{"id":211,"date":"2014-02-18T13:49:17","date_gmt":"2014-02-18T16:49:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=211"},"modified":"2017-09-10T11:51:30","modified_gmt":"2017-09-10T14:51:30","slug":"ceres-costa-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/ceres-costa-fernandes\/","title":{"rendered":"Ceres Costa Fernandes"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu em Salvador-BA, em 28 de dezembro de 1942. Filha de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. Permaneceu naquela cidade at\u00e9 os dois anos de idade, quando retornou ao Maranh\u00e3o. Estudou o prim\u00e1rio em S\u00e3o Lu\u00eds, no Col\u00e9gio Santa Tereza, das Irm\u00e3s Dorot\u00e9as, e parte do secund\u00e1rio no Rio de Janeiro, no Col\u00e9gio Sacr\u00e9-Coeur de J\u00e9sus, onde era interna. Interrompeu os estudos, aos 15 anos, para casar-se. Completou-os, bem mais tarde, nos cursos de Madureza dos 1\u25e6 e 2\u25e6 graus, realizando as provas no Liceu maranhense. \u00c9 Licenciada em Letras \u2013 Ingl\u00eas e Portugu\u00eas \u2013 Universidade Federal do Maranh\u00e3o \u2013 UFMA (1974) e Mestra em Letras \u2013 pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica \u2013 PUC \u2013RJ (1987). Possui os seguintes cursos de especializa\u00e7\u00e3o: Especializa\u00e7\u00e3o em Metodologia do Ensino Superior, Semiologia Aplicada \u00e0 Literatura e Ensino \u00e0 Dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Foi professora da TV Educativa do Maranh\u00e3o (1973-82) e \u00e9 professora aposentada do Curso de Letras da UFMA (1975-96), onde ministrou Ingl\u00eas, Hist\u00f3ria da Literatura, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa. Nessa mesma Universidade, exerceu a chefia da Divis\u00e3o de Est\u00e1gio Curricular (1978), o cargo de Pr\u00f3-Reitora de Gradua\u00e7\u00e3o (1993-96) e o de Assessora de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (1997-98). Ap\u00f3s a aposentadoria federal, desempenhou, no Governo do Estado, o cargo de Assessora Especial de Educa\u00e7\u00e3o da Ger\u00eancia Regional de S\u00e3o Lu\u00eds (1998-2003) &#8211; equivalente \u00e0 \u00e9poca a uma Secretaria, com as 192 escolas estaduais existentes nos quatro munic\u00edpios da Ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, sob sua responsabilidade.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De abril de 2003 a dezembro de 2008, exerceu a fun\u00e7\u00e3o de Gestora de Programas Especiais do Governo do Estado, desenvolvendo o Projeto Sa\u00fade na Escola, um programa educativo de melhoria de qualidade de vida dos alunos do ensino fundamental das escolas estaduais em 25 munic\u00edpios-sede das Regionais. A partir de 2005, o programa foi estendido a mais 86 munic\u00edpios de mais baixo IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano) do Maranh\u00e3o. Diretora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho desde 2009, ali realiza o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio, evento que j\u00e1 se tornou parte da agenda cultural de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p><em>O narrador plural na obra de Jos\u00e9 Saramago. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edufma, 1990, 2\u00aa ed. S\u00e3o Lu\u00eds: Lithograf, 2003; <em>Apontamentos de literatura medieval \u2013 literatura e religi\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2000; <em>O \u00faltimo pecado capital &amp; outras hist\u00f3rias. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2000; <em>O \u00faltimo pecado capital &amp; outras hist\u00f3rias &#8211; seleta. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edigraf, 2001; <em>Seleta maranhense de contos e cr\u00f4nicas\/ <\/em>Ceres Costa Fernandes e Jos\u00e9 Chagas<em>.<\/em> org., e notas de Jomar Moraes.<em>\u00a0 <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2002; <em>Surrealismo &amp; loucura e outros ensaios. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Editora da Uema, 2008.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Participa\u00e7\u00e3o em <em>Contos e cr\u00f4nicas \u2013 livro de leitura recomendada para o vestibular de junho de 2002 da FAMA \u2013 <\/em>Faculdade Atenas Maranhense \u2013 organiza\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Jomar Moraes. S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2002.<\/p>\n<p><strong>MEDALHAS E HONRARIAS:<\/strong><\/p>\n<p style=\"color: #000000;\"><strong>Medalha do M\u00e9rito Timbira <\/strong>(2013),categoria cavaleiro, Governo do Estado do Maranh\u00e3o; <strong>Medalha Jo\u00e3o Lisboa, <\/strong>200 Anos.Academia Maranhense de Letras, 2012; <strong>Medalha dos 400 anos de S\u00e3o Lu\u00eds. <\/strong>Assembleia Legislativa do Maranh\u00e3o, 2012; <strong>Medalha S\u00e3o Lu\u00eds 400 Anos <\/strong>\u2013 Vale, 2012; <strong>Palmas Universit\u00e1rias, <\/strong>UFMA, 2009; <strong>Medalha Laura Rosa (<\/strong>concedida \u00e0s mulheres educadoras que se destacaram em outros ramos do saber), 2008; <strong>Medalha Odorico Mendes <\/strong>da Academia Maranhense de Letras; <strong>Medalha do M\u00e9rito Timbira (<\/strong>2006), Governo do Estado do Maranh\u00e3o; <strong>Comendadora do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Lu\u00eds, <\/strong>2012, Governo do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras,<br \/>\nAutoridades presentes, Senhores Acad\u00eamicos,<br \/>\nMinhas Senhoras e meus Senhores:<\/p>\n<p>Tivesse eu, neste momento, o dom da ubiquidade, tal qual dizem teria tido Ant\u00f4nio Vieira, e pudesse desdobrar-\u00adme fisicamente em meu duplo, ocupando simultaneamente esta tribuna e uma cadeira dessa querida plateia, certamente este duplo \u2013 que alguns chamariam de proje\u00e7\u00e3o do eu, outros de superego, e que eu prefiro imaginar como a presen\u00e7a de uma consci\u00eancia cr\u00edtica \u2013, este duplo estaria questionando\u00ad-se, ao ver\u00ad-me pronunciar nesta noite a fala da minha investidura na Cadeira de n\u00famero 39, da Casa de Ant\u00f4nio Lobo. E o questionamento do meu eu bipartido poderia ser mais ou menos assim: por que estaria a Ceres a\u00ed nessa tribuna?<\/p>\n<p>Poder estar ou n\u00e3o estar nesta tribuna. Este questionamento, senhores, me fiz eu repetidamente, antes de aceitar a candidatura que ora completa seu ciclo com o rito acad\u00eamico da cerim\u00f4nia da posse.<\/p>\n<p>E comigo me desavim&#8230; E, ao contr\u00e1rio de In\u00eas, me achei posta em grande desassossego, sendo de mim mesma o contraponto. Contraponto que sempre acompanha meus pensamentos e, por vezes, me atormenta. A quest\u00e3o era: por que eu? Por que eu, se muitos e muitas com os mesmos predicados, e outros possuidores de maior valor, est\u00e3o fora desta Casa? Busquei e creio ter entendido a raz\u00e3o para c\u00e1 estar nesta hora. N\u00e3o somente uma, mas duas.<\/p>\n<p>Tendo uma rep\u00f3rter me perguntado por que desejava candidatar\u00ad-me a uma vaga na Academia, respondi\u00ad-lhe, fazendo blague, que a inscri\u00e7\u00e3o l\u00e1 estava, aberta, sem candidatos, como a esperar\u00ad-me. Mas, certamente, era apenas uma blague.<\/p>\n<p>E esta \u00e9 a hora prop\u00edcia para dizer\u00ad-vos que um n\u00famero significativo de amigos, acad\u00eamicos e n\u00e3o acad\u00eamicos, decerto vislumbrando em mim algum m\u00e9rito, vinha incentivando a minha candidatura h\u00e1 algum tempo. Essa \u00e9 a primeira raz\u00e3o. A segunda, certamente a mais forte, foi o desejo de aumentar a representatividade feminina na Casa de Ant\u00f4nio Lobo, prestigiando o g\u00eanero que h\u00e1 vinte e dois anos, desde 1979, com o ingresso da grande escritora Lucy Teixeira, n\u00e3o mais teve guarida no seio desta insigne confraria. E note-\u00adse, antes de Lucy, Dagmar Dest\u00earro, poeta das maiores desta Casa, nela ingressou em 1974, ap\u00f3s um hiato de quase vinte anos, desde a posse, em 1955, da terceira mulher acad\u00eamica, a romancista Concei\u00e7\u00e3o Neves Aboud. Antes dela, somente tivemos Laura Rosa, em 1943 e Mariana Luz, em 1949. Cinco mulheres em noventa e dois anos!<\/p>\n<p>A Cadeira de n\u00famero 39, que de ora em diante dever\u00e1 caber\u00ad-me nesta Casa, perfila\u00ad-se entre as mais jovens desta Academia: conta pouco mais de dez lustros desde a sua funda\u00e7\u00e3o, em 1948. Patroneada por Augusto Ol\u00edmpio Gomes de Castro, ela tem acolhido luminares da pol\u00edtica, orat\u00f3ria, poesia, administra\u00e7\u00e3o, jurisprud\u00eancia, magist\u00e9rio e jornalismo. Todos estes ramos da arte liter\u00e1ria e do saber humano foram explorados nesta c\u00e1tedra pela sequ\u00eancia de ilustres que nela se assentaram. E esses g\u00eaneros, interligados por um fio condutor, que o acaso ou o destino a\u00ed inseriu, como que se enovelam e, por vezes, unindo ou cruzando seus caminhos, fazem da chegada o ponto de partida ou vice\u00ad-versa.<\/p>\n<p>Na tentativa de desenovelar esse novelo, procuro-\u00adlhe a ponta inicial. E ela me parece ser a orat\u00f3ria tribun\u00edcia, a marcar fortemente esta c\u00e1tedra, a nos encaminhar para a vis\u00e3o da sua g\u00eanese. Esse g\u00eanero, a orat\u00f3ria, vai representar a gl\u00f3ria maior de que se nutre o seu patrono, Augusto Ol\u00edmpio Gomes de Castro, t\u00e3o justamente escolhido por outro grande orador, o fundador da Cadeira 39, Pedro Braga Filho.<\/p>\n<p>No reconhecimento desse fio condutor, que privilegia os oradores de qualidade, e na obrigatoriedade de apresentar\u00ad-me na Casa de Ant\u00f4nio Lobo com um discurso formal para cumprir a tradi\u00e7\u00e3o e fazer a justa homenagem aos grandes que me antecederam, sinto-\u00adme presa de cuidados frente a t\u00e3o pesada responsabilidade. Responsabilidade a que a informalidade do meu modo de ser \u2013 que pretendo ter estendido a meu fazer liter\u00e1rio \u2013 pode n\u00e3o corresponder \u00e0 expectativa dos que me ouvem. Pe\u00e7o\u00ad-vos, portanto, benevol\u00eancia e prometo que tudo farei para manter\u00ad-vos despertos at\u00e9 o final&#8230;<\/p>\n<p>E o temor do desagrado n\u00e3o decorre apenas da pouca eloqu\u00eancia de quem vos fala. Mas tamb\u00e9m de uma constata\u00e7\u00e3o que h\u00e1 de ser feita: a era de maior apre\u00e7o aos grandes mestres da ret\u00f3rica e a seus longos discursos \u00e9 passada. \u00c9 fato irretorqu\u00edvel que as pe\u00e7as de orat\u00f3ria, sejam elas religiosas, pol\u00edticas ou sociais, encontram cada vez menos adeptos, tanto para constru\u00ed-\u00adlas quanto para lhes emprestarem aten\u00e7\u00e3o no ato da sua frui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o acorrem \u00e0s igrejas fi\u00e9is e infi\u00e9is, engalanados com suas roupas domingueiras, aos magotes, unicamente para ouvir a palavra vibrante de um afamado orador sacro, como acontecia aos moradores de S\u00e3o Lu\u00eds no s\u00e9culo 17, embasbacados, e por vezes vergastados, pela orat\u00f3ria hermen\u00eautico\u00ad-teol\u00f3gica embrechada de conceitos engenhosos do padre Ant\u00f4nio Vieira.<\/p>\n<p>Persistindo na linha das pe\u00e7as de exegese crist\u00e3 e abreviando o que poderia ser uma fastidiosa lista de oradores, \u00e9 mister fazer uma esp\u00e9cie de <em>zoom<\/em> no tempo, trazendo\u00ad-as para mais perto, at\u00e9 meados do s\u00e9culo passado, de onde poderemos\u00a0referir os apreciados ornamentos dial\u00e9ticos da orat\u00f3ria do padre Ribamar Carvalho ou do c\u00f4nego Bonfim, a atrair numerosas pessoas a quaisquer eventos onde pronunciassem suas ora\u00e7\u00f5es. Fiquemos apenas com esses oradores, que j\u00e1 bastam, pois s\u00e3o forte exemplo de eloquentes tribunos religiosos dos muitos que dignificaram os p\u00falpitos de nossa S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Menina\u00ad-mo\u00e7a, mais menina do que mo\u00e7a, ainda testemunhei algum apre\u00e7o social \u00e0 orat\u00f3ria nas numerosas vezes em que participei de mesas de almo\u00e7os e jantares formais e informais, na companhia privilegiada de meu av\u00f4 e de meu pai, ambos em\u00e9ritos discursistas. E, em meio \u00e0 degusta\u00e7\u00e3o dos acepipes, havia sempre um momento, por todos esperado, em que algu\u00e9m se levantava e, respaldado pela respeitosa aten\u00e7\u00e3o geral, encetava uma ora\u00e7\u00e3o que geralmente se iniciava assim: <em>Neste momento solene, em que se me embarga a voz&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Os comensais, j\u00e1 confortados pelas iguarias, punham-\u00adse a gosto para ouvir melhor os longos e frequentemente parnasianos discursos \u2013 sempre melhores se recheados de figuras mitol\u00f3gicas, preciosismos e requintadas frases latinas. E o largo emprego dos <em>topoi<\/em>, j\u00e1 desgastados desde o fim da Antiguidade Cl\u00e1ssica, curiosamente, a ningu\u00e9m parecia incomodar.<\/p>\n<p>Embalada pela sonoridade das frases e pelo encanto enigm\u00e1tico de algumas palavras, eu me distra\u00eda a observar os rostos dos convivas e \u2013 juro \u2013 n\u00e3o lhes percebia enfado algum. Parecia\u00ad-me, mesmo, notar\u00ad-lhes no semblante um gozo satisfeito, misturado a uma quase beat\u00edfica digest\u00e3o. Ora, e n\u00e3o se vai tanto tempo assim&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, senhores, que o cumprimento frequente de semelhante ritual \u00e0s refei\u00e7\u00f5es vem se tornando raro nos dias de hoje. O ritmo, cada vez mais r\u00e1pido, da vida atual vem transformando gostos e imprimindo nova fei\u00e7\u00e3o \u00e0 conviv\u00eancia social. Comemos em <em>self\u2011services,<\/em> com os minutos contados, discutindo decis\u00f5es de trabalho, sem tempo para proferir e ouvir discursos.<\/p>\n<p>A pressa e o imediatismo nos impelem a ler somente livros que n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m das cem p\u00e1ginas. Os jovens chegam a avaliar o custo\u00ad-benef\u00edcio da leitura de um livro pela altura da sua lombada. As hist\u00f3rias em quadrinhos, vil\u00e3s da nossa inf\u00e2ncia, condenadas por nossos pais e pedagogos por nos pouparem \u00e0 mente o esfor\u00e7o exigido pelos livros de imaginar a fei\u00e7\u00e3o e o movimento dos her\u00f3is, s\u00e3o abandonadas pela TV, que nos exime de pensar, j\u00e1 que pensa por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quem nos imaginaria lendo, hoje, comp\u00eandios maiores que a lista telef\u00f4nica de uma grande cidade, tais como <em>As mulheres de bronze,<\/em> a caudalosa obra de Xavier de Montepin ou<em> As aventuras de Rocambole, <\/em>de Ponson du Terrail?<\/p>\n<p>Por tudo o que foi dito, o texto a despertar o desejo da leitura e seu prazer h\u00e1 que ser curto, concentrando a densidade de seus m\u00faltiplos significados em linguagem simples e concisa. A partir dessa premissa, esses significados ser\u00e3o desdobrados, n\u00e3o nas p\u00e1ginas escritas, mas na recep\u00e7\u00e3o distinta que o referencial de cada leitor lhes conceder\u00e1.<\/p>\n<p>Os senhores poder\u00e3o argumentar a falsidade da minha proposi\u00e7\u00e3o ao apontar o fim do prest\u00edgio da orat\u00f3ria, com o simples assinalar do fato de que alguns templos, de religi\u00f5es diversas, regurgitam de fi\u00e9is quando se anuncia a presen\u00e7a de determinado pregador. E eu me permito lembrar-\u00adlhes que as pe\u00e7as orat\u00f3rias desses encontros s\u00e3o providencialmente acompanhadas de curas, c\u00e2nticos, gesticula\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a e at\u00e9 sess\u00f5es de exorcismo. Sem o qu\u00ea, o em\u00e9rito pregador correr\u00e1 o risco de ver esvaziar-\u00adse todo o seu p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Augusto Ol\u00edmpio Gomes De Castro<\/strong><\/p>\n<p>Mas, senhores, saiamos da nossa digress\u00e3o sobre o crescente desprest\u00edgio da orat\u00f3ria e da ret\u00f3rica. Deixemos esta \u00e9poca moderna de az\u00e1fama e correria, e voltemos no tempo, mais e mais. Voltemos ao s\u00e9culo 19. Mais precisamente aos anos de 1836 e 1862, datas que demarcam o nascimento de Augusto Ol\u00edmpio Gomes de Castro, nosso patrono, e a sua primeira elei\u00e7\u00e3o para cumprir mandato de deputado na Assembleia Geral do Imp\u00e9rio. Saibamos apenas que, a partir da\u00ed, at\u00e9 findar o Per\u00edodo Mon\u00e1rquico, com o \u00fanico intervalo da legislatura de 78\u00ad80, foi Gomes de Castro representante do Maranh\u00e3o na Assembleia Geral Legislativa.<\/p>\n<p>Convidado repetidas vezes para cargos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, inclusive para ministro das pastas da Fazenda, da Marinha e da Justi\u00e7a, de todos escusou-\u00adse, aceitando apenas a Presid\u00eancia do Piau\u00ed em 1868 e a do Maranh\u00e3o em 1870 e 1873. Incompreendido pelas ostras do poder, acusado de descomprometido e falto de patriotismo, deu\u00ad-nos, em discurso proferido na C\u00e2mara dos Deputados, esta magn\u00edfica li\u00e7\u00e3o de civismo:<\/p>\n<p><em>Confesso \u00e0 C\u00e2mara que sou um homem t\u00e3o cheio de ambi\u00e7\u00f5es como quem as tiver, mas entendo que serve bem ao pa\u00eds quem recusa empregos para os quais n\u00e3o se julga com habilita\u00e7\u00f5es [&#8230;] Mas recusando o convite, eu disse ao nobre marqu\u00eas de S\u00e3o Vicente, que penhorou eternamente a minha gratid\u00e3o: n\u00e3o posso ser ministro, mas se em posi\u00e7\u00f5es mais subalternas o Governo entender que algum servi\u00e7o lhe possa prestar, disponha de mim.<\/em><\/p>\n<p>E falar em Augusto Ol\u00edmpio Gomes de Castro \u00e9 falar de eloqu\u00eancia, e assim retomamos o g\u00eanero da orat\u00f3ria, inserindo-\u00ado agora no contexto do s\u00e9culo 19. \u00c9 nessa \u00e9poca, \u00e9poca em que as pessoas compraziam-\u00adse em ouvir longos discursos e sabiam valorizar os grandes oradores, que desejo situar o nosso eloquente parlamentar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um testemunho de Afonso Celso, referido por Jer\u00f4nimo de Viveiros, que define, sobremaneira, a grandeza da orat\u00f3ria do nosso tribuno:<\/p>\n<p><em>Das centenas de oradores parlamentares que conheci, destacam\u2011se cinco, realmente extraordin\u00e1rios, que impressionariam o mais exigente e esclarecido congresso do mundo. [&#8230;] Assisti \u00e0s sess\u00f5es nos principais parlamentos da Europa e Am\u00e9rica. Em nenhum deles deparou\u2011se\u2011me talento de tribuno superior aos dos que passo a apontar, procurando discernir a caracter\u00edstica de cada um. Atra\u00edam esses concorr\u00eancia todas as vezes que falavam, possu\u00edam a centelha divina;<\/em> <em>arrancavam aplausos e coment\u00e1rios que, repercutindo na imprensa, ecoavam pelo Pa\u00eds inteiro.<\/em><\/p>\n<p>Nesses maiores, Afonso Celso inclui Gomes de Castro e vai nomear, como seus ep\u00edgonos, os grandes nomes contempor\u00e2neos da orat\u00f3ria no Brasil: Ferreira Viana, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Andrade Figueira.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m de Afonso Celso, contempor\u00e2neo de Gomes de Castro na C\u00e2mara e testemunha da sua eloqu\u00eancia, esta aprecia\u00e7\u00e3o do seu discurso:<\/p>\n<p><em>Borbulhavam\u2011lhe as frases dos l\u00e1bios como de um inesgot\u00e1vel manancial, sempre num jorro espesso. Tersa, impec\u00e1vel a<\/em> <em>linguagem.<\/em> <em>Quase n\u00e3o fazia pausas, n\u00e3o lia, n\u00e3o compulsava apontamentos, n\u00e3o bebia \u00e1gua. Prolongava\u2011se difuso o discurso ora fervilhando, ora remoinhando, ora se aquietando em remansos l\u00edricos, por\u00e9m constantemente copioso, vertiginoso mesmo.<\/em><\/p>\n<p>Imaginai um pa\u00eds inteiro preso \u00e0 beleza da prosa de um grupo de mestres da ret\u00f3rica que, ao discutirem os problemas magnos do pa\u00eds, na dial\u00e9tica de discernir o falso do verdadeiro, cuidavam da pureza da linguagem e da beleza do estilo. E segundo nos revela Dunshee de Abranches, Gomes de Castro, em seus anos \u00e1ureos, chegou a abalar minist\u00e9rios com o poder da sua palavra elegante e apaixonada.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de comparar, senhores, estes monumentos da palavra tribun\u00edcia do nosso passado com o pauperismo reinante no debate entre os parlamentares das atuais legislaturas de todos os n\u00edveis, tanto na proposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, quanto na ret\u00f3rica dos discursos \u2013 que o avan\u00e7o das comunica\u00e7\u00f5es nos permite, felizmente ou infelizmente, acompanhar ao vivo. E fiquemos por aqui, na ret\u00f3rica, para n\u00e3o sermos obrigados a nos reportar \u00e0 indig\u00eancia moral que enlameia nossas institui\u00e7\u00f5es parlamentares e que preferimos n\u00e3o trazer \u00e0 baila para n\u00e3o turvar a alegria deste momento.<\/p>\n<p>Talvez, senhores, na busca do conhecimento da causa maior da decad\u00eancia da ret\u00f3rica tribun\u00edcia no nosso pa\u00eds, cheguemos \u00e0 descoberta de que ter\u00edamos compartilhado do mesmo fen\u00f4meno acontecido a Atenas \u2013 a grega, n\u00e3o a maranhense \u2013 e que foi referido por Ernst Curtius, na sua obra <em>Literatura europeia e Idade M\u00e9dia latina:<\/em><\/p>\n<p><em>[&#8230;]<\/em> <em>com a perda da liberdade, a eloqu\u00eancia pol\u00edtica perdeu toda a import\u00e2ncia. [&#8230;] O discurso forense tamb\u00e9m retrocedeu pois n\u00e3o havia mais processo p\u00fablico. A ret\u00f3rica hel\u00eanica refugiou\u2011se nos exerc\u00edcios escolares.<\/em><\/p>\n<p>Talvez os anos da ditadura tenham enfraquecido e desesti mu lado o discurso pol\u00edtico em Pindorama e este, para nossa maior indig\u00eancia, sequer refugiou\u00ad-se nos exerc\u00edcios escolares.<\/p>\n<p><strong>Pedro Braga Filho<\/strong><\/p>\n<p>Mas nem todos os tribunos se acovardaram e calaram a voz ante \u00e0 repress\u00e3o. Um deputado maranhense, fiel ao princ\u00edpio da liberdade de express\u00e3o e autonomia do Poder Legislativo, de nome Pedro Braga Filho, pronunciou esta ora\u00e7\u00e3o, no Congresso Federal, em pleno 1964:<\/p>\n<p><em>Ao terminar este discurso em defesa do Congresso Nacional, do qual sou um dos membros, quero exortar os meus pares para que, juntos, unidos, pensando unicamente nos supremos interesses da democracia brasileira<\/em> <em>tenhamos a coragem c\u00edvica de mantermos abertas as portas desta Casa do Povo, se for poss\u00edvel, mas tenhamos tamb\u00e9m a coragem moral, para que possamos, amanh\u00e3 n\u00e3o nos envergonharmos de nossos filhos, de fech\u00e1\u2011las, se for imposs\u00edvel continuarmos aqui sem temores, sem concess\u00f5es escusas, exercitando os nossos mandatos nos termos da Constitui\u00e7\u00e3o que juramos cumprir e defender! Se for em v\u00e3o a nossa luta para mantermos a dignidade deste Parlamento que \u00e9 a pr\u00f3pria dignidade da democracia brasileira, ent\u00e3o, Sr. Presidente e Senhores Deputados, antes que nos envolva a todos a mortalha da Ditadura, saiba, pelo menos este Congresso Nacional \u201cmorrer porque viver n\u00e3o soube<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Este tribuno de quem vos falo e cujas palavras reproduzo, Pedro Braga Filho, jornalista, m\u00e9dico e parlamentar, foi o fundador da Cadeira de n\u00famero 39, desta Casa.<\/p>\n<p>E \u00e9 Pedro Neiva de Santana, sucessor do tribuno Pedro Braga na Casa de Ant\u00f4nio Lobo, que, ao perseguir os fios textuais de seu antecessor, vai oferecer\u00ad-nos, no fragmento abaixo, uma aprecia\u00e7\u00e3o da obra de Pedro Braga como mais um contributo para a identifica\u00e7\u00e3o dos fios imbricados deste\u00a0novelo liter\u00e1rio: [&#8230;] <em>um escritor de largos recursos, alicer\u00e7ados em amplos conhecimentos liter\u00e1rios, sobretudo de letras francesas, orador brilhante, seus trabalhos liter\u00e1rios publicados em livros s\u00e3o escassos, ao contr\u00e1rio do que se verifica com a bibliografia t\u00e9cnico\u2011cient\u00edfica, que \u00e9 bastante rica.<\/em><\/p>\n<p>No <em>continuum<\/em> do desvendar a obra deste autor e para aqueles que desejam conhec\u00ea-\u00adlo mais, recomendamos a leitura do livro <em>Memorial de Pedro Braga Filho. <\/em>\u00c9 a compila\u00e7\u00e3o de alguns dos seus discursos, pronunciados nas tribunas da Academia Maranhense de Letras e da C\u00e2mara dos Deputados, publicada para aumento da sua fortuna cr\u00edtica,\u00a0pelo escritor Fernando Braga, que tamb\u00e9m se ocupou da sele\u00e7\u00e3o dos originais e das notas com que foram enriquecidos.<\/p>\n<p><strong>Pedro Neiva de Santana<\/strong><\/p>\n<p>Senhores, se privilegiei a eloqu\u00eancia como o ponto de partida da voca\u00e7\u00e3o da Cadeira 39, n\u00e3o poderia deixar de lembrar que o patrono e o seu fundador tamb\u00e9m foram pol\u00edticos representantes do Maranh\u00e3o no parlamento nacional. E, embora seja saud\u00e1vel que n\u00e3o haja Cadeira cativa de determinados ramos da arte liter\u00e1ria ou da ci\u00eancia, a tend\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica e ao cultivo da orat\u00f3ria seguem, como se o nosso fio condutor, continuando a sua trajet\u00f3ria, houvesse se entrela\u00e7ado, promovendo idas e vindas entre os ocupantes desta c\u00e1tedra.<\/p>\n<p>Pedro Neiva de Santana, nascido no ano de 1907, em Nova Iorque, pequena cidade do Maranh\u00e3o, era m\u00e9dico e professor universit\u00e1rio, como Pedro Braga \u2013 fios a entrela\u00e7arem-\u00adse novamente. Pol\u00edtico e cultivador da arte do bem falar, a exemplo do patrono Gomes de Castro e do antecessor, Pedro Braga Filho, embora a sua tribuna n\u00e3o fosse a de parlamentar e sim a c\u00e1tedra da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, institui\u00e7\u00e3o da qual foi reitor.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante tenha sido prefeito da cidade de S\u00e3o Lu\u00eds e \u2013 volta o fio ao princ\u00edpio \u2013 governador do Estado, assim como Gomes de Castro exerceu id\u00eantico e elevado posto, ent\u00e3o denominado presidente da Prov\u00edncia, Pedro Neiva sempre negou a sua condi\u00e7\u00e3o de pol\u00edtico, somente aceita na ampla acep\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica do termo. Pires Saboia, seu sucessor e contempor\u00e2neo, presta decisivo depoimento a esse respeito, desabonando a interpreta\u00e7\u00e3o restritiva do antecessor:<\/p>\n<p>Pol\u00edtico ele o foi e da melhor cepa. S\u00f3 um h\u00e1bil pol\u00edtico chegaria, entre n\u00f3s, \u00e0 mais alta magistratura do Estado. O estilo \u00e9 que, de certo, o diferenciava dos demais pol\u00edticos do seu tempo.<\/p>\n<p>No volume intitulado <em>O momento das decis\u00f5es, <\/em>est\u00e3o enfeixados alguns discursos pronunciados quando esteve \u00e0 frente do governo do Estado. S\u00e3o discursos elegantes, s\u00f3brios, mostrando conhecimentos liter\u00e1rios e intimidade com os cl\u00e1ssicos. Nesse volume, h\u00e1 uma mensagem de Natal, tocada de lirismo que bem pode ilustrar a eleg\u00e2ncia e simplicidade de seu estilo. Direto, sem rebuscamentos de qualquer ordem. Aqui transcrevemos um fragmento:<\/p>\n<p><em>Nesta hora eu quereria minhas m\u00e3os nas pra\u00e7as, nas ruas, nas ladeiras, nos campos, nas portas de todas as igrejas, ap\u00f3s as missas. Eu me quereria em cada lar, presente como agora aqui bem perto dos meus. Eu me quereria assim para poder felicitar pessoalmente a todos e nesse gesto recolher de cada um a sua\u00a0solidariedade e dar a cada um a minha certeza, a minha f\u00e9. Nesta hora, mais do que a Mensagem, o Natal me inspira a prece. E eu quereria minhas m\u00e3os an\u00f4nimas, erguidas ao lado das de v\u00f3s todos, para que as minhas preces tivessem a mesma <em>linguagem de vossas preces.<\/em><\/em><\/p>\n<p>Os ensaios, discursos acad\u00eamicos e confer\u00eancias de Pedro Neiva, dispersos, ainda esperam para serem reunidos em livro.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Pires de Saboia Filho<\/strong><\/p>\n<p>O entrela\u00e7amento dos fios deste novelo, que tecem a trama da Cadeira 39, prossegue na obra de Jos\u00e9 Pires de Saboia Filho, por uns chamado Jos\u00e9 Pires (l\u00e1 para as bandas do Cear\u00e1) e de Pires Saboia, ou simplesmente Saboia (no Maranh\u00e3o). E o tecido jur\u00eddico e jornal\u00edstico que vem l\u00e1 de Gomes de Castro alarga-\u00adse, enriquecido com a contribui\u00e7\u00e3o de Pires Saboia. Para completar a urdidura, \u00e9 mister juntarem-\u00adse a\u00ed, tamb\u00e9m, as fibras do magist\u00e9rio de Pires Saboia \u00e0s de Pedro Braga e Pedro Neiva de Santana, assim como as linhas e volteios da pol\u00edtica magistralmente exercida por todos os que se assentaram nesta Cadeira.<\/p>\n<p>E assim, o novelo, agora desenovelado, transforma-\u00adse em uma tessitura de fios imbricados que se entretecem e se completam, formando o tecido incons\u00fatil do manto que agora recebo para zelar e complement\u00e1-\u00adlo com outras tessituras, procurando aformose\u00e1\u00ad-lo, para assim transmiti-\u00adlo, \u00edntegro, ao meu sucessor, quando meu tempo se completar.<\/p>\n<p>Falar de Jos\u00e9 Pires de Saboia Filho, meu antecessor na Cadeira 39 da Casa de Ant\u00f4nio Lobo, n\u00e3o \u00e9 tarefa penosa, apesar das inquieta\u00e7\u00f5es, j\u00e1 de in\u00edcio reveladas, trazidas por esta prova oral a que me submeto para ser ungida como imortal, tal a riqueza da sua figura humana e as m\u00faltiplas facetas da sua versatilidade intelectual.<\/p>\n<p>Pires Saboia (como passou a ser conhecido no Maranh\u00e3o) chegou em 12 de outubro de 1944 a S\u00e3o Lu\u00eds, para assumir a dire\u00e7\u00e3o, na regi\u00e3o, dos Di\u00e1rios Associados, a poderosa empresa de Assis Chateaubriand.<\/p>\n<p>Deixemos a ele a tarefa de contar como isso se deu:<\/p>\n<p><em>Um incidente profissional. N\u00e3o houve planejamento nem premedita\u00e7\u00e3o.[&#8230;] recebi um apelo do hoje senador Jo\u00e3o Calmon, ent\u00e3o Diretor\u2011Geral dos Di\u00e1rios Associados do Cear\u00e1, Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Amazonas. Jo\u00e3o Calmon necessitava de minha presen\u00e7a imediata em S\u00e3o Lu\u00eds para substituir, por pouco tempo, o diretor dos jornais, que havia regressado inesperadamente ao seu Rio Grande do Norte. Eu deveria permanecer no Maranh\u00e3o apenas at\u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do antigo diretor. [&#8230;] meus servi\u00e7os eram necess\u00e1rios numa emerg\u00eancia, e a minha sa\u00edda do Cear\u00e1 teria curta dura\u00e7\u00e3o. Dois dias depois estava nesta linda cidade.<\/em><\/p>\n<p>E ele complementa este introito, poeticamente, acrescentando dois versos alexandrinos:<\/p>\n<p><em>Em outubro, foi\u2011se a Ditadura de Vargas.<br \/>\n<\/em><em>Eu \u00e9 que nunca mais me fui do Maranh\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Este cearense de Independ\u00eancia nasceu em 16 de abril de 1916, filho de Maria Ad\u00e9lia Saboia e de Jos\u00e9 Pires de Saboia, o Senhor Pires. Come\u00e7a seus estudos prim\u00e1rios aos dez anos de idade, na escola particular da fazenda de seus padrinhos de batismo, Cachoeirinha. Somente aos quatorze anos, em 1930, j\u00e1 matriculado no quarto ano prim\u00e1rio no internato do Col\u00e9gio Cearense, em Fortaleza, \u00e9 que se iniciam os seus estudos regulares.<\/p>\n<p>Essa demora em nada vai mudar a urdidura do tecido da vida de quem j\u00e1 em si trazia as sementes de grandeza \u00e0 espera apenas das condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias \u00e0 germina\u00e7\u00e3o. Pires Saboia, em 1943, logo ap\u00f3s bacharelar-\u00adse em Direito, j\u00e1 exercia a chefia da reda\u00e7\u00e3o do jornal<em> Unit\u00e1rio<\/em><strong>, <\/strong>pertencente aos Di\u00e1rios Associados.<\/p>\n<p>Conheci Pires Saboia, assim como Dona Iracema e os filhos do casal, nas visitas que as nossas fam\u00edlias trocavam, na minha meninice. Lembro-\u00adme dos anivers\u00e1rios na casa da rua Rio Branco, esquina com a Jansen M\u00fcller; da calma de Dona\u00a0Iracema ao lidar com o batalh\u00e3o de filhos, sete para ser mais precisa, e do apre\u00e7o do meu pai pelo Saboia, como ele o chamava.<\/p>\n<p>E conclamo aqui, para vos apresentar o acad\u00eamico a quem devo suceder nesta noite, o romancista Josu\u00e9 Montello, seu compadre e amigo:<\/p>\n<p><em>Mais ou menos despenteado, as abas do palet\u00f3 perenemente abertas, uma ponta de cigarro na m\u00e3o esquerda, Pires de Saboia nos d\u00e1, de in\u00edcio, a impress\u00e3o de ser o homem mais desorganizado deste planeta. Esta impress\u00e3o se confirma com um olhar de relance por sua mesa de trabalho, capaz de rivalizar com a do Bar\u00e3o de Rio Branco e<\/em> <em>onde se acumulam jornais e correspond\u00eancias, cinzeiros e livros, fotografias e envelopes soltos, mas onde a m\u00e3o do dono por uma intui\u00e7\u00e3o verdadeiramente espantosa, sabe encontrar num segundo o que os dedos impacientes sa\u00edram a procurar.<\/em><\/p>\n<p>E continua Josu\u00e9 a delinear a figura singular de Pires Saboia:<\/p>\n<p><em>Por seu lado, a desarruma\u00e7\u00e3o da figura humana n\u00e3o se harmoniza com o seu esp\u00edrito admiravelmente organizado. E essa organiza\u00e7\u00e3o se faz sentir no momento em que Saboia se instala na sua condi\u00e7\u00e3o superior de mestre de Direito.<\/em><\/p>\n<p>As distra\u00e7\u00f5es de Pires Saboia tornaram-\u00adse folcl\u00f3ricas em S\u00e3o Lu\u00eds. Todos os seus amigos t\u00eam uma hist\u00f3ria para contar. Ou \u00e9 a hist\u00f3ria da vez em que ele, enquanto ministrava aula de Direito Civil, na antiga Faculdade de Direito, acendeu dois cigarros ao mesmo tempo, como n\u00e3o era raro acontecer, e p\u00f4s, inadvertidamente, um no bolso do palet\u00f3 que come\u00e7ou a pegar fogo; ou \u00e9 aquela outra de quando, esquecendo o local onde havia estacionado o carro, procurou-\u00ado por algum tempo e, n\u00e3o o tendo encontrado, concluiu terem-\u00adno roubado e foi dar parte \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Bem, pelo menos nesse pormenor, creio que Pires Saboia ser\u00e1 bem representado nesta Academia. Tamb\u00e9m sou uma campe\u00e3 da distra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, esquecendo onde havia estacionado meu carro, procurava-\u00ado, disfar\u00e7adamente, como quem n\u00e3o quer nada, no estacionamento da Igreja de S\u00e3o Jo\u00e3o. Logo, vem um flanelinha e me diz: \u201c\u2013 Sei onde est\u00e1 seu carro. Fiquei tomando conta dele. Sou seu fregu\u00eas.\u201d Desconheci o cujo e disse-\u00adlhe: \u201c\u2013 Deixa de hist\u00f3ria, menino, voc\u00ea nem me conhece.\u201d \u201c\u2013 Conhe\u00e7o, sim. N\u00e3o \u00e9 a senhora que fecha sempre o carro com a chave dentro?\u201d A\u00ed me rendi. O danado era mesmo meu fregu\u00eas.<\/p>\n<p>Fechemos a digress\u00e3o. A par das distra\u00e7\u00f5es, Saboia era um esp\u00edrito \u00e1gil, de pensamento agu\u00e7ado, com uma enorme versatilidade e extraordin\u00e1ria capacidade de apreens\u00e3o em v\u00e1rios campos do saber. Esse aparente descompasso entre o exterior e o interior, entre o ser e o parecer, tornavam-\u00adno especial e atra\u00edam para sua pessoa simpatias inusitadas.<\/p>\n<p>Embora cearense de nascen\u00e7a, no Maranh\u00e3o encontrou o seu ch\u00e3o. Ch\u00e3o onde medrou, casou e teve filhos, e assim foi diretor d\u2019<em>O Imparcial,<\/em> advogado conceituado, professor universit\u00e1rio, deputado federal em duas legislaturas e secret\u00e1rio do Interior e Justi\u00e7a. Sobre o Saboia maranhense, ele pr\u00f3prio declara:<\/p>\n<p><em>Desde cedo, e de todo, integrei\u2011me, espiritual e intelectualmente, \u00e0 comunidade maranhense. Ao Maranh\u00e3o devo todas as minhas conquistas profissionais e tenho para com os maranhenses uma d\u00edvida irresgat\u00e1vel: a excelsa honra de t\u00ea\u2011los representado no Congresso Nacional em dois mandatos de deputado federal. Ao Maranh\u00e3o devo a minha mulher, Iracema, nascida na cidade de Brejo, filha do poeta e jornalista Raul de Freitas, que pertenceu aos quadros desta Academia.<\/em><\/p>\n<p><strong>O Cronista<\/strong><\/p>\n<p>Saboia escreveu cr\u00f4nicas di\u00e1rias no jornal <em>Unit\u00e1rio,<\/em> de Fortaleza, durante dois anos seguidos, os de 1942 e 1943, sob o pseud\u00f4nimo de Shelley. Sobre elas, confessa que s\u00e3o cr\u00f4nicas ligeiras, escritas sempre \u00e0 noite, em meio \u00e0 incessante agita\u00e7\u00e3o que se observava normalmente numa reda\u00e7\u00e3o de jornal dos velhos tempos. Essas cr\u00f4nicas chegaram a somar umas trezentas, das quais, setenta e sete encontram-\u00adse enfeixadas no volume <em>As cr\u00f4nicas da mocidade no Cear\u00e1.<\/em><\/p>\n<p>As primeiras cr\u00f4nicas \u2013 o autor as apresenta em ordem cronol\u00f3gica \u2013 s\u00e3o leves, com ares de cr\u00f4nica social, recheadas de lirismo, versando sobre assuntos diversos, dirigidas \u2013 \u00e0 moda de Machado de Assis \u2013 \u00e0s mo\u00e7as, n\u00e3o do Rio de Janeiro, mas \u00e0s de Fortaleza. Decerto, pelo estilo das cr\u00f4nicas, atingir esse p\u00fablico foi a incumb\u00eancia primeira, determinada talvez pelo pr\u00f3prio jornal.<\/p>\n<p>Apesar de sua proposta e da urg\u00eancia da feitura, essas cr\u00f4nicas se revelam pe\u00e7as surpreendentes: de uma prosa moderna, linguagem coloquial e sem rebuscamentos e com momentos de verdadeiro lirismo. Denotam j\u00e1 o estilo l\u00edmpido do prosador e editorialista de escol que Saboia se tornaria no futuro. Mostram que ele poderia ter conseguido destaque nos rumos da prosa de fic\u00e7\u00e3o se a ela se dedicasse.<\/p>\n<p>\u00c9 de notar\u00ad-se que estas cr\u00f4nicas, mesmo estando inseridas cronologicamente na d\u00e9cada em que surge a famosa Gera\u00e7\u00e3o de 45, tendente \u00e0 reelaborar ritmos antigos e maior disciplina formal, n\u00e3o se submetem \u00e0 tend\u00eancia dominante: n\u00e3o s\u00e3o informadas pela imag\u00edstica da est\u00e9tica do universo parnasiano ou neossimbolista. Seu vocabul\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 frequentado, como os de grande parte de outros cronistas e escritores da \u00e9poca, por musas, deusas, s\u00edlfides, ninfas, n\u00e1iades, e sim por mulheres comuns. Por vezes misteriosas, como a possuidora de um \u201cnarizito arrebitado\u201d ou uma \u201cbranquinha\u201d. Que descubro mais tarde serem a mesma pessoa.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o rumoroso caso da cr\u00f4nica do \u201cnarizito arrebitado\u201d \u00e9 interessante e vai desempenhar papel importante na hist\u00f3ria da vida de Pires Saboia. Vejamos como se desenrola este <em>imbroglio<\/em>: rec\u00e9m-\u00adsa\u00eddo de uma leve enfermidade, o cronista lamenta ter adoecido justo no m\u00eas de maio e relata o porqu\u00ea. Leiamos um fragmento da cr\u00f4nica As Novenas do M\u00eas de Maio (maio de 1942):<\/p>\n<p><em>Para mim, Fortaleza nunca se apresenta mais simp\u00e1tica do que durante estes 31 dias de novenas em todas as igrejas e capelas. M\u00eas das flores, ele \u00e9, em Fortaleza, o m\u00eas mais alegre do ano, o m\u00eas das t\u00edmidas meninas cat\u00f3licas que v\u00e3o \u00e0 igreja fazer rezar ou de flertar&#8230; N\u00e3o, \u00e9 muito sacrif\u00edcio estar\u2011se enfermo no m\u00eas de maio. E bem sabe disso quem, como eu, adora essas suaves novenas de maio e anda atra\u00eddo pela influ\u00eancia de um audacioso narizito arrebitado&#8230; Oh, essas novenas da Igreja do Patroc\u00ednio!<\/em><\/p>\n<p>Essa cr\u00f4nica provocou um suave reboli\u00e7o entre as leitoras de Shelley. Algumas, talvez enciumadas, o acusaram de impiedade, falta de religi\u00e3o, por ter fugido \u00e0 hipocrisia reinante \u00e0 \u00e9poca e revelado o verdadeiro motivo de suas idas \u00e0s novenas de maio. H\u00e1 r\u00e9plicas e tr\u00e9plicas. Em meio a isso, Pires Saboia, escreve uma outra cr\u00f4nica: O \u201cNarizito Arrebitado\u201d Est\u00e1 Muito Acima, Sabe?<\/p>\n<p>Realmente a dona do narizito arrebitado estava mesmo muito acima das outras. Prova-\u00adse o fato. Ela, que involuntariamente tanta celeuma provocou, tornou-\u00adse a esposa de Pires Saboia, sua fiel companheira durante mais de meio s\u00e9culo e encontra\u00ad-se hoje aqui, nesta noite memor\u00e1vel, sentada bem \u00e0 minha frente: dona Iracema Saboia.<\/p>\n<p>A fase das cr\u00f4nicas, das amenidades, das discuss\u00f5es\u00a0sobre flertes e novenas dura pouco mais que nada. Em pouco tempo as cr\u00f4nicas sociais se modificam e d\u00e3o lugar a outras de tem\u00e1tica mais s\u00e9ria, a versarem sobre problemas sociais, a fome e seca no sert\u00e3o do Cear\u00e1, as mis\u00e9rias e horrores da guerra. O estilo firma-\u00adse e a linguagem atinge mais for\u00e7a e vigor. O cronista toma posi\u00e7\u00f5es e defende ideias e ideais. Em ambas as fases vamos encontrar pequenas obras-\u00adprimas de delicadeza e emo\u00e7\u00e3o, como Branquinha<em>, <\/em>da fase inicial, e Inverno<em>, <\/em>pertencente ao grupo das mais maduras.<\/p>\n<p><strong>O Poeta<\/strong><\/p>\n<p>A Fase da Poesia, como a chama o pr\u00f3prio Saboia, desenvolveu-\u00adse de 1935\u00ad1938, quando ele cursava o Liceu Cearense. Formou\u00ad-se a\u00ed um n\u00facleo de poesia composto por um pequeno grupo de jovens literatos, liderados pelo poeta Haroldo Torres, que viria a ter certa nomeada na literatura da d\u00e9cada de trinta no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Este n\u00facleo, de vida breve, encerra\u00ad-se com as mortes prematuras, aos 21 e 22 anos, respectivamente, do pr\u00f3prio Haroldo e de Sin\u00f3 Pinheiro, dois dos maiores amigos de nosso jovem poeta&#8230;<\/p>\n<p>Aos vinte anos, Pires de Saboia escreve dois sonetos, os quais, como ele pr\u00f3prio revela em <em>Lembran\u00e7as de um advogado,<\/em> de pronto o projetaram em todos os c\u00edrculos liter\u00e1rios do Cear\u00e1. O Farol do Mucuripe, o mais divulgado e apreciado, foi acolhido no <em>Cancioneiro de Fortaleza,<\/em> de Arthur Benevides, e A Curva do Destino figura na antologia <em>Sonetos cearenses, <\/em>de Hugo V\u00edtor<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>Vejamos:<\/p>\n<p><em>A CurvA do destino<\/em><\/p>\n<p><em>Some\u2011se a estrada na floresta turva,<br \/>\n<\/em><em>Onde o sol, ao cair no ch\u00e3o, parece<br \/>\n<\/em><em>Transformar\u2011se em estrelas&#8230; Sobe e<br \/>\ndesce Os alcantis da serra, numa curva&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>E eu subo e des\u00e7o e sinto que se enturva,<br \/>\n<\/em><em>Nas surpresas da volta, no<br \/>\ninteresse, Que me fascina, a<br \/>\ndesejada messe, Sedutora, da<br \/>\nestrada que se encurva.<\/em><\/p>\n<p><em>Futuro \u00e9 uma curva que se lan\u00e7a<br \/>\nNo mist\u00e9rio do al\u00e9m&#8230; exposta ao<br \/>\nluto Do presente e aos acentos da<br \/>\nesperan\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Cego viajor, caminho resoluto! Sigo&#8230;<br \/>\nMas sofro a ang\u00fastia que balan\u00e7a,<br \/>\nInc\u00f3gnita, na curva de um minuto!<\/em><\/p>\n<p>Em 1937, o poeta reuniu suas produ\u00e7\u00f5es num volume que seria seu livro de estreia, com o nome de <em>Vibra\u00e7\u00f5es<\/em>. Desistiu de seu intento ao constatar que as novas poesias nada acrescentariam ao renome que, no Cear\u00e1, adquiriram os dois sonetos Farol do Mucuripe e a A Curva do Destino. Pressentindo que a sua realiza\u00e7\u00e3o estaria em outros campos, abandona a poesia em 1938. Alguns de seus poemas de juventude foram musicados por seu filho Francisco de Assis e gravadas em CD, em diversos ritmos, bai\u00e3o, valsa etc.. Uma perfeita simbiose entre letra e m\u00fasica e entre os talentos de pai e filho, resultando num trabalho muito agrad\u00e1vel aos ouvidos.<\/p>\n<p><strong>O Jornalista<\/strong><\/p>\n<p>A faceta de Pires Saboia que os maranhenses mais\u00a0conhecem e reconhecem \u00e9 a do jornalista. O diretor de jornal que soube abrir espa\u00e7o entre os da terra, conquistando amigos, integrando\u00ad-se ao esp\u00edrito maranhense; o editorialista intuitivo cuja capacidade de apreender o mundo \u00e0 sua volta n\u00e3o o reduzia a mero expositor de fatos, pois que os interpretava com tra\u00e7o marcante.<\/p>\n<p>Para cumprir melhor o compromisso com a verdade deste texto, transcrevo depoimentos de amigos e companheiros de trabalho de Pires Saboia, que certamente, melhor que eu, saber\u00e3o apresentar-\u00adlhes a figura humana do grande jornalista rec\u00e9m-\u00adretirado do nosso conv\u00edvio.<\/p>\n<p>Diz Vera-\u00adCruz Santana, em seu discurso de recep\u00e7\u00e3o a Saboia, quando de sua posse na Cadeira 39:<\/p>\n<p><em>[Saboia] foi entrando, aos poucos, na fam\u00edlia jornal\u00edstica maranhense, revelando desde os primeiros passos, compreens\u00e3o de sua tarefa e profunda fidelidade aos princ\u00edpios \u00e9ticos, sem preju\u00edzo da linha que a poderosa organiza\u00e7\u00e3o a que servia impunha a quantos se deslocassem a seu servi\u00e7o. [&#8230;] \u00c1gil e l\u00facido no escrever, datilografando com dois dedos, Saboia criava, em tempos m\u00ednimos, artigos que sacudiam a cidade, pela limpidez de estilo e pela prud\u00eancia \u00e9tica. Honesto como os que mais sejam, nunca fez do jornal gazua para abrir cofres alheios.<\/em><\/p>\n<p>Outro grande jornalista, confrade de reda\u00e7\u00e3o e de Academia de Letras, Nonato Masson, no artigo Mem\u00f3rias de Uma Sala, publicado em <em>Lembran\u00e7as de um advogado <\/em>(1997), relembrando velhos tempos, descreve o confrade:<\/p>\n<p>[&#8230;]<em> escancara\u2011se, de par a par, a porta da sala. Por ela entra como um tornado a figura agigantada, inquieta, trovejante do Saboia. \u00c9 o mesmo homem, aut\u00eantico nos seus rompantes, solid\u00e1rio nas horas precisas, forjador de talentos, mestre de rep\u00f3rteres e de chumbeiros. [..]. Aqui, em Bras\u00edlia ou no Rio, ele est\u00e1 sempre presente, orientando, ensinando, estimulando os novos. S\u00e3o necess\u00e1rias muitas m\u00e3os para que se conte nos dedos os mo\u00e7os que ele transformou de chumbeiros em advogados, de revisores em deputados federais ou autores de livros, de rep\u00f3rteres em secret\u00e1rios de jornal [&#8230;] E de jornaleiros em rep\u00f3rteres, como foi o meu caso..<\/em><\/p>\n<p><strong>O Jurista e o Pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Pires Saboia, apesar de reiterados convites, retardou seu ingresso na pol\u00edtica, e somente aceitou oferecer seu nome \u00e0 candidatura de uma cadeira na C\u00e2mara dos Deputados, quando j\u00e1 era altamente considerado como jornalista, al\u00e9m de professor de Direito Civil da Faculdade de Direito do Maranh\u00e3o, advogado do Banco do Brasil, de larga experi\u00eancia e com uma colet\u00e2nea de pareceres de alto saber.<\/p>\n<p>Quando se decidiu a entrar na pol\u00edtica, n\u00e3o o fez como aventureiro. Possu\u00eda demarcados objetivos de realizar, na C\u00e2mara dos Deputados, trabalhos centrados no campo do Direito. O principal deles: mobilizar esfor\u00e7os, sobretudo na Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da C\u00e2mara, para consolidar, com substancial redu\u00e7\u00e3o do seu n\u00famero, as leis brasileiras que atingiam, ent\u00e3o, num aglomerado ca\u00f3tico, mais de cem mil diplomas legais.<\/p>\n<p>Eleito, Pires Saboia foi escolhido membro da Comiss\u00e3o Especial constitu\u00edda em 1967 para apreciar o projeto de lei que institu\u00eda o novo C\u00f3digo de Processo Civil. Contr\u00e1rio a essa institui\u00e7\u00e3o, ele defendia que era mister, sim, atualizar e aperfei\u00e7oar, tanto quanto poss\u00edvel, o nosso C\u00f3digo de Processo Civil, sem, no entanto, desfigurar-lhe a soberba estrutura\u00a0testada com sucesso em quase cinquenta anos de vig\u00eancia. Em poucos meses de trabalho da Comiss\u00e3o, esse projeto foi retirado da C\u00e2mara dos Deputados, por motivos pouco esclarecidos.<\/p>\n<p>Pires Saboia continuou sua batalha, envolvendo\u00ad-se, como relator, em muitos outros projetos de lei relativos a altera\u00e7\u00f5es no C\u00f3digo de Processo Civil, neles deixando a sua marca de jurista brilhante.<\/p>\n<p>Em 1979, ap\u00f3s deixar a Secretaria do Interior, Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a do Maranh\u00e3o, reassume as fun\u00e7\u00f5es de Consultor Jur\u00eddico dos Di\u00e1rios Associados, em \u00e2mbito nacional. Nesta fun\u00e7\u00e3o, sua sustenta\u00e7\u00e3o no campo da doutrina jur\u00eddica e nos grandes embates judici\u00e1rios refletiu-\u00adse nas sucessivas vit\u00f3rias assinaladas pelo Condom\u00ednio Acion\u00e1rio dos Di\u00e1rios Associados, do qual era membro.<\/p>\n<p>Apesar de os maranhenses conhecerem e admirarem mais o Saboia jornalista, talvez a atua\u00e7\u00e3o como jurista tenha sido a sua miss\u00e3o mais significativa e de maior proje\u00e7\u00e3o nacional. Em cr\u00f4nica escrita por ocasi\u00e3o de sua investidura como representante do povo maranhense, Josu\u00e9 Montello o chamou de \u201cum jurista na C\u00e2mara dos Deputados\u201d. E durante todo o per\u00edodo do seu desempenho pol\u00edtico (foi deputado federal em duas legislaturas), Saboia honrou esse ep\u00edteto, reafirmando sempre mais e mais a sua condi\u00e7\u00e3o de grande conhecedor do Direito.<\/p>\n<p>Senhores, tracei-\u00adlhes aqui o breve perfil de um homem que se destacou nas fun\u00e7\u00f5es de jornalista, poeta, cronista, jurista e parlamentar; de um maranhense do Cear\u00e1, mas sobretudo o de um homem bom. Um dos seus \u00faltimos gestos de desprendimento e amor ao pr\u00f3ximo foi a cria\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Senhor Pires, em Independ\u00eancia, sua terra natal. Essa Funda\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual ele doou trezentos mil reais, terreno e sede pr\u00f3pria, tem como objetivo principal desenvolver, no Munic\u00edpio de Independ\u00eancia, atividades no campo da alfabetiza\u00e7\u00e3o, certamente inspirado no menino de interior que somente aos dez anos foi matriculado no primeiro ano prim\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>A l\u00b4oeuvre on conna\u00eet l\u00b4artisan, <\/em>nos ensina o fabulista La Fontaine, e as boas obras de Saboia a\u00ed est\u00e3o, provadas nos depoimentos dos que o conheceram intimamente, dando\u00ad-nos a medida do homem que ele foi.<\/p>\n<p><strong>Meus pr\u00f3prios fios<\/strong><\/p>\n<p>Desenrolado est\u00e1, ainda que desajeitadamente, o novelo dos ilustres que me antecederam na Cadeira 39 e exposto o tecido urdido por eles. Antes de a\u00ed imbricarem-\u00adse os meus pr\u00f3prios fios, desejaria mostrar\u00ad-vos algo do parco tecido que trago como oferenda \u00e0 Casa de Ant\u00f4nio Lobo. \u00c9 uma modesta teia entremeada ora com os fios de meus deuses-\u00adlares, ora com os de alguns numes tutelares de todas as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fio que aponta primeiramente \u00e9 o de meu av\u00f4, Henrique Costa Fernandes, acad\u00eamico desta Casa, historiador, jornalista, erudito autor da obra <em>Administra\u00e7\u00f5es maranhenses, <\/em>sobre as administra\u00e7\u00f5es da Primeira Rep\u00fablica no Maranh\u00e3o<em>.<\/em><\/p>\n<p>Lembro que, quando em casa, sisudo e formal, ele ficava recolhido no quarto, onde lia e escrevia, escanchado em uma rede baixa, com uma prancheta no colo. Ali, ningu\u00e9m ousava perturb\u00e1-\u00adlo. Ou por outra, quase ningu\u00e9m, pois quando eu, correndo de uma prov\u00e1vel chinelada de minha m\u00e3e, entrava quarto a dentro, como um furac\u00e3o, a pedir prote\u00e7\u00e3o, ele levantava a varanda da rede e me fazia um sinal c\u00famplice. Rapidamente eu entrava no abrigo e ele me cobria mal com a varanda. Gato escondido com o rabo de fora, ou melhor, com os p\u00e9s sujos de fora. Minha m\u00e3e, respeitosa, n\u00e3o querendo contrari\u00e1-\u00adlo, dizia: \u201cDr. Henrique, esta menina est\u00e1 imposs\u00edvel\u201d. E ele perguntava, olhinho esperto: \u201cMenina? Qu\u00ea\u00a0menina?\u201d E ela n\u00e3o retorquia, que ningu\u00e9m tinha essa coragem, e ia embora. Livre do castigo, eu pulava na rede e quase n\u00e3o parava para ouvir as suas reprimendas risonhas.<\/p>\n<p>Este homem, que assim se transformava com a neta, contou-\u00adme muitas e muitas hist\u00f3rias de velhos tempos, nunca esquecidas, e contribuiu para que eu visse a Academia Maranhense de Letras com familiaridade e simpatia.<\/p>\n<p>Entrevejo, na minha teia, um outro fio como que escondido. \u00c9 dif\u00edcil pux\u00e1-\u00adlo, porque dele, como do her\u00f3i que lhe deu o nome, s\u00f3 lhe sei as lendas. \u00c9 o de Ulysses Costa Fernandes. Poeta e bo\u00eamio. Meu tio, morto aos trinta e tr\u00eas anos. Contam os que o conheceram que era uma figura gost\u00e1vel, sedutora. Escreveu e publicou um livro de poemas denominado <em>M\u00e1rmores.<\/em> Tinha, dizem, outro in\u00e9dito. Nunca foi encontrado.<\/p>\n<p>Ulysses declamava poesias em programas de r\u00e1dio, fez parte do Cen\u00e1culo Gra\u00e7a Aranha e era amigo de Viegas Netto, Josu\u00e9 Montello, Ariceya Moreira Lima, Franklin de Oliveira e Manoel Caetano Bandeira de Mello. Com estes dois \u00faltimos, aos vinte e um anos, tomou um navio do Lloyde Brasileiro, o Comandante Ripper, e partiu a cumprir sua odisseia por mares distantes. Nenhum dos tr\u00eas viajores regressaria mais a \u00cdtaca, para faz\u00ea-\u00adla novamente seu pouso definitivo.<\/p>\n<p>Unindo as pontas desses dois fios, fortemente, com um la\u00e7o amoroso, est\u00e1 Francisco Costa Fernandes Sobrinho, meu pai. Em\u00e9rito orador, cometedor de poemas na juventude, jurista, erudito, com dois trabalhos jur\u00eddicos publicados \u2013 sem qualquer divulga\u00e7\u00e3o \u2013 e muitos outros na gaveta.<\/p>\n<p>Mas nenhuma das suas produ\u00e7\u00f5es intelectuais me valeu tanto como os caminhos que ele me mostrou. As orienta\u00e7\u00f5es de leituras, as conversas sobre E\u00e7a, Camilo, Chateaubriand, Flaubert, Alexandre Herculano, Voltaire e muitos outros, principalmente sobre os cl\u00e1ssicos franceses. Uma salada mista, convenhamos, mas que me abriu e agu\u00e7ou os sentidos para apreciar o sabor da leitura.<\/p>\n<p>No terra\u00e7o da nossa casa, \u00e0 noite, olhando o c\u00e9u, ele me falava de tudo. Desde Flammarion a Einstein. Das mol\u00e9culas, dos \u00e1tomos e de Tom\u00e1s de Aquino. N\u00e3o importava quantos anos eu tivesse. Os assuntos eram sempre muito al\u00e9m. S\u00f3 que ele os adequava \u00e0 minha idade da ocasi\u00e3o, e eu me sentia uma adulta.<\/p>\n<p>S\u00f3 o tive at\u00e9 os dezessete anos. Mas dele soube e aprendi como s\u00e3o abomin\u00e1veis os preconceitos e os julgamentos apressados, e que a falta mais grave que um ser humano pode cometer \u00e9 n\u00e3o ser verdadeiro.<\/p>\n<p>Outro fio corre ao meu lado e \u00e0 minha frente. Outro Costa Fernandes, que embora mais jovem, j\u00e1 teceu mais que eu. O escritor, poeta, ensa\u00edsta e romancista de premia\u00e7\u00e3o internacional: o meu irm\u00e3o, Ronaldo Costa Fernandes. Sempre pensei nele como o continuador do meu av\u00f4 Henrique, nesta Casa, nunca em mim. Mas a vida tem dessas surpresas&#8230;<\/p>\n<p>Finalizo, que j\u00e1 devem estar ansiosos para ouvir a pe\u00e7a liter\u00e1ria que vir\u00e1 a seguir, a ora\u00e7\u00e3o a ser proferida pelo confrade Joaquim Itapary, que aceitou honrar-\u00adme com a sua recep\u00e7\u00e3o. E quero, ainda, fazer uma \u00faltima homenagem: dedicar esta noite a algu\u00e9m muito especial.<\/p>\n<p>Esta pessoa \u00e9 o grande poeta, cronista e ensa\u00edsta Lago Burnett, vision\u00e1rio para al\u00e9m do parecer, a descobrir o desejo, por mim despercebido, de ser linha fiada e torcida dessa teia textual, eternamente composta, porque sempre inconclusa.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que trouxe a lume um t\u00eanue veio liter\u00e1rio \u2013 assim percebido \u2013 nos versos rascunhados dos meus oito anos.<\/p>\n<p>Cometi os versos e parei. Sei que lhe frustrei expectativas. Muitos anos se passaram at\u00e9 que eu come\u00e7asse a fiar e tecer, e outros mais ainda para ter a ousadia de me mostrar tecedeira.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Lago Burnett j\u00e1 havia partido.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria bom que ele estivesse aqui esta noite? E creio que ele est\u00e1 sim, ali, ao lado de Maria Jos\u00e9, assim como estar\u00e3o tamb\u00e9m Pires Saboia, Pedro Braga, Pedro Neiva, Gomes de Castro, Henrique, Ulysses e Francisco Costa Fernandes.<\/p>\n<p>E aqui sa\u00fado a minha fam\u00edlia presente, raz\u00e3o de tudo que fa\u00e7o: marido, m\u00e3e, irm\u00e3o, filhos, nora e genro, e abro os bra\u00e7os afetuosos aos meus colegas, novos irm\u00e3os, nova fam\u00edlia, para a conviv\u00eancia intelectual que se inicia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p>Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu em Salvador-BA, em 28 de dezembro de 1942. Filha de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. Permaneceu naquela cidade at\u00e9 os dois anos de idade, quando retornou ao Maranh\u00e3o. Estudou o prim\u00e1rio em S\u00e3o Lu\u00eds, no Col\u00e9gio Santa Tereza, das Irm\u00e3s Dorot\u00e9as, e parte do secund\u00e1rio no Rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":212,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[22],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=211"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1181,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions\/1181"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media\/212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}