{"id":3200,"date":"2019-06-01T10:40:06","date_gmt":"2019-06-01T13:40:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=3200"},"modified":"2019-06-02T10:42:26","modified_gmt":"2019-06-02T13:42:26","slug":"onde-cantam-o-sabia-e-a-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/onde-cantam-o-sabia-e-a-poesia\/","title":{"rendered":"Onde cantam o sabi\u00e1 e a poesia"},"content":{"rendered":"<address>Os poetas maranhenses F\u00e9lix Alberto e Salgado Maranh\u00e3o s\u00e3o autores de &#8220;Filarm\u00f4nica para fones de ouvido&#8221; e &#8220;A sagra\u00e7\u00e3o dos lobos&#8221;, respectivamente<\/address>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-3201\" src=\"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1559218314-948364719-747x429.jpg\" alt=\"\" width=\"670\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1559218314-948364719-747x429.jpg 747w, https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1559218314-948364719-747x429-300x172.jpg 300w, https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/1559218314-948364719-747x429-382x219.jpg 382w\" sizes=\"(max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/>\u201cNo meio das tabas de amenos verdores, \/ cercados de troncos \u2013 cobertos de flores\u201d&#8230; Foi nesta tribo de palavras m\u00e1gicas e rituais encantat\u00f3rios que me tornei prisioneiro da l\u00edrica maranhense. Tinha eu, ent\u00e3o, dez anos, e, a partir desta experi\u00eancia com o texto de Gon\u00e7alves Dias, nunca mais me exilei da poesia.<\/p>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"moz-reader-content line-height4 reader-show-element\">\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>Como o destino n\u00e3o para de fazer rimas, estrofes adiante, fui apresentado \u00e0s \u201cmuitas vozes\u201d do poeta da Rua dos Prazeres: o sanluisense Ferreira Gullar, de quem me tornei amigo e curador. Ali\u00e1s, foi atrav\u00e9s de sua obra que caminhei por S\u00e3o Lu\u00eds, muito antes de pisar na terra do bumba meu boi.<\/p>\n<p>Se eu disser que meus encontros com a literatura maranhense terminaram por a\u00ed, seria o mesmo que afirmar que me encontrei com o boizinho encantado na noite de S\u00e3o Jo\u00e3o. Minhas leituras temperadas com cux\u00e1 e regadas a guaran\u00e1 Jesus levaram-me a outros dois poetas: Salgado Maranh\u00e3o e F\u00e9lix Alberto.<\/p>\n<p>Em Salgado Maranh\u00e3o, descubro a cor da palavra, a salinidade de sua inquieta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica na busca de raros neologismos e uma tem\u00e1tica que oscila entre a inf\u00e2ncia dos afetos e as garras de um mundo que nos arranha e devora:<\/p>\n<p>As dist\u00e2ncias que se deitam<\/p>\n<p>sob os meus p\u00e9s, espicharam-me<\/p>\n<p>os olhos ao leito das almas<\/p>\n<p>tristes:<\/p>\n<p>essas tristes l\u00e9guas<\/p>\n<p>que se me espalham<\/p>\n<p>\u00e0s metr\u00f3poles rasuradas.<\/p>\n<p>Eu que sou do barro<\/p>\n<p>dos oleiros, do sol<\/p>\n<p>que acorda os mirantes;<\/p>\n<p>eu que sou da v\u00e1rzea \u2014<\/p>\n<p>irm\u00e3o dos rios descal\u00e7os<\/p>\n<p>e das pedras mudas \u2014,<\/p>\n<p>n\u00e3o tenho para quem<\/p>\n<p>chorar esta litania<\/p>\n<p>de espectros,<\/p>\n<p>estes grafites de sangue.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a sucursal da dor<\/p>\n<p>que nos acende o sol<\/p>\n<p>e a sede de \u00e1gora,<\/p>\n<p>\u00e9 o esplendor<\/p>\n<p>do \u00ednfimo.<\/p>\n<p>Pode ser que agarremos<\/p>\n<p>o real pelas v\u00edsceras,<\/p>\n<p>que se nos afoga<\/p>\n<p>\u00e0 superf\u00edcie;<\/p>\n<p>pode ser que elevemos<\/p>\n<p>o caos aos baixios,<\/p>\n<p>que nos rende ao p\u00e2ntano<\/p>\n<p>sem plan\u00edcie.<\/p>\n<p>Ainda assim,<\/p>\n<p>quebra-se a noz desse jogo&#8230;<\/p>\n<p>e o que n\u00e3o serve ao pasto,<\/p>\n<p>serve ao fogo.<\/p>\n<p>(NOZ, Salgado Maranh\u00e3o em \u201cA sagra\u00e7\u00e3o dos lobos\u201d)<\/p>\n<p>Em F\u00e9lix Alberto, desgarrado de estilo \u2013 com seus versos livres \u2013 plana sobre o poema com a leveza de quem sabe se despojar dos exageros, para pousar serenamente seus significantes e significados. A musicalidade rege amores e abismos, dependendo apenas da inten\u00e7\u00e3o de sua batuta:<\/p>\n<p>ele v\u00ea o que n\u00e3o quer<\/p>\n<p>o que n\u00e3o ouve<\/p>\n<p>e sente<\/p>\n<p>o mundo ao redor da melancolia<\/p>\n<p>a \u00edris de jezabel<\/p>\n<p>o santo graal dos loucos<\/p>\n<p>com a palma da m\u00e3o<\/p>\n<p>a ponta do p\u00e9<\/p>\n<p>o ouvido esquerdo<\/p>\n<p>h\u00e1 um olho em cada cova<\/p>\n<p>do corpo<\/p>\n<p>plasmando paisagens ao acaso<\/p>\n<p>os arbustos da p\u00e9rsia que decoram cal\u00e7adas<\/p>\n<p>o gemido da virgem<\/p>\n<p>al\u00e9m das brumas do leito<\/p>\n<p>a lua que luzia fa\u00edscas de neon<\/p>\n<p>nada passa despercebido<\/p>\n<p>ele enxerga o cheiro dos l\u00edrios<\/p>\n<p>esquecidos na janela da alfaiataria<\/p>\n<p>os muros al\u00e9m dos muros<\/p>\n<p>que jamais foram erguidos no campo<\/p>\n<p>e o fair play do fim do mundo<\/p>\n<p>ele n\u00e3o \u00e9 deus o homem<\/p>\n<p>na urdidura do poema<\/p>\n<p>(\u00c2NSIA DE UM HOMEM COMUM, de F\u00e9lix Alberto Lima em \u201cFilarm\u00f4nica para fones de ouvido\u201d)<\/p>\n<p>Ambos s\u00e3o escritores do seu tempo e do tempo que inventam atrav\u00e9s de um rel\u00f3gio de palavras que registra os segundos, os minutos e as horas da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por falar em tempo, um sabi\u00e1 do alto de uma palmeira me avisa que \u00e9 hora de largar a prosa e deixar cantar a poesia. Ou\u00e7am, portanto, os rugidos po\u00e9ticos de Salgado Maranh\u00e3o e a filarm\u00f4nica de versos \u2013 para al\u00e9m dos fones de ouvido \u2013 de F\u00e9lix Alberto.<\/p>\n<p>*Carlos Dimuro \u00e9 poeta, curador, diretor cultural e presidente de honra da ABA &#8211; Museu Nacional de Belas Artes.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os poetas maranhenses F\u00e9lix Alberto e Salgado Maranh\u00e3o s\u00e3o autores de &#8220;Filarm\u00f4nica para fones de ouvido&#8221; e &#8220;A sagra\u00e7\u00e3o dos lobos&#8221;, respectivamente \u201cNo meio das tabas de amenos verdores, \/ cercados de troncos \u2013 cobertos de flores\u201d&#8230; Foi nesta tribo de palavras m\u00e1gicas e rituais encantat\u00f3rios que me tornei prisioneiro da l\u00edrica maranhense. 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