{"id":369,"date":"2014-03-23T11:18:20","date_gmt":"2014-03-23T14:18:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=369"},"modified":"2017-09-10T11:37:16","modified_gmt":"2017-09-10T14:37:16","slug":"jose-maria-ramos-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/jose-maria-ramos-martins\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Maria Ramos Martins"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em Timon-MA, a 27 de mar\u00e7o de 1920. Filho de Urbano de Souza Martins e Ana Ot\u00edlia Ramos Martins. Em 1942 Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito de Salvador, continuando-o na Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds, por se haver transferido para capital maranhense em 1944, a fim de prestar servi\u00e7o militar como oficial da reserva do Ex\u00e9rcito. Bacharel em Ci\u00eancia Jur\u00eddica e Sociais em 1946; bacharel e licenciado em Filosofia, 1956, pela Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias\u00a0 e Letras de S\u00e3o Lu\u00eds. Entre os seus cursos de extens\u00e3o universit\u00e1ria, citam-se: Sobre Reforma Universit\u00e1ria, Did\u00e1tica do Ensino Superior, Metodologia da Ci\u00eancia e Filosofia Contempor\u00e2nea, todos em 1970, e ainda de Filosofia das Ci\u00eancias em 1974.<\/p>\n<p>Fundador e primeiro delegado do SENAC e do SESC no Piau\u00ed (1947\/1952), Diretor regional do SENAC e do SESC no Maranh\u00e3o (1957\/1959), Secret\u00e1rio da Ordem dos Advogados do Brasil \u2013 Se\u00e7\u00e3o Maranh\u00e3o (1955\/1957), Consultor Jur\u00eddico do Estado do Maranh\u00e3o (1960), Procurador Geral do Estado do Maranh\u00e3o (1961), Advogado da Petrobr\u00e1s no Maranh\u00e3o, Membro do Conselho Pol\u00edtica Criminal e Penitenci\u00e1ria do Estado do Maranh\u00e3o, Presidente da Escola Superior da Advocacia-ESA, Professor de Sociologia Jur\u00eddica da Escola Superior de Magistratura do Maranh\u00e3o, Coordenador e Professor do curso de Mestrado em Direito do CEUMA-Centro de Ensino Unificado do Maranh\u00e3o (1997\/2001).<\/p>\n<p>Presidente, durante v\u00e1rios anos, da Alian\u00e7a Francesa no Maranh\u00e3o, havendo recebido do governo franc\u00eas, as <em>Palmes Acad\u00e9miques. <\/em>Esta e outras distin\u00e7\u00f5es honorarias foram doadas ao Memorial Cristo Rei, da Universidade Federal do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Universidade Federal do Maranh\u00e3o exerceu as seguintes fun\u00e7\u00f5es de magist\u00e9rio e administrativas: Professor assistente de Psicologia (1957); Livre Docente por concurso e Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Ci\u00eancia do Direito (1957); Professor Catedr\u00e1tico de Direito Penal (1958); Professor Titular de Filosofia Geral (1959); Professor <em>Honoris Causa<\/em> de Ci\u00eancias Humanas e Aplicada da Faculdade de Filosofia de S\u00e3o Lu\u00eds (2001); Diretor da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras e posteriormente, do Instituto de Filosofia da UFMA (1965\/1972); Vice-Reitor(1973) Reitor na Universidade Federal do Maranh\u00e3o (1975\/1979), de cujo Conselho Diretor\u00e9 membro efetivo.<\/p>\n<p>Membro do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, da Academia Maranhense de Letras Jur\u00eddicas e do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>De seus numerosos trabalhos citam-se: <em>Da no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o ao fen\u00f4meno jur\u00eddico<\/em> (tese de concurso). S\u00e3o Lu\u00eds: 1955; C<em>i\u00eancia e crime<\/em> (tese de concurso).S\u00e3o Lu\u00eds: 1957; <em>Direito Educacional<\/em> (confer\u00eancia).S\u00e3o Lu\u00eds: 1983; T<em>end\u00eancias filos\u00f3ficas no Brasil. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: UFMA, 1983; <em>Discursos e confer\u00eancias.<\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: AAUFMA, 1997; <em>Do direito natural ao direito alternativo<\/em> (confer\u00eancia), 1998; <em>Um programa de sociologia jur\u00eddica.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: Ediceuma, 1998 ( 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2007).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Minhas Senhoras, Meus Senhores,<br \/>\nAutoridades cujas presen\u00e7as honram esta solenidade,<br \/>\nSenhores Acad\u00eamicos,<br \/>\nSenhor Presidente da Academia Maranhense de Letras:<\/p>\n<p>J\u00e1 havia eu me habituado a viver \u00e0 margem de acontecimentos dessa natureza, no anonimato da plan\u00edcie niveladora, \u201centre \u00e1rvores discretas que, benevolamente, dissimulem a minha j\u00e1 de <sub>1 <\/sub>si apagada individualidade,\u201d quando o inesperado desenlace de meu primo e cunhado M\u00e1rio Meireles, ocupante da Cadeira N\u00ba 9, desta institui\u00e7\u00e3o, me abriu a ins\u00f3lita oportunidade de substitu\u00ed-lo, gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o carinhosa de amigos desta Academia.<\/p>\n<p>Temeroso em raz\u00e3o da idade avan\u00e7ada, que me desaconselhava tal pretens\u00e3o, n\u00e3o pude, entretanto, resistir \u00e0 for\u00e7a do afeto de tantos, que afinal prevaleceu, com a cumplicidade da maioria dos acad\u00eamicos, que no dia 16 de outubro do ano passado sufragaram o meu nome. \u00c9 nessa condi\u00e7\u00e3o que aqui me encontro, vacilante quanto aos m\u00e9ritos que me atribuem, mas confiante na responsabilidade coletiva dos que em mim votaram e que s\u00e3o, portanto, os avalistas do meu ingresso nesta Casa.<\/p>\n<p>Na forma regimental, devo evocar, sucintamente embora, os antecessores da Cadeira e apreciar, mais demoradamente, a vida e a obra do patrono, no caso Gon\u00e7alves Dias (1823\u20131864) e do \u00faltimo ocupante, historiador M\u00e1rio Meireles (1915-2003).<\/p>\n<p>Foi fundador da Cadeira In\u00e1cio Xavier de Carvalho (1871-1944), poeta simbolista, autor de v\u00e1rios poemas, dentre os quais vale mencionar os inclu\u00eddos nos livros: <em>Fruto selvagem<\/em> e <em>Missas negras. Com<\/em> o seu falecimento, a 17 de maio de 1944, sucedeu-lhe Catulo da Paix\u00e3o Cearense<em> (<\/em>1863-1946). Eleito a 16 de janeiro de 1946, n\u00e3o chegou a tomar posse, pois faleceu a 10 de maio do mesmo ano. Maranhense de S\u00e3o Lu\u00eds, Catulo \u00e9 o popular poeta seresteiro, m\u00fasico e cantor, ainda hoje lembrado por suas in\u00fameras can\u00e7\u00f5es, coligidas e publicadas em livro, tais como: O Marrueiro, Mata Iluminada, Sert\u00e3o em Flor, Poemas Bravios, Um Bo\u00eamio no C\u00e9u e o inesquec\u00edvel Luar do Sert\u00e3o:<\/p>\n<p><em>\u00d3 que saudade<\/em><br \/>\n<em>do luar da minha terra,<\/em><br \/>\n<em>l\u00e1 na serra,<\/em><br \/>\n<em>branquejando folhas secas<\/em><br \/>\n<em>pelo ch\u00e3o!<\/em><br \/>\n<em>Este luar, c\u00e1 da cidade,<\/em><br \/>\n<em>t\u00e3o escuro,<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o tem aquela saudade<\/em><br \/>\n<em>do luar<\/em><br \/>\n<em>l\u00e1 do sert\u00e3o!<\/em><\/p>\n<p>Na sua linguagem simples, \u00e9 esse um dos poemas mais belos da l\u00edngua portuguesa, hoje cantado em diversos idiomas e cuja m\u00fasica serviu de prefixo, durante muitos anos, \u00e0 R\u00e1dio Nacional, emissora oficial do Governo. Nas palavras expressivas de Alberto de Oliveira, Catulo \u00e9 o \u201cpoeta do povo e da ra\u00e7a, e s\u00f3 poeta, que s\u00f3 pode <em>dar<\/em> poesia, como as abelhas s\u00f3 podem dar mel.\u201d<\/p>\n<p>Como bem acentuou Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio Filho, em 1928, portanto ainda em vida do poeta, ele \u00e9 o trovador autenticamente brasileiro, que nos vem dizer \u201ca pujan\u00e7a e a energia da ra\u00e7a, cantando a arrancada dos vaqueiros e o orgulho generoso do sertanejo\u201d; escrita em l\u00edngua original, sua poesia ultrapassou nossas fronteiras, tornando-se conhecida na Am\u00e9rica Latina e em Portugal.<\/p>\n<p><strong>O Patrono<\/strong><\/p>\n<p>Para cantar os grandes feitos d\u2019<em>Os<\/em> <em>Lus\u00edadas<\/em>, Cam\u00f5es invoca as ninfas do Tejo:<\/p>\n<p><em>Dai-me uma f\u00faria grande e sonorosa,<\/em><br \/>\n<em>E n\u00e3o de agreste avena ou frauta ruda,<\/em><br \/>\n<em>Mas de tuba canora e belicosa,<\/em><br \/>\n<em>Que o peito acende e a cor ao gesto muda;<\/em><br \/>\n<em>Dai-me igual canto aos feitos da famosa<\/em><br \/>\n<em>Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;<\/em><br \/>\n<em>Que se espalhe e se cante no Universo,<\/em><br \/>\n<em>Se t\u00e3o sublime pre\u00e7o cabe em verso.<\/em><\/p>\n<p>Quem eu poderei invocar, para falar de Gon\u00e7alves Dias? N\u00e3o dispondo sequer de uma \u201cagreste avena ou frauta ruda\u201d, invoco e confio no aux\u00edlio dos manit\u00f3s do Canto do Piaga.<\/p>\n<p>T\u00e3o grande foi e continua a ser a proje\u00e7\u00e3o de <em>Gon\u00e7alves<\/em> <em>Dias<\/em>, no cen\u00e1rio liter\u00e1rio nacional e portugu\u00eas, com repercuss\u00e3o em outros pa\u00edses, como representante maior e mais aut\u00eantico do romantismo e do indianismo em nossa p\u00e1tria, que se torna quase imposs\u00edvel, at\u00e9 mesmo a um especialista de sua\u00a0vida e de sua obra, apresentar aspectos novos de sua personalidade m\u00faltipla, a um s\u00f3 tempo poeta, dramaturgo e humanista de vasta erudi\u00e7\u00e3o, com in\u00fameros trabalhos publicados nesses campos, e o pleno dom\u00ednio das principais l\u00ednguas modernas: franc\u00eas, ingl\u00eas, italiano, espanhol e alem\u00e3o, al\u00e9m do latim, de que era professor no Imperial Col\u00e9gio de Pedro II.<\/p>\n<p>Referindo-se a Gon\u00e7alves Dias, diz Jos\u00e9 Chagas: \u201cNeste ch\u00e3o nasceu aquele cuja voz iria fazer ecoar o verdadeiro grito nativo de nossa emancipa\u00e7\u00e3o l\u00edrica\u201d. E logo adiante:<\/p>\n<p><em>Temos n\u00f3s como patrono, n\u00e3o um fil\u00f3sofo, mas um poeta, cujo nome por si s\u00f3 preenche todo o nosso pa\u00eds, porque foi o aut\u00eantico propulsor da l\u00edrica americana, o codificador de nossa poesia, o criador do esp\u00edrito de nacionalidade em nossa cultura. Foi ele a alma da pl\u00eaiade que formou o Grupo Maranhense, inspirador daquele cognome (Atenas Brasileira). Um g\u00eanio que, j\u00e1 tendo no sangue a tridimensionalidade de nossa forma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, soube, por isso mesmo, exprimir, como ningu\u00e9m, o sentimento nativo e abrir, com seu canto, os caminhos certos <sub>2 <\/sub>para o despertar de nossa consci\u00eancia c\u00edvica e cultural.<\/em><\/p>\n<p>Os bi\u00f3grafos de Gon\u00e7alves Dias s\u00e3o numerosos e ilustres: Manuel Bandeira, L\u00facia Miguel Pereira, Henriques Leal, Josu\u00e9 Montello, entre v\u00e1rios outros. Sua obra tem sido estudada em Portugal e em outros pa\u00edses da Europa, bem assim em algumas universidades americanas. Um trabalho valioso, de publica\u00e7\u00e3o recente (1998), sob o t\u00edtulo \u2013 <em>Gon\u00e7alves<\/em> <em>Dias<\/em>: <em>vida e obra<\/em>, se deve ao Presidente desta Casa, acad\u00eamico Jomar Moraes, trabalho esse que me pareceu dos mais importantes, pela min\u00facia das informa\u00e7\u00f5es, pela retifica\u00e7\u00e3o de falhas encontradas em outros bi\u00f3grafos e judiciosa aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de algumas passagens da obra gon\u00e7alvina.<\/p>\n<p>Digo algumas passagens, porque a obra de Gon\u00e7alves Dias atinge tal vulto que, n\u00e3o obstante a perda irrepar\u00e1vel de in\u00fameros trabalhos, ainda assim, para analis\u00e1-la e apreci\u00e1-la toda, seriam necess\u00e1rios v\u00e1rios volumes. Falar, portanto, de <em>Gon\u00e7alves<\/em> <em>Dias<\/em> em S\u00e3o Lu\u00eds, diante de tantas pessoas competentes, mormente sendo eu um <em>inexpert<\/em> no assunto, \u00e9 francamente uma temeridade. Dizer o qu\u00ea? Que ele nasceu ali, em Caxias, a 10 de agosto de 1823, no s\u00edtio Boa Vista, em Aldeias Altas? Mas isso todo colegial de S\u00e3o Lu\u00eds e de outras cidades do Maranh\u00e3o sabe. Que \u00e9 o poeta maior, emblem\u00e1tico das letras maranhenses?<\/p>\n<p>Aluno do Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas, que funcionava no pr\u00e9dio onde est\u00e1 hoje instalada a sede da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, eu pr\u00f3prio, aos oito anos de idade, j\u00e1 era despertado para o culto a Gon\u00e7alves Dias, quando, a 3 de novembro, data de seu falecimento, um grupo de intelectuais sempre se reunia em torno de sua est\u00e1tua, para lhe render a costumeira homenagem. N\u00f3s os alunos, exatamente no hor\u00e1rio da sa\u00edda das aulas (5 horas), ouv\u00edamos atentos as palavras inflamadas dos oradores que se sucediam. Anos mais tarde, essa homenagem cresceu em n\u00famero de participantes. \u00c9 que o professor Luiz Rego, diretor do Col\u00e9gio S\u00e3o Lu\u00eds, fazia canalizar para a pra\u00e7a o grosso dos alunos de seu col\u00e9gio, numa esp\u00e9cie de disciplina ao mesmo tempo militar e patri\u00f3tica.<\/p>\n<p>Jamais pude esquecer esse tempo. A pra\u00e7a era o nosso recreio di\u00e1rio, ap\u00f3s as 17 horas. Corr\u00edamos \u00e0 vontade, mas sem danificar seus belos e bem cuidados canteiros, cuja profus\u00e3o e variedade de flores nos faziam parar por instantes, aspirando o suave perfume e deliciando-nos com o variegado das cores. Ao contr\u00e1rio do que ocorre hoje, era a pra\u00e7a muito limpa, com suas palmeiras esbeltas e alinhadas, sem que houvesse a falta de\u00a0uma s\u00f3. Por outro lado, n\u00e3o havia, a lhe tirar a beleza natural, como ocorre agora, essa imensa quantidade de ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Em continuidade \u00e0 pra\u00e7a Gon\u00e7alves Dias, ficava o chamado largo dos Rem\u00e9dios, com a igreja, cuja lateral se prol ongava at\u00e9 \u00e0 descida do Jenipapeiro. Nesse largo amplo e convidativo, pois durante os festejos o bonde Gon\u00e7alves Dias s\u00f3 chegava at\u00e9 \u00e0 rua Bar\u00e3o de Itapary, se realizava a mais tradicional, concorrida e ornamentada festa de largo, famosa at\u00e9 mesmo fora de nosso Estado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo eu poeta, como realmente n\u00e3o sou, n\u00e3o se h\u00e1 de esperar de mim uma cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e0 obra po\u00e9tica de Gon\u00e7alves Dias, cujo valor tem sido ressaltado, \u00e0s dezenas, por analistas do mais alto n\u00edvel. Limito-me a ligeiros aspectos que me prenderam a aten\u00e7\u00e3o desde os bancos acad\u00eamicos, quando, estudante de Direito na Bahia, fui compulsoriamente elevado a representante da cultura liter\u00e1ria maranhense. Para mim, um desses aspectos significativos \u00e9 o ritmo que Gon\u00e7alves Dias imprime ao Canto do Piaga e a v\u00e1rios outros, ritmo que, como uma esp\u00e9cie de m\u00fasica de fundo, nos faz ouvir o soar dos marac\u00e1s e a marca\u00e7\u00e3o das batidas dos p\u00e9s dos ind\u00edgenas, em suas dan\u00e7as t\u00edpicas:<\/p>\n<p><em>\u00d3 Guerreiros da Taba sagrada,<\/em><br \/>\n<em>\u00d3 Guerreiros da tribo Tupi,<\/em><br \/>\n<em>Falam Deuses nos cantos do Piaga.<\/em><br \/>\n<em>\u00d3 Guerreiros, meus cantos ouvi.<\/em><br \/>\n<em>Esta noite \u2013 era a lua j\u00e1 morta \u2013<\/em><br \/>\n<em>Anhang\u00e1 me vedava sonhar;<\/em><br \/>\n<em>Eis na horr\u00edvel caverna, que habito,<\/em><br \/>\n<em>Rouca voz come\u00e7ou-me a chamar.<\/em><br \/>\nE mais adiante, na II parte:<br \/>\n<em>Tu n\u00e3o viste no c\u00e9u um negrume<\/em><br \/>\n<em>Toda a face do sol ofuscar;<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o ouviste a coruja, de dia,<\/em><br \/>\n<em>Seus estr\u00eddulos torva soltar?<\/em><br \/>\n<em>Tu n\u00e3o viste dos bosques a coma<\/em><br \/>\n<em>Sem aragem \u2013 vergar-se e gemer,<\/em><br \/>\n<em>Nem a lua de fogo entre nuvens,<\/em><br \/>\n<em>Qual em vestes de sangue, nascer?<\/em><\/p>\n<p>Embora o canto seja um press\u00e1gio do Piaga, em raz\u00e3o da rouca voz que lhe fala, que prev\u00ea \u201calgemas pesadas, com que a tribo Tupi vai gemer\u201d, imprime Gon\u00e7alves Dias aos versos um ritmo tal, que nos d\u00e1 a ideia do movimento caracter\u00edstico das dan\u00e7as ind\u00edgenas, forma de express\u00e3o a mais importante, tanto nos momentos de alegria, como nos de tristeza ou de prepara\u00e7\u00e3o para a guerra.<\/p>\n<p>Outro aspecto que vale aqui uma refer\u00eancia \u00e9 quanto ao canto do sabi\u00e1 nas palmeiras, tal como consta da bela e conhecida Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio, escrita em Coimbra em julho de 1843, quando tinha o poeta apenas 20 anos de idade! Saudoso de sua terra natal, os versos lhe saem da pena com a suavidade de uma brisa do mar: \u201cMinha terra tem palmeiras\/ Onde canta o Sabi\u00e1\/ As aves, que aqui gorjeiam\/ N\u00e3o gorjeiam como l\u00e1\u201d. Por tr\u00eas vezes, repete Gon\u00e7alves Dias: \u201cMinha terra tem palmeiras\/ Onde canta o sabi\u00e1,\u201d com ligeira modifica\u00e7\u00e3o na \u00faltima estrofe: \u201cN\u00e3o permita Deus que eu morra\/ Sem que eu volte para l\u00e1\/ Sem que desfrute os primores\/ Que n\u00e3o encontro por c\u00e1\/ Sem qu\u2019inda aviste as palmeiras\/ Onde canta o Sabi\u00e1!\u201d<\/p>\n<p>Disseram alguns cr\u00edticos, que certamente n\u00e3o conheceram visualmente a regi\u00e3o dos cocais, que sabi\u00e1 n\u00e3o canta em palmeira. Gon\u00e7alves Dias teria cometido uma liberdade po\u00e9tica, idealizando sabi\u00e1 cantando em palmeira. Enganaram-se tais censores. Na regi\u00e3o dos cocais, que eu pessoalmente conheci muito bem e onde nasceu e viveu at\u00e9 os 12 anos <em>Gon\u00e7alves<\/em> <em>Dias<\/em>, a \u201cmata\u201d de baba\u00e7u era compacta (pelo menos naquele tempo). Tirando pequenos arbustos, tudo mais formava um oceano de palmeiras a perder de vista. Os sabi\u00e1s que l\u00e1 cantavam eram nativos da regi\u00e3o, aclimatados ao ambiente. Como tive oportunidade de observar in\u00fameras vezes, ficavam os sabi\u00e1s pousados nas folhas das palmeiras, cantando alegremente, num verdadeiro desafio. E eu, de al\u00e7ap\u00e3o armado, n\u00e3o conseguia atra\u00ed-los, por falta de \u201cchama\u201d. Dizia-me ent\u00e3o o morador da regi\u00e3o, que me acompanhava: \u201cn\u00e3o se importe, meu patr\u00e3o, que eu vou pegar um filhote no ninho e, quando voc\u00ea voltar, ter\u00e1 seu sabi\u00e1.<\/p>\n<p>Em artigo publicado em <em>O Estado do Maranh\u00e3o<\/em>, datado de 6 de dezembro de 2003, sobre o assunto, afirma o acad\u00eamico Jos\u00e9 Chagas, com sua autoridade de poeta, baseado em informa\u00e7\u00e3o constante da revista <em>Galileu<\/em>, que o sabi\u00e1 \u00e9 hoje considerado a ave nacional do Brasil, e que h\u00e1 uma variedade muito grande de sabi\u00e1s, entre os quais os nossos conhecidos sabi\u00e1-do-alagado ou sabi\u00e1-do-mangue, sabi\u00e1-laranjeira e sabi\u00e1-da-mata.<\/p>\n<p>Tendo vivido sua meninice nesse ambiente de palmeiras, teve Gon\u00e7alves Dias, com sua sensibilidade de poeta, oportunidade de deliciar-se com o canto mavioso dos sabi\u00e1s, t\u00e3o abundantes na regi\u00e3o, e apreciar-lhes demoradamente a sutil melodia, que jamais p\u00f4de esquecer e que, em Portugal, longe da terra querida, a saudade transformou em versos&#8230;<\/p>\n<p>Ainda mesmo que a largos tra\u00e7os, como o estou fazendo, n\u00e3o poderia deixar sem refer\u00eancia o poema I \u2013 Juca Pirama, todo ele uma joia de primeira grandeza. Vejamos as estrofes em que o velho Tupi recrimina o filho por ter chorado. Gon\u00e7alves Dias, como Beethoven na m\u00fasica, atinge o pat\u00e9tico:<\/p>\n<p><em>Tu choraste em presen\u00e7a da morte?<\/em><br \/>\n<em>Na presen\u00e7a de estranhos choraste?<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o descende o cobarde do forte;<\/em><br \/>\n<em>Pois choraste, meu filho n\u00e3o \u00e9s!<\/em><br \/>\n<em>Possas tu, descendente maldito<\/em><br \/>\n<em>De uma tribo de nobres guerreiros,<\/em><br \/>\n<em>Implorando cru\u00e9is forasteiros,<\/em><br \/>\n<em>Seres presa de vis Aimor\u00e9s.<\/em><br \/>\n<em>Possas tu, isolado na terra,<\/em><br \/>\n<em>Sem arrimo e sem p\u00e1tria vagando,<\/em><br \/>\n<em>Rejeitado da morte na guerra,<\/em><br \/>\n<em>Rejeitado dos homens na paz,<\/em><br \/>\n<em>Ser das gentes o espectro execrado;<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o encontres amor nas mulheres,<\/em><br \/>\n<em>Teus amigos, se amigos tiveres,<\/em><br \/>\n<em>Tenham alma inconstante e falaz!<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o cabe neste discurso despretensioso transcrever todo o poema, que todo ele \u00e9 primoroso. Outros compromissos regimentais me impedem de discorrer ainda mais sobre a obra po\u00e9tica de Gon\u00e7alves Dias. Esquecendo o lado rom\u00e2ntico de sua poesia, mal sofrendo a compuls\u00e3o imposta por Ainda Uma Vez \u2013 Adeus!, digo duas palavras sobre a Can\u00e7\u00e3o do Tamoio, em que este, j\u00e1 velho, d\u00e1 conselhos, a prop\u00f3sito do nascimento de uma crian\u00e7a:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o chores, meu filho;<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o chores, que a vida<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 luta renhida:<\/em><br \/>\n<em>Viver \u00e9 lutar.<\/em><br \/>\n<em>A vida \u00e9 combate,<\/em><br \/>\n<em>Que os fracos abate,<\/em><br \/>\n<em>Que os fortes, os bravos<\/em><br \/>\n<em>S\u00f3 pode exaltar.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<br \/>\n<em>Domina, se vive;<\/em><br \/>\n<em>Se morre, descansa<\/em><br \/>\n<em>Dos seus na lembran\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em>Na voz do porvir.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o cures da vida!<\/em><br \/>\n<em>S\u00ea bravo, s\u00ea forte!<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o fujas da morte,<\/em><br \/>\n<em>Que a morte h\u00e1 de vir!<\/em><br \/>\n<em>E pois que \u00e9s meu filho,<\/em><br \/>\n<em>Meus brios reveste;<\/em><br \/>\n<em>Tamoio nasceste,<\/em><br \/>\n<em>Valente ser\u00e1s.<\/em><br \/>\n<em>S\u00ea duro guerreiro<\/em><br \/>\n<em>Robusto, fragueiro,<\/em><br \/>\n<em>Bras\u00e3o dos tamoios<\/em><br \/>\n<em>Na guerra e na paz.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 conselho este, todos percebem, de uma perenidade que vale at\u00e9 nossos dias.<\/p>\n<p>Acode-me ao esp\u00edrito, neste momento, o per\u00edodo de 1939 a 1943, quando, estudante na Bahia, costumava frequentar, sempre que abertas ao p\u00fablico, as reuni\u00f5es culturais havidas no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico da Bahia, bem assim no Gabinete Portugu\u00eas de Leitura. A esse tempo, Rui Barbosa na prosa e Castro Alves na poesia eram os \u00eddolos baianos. Influenciado por meu saudoso e inesquec\u00edvel amigo Josaphat Marinho, embrenhei-me no estudo das obras de ambos os autores, com ele comentando as passagens que me prendiam mais a aten\u00e7\u00e3o. Ao longo do tempo, destes me tornei um admirador incondicional, de tal modo que, hoje, mais de 60\u00a0anos decorridos, ainda me emociono na releitura de suas obras, que me fazem retornar ao tempo de minha mocidade.<\/p>\n<p>Mas, perguntar-me-\u00e3o os que ora me ouvem, por que relembrar, aqui e agora, palestras e confer\u00eancias que ocorreram h\u00e1 tanto tempo na Bahia? Explico-me: sob a lideran\u00e7a de Carlos Chiachio, que era baiano adotivo, seguido do poeta H\u00e9lio Sim\u00f5es e de uma pl\u00eaiade de jovens intelectuais, publicava-se o <em>Jornal de Ala<\/em>, \u00f3rg\u00e3o de divulga\u00e7\u00e3o da ala mo\u00e7a e renovadora da poesia baiana. Emblem\u00e1tico como Gon\u00e7alves Dias, Castro Alves era sempre relembrado e, na oportunidade, faziam os conferencistas refer\u00eancia elogiosa ao nosso cantor dos Timbiras. Maranhense, embora no anonimato de minha condi\u00e7\u00e3o de estudante de primeiras letras de Direito em meio \u00e0 alta cultura baiana, eu me sentia lisonjeado; afinal, Gon\u00e7alves Dias em Caxias e eu em Timon \u00e9ramos vizinhos.<\/p>\n<p>Permitam-me, pois, retribua eu, hoje, nesta nossa Academia Maranhense de Letras, depois de tantos anos, aquelas refer\u00eancias sempre feitas \u00e0 obra de Gon\u00e7alves Dias, recordando aqui alguns trechos da obra po\u00e9tica de Castro Alves, aquele que, aos 17 anos, sentiu dentro de si o \u201cborbulhar do g\u00eanio\u201d e que, n\u00e3o obstante pequeno, s\u00f3 fitava os Andes.<\/p>\n<p>Referindo-se ao poeta, assim se pronuncia Rui Barbosa, que foi seu contempor\u00e2neo, tanto no Recife, como na Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo: \u201cO mais \u00edntimo de sua alma, impetuosamente apaixonada pela verdade, pelo belo, pelo bem, comunicou sempre com as alturas alpinas do seu g\u00eanio por um jato cont\u00ednuo dessa lava sagrada, que fazia dos seus l\u00e1bios uma <sub>3 <\/sub>cratera incendiada em sentimentos sublimes\u201d.<\/p>\n<p>Deus me concedeu a gra\u00e7a, mesmo na idade provecta, de n\u00e3o maldizer dos poetas, de n\u00e3o lhes tecer cr\u00edticas, nem lhes\u00a0querer empanar o brilho de profetas das grandes mudan\u00e7as por\u00a0que tem passado a humanidade. Que seria de n\u00f3s, pobres mortais, sem essa suprassensibilidade que lhes orna o esp\u00edrito, sem esse poder m\u00e1gico de ver o invis\u00edvel, de sentir o imponder\u00e1vel, de at\u00e9 \u201cver e entender estrelas\u201d, como acontecia com Olavo Bilac?<\/p>\n<p>Compreende-se que cada poeta h\u00e1 de ter maneira pr\u00f3pria de interpretar a sua circunst\u00e2ncia, de viv\u00ea-la e, muitas vezes, em lampejos de g\u00eanio, de at\u00e9 antever o porvir. \u00c9 natural, portanto, que os poetas nossos contempor\u00e2neos tenham concep\u00e7\u00f5es diferentes, inclusive da arte po\u00e9tica. \u00c9 seu direito de poeta. Seus sentimentos, sua vis\u00e3o de mundo s\u00e3o outras, que n\u00e3o a de Gon\u00e7alves Dias, com seu indianismo, e Castro Alves, com seus voos de condor.<\/p>\n<p>Os poetas, como bem acentua Mello Mour\u00e3o, \u201cn\u00e3o se maculam com o ef\u00eamero pensamento do tempo, com o falso primado da raz\u00e3o do tempo e, por isso, produzem uma poesia pura. Falam o dialeto morto da grandeza humana, como se n\u00e3o tivessem sa\u00eddo da eternidade sen\u00e3o para uma breve estada <sub>4 <\/sub>na terra\u201d.\u00a0 As Academias de Letras hoje, mais do que ontem, admitem elementos de v\u00e1rias vertentes culturais, que lhes d\u00e3o, no conjunto, certo matiz de universalidade, o que enriquece seu patrim\u00f4nio de conhecimento. Os pr\u00f3prios poetas contempor\u00e2neos, quando inovam na forma, as mudan\u00e7as substanciais s\u00e3o de fundo, de conte\u00fado, numa linguagem semi\u00f3tica, algumas vezes herm\u00e9tica, em que o mais importante da mensagem fica subentendido ou expresso de maneira subliminar. Mas \u00e9 sem d\u00favida uma literatura densa de realidade social, de an\u00e1lise e cr\u00edtica das estruturas pol\u00edticas, num anseio permanente por mais justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Com a devida v\u00eania, portanto, releiamos alguns trechos da poesia Quem D\u00e1 aos Pobres, Empresta a Deus, de Castro\u00a0Alves:<\/p>\n<p><em>Eu que a pobreza de meus pobres cantos<\/em><br \/>\n<em>Dei aos her\u00f3is \u2013 aos miser\u00e1veis grandes \u2013,<\/em><br \/>\n<em>Eu, que sou cego, \u2013 mas s\u00f3 pe\u00e7o luzes&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Que sou pequeno, \u2013 mas s\u00f3 fito os Andes&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Canto nest\u2019hora, como o bardo antigo<\/em><br \/>\n<em>Das priscas eras, que bem longe v\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>O grande nada dos her\u00f3is, que dormem<\/em><br \/>\n<em>Do vasto pampa no fun\u00e9reo ch\u00e3o&#8230;<\/em><br \/>\nE mais adiante, j\u00e1 que n\u00e3o devo transcrever todo o poema:<br \/>\n<em>E esses Leandros do Helesponto novo<\/em><br \/>\n<em>Se resvalaram \u2013 foi no ch\u00e3o da hist\u00f3ria&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Se trope\u00e7aram \u2013 foi na eternidade&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Se naufragaram \u2013 foi no mar da gl\u00f3ria&#8230;<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1 duas cousas neste mundo santas:<\/em><br \/>\n<em>O rir do infante, \u2013 o descansar do morto&#8230;<\/em><br \/>\n<em>O ber\u00e7o \u2013 \u00e9 a barca que encalhou na vida,<\/em><br \/>\n<em>A cova \u2013 \u00e9 a barca do sid\u00e9reo porto&#8230;<\/em><\/p>\n<p>No apoucado conhecimento que tenho dessa arte excelsa (que me perdoem os competentes na mat\u00e9ria), s\u00f3 me cabe aplaudir e admirar os poetas, esses privilegiados dos deuses, capazes de inspira\u00e7\u00f5es t\u00e3o sublimes!<\/p>\n<p>Sobre os escravos, que \u201ccerraram os olhos no cativeiro\u201d, eis, numa quadra-s\u00edntese, o que nos diz Castro Alves:<\/p>\n<p><em>Caminheiro, do escravo desgra\u00e7ado<\/em><br \/>\n<em>O sono agora mesmo come\u00e7ou.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o lhe toqueis no leito do noivado:<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1 pouco a liberdade o desposou.<\/em><\/p>\n<p>Sem querer abusar da paci\u00eancia dos ouvintes, leio mais\u00a0alguns versos, tirados de O Navio Negreiro:<\/p>\n<p><em>Era um sonho dantesco&#8230; O tombadilho<\/em><br \/>\n<em>Que das luzernas avermelha o brilho,<\/em><br \/>\n<em>Em sangue a se banhar.<\/em><br \/>\n<em>Tinir de ferros&#8230; estalar do a\u00e7oite&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Legi\u00f5es de homens negros como a noite,<\/em><br \/>\n<em>Horrendos a dan\u00e7ar&#8230;<\/em><\/p>\n<p>E no final do poema:<\/p>\n<p><em>E existe um povo que a bandeira empresta<\/em><br \/>\n<em>P\u2019ra cobrir tanta inf\u00e2mia e cobardia&#8230;<\/em><br \/>\n<em>E deixa-a transformar-se nessa festa<\/em><br \/>\n<em>Em manto impuro de bacante fria!&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira \u00e9 esta,<\/em><br \/>\n<em>Que impudente na g\u00e1vea tripudia?!&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Sil\u00eancio!&#8230; Musa! Chora, chora tanto<\/em><br \/>\n<em>Que o pavilh\u00e3o se lave no teu pranto&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Auriverde pend\u00e3o de minha terra,<\/em><br \/>\n<em>Que a brisa do Brasil beija e balan\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em>Estandarte que a luz do sol encerra,<\/em><br \/>\n<em>E as promessas divinas da esperan\u00e7a&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Tu, que da liberdade ap\u00f3s a guerra,<\/em><br \/>\n<em>Foste hasteada dos her\u00f3is na lan\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em>Antes te houvessem roto na batalha.<\/em><br \/>\n<em>Que servires a um povo de mortalha!<\/em><\/p>\n<p>S\u00f3 a arte \u00e9 capaz de dar vaz\u00e3o a sentimentos de tal magnitude. J\u00e1 havia eu dito, em trabalho anterior, que \u201cnossos\u00a0h\u00e1bitos racionalistas nos impedem, quase sempre, de admitir as verdades do cora\u00e7\u00e3o ou a verdade afetiva, uma como adequa\u00e7\u00e3o dos nossos sentimentos \u00e0quilo que nos afeta, que nos sensibiliza. S\u00e3o como que dois mundos (o racional e o afetivo) dentro do nosso mundo interior. E n\u00e3o podemos, <em>a priori<\/em>, dizer qual dos dois (se o da intelig\u00eancia, se o dos sentimentos) \u00e9 o mais verdadeiro. Se, acaso, se op\u00f5em, cria-se-nos o dilema: decidirmo-nos pela intelig\u00eancia, ou seguir a via dos sentimentos? S\u00e3o dois caminhos diferentes, que nos levam a mundos tamb\u00e9m diferentes: um desbravado e constru\u00eddo pela raz\u00e3o; outro, ancestral, afetivo, que nos prende <sub>5 <\/sub>a nossas ra\u00edzes&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Quem pode \u2013 pergunto agora \u2013 ouvir uma bela m\u00fasica, ou a declama\u00e7\u00e3o vivenciada de uma bela poesia, sem sentir certo enlevo, um como \u00eaxtase, que nos transporta espiritualmente para al\u00e9m do cotidiano? Sem d\u00favida, a emo\u00e7\u00e3o nos chega por outra via, que n\u00e3o a da racionalidade, e nos introduz no universo pouco explorado de nossa afetividade. Que me importa a mim, eu que n\u00e3o sou um virtuose da arte musical, n\u00e3o ter, por exemplo, o pleno dom\u00ednio da partitura, se o que me basta \u00e9 me toquem o cora\u00e7\u00e3o alguns acordes?<\/p>\n<p>Tal como afirma Souriau, a ci\u00eancia \u00e9 a est\u00e9tica da intelig\u00eancia. Como a poesia, ambas nos fascinam, porque s\u00e3o belas. Aqui fica, pois, singelamente embora, minha homenagem e minha saudade da velha Bahia, de onde trouxe o gosto pelos estudos s\u00e9rios, a princ\u00edpio no campo das letras, depois, no das ci\u00eancias sociais e, sobretudo, no da filosofia. A esse tempo, tornei-me seu s\u00fadito fiel, lendo <em>A Rep\u00fablica,<\/em> de Plat\u00e3o. No livro VII, apresenta-nos a alegoria da caverna, que Mello Mour\u00e3o, numa s\u00edntese admir\u00e1vel, assim descreve:<\/p>\n<p>T<em>odos conhecem o epis\u00f3dio da Caverna de Plat\u00e3o, exemplar para a distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 e o que parece ser: uns homens viviam numa caverna, donde nunca sa\u00edam. Do mundo exterior conheciam apenas as sombras que se desenhavam no ch\u00e3o ou nas paredes da caverna, sempre que algu\u00e9m passava diante de sua abertura, para a qual tinham voltadas as costas.<br \/>\n<\/em><em>Acreditavam, ent\u00e3o, que todos os seres que viviam fora da gruta eram puras sombras. Um dia, um dos habitantes da caverna veio \u00e0 superf\u00edcie da terra e viu os homens de carne e osso que ali se moviam. Voltou \u00e0 gruta e contou aos outros que as pessoas n\u00e3o eram aquelas sombras. Eram seres humanos perfeitos e acabados, e as sombras eram apenas a proje\u00e7\u00e3o de suas figuras.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o acreditaram. Denunciaram-no como mentiroso. Julgaram-no como impostor e o mataram, para que n\u00e3o continuasse a perturbar a paz da caverna, destruindo a verdade que sabiam. Foi \u2013 e ser\u00e1 sempre uma temeridade \u2013 para o homem de todos os tempos, sair das cavernas em que o conhecimento se limita \u00e0quilo que parece ser e, <sub>7 <\/sub>pois, a um falso conhecimento.<\/em><\/p>\n<p>Muitos anos mais tarde, j\u00e1 reitor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, indo frequentemente a Bras\u00edlia, por dever do cargo, encontrei-me com o Josaphat, a essa \u00e9poca senador da Rep\u00fablica. Marcamos um encontro em seu apartamento. A conversa se alongou pela noite a dentro, a relembrar uma conviv\u00eancia de quase cinco anos, quando ambos mor\u00e1vamos numa bela casa senhorial, \u00e0 avenida Joana Ang\u00e9lica, N\u00ba 126. Foram momentos de recorda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis! Na verdade, \u00e9 esse o prazer maior da velhice: recordar o passado. Enquanto o jovem vive da esperan\u00e7a, o velho revive na saudade \u2013 um olhar interior e retrospectivo da longa estrada percorrida, aqui e ali pontilhada\u00a0de recorda\u00e7\u00f5es! Afinal, como bem o disse o poeta J\u00falio Dantas, \u201cOlhemos para traz\/ lembremo-nos da vida&#8230;\/ A saudade de um velho \u00e9 uma estrada florida!\u201d<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo ocupante<\/strong><\/p>\n<p>Embora j\u00e1 decorrido um ano do seu falecimento, ainda podemos dizer que \u00e9 por demais recente o desaparecimento do professor M\u00e1rio Meireles de nosso conv\u00edvio, tal a sua presen\u00e7a marcante nesta Casa e em nosso meio cultural. \u00daltimo ocupante da Cadeira N\u00ba 9 desta Academia, que tem como patrono Gon\u00e7alves Dias, ingressou ele neste Sodal\u00edcio aos 33 anos, trazendo como bagagem, por singular que pare\u00e7a, uma colet\u00e2nea de poesias. \u00c9 que, no Maranh\u00e3o, os mo\u00e7os, entre l7 e 25 anos, s\u00e3o todos poetas. Os verdadeiros permanecem; os ef\u00eameros, com o tempo, desaparecem.<\/p>\n<p>Desde muito cedo, demonstrou M\u00e1rio especial voca\u00e7\u00e3o para os estudos hist\u00f3ricos. Mor\u00e1vamos na mesma rua de Santaninha, eu uma quadra abaixo da dele. Encontr\u00e1vamo-nos, invariavelmente, todos os dias, ou em sua casa (sua m\u00e3e era irm\u00e3 de meu pai), ou \u00e0 noite, quando ia \u00e0 minha (creio que a esse tempo, com 17 ou 18 anos, j\u00e1 estivesse ele arrastando a asa para minha irm\u00e3 Maria Jos\u00e9, com quem se casaria, um ano mais nova e estudante do Col\u00e9gio Santa Teresa).<\/p>\n<p>Suas conversas sempre giravam em torno de aspectos hist\u00f3ricos, ora comentando as not\u00edcias dos jornais relativas a nosso Estado, ao Brasil ou a outros pa\u00edses, ora ilustrando, com epis\u00f3dios da hist\u00f3ria universal, algum fato que se estivesse relatando.<\/p>\n<p>Fez o curso ginasial no Instituto Viveiros, na rua da Paz, canto com o beco dos Craveiros, num sobrad\u00e3o ainda l\u00e1 existente. J\u00e1 funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Fazenda, foi transferido para Salvador, na Bahia. Aqui, chegou a matricular-se na Faculdade de Direito da Bahia, mas, em virtude da\u00a0incompatibilidade dos hor\u00e1rios de trabalho e das aulas, n\u00e3o p\u00f4de prosseguir os estudos. Anos mais tarde, tendo sido nomeado delegado do Imposto de Renda no Maranh\u00e3o e, a seguir, ingressado nesta Academia, passou a liderar, juntamente com Clodoaldo Cardoso, ent\u00e3o Presidente da Casa, o movimento em favor da cria\u00e7\u00e3o, nesta capital, de uma Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, fato que contou, de logo, com a simpatia e a participa\u00e7\u00e3o da Arquidiocese de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Pensando na futura Universidade do Maranh\u00e3o, os arautos do movimento conseguiram a cria\u00e7\u00e3o da Faculdade de Filosofia, que seria o n\u00facleo inicial da Universidade. Luiz Rego, com seu proverbial dinamismo e extraordin\u00e1ria capacidade de penetrar nos meandros ministeriais, obt\u00e9m a autoriza\u00e7\u00e3o de funcionamento da Faculdade, conforme Decreto N\u00ba 32.306, de 23 de abril de 1953, com os cursos de Letras Neolatinas, Geografia e Hist\u00f3ria, Pedagogia e Filosofia<\/p>\n<p>Convidado para compor o corpo docente do curso de Geografia e Hist\u00f3ria (a esse tempo, um s\u00f3 curso), M\u00e1rio ingressa no ensino superior, como professor fundador da cadeira de Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica. Aposentado, posteriormente, como delegado do Imposto de Renda, dedica-se integralmente aos estudos hist\u00f3ricos, realizando pesquisas com os alunos e aprofundando a an\u00e1lise de documentos relativos \u00e0 hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o. S\u00e3o desse per\u00edodo numerosos trabalhos.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que a Faculdade de Filosofia contou, de logo, com o integral apoio e efetiva participa\u00e7\u00e3o desta Academia. Para dizer a verdade, ela nasceu aqui. Foi aqui que a ideia se corporificou e se indicaram os seus primeiros professores: Bacelar Portela, Luiz Rego, Odilon Soares, Mata Roma, M\u00e1rio Meireles e Ruben Almeida. Para o Curso de Filosofia, a indica\u00e7\u00e3o de professores ficou a cargo da Arquidiocese de S\u00e3o Lu\u00eds, ent\u00e3o sob o comando de dom Jos\u00e9 de Medeiros Delgado, arcebispo de S\u00e3o Lu\u00eds. Era sua vontade tivesse esse curso um tronco comum, bifurcando-se, em seguida, nas gradua\u00e7\u00f5es: Filosofia propriamente dita e Teologia.<\/p>\n<p>A primeira tentativa de funcionamento de uma universidade em S\u00e3o Lu\u00eds (a Universidade do Maranh\u00e3o, criada por dom Del gado) se inviabilizou em raz\u00e3o dos altos custos. Al\u00e9m da nec essidade de equipamentos para cursos de elevada tecnologia, como, por exemplo, o de Medicina, impunha-se a imediata mobiliza\u00e7\u00e3o de um grande n\u00famero de professores, que teriam de ser recrutados, dada a escassez de nosso meio, em outros Estados da Federa\u00e7\u00e3o. Prevaleceram, ent\u00e3o, a prud\u00eancia e o bom senso: fazer-se a fus\u00e3o da Universidade Cat\u00f3lica, com suas unidades existentes, com as Faculdades Federais de Direito, Farm\u00e1cia e Odontologia, fato que deu origem \u00e0 atual Universidade Federal do Maranh\u00e3o. Esta, por um processo natural de evolu\u00e7\u00e3o do ensino superior em nossa capital, foi institu\u00edda na d\u00e9cada de 1960, pela Lei Federal N\u00ba 5.152, de 21 de outubro de 1966, sob forma de funda\u00e7\u00e3o, e instalada no ano seguinte, tendo como presidente da funda\u00e7\u00e3o o professor Clodoaldo Cardoso, como reitor da Universidade o professor Pedro Neiva de Santana, como vice-reitor administrativo o professor M\u00e1rio Meireles, e como vice-reitor pedag\u00f3gico o c\u00f4nego Ribamar Carvalho.<\/p>\n<p>Com a cria\u00e7\u00e3o da Federal, o ensino superior rapidamente se desenvolveu em nosso Estado. Veio a Universidade Estadual, sob forma de federa\u00e7\u00e3o de escolas, vieram as faculdades particulares, algumas j\u00e1 reunidas em Centro, como \u00e9 o caso do Ceuma, de tal maneira que, com esse incremento, passamos a respirar, em S\u00e3o Lu\u00eds, um ar de cidade universit\u00e1ria!<\/p>\n<p>Que diferen\u00e7a, entretanto, se comparada esta situa\u00e7\u00e3o com a de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s! Lembro-me bem que, em 1946, concluinte de Direito nesta capital, nas costumeiras conversas em frente ao Caf\u00e9 do Chico, ali, na Pra\u00e7a Jo\u00e3o\u00a0Lisboa, aventei para alguns pol\u00edticos presentes a hip\u00f3tese de criar-se em nossa terra uma universidade, a exemplo do que j\u00e1 acontecera no Cear\u00e1, gra\u00e7as aos esfor\u00e7os do professor Martins Filho. A resposta foi desoladora: o Maranh\u00e3o n\u00e3o tem clima, n\u00e3o tem ambiente para se instalar uma universidade. Era a nossa velha mentalidade retr\u00f3grada e estreita. J\u00e1 Fran Pacheco, no come\u00e7o do s\u00e9culo passado, lavrara o seu protesto. O sonho de Sous\u00e2ndrade, de criar em S\u00e3o Lu\u00eds a Universidade Atl\u00e2ntida, se desfez \u201cante o motejo alvar dos incapazes e a indiferen\u00e7a molestadora das supostas pessoas <sub>8 <\/sub>pr\u00e1ticas\u201d\u00a0 Com certeza, \u2013 dizemos n\u00f3s \u2013 n\u00e3o leram os pol\u00edticos daquela \u00e9poca a advert\u00eancia de Fernando Pessoa (1888\/1935): \u201cViver n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio; o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 criar.\u201d \u201c\u00c9 preciso deixar de pensar pequeno e pensar grande.\u201d Ser\u00e1 que conseguimos sair da caverna? Pelo ensino, j\u00e1 havia dito Rui Barbosa, em <sub>9 <\/sub>1882, \u00e9 preciso fazer Sacrif\u00edcios de Guerra!\u00a0 Nos Estados Unidos (e isto em 1848), Horace Mann, que n\u00e3o era socialista, considerava a \u201cescola p\u00fablica\u201d a maior inven\u00e7\u00e3o humana de todos os tempos e a educa\u00e7\u00e3o generalizada o meio de contrabalan\u00e7ar a <sub>10 <\/sub>tend\u00eancia de domina\u00e7\u00e3o do capital e a servilidade do trabalho.\u00a0 Entre n\u00f3s, no come\u00e7o da segunda metade do s\u00e9culo passado, ou seja, em 1953, lamentava An\u00edsio Teixeira: \u201cS\u00f3 muito lentamente \u00e9 que a escola comum se emancipou dos modelos intelectualistas para dar lugar \u00e0 escola moderna, pr\u00e1tica e eficiente, com um programa de atividades e n\u00e3o de \u2018mat\u00e9rias,\u2019 iniciadora nas artes do trabalho e do pensamento reflexivo, ensinando o aluno a viver inteligentemente e a participar responsavelmente da sua sociedade.\u201d<\/p>\n<p>Conclu\u00eddo este par\u00eantese, fa\u00e7amos, a seguir, uma ligeira s\u00edntese do <em>curriculum<\/em> <em>vitae<\/em> do professor M\u00e1rio Meireles. Exerceu ele, entre muitos outros, os cargos de delegado do Imposto de Renda, no qual foi aposentado em 1965; diretor do Banco do Maranh\u00e3o; chefe da Casa Civil do governador Pedro Neiva de Santana; professor de Hist\u00f3ria Universal no Col\u00e9gio Cysne (1940); professor fundador de Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras \u2013 1953; chefe do Departamento de Hist\u00f3ria da Ufma; chefe de Gabinete do reitor da Ufma; vice reitor da Ufma.<\/p>\n<p>Participou, ainda, de in\u00fameros semin\u00e1rios e confer\u00eancias, dentro e fora do Estado; era s\u00f3cio efetivo do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o e do Conselho de Cultura do Maranh\u00e3o e s\u00f3cio correspondente de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es similares, tais como a Academia Paulista de Letras, a Academia de Letras do Tri\u00e2ngulo Mineiro, a Academia Carioca de Letras, a Academia de Letras de Santos e os Institutos Geogr\u00e1ficos e Hist\u00f3ricos do Rio de Janeiro, de S. Paulo e da Para\u00edba. Foi agraciado com numerosas comendas e medalhas, dentre as quais a de cavaleiro da Ordem das Palmes Academiques, concedida pelo governo franc\u00eas.<\/p>\n<p>Das mais de duas dezenas de obras publicadas, vale referenciar: <em>Gon\u00e7alves Dias e Ana Am\u00e9lia<\/em>; <em>Panorama da literatura maranhense<\/em>; <em>Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o<\/em>; <em>Fran\u00e7a Equinocial<\/em>; <em>Catulo, seresteiro e poeta<\/em>; Hist\u00f3ria da Independ\u00eancia do <em>Maranh\u00e3o<\/em> e <em>Hist\u00f3ria da Arquidiocese de S\u00e3o Lu\u00eds<\/em>.<\/p>\n<p>Tantas foram as suas atividades culturais, que seu <em>curriculum<\/em> <em>vitae<\/em> cont\u00e9m cerca de 100 itens Como historiador, adquiriu M\u00e1rio Meireles proje\u00e7\u00e3o nacional e at\u00e9 internacional. Suas obras s\u00e3o comumente mencionadas por autores de outros Estados e de pa\u00edses, como Portugal e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Convivendo conosco at\u00e9 o ano passado e em plena capacidade f\u00edsica e mental, n\u00e3o podemos pensar em M\u00e1rio Meireles como um ausente. Extremamente conhecido e \u00a0estimado em nosso meio, sua atividade de escritor exerceu-a at\u00e9 a v\u00e9spera de sua morte, deixando alguns trabalhos inconclusos. A seu respeito, assim se pronunciou Am\u00e9rico Azevedo Neto, jornalista, teatr\u00f3logo e poeta, membro desta Academia de Letras, em artigo publicado no jornal <em>O Estado do Maranh\u00e3o<\/em>, de 5 de mar\u00e7o de 1988, admirado de sua simplicidade no trato das pessoas que o procuravam:<\/p>\n<p>\u201cFrancamente \u2013 pensei \u2013 um homem desses, com um volume de conhecimentos desse, n\u00e3o poderia, nunca, estar em mangas de camisa. Essa \u00e9 uma das culturas que, pela impon\u00eancia, pela import\u00e2ncia, pela majestade, solicita sempre palet\u00f3.\u201d<\/p>\n<p><strong>Agradecimento<\/strong><\/p>\n<p>Encerrando minhas palavras, cumpre-me agradecer, em primeiro lugar, ao grupo de amigos acad\u00eamicos, que porfiada e afetivamente me convenceu a enfrentar os riscos da candidatura a membro desta institui\u00e7\u00e3o. Relutei quanto pude, pois me parecia a empreitada superior \u00e0s minhas for\u00e7as, debilitadas pela idade. Mas, n\u00e3o h\u00e1 resistir ao poder do afeto, quando sincero e espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o, igualmente, aos que sufragaram o meu nome em outubro do ano passado, alguns at\u00e9 sem me conhecerem pessoalmente, mas, abrindo-me um cr\u00e9dito de confian\u00e7a, atenderam ao apelo que lhes foi feito. Aos que n\u00e3o votaram, estou certo de que contarei com sua cortesia, tolerando-me o conv\u00edvio.<\/p>\n<p>Reitero meus agradecimentos \u00e0s autoridades, aos parentes, aos amigos e convidados, cujas presen\u00e7as honram e abrilhantam esta festa. Alguns j\u00e1 me haviam demonstrado o seu carinho atrav\u00e9s de telegramas e telefonemas.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, dois agradecimentos especiais. O primeiro, ao Presidente desta Casa, dr. Jomar Moraes, amigo de muitos anos e de todas as horas, que me fez reverter ao tempo de mo\u00e7o, propiciando-me, al\u00e9m de outras informa\u00e7\u00f5es, a leitura de obras relacionadas com os ocupantes desta Cadeira. Os in\u00fameros afazeres de minha vida profissional haviam deixado \u00e0 margem os poetas, pela press\u00e3o mesma dos compromissos di\u00e1rios. Ele me abriu a oportunidade de renascer para esse mundo m\u00e1gico e encantado, todo ele constru\u00eddo de abstra\u00e7\u00f5es e utopias, \u00e9 certo, mas que nos apaixona e revigora o esp\u00edrito. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver autenticamente, sem um ideal, em fun\u00e7\u00e3o do qual se vive e at\u00e9, se for o caso, se morre; sem construir uma utopia, sem se apaixonar pelo que quer que seja, num anseio pelo imposs\u00edvel ou pelo apenas virtual. Quem tem um ideal \u2013 j\u00e1 havia dito Ingenieros \u2013 vive dele. Os primeiros crist\u00e3os deram exemplos heroicos disso. Da\u00ed a afirma\u00e7\u00e3o de Hegel: nada de grande foi feito no mundo sem paix\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo agradecimento \u00e9 a minha esposa e a minha filha, ambas aqui presentes. Inabal\u00e1vel em sua f\u00e9, minha Maria seguiu sempre as pegadas do Cirineu b\u00edblico: h\u00e1 57 anos carrega comigo, crist\u00e3mente, esta pesada cruz, of\u00edcio esse cada vez mais dif\u00edcil com o passar dos anos. Primeira interlocutora de meus escritos, se algo n\u00e3o lhe parece bem, j\u00e1 sei que \u00e9 preciso reformular. Enfrentando, comigo, em mais de meio s\u00e9culo de exist\u00eancia, as turbul\u00eancias da vida, tem sido sempre minha seguran\u00e7a, meu ponto de apoio. Quanto a minha filha Iomara, \u00e9 ela o bra\u00e7o forte no atendimento de meus compromissos e na realiza\u00e7\u00e3o de meus trabalhos. Modificando, portanto, um pouco o que a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 popularizou e guardando-as no cora\u00e7\u00e3o, como num escr\u00ednio sagrado, posso apenas dizer, com todo o meu afeto: \u201cs\u00f3 n\u00f3s tr\u00eas \u00e9 que sabemos o quanto nos queremos bem\u201d.<\/p>\n<p>Muito obrigado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em Timon-MA, a 27 de mar\u00e7o de 1920. Filho de Urbano de Souza Martins e Ana Ot\u00edlia Ramos Martins. 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