{"id":215,"date":"2014-03-19T13:50:43","date_gmt":"2014-03-19T13:50:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=215"},"modified":"2014-12-04T04:44:24","modified_gmt":"2014-12-04T04:44:24","slug":"benedito-bogea-buzar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/benedito-bogea-buzar\/","title":{"rendered":"Benedito Bog\u00e9a Buzar"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em Itapecuru-MA, a 17 de fevereiro de 1938. Filho de Abdala Buzar Netto e Deonila Bog\u00e9a Buzar. Ap\u00f3s cursar em S\u00e3o Lu\u00eds o Col\u00e9gio Maranhense, dos Irm\u00e3os Maristas, e o Col\u00e9gio Estadual do Maranh\u00e3o (Liceu), ingressou na Faculdade de Direito do Maranh\u00e3o, pela qual \u00e9 bacharel.<\/p>\n<p>Jornalista, advogado, professor, pesquisador.<\/p>\n<p>Manteve, no <em>Jornal do Dia, <\/em>a coluna di\u00e1ria Roda Viva, que assinava sob o pseud\u00f4nimo de J. Amparo, e que foi, em seu tempo, a mais prestigiosa de S\u00e3o Lu\u00eds. Atualmente voltou a escrever, sob seu pr\u00f3prio nome no suplemento <em>Alternativo, <\/em>do jornal colaborador dos jornais <em>O Imparcial, O Jornal, Jornal do Dia, O Debate, O Estado do Maranh\u00e3o, <\/em>e das revistas <em>Garota de S\u00e3o Lu\u00eds, Proje\u00e7\u00e3o. Impacto e Legenda, <\/em>da qual tamb\u00e9m foi secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Suas atividades jornal\u00edsticas compreenderam, ainda, a produ\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o do programa Mar\u00e9 Alta, que manteve na TV Ribamar.<\/p>\n<p>Deputado \u00e0 Assembleia Legislativa do Maranh\u00e3o, Benedito Buzar teve seu mandato cassado em 1964.<\/p>\n<p>Professor titular de Ci\u00eancia Pol\u00edtica do Curso de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica da UEMA; membro e depois presidente do Conselho Estadual de Cultura; chefe da Divis\u00e3o de Assuntos Internos, da Divis\u00e3o de Planejamento, da Assessoria T\u00e9cnica e de Gabinete da Sudema; subchefe do Departamento de Estudos Jur\u00eddicos e Sociais da Escola de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica da UEMA; assessor de Comunica\u00e7\u00e3o do Senai, Sesi e Fiema; advogado do Escrit\u00f3rio T\u00e9cnico de Administra\u00e7\u00e3o Municipal; chefe de gabinete da Prefeitura de S\u00e3o Lu\u00eds; secret\u00e1rio municipal de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura de S\u00e3o Lu\u00eds; coordenador geral da Secretaria da Cultura do Maranh\u00e3o; diretor-presidente da Maratur; secret\u00e1rio de Estado da Cultura; diretor-presidente do Servi\u00e7o de Imprensa e Obras Gr\u00e1ficas do Estado; assessor do Sebrae-MA; gerente de Articula\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Regi\u00e3o do Itapecuru.<\/p>\n<p>Autor de diversas mem\u00f3rias hist\u00f3ricas, duas das quais foram premiadas pelo Concurso Art\u00edstico e Liter\u00e1rio Cidade de S\u00e3o Lu\u00eds: <em>Do Sarneysmo ao Vitor\u00ednismo<\/em>e <em>Elei\u00e7\u00e3o de Chateaubriand no Maranh\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>De suas numerosas pesquisas, Benedito Buzar publicou <em>Agreve de 51; os trinta e quatro dias que abalaram S\u00e3o Lu\u00eds. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Editora Alc\u00e2ntara, 1983; <em>Fiema: vinte anos de lutas e <\/em>vit\u00f3rias. S\u00e3o Lu\u00eds: 1988; <em>50 anos de Banco do Estado do Maranh\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: 1989; <em>Politiqueiros, politicalha, politiquice, politicagem e pol\u00edtica do Maranh\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Sioge. 1989; <em>100 anos de telefonia no Maranh\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: 1991, <em>O vitorinismo; lutas pol\u00edticas no Maranh\u00e3o (<\/em>1945 a 1965). S\u00e3o Lu\u00eds: Lithograf, 1998 (2a\u00a0e 3a\u00a0ed., 1998; 4a ed., 1999); <em>Vitor\u00ednistas e oposicionistas. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Lithograf, 2001; <em>Neiva Moreira: o jornalista do povo, <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds; Lithograf, 1997: <em>50 Anos da Greve de 51. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds, Lithograf, 2001.<\/p>\n<p>Agraciado com as medalhas: do M\u00e9rito Timbira; Jo\u00e3o Lisboa do M\u00e9rito Cultural e da Ordem dos Timbiras, no grau de grande oficial; do M\u00e9rito Judici\u00e1rio Desembargador Ant\u00f4nio Rodrigues Vellozo; Sim\u00e3o Est\u00e1cio da Silveira, da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Lu\u00eds; do M\u00e9rito Mau\u00e1 do Minist\u00e9rio dos Transportes.<\/p>\n<p>Tesoureiro da Academia Maranhense de Letras, institui\u00e7\u00e3o que representou no Conselho Universit\u00e1rio da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, no Conselho Administrativo da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Maranh\u00e3o e no Conselho Editorial da Uniceuma.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Eleito vice-presidente na Diretoria do bi\u00eanio 2010-12, assumiu a Presid\u00eancia em 17.3.2011, por vac\u00e2ncia desta. Eleito para o bi\u00eanio 2012-14 e reeleito para o bi\u00eanio 2014-16.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE\u00a0POSSE<\/h5>\n<p>A hist\u00f3ria propriamente dita da Cadeira 13 come\u00e7a na noite de 11 de janeiro de 1919, com a posse de seu fundador, o m\u00e9dico escritor e jornalista Jos\u00e9 de Almeida Nunes, recebido, em nome da Academia, pelo contista e tamb\u00e9m jornalista Domingos Barbosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Academia, fundada na data de hoje, em 1908, ultrapassara seus primeiros dez anos de vida sob o impacto de uma grave advert\u00eancia: a de que, para renovar as energias t\u00e3o precocemente combalidas, para superar o des\u00e2nimo causado pelas mortes de Costa Gomes, Astolfo Marques, Maranh\u00e3o Sobrinho e Ant\u00f4nio Lobo, o \u00faltimo, alma e l\u00edder de todos os movimentos culturais da S\u00e3o Lu\u00eds de seu tempo, precisava se colocar acima das conting\u00eancias da falibilidade humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em nome de compromissos com a perman\u00eancia, e seguindo uma linha de equil\u00edbrio entre o culto \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es e a constante renova\u00e7\u00e3o que d\u00e1 vida e atualidade a essas mesmas tradi\u00e7\u00f5es, a Academia lan\u00e7ou para longe de si a apatia generalizada que a mantinha em estado de exist\u00eancia virtual, e se imp\u00f4s a tarefa da a\u00e7\u00e3o vivificadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 dessa fase de renascimento, de ressurrei\u00e7\u00e3o e a reafirma\u00e7\u00e3o dos irrenunci\u00e1veis compromissos com o passado, com o presente e com o futuro, que s\u00e3o meras divis\u00f5es esquem\u00e1ticas de um conjunto indiviso, o efetivo nascimento da Cadeira 13. Dela hoje me fa\u00e7o titular, nesta cerim\u00f4nia em que o presente \u00e9 ponte para o futuro e tamb\u00e9m liga\u00e7\u00e3o com o passado, que se estende para al\u00e9m da Academia, porque funda suas ra\u00edzes nas origens mais verdadeiramente nossas, do gosto pelas letras e da voca\u00e7\u00e3o para a vida liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Grande alegria, Senhores Acad\u00eamicos, \u00e9 me haverdes trazido at\u00e9 aqui, para ser um de v\u00f3s, sob o honroso patronato de um educador nascido em meu Itapecuru-Mirim natal, e que foi, acima de tudo, um dos maiores homem de imprensa de nossa terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fundador do <strong>Farol Maranhense<\/strong>, o primeiro \u00f3rg\u00e3o liberal que aqui circulou, e um dos mais vibrantes, entre todos os jornais maranhenses, o patrono da Cadeira 13 de tal modo se identificou com a causa da liberdade, sua bandeira de luta e sua paix\u00e3o maior, que a ela consagrou o brilho de sua intelig\u00eancia, as luzes de seu saber e a juventude em flor na qual morreu, perseguido pelos poderosos, mas amado por seu povo, que lhe guardou o exemplo e lhe reconheceu a coragem c\u00edvica, dando-lhe um cognome que vale pela mais clara explica\u00e7\u00e3o: o Farol, ep\u00edteto que brilhou sobre ele, e com luz t\u00e3o intensa, que se transferiu para as irm\u00e3s que lhe sobreviveram, pois que todas ficaram conhecidas na Cidade como \u201cAs Far\u00f3is\u201d, o que confirma, duplamente, o celebrado verso de Cam\u00f5es: <strong>Transforma-se o amador na coisa amada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Moraes e Silva<\/strong>, o patrono da Cadeira 13, \u00e9 uma daquelas figuras que, no alvorecer da vida nacional brasileira formaram, aqui no Maranh\u00e3o, o n\u00facleo irradiador do verdadeiro sentimento de nosso povo, fundado nos ideais da liberdade, na aspira\u00e7\u00e3o de construir uma p\u00e1tria soberana e no sonho de combater, sem desfalecimento, todas as formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Permiti-me um breve painel de natureza biogr\u00e1fica, para dizer-vos que Jos\u00e9 C\u00e2ndido, ainda crian\u00e7a, mudou-se, com a fam\u00edlia, do s\u00edtio Ju\u00e7ara, em Itapecuru-Mirim, para S\u00e3o Lu\u00eds. Aqui, no curto espa\u00e7o de treze meses e treze dias, a morte de seus pais o lan\u00e7ou na orfandade, mal completara 10 anos. Acolhido por um abastado comerciante portugu\u00eas, Comendador Antonio Jos\u00e9 Meireles, Jos\u00e9 C\u00e2ndido continuou estudando e, em princ\u00edpios de 1818, seguiu para a Fran\u00e7a. Ia preparar-se, em col\u00e9gios de Havre para ser um negociante ilustrado, conforme expresso desejo de seu protetor. Mas a viva, precoce e evidente intelig\u00eancia daquele menino mudou o projeto inicial do Comendador Meireles, que resolveu transferir seu protegido para Coimbra, em cuja Universidade iniciou-se no curso de Medicina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entretanto, a efervesc\u00eancia nacionalista que ent\u00e3o dominava o Brasil, e que resultou na proclama\u00e7\u00e3o de 7 de setembro, n\u00e3o poderia deixar indiferente o ardoroso patriota que era Jos\u00e9 C\u00e2ndido. Principalmente por ser o Maranh\u00e3o um dos p\u00f3los da rea\u00e7\u00e3o colonial que lutava para mant\u00ea-lo subordinado \u00e0 antiga metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>O futuro m\u00e9dico, trocando e truncando um destino previs\u00edvel de posi\u00e7\u00e3o destacada e c\u00f4moda, resolveu aventurar-se na luta em favor da causa brasileira, disse adeus a Coimbra e tomou o caminho de dezenas de outros jovens seus compatriotas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a certeza de que ningu\u00e9m se perde nos caminhos de volta \u00e0 terra natal, aqui chegou em setembro de 1823, e por algum tempo foi apenas um atento observador da exalta\u00e7\u00e3o de \u00e2nimos que sacudia o Maranh\u00e3o. Certamente por gratid\u00e3o ao seu protetor, um dos mais ativos e destacados l\u00edderes da rea\u00e7\u00e3o lusitana, Jos\u00e9 C\u00e2ndido fez de tudo para n\u00e3o ser atra\u00eddo ao centro dos acontecimentos. Tanto \u00e9 isso verdade, que inicialmente residiu em casa do Comendador Meireles e trabalhou em seu estabelecimento comercial. Mas o confronto de id\u00e9ias inconcili\u00e1veis, cedo atingiu a satura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, fez-se de volta a Itapecuru-Mirim, e ali, na localidade Palmeira Torta, pr\u00f3ximo de onde nascera, dedicou-se \u00e0 agricultura, empenhado em prover o pr\u00f3prio sustento e disposto a contribuir, com seu trabalho, para o desenvolvimento econ\u00f4mico do nascente Imp\u00e9rio do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a morte do av\u00f4, com quem viviam as irm\u00e3s de Jos\u00e9 C\u00e2ndido, f\u00ea-lo tomar a si, aos 19 anos de idade, o grave encargo de chefe de fam\u00edlia. E tamb\u00e9m levou \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de instalar-se em S\u00e3o Lu\u00eds, onde passou a trabalhar no magist\u00e9rio. Em sua casa abriu aulas de franc\u00eas e geografia, e depois, um internato, no qual estudaram diversos alunos que viriam a ser ilustres personalidades do Maranh\u00e3o imperial. Al\u00e9m disso, lecionava em domic\u00edlio e no quartel do Ex\u00e9rcito, para cadetes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O verdadeiro Jos\u00e9 C\u00e2ndido, entretanto, ainda n\u00e3o se revelara.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Moraes e Silva, principalmente destinado ao com\u00e9rcio, depois encaminhado, sucessivamente, \u00e0 medicina, \u00e0 agricultura e ao magist\u00e9rio, era, na verdade, uma aut\u00eantica voca\u00e7\u00e3o de homem p\u00fablico, um patriota de \u00e2nimo inquebrant\u00e1vel, um liberal arregimentado contra todas as modalidades de opress\u00e3o, de desvios da lei e de atentados \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E como express\u00e3o natural e direta desses excelsos atributos morais, lan\u00e7ou-se \u00e0 aventura da cria\u00e7\u00e3o de um jornal, o <strong>Farol Maranhense<\/strong>, cujo primeiro n\u00famero circulou a 27 de setembro de 1827. Na apresenta\u00e7\u00e3o, em que tra\u00e7ou o programa de seu jornal, disse Jos\u00e9 C\u00e2ndido:<\/p>\n<p><em>Eis-nos a escrever para o p\u00fablico: conhecemos qu\u00e3o \u00e1rdua \u00e9 a tarefa que sobre n\u00f3s tomamos, contudo, como amamos sinceramente o nosso pa\u00eds, faremos a ele todo o sacrif\u00edcio poss\u00edvel, sem importar-nos que sobre n\u00f3s recaia o rancor de algu\u00e9m ou o \u00f3dio de muitos.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais adiante, estas palavras candentes, e que tem, nos dias de hoje, impressionante atualidade e perfeita aplica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Falaremos com aquela franqueza pr\u00f3pria a cidad\u00e3os livres, sem medo de expormos com coragem nossas opini\u00f5es, e de combatermos, quanto em nossas for\u00e7as couber, os excessos contra a Constitui\u00e7\u00e3o, a liberdade, a seguran\u00e7a individual, e a propriedade dos cidad\u00e3os brasileiros. Apontaremos as infra\u00e7\u00f5es da lei e da Constitui\u00e7\u00e3o, cometidas pelos empregados p\u00fablicos, qualquer que seja o lugar que ocupem: e bem assim referiremos tudo quanto nos parecer concernente ao bom andamento dos neg\u00f3cios do nosso pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p>Na elei\u00e7\u00e3o de 16 de maio de 1828, em artigo intitulado Liberdade, observava:<\/p>\n<p><em>Nenhum membro da sociedade pode ser privado da sua liberdade, sem que esta priva\u00e7\u00e3o seja considerada como um ataque formal aos direitos mais sagrados e mais caros da maioria,<\/em><\/p>\n<p>verdade essa que se mant\u00e9m plenamente vigente at\u00e9 hoje, na linha do que melhor se entende por democracia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por essa coragem c\u00edvica, por esse arrojo que \u00e9 um dos exemplos mais edificantes e comovedores da hist\u00f3ria das lutas libert\u00e1rias do Maranh\u00e3o, Jos\u00e9 C\u00e2ndido pagaria muito caro. Apesar disso, jamais se abateu diante das arbitrariedades, nem fez qualquer concess\u00e3o aos princ\u00edpios de que foi express\u00e3o e porta-voz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mandado sentar pra\u00e7a, como castigo por seu destemor, como puni\u00e7\u00e3o por sua altivez, teria sido exposto \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o da chibata, que ent\u00e3o era forma de castigo, aplicado nas corpora\u00e7\u00f5es militares a n\u00e3o graduados, n\u00e3o fora os privil\u00e9gios de fam\u00edlia, gra\u00e7as aos quais, em vez de soldado raso, como desejava t\u00ea-lo o Presidente Costa Pinto, foi incorporado na condi\u00e7\u00e3o de cadete, situa\u00e7\u00e3o que perdurou at\u00e9 a posse do novo presidente da Prov\u00edncia, Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Ara\u00fajo Viana, futuro Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, o qual revogou tal injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Devolvido \u00e0 plena liberdade, Jos\u00e9 C\u00e2ndido dedicou-se \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o de sua vida familiar, cuidando da tia e das tr\u00eas irm\u00e3s que dele materialmente dependiam. A seguir, retomou a publica\u00e7\u00e3o de seu jornal, que voltou a circular em 23 de janeiro de 1831. Novamente dedicado \u00e0 causa p\u00fablica, \u00e9 de registrar, entre as campanhas em que se empenhou, nesta fase de sua milit\u00e2ncia, a da subscri\u00e7\u00e3o popular que rendeu a aquisi\u00e7\u00e3o de dois mil volumes para a casa de livros que ent\u00e3o se organizava em S\u00e3o Lu\u00eds, centen\u00e1ria e merit\u00f3ria institui\u00e7\u00e3o ainda hoje viva e atuante, e que \u00e9 a nossa Biblioteca P\u00fablica Benedito Leite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 feliz coincid\u00eancia que, neste dia, em que me coloco sob o patronato de Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Moraes e Silva, o Farol, neste dia \u00e9 do nascimento de Gon\u00e7alves Dias e da funda\u00e7\u00e3o da Academia Maranhense de Letras, justamente neste sal\u00e3o, que ent\u00e3o servia de sede \u00e0 Biblioteca P\u00fablica, \u00f3rg\u00e3o da Secretaria de Cultura, que tenho a honra de dirigir, esteja ela, a Biblioteca, iniciando uma grande campanha comunit\u00e1ria pela doa\u00e7\u00e3o de livros, inspirada no lema Doar \u00e9 Saber, e ainda: na mesma linha que vai ter \u00e0s suas origens, fundadas nessa enriquecedora intera\u00e7\u00e3o com a nossa comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acredito j\u00e1 esteja devidamente estabelecida a raz\u00e3o por que Jos\u00e9 Carlos de Almeida Nunes, o fundador da Cadeira 13, m\u00e9dico por forma\u00e7\u00e3o e jornalista por voca\u00e7\u00e3o, escolheu, entre dezenas de luminares da vida cultural maranhense, Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Moraes e Silva para seu patrono. Essa escolha, das mais ditosas que poderia fazer, marcou, at\u00e9 agora, o car\u00e1ter da cadeira que venho ocupar, e da qual se pode afirmar que tem sido uma cadeira cativa de jornalistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sucessor de Almeida Nunes foi Clarindo Santiago, tamb\u00e9m m\u00e9dico, tamb\u00e9m jornalista, al\u00e9m de escritor. Forte voca\u00e7\u00e3o de ensa\u00edsta, tinha o gosto de glorifica\u00e7\u00e3o das grandes figuras de nossa vida cultural. Uma das express\u00f5es culminantes, na linhagem dos m\u00e9dicos humanistas do Maranh\u00e3o, Clarindo Santiago soube demonstrar que a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com as letras, a exemplo do que igualmente demonstraram, com brilhantismo, C\u00e9sar Marques, Henriques Leal, Gomes de Sousa, Nina Rodrigues, Aquiles Lisboa, Justo Jansen, Odilon Soares, Luiz Viana, Fernando Viana, Bacelar Portela, Serra de Castro, Salom\u00e3o Fiquene, Pedro Braga Filho, Pedro Neiva de Santana, Alfredo Luiz Bacelar Viana e Jo\u00e3o Mohana, para mencionar, t\u00e3o somente, aqueles que para sempre se ligaram \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0s gl\u00f3rias desta Casa de Cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Devemos a Clarindo Santiago, que foi professor, diretor do Liceu Maranhense, e da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica, not\u00e1veis trabalhos interpretativos de Jo\u00e3o Francisco Lisboa e de Gon\u00e7alves Dias, um estudo sobre os poetas da chamada Escola Mineira, e tamb\u00e9m o pioneiro ensaio que chamou a aten\u00e7\u00e3o geral para a import\u00e2ncia de Joaquim de Sous\u00e2ndrade, o poeta que foi, entre n\u00f3s, o epicentro de um <strong>terremoto clandestino<\/strong>, como dele disse o cr\u00edtico maranhense Luiz Costa Lima, e que, afinal veio \u00e0 tona pela for\u00e7a de suas virtualidades de renova\u00e7\u00e3o, ousadias formais, insurrei\u00e7\u00f5es sonoras e antecipa\u00e7\u00f5es admir\u00e1veis, que apontavam para os mais altos momentos da modernidade e das vanguardas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 oportuno lembrar que os irm\u00e3os Augusto e Haroldo de Campos, respons\u00e1veis pela revis\u00e3o de um injustific\u00e1vel processo de olvido, merit\u00f3ria tarefa que tem contado com a prestante contribui\u00e7\u00e3o de Jomar Moraes, reconhecem a import\u00e2ncia do trabalho de Clarindo Santiago.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de Clarindo Santiago, foi eleito para a Cadeira 13 o professor, mestre entre os mestres, o pesquisador, ensa\u00edsta e, por toda vida, jornalista Ant\u00f4nio Lopes, fundador e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Maranhense de Imprensa, e que, a par de seu competente e marcante magist\u00e9rio no Liceu Maranhense e na antiga Faculdade de Direito do Maranh\u00e3o, a par dos estudos hist\u00f3ricos sobre S\u00e3o Lu\u00eds, Alc\u00e2ntara e sobre nossa imprensa, a par das admir\u00e1veis pesquisas em torno das inscri\u00e7\u00f5es lapidares e dos meios de transporte desta capital, dos estudos liter\u00e1rios e dessa exemplar obra de pesquisa e interpreta\u00e7\u00e3o do nosso folclore, que \u00e9 o livro <strong>Presen\u00e7a do romanceiro<\/strong>, deixou uma das mais assinaladas atua\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria de nosso jornalismo. Fundador e redator principal do <strong>Di\u00e1rio de S\u00e3o Lu\u00eds<\/strong>, tamb\u00e9m colaborou em muitos outros jornais da terra, entre os quais, a <strong>Pacotilha<\/strong> e <strong>O Imparcial<\/strong>. Deu, assim, com seu estilo elegante, com sua prosa \u00e1gil, com sua eleva\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e com sua permanente atualiza\u00e7\u00e3o cultural, uma das contribui\u00e7\u00f5es mais l\u00facidas e positivas de quantas, entre n\u00f3s, merecem mem\u00f3ria e reconhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fernando Eug\u00eanio dos Reis Perdig\u00e3o, o \u00faltimo titular da Cadeira 13, meu professor na Faculdade de Direito e amigo que sempre me distinguiu com sua simpatia e suas aten\u00e7\u00f5es. Advogado, educador, musicista, animador cultural, homem de intensas rela\u00e7\u00f5es na sociedade, desempenhou todos esses destacados pap\u00e9is, sem preju\u00edzo do jornalismo, ao qual dedicou o melhor de sua capacidade intelectual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das figuras mais expressivas da vida social de S\u00e3o Lu\u00eds, por todo o largo tempo em que aqui viveu, at\u00e9 transferir-se, j\u00e1 aposentado, para o Rio de Janeiro, prestou ao nosso Estado, em cargos p\u00fablicos, entidades culturais e associa\u00e7\u00f5es de finalidades altru\u00edsticas, uma das folhas de servi\u00e7os mais diversificadas, vastas e honrosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seria excessivo relacionar, aqui, todos os cargos, postos e fun\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o de Diretor da Imprensa Oficial a Secretario de Estado, a Conselheiro T\u00e9cnico do Diret\u00f3rio Regional de Geografia, a Governador Distrital do Rotary Clube, a Diretor da Faculdade de Direito, a Presidente da Se\u00e7\u00e3o maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil, a membro do Tribunal Regional Eleitoral, a Consultor Jur\u00eddico do Estado ou a chefe da Assessoria Jur\u00eddica do Banco do Estado do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na imprensa, desempenhou uma milit\u00e2ncia ativa e acentuada, embora n\u00e3o fosse um jornalista bastante conhecido do grande p\u00fablico, em fun\u00e7\u00e3o da atividade redacional que exercia. Era editorialista de O Imparcial, onde transmitia, de modo categ\u00f3rico e insofism\u00e1vel, o pensamento dos Di\u00e1rios Associados sobre os assuntos candentes e interessantes do Maranh\u00e3o, especialmente pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de editorialista, o meu antecessor se destacou na imprensa maranhense, por mais de duas d\u00e9cadas, como cronista, usando o pseud\u00f4nimo de Y. Suas cr\u00f4nicas eram impregnadas de forte conte\u00fado human\u00edstico, uma das caracter\u00edsticas de sua rica personalidade. A sua paix\u00e3o pelo jornalismo foi t\u00e3o marcante que chegou a sindicalizar-se e a filiar-se \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seja lembrado que, por onde passou, Fernando Perdig\u00e3o deixou o exemple da compet\u00eancia, do zelo, da dedica\u00e7\u00e3o, tudo isso associado a um cora\u00e7\u00e3o bondoso, cujo espelho permanente era o semblante alegre e o sorriso aberto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na \u00e1rea cultural, imp\u00f4s-se como ativo promotor de eventos art\u00edsticos e incentivador de atividades liter\u00e1rias. Sua contribui\u00e7\u00e3o ao aprimoramento das artes pl\u00e1sticas, \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos c\u00eanicos e ao florescimento de movimentos musicais foi sobremodo intensa e marcante. Na Sociedade de Cultura Art\u00edstica do Maranh\u00e3o, \u00e0 qual prestou inestim\u00e1veis servi\u00e7os, deixou registrada sua atua\u00e7\u00e3o como membro e dirigente da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na juventude, Fernando Perdig\u00e3o viveu intensamente as inquieta\u00e7\u00f5es que agitaram o Brasil de seu tempo. Lutou por reformas, clamou por mudan\u00e7as, protestou contra as injusti\u00e7as, numa \u00e9poca em que a sua gera\u00e7\u00e3o, engajada na Alian\u00e7a Liberal, tentava destronar do poder uma oligarquia que dominava o pa\u00eds desde a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Quando da deflagra\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Trinta, integrou-se a esse movimento, que tinha como um dos l\u00edderes, no Maranh\u00e3o, o seu irm\u00e3o, Jos\u00e9 Maria dos Reis Perdig\u00e3o, que chegou a participar da Junta Revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O escritor Josu\u00e9 Montello, no livro A Coroa de Areia, romanceou os epis\u00f3dios revolucion\u00e1rios transcorridos no Maranh\u00e3o, entre 1922 e 1937. Valeu-se da extraordin\u00e1ria colabora\u00e7\u00e3o de Fernando Perdig\u00e3o, que, com o vasto conhecimento sobre o assunto, relatou as perip\u00e9cias que aqui aconteceram nos primeiros anos da d\u00e9cada de 30, algumas das quais, ele, chegou a ser protagonista ou foi testemunha ocular ou auditiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois, esses sonhos juvenis conflu\u00edram para o grande feito da raz\u00e3o construtiva, da energia domada e da capacidade realizadora postas a servi\u00e7o da transforma\u00e7\u00e3o que se processa com equil\u00edbrio, acima, por conseguinte, dos gestos impensados e das atitudes meramente passionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa pondera\u00e7\u00e3o que somente os anos conferem, soube us\u00e1-la Fernando Perdig\u00e3o, sendo o conciliador em momentos de crise e servindo de bom conselheiro em situa\u00e7\u00f5es de ansiedade e inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em plena mocidade, em 1944, com apenas 28 anos, foi aprovado no concurso para professor da Faculdade de Direito da Funda\u00e7\u00e3o Paulo Ramos, institui\u00e7\u00e3o que teve como um de seus fundadores o pai, Domingos Perdig\u00e3o. Em 1951, por decreto do Presidente Get\u00falio Vargas, viu-se nomeado professor catedr\u00e1tico de Economia Pol\u00edtica, da Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds, da qual veio a ser diretor de 1967 a 1971, num per\u00edodo de grande turbul\u00eancia pol\u00edtica, mas merc\u00ea de seus equil\u00edbrio e sensatez, n\u00e3o cometeu contra os corpos docente, discente e administrativo, injusti\u00e7as ou arbitrariedades.<\/p>\n<p>Foi a Faculdade de Direito que serviu de palco para o meu primeiro encontro com Fernando Perdig\u00e3o. Corria o ano de 1962, quando tomei a decis\u00e3o, ap\u00f3s hesita\u00e7\u00f5es vencidas, de fazer o curso de Ci\u00eancias Jur\u00eddicas e Sociais, cujo vestibular compreendia, ent\u00e3o, provas escritas e orais.<\/p>\n<p>\u00c0 for\u00e7a de sacrif\u00edcios que me privaram de um carnaval, num tempo em que ainda pontificavam os bailes de m\u00e1scaras, os lan\u00e7a-perfumes e as batalhas de confetes e serpentinas, preparei-me para a chamada guerra do vestibular, que se chegasse a ultrapass\u00e1-la estaria habilitado a ingressar no ensino de n\u00edvel superior.<\/p>\n<p>Estava certo de que tinha condi\u00e7\u00f5es de ser bem sucedido nos exames, mas a banca da prova oral, formada pelos professores Pedro Neiva de Santana e Fernando Perdig\u00e3o era de meter medo a qualquer vestibulando. Ambos desfrutavam de bom conceito intelectual na sociedade e tinham o reconhecimento geral quanto ao rigor que exigiam dos candidatos a futuros advogados.<\/p>\n<p>Enquanto Pedro Neiva era encarregado de testar o conhecimento dos candidatos quanto \u00e0 literatura brasileira e portuguesa, Fernando Perdig\u00e3o procurava saber sobre a capacidade dos vestibulandos com respeito \u00e0 gram\u00e1tica, no que concerne \u00e0 sintaxe e ao l\u00e9xico.<\/p>\n<p>No dia da prova oral, cheguei nervoso na Rua do Sol, onde se instalava a Faculdade de Direito. O meu temor n\u00e3o era tanto o professor Pedro Neiva, pois, pelos conhecimentos que tinha de literatura brasileira e portuguesa, sabia que me sairia razoavelmente bem, como, de fato, aconteceu. O problema era enfrentar o professor Fernando Perdig\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pela sua fama de dur\u00e3o e gozador, mas por n\u00e3o estar bem preparado para responder as quest\u00f5es que dele viriam sobre assuntos gramaticais. Como n\u00e3o poderia fugir nem da prova, nem do sabatinador, fui para a luta, e, ao cabo da mesma, n\u00e3o me senti derrotado. Ao contr\u00e1rio, acho que, pelas respostas dadas \u00e0s perguntas a mim formuladas, consegui content\u00e1-lo e ainda tive o prazer de travar uma boa conversa com ele, conversa essa que fez nascer entre n\u00f3s uma fraternal amizade.<\/p>\n<p>Aprovado no vestibular da Faculdade de Direito, logo no primeiro ano do curso, fui encontr\u00e1-lo como professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica. Se j\u00e1 dedicava a ele amizade e admira\u00e7\u00e3o, estas mais ainda se consolidaram no dia a dia de nossa conviv\u00eancia, que se estendeu ao longo do tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo depois que Fernando Perdig\u00e3o decidiu deixar S\u00e3o Lu\u00eds e mudar-se com a fam\u00edlia para o Rio de Janeiro, nosso relacionamento n\u00e3o foi cortado nem sofreu qualquer altera\u00e7\u00e3o. Sempre que ele vinha a S\u00e3o Lu\u00eds, para rever a cidade que n\u00e3o esquecia, e os amigos que aqui deixou, eu procurava ir ao seu encontro para matar as saudades, oportunidade em que ele n\u00e3o deixava de perguntar sobre os fatos da cidade, principalmente os que giravam em torno da pol\u00edtica. E, valendo-se da mem\u00f3ria privilegiada, n\u00e3o olvidava dos ex-alunos da Faculdade de Direito, e, nominalmente, queria saber onde estavam, o que faziam e se, poss\u00edvel, rev\u00ea-los.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que conversei com Fernando Perdig\u00e3o foi em de 1981, no Rio de Janeiro, por ocasi\u00e3o da posse do escritor Jos\u00e9 Sarney, na Academia Brasileira de Letras. Depois da solenidade, nos abra\u00e7amos e, para n\u00e3o perder o costume, passamos a em revista, ainda que brevemente, fatos, atos e acontecimentos de S\u00e3o Lu\u00eds, os quais mereciam coment\u00e1rios jocosos de sua invej\u00e1vel verve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De Fernando Perdig\u00e3o, guardo at\u00e9 hoje, com muito carinho e afeto, a figura humana, extraordin\u00e1ria e \u00edmpar, o mestre excepcional, o amigo querido e as boas lembran\u00e7as do nosso conv\u00edvio fraterno e acolhedor.<\/p>\n<p>Para coroamento da amizade e admira\u00e7\u00e3o que a ele devotava, o destino me reservou uma grata e feliz alegria: a de ser eleito para substitu\u00ed-lo na Academia Maranhense de Letras, institui\u00e7\u00e3o \u00e0 qual reservava apre\u00e7o e se empenhava para honr\u00e1-la e enobrec\u00ea-la. Como jamais imaginei fazer parte da Casa de Ant\u00f4nio Lobo e menos ainda de ocupar o lugar que pertenceu a um cidad\u00e3o ilustre e digno, podeis avaliar, caros confrades, a emo\u00e7\u00e3o que, nesta hora, domina a minha alma e meu corpo, que, juntos e insepar\u00e1veis, far\u00e3o de tudo para n\u00e3o deslustrar a Cadeira n\u00ba 13, que Fernando Perdig\u00e3o, soube, como poucos, engrandec\u00ea-la e torn\u00e1-la \u00e1 altura das tradi\u00e7\u00f5es culturais e hist\u00f3ricas do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Que fique, pois, em nossa lembran\u00e7a o Fernando Perdig\u00e3o alegre, sorridente, espirituoso, vivaz, inteligente, conciliador, o homem cordial e o esp\u00edrito brilhante, j\u00e1 que foram estes, com certeza, seus maiores e mais evidentes tributos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhor Presidente, Senhores Acad\u00eamicos:<\/p>\n<p>Minha condi\u00e7\u00e3o de jornalista e meu fasc\u00ednio pelas atividades de rep\u00f3rter deram-me, durante longos anos de conviv\u00eancia com muitos de v\u00f3s, certo conhecimento do que \u00e9 a Academia em sua intimidade. E devo dizer-vos, falando francamente, que a curiosidade do rep\u00f3rter n\u00e3o tinha, a agu\u00e7\u00e1-la, o sonho de tornar-me um, entre v\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sempre vi a Academia como uma das institui\u00e7\u00f5es mais importantes da nossa terra, e sempre tive na mais alta considera\u00e7\u00e3o o seu papel de guardi\u00e3 das tradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o o patrim\u00f4nio maior do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por assim entender, mantenho com a Academia, desde h\u00e1 muito tempo, permanente aproxima\u00e7\u00e3o, embora, nem por isso, a tivesse como um alvo de minhas conquistas. N\u00e3o formo entre aqueles que se chegam e se insinuam por interesse, ou se distanciam por indiferen\u00e7a ou rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por levar com seriedade a Academia, sempre achei que ela tem a grandeza dos que a fizeram e fazem, mas que n\u00e3o pertence apenas a seus quarenta membros. Vejo a Academia como um s\u00edmbolo e patrim\u00f4nio de todo o Maranh\u00e3o, entendo a Academia como sendo umas das altas express\u00f5es de nosso povo, que a leg\u00edtima com seu apre\u00e7o e lhe d\u00e1 sentido com seu relacionamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis a raz\u00e3o por que, embora n\u00e3o sendo nem pretendendo ser da Academia, sempre julguei que poderia aproximar-me dela, e mais que isso: que tinha o direito de torcer por candidatos e de at\u00e9 me envolver, de certo modo, em suas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jomar Moraes, numa das cr\u00f4nicas recolhidas ao livro Cinza das quartas-feiras, evoca a minha participa\u00e7\u00e3o como seu cabo eleitoral, numa das elei\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas mais apaixonantes e movimentadas dos \u00faltimos vinte anos. N\u00e3o lhe dei meu voto, pois n\u00e3o era eleitor desse pleito, e at\u00e9 desconhe\u00e7o se ele, por minha causa, perdeu ou ganhou eleitores. O certo \u00e9 que se elegeu, e hoje me d\u00e1 a grande alegria de presidir a cerim\u00f4nia de minha posse. Esse \u00e9 um dos bons caprichos do destino, pois garanto que nada disso foi entre n\u00f3s combinado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estou bem certo das responsabilidades que hoje assumo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este \u00e9 um dos momentos mais altos da minha vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jamais sonhei com a Academia, mas agora a tenho concretamente, para viver o sonho de que me acho possu\u00eddo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Que esse sonho nunca termine, para que, pela for\u00e7a de seu encantamento, possa eu, em termos concretos, somar, contribuir, ajudar e servir, fiel ao ideal daqueles doze pioneiros que ap\u00f3stolos do Maranh\u00e3o intelectual, h\u00e1 82 anos, nesta data e neste sal\u00e3o, fundaram a Academia.<\/p>\n<p>Senhor Governador do Estado, Senhor Presidente da Academia, Senhores Acad\u00eamicos, Ilustres Autoridades, Minhas Senhoras, Meus Senhores:<\/p>\n<p>Em agosto de 1969, numa festa igual ou mais fulgurante do que esta, o inesquec\u00edvel professor Luiz Rego, na qualidade de presidente da Academia Maranhense de Letras, promoveu uma solenidade para comemorar os 61 anos de sua funda\u00e7\u00e3o e dar posse ao intelectual Jomar Moraes, que hoje de maneira inequ\u00edvoca e brilhante a dirige.<\/p>\n<p>Naquela oportunidade, constava da sess\u00e3o, cujo orador foi o meu antecessor, uma programa\u00e7\u00e3o dedicada aos intelectuais ainda n\u00e3o pertencentes aos quadros da AML, a saber: Arlete Nogueira da Cruz, Alfredo Luiz Viana, Am\u00e9rico Azevedo Neto, Ant\u00f4nio Rabut, Acr\u00edsio Figueiredo, Ant\u00f4nio Monteiro, Ant\u00f4nio Carlos Silva, Bandeira Tribuzzi, Benedito Buzar, Batista Lopes, Celso Anchieta, Carlos Cardoso, Eug\u00eanio Freitas, Edomir Oliveira, Edison Vidigal, Fernando Moreira, Ivan Sarney, Jo\u00e3o Cordeiro, Jos\u00e9 Moraes Filho, Jos\u00e9 Chagas, Lucinda Santos, Marconi Caldas, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Oliveira, Murilo Ferreira, Manoel Rolim, Nauro Machado, Nicanor Azevedo, Paulo Moraes, Reginaldo Teles, S\u00e1 Vale Filho,Sebasti\u00e3o Jorge, Ubiratan Teixeira e Antonio Neves da Costa.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s vinte e um anos daquela noite de brilho e encantamento cultural, quero, aqui e agora, transmitir uma mensagem ao querido e saudoso professor Luiz Rego, que se encontra, merc\u00ea do bem que praticou nesta terra, no Reino dos Justos e dos Bem Aventurados: meu caro mestre, neste momento, para meu orgulho, felicidade e satisfa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sou mais um intelectual n\u00e3o pertencente aos quadros da Academia Maranhense de Letras. Gra\u00e7as \u00e0 sua profecia e por vontade e determina\u00e7\u00e3o dos confrades, sou e estou membro da Casa de Ant\u00f4nio Lobo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE RECEP\u00c7\u00c3O por\u00a0Milson Coutinho<\/h5>\n<p>Eu n\u00e3o sei, Senhor Benedito Buzar, o que vos levou a sugerir \u00e0 Presid\u00eancia da Academia que me designasse para fazer soar o clarim das boas-vindas com que todos festejamos vosso ingresso nesta casa.<\/p>\n<p>Mas gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a com que s\u00e3o impressas, em nossa lembran\u00e7a, fases marcantes da vida, lancei-me a um mergulho no tempo, que me permitiu rememorar cerca de 25 anos de boas e m\u00e1s coincid\u00eancias envolvendo nossas vidas e lutas, ambas direcionadas para as alturas onde nobres ideais e generosas aspira\u00e7\u00f5es de mocidade conheceram os quadros realistas de muitas decep\u00e7\u00f5es e desenganos, mas tamb\u00e9m tiveram, nesses embates do sonho com a realidade<strong>, <\/strong>a virtude de ensinar que, na constru\u00e7\u00e3o do concreto entra, necessariamente o contributo do on\u00edrico. E,ent\u00e3o, me dei conta de que a comunh\u00e3o de ideias e o percurso de roteiros paralelos, a lavra nos mesmos f\u00e9rteis campos da hist\u00f3ria, o comum empenho na compreens\u00e3o do presente a partir das li\u00e7\u00f5es do passado, foram a raz\u00e3o determinante do honroso convite.<\/p>\n<p>Recordo, por exemplo, que, sonhando com democracia num per\u00edodo em que todas as express\u00f5es de liberdade foram gravemente afetadas por mais um surto de neofacismo, opusemos a resist\u00eancia que nos era poss\u00edvel contra o garroteamento dos direitos individuais e coletivos, e, por isso mesmo, duma assentados s\u00f3, demos com os costados nas masmorras dos que se autodenominavam salvadores da p\u00e1tria amada idolatrada.<\/p>\n<p>Essa, felizmente, \u00e9 hoje uma quadra pertencente ao cap\u00edtulo dos dias nefastos de nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica, embora ainda todos nos ressintamos das seq\u00fcelas e dos efeitos colaterais que o mal extirpado produziu, j\u00e1 que o correto exerc\u00edcio de liberdade requer bom tempo de readapta\u00e7\u00e3o por parte do povo que a havia perdido.<\/p>\n<p>Irmanados na luta oposicionista dos anos sessenta, abarcamos, com as for\u00e7as de nossos verdes anos, as tribunas da imprensa e da Assembl\u00e9ia, para a detona\u00e7\u00e3o dos roj\u00f5es de nossas palavras e pensamentos contra os que, sobra\u00e7ando o poder com o \u00e2nimo e o vigor do ditador latino dirigia este Estado sob o regime de suserania persa ou de tirania grega, onde a pessoa do governante tinha a ver com o soba, e a figura do Estado mais se ajustava \u00e0 cubata africana.<\/p>\n<p>Fato ris\u00edvel, pela <em>capitis diminutio<\/em> de que se revestiu, foi o requerimento por v\u00f3s apresentado, em 9 de mar\u00e7o de 1963, ao Plen\u00e1rio da Assembl\u00e9ia Legislativa, pedindo a aprova\u00e7\u00e3o de um voto de louvor pelo transcurso do anivers\u00e1rio do orador que vos fala, mat\u00e9ria de corrente aprova\u00e7\u00e3o para bispos, maraj\u00e1s, cobras e lagartos, mas de irremov\u00edveis proibi\u00e7\u00f5es e a pessoa do homenageado fosse, como foi, a figura de um jornalista da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lida a mat\u00e9ria pelo deputado Frederico Leda, presidente da Casa, a lideran\u00e7a do governo se embandeirou em arco. Pediu-se a suspens\u00e3o da sess\u00e3o, houve telefonema para o Pal\u00e1cio dos Le\u00f5es, e de l\u00e1 tonitrou a ordem seca, hist\u00e9rica, transitada em julgado:<\/p>\n<ul>\n<li>Votem contra!<\/li>\n<\/ul>\n<p>E, pela primeira vez, desde o ano de 1835, quando se instalou, a Assembl\u00e9ia negou um voto de louvor ao \u201cjornalistazinho que escrevinhava horrores num jornaleco que se editava na zona do meretr\u00edcio\u201d, segundo foi o bizarro epis\u00f3dio registrado nos anais do Parlamento da Rua do Egito.<\/p>\n<p>Desiludidos, por isso que sem asas e sem flauta, na express\u00e3o do poeta, buscamos p\u00e3o e ref\u00fagio nas reda\u00e7\u00f5es da Cidade, e de l\u00e1 a estes dias vimos dando conta do nosso recado e destino no jornalismo pol\u00edtico, aplainado, agora, pelo peso dos anos e amenizado por um processo rigoroso de repensada vis\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Como que empurrados por uma m\u00e3o invis\u00edvel e poderosa, na trilha das coincid\u00eancias que nortearam nossas a\u00e7\u00f5es e vidas, elegemos nossa atividade intelectual espec\u00edfica a pesquisa hist\u00f3rica e creio que j\u00e1 oferecemos \u00e0 nossa terra algo de \u00fatil e duradouro, nos trabalhos que at\u00e9 hoje publicamos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, Senhor Benedito Buzar, em que classe os entendidos poder\u00e3o nos identificar como artes\u00e3os da pesquisa hist\u00f3rica. Os nossos amigos nos brindar\u00e3o com todos os t\u00edtulos nobili\u00e1rquicos, e os que nos apreciam dir\u00e3o, sem embargo, que somos meros provisionados, esp\u00e9cies de r\u00e1bulas da historiografia maranhense. \u00c9 a vida.<\/p>\n<p>A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que vamos, com o nosso esfor\u00e7o mais sustentado pela pertin\u00e1cia do que pelo apoio que tanto falta ao produtor cultural maranhense, mais pela convic\u00e7\u00e3o \u2013 e at\u00e9 chegaria a dizer: pela compenetra\u00e7\u00e3o pessoal \u2013 de que temos uma contribui\u00e7\u00e3o a oferecer, ajudando a construir e consolidar essa imensa e intermin\u00e1vel obra que \u00e9 a hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>O vosso ingresso nesta Casa tem a marca e as ra\u00edzes da atividade intelectual voltada para a pesquisa hist\u00f3rica, especificamente no campo da Mem\u00f3ria, de que vos tornastes, nos \u00faltimos anos, um dos mais abalizados e dedicados especialistas.<\/p>\n<p>Nas vossas produ\u00e7\u00f5es, seguistes as linhas-mestras do pensamento de Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, quando professorou em seu l\u00facido magist\u00e9rio: \u201cna Hist\u00f3ria, como em qualquer ci\u00eancia, os progressos referentes ao esclarecimento conceitual, te\u00f3rico e met\u00f3dico s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rios quanto os relativos ao conhecimento dos mesmos fatos\u201d.<\/p>\n<p>Desse mestre de grandes l\u00e1ureas, recolhi estas palavras de bom aviso:<\/p>\n<p>\u201cDeus n\u00e3o \u00e9 dos mortos, mas dos vivos, porque, para Ele, todos s\u00e3o vivos. A Hist\u00f3ria tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dos mortos, mas dos vivos, pois ela \u00e9 a realidade presente, obrigat\u00f3ria para a consci\u00eancia, frut\u00edfera para a experi\u00eancia. A vida e a realidade s\u00e3o hist\u00f3ria, gerando passado e futuro. Assim todo movimento da consci\u00eancia, toda a pulsa\u00e7\u00e3o vital do esp\u00edrito \u00e9 hist\u00f3ria, no duplo sentido de <em>res gestae<\/em> e <em>historia res gestae<\/em>, segundo a li\u00e7\u00e3o de Croce\u201d.<\/p>\n<p>Quando publicastes o livro <strong>A Greve de 51,<\/strong> n\u00e3o tivestes o prop\u00f3sito de esgotar o assunto, considerando que ele, por sua complexidade, continua a espera de novas abordagens, sendo de esperar que n\u00e3o faltem interesse e esp\u00edrito de an\u00e1lise, equil\u00edbrio de julgamento e perspic\u00e1cia interpretativa para desdobr\u00e1-lo nas muitas monografias que certamente comporta e reclama.<\/p>\n<p>Vosso trabalho, por\u00e9m, \u00e9 pioneiro, e corresponde ao gesto de quem abriu o grande pano da cena que chamou as aten\u00e7\u00f5es gerais sobre a cidade e S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que a prolongada e profunda conturba\u00e7\u00e3o popular que passou a hist\u00f3ria com o nome de Greve \u00e9 um fato muito importante na vida de S\u00e3o Lu\u00eds, mas n\u00e3o ins\u00f3lito. Muito ao contr\u00e1rio, significa um ponto de incid\u00eancia, um motivo referencial com remiss\u00e3o para acontecimento mais recente \u2013 a chamada Greve da Meia-Passagem \u2013, mais com numerosos antecedentes que deitam suas ra\u00edzes atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, indo ter aos tempos coloniais, quando aqui se protestou severamente contra a opress\u00e3o e com tanta veem\u00eancia se clamou por liberdade, que at\u00e9 vidas foram imoladas.<\/p>\n<p>Vosso livro <strong>A Greve de 51<\/strong> \u00e9, portanto, um ponto de partida que certamente haver\u00e1 de provocar frutuosos desdobramentos, levando outros estudiosos aos detalhes do painel que oferecestes, ao panorama que a todos nos possibilitastes descortinar. Trata-se, portanto, de um trabalho seminal, inteligente e provocador.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m representa uma postura nova diante das estreitezas de entendimento daqueles que, desconhecendo a amplitude potencial de determinados assuntos, consideram-se propriet\u00e1rios exclusivos de certos temas, sobre os quais n\u00e3o admitem o enriquecimento das novas contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista pode parecer desnecessariamente longo o t\u00edtulo de outro livro de vossa lavra, <strong>Politiqueiros, politicalha, politiquice, politicagem, pol\u00edtica do Maranh\u00e3o<\/strong>, lan\u00e7ado ano passado, em noite de aut\u00f3grafos, bem mais concorrida do que muitos com\u00edcios que vamos por a\u00ed.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo, como todo r\u00f3tulo perfeitamente adequado ao produto que anuncia, tinha que ser esse mesmo, para sintetizar as muitas facetas do livro a que corresponde.<\/p>\n<p>Como todo trabalho capaz de ser arrolado na categoria chamada pela cr\u00edtica de obra aberta, esse livro comporta e at\u00e9 mesmo sugere as mais diversas leituras. Desde aquela que, com evidente miopia, poder\u00e1 concluir que todo o seu conte\u00fado n\u00e3o passa de epis\u00f3dios curiosos, de flagrantes bem humorados que dar\u00e3o motivos a gostosas gargalhadas, at\u00e9 a que forne\u00e7a preciosos elementos para uma hist\u00f3ria humana dos nossos governantes e parlamentares. Entre uma e outra forma de recep\u00e7\u00e3o da mensagem que o livro oferece, numerosas, quase inesgot\u00e1veis possibilidades de conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Vejo esse trabalho como um testemunho evidente de vossa capacidade de observa\u00e7\u00e3o, como um retrato de vossa sensibilidade e perspic\u00e1cia. Eis um livro que, n\u00e3o sendo de hist\u00f3ria, presta-se perfeitamente, para o trabalho do historiador, na medida em que lhe fornece material que \u00e9 dif\u00edcil e, em certos casos, imposs\u00edvel de recolher em outras fontes.<\/p>\n<p>Passaram-se j\u00e1 as circunst\u00e2ncias em que muita coisa ali documentada aconteceu, e j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o poucos os personagens que, vivos e atuantes nos quadros e retratos de vosso livro, est\u00e3o, hoje, definitivamente silenciados pela morte.<\/p>\n<p>Prestastes, pois, com o livro sobre pol\u00edticos e politiqueiros de nossa terra, um alto servi\u00e7o \u00e0 mem\u00f3ria maranhense. Pode-se achar que se trata, apenas, de uma contribui\u00e7\u00e3o para o nosso folclore pol\u00edtico. \u00c9 um entendimento parcialmente correto. Mas que peca pelo grave defeito de ser uma vis\u00e3o parcial. H\u00e1 muito mais a recolher desse reposit\u00f3rio. E, sendo inteligente a garimpagem, por certo facilmente ser\u00e1 encontrado o fil\u00e3o, cuja mat\u00e9ria-prima, trabalhada convenientemente, servir\u00e1 para tornar nossa hist\u00f3ria menos \u00e1rida e mais humana, mais viva e palpitante.<\/p>\n<p>A Casa que hoje vos acolhe, Senhor Benedito Buzar, orgulha-se de ter, nos quadros dos seus patronos, historiadores do porte de C\u00e2ndido Mendes, Henrique Leal, Jo\u00e3o Lisboa, Vieira da Silva, C\u00e9sar Marques, Tasso Fragoso e Dunshee de Abranches. Na galeria dos fundadores, emprestaram seu talento \u00e0 Hist\u00f3ria os imortais Barbosa de God\u00f3is, Fran Paxeco, Ribeiro do Amaral, Rubem Almeida e Joaquim Luz. E nos quadros dos s\u00f3cios efetivos, entre vivos e os que de n\u00f3s se despediram, alinham-se os vultos not\u00e1veis de Jer\u00f4nimo de Viveiros, M\u00e1rio Meireles, Costa Fernandes, Jomar Moraes, Antonio Lopes, Domingos Vieira Filho, Astolfo Serra, Virg\u00edlio Domingues, Antonio de Oliveira, Carvalho Guimar\u00e3es e Eloy Coelho Neto, acad\u00eamicos aqui citados como lembran\u00e7a e homenagem do orador no dia maior das festas da Academia, o seu anivers\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o, no dia 10 de agosto, comemorativo, tamb\u00e9m, do anivers\u00e1rio natal\u00edcio do maior dos nossos poetas maiores \u2013 Gon\u00e7alves Dias, patrono da Academia e da poesia nacional.<\/p>\n<p>Esta Casa de historiadores, romancistas e poetas; esta Casa que, atenta \u00e0 amplitude dos valores que aqui devem estar representados, igualmente \u00e9 dos expoentes de todos os campos do saber e dos criadores de belezas em cores e formas com a dimens\u00e3o do artista pl\u00e1stico Antonio Almeida, \u00e9, tamb\u00e9m, uma casa de jornalistas, a exemplo de todos os homens de imprensa que fazem a hist\u00f3ria da cadeira 13.<\/p>\n<p>Assim, Senhor Benedito Buzar, v\u00f3s, que aliais a paix\u00e3o pela hist\u00f3ria ao gosto e \u00e0 voca\u00e7\u00e3o pelo jornalismo, estais duplamente em casa. E aqui chegais trazendo os frutos do vosso labor nos campos da pesquisa hist\u00f3rica, parte dos quais se encontra, ainda, sob a forma de dezenas de trabalhos esparsos em jornais e revistas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o momento para vos sugerir que o volume de p\u00e1ginas soltas, que dorme em diversos \u00f3rg\u00e3os de imprensa, logo possa encontrar o necess\u00e1rio caminho da unidade e de perpetuidade que somente o livro assegura, livro com o qual prestareis, ao merit\u00f3rio mister da recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria maranhense, mais um servi\u00e7o de grande merecimento.<\/p>\n<p>Sei que a Academia repete, comigo, a afirma\u00e7\u00e3o de que esta solenidade em que vos recebemos, fazendo-vos um de n\u00f3s, \u00e9 motivo de imensa alegria para todos.<\/p>\n<p>Tende o geral aplauso dos vivos aqui presentes, e estou certo de que vos bendizem e tamb\u00e9m vos recebem todos aqueles que, em esp\u00edrito e verdade, vivem com a Academia, ao mesmo tempo em que lhe d\u00e3o vida. S\u00e3o eles nossos patronos e antecessores, entre os quais desejo nominar Ant\u00f4nio Lobo, Armando Vieira da Silva, Alfredo de Assis Castro, Astolfo Marques, Barbosa de Godois, Corr\u00eaa de Ara\u00fajo, Clodoaldo de Freitas, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Godofredo Viana, In\u00e1cio Xavier de Carvalho e Ribeiro do Amaral.<\/p>\n<p>Foram eles que, numa noite como esta fundaram a Academia Maranhense de Letras, certos de que teriam, pelo tempo em fora continuadores desta obra.<\/p>\n<p>Sois, a partir de agora, um companheiro nosso e um continuador da obra que aqui nos re\u00fane e irmana.<\/p>\n<p>Sede, portanto, bem vindo, Senhor Benedito Buzar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em Itapecuru-MA, a 17 de fevereiro de 1938. 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