{"id":423,"date":"2014-03-01T12:06:42","date_gmt":"2014-03-01T12:06:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=423"},"modified":"2014-09-21T23:01:36","modified_gmt":"2014-09-21T23:01:36","slug":"ronaldo-costa-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/ronaldo-costa-fernandes\/","title":{"rendered":"Ronaldo Costa Fernandes"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds a 29 de agosto de 1952. Filho de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. \u00c9 graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez Mestrado em Literatura Hispano-Americana, na mesma institui\u00e7\u00e3o de ensino, e Doutorado em Literatura Brasileira, na Universidade de Bras\u00edlia. Deu aulas de literatura na Universidade Notre Dame (1977), na Escola de Forma\u00e7\u00e3o de Oficiais da Marinha Mercante (EFFOM), foi chefe do Setor de Arte e Cultura da Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia (agosto de 1997 a novembro de 1998) e trabalhou na Secretaria Especial da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, no Pal\u00e1cio do Planalto, em 1985. Pertence ao quadro do Minist\u00e9rio da Cultura, desde 1980. Foi Coordenador da Funarte-Bras\u00edlia, de mar\u00e7o de 1995 a janeiro de 2003. Cedido nesta \u00e9poca ao Senado Federal, trabalha no Conselho Editorial da Casa.<\/p>\n<p>Durante nove anos, dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas, na Venezuela. Foi, durante tr\u00eas anos e meio, professor-convidado de Literatura Brasileira na Universidade Central da Venezuela<strong>. <\/strong>Produziu e apresentou, junto com Rog\u00e9rio Lima, <em>17 Programas Culturais de Entrevista<\/em>, com dura\u00e7\u00e3o de 50 minutos cada, no Canal 21 da MAISTV, pertencente ao canal a cabo MAISTV. Entre os entrevistados, Eduardo Portella, S\u00e9rgio Paulo Rouanet e Benedito Nunes.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m membro da Academia Brasiliense de Letras, cadeira XVIII, patrono Cl\u00e1udio Manuel da Costa, eleito em 3 de setembro de 2004 e empossado em 16 de novembro de 2005. Recebeu, em 1996, a Medalha La Ravardi\u00e8re, comenda da municipalidade da cidade de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p><em>Jo\u00e3o Rama <\/em>(romance). Rio de Janeiro: Codecri, 1979; <em>O Ladr\u00e3o de cartas<\/em> (novela). Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1981; <em>Retratos falados. (<\/em>romance). Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984; <em>Noticias del horto <\/em>(novela). Caracas: Monte Avila, 1991. <em>El muerto solidario <\/em>(romance). Havana: Casa de las Am\u00e9ricas, 1991; <em>O narrador do romance <\/em>(ensaio). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996; <em>Estrangeiro <\/em>(poesia) Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997; <em>Concerto para flauta e martelo <\/em>(romance) Rio de Janeiro: Revan, 1997; <em>Terratreme <\/em>(poesia) Funda\u00e7\u00e3o Cultural do DF, 1998; <em>O morto solid\u00e1rio <\/em>(romance). Revan, 1998; <em>Andarilho <\/em>(poesia). Sette Letras, 2000; <em>Eterno passageiro <\/em>(poesia). Varanda, 2004; <em>O vi\u00favo <\/em>(romance). LGE, 2005. <em>Manual de tortura <\/em>(contos). Esquina da palavra, 2007; <em>A ideologia do personagem brasileiro <\/em>(ensaio). UnB, 2007; <em>A m\u00e1quina das m\u00e3os <\/em>(poesia). 7Letras, 2009; <em>\u00a0Um homem \u00e9 muito pouco <\/em>(romance). Nankin, 2010; <em>Mem\u00f3ria dos porcos <\/em>(poesia). 7Letras, 2012.<\/p>\n<p><strong>Organiza\u00e7\u00e3o de livro<\/strong><\/p>\n<p><em>O imagin\u00e1rio da cidade <\/em>(ensaios). UNB\/Imprensa Oficial de S\u00e3o Paulo, 2000. Parceria com Rog\u00e9rio Lima.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo em livro<\/h2>\n<p><em>Narrador, cidade, literatura<\/em><strong>.<\/strong> In: Lima, Rog\u00e9rio e Fernandes, Ronaldo Costa. <em>O imagin\u00e1rio da cidade<\/em>. UNB\/Imprensa Oficial de S\u00e3o Paulo: Bras\u00edlia\/S\u00e3o Paulo, 2000; <em>As cidades em A rainha dos c\u00e1rceres da Gr\u00e9cia.<\/em> In: Almeida, Hugo. <em>O sopro na argila<\/em>. S\u00e3o Paulo: Nankin Editorial, 2004. <em>Machado de Assis: servidor p\u00fablico. <\/em>Introdu\u00e7\u00e3o: p. IX a p. XXIV. In: GUEDES, Paulo e HAZIN, Elizabeth. <em>Machado de Assis e a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica Federal<\/em>. vol. 68. Bras\u00edlia: Senado Federal, 2006; <em>Hist\u00f3ria da literatura ocidental: a obra monumental de Otto Maria Carpeaux.<\/em> Introdu\u00e7\u00e3o: p. XIX a XXXVI. In: CARPEAUX, Otto Maria. <em>Hist\u00f3ria da literatura ocidental<\/em>. Vol. 107-A. Bras\u00edlia: Senado Federal, 2008.<\/p>\n<p><strong>Pr\u00eamios:<\/strong><\/p>\n<p>Revela\u00e7\u00e3o de Autor &#8211; APCA (Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte), 1979. Com o livro <em>Jo\u00e3o Rama<\/em>; Guimar\u00e3es Rosa (Governo do Estado de Minas Gerais), 1981. Livro <em>O ladr\u00e3o de cartas; <\/em>Pr\u00eamios com o livro <em>O morto solid\u00e1rio: <\/em>Casa de las Am\u00e9ricas, Havana, 1990; Cidade de Belo Horizonte (Prefeitura de BH), 1991<em>; <\/em>Otavio de Faria, da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores, 1992. Pr\u00eamio OK, da Funda\u00e7\u00e3o Lu\u00eds Est\u00eav\u00e3o. Bras\u00edlia, na categoria Poesia, com o livro <em>Estrangeiro<\/em> (1997); Finalista do Pr\u00eamio Jabuti-98 com o livro <em>Concerto para flauta e martelo<\/em>; Austreg\u00e9silo de Athayde, de ensaio, para o livro <em>O narrador do romance<\/em> (1997), da UBE (Uni\u00e3o Brasileira de Escritores); Pr\u00eamio Bolsa de Literatura, categoria Poesia, da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Distrito Federal (1998), pelo livro <em>Terratreme;<\/em> de poesia Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto,da UBE, pelo livro <em>Eterno passageiro <\/em>(2004); Poesia, da Academia Brasileira de Letras, 2010, pelo livro de poemas <em>Mem\u00f3rias dos porcos<\/em>. Comiss\u00e3o Julgadora: L\u00eado Ivo, Affonso de Arinos de Melo Franco e Alberto da Costa e Silva.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>O\u00a0que dizem as portas? Qual a linguagem das portas? H\u00e1 portas de boca fechada. Muitas \u2014 como as bocas fechadas \u2014 trazem segredos. H\u00e1 portas que est\u00e3o quase sempre abertas. As portas p\u00fablicas pertencem \u00e0 esp\u00e9cie das portas quase sempre abertas. Outras portas s\u00e3o h\u00edbridas e s\u00f3 se abrem ao toque dos conhecidos. H\u00e1 portas que olham. Muitas t\u00eam o olhar esquivo, cerrado, duro. A porta desta Academia sempre me foi, quando crian\u00e7a, uma porta de olhar esquivo. Uma porta de olhar rijo e agudo. Contudo, embora militar e imperial, esta porta sabia falar outras linguagens, porque era uma porta m\u00e1gica. E as portas m\u00e1gicas t\u00eam sua algaravia. Hoje, estar aqui, transpor o umbral daquela porta de <em>Mil e uma noites<\/em>, que escondia segredos, \u00e9 ingressar num mundo m\u00e1gico.<\/p>\n<p>Sinto\u00ad-me honrado de ocupar a Cadeira cujo patrono \u00e9 Raimundo Lopes, essa figura gigantesca. \u00c9 dele <em>O torr\u00e3o maranhense<\/em>, um dos primeiros livros sobre a geografia da regi\u00e3o. Livro escrito ainda em sua vida juvenil. Publica\u00ad-o em 1916. Mais tarde, come\u00e7am a aparecer no Boletim do Minist\u00e9rio do Trabalho, Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio, os cap\u00edtulos do que viria compor o volume <em>Uma regi\u00e3o tropical<\/em>, livro que a intelig\u00eancia luminosa de Joaquim Itapary chamou de \u201cobra rara, que enriquece e valoriza como poucos a bibliografia maranhense\u201d. Nesse livro est\u00e3o o homem e seu meio, as quest\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e hist\u00f3ricas. <em>Uma regi\u00e3o tropical<\/em> \u00e9 uma extens\u00e3o e aprofundamento do livro inicial. \u00c9 dele ainda a condena\u00e7\u00e3o das queimadas, sua consci\u00eancia ecol\u00f3gica t\u00e3o moderna que o faz nosso contempor\u00e2neo e at\u00e9 mesmo vision\u00e1rio ao escrever em <em>Uma regi\u00e3o tropical<\/em>:<\/p>\n<p><em>Como em todo o pa\u00eds, a forma\u00e7\u00e3o das culturas parte da abusiva usan\u00e7a das queimadas, que fazem arder, num dia, trechos valiosos de florestas espl\u00eandidas. Anda-se pelo interior e, \u00e0 beira das veredas, de repente, abre-se o claro de uma ro\u00e7a, com peda\u00e7os de troncos carbonizados pelo ch\u00e3o. Os fazedores de desertos continuam a incendiar florestas, e tudo est\u00e1 muito bem&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Raimundo Lopes \u00e9 pioneiro na descoberta de sambaquis, chamados pelos caboclos de estearias ou cacarias, no vale do rio Pindar\u00e9, que remontavam h\u00e1 dois mil anos a.C. Esta descoberta transforma Raimundo Lopes num desbravador e, feito in\u00e9dito, aponta em terras americanas as primeiras habita\u00e7\u00f5es lacustres no continente. Assim como \u00e9 dele tamb\u00e9m a importante descoberta do sambaqui da Maiobinha, que foi classificada como s\u00edtio de alta relev\u00e2ncia por \u00f3rg\u00e3o federal por demais conhecido na \u00e1rea do patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Trabalhou mais tarde, no Museu Nacional. Na d\u00e9cada de 30, passou a dar aulas na R\u00e1dio mec sobre geografia, o que resultou no livro <em>Antropogeografia<\/em> \u2014 suas origens, seu objeto, seu campo de estudo e tend\u00eancias. Anotando suas palestras transmitidas pela R\u00e1dio Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Raimundo Lopes, ainda no leito de hospital, chega a ditar antes do coma final, apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria do que seria seu livro <em>Antropogeografia<\/em>, volume em que o autor alarga suas pesquisas e amplia sua intelig\u00eancia cient\u00edfica para quest\u00f5es antropol\u00f3gicas de cunho universal, embora em cada cap\u00edtulo tenha reservado espa\u00e7o para observa\u00e7\u00f5es sobre seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Membro da Academia Maranhense de Letras, do Ins titu to Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o e da Sociedade de Geo grafia do Rio de Janeiro, Raimundo Lopes sempre ser\u00e1 lembrado como o s\u00e1bio que estudou a vida do homem maranhense, sua forma\u00e7\u00e3o humana, seu meio f\u00edsico, seu solo e sua geografia, sua antropologia e sua arqueologia.<\/p>\n<p>Morre em 1941, depois de uma vida de ensino e pesquisa. Uma vida dedicada ao entendimento da hist\u00f3ria e geografia maranhenses n\u00e3o feitas pelos vultos ou por acidentes famosos, mas pela pesquisa minudente do passado do homem maranhense.<\/p>\n<p>Passemos a meu ilustre antecessor: Josu\u00e9 Montelo. Em <em>Os tambores de S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, a ambienta\u00e7\u00e3o \u00e9pica se mescla com o drama individual de Dami\u00e3o. Ali est\u00e1 a saga do negro escravo no Maranh\u00e3o e, por extens\u00e3o, no Brasil Imp\u00e9rio. O horror da escravid\u00e3o coloca a famosa frase do homem como lobo do homem num exemplo maior de degrada\u00e7\u00e3o do <em>homo sapiens<\/em>. Josu\u00e9 Montelo, assim como o Graciliano de <em>S\u00e3o Bernardo<\/em>, soube agregar o fator humano e psicol\u00f3gico ao grande drama coletivo. Ao mesmo tempo em que descreve o regime escravocrata em suas min\u00facias, com a lupa do historiador meticuloso, Josu\u00e9 tamb\u00e9m se adentra na psique de Dami\u00e3o, sua ang\u00fastia individual, seu percurso cruel de negro forro que n\u00e3o encontra lugar na sociedade dos brancos. A saga individual de Dami\u00e3o \u00e9 de grande for\u00e7a narrativa. Um personagem que supera o ambiente, imp\u00f5e-\u00adse pela intelig\u00eancia e cultura, mas definha e encurrala\u00adse, escorra\u00e7ado pelo meio mesquinho e amesquinhante. De certa forma, diria que Montelo construiu uma f\u00e1bula. Sua narrativa realista, que se aproxima dos grandes narradores do s\u00e9culo xix, \u00e9 verdadeiramente veross\u00edmil e aposta tanto na realidade que, em certo sentido a supera, a narrativa passa a ser, inclusive porque est\u00e1 em outra \u00e9poca, uma narrativa de cunho quase m\u00edtico. Josu\u00e9 Montelo, que com sua extensa obra, poderia ser classificado de o Balzac maranhense, tamb\u00e9m poderia levar outro t\u00edtulo, com este <em>Os tambores de S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>.\u00a0O do autor da Dami\u00edada, ou seja, o poema hom\u00e9rico do negro brasileiro em sua epopeia de salvar um povo. Dami\u00e3o, assim como Ulisses, participa de uma verdadeira guerra dos quilombos. A partir da volta \u00e0 fa\u00adzenda onde era escravo, Dami\u00e3o empreende uma verdadeira viagem de retorno a sua casa. A casa de Ulisses era \u00cdtaca. A casa de Dami\u00e3o \u00e9 uma casa coletiva: o reencontro do negro com sua ra\u00e7a livre. Observe\u00adse que durante todo o p\u00e9riplo de uma noite, Dami\u00e3o \u00e9 perseguido por uma identidade sonora: os tambores de Mina que lhe d\u00e3o a identidade afro\u00adbrasileira. Todo o livro \u00e9 uma sequ\u00eancia de lutas e de conquistas, de sereias que encantam e ilhas que na verdade s\u00e3o armadilhas como o clero e o magist\u00e9rio, de polifemos que o querem destruir. Dois tempos como na epopeia: o tempo do narrado e o tempo do narrador. Embora n\u00e3o haja o absurdo e o maravilhoso de Homero, existe aqui o homem em luta contra os elementos da natureza e das for\u00e7as sociais que o fazem her\u00f3i de sua ra\u00e7a. Para aqueles que estranham a compara\u00e7\u00e3o entre o romance de Josu\u00e9 Montelo e a <em>Odisseia<\/em>, de Homero, lembremos que o <em>Ulisses<\/em>, de James Joyce, que se pretende uma narrativa hom\u00e9rica valeu-\u00adse de apenas um dia do personagem Leopold Bloom para construir sua epopeia moderna.<\/p>\n<p>O romance hist\u00f3rico n\u00e3o tem sua pertin\u00eancia se n\u00e3o tocar em temas contempor\u00e2neos. Esta \u00e9 a grande virtude e defeito do romance hist\u00f3rico. Se n\u00e3o for bem realizado, soa como coisa antiga, ultrapassada. H\u00e1 de haver no bom romance hist\u00f3rico o di\u00e1logo com dois tempos: os problemas que afligem os de hoje com a trama e o tema de que trata a narrativa. Nesse sentido, Josu\u00e9 Montelo realizou muito bem seu projeto est\u00e9tico ao construir <em>Os tambores de S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>. O problema social da discrimina\u00e7\u00e3o racial ainda est\u00e1 presente na agenda das discuss\u00f5es do Brasil de hoje.<\/p>\n<p>Quando criticaram Umberto Eco por colocar no romance <em>O nome da rosa<\/em>, ambientado na Idade M\u00e9dia, problemas que n\u00e3o tinham sido aventados naquela \u00e9poca e que pertenciam \u00e0s inquieta\u00e7\u00f5es de hoje, Eco respondeu que n\u00e3o entendia o romance hist\u00f3rico de outra maneira, j\u00e1 que a reconstru\u00e7\u00e3o de uma \u00e9poca pura e simples de nada valia se n\u00e3o contivesse o germe do permanente e da inquieta\u00e7\u00e3o do leitor moderno. Eterno e moderno parecem ser as duas palavras chaves do romance hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Em <em>Noite sobre Alc\u00e2ntara<\/em>, Josu\u00e9 faz do romance um retrato de uma decad\u00eancia de uma cidade. Na verdade, Natalino, o major Natalino, her\u00f3i da Guerra do Paraguai, que retorna \u00e0 cidade natal \u00e9 uma meton\u00edmia da cidade e a cidade, por sua vez, \u00e9 a grande personagem da hist\u00f3ria. Natalino e Alc\u00e2ntara tanto se imiscuem que a infertilidade de um \u00e9 a improdutividade de outra. Aqui est\u00e1 a cidade abandonada, entregue \u00e0s suas ru\u00ednas e a seu passado faustuoso, \u00e0s lembran\u00e7as de tempo de bonan\u00e7a. Na figura balzaquiana do personagem comprador de antiguidades, o judeu Davi Cohen, Josu\u00e9 caracteriza a avidez dos que vivem da decad\u00eancia alheia. Cohen n\u00e3o \u00e9 apenas um comerciante, mas um personagem \u00e1vido por bens materiais que para seus antigos propriet\u00e1rios representavam valores afetivos e toda uma cultura dom\u00e9stica que a gan\u00e2ncia de Cohen, s\u00edmbolo quem sabe do capital despersonalizado, desconhece. Junto com <em>Os tambores de S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>, neste livro Josu\u00e9 mapeia o imagin\u00e1rio maranhense de determinada fase da nossa cultura. Mostra o est\u00e1gio da economia agr\u00e1ria que levaria a uma industrializa\u00e7\u00e3o que tarda a chegar. Mostra um Maranh\u00e3o, por outro lado, rico e majestoso em sua hist\u00f3ria e nos caminhos e descaminhos de sua cultura. O inc\u00eandio final na casa de Cohen vem fechar definitivamente um ciclo. O inc\u00eandio na casa do judeu n\u00e3o apenas acaba com suas pe\u00e7as valiosas ou de arte, mas tamb\u00e9m coloca cinza e ponto final, na passagem do s\u00e9culo xix para o xx, em sua festa de Ano Novo, quando os velhos habitantes retornam para a festividade, o inc\u00eandio na casa de Cohen, dizia eu, queima as \u00faltimas quimeras de\u00a0um retorno a uma cidade que h\u00e1 muito deixou de existir.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m simb\u00f3lico o fato de Natalino, que se considerava est\u00e9ril, descobrir, ao final da vida, que tinha gerado um filho. \u00c9 simb\u00f3lico porque o filho de Natalino tamb\u00e9m sugere o renascimento de Alc\u00e2ntara. N\u00e3o mais com o fausto anterior, mas como promessa de outra vida, da continuidade da exist\u00eancia, da passagem do Natalino velho ao filho novo, ou ainda no plano simb\u00f3lico, da velha e aristocr\u00e1tica Alc\u00e2ntara a uma promessa de uma vida que n\u00e3o se encerrou com a improdutividade da cidade que vivia da atividade agr\u00e1ria e da escravatura.<\/p>\n<p>Este grande pol\u00edgrafo dividiu-\u00adse entre a ensa\u00edstica e a prosa de fic\u00e7\u00e3o. E ainda teve tempo de engajar-\u00adse na vida cultural do Rio de Janeiro e do Maranh\u00e3o ao ocupar cargos p\u00fablicos como o da Presid\u00eancia da Biblioteca Nacional, reitor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, presidente da Academia Brasileira de Letras. Como ensa\u00edsta tamb\u00e9m foi magistral. Estudou, entre tantos autores, Machado de Assis, a ponto de se tornar um dos seus maiores cr\u00edticos. Um cr\u00edtico apaixonado, um cr\u00edtico passional e nada imparcial. Seu amor ao Bruxo de Cosme Velho n\u00e3o se restringiu apenas aos estudos da obra machadiana, mas tamb\u00e9m em sua escritura. H\u00e1 algo de machadiano em Josu\u00e9 Montelo, principalmente em <em>A noite sobre Alc\u00e2ntara<\/em>. Autor de vasta obra, com uma fornida bibliografia, Josu\u00e9 Montelo n\u00e3o \u00e9 apenas orgulho do povo maranhense que o via como grande escritor, representante da nossa terra. Josu\u00e9 Montelo era tamb\u00e9m, al\u00e9m de gl\u00f3ria local que se tornou nacional, um mestre da arte de conviver, de orientar novos escritores, de representar a classe daqueles autores que sabem, como Machado de Assis, exercer a arte do gregarismo.\u00a0N\u00e3o nos deixa apenas obra v\u00e1ria e centen\u00e1ria, mas um exemplo de conviv\u00eancia e do papel do\u00a0escritor no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Retorno \u00e0 porta inicial que se abriu n\u00e3o por interm\u00e9dio de m\u00e3os. Mas da vontade dos meus confrades. Hoje \u00e9 uma porta que solicita a conviv\u00eancia e n\u00e3o limita dois mundos: o mundo da rua e a assembleia desta Casa. \u00c9 hora tamb\u00e9m de agradecer o carinho da irm\u00e3, que sempre teve gestos generosos para o irm\u00e3o. Ceres \u00e9 mais que irm\u00e3 e amiga escritora. Ceres tem a siamesa mania de querer bem o irm\u00e3o. \u00c9 hora de render agradecimento a quem sempre me incentivou, desde o primeiro livro, como Ubiratan Teixeira, intelig\u00eancia privilegiada e olhos perdul\u00e1rios de elogios amigos. E \u00e0 minha m\u00e3e, pois sem ela n\u00e3o estaria aqui.<\/p>\n<p>Minhas senhoras e meus senhores, \u00e9 hora de agradecer a todos os acad\u00eamicos que em mim votaram por transformar uma porta t\u00e3o enigm\u00e1tica e inalcan\u00e7\u00e1vel em entrada para a fraternidade da intelig\u00eancia e a intelig\u00eancia do fraterno conv\u00edvio. \u00c9 hora de agradecer ao Maranh\u00e3o, terra t\u00e3o pouco ouvida no concerto dos Estados brasileiros, mas t\u00e3o imensamente presente em mim que ouso dizer que sou feito de carne, de ossos e de Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds a 29 de agosto de 1952. Filho de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. \u00c9 graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez Mestrado em Literatura Hispano-Americana, na mesma institui\u00e7\u00e3o de ensino, e Doutorado em Literatura Brasileira, na Universidade de Bras\u00edlia. 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