{"id":260,"date":"2014-02-17T01:37:56","date_gmt":"2014-02-17T01:37:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=260"},"modified":"2014-09-21T22:53:18","modified_gmt":"2014-09-21T22:53:18","slug":"ney-bello-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/ney-bello-filho\/","title":{"rendered":"Ney Bello Filho"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds, a 23 de mar\u00e7o de 1969. Filho de Ney de Barros Bello e Maria Helena Martins de Barros Bello. Graduado em Direito pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o (1990), mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (2000) e doutor em Direito Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006), com pesquisa elaborada na Universidade de Coimbra, Portugal e na Universit\u00e1 Degli Studi di Lecce, It\u00e1lia. P\u00f3s-doutor em Direito Constitucional pela PUC-RS (2010).<\/p>\n<p>Iniciou suas atividades profissionais como Promotor P\u00fablico, servindo nas Comarcas de Alc\u00e2ntara, Alto Paran\u00edba, Balsas, Coroat\u00e1 e Ros\u00e1rio. Tornou-se depois Procurador da Rep\u00fablica e posteriormente ingressou na Magistratura Federal. Juiz Federal em S\u00e3o Lu\u00eds e juiz assistente da Presid\u00eancia do Supremo Tribunal Federal. Desembargador Federal junto ao Tribunal Regional Federal da 1\u00aa Regi\u00e3o, sediado em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Integrante do Conselho Editorial das <em>Revista Brasileira de Direito Ambiental <\/em>e<em> Revista de Direito Ambiental.<\/em> Professor adjunto da Universidade Federal do Maranh\u00e3o na gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Direito P\u00fablico, com \u00eanfase em Direito Constitucional, Direito Penal e Direito Ambiental. Exerce intensa atividade na \u00e1rea de Direito Ambiental, na qual \u00e9 autor de numerosos trabalhos publicados em revistas nacionais e estrangeiras, o mesmo cabendo dizer quanto a cap\u00edtulos de livros especializados nesse e em outros ramos do Direito.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Membro da Associa\u00e7\u00e3o dos Ju\u00edzes Federais do Brasil \u2013 AJUFE, entidade onde desempenhou as fun\u00e7\u00f5es de diretor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, Secret\u00e1rio-Geral e Vice-Presidente.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\"><em>Sistema constitucional aberto: teoria do conhecimento e da interpreta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o constitucional<\/em>. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2003; <em>Oitenta semanas de prosa; cr\u00f4nicas de um universo compartilhado<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: EDUFMA, 2008<em>; Direito ao ambiente: da compreens\u00e3o dogm\u00e1tica do direito fundamental na p\u00f3s-modernidade.<\/em> Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2011; <em>Interl\u00fadio: p\u00f3s-modernidade, direito e sociedade<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: edi\u00e7\u00f5es AML, 2012.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Os olhos de minha m\u00e3e s\u00e3o castanhos! N\u00e3o s\u00e3o pretos como os meus! E foi o brilho dos olhos dela que me trou\u00adxe at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Eu era apenas um menino, quando sonhei pela primeira vez com esta chegada, e ainda me sinto como aquele garoto sonhador, que seguia o olhar acastanhado de sua m\u00e3e. Recordando o caminho que eu segui, guiado pelos olhos dela, compreendo que n\u00e3o apenas o seu olhar \u00e9 colorido, mas tamb\u00e9m tem cor o seu infinito amor.<\/p>\n<p>As palavras de meu pai tamb\u00e9m t\u00eam cor! N\u00e3o s\u00e3o incolores como as minhas! E foram o fervor da sua voz e o carinho do seu sil\u00eancio que me conduziram at\u00e9 este momento.<\/p>\n<p>Eu era somente um adolescente, quando pela primeira vez me recolhi ao sil\u00eancio do meu quarto para escrever uma hist\u00f3ria, inebriado pelo poder da cria\u00e7\u00e3o, e apaixonado pela capacidade de dar vida \u00e0s ideias e aos personagens. Eu era um garoto quando migrei de leitor compulsivo a escritor imp\u00fabere. Era o olhar de minha m\u00e3e&#8230; eram as palavras de meu pai.<\/p>\n<p>Ainda me sinto um sonhador! Obediente \u00e0 colorida express\u00e3o paterna. Atencioso ao brilho castanho dos olhos de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mirando os umbrais pelos quais passei, entendo que o branco daquele sil\u00eancio, o vermelho das palavras ditas e o castanho dos olhos que sabem sorrir sempre foram mais vivos que todas as cores que vislumbrei, em mil arco\u00ad-\u00edris de minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Venho pela voz de meu pai, seguindo o olhar de minha m\u00e3e, e por isso n\u00e3o chego sozinho. Nunca estive sozinho!<\/p>\n<p>Estou acompanhado de todos aqueles que eu amei nestes meus quarenta anos e trago comigo as minhas ideias originais, que s\u00e3o as cores prim\u00e1rias de minha pr\u00f3pria exist\u00eancia. Carrego comigo os tons e os dons que recolhi na estrada, deixando que a vida montasse em mim um mosaico de ideias e de sentimentos, uma enorme paleta de cores, de um singular pintor que teima em universalizar-\u00adse.<\/p>\n<p>Chego com o amor dos meus, e com a certeza de que somos muitos, e tentamos fazer de todos n\u00f3s um s\u00f3, quando navegamos sempre juntos em quaisquer mares, e em quaisquer mar\u00e9s. Sei que o Belo que nos une \u00e9 a nossa colorida e amada pluralidade, e \u00e9 este am\u00e1lgama de cores que permite a pintura dos quadros das nossas vidas. Misturamos tons e dons, cores e virtudes, e constru\u00edmos as telas das nossas exist\u00eancias. Sou apenas uma dessas pequeninas pinturas que os pinc\u00e9is dos meus puderam criar.<\/p>\n<p>Chego repleto do colorido carinho de minha mulher e de meus tr\u00eas filhos. Eles s\u00e3o a minha inspira\u00e7\u00e3o e os meus mais importantes leitores. Chego impregnado do amor de minhas duas irm\u00e3s, chego possuidor de outros irm\u00e3os, diversos pais e muitas m\u00e3es que a vida me deu: primos, cunhados, tios, tias, sogro e sogra, amada fam\u00edlia em um universo de felicidade colorida. Com todos eles aprendi que o azul pode brotar do cinza, e o colorido das amizades e dos amores \u00e9 que nos d\u00e1 aconchego em dias de negra tempestade.<\/p>\n<p>Chego pleno de saudades do meu av\u00f4 e de minhas av\u00f3s, e reconhe\u00e7o que suas cores entranharam\u00ad-se em minha alma. E \u00e9 por isso que me permito ser guiado pelo azul dos olhos de Newton Belo, e dizer a plenos pulm\u00f5es, que meu destino \u00e9, tamb\u00e9m, o de ser on\u00e7a. Deixo\u00ad-me guiar por todo o senso de unidade de Aldenora Moreira Belo, amando ser elemento de uni\u00e3o entre todos n\u00f3s. Guio\u00ad-me pela for\u00e7a de L\u00facia Parada Martins permitindo\u00ad-me ser, ao menos uma vez, delicado como o lil\u00e1s das flores que ela amava, e forte como o roxo dos cravos dos seus canteiros. Tamb\u00e9m chego pleno de curiosidade acerca da cor preferida de N\u00e9lson Martins, j\u00e1 que as telas da vida n\u00e3o me permitiram conhec\u00ea-\u00adlo.<\/p>\n<p>Eles todos s\u00e3o as melhores partes de mim, e como cores \u00edmpares eles compuseram a minha plural aquarela, ensinaram-\u00adme o poder da universalidade, e fizeram de uma crian\u00e7a comum, um menino capaz de bater hoje \u00e0 porta desta Casa secular. \u00c9 assim que me apresento. \u00c9 assim que chego.<\/p>\n<p>N\u00e3o chego sozinho! Nunca estive sozinho! E chego, porque o novo sempre vem!<\/p>\n<p>Ao me interrogar sobre o sentido desta frase, pergunto\u00ad-me o que significa o meu encontro com a Academia Maranhense de Letras. Sei que \u00e9 um encontro profetizado, desejado e agendado pela poetisa Dagmar Desterro. Mas que significado ele possui?<\/p>\n<p>Nego meu hist\u00f3rico de cr\u00edticas ao conservadorismo e ao institucionalismo quando fa\u00e7o o caminho reverso ao de Gra\u00e7a Aranha? Desfa\u00e7o\u00ad-me do encontro marcado comigo mesmo \u2014 para usar a express\u00e3o de Lago Burnett, dita neste mesmo lugar, em cerim\u00f4nia igual a esta \u2014 quando me orgulho de aqui estar? Ou apenas reconhe\u00e7o que todo jovem envelhece, e nega os pensamentos juvenis?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim! Desejei a Academia desde menino, por amar os livros e por amor \u00e0 literatura. Permiti\u00ad-me desej\u00e1\u00ad-la por entender que a sua presen\u00e7a em minha vida em nada afetaria o meu modo de compreender a arte. Desejei\u00ad-a na inten\u00e7\u00e3o de me fazer um homem melhor.<\/p>\n<p>Continuo sem acreditar nas institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o possuem homens de virtudes em suas hostes. Sozinhas elas nada valem, pois somente ser\u00e3o superiores aos indiv\u00edduos se os seus\u00a0componentes a fizerem forte. Continuo sem entender o n\u00e3o reconhecimento do novo e sem aceitar o apego desmedido ao passado. N\u00e3o se pode negar a flecha do tempo, tampouco se pode desprezar a hist\u00f3ria. N\u00e3o reinventamos a nossa cultura a cada nova gera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o estamos condenados \u00e0 mesma forma de express\u00e3o de nossos antepassados.<\/p>\n<p>O simbolismo, o arcadismo, o romantismo, o barroco, o naturalismo e at\u00e9 mesmo o modernismo possuem a marca de seus tempos. N\u00e3o s\u00e3o para mim, que sou homem de meu pr\u00f3prio mundo e de minhas pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias, compreens\u00f5es liter\u00e1rias que qualifiquem positivamente um texto por toda a eternidade. Mas nada justifica a rejei\u00e7\u00e3o de tudo o que foi criado \u00e0 sua hora, e conforme as suas condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. As academias n\u00e3o podem viver de saudosismos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel protagonizarmos a cada nova gera\u00e7\u00e3o um novo inc\u00eandio de Alexandria.<\/p>\n<p>Quem disse que as academias s\u00e3o feitas somente de arcadas, possuem apenas valor simb\u00f3lico e agem exclusivamente como basti\u00f5es da conserva\u00e7\u00e3o? N\u00e3o nego minha juventude cr\u00edtica ao chegar at\u00e9 aqui, exatamente porque reconhe\u00e7o que cabem na Academia os que s\u00e3o filhos de seu tempo, e aqueles que s\u00e3o avessos ao tempo em que vivem. Aqui h\u00e1 espa\u00e7o para todas as cores e para todos os matizes. H\u00e1 lugar para todos os tempos liter\u00e1rios e para todos os universos art\u00edsticos. N\u00e3o traio meu mundo cr\u00edtico por ter comparecido a este encontro.<\/p>\n<p>O encontro que marquei comigo mesmo n\u00e3o foi o do cr\u00edtico juvenil com o mesmo homem novo, ap\u00f3s a derrocada do velho. Tamb\u00e9m n\u00e3o estou aqui por haver amadurecido e reconhecido os equ\u00edvocos da juventude.<\/p>\n<p>Esperava\u00ad-me neste momento outro eu, outro leitor, por\u00e9m o mesmo menino. Um compulsivo devorador de Monteiro Lobato agendou um encontro com um homem maduro, que ao ler inventa, constr\u00f3i e cria. Compare\u00e7o como o leitor ideal de Ralph Emerson. N\u00e3o me furtei a este instante: a ele cheguei portando Alexander Solzhenitsyn, de bra\u00e7os dados com a poesia de T. S. Eliot, sobra\u00e7ando William Faulkner, impregnado de Milan Kundera, de alma geminada a Garc\u00eda Marquez, seduzido por Orhan Pamuk, e sempre e sempre, sob o atento olhar de Jorge Luis Borges! O menino leitor encontra-\u00adse hoje com o leitor menino.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixei de ser aquele garoto, com cara de on\u00e7a, guiado pelos olhos de sua m\u00e3e. Amadureci, mas n\u00e3o me tornei o oposto de mim mesmo. Orgulho\u00ad-me de estar aqui porque sei que a Institui\u00e7\u00e3o \u00e9 maior que a soma de seus componentes, porque os homens a podem fazer grande. O todo \u00e9 maior que a soma das partes, quando as partes justificam a impon\u00eancia do todo.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 uma simples institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 um espa\u00e7o que se abre para o confronto do novo com o antigo. \u00c9 o l\u00f3cus de uma luta incessante onde n\u00e3o h\u00e1 vencedores nem vencidos, pois o novo sempre vem e o antigo sempre permanece!<\/p>\n<p>Valho-\u00adme \u2014 e por que n\u00e3o? \u2014 das palavras mundanas de Cartola, para reconhecer poeticamente a flecha do tempo: \u201cRosas v\u00e3o murchar, mas outras nascer\u00e3o. As cigarras sempre cantam. Seja, ou n\u00e3o, ver\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O bonito \u00e9 sempre eterno, e n\u00e3o h\u00e1 idade para o belo. Nem para produzi\u00ad-lo, nem para absorv\u00ea\u00ad-lo. Aquele menino leitor encontrou-\u00adse com o patrono da Cadeira 40 aos quinze anos, quando, apaixonado pela hist\u00f3ria do seu Maranh\u00e3o recolheu\u00ad-se \u00e0 rede, ouvindo a chuva cair no telhado da rua Rio Branco, sentindo o cheiro de terra molhada que vinha da Coelho Neto, e viajou a bordo da <em>Setembrada<\/em>, do imortal Dunshee de Abranches.<\/p>\n<p>Era uma grande brochura repleta de ilustra\u00e7\u00f5es, mandada fazer por Maurina Dunshee de Abranches Pereira\u00a0Carneiro, impressa em finais do ano de 1970, em comemora\u00e7\u00e3o ao centen\u00e1rio de nascimento do autor, ocorrido tr\u00eas anos antes.<\/p>\n<p>Hoje, relembro aquele cheiro, aquele som, aquela luz e aquele texto, e sinto\u00ad-me presenteado pela hist\u00f3ria, pois os deuses da literatura marcaram este encontro entre um jovem escritor e um consagrado autor, para rememorar aquele outro, de vinte e cinco anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Nascido no Maranh\u00e3o, na cidade de S\u00e3o Lu\u00eds, em 2 de setembro de 1867, filho de Ant\u00f4nio da Silva Moura e Raimunda Em\u00edlia de Abranches Moura, Jo\u00e3o Dunshee de Abranches Moura tornou\u00ad-se exemplo de humanista, dedicado a todas as for mas do saber. Ele \u00e9 o intelectual completo, a express\u00e3o do homem de conhecimento, que se espraia por diversas \u00e1reas. Foi poeta, romancista, contista, ensa\u00edsta, jornalista, soci\u00f3logo, jurista, historiador, cientista, musicista, naturalista, farmac\u00eautico e fisiologista.<\/p>\n<p>Professor por voca\u00e7\u00e3o, ele exerceu a c\u00e1tedra n\u00e3o apenas no Brasil, mas tamb\u00e9m na Europa, tornando\u00ad-se professor em\u00e9rito da universidade de Heidelberg, onde lecionou Direito internacional.<\/p>\n<p>Dunshee de Abranches era um liberal e um abolicionista convicto. Era um homem que vivia intensamente as querelas e quimeras do poder. Por isto tornou-\u00adse parlamentar e exerceu, de 1904 a 1917, diversos mandatos de deputado ao Congresso do Estado e de deputado pelo Maranh\u00e3o na C\u00e2mara Federal.<\/p>\n<p>Sua vida de escritor \u00e9 instigante. Come\u00e7ou sua carreira liter\u00e1ria publicando o livro de poemas intitulado <em>Selva<\/em>, e, tal e qual um v\u00edvido maranhense, escreveu tamb\u00e9m sonetos que n\u00e3o ser\u00e3o esquecidos. Destaco A Pecadora e o Violino do Artista por seus acurados sensos de equil\u00edbrio e velocidade. Na prosa, Dunshee ser\u00e1 eternamente lembrado por Garcia de\u00a0Abranches \u2014 <em>O Censor<\/em>, <em>A Setembrada<\/em>, <em>O cativeiro <\/em>e <em>A esfinge do Graja\u00fa<\/em>.<\/p>\n<p>Sua obra humanista vai al\u00e9m da prosa e da poesia. S\u00e3o discursos, projetos de lei, trabalhos jur\u00eddicos, pesquisas cient\u00edficas, sociol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas, al\u00e9m de biografias e an\u00e1lises cr\u00edticas. Isto sem esquecer\u00ad-se da m\u00fasica. Tal e qual um Arist\u00f3teles de seu tempo, vivendo entre a Upaon-\u00adA\u00e7u dos tupinamb\u00e1s e a capital republicana de antanho, ocupou-\u00adse de tamanha gama de saberes, expressando incomensur\u00e1veis formas de arte, que seria imposs\u00edvel repeti\u00ad-lo em amplitude, forma e conte\u00fado.<\/p>\n<p>Ser liberal lhe permitiu estar \u00e0 frente de seu tempo, embora cultivando estilos e formas que o definem em alguns momentos como um realista \u2014 principalmente em seus ensaios e em suas mem\u00f3rias \u2014 e em outros, como um rom\u00e2ntico, como se v\u00ea em <em>O cativeiro<\/em> e <em>Garcia de Abranches \u2014 O Censor<\/em>. \u00c9 poss\u00edvel identificar o seu flerte com o parnasianismo, mas acima de tudo pode-\u00adse observar o mais absoluto senso de pertin\u00eancia com a sua terra. A obra de Dunshee de Abranches mostra que ele sempre esteve imune a classifica\u00e7\u00f5es, acima das limita\u00e7\u00f5es dos r\u00f3tulos, e de bra\u00e7os dados com a amplitude do conhecimento. Mesmo mergulhado no classicismo ele fez o novo, e, por isso, tamb\u00e9m foi moderno.<\/p>\n<p>Mas estas preocupa\u00e7\u00f5es com escolas e correntes liter\u00e1rias s\u00e3o para os cr\u00edticos. Para o doutor Abranches o que verdadeiramente importava era a sua paix\u00e3o pelo Maranh\u00e3o, expressada em versos, prosas, m\u00fasicas e discursos. Amar o seu Estado, retrat\u00e1\u00ad-lo, romantiz\u00e1\u00ad-lo, cont\u00e1-\u00adlo, exp\u00f4-\u00adlo eram seus ideais. N\u00e3o foi por acaso que ao dizer de seu amor, poetizou em dedicat\u00f3ria no seu livro de estreia, que vai ofertado ao Maranh\u00e3o: \u201ca ti que tens em mim seu filho mais amante\u201d.<\/p>\n<p>De fato, nas artes do Senhor Dunshee, sobressai o amor por esta terra de negros, \u00edndios e brancos, entre o Atl\u00e2ntico e o Tocantins, o Parna\u00edba e o Gurupi. Assim como no mundo das artes n\u00e3o existem verdades absolutas, na obra de meu\u00a0patrono nada h\u00e1 de absoluto, exceto sua irretorqu\u00edvel e inarred\u00e1vel paix\u00e3o pelo Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um cl\u00e1ssico que tamb\u00e9m \u00e9 moderno. Fez muito do novo em tempos passados, superando em conte\u00fado quase tudo o que hoje se faz.<\/p>\n<p>Como nem sempre aquilo que surge \u00e9 melhor do que aquilo que j\u00e1 est\u00e1, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer da perfei\u00e7\u00e3o ou da imperfei\u00e7\u00e3o com base em crit\u00e9rios absolutos. Nem sempre o bom e o ruim podem ser justificados sob qualquer teoria, mas a excel\u00eancia de Dunshee de Abranches justifica-\u00adse com arrimo em qualquer escola, a qualquer tempo.<\/p>\n<p>O bonito e o feio, o importante e o desimportante podem brotar de textos de todas as \u00e9pocas. Walt Whitman pode conter a mesma beleza de Federico Garcia Lorca. Ambos s\u00e3o grandes poetas, assim como o patrono da Cadeira 40, e para esta grandeza, n\u00e3o importa o tempo, n\u00e3o importa a \u00e9poca, n\u00e3o importa o lugar. Dunshee de Abranches \u00e9 o exemplo perfeito da universalidade imortal. Pode ser multiplicado e recriado por diversas leituras, em diversos lugares e em quaisquer tempos.<\/p>\n<p>A sua escrita o universaliza, pois as m\u00faltiplas possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o fazem\u00ad-no conter mil verdades. A prop\u00f3sito desta quest\u00e3o presente em Abranches lembro a \u00faltima frase da pe\u00e7a <em>O rinoceronte<\/em>, de Ionesco, expressada a plenos pulm\u00f5es por B\u00e9ranger, o seu protagonista: <em>Je ne capitule pas!<\/em> Estas palavras amplas puderam ser compreendidas por argelinos e por colonos franceses, como uma linda afirma\u00e7\u00e3o das suas pr\u00f3prias raz\u00f5es para a guerra, e os grupos que as aplaudiram de p\u00e9, efusivamente, ao final da pe\u00e7a, encenada durante a guerra da Arg\u00e9lia, estavam lutando entre si! Esta \u00e9 a express\u00e3o do poder da literatura: ela n\u00e3o consegue aprisionar a verdade.<\/p>\n<p>A mesma sensa\u00e7\u00e3o experimento ao ler em voz alta passagens d\u2019<em>O cativeiro<\/em>. Aquelas descri\u00e7\u00f5es que remontam ao desejo de igualdade e de liberdade comportam mil ideias e pensamentos. Esta faceta torna seu autor universal e imortal.<\/p>\n<p>Dunshee foi um homem de seu tempo, mas ao s\u00ea\u00ad-lo, respeitou os espa\u00e7os da verdadeira arte, e embora tenha sido pol\u00edtico e parlamentar, n\u00e3o utilizou suas virtudes liter\u00e1rias como vetor de engajamento de suas ideias. Ele pode ser lido como um homem que defendeu a arte pela arte e que, por isso mesmo, elevou\u00ad-se em estatura e alvejou-\u00adse em brilho.<\/p>\n<p>Assim como ele, eu n\u00e3o posso compreender a ideia de uma \u201cliteratura engajada\u201d, comprometida com um s\u00f3 ponto de vista acerca do mundo e dos homens. A literatura pode albergar muitas verdades. Sustent\u00e1-\u00adla a partir de uma s\u00f3 ideia \u00e9 limit\u00e1-\u00adla, aprision\u00e1-\u00adla e neg\u00e1\u00ad-la.<\/p>\n<p>Ouso dizer que poucos compreenderam isto t\u00e3o perfeitamente quando Dunshee de Abranches. Ao escrever com a alma uma louva\u00e7\u00e3o a seu antepassado Garcia de Abranches, o Censor, ele deixou\u00ad-se dominar pela verdade que lhe parecia clara: Frederico Magno de Abranches era um ingrato, pois desprezara o pai, portugu\u00eas convicto da uni\u00e3o entre Brasil e Portugal. Tempos depois, reconhecendo que as verdades podem ser muitas, escreve <em>A Setembrada \u2014 A revolu\u00e7\u00e3o liberal de 1831 em Maranh\u00e3o<\/em>, e dedica-\u00ada a Frederico Magno, admitindo a diversidade de verdades acerca de pessoas, ideias e fatos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>O leg\u00edtimo escritor, aquele que escreve com a sinceridade de um verdadeiro artista, n\u00e3o pode ocultar as suas \u00edntimas prefer\u00eancias, mesmo que n\u00e3o as exer\u00e7a claramente. Um homem igualit\u00e1rio assim o ser\u00e1 como escritor, tanto quanto um liberal deixar\u00e1 suas marcas nos personagens e narrativas que constr\u00f3i. N\u00e3o se isola o escritor do homem, mas n\u00e3o existe arte de qualidade quando a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 guiada pelos pressupostos da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Pierre retrata o homem que foi Tolstoi. Rom\u00e2ntico, por\u00e9m duro e engajado em sua causa. Mathieu nos diz quem\u00a0era Sartre.<\/p>\n<p>Existencialista, avesso a r\u00f3tulos e a controles. Engajado em suas pr\u00f3prias lutas. Ambos os personagens n\u00e3o teriam a for\u00e7a que t\u00eam se houvessem sido concebidos exclusivamente para a defesa do imp\u00e9rio russo, ou para a cr\u00edtica ao pr\u00e9\u00ad-guerra em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Discordo das palavras de Harold Pinter, no seu discurso de recep\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Nobel de Literatura. Penso que n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do escritor quebrar os espelhos da fic\u00e7\u00e3o, em busca da arte, comprometida com a verdade do mundo. A arte existe pela pr\u00f3pria arte, e n\u00e3o sobrevive como tal a servi\u00e7o de ideologias ou disputas por poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O engajamento do artista \u00e9 aceit\u00e1vel. O engajamento da arte \u00e9 assustador. A politiza\u00e7\u00e3o da literatura submete\u00ad-nos a um valor est\u00e9tico absoluto, impondo\u00ad-nos uma escrita que almeja o lugar da melhor express\u00e3o, que procura firmar-\u00adse como algo superior em forma e em conte\u00fado, e que, desafortunadamente, termina por andar de bra\u00e7os dados com o autoritarismo \u2014 se imposta por poucos \u2014 ou com o totalitarismo \u2014 se imposta pela maioria.<\/p>\n<p>A literatura n\u00e3o engajada \u00e9 a literatura tolerante, \u00e9 a escrita plural, \u00e9 o pensamento n\u00e3o manique\u00edsta, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se submete ao calor das refregas eleitorais e sobrevive como arte para um mundo de homens, n\u00e3o como pasto para a mesa de deuses. Toler\u00e2ncia: esta \u00e9 a palavra que combina com o n\u00e3o engajamento.<\/p>\n<p>O que seria do amarelo, a cor preferencial de Jorge Luis Borges, se n\u00e3o fossem tantos iguais a Marcel Proust, que sempre desejaram o azul? O que seria do cinzento que \u00e9 sentido em Dublin, no <em>Ulisses<\/em> de James Joyce, se n\u00e3o fosse o alegre verde que brota dos jardins fant\u00e1sticos de Lewis Carol,\u00a0onde Alice corre atr\u00e1s do coelho e caminha para encontrar-\u00adse com a Rainha de Copas?<\/p>\n<p>Os produtos humanos s\u00e3o contingentes, e os valores n\u00e3o podem ser imut\u00e1veis e descompromissados com o tempo, porque eles tamb\u00e9m s\u00e3o contingentes e, por isso mesmo, jamais ser\u00e3o eternos.<\/p>\n<p>Quantos da minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o leram Franz Kafka para criticar a loucura d\u2019<em>O processo <\/em>que ofende a raz\u00e3o? Quantos n\u00e3o leram O Alienista para compreender melhor a indiferen\u00e7a entre a loucura e a lucidez? E o que dizer dos que caminharam pelas Ru\u00ednas Circulares, de bra\u00e7os dados com o imagin\u00e1rio para entender que o mundo pode ser apenas um objeto sonhado? Ou leram Funes, O Memorioso para descobrir que somos frutos de nossa ignor\u00e2ncia e prisioneiros de nossa pr\u00f3pria mem\u00f3ria? A literatura sempre ser\u00e1 utilizada para explicar o mundo e possivelmente para apoiar compreens\u00f5es pol\u00edticas, mas n\u00e3o poder\u00e1 nascer engajada, para n\u00e3o perder sua condi\u00e7\u00e3o de arte.<\/p>\n<p>A arte jamais poder\u00e1 aprisionar a verdade!<\/p>\n<p>Mas o leitor menino n\u00e3o se transformou em um relativista p\u00f3s\u00ad-modernista. N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel imaginar que a falta de verdade proveniente da arte permite que tudo possa ser chamado de arte e ter valor igual a um quadro de Monet \u2014 para falar de pinturas e cores \u2014 ou um texto de Homero \u2014 para falar de palavras e poemas. A arte n\u00e3o pode conter a verdade, mas poder\u00e1 n\u00e3o haver arte na express\u00e3o consensual do que seja verdade. E isto n\u00e3o \u00e9 a ant\u00edtese do que tenho dito. N\u00e3o \u00e9 uma forma diferente de defender o valor est\u00e9tico absoluto. \u00c9 apenas a constata\u00e7\u00e3o \u2014 de minha gera\u00e7\u00e3o \u2014 de que o novo pode ser muito mais pobre que o antigo. O jovem pode ser infinitamente mais limitado que o anci\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o cheguei aqui sozinho. Cheguei de bra\u00e7os dados com a gera\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-\u00admodernismo, filha das mentes do modernismo. Somos os netos de Anita Malfati, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e M\u00e1rio de Andrade. Somos os filhos de quem viveu a vida sob os ausp\u00edcios do <em>make it new<\/em>.<\/p>\n<p>Se a gera\u00e7\u00e3o dos meus pais ousou fazer o novo, preocupada com a sedimenta\u00e7\u00e3o do antigo, a gera\u00e7\u00e3o que a sucedeu vive o dilema da rotina do Chapeleiro Maluco, de\u00a0Lewis Carol.<\/p>\n<p>Estamos todos sempre de bra\u00e7os dados com o irracional, atrelados ao <em>non sense<\/em> e ao inexplic\u00e1vel. Sempre deixamo\u00ad-nos guiar pelo economicismo, pelo objetivo do lucro financeiro, pela mercantiliza\u00e7\u00e3o da arte. A l\u00f3gica da p\u00f3s\u00ad-modernidade \u00e9 a de quem oferece mais do ch\u00e1 a quem ainda nada bebeu, v\u00ea aus\u00eancia de lugares \u00e0 mesa quando as cadeiras se mostram vazias, e valoriza o banal e o superficial porque a velocidade dos tempos que correm exige fluidez, para mais r\u00e1pido acumular. \u00c9 a l\u00f3gica do pict\u00f3rico personagem de <em>Alice no Pa\u00eds das Maravilhas<\/em>, que agora domina o nosso modo de viver.<\/p>\n<p>Romper regras, chocar, fazer o novo, opor\u00ad-se \u00e0 m\u00e9trica e \u00e0 rima, \u00e0s regras da narrativa e ao consenso do est\u00e9tico foi uma rea\u00e7\u00e3o que se explicou temporalmente, mas que o novo, que vem comigo, que vem conosco, que trazemos juntos, questiona, critica e discute.<\/p>\n<p>Mesmo negando o valor est\u00e9tico absoluto, mesmo negando o engajamento do artista, compreendo que nem tudo \u00e9 arte. Repito que a literatura jamais aprisiona a verdade, mas n\u00e3o se faz literatura se n\u00e3o houver a compreens\u00e3o m\u00ednima daquilo que pode ser literatura.<\/p>\n<p>Meus pobres versos n\u00e3o fazem de mim Artur Rimbaud. Meus personagens simples n\u00e3o me permitem ser Thomas Mann. Minha prosa de pequeno contista n\u00e3o faz de mim Truman Capote, e as minhas cr\u00f4nicas pequeninas n\u00e3o me tornaram Guy de Maupassant. A literatura existe independente da verdade, mas a cren\u00e7a na universalidade do valor \u2014 sem absolutismos \u2014 \u00e9 a \u00fanica possibilidade de esperan\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p>Quando afirma isto, o fil\u00f3sofo finland\u00eas Joseph Raz n\u00e3o quer retornar aos manuais est\u00e9ticos que ditam o sentido da arte e limitam\u00ad-na a conceitos acad\u00eamicos. Quer apenas dizer que na dispers\u00e3o valorativa, moral e comportamental da p\u00f3s\u00ad-modernidade, a perda de referenciais permite que tudo seja arte, fazendo com que a arte repentinamente seja o nada.<\/p>\n<p>O valor somente sobrevive quando h\u00e1 uma raz\u00e3o end\u00f3gena para que o objeto seja valorizado. E o apego a coisas da arte somente \u00e9 razo\u00e1vel se pudermos justificar, para n\u00f3s mesmos, a exist\u00eancia do valor. Apego a coisas sem valor \u00e9 obsess\u00e3o. Mas o apego que d\u00e1 dimens\u00e3o ao que tem valor em si mesmo \u00e9 o que gera singularidade, \u00e9 o que transforma o livro em algo especial\u00edssimo para quem l\u00ea. O meu apego a Fernando Pessoa cria para mim um valor porque o poeta da tabacaria tem valor em si mesmo. N\u00e3o fui eu, \u00e1vido leitor, quem transformou Nauro Machado em excepcional poeta. Ele \u00e9 que se fez um grande artista. Eu apenas me apeguei \u00e0 sua poesia, de imenso valor e, com isso, valorizei\u00ad-a para mim.<\/p>\n<p>A relatividade absoluta da arte, que parecia ser a bandeira da liberdade cem anos atr\u00e1s, e que at\u00e9 hoje sobrevive como um dogma constru\u00eddo pelo modernismo, e exagerado \u00e0 mil\u00e9sima pot\u00eancia pelo p\u00f3s\u00ad-modernismo revelou\u00ad-se uma imensa tirana. Ela permite que os livros, os quadros, as partituras tenham valor art\u00edstico pela s\u00f3 raz\u00e3o de existirem, independentemente da literatura, da pintura e da m\u00fasica que possam conter. N\u00e3o podemos deixar que os cr\u00edticos ou aqueles que t\u00eam poder para serem ouvidos determinem o que \u00e9 bom e o que \u00e9 mau. O relativismo p\u00f3s\u00ad-moderno \u00e9 a porta aberta para a tirania de todos, para o reino de ningu\u00e9m e para a plan\u00edcie do caos.<\/p>\n<p>Retorno a Joseph Raz: A hist\u00f3ria comum \u00e9 que d\u00e1 significado aos objetos. Os valores n\u00e3o podem ser absolutos porque as hist\u00f3rias coletivas nem sempre s\u00e3o as mesmas, e se estes apegos fossem completamente \u00fanicos n\u00e3o haveria ideia de progresso na humanidade. \u00c9 exatamente por isso que nem sempre podemos falar de avan\u00e7o na linha do tempo, quando tratamos de arte. A possibilidade da singularidade se\u00a0universalizar \u00e9 que nos permite acreditar no futuro. A pluralidade de objetos singulares, com hist\u00f3rias muito pr\u00f3prias \u00e9 que possibilita o mosaico de express\u00f5es art\u00edsticas. Algumas se tornam universais, quando conectam com parcelas da hist\u00f3ria coletiva do mundo; outras permanecem singulares, quando n\u00e3o se acoplam \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o tempo em que vivo! Esta \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o da arte que posso sentir.<\/p>\n<p>Os tempos p\u00f3s-\u00admodernos s\u00e3o cru\u00e9is! O mundo n\u00e3o entende mais as perguntas de Oliver Twist, nem as certezas do Capit\u00e3o Nemo. Enquanto isso, a voz do Chapeleiro Maluco, para quem tudo no mundo tem um valor e um pre\u00e7o, ecoa atrav\u00e9s dos jornais e das televis\u00f5es. As regras do ch\u00e1 dos loucos s\u00e3o as mesmas do mundo que constru\u00edmos. Estamos sufocados pelo banal art\u00edstico. O dogma modernista da relatividade evoluiu para a superficialidade da literatura, e o mercado o absorveu. Como lembra Augusto Manguel, nos dias de hoje o banal e o superficial tornaram-\u00adse qualidades, pois agregam valor econ\u00f4mico \u00e0 arte.<\/p>\n<p>Mas o tempo de minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se caracteriza apenas por suas ingl\u00f3rias. Vivemos tamb\u00e9m o tempo de quem tem acesso a todos os objetos de desejo, mesmo que n\u00e3o possamos tomar decis\u00f5es com base no que conhecemos. Estes s\u00e3o os tempos de quem pode saber o que quiser, e neste aspecto, s\u00e3o tempos livres. Mesmo que sejam tempos de risco, de medo, de incerteza e de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Tempos de conjugar o universal com o local. Dizem de n\u00f3s que somos a gera\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o. Digo eu, roubando a palavra ao soci\u00f3logo polon\u00eas Zigmunt Baumann, que somos a gera\u00e7\u00e3o da glocaliza\u00e7\u00e3o. Globais e locais, a um s\u00f3 tempo. Somos os homens e mulheres aos quais foi dada a oportunidade de universalizar Am\u00e9rico Azevedo Neto, e de levar Moli\u00e8re ao jovem artista do Cazumb\u00e1. \u00c9 o tempo de fundir o circunstancial com o universal.<\/p>\n<p>E que paradigma exemplifica melhor a universaliza\u00e7\u00e3o do homem, que o inigual\u00e1vel Dunshee de Abranches?<\/p>\n<p>Nas cartas, nos romances, nos livros jur\u00eddicos, nas m\u00fasicas e nos ensaios, \u00e9 poss\u00edvel sentir as cores locais de Dunshee. S\u00e3o dele o marrom das terras de Graja\u00fa, os verdes das matas da <em>Setembrada<\/em> e o negro do <em>Cativeiro<\/em> que brota das senzalas e se confunde com o branco abolicionista da paz. S\u00e3o do doutor Abranches o azul do mar e o azul do c\u00e9u, completamente universais. Nele tamb\u00e9m reconhe\u00e7o o castanho dos olhos de minha m\u00e3e, o firme vermelho da voz e o doce branco do sil\u00eancio, ambos de meu pai.<\/p>\n<p>A Cadeira n\u00famero 40 \u2014 a mais nova dentre todas e na qual tomo posse aos quarenta anos de idade, simples benjamim entre imortais \u2014 traz consigo o poder da universalidade e a for\u00e7a da localidade. Por ela passaram dois homens que uniram o saber e as manifesta\u00e7\u00f5es viscerais do Maranh\u00e3o ao seu conhecimento das coisas do mundo. Ambos vieram do interior. Da Barra do Corda e do Sert\u00e3o, ambos t\u00eam suas origens na lavra da terra, e no seio deste meu Maranh\u00e3o, amado por Dunshee de Abranches. Nos tempos em que n\u00e3o se falava de globaliza\u00e7\u00e3o, ambos fizeram do seu engenho e da sua arte cofos e baladeiras para levarem as cores e a hist\u00f3ria do nosso lugar a outras plagas e a outras praias.<\/p>\n<p>Descobri Joaquim Vieira da Luz como ge\u00f3grafo e historiador, depois o percebi como bi\u00f3grafo e arquivista, catalogando e guardando para a eternidade a produ\u00e7\u00e3o de grandes artistas, tudo isto sem qualquer habilita\u00e7\u00e3o formal. Passei a admir\u00e1\u00ad-lo como intelectual a servi\u00e7o de seu tempo, e com todo o senso de recolha e guarda que lhe era peculiar. Jamais poderia o novel usurpador desta Cadeira ocupar\u00ad-se com tanta maestria da vida de nosso patrono como fez meu brilhante antecessor.<\/p>\n<p>Nascido em 17 de dezembro de 1893, na fazenda S\u00e3o Pedro, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Mat\u00f5es, hoje Parnarama, filho de Ant\u00f4nio Vieira da Luz e Liberata de Moura Castro Luz, era filho de lavradores e sequer concluiu a escola prim\u00e1ria. Alfabetizado por esfor\u00e7o familiar, dedicou\u00ad-se \u00e0 leitura desde sempre, inventando de colecionar livros e escritos e acumulando em sua biblioteca todo o conhecimento que lhe era poss\u00edvel. Ao ganhar o mundo para ganhar a vida, permitiu a vit\u00f3ria de todos os maranhenses, e principalmente desta Academia, que o recebeu em 2 de setembro de 1949.<\/p>\n<p>A ele sucedeu um mestre das artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Quis a natureza que este meu encontro, marcado sem dia nem hora, me permitisse a celebra\u00e7\u00e3o do poder da terra, da pot\u00eancia que vem das entranhas, do local que tende ao universal. Ocupava esta Cadeira, antes de meu ingresso, um verdadeiro artista.<\/p>\n<p>Recorro a tantas met\u00e1foras coloridas nestas muitas palavras, para assim honrar, neste rito de chegada, o eterno mestre das cores: Ant\u00f4nio Almeida. Recorro a tantas palavras acerca da interpreta\u00e7\u00e3o das coisas do mundo para homenagear o mestre das formas: Ant\u00f4nio Almeida.<\/p>\n<p>As suas esculturas n\u00e3o aprisionam a verdade: libertam-\u00adna. Os materiais mundanos adquirem vida, sentimentos e perfei\u00e7\u00f5es. Eles s\u00e3o o fruto da terra que visita a mesa dos deuses. S\u00e3o formas que adquirem vida e que podem latir, voar e correr para o mundo, ou empunhar a lan\u00e7a de Miguel de Cervantes Saavedra, ao lado de Sancho Pan\u00e7a, cumprindo a fun\u00e7\u00e3o l\u00edrica do eterno Dom Quixote. Ao v\u00ea\u00ad-lo, no teatro Artur Azevedo, esque\u00e7o\u00ad-me que \u00e9 de lata, e persigo moinhos, enfrento gigantes e sonho com a po\u00e9tica liberdade. As esculturas de Ant\u00f4nio Almeida s\u00e3o pinturas da vida, can\u00e7\u00f5es do imagin\u00e1rio, poemas feito mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>As suas cores eu as conheci quando crian\u00e7a. Seus quadros s\u00e3o a express\u00e3o da for\u00e7a que vem de dentro, que brota da terra, que surge do homem. Um artista pl\u00e1stico que ensinou a todos n\u00f3s que a Academia Maranhense de Letras \u00e9 a Casa dos que se esfor\u00e7am, como eu, para serem artistas, e daqueles que sem esfor\u00e7o, trazem consigo do ber\u00e7o, da Barra do Corda, da sua inf\u00e2ncia a arte pulsando nas veias.<\/p>\n<p>Meu antecessor nasceu artista, cresceu escultor, amadureceu pintor, viveu poeta e faleceu imortal. \u00c9 dele o fervor inconfund\u00edvel de telas muitas e tamb\u00e9m \u00e9 dele a for\u00e7a dos bra\u00e7os que se mostram nas cria\u00e7\u00f5es. Seus quadros s\u00e3o poemas, s\u00e3o contos e s\u00e3o romances.<\/p>\n<p>Foi seu profundo senso de est\u00e9tica, qualidade natural e imanente ao verdadeiro g\u00eanio, que permitiu ser ele um dos pioneiros artistas pl\u00e1sticos a ocupar Cadeira nesta Casa secular. Rememorando as telas que vi na meninice, observando a sua pintura com o olhar maduro de hoje, vejo a leitura local de temas universais, e percebo a universalidade de momentos plenamente locais. Suas pinturas fundem espa\u00e7os, eternizam tempos e trazem o indel\u00e9vel tra\u00e7o do verdadeiro artista.<\/p>\n<p>A escurid\u00e3o apossou-\u00adse de sua vida, assim como tomou de assalto a Jorge Luis Borges. Assim como ao portenho a falta de vis\u00e3o n\u00e3o ceifou a vida criativa, a Ant\u00f4nio Almeida a perda da vis\u00e3o permitiu o culto ao som, o fervor da palavra dita e a paix\u00e3o ao amor rimado.<\/p>\n<p>Seus poemas s\u00e3o pinturas, s\u00e3o quadros, s\u00e3o telas e s\u00e3o esculturas. S\u00e3o a pura constata\u00e7\u00e3o de que toda forma de arte justifica uma vida, assim como todo amor que se expressa atrav\u00e9s da arte \u00e9, a sua maneira, eterno.<\/p>\n<p>Nascido em 22 de maio de 1922, Ant\u00f4nio Almeida honrou as artes, honrou esta Academia, e honrou o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Reconhecendo que ele foi o eterno mestre das artes, sei que sucedo a um virtuose. Estou aqui me sentindo consequ\u00eancia do menino leitor, e j\u00e1 transformado em leitor menino. Sinto\u00ad-me\u00a0repleto de cores, de letras e de palavras, tateando para me tornar herdeiro da cultura de Joaquim Vieira da Luz, para fazer jus ao virtuosismo de Ant\u00f4nio Almeida, e para honrar a completude de Dunshee de Abranches.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de reconhecer que j\u00e1 \u00e9 tarde, e que devo obedecer a advert\u00eancia de Italo Calvino. A velocidade e a leveza s\u00e3o boas conselheiras para quem escreve. Mas n\u00e3o posso desdizer Umberto Eco, quando lembra que o dever da velocidade n\u00e3o pode negar os prazeres da demora. Preciso demorar\u00ad-me mais um pouco para dar\u00ad-me o prazer de reconhecer uma inigual\u00e1vel d\u00e1diva: o olhar e o sorriso de minha m\u00e3e, as palavras e o sil\u00eancio de meu pai. \u00c9 guiado por eles que me apresento \u00e0 Academia.<\/p>\n<p>Senhores acad\u00eamicos: para justificar a petul\u00e2ncia de um leitor menino que lhes bate \u00e0 porta, utilizo\u00ad-me de uma leitura livre da poesia de Michel de Montaigne: aqui estou porque ele era o meu pai; aqui estou porque ela era a minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Tomo de empr\u00e9stimo a f\u00e1bula O Lobo e o Cordeiro, de Fedro (Caius Iulius Phaedrus).<\/p>\n<p>O cordeiro recebia todas as \u00e1guas que vinham do lobo, pois o lobo estava a montante e o cordeiro a jusante. Acima do ponto onde estou, na margem do rio de minha vida, sempre estiveram meu pai e minha m\u00e3e. Deles herdei as cores, com eles bebi das \u00e1guas, com eles aprendi a ver o mundo, por eles estou aqui. Meu pai e minha m\u00e3e s\u00e3o o montante de minha vida, eu que sou mero fruto dos seus amores. Estou e sempre estarei a seu jusante, ousando encontrar\u00ad-me a montante de meus pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p>Dedico aos dois a minha vida, a minha arte e as minhas palavras.<\/p>\n<p>Com Fedro&#8230;<br \/>\n<em>Superior stabant pater et mater, longeque inferior, filius<\/em>.<br \/>\nMuito obrigado.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds, a 23 de mar\u00e7o de 1969. Filho de Ney de Barros Bello e Maria Helena Martins de Barros Bello. Graduado em Direito pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o (1990), mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (2000) e doutor em Direito Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006), com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":261,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[26],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1114,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions\/1114"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media\/261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}