos que\u00a0<em>a luta hoje \u00e9 entre a cultura e a descultura pura e simples. A cultura de massa, sobre a qual os artistas modernos depositavam esperan\u00e7as de renova\u00e7\u00e3o de formas e t\u00e9cnicas, de democratiza\u00e7\u00e3o, amplia\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, tornou-se industrial em escala planet\u00e1ria, e, como tal, fornecedora de produtos padronizados segundo uma demanda de baixa qualidade est\u00e9tica, que ela ao mesmo tempo cria e satisfaz.<\/em><\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que t\u00e3o palpitante tem\u00e1tica se esgota no desabafo, talvez, ocasional, em um momento de emocionalismo de ilustradas figuras que se constituem em aut\u00eanticos e invej\u00e1veis bens culturais do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Creio sinceramente que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA literatura ainda tem futuro. A biblioteca ainda n\u00e3o foi\u00a0destru\u00edda. E n\u00f3s leitores e escritores, aqui estamos para ler, eleger e prosseguir\u201d, como nos alerta com otimismo a pr\u00f3pria professora Leyla Perrone.<\/p>\n<p>E foi exatamente essa mensagem que eu tive a felicidade de ouvir quando de minha recente estada em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>No Senado Federal, assisti a uma palestra da mais alta valia proferida pelo presidente da Biblioteca do Congresso dos EUA, professor James Billington, sobre o tema A Biblioteca Hist\u00f3rica e o Futuro Eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Segundo ele,<\/p>\n<p><em>Bibliotecas virtuais n\u00e3o significam o desaparecimento dos livros. A Internet pode aumentar a acessibilidade a acervos antes restritos a poucos acad\u00eamicos e pesquisador, mas n\u00e3o conseguir\u00e1 substituir o livro enquanto agente ativador da imagina\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Ao encerrar a palestra, o presidente da Biblioteca do Congresso Americano aconselhou a todos nunca confiar em algu\u00e9m que tem um computador e n\u00e3o adora livros, pois esse tipo de pessoa revela uma arrog\u00e2ncia que despreza a mem\u00f3ria humana acumulada.<\/p>\n<p>Fico, ficamos satisfeitos, quando vemos o mestre Josu\u00e9 Montello bem falar em \u201cequil\u00edbrio entre a leitura e a imagem instant\u00e2neas\u201d, como j\u00e1 est\u00e1 ocorrendo nos pa\u00edses em que o livro voltou a existir como instrumento de saber imprescind\u00edvel, inclusive para a pr\u00f3pria televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Por tudo isso, alegro\u00ad-me quando entro numa livraria e vejo algu\u00e9m procurando os \u00faltimos lan\u00e7amentos do respeit\u00e1vel autor de <em>Os tambores de S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>. Tamb\u00e9m \u00e9 motivo de orgulho ver\u00adse <em>O dono do mar <\/em>sendo lan\u00e7ado no mundo inteiro e agora indo para a 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, festejada obra do escritor Jos\u00e9 Sarney!<\/p>\n<p>Como \u00e9 lisonjeiro e gratificante para n\u00f3s outros leitores, poetas e escritores ver as \u00faltimas obras de Benedito Buzar, Lu\u00eds Augusto Cassas, Jos\u00e9 Chagas, Nauro Machado, M\u00e1rio Meireles, Jomar Moraes e tantos outros literatos maranhenses, serem procuradas com interesse em nossas livrarias!<\/p>\n<p>Tenho certeza de que a nossa Academia de Letras, guardi\u00e3 hist\u00f3rica do patrim\u00f4nio cultural do Maranh\u00e3o, agora neste momento dif\u00edcil de transi\u00e7\u00e3o em que vive o mundo da informa\u00e7\u00e3o e das letras, jamais deixar\u00e1 de abra\u00e7ar t\u00e3o nobre causa: a defesa dos nossos valores espirituais mais altos e a luta sem fronteiras contra a agonia da arte e da literatura.<\/p>\n<p>E em t\u00e3o renhida luta, aqui nesta luminosa trincheira serei um humilde soldado. Mas uma soldado no inteiro perfil daquele tra\u00e7ado pelo inolvid\u00e1vel Coelho Neto, dirigindo-\u00adse ao nosso governador Benedito Leite em uma memor\u00e1vel carta de agradecimento por ter sido eleito representante maranhense na C\u00e2mara Federal:<\/p>\n<p><em>Fazendo votos pelo seu restabelecimento e pronto regresso \u00e0 P\u00e1tria, aqui fico atento ao seu aceno, como soldado que s\u00f3 pede o posto de maior risco, n\u00e3o porque se julgue o mais bravo, sen\u00e3o para que prove ser dos mais dedicados.<\/em><\/p>\n<p>Muito obrigado.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE RECEP\u00c7\u00c3O por\u00a0Benedito Buzar<\/h5>\n<p>O saudoso confrade Arnaldo Ferreira costumava dizer que quanto seria f\u00e1cil e c\u00f4modo ingressar nas Academias de Letras, n\u00e3o fora a obriga\u00e7\u00e3o dos discursos de posse. Da\u00ed a maldosa afirma\u00e7\u00e3o de que a \u201cAcademia se resume no discurso de posse\u201d, com a qual me recuso a concordar.<\/p>\n<p>Para quem ingressa nos quadros acad\u00eamicos, o discurso de posse \u00e9 algo transcendental e sublime, na medida em que o empossado ter\u00e1 de expressar as emo\u00e7\u00f5es que invadem a sua alma e o seu corpo, bem como registrar a responsabilidade que assume perante a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m para os que, em nome da Academia, v\u00e3o saudar o empossado e dar-lhe as boas vindas, o encargo \u00e9 extraordinariamente delicado e complexo porque, al\u00e9m de interpretar o sentimento de seus pares caber\u00e1 real\u00e7ar o seu perfil, sua hist\u00f3ria de vida, seus conhecimentos intelectuais e o n\u00edvel de cultura por ele alcan\u00e7ado, condi\u00e7\u00f5es que o habilitam a integrar a entidade.<\/p>\n<p>Para este que vos fala, a tarefa de recepcionar S\u00e1lvio Dino Jesus de Castro e Costa, a mim confiada pela vontade expressa do empossado e endossada pelo presidente Jomar Moraes, al\u00e9m de delicada e complexa, reveste-se de singularidade especial: \u00e9 sobremodo gratificante e efetiva.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? &#8211; haveria algu\u00e9m de perguntar. Segundo o escritor Josu\u00e9 Montello, existem dois tipos de pergunta. Uma, que formulamos para que sejamos esclarecidos; outra, que apenas formulamos para nos regozijar com as respostas que j\u00e1 conhecemos. No caso espec\u00edfico, a resposta encontra raz\u00e3o de ser no esclarecimento, o que, de pronto, passo a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o, ent\u00e3o, um recuo no tempo, busco o passado e evoco tempos idos e vividos, embora n\u00e3o t\u00e3o long\u00ednquos, em que eu e o empossado percorremos juntos. Deolindo Couto, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, dizia que: \u201cquando se vivem instantes supremos, tudo o que passou aflora suavemente \u00e0 lembran\u00e7a, e em tudo, at\u00e9 os menores contrastes e coincid\u00eancias, se descobrem motivos de encantamento\u201d.<\/p>\n<p>Nessa viagem ao passado, vou encontrar o sentimento de afetividade e de afinidade que me une a S\u00e1lvio Dino. Transporto-me para o limiar dos anos 60 e encontro o lugar em que tudo come\u00e7ou: a Assembl\u00e9ia Legislativa do Maranh\u00e3o, para onde o empossado e eu fomos eleitos pelo sufr\u00e1gio popular, direto e secreto, no pleito de outubro de 1961, para o mandato de deputado estadual. S\u00e1lvio, se elegeu pelo Partido Democrata Crist\u00e3o; eu, pelo Partido Social Progressista, ambos integrados ao bloco das Oposi\u00e7\u00f5es Coligadas.<\/p>\n<p>Aport\u00e1vamos ao Poder Legislativo nu fulgor de nossa mocidade. Eu, ainda estudante da gloriosa Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds; ele, j\u00e1 bacharel em Ci\u00eancias Jur\u00eddicas e Sociais, com larga experi\u00eancia na pol\u00edtica secundarista e universit\u00e1ria, pois fora presidente do Gr\u00eamio Recreativo e Cultural do Col\u00e9gio de S\u00e3o Luiz, membro do Centro Acad\u00eamico Clodomir Cardoso, da Faculdade de Direito, integrante do Parlamento-Escola e fundador do jornal Voz Universit\u00e1ria, atividades essas que, por sua atua\u00e7\u00e3o e desempenho, o credenciaram nas elei\u00e7\u00f5es de 1954 a concorrer a uma cadeira \u00e0 C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Lu\u00eds, elegendo-se vereador e exercendo o mandato com inexced\u00edvel brilho.<\/p>\n<p>Foi considerado pela imprensa o melhor daquela legislatura, pelos projetos e propostas apresentadas, destacando-se, entre outros, a cria\u00e7\u00e3o do gin\u00e1sio municipal, a obrigatoriedade de aulas inaugurais nos col\u00e9gios do Munic\u00edpio, a elabora\u00e7\u00e3o do Plano Urban\u00edstico de S\u00e3o Lu\u00eds, a concess\u00e3o de 50 por cento de desconto para os estudantes nos transportes coletivos, a cria\u00e7\u00e3o da Secretaria de Agricultura e ado\u00e7\u00e3o da nomenclatura das ruas da Capital.<\/p>\n<p>No plen\u00e1rio da Assembl\u00e9ia Legislativa, come\u00e7amos a forjar uma s\u00f3lida amizade. Ali, unidos pelos mesmos ideais e irmanados em torno de objetivos comuns, que se consubstanciavam na luta travada no Brasil e no Maranh\u00e3o contra o subdesenvolvimento e o atraso econ\u00f4mico e social e a favor do fortalecimento do nacionalismo, da conquista da soberania e do florescimento da cidadania.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, esses sentimentos extrapolaram do \u00e2mbito pol\u00edtico para o conv\u00edvio familiar, fato que fez com que eu e Solange receb\u00eassemos de S\u00e1lvio e de Rita o honroso convite para sermos padrinhos de Fl\u00e1vio, uma crian\u00e7a que, anos depois, seria uma figura estelar da justi\u00e7a brasileira, pelo seu comportamento, seu talento, sua dignidade e sua probidade.<\/p>\n<p>Senhor Presidente, autoridades e convidados, Machado de Assis recomendava, como presidente da Academia Brasileira de Letras, que n\u00e3o se deve deixar de fora quem, com os m\u00e9ritos reconhecidos, bate \u00e0 sua porta.<\/p>\n<p>A recomenda\u00e7\u00e3o machadiana, com respeito a S\u00e1lvio Dino, foi seguida \u00e0 risca pela Academia Maranhense de Letras. Na verdade, esta Casa poderia ter-lhe aberto as portas h\u00e1 mais tempo, mas dessa tardan\u00e7a n\u00e3o tem culpa a institui\u00e7\u00e3o, mas sim o pr\u00f3prio empossado, que s\u00f3 recentemente manifestou o desejo de fazer parte de sua confraria, ele que, desde os idos da mocidade, nos bancos escolares, mostrava pendores para as letras, vivia nas reda\u00e7\u00f5es dos jornais de S\u00e3o Lu\u00eds a escrever artigos, produzir mat\u00e9rias de qualidade liter\u00e1ria, bem como usava sua eloqu\u00eancia para a dif\u00edcil arte de falar em p\u00fablico, geralmente de improviso. Da\u00ed o apelido, ali\u00e1s bem apropriado, de \u201cGuriat\u00e3 de Atenas\u201d, o que lhe reserva o direito de ser inclu\u00eddo na galeria dos consagrados tribunos de nosso parlamento estadual, ao lado de Lino Machado, Neiva Moreira, Erasmo Dias, Jos\u00e9 Baima Serra, Bernardo Almeida, Orlando Leite e Jos\u00e9 Bento Neves.<\/p>\n<p>Mas o que fez S\u00e1lvio Dino, ao longo da vida, para que a Casa de Ant\u00f4nio Lobo n\u00e3o titubeasse abrir-lhe as portas, a fim de que, nesta noite aureolada, sob os aplausos dos acad\u00eamicos e o testemunho dos convidados, entrasse para o nosso conv\u00edvio?<\/p>\n<p>Vejamos. Ap\u00f3s cumprir o mandato de vereador \u00e0 C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Lu\u00eds, S\u00e1lvio Dino tomou uma decis\u00e3o irrevog\u00e1vel: exercer, em toda plenitude, a profiss\u00e3o de advogado. Antes, por\u00e9m, de assumir as atividades advocat\u00edcias, publicou em 1959 o seu primeiro livro: <em>Um Mo\u00e7o na Tribuna,<\/em> onde est\u00e3o registrados, sob o calor da emo\u00e7\u00e3o e do vigor da juventude, os discursos proferidos nos meios universit\u00e1rios e na edilidade, nos quais revelava seu desconforto com as incertezas e as d\u00favidas que permeavam o cen\u00e1rio pol\u00edtico no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Num pronunciamento, como paraninfo da turma de concludentes do Gin\u00e1sio Gomes de Sousa, em 1957, em sua terra natal, Graja\u00fa, ele, com 25 anos, n\u00e3o escondia a revolta diante das mazelas da sociedade: \u201cSe metermos a m\u00e3o na consci\u00eancia, esta nos declarar\u00e1 com presteza que vivemos num ciclo em que reina a imoralidade em toda a sua pujan\u00e7a, onde pol\u00edticos safados, mal intencionados e incompetentes, contrabandistas, peculat\u00e1rios, assaltadores dos cofres p\u00fablicos, chefes desonestos e tantos outros maus patriotas, enriquecem rapidamente, enquanto o povo brasileiro a cada dia sofre mais\u201d.<\/p>\n<p>Encontrava-se, pois, em pleno desempenho da profiss\u00e3o que abra\u00e7ara, quando recebeu convite do deputado Clodomir Millet, ent\u00e3o candidato a governador do Maranh\u00e3o, nas elei\u00e7\u00f5es de 1960, para defender os interesses das Oposi\u00e7\u00f5es Coligadas na regi\u00e3o tocantina. Ali, p\u00f4de sentir de perto e ver com os pr\u00f3prios olhos a coa\u00e7\u00e3o policialesca, a cobran\u00e7a arbitr\u00e1ria dos impostos e a submiss\u00e3o humilhante do homem do interior aos potentados.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 era um descontente e insatisfeito com a situa\u00e7\u00e3o pela qual passava o Maranh\u00e3o, mais indignado ficou ao deparar-se com aquela triste realidade. Prometeu a si mesmo que se engajaria na luta do povo tocantino, com o prop\u00f3sito de amenizar as suas adversidades e o seu sofrimento.<\/p>\n<p>Com efeito, passou a desencadear a\u00e7\u00f5es que, pelo conte\u00fado social e pol\u00edtico, ecoaram em toda regi\u00e3o, ela que atravessava, em face da constru\u00e7\u00e3o da estrada Bel\u00e9m-Bras\u00edlia, um processo de efervesc\u00eancia social e de transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Contra ele, incontinenti, desencadearam-se amea\u00e7as e press\u00f5es, oriundas de setores governamentais e de segmentos privados. Em vez de recuar, ganhou mais energia para continuar a luta, que tinha como pano de fundo o conflito entre grileiros e posseiros.<\/p>\n<p>Quando maior era a luta em torno desse objetivo, eis que se aproximaram as elei\u00e7\u00f5es para a renova\u00e7\u00e3o dos mandatos parlamentares. Estimulado pelas for\u00e7as que defendia, decidiu participar das elei\u00e7\u00f5es proporcionais de 1962. Apesar dos dissabores, das dificuldades e das intimida\u00e7\u00f5es, elegeu-se deputado estadual, com expressiva vota\u00e7\u00e3o. Assumiu o mandato em 1963 e fez da tribuna parlamentar o instrumento de combate \u00e0 opress\u00e3o e aos desmandos governamentais.<\/p>\n<p>Na Assembl\u00e9ia Legislativa, juntou-se a mim e ao inesquec\u00edvel e talentoso Ricardo Bog\u00e9a, e come\u00e7amos a nos impor e a imprimir \u00e0 atua\u00e7\u00e3o parlamentar nova linha de conduta \u00e9tica e de conte\u00fado pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Vivia-se uma \u00e9poca em que eram preconizadas, para resolver os problemas nacionais, as reformas de base. O Maranh\u00e3o, naquele contexto, n\u00e3o poderia ficar distante do grande clamor popular que sacudia o Pa\u00eds. Resolvemos, ent\u00e3o, no plen\u00e1rio da Assembl\u00e9ia, levantar e discutir quest\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o ins\u00f3litas, que n\u00e3o agradavam o governo estadual, este que, repousava suas ra\u00edzes no clientelismo e no nepotismo, filhos diletos da estrutura carcomida que dominava o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelas nossas vozes, os protestos contra as iniq\u00fcidades sociais e o atraso econ\u00f4mico, se, por um lado, ganhavam corpo e resson\u00e2ncia popular, por outro, irritavam os \u00e1ulicos e os detentores do poder, que passaram a nos intimidar e a nos rotular de radicais, comunistas e agitadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito tempo e surgiu a oportunidade de sermos expurgados da vida p\u00fablica. O movimento militar, deflagrado em abril de 1964, deu ensejo a que um plano maquiav\u00e9lico fosse articulado no Maranh\u00e3o. Antes mesmo que as for\u00e7as ditas revolucion\u00e1rias editassem os famigerados Atos Institucionais, a repres\u00e1lia e a vindita vieram \u00e0 superf\u00edcie, por iniciativa da maioria governista, que avocou para a Assembl\u00e9ia a compet\u00eancia de cassar mandatos eletivos.<\/p>\n<p>Diante da ado\u00e7\u00e3o de atos atentat\u00f3rios \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e ao Regimento, os situacionistas, depois de consultarem o IV Ex\u00e9rcito, a 25 de abril de 1964, decretaram a perda de nossos mandatos, por \u201cexerc\u00edcio de atividades comunistas\u201d, materializando-se assim, segundo parecer brilhante e saudoso mestre do Direito, Antenor Bog\u00e9a, \u201cum ato ilegal e arbitr\u00e1rio, porque praticado contra expressos dispositivos constitucionais\u201d.<\/p>\n<p>Extinto o mandato de deputado, S\u00e1lvio Dino, desprotegido e exposto \u00e0s agruras daqueles tempos de repress\u00e3o, passou a ser alvo permanente de persegui\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as, que culminaram em pris\u00e3o e no cerceamento de seus direitos de cidad\u00e3o. Sem esmorecer, porque era um homem de fibra, viveu meses no ex\u00edlio branco, durante os quais, para provar a sua inoc\u00eancia, alcan\u00e7ou o Tribunal Superior Militar, que o inocentou dos atos que lhe eram imputados.<\/p>\n<p>Sem condi\u00e7\u00f5es de atuar na vida p\u00fablica, cujas portas para ele se fecharam, para sobreviver e sustentar a fam\u00edlia, teve de retornar \u00e0s atividades advocat\u00edcias.<\/p>\n<p>Naqueles anos de chumbo, S\u00e1lvio Dino e os membros de sua gera\u00e7\u00e3o, que se encontravam banidos da cena pol\u00edtico-partid\u00e1ria, passaram a fazer da Pra\u00e7a Jo\u00e3o Lisboa um lugar de encontro, onde conversavam e debatiam sobre assuntos, que embora censurados ou proibidos, estavam na ordem do dia, preferencialmente de natureza pol\u00edtica ou cultural. Por isso, os que participavam desses encontros, via de regra, realizados sob a prote\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rvore, logo apelidada de \u201cUrucuzeiro\u201d, eram sempre olhados com desconfian\u00e7a pelos adeptos ou defensores da ditadura.<\/p>\n<p>Senhor presidente, autoridades e convidados. Dez anos depois de cassado, S\u00e1lvio Dino partia para uma nova e desafiadora empreitada. Ainda que a ditadura continuasse a espargir ferro e fogo contra os que haviam participado de atividades pol\u00edticas anteriores ao golpe militar, ele, n\u00e3o deixava de pensar em reconquistar, pelas urnas, o direito de voltar \u00e0 cena pol\u00edtico-partid\u00e1ria, da qual fora ejetado ao arrepio da lei.<\/p>\n<p>De acordo com o soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber, existem dois tipos de pol\u00edticos: os que vivem dela e os que vivem para ela. Inserido na segunda categoria webriana, S\u00e1lvio filiou-se ao Partido Democrata Social e registrou-se candidato a deputado estadual. Mais realista que o rei, o Tribunal Regional Eleitoral, no af\u00e3 de prestar servi\u00e7os aos detentores do poder, indeferiu o registro de sua candidatura. Inconformado com esdr\u00faxula decis\u00e3o do TRE, bateu \u00e0s portas do Tribunal Superior Eleitoral, que mandou, registr\u00e1-lo candidato, por unanimidade.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 1974, mais uma vez, a regi\u00e3o tocantina n\u00e3o o decepcionou e o reconduziu ao Poder Legislativo, para a legislatura de 1975 a 1979, no curso da qual, al\u00e9m de apresentar projetos de fundamental import\u00e2ncia para os servidores p\u00fablicos estaduais, levantou a voz para, reiteradamente, questionar problemas do meio ambiente, principalmente para impedir a devasta\u00e7\u00e3o dos baba\u00e7uais, bem como discutir o pol\u00eamico assunto referente aos limites territoriais entre o Maranh\u00e3o e o Par\u00e1, que se arrastava desde o s\u00e9culo passado e que resultou na forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito, da qual foi o relator, tendo desaguado na assinatura de um protocolo entre os governadores do Maranh\u00e3o, Nunes Freire, e do Par\u00e1, Aloysio Chaves, tendo o presidente da Rep\u00fablica, Ernesto Geisel, como \u00e1rbitro, na demarca\u00e7\u00e3o das fronteiras entre os dois estados.<\/p>\n<p>Considerado o melhor deputado daquela legislatura, nem por isso garantiu sua recondu\u00e7\u00e3o ao Poder Legislativo no pleito seguinte. Na condi\u00e7\u00e3o de suplente, em 1980, foi convocado para exercer o mandato, tornando-se vice-l\u00edder do governo.<\/p>\n<p>Novamente, submeteu-se ao crivo do eleitorado nas elei\u00e7\u00f5es de 1982 e 1986. Em ambas, as urnas foram-lhe favor\u00e1veis e na Assembl\u00e9ia dedicou-se com afinco \u00e0s quest\u00f5es que diziam respeito \u00e0 instala\u00e7\u00e3o no Maranh\u00e3o do Projeto Caraj\u00e1s, apresentando propostas para torn\u00e1-lo vi\u00e1vel e proveitoso \u00e0 sociedade maranhense.<\/p>\n<p>Nos anos em que ele marcou presen\u00e7a no Poder Legislativo estadual, quando atuou bravamente no plen\u00e1rio e nas comiss\u00f5es t\u00e9cnicas, bem como assoberbado com problemas advindos da assist\u00eancia aos munic\u00edpios e aos eleitores, exatamente, nesse per\u00edodo, S\u00e1lvio Dino escreveu e publicou diversos livros.<\/p>\n<p>Parece que a atividade pol\u00edtica o estimulava \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, o que nos leva concluir n\u00e3o haver qualquer incompatibilidade entre as fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e o exerc\u00edcio da atividade intelectual.<\/p>\n<p>Dessa fecunda \u00e9poca emergiram, de sua lavra, as seguintes obras: <em>Nas Barrancas do Tocantins,<\/em> que escritores do porte de Jos\u00e9 Sarney e Lago Burnett, saudaram efusivamente.<\/p>\n<p>Sobre ela, Sarney afirmou: \u201cO livro de S\u00e1lvio Dino, com as hist\u00f3rias de Aninha, Isabel Baleiro, Man\u00e9 e Jo\u00e3o de Deus, com prov\u00e9rbios e cantigas do sert\u00e3o, oferecer\u00e1 aos faisqueiros dos garimpos da hist\u00f3ria pol\u00edtica deste Maranh\u00e3o um reposit\u00f3rio ameno e auspicioso, partido de um homem que gosta das letras e da pol\u00edtica\u201d. De Lago Burnett, recolho este depoimento: \u201cA voca\u00e7\u00e3o, por muito tempo contida, para narrar o que via e o que sentia, em sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica, teria de vir \u00e0 tona, mais cedo ou mais tarde. Veio, afinal, sob a forma de novela, esta que S\u00e1lvio Dino ora apresenta ao p\u00fablico e que \u00e9 a forma mais adequada que ele encontrou para denunciar uma situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a social\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, ele nos deu <em>Onde \u00e9 Par\u00e1 Onde \u00e9 Maranh\u00e3o,<\/em> a respeito do qual o confrade Milson Coutinho disse categoricamente: \u201cTrata-se de um livro sa\u00eddo da pena do escritor da melhor safra contempor\u00e2nea. \u00c9 um estudo que mergulha no fundo do garimpo da quest\u00e3o dos limites entre os estados do Maranh\u00e3o e do Par\u00e1, pend\u00eancia essa que, de resto, arrasta-se ao longo de meio s\u00e9culo\u201d.<\/p>\n<p>Logo depois, o empossado nos ofereceu o livro de poesia <em>Semeando Manh\u00e3s<\/em>, sobre o qual o confrade Manoel Lopes assim se manifestou: \u201cPoemas de se ler e de se ouvir, denunciando que, para n\u00e3o fugir \u00e0 regra, um maranhense a mais acaba de cair nas armadilhas do fascinante exerc\u00edcio de lidar com as palavras e com as musas\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o tamb\u00e9m dessa fase os op\u00fasculos <em>Grandeza da Terra na Gl\u00f3ria do seu Povo; A Trilogia da Emo\u00e7\u00e3o; A Devasta\u00e7\u00e3o do Meio Ambiente Importa na Destrui\u00e7\u00e3o da Ra\u00e7a Humana; Ra\u00edzes Hist\u00f3ricas do Graja\u00fa; A Concilia\u00e7\u00e3o entre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico; A din\u00e2mica Ocupacional dos Espa\u00e7os F\u00edsicos do Maranh\u00e3o; A Nova Rep\u00fablica; Perfil de Amaral Raposo,<\/em> em que se reconhece o valor intelectual do autor, que exterioriza em letra de forma as medita\u00e7\u00f5es de conte\u00fado cultural que lhe povoam o esp\u00edrito indomado, retratando o que viu e o que sentiu sobre a realidade maranhense.<\/p>\n<p>Mas quem pensa que S\u00e1lvio Dino, ap\u00f3s cumprir quatro mandatos na Assembl\u00e9ia Legislativa, e de nos legar um conjunto consider\u00e1vel de livros, decidiu abandonar definitivamente a carreira pol\u00edtica, esquivando-se da vida p\u00fablica, equivocou-se literalmente.<\/p>\n<p>Como se ressurgisse das cinzas, em 1987, cheio de sonhos e de entusiasmo, voltava a reencontrar-se com o eleitorado. Em vez do cargo legislativo, buscava agora o posto executivo, valendo-se do processo eleitoral.<\/p>\n<p>Se no cargo legislativo tratou de apresentar projetos e propostas e valeu-se do verbo e da tribuna para combater e reprovar as injusti\u00e7as, na fun\u00e7\u00e3o executiva procuraria o pragmatismo. Poria em a\u00e7\u00e3o sua operosidade natural, para criar, construir e comandar.<\/p>\n<p>Para a constru\u00e7\u00e3o desse objetivo, retornou aos pagos, que nunca lhe faltaram nos embates eleitorais: a regi\u00e3o tocantina, mais precisamente o rec\u00e9m-criado munic\u00edpio de Jo\u00e3o Lisboa, onde venceu duas elei\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias, elegendo-se prefeito em 1987 e 1996.<\/p>\n<p>Revela notar, contudo, que nessa travessia pelas \u00e1guas nem sempre tranq\u00fcilas do Executivo, S\u00e1lvio Dino n\u00e3o abandonou o of\u00edcio de escrever. O mesmo fen\u00f4meno que tomou conta de seu esp\u00edrito, quando fazia parte da Assembl\u00e9ia Legislativa, tamb\u00e9m assomou quando esteve \u00e0 frente da prefeitura de Jo\u00e3o Lisboa, o que nos permite asseverar que ele faz parte da escola do escritor Jos\u00e9 Sarney, ou seja, ao mesmo tempo em que faz pol\u00edtica faz literatura.<\/p>\n<p>Se como deputado estadual deixou um saldo positivo de livros, na condi\u00e7\u00e3o de gestor municipal, nada menos do que tr\u00eas obras emergiram dessa forja: <em>Luzia Quase Uma Lenda de Amor, Um Pal\u00e1cio de Hist\u00f3rias, Lendas, Mitos e Chef\u00f5es: e Clarindo Santiago, o Poeta Maranhense Desaparecido no Rio Tocantins, <\/em>sem esquecer de ressaltar sua participa\u00e7\u00e3o efetiva e semanal no jornal O Estado do Maranh\u00e3o, onde, num claro estilo de cronista, escreve sobre assuntos do cotidiano, em linguagem l\u00edmpida, harmoniosa e objetiva.<\/p>\n<p>Sobre <em>Luzia Quase Uma Lenda de Amor<\/em>, o saudoso confrade Bernardo Almeida e o poeta Jos\u00e9 Chagas encarregaram-se de exalt\u00e1-lo. Enquanto Bernardo dizia que S\u00e1lvio \u201cserviu-se da poesia para exaltar o amor, a beleza e a coragem daquela mulher extraordin\u00e1ria, para projet\u00e1-la e torn\u00e1-la tang\u00edvel\u201d, Jos\u00e9 Chagas afirmava:\u201cS\u00e1lvio, atrav\u00e9s de seu poema, faz com que esse amor se incorpore \u00e0 saga de Bequim\u00e3o, como o testemunho po\u00e9tico-rom\u00e2ntico de uma fidelidade grandiosa que se contrap\u00f5e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de que o her\u00f3i foi v\u00edtima\u201d.<\/p>\n<p>A respeito de <em>Um Pal\u00e1cio de Hist\u00f3rias, Lendas, Mitos e Chef\u00f5es<\/em>, falou o inolvid\u00e1vel Nonnato Masson: \u201cS\u00e1lvio Dino conta a hist\u00f3ria do Pal\u00e1cio dos Le\u00f5es de forma did\u00e1tica. Conta as lendas e as supersti\u00e7\u00f5es e descreve as assombra\u00e7\u00f5es que deslizam nas suas salas e sal\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Quanto a <em>Clarindo Santiago, o Poeta Maranhense Desaparecido no Rio Tocantins<\/em>, o senador Edison Lob\u00e3o, no pref\u00e1cio, escreveu; \u201cO escritor S\u00e1lvio Dino fez um excelente trabalho de pesquisa e redacional para narrar a saga de Clarindo Santiago, o poeta e jornalista maranhense, desaparecido no rio Tocantins.\u00a0 S\u00e1lvio teve o m\u00e9rito de pincelar das sombras, para conhecimento das novas gera\u00e7\u00f5es, um vulto importante de nossa hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Senhor presidente, senhoras e senhores. No ex\u00f3rdio do meu discurso busquei o aux\u00edlio de Arnaldo Ferreira para mostrar o qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 a tarefa que a Academia concede aos seus membros de falar nas solenidades de posse. Esforcei-me e fiz o que estava ao meu alcance para retratar, com pinceladas bastante vivas, a figura de S\u00e1lvio Dino, que alcan\u00e7ou o reconhecimento de sua gera\u00e7\u00e3o e da sociedade, como pol\u00edtico e intelectual.<\/p>\n<p>Diante desse reconhecimento, a gl\u00f3ria acad\u00eamica poderia parecer um t\u00edtulo a mais, para adorno ou enfeite da biografia do empossado. A esse respeito, vale evocar o vulto perene de Viriato Corr\u00eaa que classificou os tipos de escritores que buscam a imortalidade: \u201cH\u00e1 os que v\u00e3o para a Academia e para l\u00e1 levam seus t\u00edtulos; e os que v\u00e3o ali buscar um t\u00edtulo. Os primeiros com o pleno conhecimento da Casa, tratam de honra-lhe as tradi\u00e7\u00f5es, com a sua assiduidade e o seu conv\u00edvio, enquanto os segundos, j\u00e1 enfeitados com a gl\u00f3ria, que n\u00e3o mereciam, se fazem esquivos, retra\u00eddos, limitando \u00e0 tesouraria da institui\u00e7\u00e3o o seu relacionamento acad\u00eamico\u201d.<\/p>\n<p>Louvando no pensamento de Viriato Corr\u00eaa, ouso afirmar que S\u00e1lvio Dino insere-se na primeira classifica\u00e7\u00e3o do escritor maranhense. Ele ingressa na Casa de Ant\u00f4nio Lobo n\u00e3o em busca de proje\u00e7\u00e3o pessoal para enriquecer sua biografia, at\u00e9 porque ela j\u00e1 se encontra pontuada de refer\u00eancias e marcos edificantes e indel\u00e9veis, quer como pol\u00edtico, quer como intelectual.<\/p>\n<p>Por seu passado e por seu presente, em que sua personalidade de exaltado homem p\u00fablico sobreleva-se em toda magnitude, vem dar uma inestim\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Academia Maranhense de Letras e participar ativamente das discuss\u00f5es levantadas, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s letras e \u00e0s artes, neste saud\u00e1vel e fraterno ambiente, onde se pratica o jogo da controv\u00e9rsia sem que a institui\u00e7\u00e3o nada mais seria do que uma oficina de t\u00e9dio pr\u00f3prio para o bocejo semanal dos acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>E porque o classifiquei como exaltado homem p\u00fablico, n\u00e3o custa lembrar o diplomata e escritor Joaquim Nabuco, que deixou para a hist\u00f3ria uma frase que at\u00e9 os dias correntes mant\u00e9m-se em evid\u00eancia, pelo que cont\u00e9m de atualidade e de verdade: \u201cN\u00e3o se pode fazer as revolu\u00e7\u00f5es sem os exaltados, mas n\u00e3o se pode governar com eles\u201d.<\/p>\n<p>De certa forma, S\u00e1lvio Dino contraria o pensamento do not\u00e1vel brasileiro, na medida em que se encontra plenamente registrada nas p\u00e1ginas da vida p\u00fablica do Maranh\u00e3o, ora como oposicionista, ora como governista, a marca de sua exaltada paix\u00e3o pol\u00edtica, mas nunca resvalada para o plano dos ressentimentos ou de \u00f3dios.<\/p>\n<p>Se nas hostes das Oposi\u00e7\u00f5es, destacou-se pelo arrebatamento com que se entregava \u00e0s causas dos que clamavam por justi\u00e7a social, nas fileiras situacionistas, em momento algum, deixou-se contaminar pelo comodismo ou pelos afagos irresist\u00edveis do poder. Ao contr\u00e1rio, a t\u00eampera de homem combativo e destemido, herdado geneticamente dos antepassados, sempre esteve presente nos atos e a\u00e7\u00f5es que o conduziram \u00e0 ger\u00eancia dos neg\u00f3cios p\u00fablicos, que tratou de administrar com dignidade e probidade.<\/p>\n<p>Pois bem, \u00e9 este S\u00e1lvio Dino, o exaltado que deu certo na oposi\u00e7\u00e3o e no governo, que n\u00e3o perdeu a fama de exacerbado na advocacia e na pol\u00edtica, que manteve a chama de inflamado no exerc\u00edcio dos cargos legislativos e executivos, e de incandescente poeta e prosador, que hoje aqui ingressa, mais comedido que nos tempos de juventude, n\u00e3o apenas para conviver fraternalmente com os que o elegeram por unanimidade, mas pugnar pelos princ\u00edpios que sempre defendeu ao longo do tempo, pois a Academia Maranhense de Letras, ainda que alguns possam imaginar ou supor, n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o acomodada, passiva ou indiferente aos acontecimentos que emergem aqui e alhures.<\/p>\n<p>Ela foi, \u00e9 e sempre ser\u00e1 uma trincheira de defesa da cultura do Maranh\u00e3o, e uma tribuna viva e permanente onde s\u00e3o debatidas quest\u00f5es que dizem respeito ao engrandecimento das institui\u00e7\u00f5es, ao soerguimento dos princ\u00edpios democr\u00e1ticos e ao engajamento dos que se disp\u00f5em \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o dos males que afligem a sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Por isso, acredito piamente que, neste ambiente, S\u00e1lvio Dino, impregnado dos elevados e nobres sentimentos que lhe s\u00e3o inerentes, encontrar\u00e1 est\u00edmulo, incentivo e motiva\u00e7\u00e3o para cultuar o passado, no que ele apresenta de primoroso e relevante, e ainda se preocupar com os terr\u00edveis problemas do presente, sem esquecer o futuro, para o qual envidar\u00e1 esfor\u00e7os para torn\u00e1-lo ou v\u00ea-lo menos adverso, menos incerto, mais promissor e cheio de esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Meu dileto amigo, compadre e confrade S\u00e1lvio Dino: no ep\u00edlogo desta ora\u00e7\u00e3o, s\u00f3 me resta dizer-lhe estas palavras: seja bem-vindo, e n\u00e3o permita que a imortalidade atropele ou arrefe\u00e7a aquela que, entre as virtudes que lhe vem de ber\u00e7o, talvez seja a mais pura e verdadeira: a exalta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em Graja\u00fa-MA, a 5 de junho de 1932. 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