{"id":3041,"date":"2018-11-10T12:52:48","date_gmt":"2018-11-10T15:52:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=3041"},"modified":"2018-11-13T12:59:54","modified_gmt":"2018-11-13T15:59:54","slug":"angustia-larvada-no-verbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/angustia-larvada-no-verbo\/","title":{"rendered":"Ang\u00fastia larvada no verbo"},"content":{"rendered":"<address>Eduardo Fernandes homenageia o poeta Nauro Machado pela passagem dos 60 anos da edi\u00e7\u00e3o do primeiro livro do poeta, \u201cCampo sem base\u201d, lan\u00e7ado em 1958. H\u00e1 tr\u00eas anos, Nauro nos deixou, mas seu legado po\u00e9tico persiste vivo entre n\u00f3s, como conclui o artigo.<\/address>\n<div id=\"attachment_3042\" style=\"width: 680px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3042\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3042\" src=\"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/1533139383-112122903-747x429.jpg\" alt=\"\" width=\"670\" height=\"429\" \/><p id=\"caption-attachment-3042\" class=\"wp-caption-text\">O poeta Nauro Machado (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p>Delinear a obra de um poeta n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, sobretudo se esse poeta possuir vast\u00edssima obra e ver a necessidade de escrita \u201ccomo uma quest\u00e3o de vida e morte.\u201d De qualquer modo, tentaremos incursionar, ainda que parcamente, pelo estro (ou seria sestro?) po\u00e9tico de Nauro Machado.<\/p>\n<p>A hom\u00e9rica obra nauriana transita por meandros sint\u00e1ticos e lingu\u00edsticos que (de um modo genial e demiurgo) nunca se repetem, e que s\u00e3o uma esp\u00e9cie de for\u00e7a motriz a jorrar sempre da mesma fonte \u2013 em alguns momentos \u2013 respeitando a forma; em outros, desconstruindo-a, mas sempre com o mesmo objetivo po\u00e9tico de uma quase tentativa de se auto-explicar: \u201c\u00c9 dif\u00edcil o contato \/entre mim e o meu ser&#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong>As imagens de um mundo em exerc\u00edcio de caos<\/strong><\/p>\n<p>Desde seu primeiro livro, Campo sem Base (1958), Nauro vem nos mostrando essa ag\u00f4nica empresa do desmembramento de si e isso est\u00e1 expl\u00edcito nos t\u00edtulos de suas obras que (em sua grande maioria) mostram que a alma \u00e9 zool\u00f3gica, necessita do divino, est\u00e1 presa na vig\u00e9sima jaula, por estar no opus da agonia, mas que poder\u00e1 encontrar a lamparina da aurora&#8230;<\/p>\n<p>Contudo, essa aurora esperada pelo eu l\u00edrico choca-se com o peso de uma linguagem vingativa, que jorra sempre, carregada de pesos sem\u00e2nticos e sonoros; desta forma, essa rutil\u00e2ncia \u00e9 negada \u2013 na pr\u00f3pria linguagem \u2013 pelo peso do eu l\u00edrico carregando a si mesmo, e que, multiplicado em si mesmo, precisa conviver e expressar a pr\u00f3pria agonia que insiste em se manifestar pela for\u00e7a l\u00edrica (e porque n\u00e3o doentia) do poema, objetivando sempre um mesmo destino que \u00e9 sempre \u201ccavar o infinito\u201d (com muito mais (des)motivos po\u00e9ticos que o Dante Negro) que existe no poema-poeta (mais este que aquele?) dividindo as possibilidades medi\u00fanicas e imag\u00e9ticas do verbo: \u201cAcuso o contemplar-te, sol de escombros, \/ porosa planta insana que se esbanja \/ no mundo. Na exig\u00eancia da aten\u00e7\u00e3o, \/ feroz assalto de luzes subjugo, \/ na terra que assisto e reverbero. \/ [&#8230;] \/ Fornalha do meu dia panteteio \/ meu l\u00facido des\u00e2nimo, manh\u00e3, \/ viscoso l\u00edquido desse humor. \/ Tempo, c\u00famplice vis\u00e3o te constr\u00f3i: \/ contemplar-me \u00e9 for\u00e7oso nas nascentes \/ do tempo, minhas manh\u00e3s, meu nojo&#8230;\u201d2<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Lu\u00eds: Apicerum da clausura<\/strong><\/p>\n<p>Outro reflexo da linha \u00fanica, apesar de visceral, do percurso interseccionista do sujeito, s\u00e3o as impreca\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0 S\u00e3o Lu\u00eds, metaforizada na Tr\u00f3ia, portentosa, de um lado, como constante fonte de inspira\u00e7\u00e3o para o estro-sestro do eu l\u00edrico, mesmo que algumas vezes, inspira\u00e7\u00e3o \u201cdionis\u00edaca\u201d que, de forma brilhante, disciplinada e original, acaba sempre sendo dominada pelo apol\u00edneo lingu\u00edstico, (mostrado em imagens surrealistas e em alitera\u00e7\u00f5es), mas que, de outro lado, \u00e9 vista como uma terra destru\u00edda, esmagada e insuladora do pr\u00f3prio eu, como \u00e9 mostrado nestes versos com aspectos simbolistas: [&#8230;] \u00d3 S\u00e3o Lu\u00eds padrasto, c\u00e3o, matilha \/ mostrando o ventre em monstruosa ilha! \/ \u00d3 tu, defunta lepra renascida \/ para ser, toda em mim, a minha vida! \/ S\u00e3o Lu\u00eds, porto-p\u00f3, p\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o p\u00f3stumo, \/ por estar vivo em crucificada h\u00f3stia! \/ \u00d3 pranto eterno, eterno canto, am\u00e9m \/ do verbo ef\u00eamero e a ser meu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Dor: Testamento provincial<\/strong><\/p>\n<p>Fernando Pessoa afirmou que \u201co poeta \u00e9 um fingidor, finge t\u00e3o completamente que chega a fingir que \u00e9 dor, a dor que deveras sente.\u201d A dor na po\u00e9tica nauriana, muitas vezes, \u00e9 uma dor sinestesicamente vivida e literariamente veross\u00edmil, pois o n\u00e3o reconhecimento do poeta por parte da Tr\u00f3ia-Ilha \u00e9 amargo, percept\u00edvel e prof\u00e9tico. Nauro se multiplica poeticamente por S\u00e3o Lu\u00eds, seus becos, casar\u00f5es, barzinhos, sua hist\u00f3ria e a maioria de seus poemas s\u00e3o gerados ali, no meio do povo, comungando com a dor do povo; e a sua obra, mesmo com uma g\u00eanese marginal e simples, consegue ser fina e lapidada em imagens surrealistas e oximoros que poetizam essa dor do existir-pertencendo e do pertencendo \u2013 sem exist\u00eancia concreta definida, mas atemporal, que lembram mesmo Fernando Pessoa. Pessoa, multiplica-se pelos seus heter\u00f4nimos, Nauro Machado se multiplica pela sua obra e linguagem: \u201cO nada \u00e9 ser mem\u00f3ria de ningu\u00e9m, \/ treva qualquer, qualquer t\u00e1bua nenhuma \/ madeira morta para um morto tamb\u00e9m \/ serei mem\u00f3ria pois de coisa alguma\u201d.<\/p>\n<p><strong>Nos Parreirais de Deus<\/strong><\/p>\n<p>Nauro \u00e9 o fl\u00e2neur do s\u00e9culo XXI, que espreita e esquadrinha o pr\u00f3prio funil do ser, mas que \u00e9 achado pela solid\u00e3o tem\u00e1tica, muitas vezes, dividida poeticamente com o pr\u00f3prio Deus. N\u00e3o o Deus barroco que punia pecados, Deus em Nauro \u00e9 divinamente \u201climitado\u201d porque limitadamente divino, uma hora reduzido a um recurso formal po\u00e9tico, outra como comungador das intemp\u00e9ries do eu l\u00edrico. Desta forma, o \u201cCorpus Christi\u201d \u00e9 estendido ao Sol dos escombros da alma da obra, aparecendo como pisado, desnudo e solit\u00e1rio, em uma escatologia invertida semelhante \u00e0quela proposta por Augusto dos Anjos. Contudo, Nauro consegue ser mais percuciente e ag\u00f4nico na tessitura da p\u00e1gina cont\u00ednua (onde Deus \u00e9 citado subrepticiamente) dividindo-se em sonetos, quartetos, d\u00edsticos, poemetos etc. De acordo com a teologia, Deus \u00e9 uma trindade se manifestando em um s\u00f3. Em O Baldio som de Deus (2015) a mesma Trindade agoniza, e o Criador parece provar da mesma ang\u00fastia da criatura reduzida a p\u00f3. Teria Nauro, em seus momentos de jorro psicol\u00f3gico-po\u00e9tico, reduzido a Trindade tamb\u00e9m ao p\u00f3? \u201cEsta \u00e9 uma terra de sina aziaga, \/ da m\u00e3e madrasta a me trazer a praga \/ de uma Trindade morta em todos tr\u00eas, \/ \u00f3 S\u00e3o Lu\u00eds, profunda e eterna m\u00e1goa \/ de quem recebe apenas, como fogo e \u00e1gua, \/ a maldi\u00e7\u00e3o do Deus que em dor a fez.\u201d<\/p>\n<p><strong>O rein\u00edcio sempre amb\u00edguo: o verbo que nunca morre(r\u00e1)<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO homem \u00e9 um ser que se criou a si pr\u00f3prio ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem \u00e9 uma met\u00e1fora de si pr\u00f3prio.\u201d De acordo com Oct\u00e1vio Paz, a met\u00e1fora s\u00f3 encontra uma resson\u00e2ncia e um porque, quando entra em simbiose com o poeta refletindo-o, mascarando-o ou at\u00e9 mesmo anulando-o. Essa linguagem-met\u00e1fora em Nauro, j\u00e1 estava viva antes de encontr\u00e1-lo e permanece viva mesmo depois da morte do poeta \u2013 com sua grande quantidade de livros publicados em vida e com quatro livros a serem publicados postumamente. A palavra se fez guarida no universo nauriano, ressurgindo quando e onde queria. Dessa forma, o poeta constantemente era visto pela Tr\u00f3ia mexendo os l\u00e1bios, e que, ao contr\u00e1rio do que pensava o senso comum e leigo, n\u00e3o se tratava de efeitos et\u00edlicos, mas da voz po\u00e9tica saindo-lhe das entranhas com ritmo est\u00e9tico completamente demarcado. Mesmo \u201cmatando\u201d o ser e consumindo-o para que ressurgisse de forma multifacetada, a palavra sempre foi a norma que a alma deste poeta maranhense desejou obedecer. Por ela viveu, amou, sentiu nojo, experimentou, recriou-se, anulou-se e escreveu: \u201cmorre um pouco de mim no meu in\u00edcio amb\u00edguo, a mente circunscreve o mundo \u00e0 minha forma\u201d&#8230;6<\/p>\n<p>Infelizmente, Nauro nos deixou, mas seu legado po\u00e9tico jamais acabar\u00e1 e sua voz po\u00e9tica ainda persiste, sendo ouvida pela quantidade-qualidade de sua obra e pelos becos po\u00e9ticos da Tr\u00f3ia-S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Fernandes homenageia o poeta Nauro Machado pela passagem dos 60 anos da edi\u00e7\u00e3o do primeiro livro do poeta, \u201cCampo sem base\u201d, lan\u00e7ado em 1958. H\u00e1 tr\u00eas anos, Nauro nos deixou, mas seu legado po\u00e9tico persiste vivo entre n\u00f3s, como conclui o artigo. Delinear a obra de um poeta n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, sobretudo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3042,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3041"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3043,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041\/revisions\/3043"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}