{"id":3375,"date":"2020-09-19T07:15:18","date_gmt":"2020-09-19T10:15:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=3375"},"modified":"2020-09-20T07:17:16","modified_gmt":"2020-09-20T10:17:16","slug":"o-poeta-jose-maria-nascimento-aniversaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/o-poeta-jose-maria-nascimento-aniversaria\/","title":{"rendered":"O poeta Jos\u00e9 Maria Nascimento aniversaria"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3376\" style=\"width: 680px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3376\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3376\" src=\"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/1600343565-447133494-747x429.jpg\" alt=\"\" width=\"670\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/1600343565-447133494-747x429.jpg 747w, https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/1600343565-447133494-747x429-300x172.jpg 300w, https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/1600343565-447133494-747x429-382x219.jpg 382w\" sizes=\"(max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/><p id=\"caption-attachment-3376\" class=\"wp-caption-text\">Poeta Jos\u00e9 Maria Nascimento \u00e9 natural de S\u00e3o Lu\u00eds (Divulga\u00e7\u00e3o \/ Meireles Jr.)<\/p><\/div>\n<p>S\u00e3o Lu\u00eds &#8211; No \u00faltimo dia 18 de setembro nosso querido poeta Jos\u00e9 Maria Nascimento completou 80 anos de vida bem vivida. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Iniciou sua trajet\u00f3ria po\u00e9tica em 1960 com o lan\u00e7amento, aos 20 anos de idade, de \u201cHarmonia do Conflito\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1 foram 14 livros de poesia trazidos a p\u00fablico, talvez menos apenas, em mat\u00e9ria de poesia em todo o Maranh\u00e3o, que o seu grande amigo Nauro Machado e Jos\u00e9 Chagas.<\/p>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"moz-reader-content reader-show-element\">\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>Jos\u00e9 Maria Nascimento nasceu no sub\u00farbio de S\u00e3o Lu\u00eds, no Areal, hoje bairro do Monte Castelo, filho de Jo\u00e3o Pereira do Nascimento, um simples vigia do Matadouro, e de Neuza da Silva Nascimento, uma modesta dona de casa. \u00c9 o ca\u00e7ula de quatro irm\u00e3os: Nonato, M\u00e1rio, Jorge e Guilherme. E foi com simplicidade que enfrentou a vida, apesar das dificuldades, das adversidades muitas, das ang\u00fastias que lhe aguardavam em cada esquina. Assim, nascido em 1940, em plena efervesc\u00eancia da II Guerra Mundial, fez (na nomenclatura da \u00e9poca) o Jardim de Inf\u00e2ncia, 1\u00aa e 2\u00aa s\u00e9ries e o restante do Prim\u00e1rio em tr\u00eas Grupos do Estado e no Col\u00e9gio Santa Terezinha. O 1\u00ba ano ginasial jamais foi conclu\u00eddo. O poeta abandonou completamente os estudos formais. Nesse per\u00edodo dedicou-se com entusiasmo \u00e0s serestas, lutas-livres e ao twist, dan\u00e7a em moda na sua adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Vencido esse entusiasmo, passa a frequentar a Biblioteca P\u00fablica Benedito Leite e torna-se um autodidata. Apaixona-se pela literatura e estuda os livros, e ali passa mais de tr\u00eas anos copiando diversos autores da literatura brasileira e universal, tanto poetas quanto de prosa. Publica no \u201cJornal Pequeno\u201d seu primeiro poema. Chama a aten\u00e7\u00e3o dos literatos da \u00e9poca, mas esses acham que ele estava se estragando com a vida boemia e as noitadas na Zona do Baixo Meretr\u00edcio, a famosa ZBM, \u00fanica op\u00e7\u00e3o para as altas madrugadas da \u00e9poca. Aos 16 enamora-se de uma normalista e faz poemas apaixonados para ela. Dos 18 aos 19 serve ao Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Funda, com outros companheiros literatos, a rebelde Academia Maranhense dos Novos \u2013 AMANO. Nessa \u00e9poca, morre-lhe o pai, grande incentivador do seu futuro como poeta. Arrasado, entrega-se de vez ao alcoolismo. \u00c9 um per\u00edodo de muita dor, muito sofrimento, muita ang\u00fastia. Nos raros momentos de lucidez, consegue exteriorizar o que lhe vai no esp\u00edrito. Em luta contra o desespero, consegue escrever seu livro de estreia \u201cHarmonia do Conflito\u201d. Este livro vence o concurso promovido pela AMANO e \u00e9 publicado por esta Academia. Tem ent\u00e3o 20 anos, e estamos na d\u00e9cada de 60. O poeta, jornalista e cr\u00edtico liter\u00e1rio Jos\u00e9 Chagas afirmou:<\/p>\n<p>\u201cJos\u00e9 Maria Nascimento come\u00e7a a identificar-se consigo mesmo, num profundo redescobrimento, e tra\u00e7a um roteiro l\u00edrico, atrav\u00e9s do qual suas viv\u00eancias ganham leg\u00edtimas exterioriza\u00e7\u00f5es condicionadas e uma tem\u00e1tica livre, que varia em fun\u00e7\u00e3o da inquietude do esp\u00edrito, nota caracter\u00edstica neste mo\u00e7o pertencente a uma gera\u00e7\u00e3o de intelectuais que quase n\u00e3o encontra em nosso tempo outro apoio sen\u00e3o o da pr\u00f3pria ang\u00fastia.\u201d<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria Nascimento foi Diretor do \u201cSuplemento Liter\u00e1rio do Correio do Nordeste\u201d. Na verdade, colaborou em quase todos os jornais de S\u00e3o Lu\u00eds. Por sua colabora\u00e7\u00e3o, ganhou alguns pr\u00eamios dos suplementos do \u201cJornal O Dia\u201d e do \u201cJornal O Debate\u201d, todos eles organizados pelo saudoso poeta Carlos Cunha.<\/p>\n<p>Em 1970, nosso poeta, junto com sua m\u00e3e e seu irm\u00e3o, o poeta e jornalista Jorge Nascimento, passa a residir em Recife, onde ficou durante seis anos. Por outro lado, como n\u00e3o podia deixar de ser, ali deu vaz\u00e3o \u00e0 veia de bo\u00eamio<\/p>\n<p>\u201c&#8230; j\u00f3quei domador de um cavalo em pelo e por ele montado em madrugada (ou noite) de espasm\u00f3dica bebedeira que o levaria \u00e0s barras de uma pris\u00e3o no Recife, por onde lhe ouvi o vencedor grito de despedida: \u00d3 Nauro, eu estou aqui\u201d,<\/p>\n<p>como lembrado por Nauro Machado. Na verdade, Jos\u00e9 Maria Nascimento afirma que era uma bela manh\u00e3 de domingo ao ser flagrado a galopar \u201cmeio b\u00eabado\u201d em cima de um cavalo nu em pelo (o cavalo) na animada praia de Boa Viagem.<\/p>\n<p>Dando prosseguimento \u00e0s suas aventuras, na capital pernambucana conheceu, entre outros intelectuais, Mauro Mota, e mutuamente identificados pela poesia, se tornaram grandes amigos.Conheceu tamb\u00e9m Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, C\u00e9sar Leal e Valdemar de Oliveira, personalidades de destaque do romance, da poesia e do teatro, respectivamente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dois anos de conviv\u00eancia com a intelectualidade e de contato di\u00e1rio com o povo do Recife(PE), principalmente os feirantes e frequentadores da feira, costumava observar os costumes, e os bairros onde se desenrolava a vida cultural recifense, escreveu o belo poema chamado \u201cGra\u00e7as &amp; Danos ou Reflexos Noturnos do Recife\u201d, quando em memor\u00e1vel concurso de \u00e2mbito nacional, disputou com mais de duzentos concorrentes, obtendo o primeiro lugar \u2013 o Pr\u00eamio Medalha de Ouro do Recife, em 1972, cuja solenidade realizou-se no secular e majestoso Teatro Santa Isabel.<\/p>\n<p>Morre-lhe a m\u00e3e, amiga da qual nunca se separou desde a inf\u00e2ncia. Seus restos mortais s\u00e3o transferidos para o Cemit\u00e9rio do Gavi\u00e3o, em S\u00e3o Lu\u00eds, para ficarem juntos aos do esposo.<\/p>\n<p>A tristeza com a morte de sua m\u00e3e ele a expressa no poema \u201cAs Paisagens Nubladas\u201d:<\/p>\n<p>M\u00e3e \u2013olha como o horizonte tornou-se nublado<\/p>\n<p>depois da tua descida \u00e0s ilumina\u00e7\u00f5es de novos mundos.<\/p>\n<p>Meses noturnos infernais<\/p>\n<p>ferem as cores da saudade<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>V\u00ea a minha inf\u00e2ncia retratada nos olhos das tuas netas<\/p>\n<p>pobres crian\u00e7as sem a ternura da tua velhice.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>As coisas me envolvem em seu sil\u00eancio<\/p>\n<p>que a beleza n\u00e3o est\u00e1 no rosto \u2013 mas nos atos;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>M\u00e3e, se o abismo \u00e9 fundo o rio \u00e9 frio<\/p>\n<p>(,,,)<\/p>\n<p>Adeus \u2013 aqui eu findo antes que me acabe.<\/p>\n<p>Amargurado, volta a residir na capital maranhense. Acha tudo mudado. Os amigos, ausentes. Os bares onde encontra os companheiros de cacha\u00e7a e literatura, agora estavam cheios de pessoas estranhas. A solid\u00e3o \u00e9 grande. Passa tardes intermin\u00e1veis na igreja do Carmo. Volta ao c\u00edrculo do v\u00edcio, desta vez com maior profundidade. Arrisca a vida na bebedeira. A exist\u00eancia perdeu a raz\u00e3o de ser. Vive um cotidiano de amargura, ceticismo, obscura trag\u00e9dia, sofrimentos. Dores na alma. Ang\u00fastia infind\u00e1vel, turbul\u00eancias que s\u00f3 a solid\u00e3o, o nada responde!<\/p>\n<p>\u00c9 internado \u00e0s pressas na Liga Maranhense Contra Tuberculose. Na tranquilidade tristonha do hospital, naquela melancolia sem fim, naquela solid\u00e3o tristonha escreve \u201cCarrossel Ensolarado\u201d. Ao sair da Liga, conhece a artista pl\u00e1stica e cantora l\u00edrica Maria da Gra\u00e7a, com quem vem a casar-se. Apesar do amor e do apoio de sua mulher, sua vida de farrista intensifica-se. Isola-se no bairro de Vinhais onde conclui \u201cOs Verdes Anos da Maturidade\u201d, tendo j\u00e1 na gaveta \u201cContempla\u00e7\u00e3o dos Templos\u201d. Nasce a sua primeira filha Layane. Vai ao enterro do grande Erasmo Dias, onde faz um dram\u00e1tico discurso f\u00fanebre. Muda-se para a Rua do Ribeir\u00e3o, onde nasce sua segunda filha Tayane.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria Nascimento \u00e9 da gera\u00e7\u00e3o de poetas imediatamente posterior ao famoso trio formado por Nauro Machado (2\/8\/1935-28\/11\/2015), Bandeira Tribuzi (2\/2\/1927-8\/9\/1977) e Jos\u00e9 Chagas (29\/10\/1924-13\/05\/2014). Embora todos fossem mais velhos que ele, a sua grande amizade era com Nauro Machado. Os dois poetas muito viveram a boemia na ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, nas ladeiras entre casar\u00f5es, nos bares do Portinho e Praia Grande e nos cabar\u00e9s da Rua 28 de Julho fazendo farras alco\u00f3licas num tempo em que n\u00e3o havia outras divers\u00f5es na cidade. Na verdade Jos\u00e9 Maria Nascimento \u00e9 um dos \u00faltimos poetas da gera\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>Se Nauro Machado expressava em sua poesia a ang\u00fastia da solid\u00e3o humana frente ao infinito, a busca de Deus como grito \u00faltimo e desesperado; se Tribuzi bradava contra a injusti\u00e7a social, contra a crueldade do homem em fazer-se cruel contra o pr\u00f3prio homem; se Chagas cantava o lirismo da bela cidade de S\u00e3o Lu\u00eds, seus casar\u00f5es, telhados, ladeiras toda a sua beleza aparente e escondida, Jos\u00e9 Maria Nascimento trazia, das profundezas de seu sofrimento e solid\u00e3o, uma poesia confessional. Do sil\u00eancio e da saudade redescobre a inf\u00e2ncia. Da inf\u00e2ncia traz os versos condo\u00eddos de \u201cEstrada de Ferro (Os Verdes Anos da Maturidade)\u201d:<\/p>\n<p>Quem plantou neste rosto a nostalgia<\/p>\n<p>e espancou a manh\u00e3 da minha inf\u00e2ncia?<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Sempre me encontrei onde nunca estava a minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ultrapassada a inf\u00e2ncia, vive as turbul\u00eancias da adolesc\u00eancia e da juventude. \u00c9 quando vive entre Recife e S\u00e3o Lu\u00eds. O verso Oh pai em que bonde ficou minha juventude? expressa bem essa ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Tem na figura do pai um apoio muito grande para sua jornada existencial e po\u00e9tica. Ele lhe far\u00e1 grande falta durante toda sua exist\u00eancia. \u00c9 o que se v\u00ea no poema \u201cPedra\u201d, de \u201cCarrossel Ensolarado\u201d:<\/p>\n<p>-Adeus meu velho pai.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros embalsaram a tua face<\/p>\n<p>agora que te vais neste inv\u00f3lucro<\/p>\n<p>de nenhum sonho para o para\u00edso.<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rios os poemas que o poeta dedica ao seu pai, como esta \u201cElegia Para o Meu Pai\u201d, de \u201cOs Frutos da Madrugada\u201d:<\/p>\n<p>(&#8230;).<\/p>\n<p>E nesta ang\u00fastia \u2013 pai \u2013 tu ainda flutuas<\/p>\n<p>e me arrasta do presente que n\u00e3o tenho<\/p>\n<p>para o passado em que morri contigo.<\/p>\n<p>Se este del\u00edrio j\u00e1 te exp\u00f5e um homem adulto<\/p>\n<p>\u00e9 que o teu sangue em minhas veias se revolta<\/p>\n<p>e o \u00f3dio bruto de saber que nada sei da morte<\/p>\n<p>me transporta para as portas de um inferno<\/p>\n<p>em que um dia me ensinaste a evitar.<\/p>\n<p>Este livro, \u201cOs Frutos da Madrugada\u201d, publicado quando o poeta completara 47 anos de idade, d\u00e1 bem uma ideia de sua constante ang\u00fastia, solid\u00e3o e procura de um sentido maior para a exist\u00eancia e poesia. \u00c9 o que se pode perceber do poema inicial da primeira parte \u201cColheita do Crep\u00fasculo\u201d (o livro est\u00e1 dividido em duas partes: \u201cColheita do Crep\u00fasculo\u201d e \u201cA semente das Origens\u201d):<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 se v\u00e3o quarenta e tantos sofridos anos<\/p>\n<p>que contemplo esta paisagem<\/p>\n<p>sem encontrar nenhum sentido<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>E eu prossigo<\/p>\n<p>Com as minhas quarentas quedas<\/p>\n<p>De recheados t\u00e9dios para o fim.<\/p>\n<p>Das suas medita\u00e7\u00f5es nos bancos da beira-mar cria o livro \u201cConstela\u00e7\u00e3o Marinha\u201d, premiado pela Secretaria de Cultura do Estado. Neste ano, 1992, larga a bebida para sempre. Viaja pela primeira vez a S\u00e3o Paulo, com a fam\u00edlia. Ali \u00e9 convidado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Escritores a um jantar na Pens\u00e3o Jundia\u00ed, onde recebe o t\u00edtulo de pensionista. O poeta provinciano fica abismado com a presen\u00e7a de mais cem escritores naquela confraterniza\u00e7\u00e3o. De volta a S\u00e3o Lu\u00eds, ganha o concurso liter\u00e1rio do SIOGE ao lado de outros escritores. Tem a sua obra Resson\u00e2ncia do Barro vencedora, lan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Em 1995 lan\u00e7a \u201cTurbul\u00eancia\u2019, em que consta o poema \u2018Anivers\u00e1rio da Ilha\u201d:<\/p>\n<p>Oh! Ladeiras por onde a minha juventude<\/p>\n<p>deslizando vai de manso para os mares.<\/p>\n<p>Eu mesmo sou o por\u00e3o de cada sobrado<\/p>\n<p>que me olha e lamenta o abandono em que vivo.<\/p>\n<p>Na orelha deste livro, Nauro Machado nos conta, grande amigo do poeta que era:<\/p>\n<p>\u201cTurbul\u00eancia \u00e9 o t\u00edtulo do novo livro de poemas de Jos\u00e9 Maria Nascimento. Neste t\u00edtulo vejo de fato fotografar-se retroativamente a passagem que foi a sua vida pregressa. E n\u00e3o falo, embora o pudesse fazer com conhecimento de causa, daquelas manh\u00e3s em que o poeta, roupa molhada e colada ao corpo magro, e esgueirando pelas portas abertas do Jornal Pequeno, sa\u00eda em deambula\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica pelos baixos do Portinho e do Desterro, adentrando por quase todas as portas de quase todos os botequins, verdadeiras biroscas daquela zona, que se lhe antepunham como portais em cuja fachada podia ler os versos dantescos: \u201cdeixai toda esperan\u00e7a, v\u00f3s que aqui entrais\u201d.<\/p>\n<p>Desse mesmo livro, a coroar o que Nauro disse acima, o poema Jornal Pequeno:<\/p>\n<p>Enquanto os ratos dormiam<\/p>\n<p>sobre o acolchoado de fardos.<\/p>\n<p>nos por\u00f5es daquele sobrado<\/p>\n<p>contemplava o tempo escorrendo<\/p>\n<p>pelas dobras de cada parede<\/p>\n<p>com os seus \u00famidos<\/p>\n<p>segundos<\/p>\n<p>minutos<\/p>\n<p>horas<\/p>\n<p>ofuscando o sol do meu inferno<\/p>\n<p>Se o poeta sempre fez uma poesia intimista, em que a solid\u00e3o e a ang\u00fastia trazem o tom maior, em 1998 lan\u00e7a o espetacular \u201cA Santa Ceia dos Renegados\u2019, um livro em que a tem\u00e1tica social est\u00e1 presente do come\u00e7o ao fim. Trata dos menos favorecidos fazendo um apanhado geosocial de todos os bairros tradicionais de S\u00e3o Lu\u00eds, expondo com bom humor e ironia a vida atribulada de ladr\u00f5es, brincantes de bois, prostitutas e outras figuras folcl\u00f3ricas. \u00c9 um livro \u00fanico n\u00e3o s\u00f3 em seu conjunto particular como tamb\u00e9m na pr\u00f3pria bibliografia maranhense. Neste volume est\u00e3o enfeixados poemas sat\u00edricos ou de car\u00e1ter burlesco, contudo dotado de profunda compreens\u00e3o e fraterna toler\u00e2ncia pelos degredados da sorte.<\/p>\n<p>Depois deste livro, a quest\u00e3o social ainda \u00e9 abordada em ou outro poema, mas sua poesia sempre estar\u00e1 impregnada da subst\u00e2ncia de sua exist\u00eancia, a solid\u00e3o e a dor. \u00c9 o que se constata em \u201cElegia Para Rilke\u201d, que faz parte de \u201cViajantes do Entardecer\u201d:<\/p>\n<p>Como se de tudo s\u00f3 a dor lhe resguardasse,<\/p>\n<p>e a solid\u00e3o costumeira fosse a sua gra\u00e7a;<\/p>\n<p>e todo o cora\u00e7\u00e3o nas trevas se iluminasse<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Ainda desse livro, o poema Compuls\u00e3o fala de maneira impl\u00edcita dessa solid\u00e3o e dor existencial e de modo explicito da sua incorrig\u00edvel boemia:<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>vontade de andar novamente sozinho,<\/p>\n<p>aos tombos, pelos sombrios becos da Zona;<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Vontade de perambular pela Praia Grande,<\/p>\n<p>vender meus livros aos turistas mais incultos,<\/p>\n<p>trocar os meus sapatos por tr\u00eas garrafas de cana,<\/p>\n<p>perturbar a vida dos vendedores de camar\u00e3o,<\/p>\n<p>mandar dona Santa, com seus miser\u00e1veis conselhos,<\/p>\n<p>em uma manh\u00e3 de ressaca, \u00e0s raias do inferno.<\/p>\n<p>Vontade de voltar a me apaixonar de mentira<\/p>\n<p>como nos \u00e1ureos dias da minha mocidade,<\/p>\n<p>embriagado e chorando, pelas festas nos largos,<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Pedir dinheiro emprestado aos ing\u00eanuos mendigos,<\/p>\n<p>dispersos pelas escadarias da igreja do Carmo.<\/p>\n<p>Vontade de jogar bilharina no bar do Cazuza,<\/p>\n<p>solit\u00e1rio, pegar um fumo no Beco da Bost.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Relan\u00e7ar o meu primeiro livro no bar do seu Castro.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Ser expulso, por unanimidade, de cada quitanda,<\/p>\n<p>ficar olhando para os lados, sem saber para onde ir.<\/p>\n<p>A saudade do pai, o homem humilde, vigia do Matadouro, que incentivava o filho nas sendas da poesia, o acompanha mesmo na maturidade, nas lembran\u00e7as da vida miser\u00e1vel que aquele sofria:<\/p>\n<p>Agora est\u00e1s liberto, finalmente,<\/p>\n<p>do desvelo e da carne, vigia.<\/p>\n<p>Pouco importa aos teus domingos<\/p>\n<p>se na segunda te serviam boia-fria.<\/p>\n<p>No matadouro, os quartos de boi<\/p>\n<p>sangram a sua \u00faltima agonia.<\/p>\n<p>Para melhor qualidade do trabalho<\/p>\n<p>o sonhar te foi proibido, vigia.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Aqui descansa Jo\u00e3o Ba\u00e9.<\/p>\n<p>Trocou a noite pelo dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi um bo\u00eamio errante.<\/p>\n<p>Na vida, um simples vigia.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria Nascimento publicou ao todo 14 livros de poesia, dos quais nove foram premiados em concursos obtendo o primeiro lugar. Daremos, a seguir, o t\u00edtulo de todos eles por ordem cronol\u00f3gica: \u201cHarmonia do Conflito\u201d (1960); \u201cSil\u00eancio em Fam\u00edlia\u2019 (1968); \u201cContempla\u00e7\u00e3o dos Templos\u201d (1977); \u201cOs Frutos da Madrugada\u201d (1979); \u201cCarrossel Ensolarado\u2019 (1981); \u201cOs Verdes Anos da Maturidade\u201d (1987); \u201cConstela\u00e7\u00e3o Marinha\u201d (1992); \u201cResson\u00e2ncia do Barro\u2019 (1993); \u201cTurbul\u00eancia\u201d (1994); \u201cViajantes do Entardecer\u2019 (2003); \u201cOs Portais da Noite\u201d (2006); \u201cA Santa Ceia dos Renegados\u201d (1998); \u201cColheita de Cactus\u201d (1999); \u201cRecreio na Ilha\u201d (2015).<\/p>\n<p>Consciente da passagem do tempo, da vida vivida, da inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia, juventude, maturidade, o poeta olha o tempo, e faz suas reflex\u00f5es sobre o que a exist\u00eancia j\u00e1 lhe deu. \u00c9 o que se v\u00ea em \u201cA Idade Da Espera\u201d:<\/p>\n<p>Estou na idade da espera:<\/p>\n<p>as esperan\u00e7as se acabaram.<\/p>\n<p>O azul do c\u00e9u \u00e9 um oceano<\/p>\n<p>onde navego para o infinito.<\/p>\n<p>Estou de volta \u00e0s origens;<\/p>\n<p>tudo me lembra a inf\u00e2ncia:<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio de sono em tudo.<\/p>\n<p>O que se observa \u00e9 que Jose Maria Nascimento em toda a sua obra vem revolvendo ang\u00fastias, desesperos, insatisfa\u00e7\u00f5es do comportamento humano numa carga de sofrimentos que ele enfrenta num cotidiano que configura sua autobiografia de gritante solid\u00e3o. \u201cOs Portais da Noite\u201d, livro que se segue a \u201cViajantes do Entardecer\u201d, demonstra um amadurecimento do poeta no desempenho de seu of\u00edcio, trazendo o fogo da paix\u00e3o apesar da amargura, do ceticismo, da ironia, um confronto com a obscura trag\u00e9dia do prosaico em meio \u00e0 poesia.<\/p>\n<p>Como afirma Jorge Nascimento, no Pref\u00e1cio a este livro, sobre as habilidades e o destino do Poeta:<\/p>\n<p>\u201cNasceu para ser poeta, como outros nascem para ser vocacionados para ser advogado, arquiteto, m\u00e9dico ou engenheiro, embora ultimamente venha se dedicando \u00e0 arte da fotografia. Ainda assim, est\u00e1 fazendo poesia, como provam sua fotos art\u00edsticas de sobrados, mirantes e azulejos.<\/p>\n<p>Surge-nos a indaga\u00e7\u00e3o: teria Jos\u00e9 Maria Nascimento condi\u00e7\u00f5es adequadas para exercer outro of\u00edcio, outra atividade, fora dos limites de sua predestina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica? Cremos que n\u00e3o o teria; n\u00e3o sentir-se-ia bem no exerc\u00edcio duma outra fun\u00e7\u00e3o distante da poesia, barco dos seus dias singrando por escolhos, maremotos e tempestades, turbul\u00eancias e pacifica\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>2020 traz uma dolorosa surpresa para o poeta. Este irm\u00e3o, Jorge, que tanto o conhecia, de todos os irm\u00e3os era com quem tinha maiores afinidades. Tamb\u00e9m poeta, jornalista, ensa\u00edsta, j\u00e1 vinha doente h\u00e1 algum tempo, n\u00e3o resiste e no fat\u00eddico m\u00eas de agosto sucumbe. Jos\u00e9 Maria sente muito, pois era o irm\u00e3o de quem mais gostava. Tinha 89 anos.<\/p>\n<p>A perda do irm\u00e3o o faz lembrar de outra, ocorrida em 2015, que lhe causou tanta dor. A de seu grande amigo, o poeta Nauro Machado, aos 80 anos. O poema que fez para o amigo foi uma forma de suavizar a dor. \u201cCanto para Nauro Machado\u201d:<\/p>\n<p>Sei que dormes<\/p>\n<p>Porque as folhas me falam do teu sono<\/p>\n<p>E as conchas<\/p>\n<p>Emitem a sonoridade dos teus versos<\/p>\n<p>Transponho pontes sempre s\u00f3<\/p>\n<p>Na mendic\u00e2ncia<\/p>\n<p>De um amigo apenas<\/p>\n<p>Enquanto a tarde<\/p>\n<p>Se desfaz em cores<\/p>\n<p>Hoje visito<\/p>\n<p>A feira da Praia Grande<\/p>\n<p>Onde viv\u00edamos juntos<\/p>\n<p>E n\u00e3o encontro nada<\/p>\n<p>Que relembre o m\u00eas de agosto<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>As tormentas do nosso passado<\/p>\n<p>N\u00e3o se comparam<\/p>\n<p>Com a dor que sinto agora<\/p>\n<p>Quando lembro o teu corpo<\/p>\n<p>Estendido no aveludado de um caix\u00e3o<\/p>\n<p>A plenitude de todas as gl\u00f3rias<\/p>\n<p>N\u00e3o preenche o vazio que ficou<\/p>\n<p>Enfim, chega o tempo em que o horizonte n\u00e3o apresenta mais paisagens surpreendentes, em os sonhos n\u00e3o s\u00e3o mais madrugadas rompendo neblinas, em que o sol \u00e9 o sol de todos os dias. O poema \u201cO Envelhecer\u201d nos diz:<\/p>\n<p>Envelhecer \u00e9 navegar em mar revolto,<\/p>\n<p>\u00c9 n\u00e3o pensar da morte das coisas tristes,<\/p>\n<p>\u00c9 estar sempre com o espirito c\u00f4nscio<\/p>\n<p>De que o amanh\u00e3 \u00e0 eternidade pertence.<\/p>\n<p>Para concluir:<\/p>\n<p>Bem-aventurados os que envelhecem puros<\/p>\n<p>Na consci\u00eancia l\u00facida das suas limita\u00e7\u00f5es,<\/p>\n<p>fazendo do crep\u00fasculo uma ponte para a vida.<\/p>\n<p>O que \u00e9 bom \u00e9 saber que o poeta, ao completar 80 anos de idade, j\u00e1 est\u00e1 compondo outro livro com o bel\u00edssimo t\u00edtulo de \u201cO alvorecer do outono\u201d que, dizendo ele, ser\u00e1 o \u00faltimo. Eu duvido. Duvido levando em conta a sua sabedoria, sua experi\u00eancia, e sobretudo sua inspira\u00e7\u00e3o e seu lirismo.<\/p>\n<p>* Morano Portela \u00e9 poeta e cr\u00edtico liter\u00e1rio<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Lu\u00eds &#8211; No \u00faltimo dia 18 de setembro nosso querido poeta Jos\u00e9 Maria Nascimento completou 80 anos de vida bem vivida. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Iniciou sua trajet\u00f3ria po\u00e9tica em 1960 com o lan\u00e7amento, aos 20 anos de idade, de \u201cHarmonia do Conflito\u201d. 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