{"id":3345,"date":"2020-08-01T17:24:00","date_gmt":"2020-08-01T20:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=3345"},"modified":"2020-08-01T17:24:24","modified_gmt":"2020-08-01T20:24:24","slug":"revisitando-nauro-machado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/revisitando-nauro-machado\/","title":{"rendered":"Revisitando Nauro Machado"},"content":{"rendered":"<address>Poeta maranhense que se fosse vivo celebraria anivers\u00e1rio neste dia 2 de agosto, \u00e9 lembrado pela robustez de sua obra po\u00e9tica atemporal.<\/address>\n<div id=\"attachment_3346\" style=\"width: 680px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3346\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3346\" src=\"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/1596131220-233351036-747x429.jpg\" alt=\"\" width=\"670\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/1596131220-233351036-747x429.jpg 747w, https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/1596131220-233351036-747x429-300x172.jpg 300w, https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/1596131220-233351036-747x429-382x219.jpg 382w\" sizes=\"(max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/><p id=\"caption-attachment-3346\" class=\"wp-caption-text\">Nauro Machado completaria 85 anos (Arquivo)<\/p><\/div>\n<p>S\u00c3O LU\u00cdS- Quando cursava mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal da Para\u00edba, pela instrumentalidade da prof\u00edcua doc\u00eancia do mestre Hildeberto Barbosa Filho, fui apresentado \u00e0 estranha e fascinantemente sedutora, poesia de Nauro Machado, poeta que, tendo iniciado o seu percurso l\u00edrico em 1958 com a publica\u00e7\u00e3o de \u201cCampo sem Base\u201d, construiu, ao longo de mais de 70 anos de ininterrupta atividade criadora, uma das mais s\u00f3lidas produ\u00e7\u00f5es no multifacetado territ\u00f3rio da poesia brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"moz-reader-content reader-show-element\">\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>Portador de inarred\u00e1vel voca\u00e7\u00e3o tel\u00farica e indisfar\u00e7\u00e1vel apego \u00e0s origens, Nauro Machado pouco arredou o p\u00e9 da sua gleba natal, a Ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, nela erigindo, solit\u00e1ria e competentemente, o imp\u00e9rio monumental de uma poesia altamente diferente e singular, que, pelas suas idiossincr\u00e1ticas marcas, tanto ret\u00f3rico-estil\u00edsticas quanto conteud\u00edsticas propriamente ditas, logo transcendeu as demarca\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas do seu solo primevo; ganhou espacialidades mais alentadas; universalizou-se, enfim, tornando-se, meritoriamente, alvo de consagradoras recep\u00e7\u00f5es por parte da cr\u00edtica liter\u00e1ria especializada. Ensa\u00edstas do porte de \u00c2ngelo Monteiro, Jos\u00e9 Guilherme Merquior, Assis Brasil, Hildeberto Barbosa Filho, Antonio Olinto, Ivan Junqueira, dentre outros tantos que comp\u00f5em um vasto e incontorn\u00e1vel c\u00f3digo onom\u00e1stico, sinalizaram, com atilados estudos, para a superior dimens\u00e3o est\u00e9tica de que se reveste a cria\u00e7\u00e3o do grande poeta maranhense, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente e com ele privar de uma cativante e enaltecedora amizade, uma esp\u00e9cie de enaltecente fraternidade do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Chamando a aten\u00e7\u00e3o pelo car\u00e1ter ins\u00f3lito dos t\u00edtulos dos seus livros, a exemplo de \u201cO Anafil\u00e1tico Desespero da Esperan\u00e7a\u201d e \u201cA Vig\u00e9sima Jaula\u201d, a que se seguiram outros dotados de similar teor de estranhamento sem\u00e2ntico, Nauro Machado, sobre ser um poeta portador de absoluto dom\u00ednio t\u00e9cnico na elabora\u00e7\u00e3o de versos impec\u00e1veis e poemas grandiosos, foi, sobretudo, um escanfandrista rigoroso da condi\u00e7\u00e3o humana, ao devass\u00e1-la com o cortante bisturi da sua ag\u00f4nica sensibilidade, que, sem nenhuma concess\u00e3o diplom\u00e1tica \u00e0s suscetibilidades de algum leitor mais delicado, escancarou as dimens\u00f5es mais repelentes e as v\u00edsceras mais p\u00fatridas da nossa perec\u00edvel exist\u00eancia. Exist\u00eancia essa, transida entre os apelos irreprim\u00edveis da transcend\u00eancia, de um lado; e, de outro, a nossa inevit\u00e1vel \u201cinj\u00faria de nos tornarmos p\u00f3\u201d, conforme nos sinaliza o lapidar verso de L\u00eado Ivo presente em seu poema: \u201cA v\u00e3 feiti\u00e7aria\u201d.<\/p>\n<p>Dessa ontol\u00f3gica clivagem a que todos estamos visceralmente ligados, decerto emerge aquela \u00e1spera realidade conceitual a que Jos\u00e9 Guilherme Merquior chamou de \u201ca somatiza\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia\u201d, e que se constitui num tra\u00e7o seminal do emblem\u00e1tico universo l\u00edrico do mestre Nauro Machado.<\/p>\n<p>Poeta do ser e da linguagem, de acordo com a assertiva de Hildeberto Barbosa Filho, Nauro Machado fez da morte, Deus e o sexo, a tr\u00edade central e inabandon\u00e1vel do seu atormentado e sedutor p\u00e9riplo l\u00edrico e existencial, tudo urdido por uma linguagem dissonante, desfronteirizada, que, como poucos foi pr\u00f3diga em amalgamar o sublime e o grotesco; o elevado e o baixo; a tonalidade solene e, diria Antonio Candido, a vida que, irreprim\u00edvel, escorre ao r\u00e9s do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensando a partir das postula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas emanadas do pensamento de Harold Bloom, n\u00e3o hesito em acolher Nauro Machado como um poeta forte, que, integrando a selva competitiva em que se convertem os sistemas e as hist\u00f3rias da literatura logrou com sobrante arte e multiplicado engenho, escrever o seu solit\u00e1rio e respeitado nome, ainda suscept\u00edvel de ser alvo de outros olhares investigativos que, certamente, divisar\u00e3o, em sua fecunda obra, novas estruturas de sentido. Mas, al\u00e9m de poeta excepcional, Nauro Machado tamb\u00e9m pontificou como um qualificado ensa\u00edsta, que o digam obras do porte de \u201cCampo Ladeado\u201d, \u201cMoinho\u201d e \u201cLavra de uma \u00c1gua Mental\u201d, \u201cAs Esferas Lineares e Prov\u00edncia: O P\u00f3 dos P\u00f3steros\u201d, nas quais, na companhia de uma escrita \u00e1tica e pr\u00f3diga na condu\u00e7\u00e3o de argumenta\u00e7\u00f5es sumamente s\u00f3lidas, contracenava um intelectual poderoso, impressionantemente erudito, n\u00e3o portador daquela erudi\u00e7\u00e3o vazia, que n\u00e3o passa de um mero ac\u00famulo de informa\u00e7\u00f5es desconectadas, mas, sim, a que era resultado de uma mente privilegiada, capaz de amealhar uma vis\u00e3o integral das coisas e realidades que tecem e destecem os fios indesbord\u00e1veis do conhecimento. Conhecimento esse que, para o criador do denso livro \u201cO Es\u00f4fago Terminal\u201d, tinha na literatura em suas mais variadas formas de manifesta\u00e7\u00e3o o ponto de partida e de chegada das suas mais fundas cogita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na ensa\u00edstica de Nauro Machado, forrada por ampla fundamenta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, percebia-se, claramente, o seu interesse em cartografar, dentre outras, as produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, bem como de outros campos est\u00e9ticos, vicejantes no \u00e2mbito da ensolarada Ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, contribuindo, assim, de modo inestim\u00e1vel, para a compreens\u00e3o do sistema liter\u00e1rio local em suas indeslind\u00e1veis vincula\u00e7\u00f5es com o imagin\u00e1rio liter\u00e1rio nacional.<\/p>\n<p>Nauro Machado foi um dos mais aut\u00eanticos homens de letras do pa\u00eds, um ser que viveu, quase que exclusivamente, para a literatura; que transformou todas as experi\u00eancias por que passou, notadamente, as que foram timbradas pelo signo do sofrimento que nunca o abandonou, em linguagem da mais alta excel\u00eancia est\u00e9tica. Escrevendo sobre os poetas decadentistas e simbolistas dos fins do s\u00e9culo dezenove, numa tese que consagrou \u00e0 escritora portuguesa Florbela Espanca, a ensa\u00edsta Renata Soares Junqueira sinalizou para aquelas que se constitu\u00edram nas suas marcas mais indel\u00e9veis, tanto no plano do texto quanto no plano da vida: o triunfo do artif\u00edcio, a convers\u00e3o da vida em arte, a perda das identidades e a ruptura dos g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Penso que tais categorias te\u00f3ricas, com as devidas modula\u00e7\u00f5es de \u00eanfase, agasalham-se no interior da pluridimensional obra de Nauro Machado, na medida em que, nele, no ser emp\u00edrico que o habitou nas cenas e cen\u00e1rios da Ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, arte e vida parecem ter assinado um infrang\u00edvel pacto de conviv\u00eancia, de inseparabilidade radical, de enamoramento definitivo, para o bem e para o mal, pois, lendo Nauro Machado, o que fa\u00e7o h\u00e1 anos, fico com a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que para o admir\u00e1vel criador de \u201cApicerum da Clausura\u201d, a poesia, como de resto, a arte em geral, tanto pontifica como reden\u00e7\u00e3o quanto como dana\u00e7\u00e3o, da\u00ed a coreografia de contr\u00e1rios que perpassa toda a sua contundente obra po\u00e9tica, diante da qual ningu\u00e9m pode se postar de maneira indiferente.<\/p>\n<p>Ora l\u00f3gico-matem\u00e1tico, ora m\u00e1gico delirante, de acordo com as fam\u00edlias po\u00e9ticas inventariadas por Hugo Friedrich em seu cl\u00e1ssico livro \u201cA Estrutura da L\u00edrica Moderna\u201d, Nauro Machado, como todo grande criador liter\u00e1rio, \u00e9 inenquadr\u00e1vel, emula contra o reducionismo dos r\u00f3tulos, e, nas asas da sua libert\u00e1ria e luminosa literatura, singra os mares revoltos da palavra, mergulha no universo abismal da linguagem, perquire, diria Clarice Lispector, o selvagem cora\u00e7\u00e3o da vida e funda a sua pr\u00f3pria eternidade.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poeta maranhense que se fosse vivo celebraria anivers\u00e1rio neste dia 2 de agosto, \u00e9 lembrado pela robustez de sua obra po\u00e9tica atemporal. 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