{"id":2449,"date":"2017-11-18T10:09:51","date_gmt":"2017-11-18T13:09:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=2449"},"modified":"2017-11-19T10:13:06","modified_gmt":"2017-11-19T13:13:06","slug":"o-canto-dos-exilados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/o-canto-dos-exilados\/","title":{"rendered":"O canto dos exilados"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2450\" style=\"width: 676px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2450\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-2450\" src=\"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/1510930161-752524673.jpg\" alt=\"\" width=\"666\" height=\"993\" \/><p id=\"caption-attachment-2450\" class=\"wp-caption-text\">Livro foi organizado e prefaciado por Arlete Nogueira da Cruz (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00c3O LU\u00cdS- Uma vida apenas \u00e9 insuficiente para um verdadeiro artista, por isso ele se desdobra em cada cria\u00e7\u00e3o sua, assume em cada uma delas uma face nova, insuspeita, com a qual ele leva a cabo o seu destino, que \u00e9 ser todos e ningu\u00e9m a um s\u00f3 tempo, para assim alcan\u00e7ar a eternidade. Entanto, n\u00e3o apenas ao artista cabe a tarefa da imortalidade. Ela \u00e9 compartilhada com cada indiv\u00edduo que, por qualquer que seja a raz\u00e3o, entre em contato com sua obra e veja nela algo de sua pr\u00f3pria face e de sua pr\u00f3pria ess\u00eancia, levando a obra de arte consigo, vida afora, continuando, assim, a vida do seu criador. E \u00e9 isso que encontramos no bel\u00edssimo estudo que Franklin de Oliveira dedica ao grande escritor Josu\u00e9 Montello, intitulado A Saga Romanesca de Josu\u00e9 Montello.<\/p>\n<p>Organizado e prefaciado pela escritora Arlete Nogueira da Cruz, a quem devemos essa hist\u00f3rica publica\u00e7\u00e3o, o livro \u00e9 uma das p\u00e9rolas do ensa\u00edsmo liter\u00e1rio brasileiro, e p\u00f5e a nu a obra de um dos maiores romancistas da literatura brasileira do s\u00e9culo XX e, certamente, o maior prosador da literatura maranhense do \u00faltimo s\u00e9culo. Com uma linguagem clara e um estilo elegante, t\u00e3o comuns ao autor de Morte da Mem\u00f3ria Nacional e de A Fantasia Exata, e eivado de uma erudi\u00e7\u00e3o solidamente firmada, Franklin de Oliveira nos apresenta os cantos mais \u00edntimos da obra de Josu\u00e9 Montello, descobrindo em seus romances faces que at\u00e9 ent\u00e3o eram ignoradas tanto pelo grande p\u00fablico quanto pelos cr\u00edticos mais exigentes.<\/p>\n<p>Filho da mesma gera\u00e7\u00e3o e da mesma terra do autor de Os Tambores de S\u00e3o Lu\u00eds, ningu\u00e9m melhor do que o grande ensa\u00edsta maranhense para reconhecer na obra de Josu\u00e9 Montello os elementos que garantem a sua imortalidade. A cr\u00edtica verdadeira, j\u00e1 nos tinha ensinado Machado de Assis, deve estar munida de dois elementos essenciais: a ci\u00eancia e a consci\u00eancia. A esses dois, Franklin acrescentou um terceiro: a sensibilidade. E \u00e9 devido a essa sensibilidade e a um certo sentimento de pertencimento ao mesmo barro do qual se formou o autor de Cais da Sagra\u00e7\u00e3o, e a uma erudi\u00e7\u00e3o sob muitos aspectos espantosa, que Franklin de Oliveira consegue nos revelar um romancista muito acima das conven\u00e7\u00f5es da cr\u00edtica liter\u00e1ria profissional. H\u00e1 uma certa intelig\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o, e foi com ela que o ensa\u00edsta chegou aos recantos mais long\u00ednquos da obra montelliana para nos dar, como um presente, os tesouros que l\u00e1 encontrou.<\/p>\n<p>Assim, desponta perante nossos olhos um romancista que, ao falar de sua terra e de sua gente, fala de todas as terras e de todas as gentes, seguindo \u00e0 risca a famosa frase do grande russo Tolstoi, que nos assegura que pintamos o mundo ao desenharmos a nossa aldeia. E \u00e9 isso que faz a obra montelliana, como nos confessa Franklin de Oliveira. Nela, os homens comuns de S\u00e3o Lu\u00eds s\u00e3o s\u00edmbolos de todos os homens e sofrem as mesmas gl\u00f3rias e as mesmas trag\u00e9dias, como o provam Dami\u00e3o, personagem do romance Os Tambores de S\u00e3o Lu\u00eds e Mestre Severino, do romance Cais da Sagra\u00e7\u00e3o. Ambos cria\u00e7\u00f5es da vasta galeria montelliana, esses personagens trazem em si toda a for\u00e7a e profundidade alcan\u00e7adas pelo seu criador e configuram, por vezes, um elemento pioneiro em nossas letras, como \u00e9 o caso de Mestre Severino e do romance ao qual pertence. Como bem nos chama aten\u00e7\u00e3o Franklin de Oliveira, Cais da Sagra\u00e7\u00e3o \u00e9 um romance inovador nas letras maranhense e brasileira, por ter o mar como cen\u00e1rio e como tema, sobretudo em um pa\u00eds continental como o nosso, cujo mar \u00e9 parte fundamental de sua paisagem. Igualmente inovador, e n\u00e3o s\u00f3 na literatura brasileira mas tamb\u00e9m na literatura portuguesa, \u00e9 o romance O Sil\u00eancio da Confiss\u00e3o, que \u00e9, segundo o grande ensa\u00edsta, o introdutor entre n\u00f3s dos thrillers (hist\u00f3ria de suspense). Somente esses dois aspectos j\u00e1 seriam suficientes para colocar o auto de A D\u00e9cima Noite na galeria dos grandes prosadores de l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o de Josu\u00e9 Montello, assegura-nos Franklin, \u00e9 um Maranh\u00e3o que busca a sua identidade, continuando uma saga iniciada no s\u00e9culo XIX por outro romancista, Alu\u00edsio Azevedo, o qual, ao contr\u00e1rio de Montello, direcionou sua an\u00e1lise para as for\u00e7as sociais que moldam a conduta humana. E, nessa busca para saber suas origens, acaba se reconhecendo. \u00c9 um Maranh\u00e3o acima dos modismos de toda sorte e dos velhos clich\u00eas que o cercam, e que desponta t\u00e3o universal como os artistas que nele nasceram.<\/p>\n<p>Obra concisa, mas de profundidade admir\u00e1vel, A Saga Romanesca de Josu\u00e9 Montello \u00e9 um exemplo tanto da grandeza e do talento do romancista de Noite Sobre Alc\u00e2ntara quanto da intelig\u00eancia, sensibilidade e erudi\u00e7\u00e3o de Franklin de Oliveira, sem d\u00favida nenhuma um dos maiores intelectuais que o Maranh\u00e3o e o Brasil j\u00e1 tiveram, e que infelizmente sofre de injusto esquecimento por parte de nossa intelligentsia. Vozes exiladas, mas que mesmo assim insistem em seu canto, o estudo de Franklin \u00e9 uma prova da verdadeira cultura maranhense, prova essa que Arlete Nogueira da Cruz faz vir \u00e0 tona, para a nossa alegria e alento, justamente em uma \u00e9poca na qual sofremos tanto com a estultice generalizada que tomou conta de nossa vida intelectual. \u00c9 um livro obrigat\u00f3rio para todos aqueles que amam a cultura em seu sentido mais pleno, e uma chance de poder, ao conhecer o universo de um dos maiores escritores de nossa terra, continuar a vida desse genial criador e, assim, tamb\u00e9m continuar a nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; S\u00c3O LU\u00cdS- Uma vida apenas \u00e9 insuficiente para um verdadeiro artista, por isso ele se desdobra em cada cria\u00e7\u00e3o sua, assume em cada uma delas uma face nova, insuspeita, com a qual ele leva a cabo o seu destino, que \u00e9 ser todos e ningu\u00e9m a um s\u00f3 tempo, para assim alcan\u00e7ar a eternidade. 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