{"id":388,"date":"2014-03-12T11:37:01","date_gmt":"2014-03-12T11:37:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=388"},"modified":"2014-09-21T22:56:42","modified_gmt":"2014-09-21T22:56:42","slug":"sonia-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/sonia-almeida\/","title":{"rendered":"S\u00f4nia Almeida"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds a 29 de mar\u00e7o de 1956. Filha de Josely Pires Pereira e Carmelinda Corr\u00eaa Pereira. Foi aluna do Col\u00e9gio Santa Teresa, nas irm\u00e3s Dorot\u00e9ias, onde fez os antigos prim\u00e1rio e gin\u00e1sio.<\/p>\n<p>\u00c9 graduada em Letras pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o &#8211; UFMA, especialista em Semiologia Aplicada ao Ensino de L\u00edngua e Literatura, pela UFMA\/Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ), mestra em Educa\u00e7\u00e3o pela UFMA e doutora pela Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP. Na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP, pesquisadora do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, na \u00e1rea de Linguagem e Educa\u00e7\u00e3o. Sua \u00e1rea de interesse \u00e9 o texto escrito.<\/p>\n<p>Em 1989, deu in\u00edcio a reflex\u00f5es sistem\u00e1ticas sobre a necessidade do ler\/co-produzir. Da\u00ed nasceu o N\u00facleo de Leitura e Produ\u00e7\u00e3o Textual, da UFMA. A partir de 1992, come\u00e7ou a desenvolver um trabalho, principalmente com alunos do Ensino M\u00e9dio, nesse \u00e2mbito. Tem constru\u00eddo uma hist\u00f3ria na forma\u00e7\u00e3o de professores de l\u00edngua portuguesa no Maranh\u00e3o, ministrando disciplinas pelo PROEB em Itapecuru, Arari, Vit\u00f3ria do Mearim, Santa Luzia<em>, <\/em>do Tide, Buriticupu, Vargem Grande, Alto Alegre do Pindar\u00e9, Pinheiro e S\u00e3o Bento. De Seus trabalhos de leitura nasceu a obra: <em>Tribuzi, Bandeira po\u00e9tica de S\u00e3o Lu\u00eds <\/em>(1996) e <em>Aula de reda\u00e7\u00e3o: uma perspectiva transdisciplinar <\/em>(2003).<\/p>\n<p>Exercendo sua profiss\u00e3o de professora, Sonia Almeida se tornou leitora e, seguindo a indica\u00e7\u00e3o de obras para o exame vestibular, leu para seus alunos uma centena de obras nos \u00faltimos 15 anos, tendo, com isso, a oportunidade de refletir sobre a vida sob a \u00f3tica de muitos autores da literatura maranhense, brasileira e portuguesa: Jo\u00e3o Francisco Lisboa, Ant\u00f4nio Vieira, Sous\u00e2ndrade, Alu\u00edsio Azevedo, Artur Azevedo, Ferreira Gullar, Josu\u00e9 Montello, Jos\u00e9 Chagas, Nauro Machado, Jos\u00e9 Sarney, Concei\u00e7\u00e3o Aboud, Machado de Assis, Cruz e Souza, Marina Colasanti, Lygia Bojunga Nunes, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Jos\u00e9 Saramago, E\u00e7a de Queir\u00f3s, entre outros.<\/p>\n<p>Lendo, acabou produzindo a sua obra po\u00e9tica onde deixa bem claro que escrever \u00e9 inscrever atos de leitura. Basta ver o poema (R) Defer\u00eancia que inicia o poema metalinguagem em sua obra Penumbra, publicada em 1998.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\"><strong>Obra po\u00e9tica<\/strong>:<\/p>\n<ul>\n<li><em>Alegorias (<\/em>1992);<\/li>\n<li><em>Penumbra <\/em>(1998);<\/li>\n<li><em>Palavra cadente <\/em>(2001);<\/li>\n<li><em>H\u00e1 fogo no jogo <\/em>(2003)<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Sr. Presidente da Academia Maranhense de Letras, dr. Joaquim Itapary,<br \/>\nIlustre Acad\u00eamico Jomar Moraes que, gentilmente, aceitou o convite para me receber nesta Casa de Ant\u00f4nio Lobo,<\/p>\n<p>Queridas Confreiras e Confrades,<br \/>\nAutoridades aqui presentes,<br \/>\nCaros Professores,<br \/>\nQueridos Alunos,<br \/>\nMeus Amigos,<br \/>\nMinha Fam\u00edlia,<br \/>\nMeus Filhos,<br \/>\nMinha Neta Beatriz (Ela s\u00f3 tem quatro meses, mas, no dia que for dado a ela ler este discurso, eu quero que ela saiba que eu tamb\u00e9m me dirijo a ela neste momento):<\/p>\n<p>Desafiar esta ilha feita de papel talvez seja descobrir que qualquer solid\u00e3o \u00e9 ilus\u00f3ria: os fatos podem ocorrer sem que aconte\u00e7am. Podem acontecer sem que nos ocorram. Podem permanecer quando parecem ter ido. Ocorrem se nos ocorrem e, por isso, muitas vezes somos traidores em nome da mem\u00f3ria e nos dizemos tra\u00eddos por ela. Dizemos que a mem\u00f3ria se faz dos fatos acontecidos em sua real dimens\u00e3o. Mas sempre a en\u00adfeitamos com as nossas inven\u00e7\u00f5es. \u00c9 que, muitas vezes, quer\u00edamos ver e acabamos por crer que vimos. E, por termos pensado ter visto, cremos t\u00ea-\u00adlos vivido.<\/p>\n<p>Mas a ilha \u00e9 uma ilus\u00e3o, sobretudo agora que a chamo p\u00e1gina. Nela, n\u00e3o consigo desembarcar vazia. As hist\u00f3rias est\u00e3o aqui dentro em inevit\u00e1vel desordem. Chamo as palavras para ordenar o que realmente aconteceu. O que ocorreu sem ter acontecido. O que \u00e9 mem\u00f3ria. O que \u00e9 inven\u00e7\u00e3o. Mas o que encontro agora \u00e9 o limiar. O limite. O tr\u00e2nsito da mentirosa ordem \u00e0 verdadeira desordem. Ilus\u00f3ria ordem da hist\u00f3ria. A vertigem da linguagem.<\/p>\n<p>Penso que cheguei, mas tenho que voltar. \u00c0 Ponta da Ilha. A um passado que hoje reconhe\u00e7o como pequenos presentes perdidos \u2014 roubados pelo tempo. E revejo o come\u00e7o de uma hist\u00f3ria que aprendi a tecer no fio da palha. Lembran\u00e7a das lembran\u00e7as de Alzira. Talvez pudesse inventar que fosse um chap\u00e9u, um telhado ou uma cobertura. N\u00e3o me lembro. Mas sei que teci. Neste caso, prefiro permanecer na abstra\u00e7\u00e3o da coisa em si que chamo qualquer caminho, met\u00e1fora da vida \u2014 esta que nos faz voltar ao ponto da ponta. Essa volta me faz ousar desconstruir uma trilha que, em si, j\u00e1 \u00e9 m\u00faltipla. E m\u00e1gica. \u00c9 que as hist\u00f3rias v\u00e3o se compondo de um tom de encantamento, na medida em que invadem os universos do insond\u00e1vel e, por isso, convidam a imaginar.<\/p>\n<p>Demarco as determina\u00e7\u00f5es que constituem este instante. H\u00e1 a Academia Maranhense de Letras fundada h\u00e1 quase um s\u00e9culo. H\u00e1 esta Casa de Ant\u00f4nio Lobo. Diante dela, pensamentos que se cruzam, pensadores que por aqui permanecer\u00e3o passando. A fascinante ideia da imortalidade. Um tom do universo imagin\u00e1rio de um ambiente que se chama livro. A sensa\u00e7\u00e3o de perseguir o in\u00e9dito trazido pela leitura. Talvez o mist\u00e9rio das bibliotecas, onde sempre nos falta algo que nos satisfa\u00e7a nas obras completas. Insatisfa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o nos trazerem a resposta que tanto buscamos para a pergunta que nem nos fizemos. H\u00e1 muitas ideias prontas e a serem feitas; muitas sensa\u00e7\u00f5es despertadas. H\u00e1 o que move. H\u00e1 hist\u00f3rias. Mem\u00f3rias minadas de necess\u00e1ria inven\u00e7\u00e3o. H\u00e1 a inven\u00e7\u00e3o que mistura conhecimento com entendimento; sapi\u00eancia com sabedoria, intelig\u00eancia com vis\u00e3o, descobrimento com revela\u00e7\u00e3o. Talvez por isso dois olhares a constituam em tons de Casa e de Academia. Dois tons, dois discursos fundadores, dois planos fabricados da desordem necess\u00e1ria que \u00e9 viver.<\/p>\n<p>A Academia Maranhense de Letras foi fundada nesta data, h\u00e1 98 anos. Ela se constitui de quarenta membros efetivos e de outros vinte membros correspondentes.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, s\u00f3 no que se refere aos efetivos, sem levar em conta as sucess\u00f5es ocorridas ao longo desses quase cem anos, quarenta hist\u00f3rias feitas de hist\u00f3rias lidas, lembradas e inventadas; feitas e refeitas; rascunhadas e passadas a limpo, por\u00e9m, em qualquer das dimens\u00f5es: vividas. Quarenta hist\u00f3rias que j\u00e1 se alternaram sem se substitu\u00edrem. Cadeiras de honra.<\/p>\n<p>Impregnada de todos esses tons, \u00e9 de n\u00famero vinte a Cadeira de que tomo posse neste momento. Ela re\u00fane do contexto maior o que h\u00e1 de Casa e de Academia. Ela separa tamb\u00e9m o que a faz ser, em sua particularidade, refer\u00eancia eterna a Trajano Galv\u00e3o, a Barros e Vasconcelos e a Concei\u00e7\u00e3o Aboud.<\/p>\n<p>Este fio particular que ora se imp\u00f5e recupera primeiramente Trajano Galv\u00e3o \u2014 o patrono. Filho de Francisco Joaquim de Carvalho e d. Louren\u00e7a Virg\u00ednia Galv\u00e3o, Trajano Galv\u00e3o nasceu a 19 de Janeiro de 1830, em Barcelo, \u00e0s margens do Mea rim. Passou a inf\u00e2ncia em Cachoeira Grande, perto de Cod\u00f3, criado por tios paternos, pois, logo ap\u00f3s seu nascimento, ficou \u00f3rf\u00e3o de pai. Depois disso, d. Louren\u00e7a casou\u00ad-se com o negociante portugu\u00eas Ant\u00f4nio Joaquim de Ara\u00fajo Guima\u00adr\u00e3es. Foram morar em Lisboa e de l\u00e1 mandaram busc\u00e1-\u00adlo para estudar. Trajano Galv\u00e3o voltou ao Brasil, come\u00e7ou a estudar Direito em Olinda. Interrompeu o curso, voltou ao Maranh\u00e3o, retirando-\u00adse para o Alto Mearim, onde seus tios tinham passado a residir.<\/p>\n<p>Quase obrigado por seu primo Raimundo Carvalho, voltou a Pernambuco, formou-\u00adse em Direito, mas n\u00e3o esperou o tempo de trabalhar: retirou-\u00adse novamente para o Alto Mearim, onde se casou com a prima Maria Gertrudes de Carvalho com quem teve duas filhas. Por l\u00e1 ficou, voltou a S\u00e3o Lu\u00eds por problemas de sa\u00fade, per\u00edodo em que ainda ensaiou ser professor. Retirou-\u00adse ainda uma vez para a vida r\u00fastica que escolhera para si. Era simples, despretensioso, sem ambi\u00e7\u00e3o. Gostava de viver na obscuridade e no anonimato.<\/p>\n<p>Trajano Galv\u00e3o teve a sabedoria de conciliar todo o gosto liter\u00e1rio \u00e0 vida rude daquele lugar, o Alto Mearim. Quase tudo do que escreveu encontra-\u00adse na cole\u00e7\u00e3o que tem por t\u00edtulo <em>As tr\u00eas liras<\/em>, volume publicado em 1863 por Belarmino de Matos.<\/p>\n<p>O seu estilo era revelador daquela alma simples que amava viver retirado. Uma simplicidade que n\u00e3o se descuidava de uma forma apurada pela m\u00e9trica de seus versos. O negro escravizado que fugia aos maus tratos inspirou versos de Trajano Galv\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Nasci livre, fizeram-me escravo,<br \/>\nFui escravo, mas livre me fiz.<br \/>\n<\/em><em>Negro sim; mas o pulso do bravo<br \/>\n<\/em><em>N\u00e3o se amolda \u00e0s algemas servis!<br \/>\n<\/em><em>Negra a pele, mas o sangue no peito,<br \/>\nComo o mar em tormentas desfeito,<br \/>\nFerve, estua, referve em cach\u00f5es!<\/em><\/p>\n<p><em>Negro, sim; mas \u00e9 forte o meu bra\u00e7o<br \/>\n<\/em><em>Negros p\u00e9s, mas que vencem o espa\u00e7o,<br \/>\nAssolando quais negros tuf\u00f5es!<br \/>\n<\/em><em>Negro o corpo, afinou-se minh\u2019alma<br \/>\n<\/em><em>No sofrer, como ao fogo o<br \/>\ntambor; Mas altiva reergue-se a<br \/>\npalma Com o peso, assim eu com<br \/>\na dor!<br \/>\n<\/em><em>Com a l\u00edngua recolhe pascendo<br \/>\n<\/em><em>Tamandu\u00e1, de formigas fervendo,<br \/>\n<\/em><em>Tal de a\u00e7oites cingiram-me os rins;<br \/>\n<\/em><em>E eu bramia qual on\u00e7a enraivada,<br \/>\nQue esbraveja, que brame acuada<br \/>\nEm um circo de leves mastins.<\/em><\/p>\n<p>Deste canto pulsam dores, outros cantos e outros tempos. Sons e sentidos despertam a mem\u00f3ria nas lembran\u00e7as da menina. Volto ao Teatro Artur Azevedo, nos meus tempos de Col\u00e9gio Santa Teresa e ou\u00e7o\u00ad-me a dizer: \u2014 De Castro Alves, O Navio Negreiro: \u201cEra um sonho dantesco&#8230; O tombadilho\/ Que das luzernas avermelha o brilho,\/ em sangue a se banhar.\/ Tinir de ferros&#8230; estalar de a\u00e7oite&#8230;\/ Legi\u00f5es de homens negros como a noite\/ horrendos a dan\u00e7ar&#8230; [&#8230;]\/ E ri\u00ad-se a orquestra ir\u00f4nica estridente&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Inspiraram tamb\u00e9m os poemas de Trajano Galv\u00e3o as mulheres negras. Tanto que traduzem a voz sensual feminina que nem a escravid\u00e3o seria capaz de sufocar. Do poema A Crioula s\u00e3o estes os versos:<\/p>\n<p><em>Ao tambor, quando saio da pinha<br \/>\n<\/em><em>Das cativas, e dan\u00e7o gentil,<br \/>\nSou senhora, sou alta rainha,<br \/>\n<\/em><em>N\u00e3o cativa, de escravos a mil!<\/em><\/p>\n<p><em>Com requebros a todos assombro<\/em><br \/>\n<em>Voam len\u00e7os, ocultam-me o ombro,<\/em><br \/>\n<em>Entre palmas, aplausos, furor!&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Mas, se algu\u00e9m ousa dar-me uma punga,<\/em><br \/>\n<em>O feitor de ci\u00fames resmunga,<\/em><br \/>\n<em>Pega a taca, desmancha o tambor!<\/em><br \/>\n<em>Na Quaresma meu seio \u00e9 s\u00f3 rendas<\/em><br \/>\n<em>Quando vou-me fazer confiss\u00e3o;<\/em><br \/>\n<em>E o vig\u00e1rio v\u00ea cousas nas fendas,<\/em><br \/>\n<em>Que quisera antes v\u00ea-las nas m\u00e3os!&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Prossigo: o outro fio dessa meada recupera tamb\u00e9m Barros e Vasconcelos, o primeiro ocupante desta Cadeira. Ele nasceu a 31 de julho de 1879, em S\u00e3o Lu\u00eds. Homem estudioso, jornalista, pol\u00edtico e magistrado, descendente de ilustre fam\u00edlia de distintos e magistrados \u00edntegros. Deixou dois livros: o romance, <em>Reden\u00e7\u00e3o<\/em> e um <em>Tratado de limites entre Maranh\u00e3o e Piau\u00ed<\/em>. Barros e Vasconcelos exerceu v\u00e1rios cargos: foi juiz de Direito, secret\u00e1rio da Fazenda, consultor jur\u00eddico, membro e presidente do Conselho do Estado, advogado do Estado na quest\u00e3o de limites com o Piau\u00ed, duas vezes corregedor da Justi\u00e7a, s\u00f3cio fundador do nosso Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico e do Sindicato de Imprensa, catedr\u00e1tico de Geografia Econ\u00f4mica na Escola Superior do Com\u00e9rcio de S\u00e3o Lu\u00eds, membro e presidente da comiss\u00e3o que organizou a Ordem dos Advogados no Maranh\u00e3o. Barros e Vasconcelos era um homem fervoroso e considerava a Terra um espa\u00e7o inferior, distanciada que \u00e9 pela ci\u00eancia da grande lei divina.<\/p>\n<p>De acordo com a inevit\u00e1vel lei dial\u00f3gica, Trajano Galv\u00e3o teve seu percurso tecido por Barros e Vasconcelos e ambos, por Concei\u00e7\u00e3o Aboud a qual est\u00e1 sob o limiar da linguagem de cuja vertigem agora me apodero.<\/p>\n<p>Eis a luta entre a realidade e o imagin\u00e1rio que se d\u00e1 neste ambiente tamb\u00e9m contradit\u00f3rio, entre os tons de Casa e de Academia. Eis a luta entre a menina que olhava para esta Casa pelo outro lado da rua, com sua porta sempre fechada para o misterioso lado\u00ad-de-\u00addentro.<\/p>\n<p>Eis a Casa de Ant\u00f4nio Lobo cujo mist\u00e9rio a menina nunca ousou sondar e cujas portas nunca pensou transpor. Eis-\u00adme aqui completando o salto entre a menina que lia para Ana Pureza as hist\u00f3rias de Sarita na Cartilha do abc e a mulher que l\u00ea Concei\u00e7\u00e3o Aboud na literatura maranhense, nesta sess\u00e3o solene da Academia Maranhense de Letras. No percurso geogr\u00e1fico, o salto entre a casa de n\u00ba 606, onde vivi, e esta de n\u00ba 84. E a mim cabe, ent\u00e3o, apresentar Concei\u00e7\u00e3o Aboud:<\/p>\n<p>Primeiro, Concei\u00e7\u00e3o Belo Neves, filha de Maria Belo Neves e Luciano Neves. Nasceu no dia dez de julho de 1925, aqui em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o. Casou-\u00adse com Alexandre Aboud, bem sucedido comerciante maranhense, com quem foi morar no Rio de Janeiro, passando a Concei\u00e7\u00e3o Neves Aboud de cuja filha, Maria J\u00falia Neves Aboud, recebeu dois netos: Carolina e Alexandre.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, a princ\u00edpio, a escritora, romancista maranhense Concei\u00e7\u00e3o Aboud. Uma pessoa que, para quem a conheceu, precisa ser descrita por sua beleza e vaidade; por sua paix\u00e3o pela literatura; pela sua curiosidade por outras culturas, pela capacidade de viver a opul\u00eancia material sem ser seduzida pelo mundo das apar\u00eancias. Tudo o que se torna mais forte por se tratar de uma mulher que n\u00e3o fechou o olhar para o mundo, em fun\u00e7\u00e3o de viver, como era comum, a delimita\u00e7\u00e3o do cotidiano no espa\u00e7o do casamento.<\/p>\n<p>Os livros foram, para Concei\u00e7\u00e3o Aboud, o transporte para a vida a lhe ensinar que algumas dores podem ser guardadas para o fim; que \u00e9 preciso ter menos coragem para morrer e mais para viver; que \u00e9 mais dif\u00edcil construir patrim\u00f4nio do que se despojar dele; que o fim talvez seja sempre voltar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o inicial<\/p>\n<p>Entretanto, a imortalidade n\u00e3o est\u00e1 somente no que Concei\u00e7\u00e3o Aboud viveu na vida cotidiana. N\u00e3o est\u00e1 na beleza f\u00edsica que esbanjou, nos enfeites valiosos que colecionou. Esse contorno tamb\u00e9m \u00e9 feito para que haja contexto onde a ideologia fabricada possa se sustentar com um nome feito de outros nomes. A imortalidade est\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 no que a escritora fez, mas no que ela pensou; no que ela faz pensar do que pensou; no que ela faz dizer do que falou e no que faz escrever do que escreveu. A imortalidade est\u00e1 mais naquilo que o escritor nos faz ser do que naquilo que ele foi. A imortalidade est\u00e1 na obra que o leitor eterniza nos livros lidos e irremediavelmente abertos, mesmo que fechados.<\/p>\n<p>Diante disso, tarefa minha, esta: a de leitora. Encantadora consci\u00eancia de que toda ideia nasce em outra que foi feita de outras e que vai para somar-\u00adse \u00e0 pr\u00f3xima e \u00fanica, na sempre-\u00adilus\u00e3o do singular ou do in\u00e9dito. Encantadora consci\u00eancia do engano de que a subjetividade \u00e9 ordenada e \u00edmpar. Encantadora busca sempre negada aos pares. Encantadora leitura. M\u00e1gica miss\u00e3o para a qual me preparo.<\/p>\n<p>\u00c9 que me preparo para invadir as met\u00e1foras constru\u00eddas por Concei\u00e7\u00e3o Aboud. Of\u00edcio em que n\u00e3o garanto nenhuma gota de frieza, nem assumo o compromisso de n\u00e3o tomar as imagens para mim. Porque a leitora est\u00e1 ansiosa por iniciar a ventura de beber na fonte e saciar a sede de literatura que \u00e9 a pr\u00f3pria inquietude da vida, a pr\u00f3pria insatisfa\u00e7\u00e3o que me move tamb\u00e9m para Deus.<\/p>\n<p>Passeio com o olhar pela obra. Entre os romances publicados, <em>Ciranda da vida<\/em>, <em>Grades e azulejos<\/em>, <em>Rio vivo<\/em>, <em>Teias do tempo <\/em>(obra premiada). Entre os n\u00e3o publicados: <em>Cinza e rosa<\/em>, <em>O pre\u00e7o<\/em>, <em>Um amor de psiquiatra<\/em>. Vejo ainda que ela produziu pe\u00e7as intituladas <em>Retalhos <\/em><em>i<\/em>, <em>Retalhos <\/em><em>ii<\/em>, <em>Retalhos <\/em><em>iii <\/em>e <em>Retalhos <\/em><em>iv<\/em>, cuja montagem ela mesma fazia com as pessoas da fam\u00edlia, amigos e empregados da casa.<\/p>\n<p>Passeio de novo com o olhar pelos t\u00edtulos metaf\u00f3ricos da obra de Concei\u00e7\u00e3o Aboud e escolho as teias. Teias que s\u00e3o dela. Teias que s\u00e3o minhas. Teias que s\u00e3o nossas. Teias de toda a gente. De toda a humanidade. Teias desse universo que se chama mundo. Teias de tempo feitas do tempo de Concei\u00e7\u00e3o Aboud.<\/p>\n<p>Come\u00e7o a ler o romance <em>Teias do tempo<\/em> e eis que me encontro com uma personagem surpreendente: uma professora. Maude era seu nome. Era uma inglesa que dava aulas de ingl\u00eas para adolescentes. Ela vivia uma vida misteriosa, enclausurada \u201cno t\u00famulo enorme do casar\u00e3o\u201d, desde a morte do marido:<\/p>\n<p><em>Desde ent\u00e3o n\u00e3o punha o p\u00e9 na rua ou recebia as antigas rela\u00e7\u00f5es. Nunca foi ao cemit\u00e9rio, n\u00e3o houve Missa de S\u00e9timo Dia, para esc\u00e2ndalo das beatas, por Eduardo ser cat\u00f3lico. [&#8230;]. Algu\u00e9m devia fazer-lhe compras e cuidar, pelo menos da sala de aula, sempre limpa, o ch\u00e3o encerado.<\/em><\/p>\n<p><em>Um dos alunos? Um velho amigo? Vizinhos nunca a viram sair, nem ningu\u00e9m chegando com pacotes ao port\u00e3o enorme e carcomido do sobrad\u00e3o. Maude n\u00e3o poderia viver das balas oferecidas aos alunos. Balas deliciosas. <\/em>(p.10)<\/p>\n<p>A professora Maude<\/p>\n<p><em>amava alguns alunos [&#8230;]. S\u00f3 Diana era como se fosse sua filha!<br \/>\n<\/em><em>Por qu\u00ea? Por ser uma alma inquieta e complicada.[&#8230;].<br \/>\n<\/em><em>[&#8230;] Conversavam sobre literatura, hist\u00f3ria, filosofavam. [&#8230;].<br \/>\n<\/em><em>\u2014 [&#8230;] A vida, minha filha, \u00e9 mais fabulosa do que qualquer fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<\/em><em>Mais terr\u00edvel.[&#8230;].<br \/>\n<\/em><em>\u2014 Conte, Miss Maude.[&#8230;].<br \/>\n<\/em><em>\u2014 N\u00e3o posso \u201cD\u00e1iana\u201d. N\u00e3o gosto de me lembrar do passado. N\u00e3o consigo esquec\u00ea-lo, mas n\u00e3o posso falar nele.\u00a0(p.11)<\/em><\/p>\n<p><em>Acho a mente uma coisa incr\u00edvel, infinita. Guarda lembran\u00e7as de<\/em><br \/>\n<em>anos e anos, sonha com o futuro, reage de mil modos. [&#8230;]. A mem\u00f3ria,<\/em><br \/>\n<em>por exemplo, \u00e9 uma coisa monstruosa. Esconde fatos importantes,<\/em><br \/>\n<em>lembra insignificantes. N\u00e3o temos mem\u00f3ria. Ela \u00e9 que nos<\/em><br \/>\n<em>possui. (p.57)<\/em><br \/>\n<em>O luar marcava no quarto de Maude as formas das janelas do sobrad\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>(p.14)<\/em><\/p>\n<p>Para o aluno Ot\u00e1vio, a professora n\u00e3o mandava. Iluminava. Maude n\u00e3o s\u00f3 lia o sentido das coisas, mas tamb\u00e9m sabia que a lembran\u00e7a da felicidade era o suficiente para ser feliz. Vivia intensamente a saudade e sabia ser c\u00famplice dos alunos para faz\u00ea\u00ad-los ir em busca dos sonhos, enquanto ela pensava \u201cser feliz por ter sido feliz\u201d (p.38). Foi assim com Diana e com Ot\u00e1vio, seus alunos prediletos. Ot\u00e1vio, homossexual que ela ajudou a fugir. Diana que amava Alu\u00edsio, um rapaz hipocondr\u00edaco que vivia trancado em casa. Era assim que se envolvia em v\u00e1rias vidas, quietinha naquele sobrado sombrio, onde as teias do tempo foram sedimentando o Outro, o outro lado \u2014 o Inconsciente, onde se aloja a multid\u00e3o que nos faz.<\/p>\n<p>Talvez porque tivesse vivido intensamente o amor, tentava manter vivo o marido morto, pelo ar intocado do quarto onde ningu\u00e9m entrava. E l\u00e1 vivia Maude, a enterrar-\u00adse no sobrado sem nunca mesmo ter morrido.<\/p>\n<p>Come\u00e7o a ler e eis que, leitora, me encontro com a professora:<\/p>\n<p><em>Dividia, ent\u00e3o, as li\u00e7\u00f5es em duas partes: gram\u00e1tica e conversa\u00e7\u00e3o. Conversa\u00e7\u00e3o adorava. Quebrava o t\u00e9dio de sua\u00a0<\/em><em>rotina no casar\u00e3o. Fazia um jogo sutil e atrav\u00e9s dele ia descobrindo a vida, o temperamento, os sonhos das pessoas. Isto era seu cinema, seu teatro, sua leitura. <\/em>(p.11) No final, Maude volta para a Inglaterra, para reencontrar os filhos e os netos:<\/p>\n<p><em>S\u00f3 Diana sabia que Maude partiria [&#8230;]. Ao fechar a porta da sala de aulas e partir, muitos alunos passaram por sua mem\u00f3ria e cenas, cenas muitas vezes repetidas. <\/em>(p. 127)<\/p>\n<p><em>Diana ficou com a chave do sobrad\u00e3o a fim de apanhar a poltrona de Eduardo. [&#8230;]. Tinha medo da cadeira se desintegrar.[&#8230;]. Resolveu investigar o sobrad\u00e3o. Sentiu-se tr\u00eamula. Pires e pires de veneno separavam a parte habitada, dos fundos do casar\u00e3o em ru\u00ednas. Teias e teias de aranha cruzavam-se e \u2014 \u201cfant\u00e1stico!\u201d \u2014 faziam um desenho parecendo um c\u00e9rebro humano. Diana n\u00e3o sabia, Miss Maude fora naquela sala de aula de ingl\u00eas, um embri\u00e3o, uma forma indefinida do que seriam mais tarde psiquiatras e psic\u00f3logos, recept\u00e1culos de fobias, sonhos, desejos, \u00e2nsias, alegrias.<\/em><\/p>\n<p><em>Maude morreu em Londres, em 1947, de um enfarte fulminante.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o precisou ser envenenada. <\/em>(p.128)<\/p>\n<p>Leio <em>Teias do tempo<\/em> de Concei\u00e7\u00e3o Aboud e desconstruo a met\u00e1fora que me faz ver, nas teias, o que tece um professor: sonhos, ternuras, culpas, traumas, paix\u00f5es, amores e desamores dos alunos que ele vai colecionando no inconsciente. Desconstruo a met\u00e1fora do embri\u00e3o gerador do que viria a ser psiquiatras e psic\u00f3logos e entro pela palavra no sentido de ser que entra pelo sentido de dizer.<\/p>\n<p>\u00c9 a vertigem da linguagem.<\/p>\n<p>Leio <em>Teias do tempo<\/em> de Concei\u00e7\u00e3o Aboud e encontro, na professora que Maude foi o sentido de ensinar que \u00e9 iluminar. Ser professor \u00e9 ler pelo olhar do aluno. Atravessar para a vida com ele. Viver a mis\u00e9ria da condi\u00e7\u00e3o humana. Brilhar enquanto as teias do tempo v\u00e3o tecendo a desordem necess\u00e1ria e inevit\u00e1vel. Vejo, na sala de aula da professora\u00a0Maude, minha sala de aula. Das aulas de conversa\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do universo. A deliciosa ang\u00fastia de entrar pelo labirinto do texto.<\/p>\n<p>Vejo, na aula de conversa\u00e7\u00e3o da professora Maude, minha travessia para a vida atrav\u00e9s dos textos. E digo\u00ad-lhes o seguinte: s\u00f3 me apaixonei pela biblioteca quando a encontrei na alma de algumas pessoas. Lembro do in\u00edcio e eis a surpresa dessa experi\u00eancia no depoimento de Sartre (<em>O pensamento vivo de Sartre<\/em>, 1990, p.11):<\/p>\n<p><em>Comecei minha vida como hei de acab\u00e1-la, sem d\u00favida: no meio dos livros. No escrit\u00f3rio de meu av\u00f4, havia-os por toda parte: era proibido espan\u00e1-los exceto uma vez por ano, antes do rein\u00edcio das aulas, em outubro. Eu ainda n\u00e3o sabia ler e j\u00e1 reverenciava essas pedras erigidas: em p\u00e9 ou inclinadas, apertadas como tijolos nas prateleiras da biblioteca ou nobremente espacejadas em aleias de menires, eu sentia que a prosperidade de nossa fam\u00edlia delas dependia. Elas se pareciam todas; eu foliava num min\u00fasculo santu\u00e1rio, circundado de monumentos, atarracados, antigos, que me haviam visto nascer, que me viam morrer e cuja perman\u00eancia me garantia um futuro t\u00e3o calmo como o passado. Eu os tocava \u00e0s escondidas para honrar minhas m\u00e3os com sua poeira, mas n\u00e3o sabia bem o que fazer com eles&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Vivi, no in\u00edcio, a surpresa dessa experi\u00eancia tamb\u00e9m no depoimento de L\u00edgia Bojunga. Ou\u00e7am o que ela escreveu:<\/p>\n<p><em>Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em p\u00e9, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia l\u00e1 dentro pra ir brincar em livro.<\/em><\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m forte o meu despertar pela experi\u00eancia de Clarice Lispector. Escutem:<\/p>\n<p><em>Quando eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro \u00e9 como \u00e1rvore, \u00e9 como bicho: coisa que nasce! N\u00e3o descobria que era um autor! L\u00e1 pelas tantas, eu descobri que era um autor! A\u00ed eu disse: \u201cEu tamb\u00e9m quero\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a vertigem da escrita.<\/p>\n<p>Aprendi com a leitura a travessia para a vida. Antes: aprendi com os livros o fundamental envolvimento com as palavras. Este relacionamento que me traz a este presente envolvido pelas teias do tempo de Concei\u00e7\u00e3o Aboud. Diante da met\u00e1fora, a minha hist\u00f3ria n\u00e3o resiste. Revela-\u00adse. Porque \u00e9 esta historicidade que d\u00e1 sentido ao sentido.<\/p>\n<p>Por isso, enfrento met\u00e1foras, meton\u00edmias, imagens, figuras&#8230; Gesto-\u00adme no ventre da palavra e gero minha palavra na imagem que gira num c\u00edrculo vicioso que vigia cada gesto meu de dizer e me vicia&#8230; Passeio por frases e, s\u00fabito, trope\u00e7o. Mesmo que tente seguir apressada, buscando ver r\u00e1pido para j\u00e1 ter lido, e, quem sabe, at\u00e9 esquecido que li, encontro-\u00adme entre grades de linhas, oscilando diante da imagem que me clareia e me engravida da palavra gr\u00e1vida de mim.<\/p>\n<p>A met\u00e1fora gr\u00e1vida de mim feito <em>As teias do tempo<\/em>, de Concei\u00e7\u00e3o Aboud. Sinto, nas deliciosas balas que a professora Maude preparava para os alunos, o cheiro do chocolate quente que tem me ajudado a iluminar os meus alunos, \u00e0 medida que sou iluminada por eles. Ah! Quantos alunos eu ensinei e com quantos alunos eu aprendi.<\/p>\n<p>Cada um aqui tem ou deve ter tido a sua professora Maude. H\u00e1 muitas maudes trancafiadas em casar\u00f5es, construindo, com seus alunos, seus di\u00e1logos sobre a vida. Muitas teias de aranha cegando consci\u00eancias. Dianas e ot\u00e1vios passeiam agora na minha lembran\u00e7a. Leituras s\u00e3o refeitas. Textos s\u00e3o escritos e reescritos.<\/p>\n<p>Leitura, met\u00e1fora, texto, teias. Na hist\u00f3ria da professora Maude, encontro\u00ad-me at\u00e9 com a mesa da minha av\u00f3: \u201cuma mesa enorme toda marcada de carretilha, tra\u00e7os de tesoura. [&#8230;]. Mesa marcada, sofrida e de l\u00e1 saindo tanta coisa bonita&#8230;\u201d (p.38). Sinto agora que ali minha av\u00f3 ia costurando, aos meus olhos de leitora, os caminhos irregulares de suas netas. Se imaginasse quantos bisnetos teria, talvez tivesse feito uma mesa maior para costurar mais vida e ficar mais tempo conosco.<\/p>\n<p>Penso que cheguei, mas tenho que voltar, pela met\u00e1fora, \u00e0 Ponta da Ilha. E volto a um passado que hoje reconhe\u00e7o como pequenos presentes perdidos \u2014 escondidos nas teias do tempo. E, desde o come\u00e7o, eu trouxe o in\u00edcio com que desembarquei nesta ilha. Ali\u00e1s, nesta p\u00e1gina. Trouxe comigo meu pai, Joseli Pires Pereira, presen\u00e7a em mim neste momento. Trouxe minha m\u00e3e, Carmelinda Correia Pereira \u2014 a ternura dos meus dias. Trouxe minhas irm\u00e3s: Alzira, Concei\u00e7\u00e3o, Helena, Eliane e Ana Maria. Meus cunhados. Seus filhos e seus netos. A nossa cumplicidade. Trouxe Ana Pureza, colo inesquec\u00edvel da minha inf\u00e2ncia. Trouxe meu av\u00f4 Dico, minha av\u00f3 Zizi, meu av\u00f4 Telasco, minha av\u00f3 Bemb\u00e9m e minha av\u00f3 Alzira. Minha tia Terezinha e meu tio Carl\u00f3. Todos os meus tios e primos. Trouxe todos os meus amigos: os que continuam sendo e os que desembarcaram no caminho. Trouxe os meus alunos. Trouxe os meus professores e todos os autores dos livros que li e os autores dos livros que leram e os autores&#8230; Trouxe os atores. Trouxe trag\u00e9dias e com\u00e9dias. Trouxe o teatro e trouxe o circo. Trouxe o sentido da vida. A vertigem da linguagem: o fogo para este jogo. Mas nunca esquecerei, nestas teias, o ponto da ponta da palha com que vou tecendo os recaminhos por esta rua da Paz onde vivi.<\/p>\n<p>Desembarco plural em Daniel, Rafael, Danilo e Beatriz. Desembarco com minhas noras Priscila, Rossana e Tirza. Desembarcamos na ilus\u00e3o de carregar a bagagem, porque \u00e9 Jesus quem carrega a nossa.<\/p>\n<p>Um carv\u00e3o acende sua chama, e, em outro, o fogo j\u00e1 virou cinza. Enquanto isso, uma semente acabou de ser plantada para ainda fazer a \u00e1rvore. E assim \u00e9 a vida: Trajano Galv\u00e3o, Barros e Vasconcelos, Concei\u00e7\u00e3o Aboud e agora, eu. Assim, volto a dizer do imposs\u00edvel de desembarcar sozinha nesta ilha\u00adp\u00e1gina. Ali\u00e1s, o que h\u00e1 nela do que possa parecer trio, \u00e9 trilho, \u00e9 multid\u00e3o. Em todos. Em cada um de n\u00f3s. Em mim. O que entrou nela foi parte do recebido com que a fabriquei. E o que dela continuar\u00e1 saindo \u00e9 o produto.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se esquecer\u00e1 do romance <em>Teias do tempo<\/em>.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se esquecer\u00e1 mais da professora Maude: a professora que sondava a alma dos alunos para deixar fluir seus sonhos, seus medos, suas culpas, seus temores e suas ternuras.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se esquecer\u00e1 das balas deliciosas fabricadas aqui com cheiro de chocolate quente.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se esquecer\u00e1 dessa vertigem que \u00e9 a linguagem. Esta aventura de poder devorar a consumidora met\u00e1fora.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se esquecer\u00e1 da nossa romancista Concei\u00e7\u00e3o Aboud.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se esquecer\u00e1.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds a 29 de mar\u00e7o de 1956. Filha de Josely Pires Pereira e Carmelinda Corr\u00eaa Pereira. 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