{"id":405,"date":"2014-03-06T11:54:11","date_gmt":"2014-03-06T11:54:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=405"},"modified":"2014-10-05T11:25:37","modified_gmt":"2014-10-05T11:25:37","slug":"carlos-thadeu-pinheiro-gaspar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/carlos-thadeu-pinheiro-gaspar\/","title":{"rendered":"Carlos Thadeu Pinheiro Gaspar"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em Viana-MA, a 5 de dezembro de 1939. Ainda crian\u00e7a transferiu-se, com a fam\u00edlia, para S\u00e3o Lu\u00eds, cidade em que fez sua forma\u00e7\u00e3o educacional: cursos prim\u00e1rio no Col\u00e9gio Maristas (1946-50), ginasial no Col\u00e9gio Maristas (1951 a junho de 1953, at\u00e9 a metade da 3\u00aa s\u00e9rie) e no Col\u00e9gio de S\u00e3o Lu\u00eds (ago.1953-54) e de t\u00e9cnico em Contabilidade na Escola T\u00e9cnica de Com\u00e9rcio do Centro Caixeiral (1955-57). Bacharel em Direito (1963) pela Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds; bacharel (1962) e licenciado (1963) em Hist\u00f3ria e Geografia pela Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade do Maranh\u00e3o (atual UFMA), institui\u00e7\u00e3o de que foi professor, lecionando, ao longo de 16 anos, Hist\u00f3ria da Antiguidade, Hist\u00f3ria da Cultura, Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o e Hist\u00f3ria das Religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Dedicando-se, em seguida, \u00e0s atividades empresariais, segmento do qual \u00e9 uma das mais expressivas lideran\u00e7as, vem dirigindo as diversas empresas que fundou, e tem desempenhado relevantes fun\u00e7\u00f5es em entidades ligadas \u00e0 vida econ\u00f4mica maranhense, como, por exemplo: presidente da Junta Comercial do Maranh\u00e3o (1976-77); vice-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Comerciais do Brasil (1994-96), 1\u00b0 vice-presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado do Maranh\u00e3o-Fiema e do Servi\u00e7o Social da Ind\u00fastria-Sesi; 1\u00b0 vice-diretor do Servi\u00e7o Social de Aprendizagem Industrial-Senai; presidente do Clube de Diretores Lojistas de S\u00e3o Lu\u00eds (1984-88); da Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Maranh\u00e3o (1990-94), do Conselho Deliberativo do Sebrae-MA e da Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Empresariais do Maranh\u00e3o (1994-98), membro do Conselho Universit\u00e1rio da Universidade Federal do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Empres\u00e1rio do Ano (1990), possui entre diversas outras honrarias, a Medalha La Ravardi\u00e8re, da Prefeitura de S\u00e3o Lu\u00eds, a Medalha do M\u00e9rito Timbira, do Governo do Estado, e a Medalha da Ordem Timbira do M\u00e9rito Judici\u00e1rio, do TRT-16\u00aa Regi\u00e3o (no grau de comendador).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p><em>Dunshee de Abranches <\/em>(discurso de posse no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o). S\u00e3o Lu\u00eds: 1993; <em>Refazendo o caminho <\/em>(cr\u00f4nicas). S\u00e3o Lu\u00eds: Lithograf, 1993; <em>Catedral de emo\u00e7\u00f5es <\/em>(cr\u00f4nicas). S\u00e3o Lu\u00eds: Lithograf, 1994. <em>Caminhos percorridos <\/em>(discursos). S\u00e3o Lu\u00eds: 1994; <em>Conto treze contos. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Lithograf, 1999.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Colaborou, desde 11 de maio de 1991 at\u00e9 o ano de 2000, n\u2019O <em>Imparcial, <\/em>escrevendo aos domingos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Ainda conservo n\u00edtidas as imagens da minha chegada a\u00a0S\u00e3o Lu\u00eds. Vinha de longe, de terras distantes, onde me\u00a0acostumara a conviver com a placidez de lagos encantados e\u00a0com o verde repousante dos campos a perder de vista. Vinha de\u00a0plagas diferentes, pousada tamb\u00e9m de bandos de gar\u00e7as brancas\u00a0e morenas, de soc\u00f3s e japia\u00e7ocas, de ja\u00e7an\u00e3s e marrecas. Vinha\u00a0de glebas tranquilas, em que o sil\u00eancio do amanhecer se transmudava\u00a0na musicalidade oriunda da algazarra feliz das aves em\u00a0liberdade, ritmada ao som do trote dos cavalos e do ranger das\u00a0rodas do carro de boi, anunciando um outro dia de trabalho. Mas\u00a0vinha, impulsionado pelo destino e pela voca\u00e7\u00e3o aventureira do\u00a0sangue luso a correr-me nas veias, de Viana, meu inesquec\u00edvel\u00a0e imorredouro torr\u00e3o natal, para S\u00e3o Lu\u00eds, que me enfeiti\u00e7ou\u00a0com seus logradouros, sobrad\u00f5es, ruas, vielas, ladeiras, escadarias\u00a0e hist\u00f3ria, depois de deixar para tr\u00e1s os segredos do Maracu,\u00a0do Pindar\u00e9 e do Mearim, at\u00e9 enfrentar as \u00e1guas profundas e as\u00a0ondas revoltas da ba\u00eda de S\u00e3o Marcos.<\/p>\n<p>Eram noites claras e bonitas, com a lua cheia parecendo\u00a0mais pr\u00f3xima, mostrando na limpidez de meus olhos de menino\u00a0o retrato de s\u00e3o Jorge, montado em seu ginete coberto de arreios\u00a0doirados. As estrelas salpicadas pelo c\u00e9u, acompanhantes na\u00a0viagem desde a partida, davam-me a sensa\u00e7\u00e3o de terem aumentado\u00a0em quantidade e brilho, quando a velha lancha de Aracati\u00a0Campos fundeou em frente ao Cais da Sagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel de pra\u00e7a tomou a dire\u00e7\u00e3o da Praia Grande, passou pelo largo do Carmo e seguiu rumo \u00e0 rua da Paz. Parou, entre a travessa da Passagem e a rua da Cruz, em frente a uma morada-inteira, onde, com mais seis irm\u00e3os, meu pai e minha m\u00e3e, pernoitei. Ali dormi o meu primeiro sono na Cidade de La Ravardi\u00e8re, e sonhei, envolvido no embevecimento dos contrastes fascinantes entre a capital em que acabara de aportar e a minha j\u00e1 long\u00ednqua cidade ber\u00e7o, com um novo mundo que descobria, tal os meus ancestrais ib\u00e9ricos, a desafiar os pendores e os talentos que trazia comigo. Hoje me dou conta, ap\u00f3s tanto tempo, de que a velha rua da Paz, naqueles idos de 1945, j\u00e1 profetizava acolher-me para sempre, vatic\u00ednio que agora se concretiza, ao ser eu admitido nesta Casa, situada na mesma art\u00e9ria, para integrar os quadros da imortalidade, gra\u00e7as \u00e0 vontade e \u00e0 decis\u00e3o de seus membros. Em assim sendo, apresento-me a v\u00f3s, car\u00edssimos cons\u00f3cios, com as m\u00e3os vazias de sabedoria, mas com o cora\u00e7\u00e3o pleno de afeto, e com humildade bastante para perceber o muito que ainda preciso aprender para que possais incessantemente ter orgulho de mim.<\/p>\n<p>Apresento\u00ad-me a v\u00f3s, estimados confrades, com os defeitos das minhas qualidades e com as qualidades dos meus defeitos, como diria Joaquim Nabuco, por\u00e9m convicto de que aquelas haver\u00e3o de prevalecer, na busca de um relacionamento af\u00e1vel, harm\u00f4nico e salutar. Por outro lado, desvane\u00e7o-\u00adme pela prefer\u00eancia que tivestes por mim, para compor o restrito n\u00famero de homens e mulheres que se prop\u00f5em a venerar o passado, no af\u00e3 de construir o amanh\u00e3 da cultura maranhense. Naturalmente, avaliando as minhas potencialidades e acreditando na minha fidelidade aos princ\u00edpios orientadores da Casa de Ant\u00f4nio Lobo, resolvestes conceder\u00ad-me a emin\u00eancia acad\u00eamica, antes como est\u00edmulo \u00e0 minha voca\u00e7\u00e3o de escritor do que como um pr\u00eamio aos meus trabalhos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, estou consciente de que a escolha de um novo confrade traduz um desejo de conviv\u00eancia, acima de mera disputa eleitoral. Deparo\u00ad-me, ent\u00e3o, distinguido com a vossa op\u00e7\u00e3o que, conquanto seja uma honraria das maiores, cria para mim deveres incontrast\u00e1veis, que somente poder\u00e3o ser desobrigados ao longo do tempo, com o que vier eu a produzir intelectualmente, sob o est\u00edmulo de todos v\u00f3s. Fizestes, pois, na linguagem empresarial, de mais f\u00e1cil manejo para mim, um investimento, e eu vim aqui, nesta noite, como parte contratante, para vos afirmar, perante as testemunhas presentes e com a palavra de quem nunca falhou a seus compromissos, da minha disposi\u00e7\u00e3o inquebrant\u00e1vel de corresponder \u00e0 vossa vis\u00e3o prospectiva.<\/p>\n<p>Ciente das dificuldades em desincumbir\u00ad-me sozinho, com as limitadas disponibilidades de requinte cultural a meu alcance, na manuten\u00e7\u00e3o de t\u00e3o inestim\u00e1vel heran\u00e7a, recorrerei, como sempre o fa\u00e7o nos momentos de afli\u00e7\u00e3o, \u00e0 b\u00ean\u00e7\u00e3o da minha saudosa m\u00e3e, merecedora de loiros e gl\u00f3rias, que consumiu o seu pouco viver nos desdobrados cuidados para comigo e meus irm\u00e3os; tamb\u00e9m ao meu inesquec\u00edvel pai, amigo insepar\u00e1vel, com quem privei na afei\u00e7\u00e3o, na amizade, na intimidade e na afinidade, desde os quase dez anos de nascido, quando experimentei, ao seu lado, os titubeantes passos iniciais no universo dos neg\u00f3cios. Invocarei, com a mesma \u00eanfase, as minhas duas mulheres, Paula e Socorro, esposa e filha, que incessantemente me estimularam e convenceram a que eu percorresse os caminhos que me guiaram a esta Casa, motivando\u00ad-me e impulsionando-\u00adme ante este ou aquele empecilho. Finalmente, convocarei sempre os meus amigos mais pr\u00f3ximos, por quem tenho um carinho especial, os quais, aliados aos aconselhamentos j\u00e1 de muito manifestados de minha mulher, me persuadiram de que deveria eu dar divulga\u00e7\u00e3o ostensiva \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es intelectuais, fruto de minhas inspira\u00e7\u00f5es, desde a juventude, mas at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas. \u00c9 que eu, em minha timidez quase indom\u00e1vel, sempre achei de escassa valia para os outros, tudo o que, ao longo de muitos anos, a espontaneidade de meu esp\u00edrito revelava, materializada por mim, na tinta e no papel.<\/p>\n<p>E ao concorrer a uma vaga neste Sodal\u00edcio, conduziram\u00ad-me os fados a que eu o fizesse justo para a Cadeira patroneada pelo grande Ant\u00f4nio Lobo, Ant\u00f4nio Francisco Leal Lobo, o mesmo que, ao lado de v\u00e1rios homens de letras maranhenses, inquietados com o destino da cultura da nossa terra, seriamente abalada com a morte de algumas e com o \u00eaxodo, principalmente para o Rio de Janeiro, de outras tantas personalidades expressivas, foi um dos fundadores desta Academia e terminou por emprestar\u00ad-lhe, definitivamente, o pr\u00f3prio nome, motivo pelo qual \u00e9 ela chamada Casa de Ant\u00f4nio Lobo.<\/p>\n<p>Assim, pesado \u00e9 o meu encargo, imensa a minha responsabilidade, pois me vejo no dever de, seguindo os conselhos de M\u00e1rio Meireles a Ignacio Mour\u00e3o Rangel, quando da sua posse em sess\u00e3o solene semelhante a esta, nunca me esquecer de que ora me fa\u00e7o titular da Poltrona que est\u00e1 sob a invoca\u00e7\u00e3o do maior dentre os idealizadores da Academia Maranhense de Letras. Por isso mesmo, conquanto o ritual acad\u00eamico prescreva apenas que, neste momento, renda homenagem ao meu predecessor, jamais poderia abster-\u00adme do elogio ao patrono da minha Cadeira, essa figura singular que nos deixou um dos mais luminosos exemplos de devotamento desmedido ao Maranh\u00e3o, nas \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o e da cultura, sem desprezar o jornalismo e a pol\u00edtica, suas duas outras paix\u00f5es. A prop\u00f3sito, para um homem da agudeza de Ant\u00f4nio Lobo, se a filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria se apresentava como condi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, pois n\u00e3o consta haver ele perseguido mandato popular, <em>a milit\u00e2ncia na imprensa significava o pr\u00f3prio ar que respirava, a sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser,<\/em> pois atrav\u00e9s dela, e somente atrav\u00e9s dela, poderia disseminar as ideias de educador, de cr\u00edtico de costumes e de pol\u00edtico no significado mais puro do termo, que encheram sua alma e se extravasaram sem reservas, para se transformarem em uma aut\u00eantica e perene aula magna, que somente as grandes figuras humanas s\u00e3o capazes de proferir.<\/p>\n<p>Da\u00ed ent\u00e3o, senhoras e senhores, dignos confrades, no p\u00f3rtico deste discurso ter usado o questionamento do c\u00e9lebre estudioso franc\u00eas Michelet, pois desejava patentear que Laura Rosa, Jos\u00e9 Jansen, Ignacio Rangel e at\u00e9 com maior \u00eanfase Ant\u00f4nio Lobo, abra\u00e7aram, de uma forma ou de outra, a educa\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica, visto terem numa ou noutra se inserido, ou em ambas, na plena consolida\u00e7\u00e3o de seus anseios. A imprensa foi, para o patrono da Cadeira 26, o instrumento indispens\u00e1vel na propaga\u00e7\u00e3o de seu ide\u00e1rio e de suas teses. Ali\u00e1s, pelas pesquisas que efetuei, regozijei\u00ad-me, em ver totalmente livres, sem censuras, retratadas nas p\u00e1ginas dos jornais, as express\u00f5es de pensamento de ativistas locais. Compreendi, ent\u00e3o, que os ares influentes em decorr\u00eancia da extin\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio e da consequente empolga\u00e7\u00e3o pelo regime republicano rec\u00e9m-\u00adimplantado, teriam propiciado a integral franquia das cria\u00e7\u00f5es que, com naturalidade, afloravam em tal circunst\u00e2ncia. Da\u00ed concluir\u00ad-se ter sido, certamente, em face desse estado de alma, oriundo da filosofia democr\u00e1tica nascente, ou com ela consolidado, que a imprensa brasileira caracterizou\u00ad-se, na \u00e9poca, mais pela pol\u00eamica do que propriamente pela not\u00edcia. E \u00e9 Fernando Morais, em seu livro sobre Assis Chateaubriand, quem confirma este meu racioc\u00ednio, ao dizer:<\/p>\n<p><em>A pol\u00eamica era o palco ideal para o exerc\u00edcio da eleg\u00e2ncia, da erudi\u00e7\u00e3o e, quase sempre, da ferocidade no ataque. Verdadeiro teste de resist\u00eancia, sua import\u00e2ncia podia ser medida pelo tempo que durasse, com os dois contendores\u00a0de p\u00e9. Uma pol\u00eamica que s\u00f3 resistisse um m\u00eas n\u00e3o era digna de nome.<\/em><\/p>\n<p>Como se v\u00ea, o tempo, no caso, \u00e9 elemento fundamental, talvez at\u00e9 mais relevante que a ess\u00eancia da controv\u00e9rsia. E desse contexto n\u00e3o se fugiu Ant\u00f4nio Lobo, figura de destaque nos meios intelectuais, pelos in\u00fameros m\u00e9ritos de que se fazia possuidor, desde que estreou em <em>O S\u00e9culo<\/em>, \u00f3rg\u00e3o estudantil que dirigiu com Alu\u00edsio Porto. Escreveu, a seguir, com frequ\u00eancia, em: <em>Revista Elegante<\/em>; <em>Philomathia<\/em>, \u00f3rg\u00e3o de que foi colaborador com Manoel de Bethencourt e Reis Carvalho; <em>A Revista do Norte<\/em>, que fundou e dirigiu juntamente com Alfredo Teixeira; nos di\u00e1rios <em>O Globo<\/em>, folha republicana criada por Paula Duarte e Casimiro J\u00fanior; <em>O Federalista<\/em>; <em>Di\u00e1rio do Maranh\u00e3o<\/em>; <em>Pacotilha<\/em>; <em>O Jornal<\/em>; e, por \u00faltimo, <em>A Tarde<\/em> (1915\u00ad1916), de que foi diretor e onde teve como companheiros, dentre outros, Domingos Barbosa e Ruben Almeida. Percebe\u00ad-se, ent\u00e3o, que sua presen\u00e7a na imprensa local foi permanente e abundante, ensejando\u00ad-lhe a publica\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas, artigos, ensaios, contos, romances e um sem-\u00adn\u00famero de g\u00eaneros liter\u00e1rios brotados da espontaneidade de sua verve e da forma\u00e7\u00e3o intelectual s\u00f3lida que amealhou, embora curta lhe tivesse sido a vida.<\/p>\n<p>Dotado de um estilo simples, desprovido de voc\u00e1bulos empolados, bem a meu gosto pessoal, quase sempre real\u00e7ado pelo conte\u00fado de fina ironia, legou-\u00adnos uma produ\u00e7\u00e3o farta e de leitura cativante que logo prende a aten\u00e7\u00e3o de quem, como eu, tiver o privil\u00e9gio de fixar os olhos nas velhas p\u00e1ginas dos jornais da \u00e9poca e nos livros que escreveu ou traduziu. Foi, ent\u00e3o, na persegui\u00e7\u00e3o e na an\u00e1lise desse inestim\u00e1vel acervo que, como disse h\u00e1 pouco, deleitei\u00ad-me com interessante pol\u00eamica travada entre o autor de <em>Da carteira de um neurast\u00eanico<\/em> e Manuel Fran Paxeco, tamb\u00e9m um dos fundadores desta institui\u00e7\u00e3o. Versava a querela sobre aspectos de ordem administrativa e pedag\u00f3gica do Liceu Maranhense, estabelecimento de ensino de que Ant\u00f4nio Lobo era professor e diretor. Lente dos mais respeitados, titular da cadeira de L\u00f3gica atrav\u00e9s de brilhante concurso p\u00fablico, tal a erudi\u00e7\u00e3o esbanjada e a dial\u00e9tica que aplicava na transmiss\u00e3o de seus saberes, tudo aliado a um dom orat\u00f3rio empolgante e persuasivo, fez\u00ad-se reverenciado por toda a sociedade de ent\u00e3o, a partir de governadores, parlamentares e membros do Judici\u00e1rio, at\u00e9 a estudantada jovem e empolgada ante a riqueza da bagagem intelectual do inolvid\u00e1vel mestre. A bem da verdade, a contenda que longamente sustentou com Fran Paxeco, nas p\u00e1ginas de <em>Pacotilha<\/em>, \u00e9 um aut\u00eantico testemunho da sensibilidade invulgar e da vis\u00e3o larga acerca do ensino, em que aborda, dentre outras particularidades, a ainda hoje t\u00e3o ineficiente profissionaliza\u00e7\u00e3o dos cursos de n\u00edvel m\u00e9dio e a reformula\u00e7\u00e3o do sistema educacional do Maranh\u00e3o como um todo.<\/p>\n<p>A passagem de Ant\u00f4nio Lobo pela dire\u00e7\u00e3o do Liceu, cargo que j\u00e1 ocupava quando assumiu o governo do Maranh\u00e3o o dr. Herculano Nina Parga, em que pese a grande amizade existente entre os dois, culminou com o seu pedido de exonera\u00e7\u00e3o, em face das desaven\u00e7as havidas com o secret\u00e1rio do Interior, dr. Raul Machado, a quem era subordinado. Os motivos, aparentemente sem gravidade maior, ensejaram uma troca de correspond\u00eancias entre o subalterno e o superior, em que este, na falta de argumentos convincentes, terminou por achar\u00ad-se injuriado ante os termos exatos expressados pelo diretor do Liceu Maranhense, tendo, por isso, solicitado do sr. secret\u00e1rio de Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a a puni\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio, de acordo com a lei penal vigente. Esta decis\u00e3o, salvo melhor ju\u00edzo, portadora do sentimento da prepot\u00eancia, do autoritarismo e da vingan\u00e7a, inerente aos desprovidos de esp\u00edrito p\u00fablico e consci\u00eancia democr\u00e1tica, levou o autor de <em>Pela rama<\/em>, \u00e0s barras da Justi\u00e7a, com a abertura de processo\u00a0criminal destitu\u00eddo de qualquer fundamento. E novamente, atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de artigos publicados no <em>Pacotilha<\/em>, sob o titulo A Nulidade do Meu Processo, deparo\u00ad-me n\u00e3o mais com o professor de Portugu\u00eas, Franc\u00eas, Ingl\u00eas, Geografia e L\u00f3gica; nem tampouco com o tradutor, conferencista e romancista; muito menos com o bibliotec\u00f4nomo revolucion\u00e1rio da \u00e9poca e de fazer inveja a muitos dos atuais; mas sim com o jurista de peso, a revelar linguagem f\u00e1cil, por\u00e9m correta no manejo da terminologia apropriada. Invade com surpreendente familiaridade os c\u00f3digos das leis civil e criminal, substantivas e adjetivas, como se tivesse habitualidade nesse mister. Cita autores nacionais e estrangeiros, tudo sem perder de vista os fatos que originaram a a\u00e7\u00e3o, decompondo-\u00ados com mestria inusitada. Disposto a trancar a a\u00e7\u00e3o penal, valeu-\u00adse Ant\u00f4nio Lobo do instituto do <em>habeas corpus<\/em>, que lhe foi concedido por tr\u00eas votos contra dois, pelo Superior Tribunal de Justi\u00e7a do Estado, ap\u00f3s cinco horas e meia de julgamento. E \u00e9 o mesmo jornal <em>Pacotilha<\/em> que nos revela ter sido o dito impetrante quem fez a defesa oral do pedido, muito embora houvesse constitu\u00eddo os drs. Clodomir Cardoso e Lu\u00eds Carvalho, como seus advogados: \u201cE sustentou\u00ad-a com brilho e eloqu\u00eancia, durante hora e meia, discutindo a quest\u00e3o jur\u00eddica com seguran\u00e7a e profici\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Ilustres Confrades, senhoras e senhores, na medida em que descobria o filete do tesouro, mais minha ambi\u00e7\u00e3o ia crescendo e n\u00e3o me contive enquanto n\u00e3o li grande parte do acervo que nos legou Ant\u00f4nio Lobo. Confesso que, ao faz\u00ea\u00ad-lo, j\u00e1 nem tinha em vista esta fala, pois cuido ser relevante e tamb\u00e9m gratificante o meu dever de enaltecer o meu antecessor, sobre cuja personalidade pretendo ainda deter\u00ad-me. \u00c9 que deveras me impressionou de como, com t\u00e3o pouca idade, poderia um homem dominar tantos assuntos, e todos eles com extrema profundidade. Entendo que o jornalismo pol\u00eamico, predominante no come\u00e7o deste s\u00e9culo, poderia t\u00ea\u00ad-lo incitado ao h\u00e1bito ben\u00e9fico da pesquisa e do estudo, mas t\u00e3o multifacetada \u00e9 sua cultura, que prefiro me convencer de que se trata, sem d\u00favida, de uma intelig\u00eancia \u00edmpar, de uma criatura superdotada intelectualmente e que, merc\u00ea de Deus, colocou todos os seus predicados ao alcance das pessoas e da terra em que nasceu e, como se n\u00e3o bastasse, doou-\u00adlhes tamb\u00e9m a pr\u00f3pria vida, pela causa que abra\u00e7ou.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 digna de aprecia\u00e7\u00e3o a sequ\u00eancia de artigos de sua autoria intitulados A Mensagem do Sr. Governador, publicada em <em>O Jornal<\/em>, na coluna Tribuna Livre. E mais n\u00e3o se estendeu porque, sendo esta uma se\u00e7\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, uma esp\u00e9cie de \u201ccoluna do leitor\u201d, t\u00e3o usada nestes dias, n\u00e3o poderia Ant\u00f4nio Lobo ocup\u00e1\u00ad-la indefinidamente. Por\u00e9m, o que vi, ao regalar-me na concentra\u00e7\u00e3o do conte\u00fado de A Mensagem, foi uma rara pe\u00e7a liter\u00e1ria e cient\u00edfica ao mesmo tempo, abrangendo aprofundado saber de Direito Constitucional, Direito Civil e de Economia, em que o autor, ao expender irretoc\u00e1veis li\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, h\u00e1bil e equilibradamente, entremeou fartas e duras cr\u00edticas \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do seu amigo e colega de bancos escolares, dr. Herculano Parga, ao comparar o conte\u00fado da mensagem que o Chefe do Executivo remetera ao Congresso Legislativo, na abertura anual dos seus trabalhos, com o que de fato havia sido realizado. \u00c9 prov\u00e1vel que, n\u00e3o fosse o constrangimento a que se achou submetido com a a\u00e7\u00e3o criminal promovida por iniciativa do secret\u00e1rio do Interior, dificilmente o tradutor de <em>Henriqueta<\/em>, romance de Fran\u00e7ois Copp\u00e9, teria trazido a p\u00fablico mais um dos aspectos de sua cultura invej\u00e1vel, nem tampouco teria denunciado pr\u00e1ticas pol\u00edticas de ent\u00e3o, lamentavelmente ampliadas nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Perder\u00ad-me\u00adi-a no tempo, a continuar discorrendo sobre a produ\u00e7\u00e3o intelectual de Ant\u00f4nio Lobo, de t\u00e3o vasta e importante, em quase todos os campos do pensamento. No entanto, devo dizer ter ficado deveras perplexo diante dos\u00a0relat\u00f3rios que elaborou, relativos aos anos de 1899 e 1900, na condi\u00e7\u00e3o de diretor da Biblioteca P\u00fablica do Estado do Maranh\u00e3o e apresentados ao ent\u00e3o governador, dr. Jo\u00e3o Gualberto Torre\u00e3o da Costa. Igualmente me fascinou o seu livro <em>A pol\u00edtica maranhense<\/em>, uma an\u00e1lise do per\u00edodo correspondente entre a morte de Benedito Leite e o governo de Herculano Parga, Mesmo considerando a dosagem de passionalismo que permeia o texto, est\u00e1 nele evidenciado um conte\u00fado pol\u00edtico-\u00adcient\u00edfico que muito me ajudou a compreender melhor a hist\u00f3ria mais recente do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre Ant\u00f4nio Lobo, agora, a parte derradeira. O jornal <em>A Tarde<\/em> foi sua \u00faltima trincheira, de onde lutou ardorosamente, extravasando a m\u00e1goa que o perseguiu, at\u00e9 a despedida deste mundo, do governo Herculano Parga. As dificuldades financeiras experimentadas, com a suspens\u00e3o do pagamento de seus sal\u00e1rios de professor do Liceu, alargaram-\u00adlhe aquele estado d\u2019alma. Alguns peri\u00f3dicos da \u00e9poca registraram an\u00fancios de Ant\u00f4nio Lobo, oferecendo\u00ad-se para dar aula particular, numa clara evid\u00eancia de que estava \u00e0 cata de recursos para prover suas necessidades b\u00e1sicas. A inesperada venda do vespertino <em>A Tarde<\/em> aos advers\u00e1rios pol\u00edticos foi a gota d\u2019\u00e1gua. Decepcionado, buscou na eternidade o refrig\u00e9rio para seus atrozes sofrimentos. A imprensa escondeu o fato lament\u00e1vel, n\u00e3o se encontrando em qualquer de seus \u00f3rg\u00e3os a real <em>causa mortis<\/em> de Ant\u00f4nio Lobo. Respeito \u00e0 mem\u00f3ria do mestre? Certamente. Mas, tamb\u00e9m, uma omiss\u00e3o injustific\u00e1vel sob o ponto de vista da verdade e da pesquisa hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos Confrades, senhoras e senhores, logo ap\u00f3s se abrirem os umbrais desta Academia, para que eu nela pudesse adentrar, como agora o fa\u00e7o, sob a ilumina\u00e7\u00e3o festiva desta noite solene, asseguraram-\u00adme diversas pessoas da desenvoltura que teria para proclamar, com as gl\u00f3rias de que se faz credor, os dotes intelectuais do meu predecessor. \u00c9 que, desempenhando eu, profissionalmente, a atividade empresarial, e tendo sido ele um not\u00e1vel economista, haveria entre n\u00f3s, impl\u00edcito, um elo perfeito, a facilitar o meu entendimento acerca da figura invulgar de Ignacio de Mour\u00e3o Rangel. Vi\u00adme, de pronto, embara\u00e7ado com a expectativa gerada. E mais ainda cresceu-\u00adme a responsabilidade, quando escutei de M\u00e1rio Meireles a observa\u00e7\u00e3o de que a mim cumpriria, na oportunidade deste meu discurso, tornar ainda mais destacado quanto poss\u00edvel o nome do talentoso maranhense, que ora, honrosamente, sucedo e homenageio, neste Sodal\u00edcio.<\/p>\n<p>Em verdade, as premissas levantadas, aparentemente encontram justificativa, pois empresa e iniciativa privada s\u00e3o sempre citadas e avaliadas no \u00e2mbito e fora de suas atua\u00e7\u00f5es, sobretudo quando est\u00e3o em cena estrat\u00e9gias com vistas \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de problemas econ\u00f4micos de um pa\u00eds. No Brasil, ent\u00e3o, de hist\u00f3rica instabilidade nesta \u00e1rea, adapta-\u00adse bem tal pressuposto, assentado na indisfar\u00e7\u00e1vel transfer\u00eancia de obriga\u00e7\u00f5es, que as for\u00e7as interessadas em manter o seu <em>status quo<\/em>, tentam passar para a sociedade confusa e ansiosa. Eu mesmo, nos meus artigos e cr\u00f4nicas dominicais, v\u00e1rios deles consubstanciados no livro <em>Refazendo o caminho<\/em>, e trazendo em suas letras, por dever de meu of\u00edcio como representante de expressiva parcela de homens de neg\u00f3cios desta terra, conceitos, opini\u00f5es, cr\u00edticas e an\u00e1lises do quadro nacional, posso ter induzido a que o racioc\u00ednio de alguns leitores se concentrasse na perspectiva enunciada. Embora estas minhas manifesta\u00e7\u00f5es hajam se revelado de modo superficial e despretensioso, pr\u00f3prias dos leigos, reconhe\u00e7o que n\u00e3o me s\u00e3o de todo estranhas as regras mais singelas da ci\u00eancia de Adam Smith. Aprendi\u00ad-as, devo dizer-\u00advos, no bojo curricular do meu bacharelado em ci\u00eancias jur\u00eddicas e sociais, ao receber, na Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds, as inesquec\u00edveis aulas do professor Fernando Eug\u00eanio dos Reis Perdig\u00e3o, titular da cadeira de Economia Pol\u00edtica, nos idos de 1959.<\/p>\n<p>Portanto, se n\u00e3o h\u00e1, de minha parte, por pura escassez de dom\u00ednio sobre a Ci\u00eancia da Economia, neste aspecto, maiores afinidades com Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, existem, n\u00e3o obstante, pontos em que nos identificamos. Somos os dois, bachar\u00e9is em Direito, igualmente mantivemo\u00ad-nos longe das demandas forenses, por\u00e9m soubemos optar por trilhas alternativas que, a um s\u00f3 tempo, nos conduzissem a vencer as agruras da vida e a deleitar o esp\u00edrito irreverente na preocupa\u00e7\u00e3o com a constru\u00e7\u00e3o do porvir.<\/p>\n<p>E imediatamente me vem \u00e0 lembran\u00e7a o velho pr\u00e9dio da rua do Sol, sempre portador de uma aura de magia contagiante, da qual, dos que por ali passaram, raros se conservaram a ela imunes. Foi precisamente naquela escola de Direito que se inaugurou a moldagem da minha forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ao enveredar pela primeira vez por uma fac\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria estudantil, com o objetivo de eleger\u00ad-me dirigente maior dos colegas universit\u00e1rios de S\u00e3o Lu\u00eds. Segui, fruto da religiosidade que plasmou meu car\u00e1ter, a linha orientada e apoiada pela Igreja Cat\u00f3lica, at\u00e9 ent\u00e3o presa exclusivamente aos ter\u00e7os, \u00e0 liturgia e aos bens materiais, sem se aperceber ainda que a doutrina evang\u00e9lica jamais poderia continuar indefinidamente est\u00e1tica ou guardada numa redoma inquebrant\u00e1vel. Era, desse modo, considerado pelos meus opositores, um reacion\u00e1rio, um <em>rea\u00e7a<\/em>, na linguagem mais pejorativa de ent\u00e3o. Em raz\u00e3o da vis\u00e3o deformada que tinha do universo, como consequ\u00eancia da falta de melhor apreens\u00e3o no tocante \u00e0s ideias e filosofias decisivamente influentes no processo de mudan\u00e7a da face e da estrutura social, tudo decorrente do influxo preconceituoso em que me via envolvido ao defrontar\u00ad-me com meus advers\u00e1rios, no embate inicial, quedei. Deu\u00ads e quando, j\u00e1 estando aclamado presidente da Uni\u00e3o Maranhense dos Estudantes, gra\u00e7as ao apoio notadamente dos companheiros das faculdades cat\u00f3licas, recusei\u00ad-me a assinar, encabe\u00e7ado por Maria Arag\u00e3o, William Moreira Lima e outros, nos idos de 1961, um manifesto pugnando pela legalidade do Partido Comunista, ent\u00e3o na clandestinidade. Esta minha atitude, que objetei reavaliar, contrariou a decis\u00e3o tomada pela maioria de meus pares de representa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, restando\u00ad-me t\u00e3o somente utilizar o expediente da ren\u00fancia, li\u00e7\u00e3o dolorosa e amarga, mas que me ensinou, da\u00ed por diante, a nunca mais capitular ou desistir de meus prop\u00f3sitos ou das minhas postula\u00e7\u00f5es e posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto assim, eu, em plena mocidade, ainda tateava os meandros das lides filos\u00f3ficas e pol\u00edticas, Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, ao se iniciar na Faculdade de Direito, j\u00e1 detinha consigo o cimentado b\u00e1sico de sua forma\u00e7\u00e3o, do qual em nenhum instante abriu m\u00e3o, ao longo da vida, muito embora dissabores profundos imprimissem em sua personalidade indel\u00e9veis marcas, que somente o \u00e2nimo ferrenho de cren\u00e7as inabal\u00e1veis conseguiu ofuscar. Em casa, desde menino, do pai Lucas Rangel herdou a influ\u00eancia jur\u00eddica, aprendendo cedo as no\u00e7\u00f5es substanciais de direito e justi\u00e7a, pois tudo levava crer ao ilustre desembargador que um dia seu filho o substituiria, com o mesmo brilhantismo, no elevado exerc\u00edcio da magistratura. Atrav\u00e9s do saudoso professor Ant\u00f4nio Lopes, seu grande orientador, penetrou pelo mundo comtiano, absorvendo a doutrina positivista do fil\u00f3sofo franc\u00eas que, concebendo a sociedade atrav\u00e9s de um quadro organizado, situa\u00ad-se como precursor da moderna sociologia, em n\u00edvel de estudo cient\u00edfico. Finalmente, bastou o destino lhe colocar nas m\u00e3os o Manifesto Comunista para que suas convic\u00e7\u00f5es adquirissem forma e conte\u00fado definitivos. Referindo-\u00adse a esta circunst\u00e2ncia, relata, de viva voz:<\/p>\n<p><em>Um dia, Eline Mochel, minha colega e amiga, encontrou-se comigo e disse: \u2018Tu vais para a cidade hoje? \u2018. Eu respondi: \u2018sim\u2019. E ela continuou: \u2018Ent\u00e3o, entrega esse livrinho para aquele nosso amigo\u2019. No bonde, abri o livro, que era o\u00a0Manifesto Comunista, e li, li, li, li, at\u00e9 terminar, sem descer da condu\u00e7\u00e3o. A partir daquele momento, eu senti que algo havia mudado. Quando eu entreguei o livro, j\u00e1 era outro, como se eu houvesse redescoberto o mundo.<\/em><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de 1930 incitou os esp\u00edritos mais l\u00facidos deste pa\u00eds e o jovem Ignacio de Mour\u00e3o Rangel n\u00e3o tergiversou na ocasi\u00e3o exata de extravasar seus sentimentos c\u00edvicos, fazendo\u00ad-se em armas ao participar, com a impetuosidade dos seus dezesseis anos, aliada aos aconselhamentos e li\u00e7\u00f5es do desembargador Jos\u00e9 Lucas Rangel, do assalto ao 24\u00b0 Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, de fuzil em punho. Este seu mais primevo ato p\u00fablico de bravura, j\u00e1 exibia a alma forte que nortearia sua conduta de homem de cren\u00e7as arraigadas, por\u00e9m equilibrado e sensato, a ponto de reexaminar posturas eventualmente extremas, mas nunca retroceder ou transigir naquilo que integrou a ess\u00eancia de seu pensamento, como pol\u00edtico, economista e mestre.<\/p>\n<p>A Faculdade de Direito, orgulho de todos quantos por ela passaram, certamente conduziu o autor de <em>A infla\u00e7\u00e3o brasileira<\/em> a uma reflex\u00e3o cada vez mais consciente, na medida em que os trope\u00e7os e as decep\u00e7\u00f5es oriundas da ordem excepcional vigente no pa\u00eds e no Maranh\u00e3o, se sucediam. Lamentavelmente as exacerba\u00e7\u00f5es da ditadura varguista enveredaram tamb\u00e9m pelo pr\u00e9dio da rua do Sol, leg\u00edtimo reduto de homens e mo\u00e7os empenhados na pesquisa jur\u00eddica e na discuss\u00e3o de temas relativos aos direitos humanos e ao exerc\u00edcio da democracia, naquela altura combalida pela supremacia do autoritarismo. Ignacio Rangel, ao lado de outros, pertencia a essa milit\u00e2ncia e de tal maneira se sobressa\u00eda dentre os colegas, e merecia o respeito do corpo docente, que foi o alvo escolhido pelos fascistas, com a determina\u00e7\u00e3o de sua expuls\u00e3o. O desiderato perpetrado, absurdo e revoltante, provocou o rep\u00fadio de Ant\u00f4nio Lopes, que despertou os brios da congrega\u00e7\u00e3o daquela Escola Superior, animando\u00ad-a a permanecer resistente, negando, terminantemente, a torpe exig\u00eancia dos donos do poder. Assim, sob pretextos n\u00e3o convincentes, mas fundamentalmente visando punir os que se opunham ao regime vigente, mormente aquele que, \u00e0 sua \u00e9poca, era \u201ca melhor cabe\u00e7a\u201d da mocidade \u2013 Ignacio de Mour\u00e3o Rangel \u2013 foi fechada, em 1941, a antiga Faculdade de Direito do Maranh\u00e3o, para reabrir, alguns anos mais tarde, sob os ausp\u00edcios da rec\u00e9m\u00ad-criada Funda\u00e7\u00e3o Paulo Ramos, agora com o nome de Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m acentuar, na recapitula\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios igualmente marcantes, que o meu ilustre antecessor resignadamente suportou com altivez os mais atrozes constrangimentos pessoais e morais. Assim, em 1935, pagando tributo \u00e0s suas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ao integrar\u00ad-se \u00e0 Revolta Comunista, foi preso e remetido para o Rio de Janeiro, ao lado de Joaquim Mochel, Fernando Perdig\u00e3o, Clarindo Santiago e outros. Aqui, h\u00e1 uma passagem digna de destaque, reproduzida pelo pr\u00f3prio Ignacio de Mour\u00e3o Rangel em entrevista que concedeu, em 1991, a Rossini Corr\u00eaa, Maureli Costa, Pedro Braga dos Santos e Raimundo Palhano, reportando-\u00adse ao fato:<\/p>\n<p><em>Minha m\u00e3e chorou e pediu que eu abandonasse tudo aquilo, pois n\u00e3o era obrigado a correr riscos, jovem como era. Meu pai disse: Absolutamente! Se me chegar em casa, tendo abandonado os seus amigos, eu lhe fecho as portas na cara. Se voc\u00ea quer mudar de opini\u00e3o, espere lhe ser devolvida a liberdade; enquanto n\u00e3o lhe for devolvida, voc\u00ea n\u00e3o pode mudar de opini\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Bem se v\u00ea, pela insofism\u00e1vel orienta\u00e7\u00e3o do desembargador Jos\u00e9 Lucas Mour\u00e3o Rangel, que o jovem de apenas vinte e um anos herdara do pai a personalidade forjada no sentimento da firmeza de princ\u00edpios e na solidariedade humana, al\u00e9m de que, intelectualmente, j\u00e1 edificara, para sempre, o arcabou\u00e7o de seu ide\u00e1rio, fruto das li\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e filos\u00f3ficas de seus dois preceptores \u2013 O pai, Lucas Mour\u00e3o Rangel e o mestre, Ant\u00f4nio Lopes \u2013 caldeados com as teorias do materialismo hist\u00f3rico de Karl Marx e Friedrich Engels. Na capital federal, para onde fora levado, a reclus\u00e3o n\u00e3o se constituiu em motivo de abatimento ou intimida\u00e7\u00e3o, nem tampouco serviu para recuar em nada. Aproveitou o c\u00e1rcere para mais ainda se desenvolver culturalmente, atirando\u00adse integralmente ao estudo de Franc\u00eas, Ingl\u00eas, Italiano, Alem\u00e3o, Economia, Sociologia, Matem\u00e1tica e muitos outros ramos do saber. Em 1937, j\u00e1 havendo retornado a S\u00e3o Lu\u00eds, novamente a pris\u00e3o. Primeiro na cadeia da pra\u00e7a de S\u00e3o Jo\u00e3o; depois exilado no restrito espa\u00e7o f\u00edsico da cidade, sem poder se deslocar para outros lugares, visto lhe terem sido apreendidos todos os pap\u00e9is oficiais de identifica\u00e7\u00e3o pessoal para, assim, mant\u00ea-\u00adlo coagido. Uma aut\u00eantica cassa\u00e7\u00e3o branca de seus direitos de cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Restou a Ignacio Rangel a busca de um trabalho para seu pr\u00f3prio sustento. Empregou\u00ad-se na firma Martins, Irm\u00e3os &amp; Cia., onde fez o percurso oposto ao preferido pela maioria dos servidores. Ap\u00f3s organizar completamente o setor administrativo da empresa, pediu para ser transferido para a f\u00e1brica. \u00c9 que, devotado ao estudo da Hist\u00f3ria e, portanto, compreendendo a import\u00e2ncia da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e seus desdobramentos sociais e econ\u00f4micos, desejou ver de perto e acompanhar o funcionamento de uma unidade fabril, com o escopo de passar da teoria \u00e0 pr\u00e1tica e com mais convic\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a poder formar seu ju\u00edzo pr\u00f3prio acerca das teses do proletariado. Ali trabalhou seis meses, o suficiente para adquirir embasamento que muito lhe serviu quando, anos mais tarde, por for\u00e7a de fun\u00e7\u00e3o que passou a exercer, dava pareceres em projetos industriais e p\u00f4de faz\u00ea-\u00adlo com mais seguran\u00e7a, porque estavam alicer\u00e7ados tamb\u00e9m na viv\u00eancia que tivera.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o da primeira Confer\u00eancia das Classes Produtoras \u2013 Conclap \u2013, ou Confer\u00eancia de Teres\u00f3polis, terminou ensejando a ida, em 1945, de Ignacio Rangel, para o Rio de Janeiro. Trabalhando ainda na f\u00e1brica da empresa Martins, Irm\u00e3os &amp; Cia., viu nos jornais a programa\u00e7\u00e3o daquele evento. N\u00e3o teve d\u00favidas: endere\u00e7ou uma carta \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Maranh\u00e3o, aos cuidados de Alfredo Benna, diretor do Departamento T\u00e9cnico da entidade, sugerindo o engajamento do empresariado local. Aliados insepar\u00e1veis \u2013 Paulo Martins de Souza Ramos, interventor, e a Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Maranh\u00e3o \u2013 j\u00e1 haviam antes decidido, sem explica\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis, pela omiss\u00e3o ou aus\u00eancia de qualquer representa\u00e7\u00e3o estadual no aludido conclave. No entanto, lido em plena reuni\u00e3o de Diretoria, o conte\u00fado do expediente surtiu efeito a ponto de ter sido reconsiderado o compromisso da Casa com o governo. Teses prontas para a viagem, delega\u00e7\u00e3o composta, e nela inclu\u00eddo o pr\u00f3prio Rangel, que se viu compelido a protelar sua inser\u00e7\u00e3o pessoal na comitiva, para n\u00e3o revelar que, por falta de documentos, estaria impossibilitado de sair de S\u00e3o Lu\u00eds. Salvou\u00ad-o o velho camarada Fernando Perdig\u00e3o, seu companheiro de cela em 1935, a esta altura ocupando cargo de destaque na administra\u00e7\u00e3o Paulo Ramos e com influ\u00eancia suficiente para devolver-\u00adlhe a indispens\u00e1vel carteira de identidade e demais documentos necess\u00e1rios a sua partida.<\/p>\n<p>Quiseram os des\u00edgnios que meu antecessor desembarcasse tardiamente no Rio de Janeiro, tantos foram os entraves com que se deparou, inclusive, para culminar, a verifica\u00e7\u00e3o de uma pane na aeronave em que viajara. Desse modo, ao chegar \u00e0 Cidade Maravilhosa, a representa\u00e7\u00e3o maranhense j\u00e1 havia seguido para Teres\u00f3polis, deixando para tr\u00e1s, desfalcado de qualquer sinaliza\u00e7\u00e3o de como prosseguir, aquele que foi o seu maior incentivador. Ocorre que, sem que ele mesmo percebesse, seu destino final, seu porto de ancoragem terminante era mesmo o Rio de Janeiro. J\u00e1 estava tra\u00e7ado. N\u00e3o dependeu de sua vontade. Aquela perman\u00eancia que seria transit\u00f3ria, na defesa de uma vis\u00e3o larga acerca das transforma\u00e7\u00f5es que come\u00e7avam a se operar no Brasil, conforme consta da carta enviada a Alfredo Benna, e que iria defender em Teres\u00f3polis para depois regressar \u00e0 prov\u00edncia, de repente converteu-\u00adse em mudan\u00e7a radical de sua vida presente e futura.<\/p>\n<p>Na capital da Rep\u00fablica, enquanto aguardava a ocasi\u00e3o de um emprego duradouro ou constante, aplicou seus conhecimentos de poliglota, efetuando tradu\u00e7\u00f5es principalmente das novelas policiais muito em voga, a exemplo de X\u00ad9, Meia\u00ad-Noite e cong\u00eaneres. O dom\u00ednio perfeito de v\u00e1rios idiomas propiciou-\u00adlhe o ganha\u00ad-p\u00e3o do dia \u00ada\u00addia, al\u00e9m de que o credenciou perante editoras e ag\u00eancias de noticias, havendo prestado servi\u00e7o \u00e0s mais prestigiosas de ent\u00e3o, como a United Press, a Associated Press, a France Press, a Reuters e similares. Assim, por muitos anos Ignacio Rangel \u2013 e pouca gente sabe disso \u2013 foi, na pr\u00e1tica, o redator do Rep\u00f3rter Esso, levado ao ar, naquela \u00e9poca, por Heron Domingues. O fato de manusear e verter para a l\u00edngua p\u00e1tria todos os textos que for\u00e7osamente ca\u00edam-\u00adlhe \u00e0s m\u00e3os, dava-\u00adlhe a condi\u00e7\u00e3o excepcional de cientificar\u00ad-se, antes de ningu\u00e9m, dos epis\u00f3dios e dos coment\u00e1rios sobre todos os assuntos, do mundo inteiro. \u00c0 empresa, jornal ou r\u00e1dio, cabia efetuar a triagem, liberando apenas o conveniente. Por\u00e9m ele, Rangel, por for\u00e7a do of\u00edcio, tudo apreciava, beneficiando\u00ad-se das informa\u00e7\u00f5es em geral, tanto das que iam a p\u00fablico como das censuradas. Esta circunst\u00e2ncia lhe permitia um ju\u00edzo melhor dos reflexos que os in\u00fameros incidentes sobrevindos poderiam produzir no Brasil e nos demais pa\u00edses circunscritos aos respectivos reflexos. Inteligentemente, valia\u00ad-se desse privil\u00e9gio para externar, quando pass\u00edvel, atrav\u00e9s de artigos que conseguia publicar, seu ponto de vista, \u00e0s vezes em discord\u00e2ncia com o dominante, mas t\u00e3o bem elaborado, que pouco falhava. Da\u00ed o apelido de O Profeta que recebeu de colegas e companheiros mais chegados.<\/p>\n<p>Homem destemeroso quanto \u00e0 aspira\u00e7\u00e3o de tornar realidade seus sonhos, Ignacio Rangel conciliou os deveres assumidos com a dedica\u00e7\u00e3o ao estudo e \u00e0 leitura sobre Economia e Hist\u00f3ria, duas ci\u00eancias que entendeu serem afins ou complementares. Desse modo, didaticamente dividia o tempo dispon\u00edvel, reservando ainda parte dele para come\u00e7ar a sistematizar suas ideias, grafando-\u00adas no papel com a maior frequ\u00eancia poss\u00edvel. Escrevia o m\u00e1ximo que podia com esse objetivo, e guardava. At\u00e9 que, por volta de 1947, chega a sua casa o amigo fraterno Gilberto Paim e o flagra na faina habitual de sua intimidade, redigindo mais um artigo, do qual ele era, ao mesmo tempo, autor e \u00fanico leitor. Passando os olhos sobre o material, Paim carregou consigo, depois de selecionar, cinco textos. Semanas depois regressou com dois mil e quinhentos cruzeiros, fruto da venda que efetuara, \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro, dos aludidos trabalhos. Foi o primeiro dinheiro que ganhou, como economista, sem s\u00ea\u00adlo ainda, de direito.<\/p>\n<p>Bem a prop\u00f3sito dessa personalidade que gozou da familiaridade do autor de <em>A infla\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>, chegou \u00e0s minhas m\u00e3os um trabalho do mesmo Gilberto Paim, apresentado no I Simp\u00f3sio Nacional, denominado <em>O pensamento de Ignacio Rangel<\/em>, realizado em Florian\u00f3polis, sob patroc\u00ednio da Universidade Federal de Santa Catarina, no per\u00edodo de 15 a 17 de agosto passado. Por absoluta falta de informa\u00e7\u00e3o acerca do evento, a ele n\u00e3o me fiz presente, pois meu desejo, e at\u00e9 mesmo minha obriga\u00e7\u00e3o, seria estar ali, para escutar, aprender e agora poder transmitir\u00ad-vos melhor sobre a trajet\u00f3ria desse homem que, mais destacadamente no campo da economia brasileira, como raros, engrandeceu e honrou tanto o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>A biografia de Ignacio de Mour\u00e3o Rangel \u00e9 longa em todos os aspectos. Para entend\u00ea-\u00adla de modo perfeito, n\u00e3o basta somente o relato de sua vida como cidad\u00e3o. Obviamente de id\u00eantica valia \u00e9 a obra que nos legou, atrav\u00e9s de livros, monografias, apontamentos, ensaios, artigos e palestras, de excelente qualidade e em n\u00famero expressivo. Aqui \u00e9 onde verdadeiramente pode ser encontrado todo o pensamento do economista, do escritor, do pol\u00edtico, do historiador, do conferencista e do mestre que se fez respeitado e acolhido por quantos tiveram o privil\u00e9gio de conhec\u00ea-\u00adlo. Impossibilitado de referir a toda a sua produ\u00e7\u00e3o intelectual, torna\u00ad-se imperativo mencionar pelo menos dois t\u00edtulos cl\u00e1ssicos de sua autoria: <em>A dualidade b\u00e1sica da economia brasileira<\/em> e <em>A infla\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>. Empregando vocabul\u00e1rio singelo, dentro das minhas limita\u00e7\u00f5es, e seguindo os seus pr\u00f3prios passos, ao tornar acess\u00edvel aos leigos o conte\u00fado de suas teses, atrav\u00e9s de uma linguagem simples, \u00e0 margem das express\u00f5es t\u00e9cnicas, permito\u00ad-me, assim, efetuar discreto arrazoado acerca das obras referenciadas.<\/p>\n<p><em>A dualidade b\u00e1sica da economia brasileira<\/em>, livro editado em<\/p>\n<p>1957, \u00e9 uma tese de hist\u00f3ria econ\u00f4mica e pol\u00edtica do Brasil. Trata-\u00adse do principal elemento organizador do pensamento de Ignacio Rangel. Corresponde a uma original adapta\u00e7\u00e3o do materialismo hist\u00f3rico e da teoria econ\u00f4mica para an\u00e1lise do caso brasileiro. Sem entend\u00ea\u00ad-la \u00e9 imposs\u00edvel captar os fundamentos b\u00e1sicos das interpreta\u00e7\u00f5es do autor sobre os demais temas de que se ocupou, ou seja, o processo de industrializa\u00e7\u00e3o, o surgimento de crises, o planejamento, a quest\u00e3o agr\u00e1ria, a infla\u00e7\u00e3o e, finalmente, a problem\u00e1tica global da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Nela est\u00e1 presente e salientada a investiga\u00e7\u00e3o das nossas peculiaridades. E \u00e9 o pr\u00f3prio Rangel, \u00e0 guisa de pref\u00e1cio, inserto no comp\u00eandio, que explica:<em>meus estudos levaram-me \u00e0 conclus\u00e3o de que nossa peculiaridade por excel\u00eancia \u00e9 a dualidade, no sentido que atribuo a esse termo, isto \u00e9, o fato de que todos os nossos\u00a0institutos, todas as nossas categorias. \u2013 o latif\u00fandio, a ind\u00fastria, o comercio, o capital, o trabalho e nossa pr\u00f3pria economia nacional \u2013 s\u00e3o mistas, t\u00eam dupla natureza, e se nos afiguram coisas diversas, se vistas do interior ou do exterior, respectivamente. E continua:<\/em><\/p>\n<p><em>A tarefa consiste em examinar, na pr\u00f3pria vida, como esses aspectos reagem um sobre o outro; como essas constru\u00e7\u00f5es d\u00faplices se comportam umas frente \u00e0s outras no complexo que \u00e9 a economia nacional; e como esta se comporta em suas rela\u00e7\u00f5es igualmente d\u00faplices com o estrangeiro, pois confrontam forma\u00e7\u00f5es heteron\u00f4micas.<\/em><\/p>\n<p>A proposta, em face de tais premissas levantadas, \u00e9 determinar as leis desse procedimento ou dessa conduta, segundo afirma o not\u00e1vel economista.<\/p>\n<p><em>A infla\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>, o trabalho mais divulgado de Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, editado inicialmente em 1963, j\u00e1 alcan\u00e7ou numerosas reedi\u00e7\u00f5es. Embora voltada para um determinado momento hist\u00f3rico, a obra transcende seu car\u00e1ter de ocasi\u00e3o, e adquire forma e conte\u00fado de uma teoria, pelo seu elevado grau de universalidade. N\u00e3o obstante, o diagn\u00f3stico da infla\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 relacionado com a estrutura de distribui\u00e7\u00e3o de renda e, portanto, revela\u00ad-se em uma infla\u00e7\u00e3o de custos ou administrada e n\u00e3o de demanda. De forma pioneira, ao alicer\u00e7ar seu firme ide\u00e1rio, claramente utiliza e integra os conceitos de macroeconomia keynesiana e marxista, ao ligar a taxa de explora\u00e7\u00e3o com a rela\u00e7\u00e3o investimento-consumo, ou, em outras palavras, ao demonstrar que o consumo depende de sal\u00e1rios e o investimento de lucro. E prossegue o te\u00f3rico, em sua explana\u00e7\u00e3o, at\u00e9, finalmente, oferecer diretrizes com vistas ao controle do processo inflacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos Confrades, senhoras e senhores, sem querer,\u00a0por\u00e9m movido pelo entusiasmo derivado de um tema t\u00e3o atual como a infla\u00e7\u00e3o, j\u00e1 me ia desviando da sequ\u00eancia que venho procurando imprimir nesta breve homenagem que presto ao meu antecessor na Cadeira 26, desta Academia. Militou ele no Partido Comunista durante dezesseis anos, isto \u00e9, de 1931 a 1947. Na C\u00e9lula Theodore Dreiser, que se reunia na avenida Rio Branco n\u00ba. 275, no Rio de Janeiro, debateu amplamente a adapta\u00e7\u00e3o das doutrinas marxistas \u00e0 realidade brasileira. Jamais imaginou necess\u00e1ria a tomada do poder pela classe oper\u00e1ria, como condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel ao progresso de nosso pa\u00eds. A expropria\u00e7\u00e3o da terra e sua distribui\u00e7\u00e3o aos trabalhadores rurais eram o lema principal do Partido e um dos instrumentos preferenciais da agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. De seu lado, acreditava Rangel que a transforma\u00e7\u00e3o da economia brasileira, predominantemente agr\u00e1ria, em economia industrial, poderia ser conduzida pelo Estado. Em outras palavras, entendia ser poss\u00edvel a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira sem execu\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, ponto de vista traduzido em agress\u00e3o desmedida aos consagrados preceitos pelo partido Comunista Sovi\u00e9tico aos partidos \u201cirm\u00e3os\u201d do mundo subdesenvolvido. Aos poucos, o espa\u00e7o de Rangel foi-\u00adse estreitando, em raz\u00e3o das teses her\u00e9ticas que defendia e na recusa em acatar ordens superiores no sentido de retornar a S\u00e3o Lu\u00eds, onde deveria permanecer como funcion\u00e1rio do Partido, obediente \u00e0 sua dire\u00e7\u00e3o nacional. N\u00e3o lhe restou outra alternativa, a n\u00e3o ser o desligamento, sem que este fato significasse a abomina\u00e7\u00e3o aos ensinamentos de Marx.<\/p>\n<p>Por causa de um projeto de industrializa\u00e7\u00e3o do baba\u00e7u, atrav\u00e9s de R\u00f4mulo de Almeida, com quem fez amizade, foi convidado para trabalhar no governo Vargas. A princ\u00edpio recusou o convite, afirmando, francamente, ao amigo: \u201cn\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel, eu fa\u00e7o oposi\u00e7\u00e3o ao presidente h\u00e1 quase vinte anos\u201d. Mas Get\u00falio insistiu e na entrevista que tiveram, disse-\u00adlhe o chefe da na\u00e7\u00e3o: \u201cDr. Rangel, eu conhe\u00e7o seu curr\u00edculo, n\u00e3o o chamei por engano, mas porque quero ter comigo pessoas que tenham coragem de dizer que estou errado, e o senhor \u00e9 um destes homens\u201d. Diante de argumentos t\u00e3o convincentes, restou-\u00adlhe apenas desligar\u00ad-se da United Press, a que se achava vinculado, e integrar o governo Vargas, havendo escrito as quatro leis da Eletrobr\u00e1s e colaborado na cria\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s.<\/p>\n<p>Conta\u00ad-nos Gilberto Paim que, quando Juscelino Kubitschek de Oliveira chegou \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Rangel j\u00e1 pertencia ao quadro do ent\u00e3o Bnde, como chefe do Departamento Econ\u00f4mico, passando a exercer papel relevante na elabora\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o do Plano de Metas, circunst\u00e2ncia que se lhe ofereceu para colocar em pr\u00e1tica sua tese da imprescindibilidade do Estado na condu\u00e7\u00e3o do processo de industrializa\u00e7\u00e3o. O seu ingresso no Banco dera\u00ad-se por concurso, n\u00e3o obstante antes, em car\u00e1ter de interinidade, ter iniciado, naquele estabelecimento de cr\u00e9dito, suas atividades. E logo fora convidado, por recomenda\u00e7\u00e3o do presidente Vargas, para especializar\u00ad-se em planejamento, na Cepal \u2013 Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina, em Santiago do Chile. Ao tomar contato com a programa\u00e7\u00e3o do curso, viu que aquilo pouco ou nada adiantava em n\u00edvel de aproveitamento \u00e0 realidade brasileira. Com a autenticidade que lhe era pr\u00f3pria, logo protestou: \u201cVim de um pa\u00eds que tem outros problemas. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade alguma de se planejar a economia brasileira com esse crit\u00e9rio, pois o Brasil precisa \u00e9 de quem saiba fazer projetos\u201d. Tal conduta gerou uma luta, uma rebeli\u00e3o contra a orienta\u00e7\u00e3o oficial. E acrescenta o autor de <em>Ciclo, tecnologia e crescimento<\/em>: \u201cMas eles acabaram achando que eu tinha raz\u00e3o e fizeram uma revis\u00e3o, um curso especial para an\u00e1lises de projetos, que serviu de base para todos os cursos da CEPAL que vieram depois em toda a Am\u00e9rica Latina\u201d. Estava ainda na capital chilena quando do suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas e sobre esta figura quase m\u00edtica da hist\u00f3ria nacional, assim se referiu:<\/p>\n<p><em>Sinto-me na obriga\u00e7\u00e3o de dizer que durante muitos anos trabalhei para o presidente, mas era um opositor. O meu neogetulismo come\u00e7a hoje, porque eu fui getulista em 1930, quando ele foi meu comandante, mas isso faz muito tempo; depois estive contra, fui preso etc., e agora eu come\u00e7o a perceber o getulismo, porque seu suic\u00eddio significava que ele levava a s\u00e9rio aquilo que me mandava fazer. Portanto, eu levo a s\u00e9rio, eu agora me declaro getulista, e podem ter certeza de que milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o, neste momento, tomando a mesma decis\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Vale a pena recordar um incidente relacionado com o ingresso de Ignacio Rangel no Bnde, segundo tamb\u00e9m nos assevera Paim. No momento de sua admiss\u00e3o efetiva, ap\u00f3s ter prestado exame de provas, o ent\u00e3o superintendente Roberto Campos recebeu do Dops a ficha do empossando, qualificando-\u00ado de comunista e inimigo da ordem social. Imediatamente o memorialista de <em>A lanterna na popa<\/em> d\u00e1 um despacho segundo o qual opina que n\u00e3o se deve usar contra candidatos inteligentes os crit\u00e9rios policiais de julgamento ideol\u00f3gico das pessoas. Tais crit\u00e9rios, segundo ele, s\u00f3 deveriam ser aplicados a candidatos burros.<\/p>\n<p>Paralelamente \u00e0s suas atividades cotidianas, Ignacio Rangel sobressai\u00ad-se como professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros \u2013 Iseb, rec\u00e9m\u00ad-criado por Juscelino Kubitscheck, atendendo solicita\u00e7\u00f5es de Roland Corbisier e outros t\u00e9cnicos do desenvolvimento econ\u00f4mico brasileiro. Foi exatamente nesse ambiente que ele se agigantou nos lineamentos concebidos sobre a dualidade b\u00e1sica, de que j\u00e1 vos falei. Atrav\u00e9s das aulas que lecionava, o invulgar economista maranhense, j\u00e1 \u00e0quela \u00e9poca pressentia serem a pequena e a m\u00e9dia empresas organismos fecundos para a gera\u00e7\u00e3o de empregos e capacita\u00e7\u00e3o empresarial. \u00c9, no m\u00ednimo curiosa a coincid\u00eancia ocorrida em 1964, no governo Castello Branco, quando foi criado, no pr\u00f3prio Bnde, onde o meu predecessor trabalhava, o Fundo de Financiamento da Pequena e M\u00e9dia Empresa \u2013 Fipeme.<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai toda uma extensa e fecunda produ\u00e7\u00e3o de Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, tesouro objeto de pesquisa e interpreta\u00e7\u00e3o, pois a cada momento mais uma riqueza se descobre da lucidez de seu esp\u00edrito e da sua constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. No af\u00e3 de tudo trazer \u00e0 tona, senhoras e senhores, invadir\u00edamos a noite, como j\u00e1 estamos fazendo, para nos entregar talvez por longos anos, quem sabe pelos mesmos oitenta anos que viveu Rangel, na aprecia\u00e7\u00e3o de uma obra incomum e de um homem excepcional, do qual o Maranh\u00e3o se enobrece em t\u00ea-\u00adlo como filho e que a Casa de Ant\u00f4nio Lobo, em boa hora, porque n\u00e3o dizer, quase na \u00faltima hora, resolveu traz\u00ea-\u00adlo para abrilhantar sua galeria de imortais.<\/p>\n<p>Contudo, perdoai\u00ad-me se mais preciso gastar vosso precioso tempo. Ao assim proceder, cumpro o dever junto a v\u00f3s que me ouvis e perante a posteridade para quem tamb\u00e9m me dirijo, pela pr\u00f3pria natureza desta Casa, de proclamar, entre entusiasmado e emocionado, que Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, por tudo o que foi e realizou, conquistou a posi\u00e7\u00e3o cimeira dentre tantas personalidades com quem conviveu. Ele \u00e9 um facho de luz perene a clarear o horizonte de seus conterr\u00e2neos e compatriotas, em todos os momentos dessa caminhada do Brasil, na busca da felicidade de seu povo. Aos questionamentos da Revolu\u00e7\u00e3o militar de 1964, respondeu-\u00ados, sem exce\u00e7\u00e3o, com garbo, altivez e serenidade, mesmo sentindo fisicamente o cora\u00e7\u00e3o a pregar-\u00adlhe os primeiros abalos a sua sa\u00fade. Vinte e um anos depois, pela reabertura democr\u00e1tica delineada sob os ausp\u00edcios da elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, elaborou e publicou uma Carta Aberta aos Economistas, aos de direita e aos de esquerda, representados, respectivamente, por Roberto Campos e Concei\u00e7\u00e3o Tavares. Nela reitera seus dogmas marxistas, mas coloca-\u00adse acima de preconceitos ideol\u00f3gicos e, usando uma figura de ret\u00f3rica, para resumir seu sentimento, afirma que a na\u00e7\u00e3o, naquele instante, estava necessitando de ambas as suas m\u00e3os, a da direita e a da esquerda. Por isso dirigia-se, em particular, \u00e0queles dois colegas, os mais l\u00eddimos s\u00edmbolos das correntes extremas na milit\u00e2ncia do equacionamento econ\u00f4mico do Brasil. No \u00faltimo par\u00e1grafo do documento, antevendo que desencontros danosos para sociedade poderiam ser de dif\u00edcil reversibilidade, assim se expressa:<\/p>\n<p><em>Embora o nosso velho presidente seja um velho teimoso, teremos que faz\u00ea-lo mudar de ideia. Ainda que seja provando-lhe que, sem o pleno emprego do potencial produtivo j\u00e1 criado, a infla\u00e7\u00e3o se torna fatal.<\/em><\/p>\n<p>E abaixo da assinatura, com data de 22 de mar\u00e7o de 1985, vem um post\u00ad-scriptum.<\/p>\n<p><em>Presidente Tancredo Neves: O Pa\u00eds carece de trabalhar com ambas as suas m\u00e3os que, para os fins que aqui nos ocupam, devem ser as m\u00e3os de V. Exa. Como um s\u00f3 homem, como tamb\u00e9m se diz. A maturidade de que a Na\u00e7\u00e3o fez prova no incidente da investidura do governo de V. Exa. deve ser posta em evid\u00eancia, uma e muitas vezes. E ambas as m\u00e3os ser\u00e3o necess\u00e1rias.<\/em><\/p>\n<p>Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, mesmo acumulando decep\u00e7\u00f5es com o governo Collor e o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, prosseguiu combativo e respeitado, at\u00e9 que, por fim, naquele 4 de mar\u00e7o \u00faltimo, foi acolhido em car\u00e1ter definitivo, na imortalidade, pois a chama perene de sua lucidez, a luz brilhante de seu esp\u00edrito e o tra\u00e7o cont\u00ednuo e retil\u00edneo de seu car\u00e1ter coerente haver\u00e3o de se manter acesos eternamente, tal um farol que, nas noites de lua cheia e c\u00e9u estrelado, ou de escurid\u00e3o e tempestade, com o mar calmo ou revolto, se sustenta eternamente, alumiado, vivo, orientando os viajeiros contra as surpresas e os perigos, a fim de que prossigam,\u00a0seguros, na sua jornada. Os dias, os anos, as d\u00e9cadas e os s\u00e9culos se consumir\u00e3o na incomensurabilidade do tempo, mas ficar\u00e1 imortalizado pelo que fez e como fez ou at\u00e9 mais pelo que explicitamente desejou realizar e n\u00e3o conseguiu, esta personalidade distinta da intelectualidade brasileira a quem sucedo, neste cen\u00e1culo, sob o peso de t\u00e3o grande responsabilidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o conheci pessoalmente, salvo no dia de sua posse nesta Academia, acontecida em 29 de novembro de 1991, o autor de <em>El desarollo econ\u00f3mico en Brasil<\/em>. Assim, sem ter tido o privil\u00e9gio de privar, quando ainda vivo, dessa beleza inteira de homem, experimentei\u00ad-o quando ele, ao abra\u00e7ar a imortalidade, entre choros e saudades dos seus, passou a pertencer a todos n\u00f3s e a mim tamb\u00e9m. Gra\u00e7as a essa excepcionalidade, senhoras e senhores, eu vos posso exibir algo que, em menos de cinco meses, nas oportunidades do meu entrecortado tempo, consegui amealhar, para tamb\u00e9m vos contar do que me foi poss\u00edvel haurir do legado imorredouro de Rangel, que se confunde com ele mesmo. Livros, revistas, artigos, depoimentos, coment\u00e1rios, estudos, planos e projetos transitaram por minhas m\u00e3os e deles as pupilas dos meus olhos transportaram para o meu c\u00e9rebro o inesgot\u00e1vel acervo a que me referi e com o qual, se n\u00e3o criei um elevado grau de intimidade, constitu\u00ed uma enriquecedora aproxima\u00e7\u00e3o com o meu antecessor.<\/p>\n<p>Ainda assim, sem incorrer em exageros ou equ\u00edvocos, mas como resultado dessa aproxima\u00e7\u00e3o, assevero-\u00advos que Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, como pensador independente e original, galgou o reconhecimento un\u00e2nime de ter se tornado um dos mais respeitados int\u00e9rpretes da economia brasileira.<\/p>\n<p>Faltam\u00adme, talvez por isso, palavras para sintetizar o meu aprendizado, raz\u00e3o por que recorro a uma feliz an\u00e1lise do\u00a0festejado economista Raimundo Palhano, publicada na <em>Revista F<\/em><em>ipes<\/em>, edi\u00e7\u00e3o especial dedicada a Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, publicada em 1989. Diz o ilustre professor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, em admir\u00e1vel s\u00edntese:<\/p>\n<p><em>Quem se aproxima de sua obra come\u00e7a a perceber que em Ignacio habitam v\u00e1rios Rang\u00e9is.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 o Rangel int\u00e9rprete da economia brasileira. Seu lado mais conhecido. Dono de uma obra monumental, original e inovadora. H\u00e1 o Rangel pensador. O criador original, o pioneiro. Aquele que vai fundo no seu trabalho intelectual. Que, de repente, se d\u00e1 conta que produziu uma maneira nova de se posicionar no debate. A forma peculiar com a qual trabalha a realidade brasileira atribui-lhe a classifica\u00e7\u00e3o de \u2018pensador independente\u2019. S\u00e3o evid\u00eancias dessa faceta: a tese da dualidade, a teoria da infla\u00e7\u00e3o, e outras.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 o Rangel erudito. Suas an\u00e1lises, quase sempre, v\u00eam recheadas de erudi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, fina ironia, ricas met\u00e1foras, que, em conjunto, imprimem ao seu trabalho uma atraente e fecunda express\u00e3o liter\u00e1ria. H\u00e1 o Rangel militante. Tanto aquele que optou pela milit\u00e2ncia intelectual como forma de atua\u00e7\u00e3o como militante pol\u00edtico, aut\u00eantico e destemido. H\u00e1 ainda o Rangel mission\u00e1rio. O Rangel conselheiro. O Rangel profeta. Nesse particular, ali\u00e1s, ele tem se caracterizado como um analista que se houve sempre bem como antecipador dos desdobramentos hist\u00f3ricos da economia brasileira.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1, tamb\u00e9m, um Rangel muito especial do qual Ignacio se orgulha muito. O Rangel funcion\u00e1rio p\u00fablico. O homem \u00edntegro que n\u00e3o foi seduzido pelas alturas, preferindo semear na plan\u00edcie. O cidad\u00e3o que soube dizer sim quando era para dizer, e disse n\u00e3o, quando foi preciso.<\/em><\/p>\n<p>Igualmente, dentre in\u00fameros outros coment\u00e1rios elogiosos, expendidos pela melhor pl\u00eaiade de economistas nacionais, lamentando o passamento do singular maranhense, chamou-\u00adme a aten\u00e7\u00e3o o de Maria do Ros\u00e1rio Rodrigues Pizzo:<\/p>\n<p><em>Tenho que falar de Rangel como economista, professor, mas tamb\u00e9m como pai, pois ele dizia sempre que eu era sua filha. Nesta condi\u00e7\u00e3o, o que me deixou foram as lembran\u00e7as do Maranh\u00e3o, de sua vida revolucion\u00e1ria, dos anos de pris\u00e3o, de uma riqu\u00edssima vida profissional, do seu amor pela poesia. Me encantava a sua paix\u00e3o pela sua mulher Aliete.<\/em><\/p>\n<p>Com este \u00faltimo depoimento, senhoras e senhores, depois de vos haver longamente ocupado, pe\u00e7o desculpas pela minha insist\u00eancia, em ter de prender\u00ad-vos por mais alguns minutos, para que eu possa concluir a homenagem que me cumpre e me deleita prestar ao homem que foi buscar nos versos dos poemas e dos sonetos o b\u00e1lsamo para aliviar suas inquieta\u00e7\u00f5es. Ao homem que amou apaixonadamente sua mulher, desde os tempos de namoro quando, postado na rua do Sol, esquina com a do Egito, em frente \u00e0 farm\u00e1cia Sanit\u00e1ria, mantinha-\u00adse atento \u00e0 professora normalista, funcion\u00e1ria do Departamento de Estat\u00edstica, que quotidianamente passava para o trabalho, no pr\u00e9dio onde \u00e9 hoje o Tribunal de Contas do Estado. Esta extraordin\u00e1ria mulher, que conheci j\u00e1 solit\u00e1ria em seu apartamento do Rio de Janeiro, foi quem lhe deu \u00e2nimo, for\u00e7as e motiva\u00e7\u00e3o, inclusive influindo decisivamente para que ele, no Rio de Janeiro, desse sequ\u00eancia ao curso de Direito, interrompido em S\u00e3o Lu\u00eds, ocasi\u00e3o em que se bacharelou com a tese Penitenci\u00e1ria e Mulheres de Bangu. Casaram-\u00adse na Igreja de Santana, desta capital, e assim permaneceram durante cinquenta e tr\u00eas curtos anos, no aconchego e no carinho, ao lado dos filhos Lucas, Ludmila e Alberto. Sempre solid\u00e1ria ao marido, nos momentos mais dif\u00edceis, ajudava-\u00ado em seu mister, mesmo em casa, e administrava o lar e geria as finan\u00e7as da fam\u00edlia. Com a infla\u00e7\u00e3o ainda alta, quando do banco onde depositavam suas economias, telefonavam para receber orienta\u00e7\u00e3o sobre aplica\u00e7\u00e3o dos recursos, ele respondia: minha mulher n\u00e3o est\u00e1, \u00e9 ela quem resolve. E Rangel, o eterno apaixonado pela companheira que foi sempre a outra banda do seu ser, costumava dizer\u00ad-lhe, repetidamente, anos ap\u00f3s anos, e reafirmando os galanteios dos tempos de namoro: \u201ceu ainda vou casar com essa dona\u201d. Casar de novo, queria dizer, casar a cada momento, a cada instante com ela, com Aliete, que me honra com sua presen\u00e7a nesta noite, seu encanto e sua musa inspiradora. Inspiradora tamb\u00e9m das in\u00fameras poesias que escreveu, muitas a ela dirigidas, no gesto de renova\u00e7\u00e3o constante de seu amor eterno.<\/p>\n<p>Surpreendeu\u00ad-me, confesso\u00ad-vos, esta outra faceta de Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, que pude constatar pessoalmente, ao analisar a composi\u00e7\u00e3o de sua biblioteca e ali, escutando dona Aliete contar-\u00adme do prazer que ele tinha de ouvir m\u00fasicas cl\u00e1ssicas e c\u00e2nticos gregorianos, quando estava escrevendo, deparei\u00ad-me com uma cole\u00e7\u00e3o de livros de poesias de autores como Fagundes Varela, Gon\u00e7alves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Baudelaire, Verlaine, Mallarm\u00e9 e tantos outros que n\u00e3o consegui reter na mem\u00f3ria. E a\u00ed tomei conhecimento de que por horas a fio ele se perdia na leitura e na aprecia\u00e7\u00e3o desse outro g\u00eanero liter\u00e1rio, com o qual durante a vida inteira alimentou o esp\u00edrito, propiciando-\u00adlhe a leveza refletida no seu semblante de paz.<\/p>\n<p>Senhor M\u00e1rio Meireles, pe\u00e7o desculpas se n\u00e3o consegui desincumbir\u00ad-me, a contento, do vosso aconselhamento, naquele fim de tarde, de que deveria, nesta oportunidade, fazer resplandecer, com o brilho mais forte que o das luzes que clareiam e engalanam esta solenidade, a estrela de primeira grandeza que foi e continua sendo Ignacio de Mour\u00e3o Rangel.<\/p>\n<p>Senhores acad\u00eamicos, desejo testemunhar o meu incontido orgulho de pertencer a este cen\u00e1culo. Contrariando a tradi\u00e7\u00e3o desta terra, nunca fui poeta, nem quando o ardor juvenil impulsionava minhas emo\u00e7\u00f5es. Chego com minha\u00a0prosa simples e despretensiosa, para ser enriquecida em vosso conv\u00edvio. Mas chego, tamb\u00e9m, com as minhas duas m\u00e3os, a direita e a esquerda, parafraseando o imortal Ignacio de Mour\u00e3o Rangel, para juntar \u00e0s vossas, na obra permanente e imorredoura de preserva\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da cultura maranhense.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores, obrigado por terdes vindo. Obrigado pela paci\u00eancia com que me escutastes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em Viana-MA, a 5 de dezembro de 1939. 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