{"id":196,"date":"2014-03-29T13:57:24","date_gmt":"2014-03-29T13:57:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=196"},"modified":"2014-09-22T09:44:40","modified_gmt":"2014-09-22T09:44:40","slug":"antonio-martins-de-araujo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/antonio-martins-de-araujo\/","title":{"rendered":"Antonio Martins de Ara\u00fajo"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Filho de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 de Ara\u00fajo e Edith Raposo Martins Ara\u00fajo, nasceu a l\u00b0 de agosto de 1932, numa segunda-feira aziaga, em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, na Rua dos Afogados, esquina com a do Ribeir\u00e3o, j\u00e1 de janelas abertas para o Teatro Artur Azevedo, a cujos espet\u00e1culos teatrais assistiu (todos!) entre seus cinco e treze anos de idade, levado pelas m\u00e3os de sua madrinha e m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o, Edith Barbosa Pinto, que vendia, na caixa do Teatro, cafezinho e mingau de milho para os artistas das companhias visitantes e para os espectadores durante os intervalos das pe\u00e7as.<\/p>\n<p>Essa mordomia s\u00f3 foi interrompida por dois anos com o advento da 2\u00aa Guerra Mundial, em 1938, quando seu pai, propriet\u00e1rio da Mercearia Ga\u00facha, sita na testeira do Ribeir\u00e3o, foi obrigado a passar o ponto a fim de honrar as d\u00edvidas para com seus fornecedores, em decorr\u00eancia de um calote de 30 contos de r\u00e9is da Prefeitura de ent\u00e3o, que deixou de descontar em folha o fornecimento que ele fazia aos garis da capital. Enquanto o pai providenciava vender seus bens, morou em Viana por dois anos, ocasi\u00e3o em que, pela manh\u00e3, estudava numa escola municipal da Rua Grande, e, \u00e0 tarde, um velho mestre-escola leigo lhe orientava o preparo das li\u00e7\u00f5es e exerc\u00edcios ali passados.<\/p>\n<p>Em agosto de 1947, com 15 anos de idade, ainda cursando a 4\u00aa s\u00e9rie do antigo gin\u00e1sio dos Maristas, ao lado da S\u00e9, foi convidado pelo irm\u00e3o Eloy Jos\u00e9, diretor do estabelecimento, a ministrar, \u00e0 noite, aulas de Portugu\u00eas e Hist\u00f3ria do Brasil, na Escola Champagnat, por aqueles mantida, aos alunos pobres a fim de poderem prestar concurso para o exame de admiss\u00e3o ao gin\u00e1sio.<\/p>\n<p>Adolescente, participou de v\u00e1rias agremia\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias em S\u00e3o Lu\u00eds, como o Gr\u00eamio Cultural Coelho Neto, que se reunia aos s\u00e1bados nos Maristas; do Centro Cultural Gra\u00e7a Aranha, que se reunia nas noites de quinta-feira na mans\u00e3o de Eder Santos, na Rua do Sol, esquina com a Pra\u00e7a Deodoro. Nos anos 50, foi presidente do Sindicato dos Professores Secund\u00e1rios de S\u00e3o Lu\u00eds por v\u00e1rios anos. S\u00f3cio correspondente do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o e membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, sediada no Rio de Janeiro, da qual \u00e9 o atual presidente.<\/p>\n<p>Entre 1952 e 1964, com exce\u00e7\u00e3o dos mantidos por ordens religiosas, praticamente lecionou em todos os estabelecimentos secund\u00e1rios de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o; fundou, em 1959, pela Campanha Nacional de Educand\u00e1rios Gratuitos, na Pra\u00e7a do Lira, onde funciona hoje a E.M. Sous\u00e2ndrade, o Gin\u00e1sio Get\u00falio Vargas, que funcionava \u00e0 noite. Da\u00ed foi guindado pelo governador Newton de Barros Bello a diretor do Liceu Maranhense, onde era catedr\u00e1tico de L\u00edngua Portuguesa. Fundou e dirigiu o jornal do<em> Liceu Maranhense, <\/em>que circulava encartado no <em>Di\u00e1rio Popular. <\/em><\/p>\n<p>Em 1958, pela antiga Faculdade de Filosofia do Maranh\u00e3o, licenciou-se em Letras Neolatinas, ainda licenciando, come\u00e7ou a lecionar, na gradua\u00e7\u00e3o dessa Faculdade, Literatura Brasileira e L\u00edngua Portuguesa. Bacharel (1963) pela Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Transferindo-se com a numerosa fam\u00edlia para o Rio de Janeiro em 1964, logo come\u00e7ou a lecionar na antiga Escola T\u00e9cnica Federal, hoje CEFET (1964), na Escola T\u00e9cnica de Com\u00e9rcio Rio Grande do Sul (1964-65), na Escola Naval (1966-69), na Faculdade de Letras da Universidade Gama Filho (1965-66). Coordenou os tr\u00eas primeiros cursos de prepara\u00e7\u00e3o para o Exame de Madureza (antigo artigo 99) mantidos pela Universidade de Cultura Popular, escrevendo, editando e ministrando aulas de portugu\u00eas por quatro anos. Inicialmente, na antiga TV Continental, canal 9 (1966-67) e (1968-69), com o patroc\u00ednio da Shell, na TV Tupi, Canal 6, cujas aulas eram reproduzidas em cerca de 40 cidades brasileiras. Ininterruptamente, lecionou na Escola de Teatro Martins Pena, entre 1966 e 1972, Hist\u00f3ria do Espet\u00e1culo e Imposta\u00e7\u00e3o da Voz.<\/p>\n<p>Doutor em Letras Vern\u00e1culas (1986) pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em 1970, come\u00e7ou a lecionar L\u00edngua Portuguesa na gradua\u00e7\u00e3o e, depois, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde orientou v\u00e1rias disserta\u00e7\u00f5es de mestrado. Era representante eleito do Centro de Letras e Artes (CL\u00c3) no Conselho Permanente de Pessoal Docente (CPPD), quando se aposentou em 1997.<\/p>\n<p>A convite, em 1989, encerrou a 18\u00aa Semana de Estudos de L\u00edngua Japonesa, na Universidade Cat\u00f3lica de Nanzan (Nagoya-Jap\u00e3o), pronunciando a confer\u00eancia <em>Breve not\u00edcia da ortografia portuguesa \u2013 Dos labirintos da scriptologia medieval aos progn\u00f3sticos do pr\u00f3ximo s\u00e9culo<\/em>, logo editada em japon\u00eas pelo peri\u00f3dico <em>Academia<\/em> daquela universidade.<\/p>\n<p>Ainda a convite, em 2001, pronunciou duas confer\u00eancias no Curso de Dicionar\u00edstica promovido pelo Dr. Telmo Verdelho (Universidade de Aveiro), no Convento de Arr\u00e1bida em Portugal, no Ano Internacional do Livro. Uma, sobre as edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas que subsidiaram o <em>Vocabul\u00e1rio do portugu\u00eas medieval,<\/em> do saudoso lexic\u00f3grafo Ant\u00f4nio Geraldo da Cunha; outra, confrontando a estrutura do <em>Dicion\u00e1rio po\u00e9tico, <\/em>de C\u00e2ndido Lusitano, pseud\u00f4nimo de Filinto El\u00edsio, (Lisboa: Sim\u00e3o Tadeu Ferreira, 1794) com o <em>Dicion\u00e1rio anal\u00f3gico da l\u00edngua portuguesa (Ideias Afins), <\/em>do goiano Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (S\u00e3o Paulo, Cia. Editora Nacional, 1950).<\/p>\n<p>Tem sido intensa a produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica de Ant\u00f4nio Martins nestes \u00faltimos anos. Vem ele regularmente publicando estudos de Filologia e de Cr\u00edtica Liter\u00e1ria em peri\u00f3dicos portugueses, alem\u00e3es, japoneses e brasileiros. No Brasil, regularmente colabora na revista <em>Conflu\u00eancia, <\/em>do Liceu Liter\u00e1rio Portugu\u00eas; na <em>da Academia Brasileira de Filologia, <\/em>da qual \u00e9 um dos diretores. Vem, outrossim, participando de <em>Miscel\u00e2neas em homenagem <\/em>aos grandes nomes da Lingu\u00edstica, como nas de Luciana Stegagno Picchio, de Celso Cunha e de Adriano da Gama Kury.<\/p>\n<p>Como presidente executivo, em setembro de 2007 promoveu na rec\u00e9m-inaugurada sede do Centro de Cultura Anglo-Americano (CCAA) do Rio de Janeiro, o Congresso Internacional de L\u00edngua Portuguesa, Filosofia e Literaturas de L\u00edngua Portuguesa, que reuniu mais de 300 universit\u00e1rios na plateia, e, al\u00e9m de v\u00e1rios educadores nacionais, trouxe diversos especialistas de fora, a saber 16, de Portugal; dois do Jap\u00e3o; dois da Su\u00ed\u00e7a; dois da Espanha e um dos EUA, especialistas todos em nosso idioma e\/ou nas literaturas desse idioma.<\/p>\n<p>Com o excelente material, em primeira m\u00e3o recolhido no evento supracitado, elaborou dois importantes projetos para 2008: os de ministrar dois cursos de extens\u00e3o universit\u00e1ria em n\u00edvel de mestrado, com 75 horas-aula e 25 de pesquisa orientada, sobre A L\u00edngua Portuguesa no Mundo Globalizado do Terceiro Mil\u00eanio. Um, em mar\u00e7o, na Casa de Cultura Josu\u00e9 Montello; outro, em abril, em uma universidade da cidade de \u00c1guas Claras, pr\u00f3xima de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Convidado para participar, como membro do Conselho Cient\u00edfico, do Congresso Internacional de Estat\u00edstica promovido pela Universidade de Lisboa, em conv\u00eanio com a de Chemnitz (Alemanha) em maio de 2008 naquela, ali pronunciou uma confer\u00eancia sobre Os <em>Empr\u00e9stimos Eslavos no Portugu\u00eas do Brasil<\/em>; depois do que falou sobre <em>Peculiaridades L\u00e9xico-Sem\u00e2nticas do Portugu\u00eas do Brasil, <\/em>em Universidades de Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa e Porto.<\/p>\n<p>De sua extensa bibliografia citam-se: <em>Arthur Azevedo: a palavra e o riso. <\/em>S\u00e3o Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: Universidade do Rio de Janeiro, 1988; <em>A heran\u00e7a de Jo\u00e3o de Barros e outros estudos. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2003; <em>O menino do Ribeir\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: 2013;<em> O peito do pelicano. <\/em>Curitiba: Appris, 2014.<\/p>\n<p>Especialista dos mais autorizados na obra do grande comedi\u00f3grafo maranhense, Antonio Martins organizou e publicou, com cr\u00edtica textual e introdu\u00e7\u00f5es eruditas, 6 volumosos tomos do teatro completo de Arthur Azevedo, pela INACEN\/FUNARTE no per\u00edodo de 1983 a 1995. E ainda desse mesmo autor, reeditou<em> Carapu\u00e7as\/O domingo\/O dia de finados. <\/em>Rio de Janeiro: Presen\u00e7a, 1989; <em>Contos fora da moda. <\/em>Rio de Janeiro: Alhambra, 1982; <em>Os melhores contos de Artur Azevedo.<\/em> S\u00e3o Paulo: Global, 2001.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Em 24 de abril de 2014 recebeu em solenidade na Academia Maranhense de Letras o T\u00edtulo de Doutor Honoris Causa pela Univesridade Estadual do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>Exmo. Sr. Presidente Jomar Moraes, na pessoa de quem sa\u00fado os membros desta Casa,<br \/>\nAutoridades presentes,<br \/>\nExma. Sra. Dona Helosine Moreira Lima Amaral de Mattos,<br \/>\nEstimados familiares do padre Jo\u00e3o Mohana,<br \/>\nSenhores e Senhoras:<\/p>\n<p>Sejam minhas primeiras palavras para agradecer. Em primeiro lugar, ao Presidente Jomar Moraes, que n\u00e3o s\u00f3 me incentivou a concorrer \u00e0 Cadeira n\u00ba 3 desta Academia e muito laborou para minha elei\u00e7\u00e3o; mas tamb\u00e9m agradecer aos meus ilustres pares, que me aceitaram como um dos seus. Sem todos eles, eu n\u00e3o poderia estar aqui e agora. Em segundo lugar, a todos os meus familiares e amigos aqui presentes. Sem voc\u00eas, eu n\u00e3o usufruiria do privil\u00e9gio deste \u00e1gape, desta confraterniza\u00e7\u00e3o, desta comunh\u00e3o de ideias e alegrias.<\/p>\n<p>A norma regimental das academias recomenda aos rec\u00e9m-eleitos que, no dia de sua investidura oficial na Cadeira que v\u00e3o ocupar, fa\u00e7am o elogio dos seus predecessores. Como esta Cadeira da Casa de Ant\u00f4nio Lobo j\u00e1 foi exornada pelos nomes ilustres do poeta Ant\u00f4nio da Costa Gomes e de seu irm\u00e3o contista Jo\u00e3o da Costa Gomes, do poeta Francisco de Assis Garrido, do humanista Jo\u00e3o Miguel Mohana e do pediatra e poeta Odorico Carmelito Amaral de Mattos, achei por bem cumpri-la, falando de seus dois \u00faltimos ocupantes, n\u00e3o sem uma breve refer\u00eancia \u00e0 maranhensidade e ao catolicismo <em>soft<\/em> de seu patrono Artur Nabantino Gon\u00e7alves Azevedo.<\/p>\n<p>Artur nasceu a 7 de julho de 1855 no sobrado da rua do\u00a0Ribeir\u00e3o que faz esquina com o beco do Monteiro. Distante dois\u00a0anos apenas do sesquicenten\u00e1rio de seu nascimento, imp\u00f5e-se lembrar que ele \u00e9 um dos mais importantes poetas sat\u00edricos e o mais prof\u00edcuo dramaturgo de nosso pa\u00eds. Al\u00e9m dos versos sat\u00edricos do seman\u00e1rio <em>O Domingo<\/em>, fundado e mantido por ele em sua juventude maranhense, aqui publicou, em 1871, aos 17 anos, pela tipografia de <em>O Pa\u00eds<\/em>, o livro <em>Carapu\u00e7as<\/em>. Sua obra de estreia; e, 5 anos depois, j\u00e1 no Rio de Janeiro, pela Acad\u00eamica, <em>O dia de finados<\/em>. Ambas satirizavam os usos e costumes desviantes das duas cidades onde foram editadas. A primeira se fechou com uma violenta s\u00e1tira \u00e0 maledic\u00eancia dos desocupados da S\u00e3o Lu\u00eds de ent\u00e3o; a \u00faltima assestou baterias contra o antigo mau costume de transformar os cemit\u00e9rios cariocas em lugares de piqueniques e carraspanas nos dias dedicados aos mortos.<\/p>\n<p>Depois disso, nunca se interessou ele em reunir em livros seus muitos versos. Deixou-os sempre espalhados pelos mais de 40 peri\u00f3dicos em que colaborou \u00e0 \u00e9poca. Ap\u00f3s seu falecimento, aos 53 anos, em meio a intensa produtividade dram\u00e1tica e jornal\u00edstica, n\u00e3o foi f\u00e1cil a dois amigos e admiradores seus reunirem as \u00fanicas colet\u00e2neas de poesias suas com o fim de angariarem fundos com que socorressem a numerosa e desamparada fam\u00edlia que deixou. As <em>Rimas de Arthur Azevedo<\/em>, organizadas por Xavier Pinheiro, sa\u00edram em 1909 pela editora Am\u00e9rica, do Rio de Janeiro; seus <em>Sonetos e pe\u00e7as l\u00edricas<\/em>, organizados por J\u00falio de Freitas, em 1910, pela Garnier, livraria multinacional de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Em face de haver ele dedicado a maior parte de seu talento \u00e0 s\u00e1tira e ao riso, pode-se muito bem pensar ter sido Artur desprovido de qualquer religiosidade. Certa vez, contando-lhe o que eu vinha escrevendo sobre Artur Azevedo, meu querido amigo e mestre padre Jo\u00e3o Mohana, fiel a seus princ\u00edpios teol\u00f3gicos, confidenciou-me que, apesar de ter aceito a investidura na Cadeira n\u00ba 3, que passo a ocupar, \u201cnada tinha a ver com Artur Azevedo.\u201d Mal sabia ele, que, al\u00e9m de uma vida plena de atos dignificantes, nosso patrono tamb\u00e9m cultivava, a seu modo, seu cristianismo. No seu vel\u00f3rio, muitas vi\u00favas desvalidas, que dele, inc\u00f3gnito, recebiam uma ajuda financeira para se manterem dignamente, foram levar-lhe o agradecimento de suas ora\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de tantos outros gestos, deu-nos ele um testemunho expl\u00edcito disso nestes versos, n\u00e3o sem raz\u00e3o, escolhidos alexandrinos por abordarem tema t\u00e3o transcendental. Foram escritos na sexta-feira santa de 1895 e reproduzidos por Xavier Pinheiro \u00e0 p. 115 de sua colet\u00e2nea de <em>Rimas<\/em>, a que j\u00e1 me referi:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o se apagou ainda a intensa luz divina<br \/>\n<\/em><em>Que h\u00e1 s\u00e9culos brilhou nos bra\u00e7os de uma<br \/>\ncruz. Fortalece-se a f\u00e9, espalha-se a<br \/>\ndoutrina E continua quente o sangue de<br \/>\nJesus!<\/em><\/p>\n<p>Esta uma pequena amostra da l\u00edrica de Artur. Com a bagagem afim de Odorico Amaral de Mattos ocorreu fato semelhante. Dois anos depois da Semana de Arte Moderna, de S\u00e3o Paulo, com 20 anos de idade, estreou ele nas belas-letras em S\u00e3o Lu\u00eds, com <em>A nau que vai \u00e0 vela<\/em>. O t\u00edtulo foi colhido ao poema Crisfal, do quinhentista portugu\u00eas Bernardim Ribeiro. A\u00ed, irrepreens\u00edveis sonetos decass\u00edlabos coexistem harmonicamente com outros metros, ora rimados, ora livres. Suas linhas tem\u00e1ticas dominantes s\u00e3o o amor, o mar e a natureza.<\/p>\n<p>A intensidade com que se dedicou \u00e0s ci\u00eancias da sa\u00fade infantil f\u00ea-lo dar alguma tr\u00e9gua \u00e0s musas por longo tempo. N\u00e3o de todo, porque, vezes havia, entre uma consulta e um estudo de caso, elas lhe batiam \u00e0 porta. Ele as recebia comovido e ia deixando por sobre a mesa do consult\u00f3rio o testemunho dessas visitas furtivas. Esses versos de amor e ternura \u00e0 amada e \u00e0 sua cidade natal, iam sendo recolhidos carinhosamente pela esposa de toda sua exist\u00eancia, a senhora Helosine Moreira Lima Amaral\u00a0de Mattos. Essa segunda colet\u00e2nea, publicada por iniciativa da esposa, j\u00e1 na S\u00e3o Lu\u00eds <em>fin-de-si\u00e8cle<\/em> de 1998, prefaciada pelo escritor Jo\u00e3o Mohana, chama-se <em>Poema da cidade que era assim<\/em>, e seu t\u00edtulo j\u00e1 diz tudo. Era, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais, como ele a viu e viveu. Por isso, embora aborde outros temas l\u00edricos, a obra leva \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias o tema proposto pelo t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Para que todos entendam o porqu\u00ea desse t\u00f3pico, preciso situar-me no final dos anos trinta e in\u00edcio dos quarenta. \u00c9 indispens\u00e1vel faz\u00ea-lo. Naqueles anos, passava eu todas as tardes \u00fateis na escola particular da professora prim\u00e1ria Maria de Lourdes Garrido, que ficava cinco portas \u00e0 direita da casa \u00e0 direita do Ribeir\u00e3o, na rua dos Afogados, onde nasci. Era ela irm\u00e3 do poeta Francisco de Assis Garrido, inquieto e saudoso membro desta Casa. Depois de minha pr\u00f3pria m\u00e3e, que era tamb\u00e9m professora formada, foi Maria Garrido quem me ensinou a ler e me iniciou nos segredos da educa\u00e7\u00e3o. De um dos seus ditados di\u00e1rios, extra\u00eddos aleatoriamente da famosa <em>Antologia nacional<\/em>, de Fausto Barreto e Carlos de Laet, ficou-me na mem\u00f3ria um trecho de O Torr\u00e3o Natal, linda p\u00e1gina de amor do romancista Joaquim Manuel de Macedo \u00e0 sua Itabora\u00ed. Tantas vezes reli e analisei esse trecho, que o guardei de cor. Dizia assim:<\/p>\n<p><em>Um c\u00e9lebre poeta polaco, descrevendo em magn\u00edficos versos uma floresta encantada do seu pa\u00eds, imaginou que as aves e os animais ali nascidos, se por acaso longe se achavam quando sentiam aproximar-se a hora da sua morte, voavam ou corriam, e vinham todos expirar \u00e0 sombra das \u00e1rvores do bosque imenso onde tinham nascido<\/em>.<\/p>\n<p>Nunca localizei a obra nem procurei identificar o tal poeta polon\u00eas que fixou o estranho fato, mas, nesse pequeno passo, desde cedo entendi que, se at\u00e9 as aves e os animais irracionais sentem a dor da viagem, a ang\u00fastia do retorno, ideias latentes no termo nostalgia, o que n\u00e3o dizer dos homens e das mulheres, dotados que s\u00e3o de sensibilidade e gratid\u00e3o, que, como eu, s\u00e3o obrigados, pelos mais variados motivos, a separar-se do seu torr\u00e3o natal?<\/p>\n<p>Em terra distante, obrigado a lutar com armas desiguais para vencer a feroz concorr\u00eancia, quanta vez essa pessoinha \u00e9 assaltada por um banzo irresist\u00edvel. A cada vez que atacam essas s\u00edndromes de alma dilacerada, ent\u00e3o, sempre se morre um pouquinho, sem se saber se est\u00e1 morrendo. Quando \u00e9 de todo imposs\u00edvel o retorno definitivo, e em vida \u00fatil, eis que lhe afloram ent\u00e3o os mais variados mecanismos de compensa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Fica-se horas perdidas ao telefone escutando a m\u00fasica da voz dos parentes e amigos; faz-se preparar os pratos t\u00edpicos da terra para apaziguar as gan\u00e2ncias da gula; recontam-se para os filhos e netos, pela cent\u00e9sima vez, hist\u00f3rias vividas ou escutadas; ou ent\u00e3o, quando se \u00e9 dotado da centelha divina, escreve-se com o pr\u00f3prio sangue uma Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio, para gregos e troianos repetirem e parodiarem pela vida afora.<\/p>\n<p>Meus senhores, minhas senhoras, n\u00e3o se tem saudades de quem ou daquilo a que n\u00e3o se ama, e n\u00e3o se ama a quem ou \u00e0quilo que n\u00e3o possui uma escala de valores positivos, quaisquer que sejam eles. Ora, ao contestar os \u00edmpetos separatistas do jornalista Oscar Rosas, que, em sua se\u00e7\u00e3o Janela do Esp\u00edrito, desejava separar a literatura do Sul, da do Norte, Artur mostra que seu amor ao Maranh\u00e3o, com ser gratuito, n\u00e3o deixou de ser tamb\u00e9m pragm\u00e1tico. Escutemo-lo:<\/p>\n<p><em>Amo apaixonadamente o meu torr\u00e3o natal, mas am\u00e1-lo-ia da mesma forma, se n\u00e3o houvesse nascido ali um \u00fanico literato. Digo at\u00e9, sem receio de ofender a suscetibilidade de quem quer que seja, que, produ\u00e7\u00e3o por produ\u00e7\u00e3o, eu quisera mais algod\u00e3o que poesia<\/em>.<\/p>\n<p>Esta joia est\u00e1 na se\u00e7\u00e3o Flocos, do <em>Correio do Povo<\/em> (RJ, 24\/9\/1890). Noutra se\u00e7\u00e3o, A Palestra, mantida em <em>O Pa\u00eds<\/em> (RJ, 14\/12\/1903), Artur rememora com saudades a figura de Sotero dos Reis, e sublinha a fei\u00e7\u00e3o colonial daquela pra\u00e7a que seria batizada com o nome de Jo\u00e3o Lisboa. Escutemo-lo: \u201cO Convento do Carmo, edificado em 1627, em cujo pavimento t\u00e9rreo funcionava o Liceu (ai! o Liceu! que saudades!) concorria para dar ao local um tom melanc\u00f3lico e patriarcal, muito de col\u00f4nia!\u201d Note-se que a locu\u00e7\u00e3o adjetiva final n\u00e3o \u00e9 pejorativa, e sim, valorativa, com o sentido de colonial.<\/p>\n<p>Nesse artigo, Artur lan\u00e7ou a campanha para a constru\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua de Jo\u00e3o Lisboa, moldada por Rodolfo Bernardelli, na pra\u00e7a que tem hoje o nome do grande prosador brasileiro. Distante ainda nove anos do evento, prop\u00f4s-lhe a data do primeiro centen\u00e1rio de nascimento do escritor. Assim se expressou numa daquelas reca\u00eddas do banzo maranhense a que me referi no in\u00edcio desta fala: \u201cEspero em Deus assistir, no dia 22 de mar\u00e7o de 1912, a inaugura\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua de Jo\u00e3o Lisboa, e mostrar ao Largo do Carmo, estes cabelos brancos que ele n\u00e3o conhece\u201d.<\/p>\n<p>Artur n\u00e3o viveria o bastante para retornar a S\u00e3o Lu\u00eds, uma segunda vez, depois que se mudou para o Rio de Janeiro. A primeira e \u00fanica fora para orientar o invent\u00e1rio paterno. N\u00e3o viveria o bastante para exibir no largo do Carmo a beleza dos seus cabelos encanecidos. Justo a 22 de outubro de 1908, cinco anos ap\u00f3s a formula\u00e7\u00e3o daquele anelo, os des\u00edgnios divinos chamaram-no para o c\u00e9u. Um m\u00eas antes de seu chefe e amigo Joaquim Maria Machado de Assis, a quem substituiu efemeramente na dire\u00e7\u00e3o da Secretaria de Governo onde pontificou por tantos anos. Estes, em breves tra\u00e7os, a via sacra da saudade maranhense palmilhada por\u00a0 Artur Azevedo.<\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o da segunda colet\u00e2nea de versos de Odorico, o escritor Jo\u00e3o Mohana, com a eleg\u00e2ncia e o olhar arguto que o caracterizaram, j\u00e1 mostrou que a saudade \u00e9 uma recorr\u00eancia tem\u00e1tica da obra por ele prefaciada. Ou\u00e7amo-lo:<\/p>\n<p><em>De ponta a ponta do <\/em>Poema da cidade que era assim<em>, a saudade se infiltra, se esconde e de momento a momento, mostra o rosto, pronuncia o pr\u00f3prio nome, ou dilui a realidade na penumbra de reminisc\u00eancias<\/em> (p. 7-8).<\/p>\n<p>Dificilmente outro escritor conseguiria alcan\u00e7ar a eleg\u00e2ncia de tal s\u00edntese conceitual. Os quinhentos e quarenta e quatro versos, redondilhos maiores \u00e0 moda de cordel, desse poema recontam uma viagem peripat\u00e9tica ao passado que ele viveu na Ilha dos Amores. Vejamos como o diz:<em> \u201c<\/em>Quero andar solto nas ruas\/ onde n\u00e3o h\u00e1 multid\u00f5es\/ [&#8230;] assobiando can\u00e7\u00f5es\/ dos tempos idos, de outrora,\/ baixinho como quem ora [&#8230;]\u201d (p. 29)<em>. <\/em>O que o poeta quer \u00e9 apreender o instante m\u00e1gico da inf\u00e2ncia que n\u00e3o voltar\u00e1 mais, quer sentir, como diz explicitamente \u00e0 p. 58, a \u201cS\u00e3o Lu\u00eds no tempo perdida,\/ na noite dos tempos idos<\/p>\n<p>[&#8230;]\u201d.<\/p>\n<p>Assim como Beatriz habitou a <em>Vita nuova<\/em>, de Dante (e sua ascens\u00e3o ao Para\u00edso deu-se com ela ao lado, na <em>Comedia<\/em>), Odorico d\u00e1 as m\u00e3os \u00e0 sua eterna amada Helosine nessa viagem em redor da ilha e do antigamente, dizendo num repente de cantador de viola: \u201cDa mem\u00f3ria n\u00e3o me escapa,\/ nem me foge das retinas,\/ dos velhos becos a imagem\/ nesta sentida viagem,\/ contido ao meu lado a p\u00e9 [&#8230;]\u201d. Que outra, sen\u00e3o ela, sua interlocutora privi legiada durante (e para al\u00e9m de toda a vida), acompanh\u00e1-lo-ia nessa aventura po\u00e9tica?<\/p>\n<p>Distribu\u00eddos em estrofes irregulares, como irregulares s\u00e3o os becos e as ruas que pretende evocar, e constru\u00eddos quase sempre com rimas, os versos est\u00e3o vazados em registro coloquial, como se o poeta quisesse requestar um maior n\u00famero de ouvintes do povo que lhe alcan\u00e7assem a descri\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>do passeio m\u00e1gico em dire\u00e7\u00e3o do passado glorioso da Ilha.<\/p>\n<p>Conquanto declare o poeta, na invoca\u00e7\u00e3o inicial do poema, estar em d\u00favida sobre a fidelidade da descri\u00e7\u00e3o pretendida, quase nada de caracter\u00edstico do tema visado lhe passou despercebido. A funda\u00e7\u00e3o da cidade e o vatic\u00ednio de suas benesses do clima ameno e da natureza sempre vi\u00e7osa; os crep\u00fasculos vespertinos; as fontes p\u00fablicas; os interiores solarengos; as ruas, pra\u00e7as, becos e quintas senhoriais; a arquitetura caracter\u00edstica do casario; as ladeiras e escadarias; os trapiches e suas mercadorias; os ancoradouros fluviais e as praias radiosas; os tipos v\u00e1rios de embarca\u00e7\u00e3o; as f\u00e1bricas de tecidos e seus produtos; a destrui\u00e7\u00e3o de velhas igrejas e a constru\u00e7\u00e3o de novas; a figura de Bequim\u00e3o; as cavila\u00e7\u00f5es dos bar\u00f5es imperiais; os frades orantes; as festas de largo e os namoricos; os folguedos populares; as serenatas e as visitas de almas penadas; e os poetas e os prosadores respectivamente com Gon\u00e7alves Dias e Jo\u00e3o Lisboa \u00e0 frente. Mas, de que vale o progresso de nossos dias, se est\u00e3o \u201csuas pra\u00e7as, suas ruas,\/ hoje transformadas, nuas, do encanto de antigamente?\u201d<\/p>\n<p>Se o s\u00f3lido casamento n\u00e3o lhe concedeu filhos, Deus concedeu-lhe o privil\u00e9gio de devolver sa\u00fade e vida a milhares de maranhensezinhos. Por isso, os versos desse m\u00e9dico-poeta, que dedicou praticamente toda sua exist\u00eancia \u00e0s crian\u00e7as, n\u00e3o poderiam omiti-las. Al\u00e9m da r\u00e1pida refer\u00eancia ao fasc\u00ednio das crian\u00e7as por hist\u00f3rias da carochinha, sita \u00e0 p. 53, a elas se reporta por mais de uma vez ao longo do cordel que empresta o nome \u00e0 obra. Numa, de modo expl\u00edcito e encerrado com uma bela met\u00e1fora sinest\u00e9sica, em que funde tato com audi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Ia, a fugir, a velha tarde longa&#8230;<br \/>\nNo fim da rua, bandos de crian\u00e7as<br \/>\nnum c\u00e9lere vai e vem de quem<br \/>\n<\/em><em>procura alguma coisa numa<br \/>\nbrincadeira sem sentido, sem<br \/>\nrumo, sem prop\u00f3sito. Como se<br \/>\nfossem p\u00e1ssaros \u00e0 solta<\/em>,<br \/>\n<em>quebravam, aos gritos, o sil\u00eancio<br \/>\nmanso&#8230;<\/em> (p. 88-89)<\/p>\n<p>Noutra, de modo impl\u00edcito e carregado de colitera\u00e7\u00f5es e asson\u00e2ncias expressivas: \u201cEscolares em bandos se juntavam\/ nas ruas chilreando como p\u00e1ssaros;\/ rumo aos rijos col\u00e9gios do passado [&#8230;]\u201d (p. 82). Dedicando praticamente toda sua exist\u00eancia \u00e0s crian\u00e7as, os versos desse m\u00e9dico-poeta n\u00e3o poderiam ficar delas despovoados. Nas duas passagens, as crian\u00e7as s\u00e3o exibidas como p\u00e1ssaros a gorjear para o deleite do ouvido de todas as criaturas de Deus.<\/p>\n<p>Bendita a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica que sublima as dores que a vida \u00e0s vezes nos d\u00e1. Bendita a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que \u00e0s vezes confere ao poeta o dom de sonhar, e, com isso, permite-lhe a capacidade daquilo que Raul Castagnino chama de fun\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica da literatura.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s este breve passeio em torno de um t\u00f3pico apenas da l\u00edrica de Amaral de Mattos \u2013 o da saudade \u2013, eis que trago uma contribui\u00e7\u00e3o nova para a teoria da literatura e para a sem\u00e2ntica da palavra saudade em l\u00edngua portuguesa. A saudade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma, depois do <em>Poema da cidade que era assim<\/em>, de nosso Amaral de Mattos. H\u00e1 uma saudade vivida e h\u00e1 uma saudade projetada no futuro. Seu \u00faltimo poema \u00e9 uma carta l\u00edrica intitulada com o pr\u00f3prio vocativo recorrente na obra, \u201cminha querida\u201d, segundo sua eterna amada Helosine, tacitamente dedicada a sua genitora; e come\u00e7a profeticamente assim:<\/p>\n<p><em>Se algum dia eu partisse em longa<br \/>\nviagem para longe de ti; por longo<br \/>\ntempo, o que bem podes crer, jamais<br \/>\nseria poss\u00edvel, mas, se eu partisse e<\/em><\/p>\n<p><em>um certo dia, j\u00e1 cansado de tanto estar<br \/>\ndistante, em sonho eu te escrevesse,<br \/>\nescuta o que, por certo, ent\u00e3o eu te<br \/>\ndiria [&#8230;]<\/em><\/p>\n<p>E sempre nesse tom confessional, como um segrel medievo a cantar ao ouvido da \u201csua senhor\u201d, fala do encontro vespertino, do encontro noturno e do encontro matinal, para encerrar assim o poema e o livro dedicado \u00e0quela pessoa que tanto amou:<\/p>\n<p><em>Asas, can\u00e7\u00f5es, perfume unem-se em largo abra\u00e7o<\/em><br \/>\n<em>e, at\u00f4nito, percebo, pela vez primeira,<\/em><br \/>\n<em>que \u00e9s tal como as manh\u00e3s de sol, minha querida,<\/em><br \/>\n<em>\u2013 um bem do c\u00e9u, um bem da terra, um bem da vida,<\/em><br \/>\n<em>canto de sabi\u00e1s, luz de ouro da alvorada,<\/em><br \/>\n<em>envolvendo a amplid\u00e3o num longo e imenso afago<\/em><br \/>\n<em>que vai da serrania ao mar, do vale ao lago,<\/em><br \/>\n<em>a iluminar meus passos pela velha estrada da vida&#8230;<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 em causa um ju\u00edzo de valor sobre o teor da ep\u00edstola em versos, mas t\u00e3o somente suas ideias. O amor do poeta, que soube plenificar de vida as criancinhas desfalecidas cujas m\u00e3es lhas traziam em busca de cura, acreditava piamente, como acreditou o conceitualista espanhol Francisco de Quevedo no s\u00e9culo17, que existe, sim, um amor verdadeiro, que sobrevive al\u00e9m da pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>E o que fez Helosine?<\/p>\n<p>Ela recolheu \u201cas rosas da vida\u201d do c\u00e9lebre soneto de Ronsard nos versos que lhe dedicou o apaixonado e eterno amante. Ela os colheu, e nos deu de presente com as l\u00facidas\u00a0b\u00ean\u00e7\u00e3os prefaciais e judicativas do padre, artista da palavra e humanista como poucos, Jo\u00e3o Miguel Mohana. Os versos de Amaral de Mattos cantam a vida e o amor, evocam a saudade e a inf\u00e2ncia, mas, principalmente, exaltam a S\u00e3o Lu\u00eds dos tempos que n\u00e3o voltam mais.<\/p>\n<p>Artur Azevedo e Amaral de Mattos s\u00e3o dois poetas maranhenses de cunho eminentemente popular, que produziram em \u00e9pocas e lugares distintos sua curta bagagem po\u00e9tica. Aquele, mais voltado para a s\u00e1tira; este, mais voltado para a l\u00edrica. Aquele, mourejando no jornalismo e no teatro carioca, sempre \u00e0 espera de voltar um dia \u00e0 terra natal, para rever familiares e amigos que aqui ficaram, degustar as comidas t\u00edpicas da inf\u00e2ncia e da juventude; enfim, e em v\u00e3o, para exibir vitorioso seus primeiros cabelos brancos \u00e0s belas da pra\u00e7a Jo\u00e3o Lisboa. Este \u00faltimo vivendo t\u00e3o plenamente quanto poss\u00edvel sua vida de mestre e pediatra. Dedicando praticamente toda sua exist\u00eancia \u00e0s crian\u00e7as, em S\u00e3o Lu\u00eds, mas saudoso dos tempos idos e vividos. Reconciliado, na idade provecta, com as musas da juventude, sofrendo a nostalgia do passado \u201cde c\u00e9us doirados, ao nascer do sol,\/ de \u00e1rvores verdes, gotejando orvalho,\/ de flores nos quintais, galos cantando\/ na mais singela sauda\u00e7\u00e3o do dia\u201d (p. 83). Um e outro, grandes maranhenses que viveram sua f\u00e9 e procuraram fazer o mundo \u00e0 sua volta muito mais po\u00e9tico do que aquele que encontraram um dia.<\/p>\n<p>Esta fala se quedaria inconclusa, se eu n\u00e3o lhes dissesse de um outro ilustre maranhense que dignificou com sua f\u00e9 e seu g\u00eanio a Cadeira para a qual apenas trago meu meio s\u00e9culo vivido na fun\u00e7\u00e3o modesta de mestre-escola.<\/p>\n<p>Falo de algu\u00e9m que n\u00e3o fez versos. Principalmente para mitigar sua catarse e registrar sua paix\u00e3o pela mulher amada, como Odorico. Nem de algu\u00e9m que passou a vida a levar aos lares principalmente o lenitivo do riso, como Artur. Falo de algu\u00e9m que viveu intensamente sua rica exist\u00eancia a tentar construir o homem integral; a tentar solidificar os la\u00e7os matrimoniais de casais desencontrados; a tentar ajudar os pais\u00a0crist\u00e3os a educarem filhos sadios no corpo e na mente; a tentar mostrar aos homens e mulheres de sua gera\u00e7\u00e3o que a felicidade \u00e9 um bem que se constr\u00f3i, dia a dia, com muito amor e desprendimento das coisas v\u00e3s. Falo de Jo\u00e3o Miguel Mohana.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive o privil\u00e9gio de privar, direta e demoradamente, da amizade pr\u00f3xima de Mohana. Tangido pela necessidade de manter a numerosa fam\u00edlia com que Deus desejou premiar meu amor com Jovita, mudamo-nos para a cidade do Rio de Janeiro, em mar\u00e7o de 64. Jo\u00e3o Mohana j\u00e1 havia feito sua op\u00e7\u00e3o pela cura das almas, em prosseguimento \u00e0 sua r\u00e1pida, mas competente, experi\u00eancia de m\u00e9dico pediatra. \u00c0 altura, eu j\u00e1 lhe conhecia os dois romances, por\u00e9m n\u00e3o lera ainda sua meia d\u00fazia de dramas, cheios de teatralidade \u00e0 <em>la grega<\/em>, e, como n\u00e3o poderia deixar de ser, de religiosidade. Aqueles e estes, Mohana os escreveu com os olhos voltados para o deleite est\u00e9tico e o crescimento \u00e9tico dos seus muitos leitores, porque o fez com o cora\u00e7\u00e3o pulsando no ritmo de Deus.<\/p>\n<p>Embora os versos, t\u00e3o cultivados em qualquer \u00e9poca pelos conterr\u00e2neos de todos os estratos sociais, n\u00e3o tenham ocupado o centro de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, quanta poesia emana de obras suas. Falo de obras como <em>O mundo e eu <\/em>e <em>Sofrer e amar<\/em>. \u00c9 que Mohana, como no milagre da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es e dos peixes, n\u00e3o escrevia preocupado com sua pr\u00f3pria promo\u00e7\u00e3o. Fazia-o na certeza de que suas obras concorreriam, como concorreram, para fazer de nosso mundo um admir\u00e1vel mundo novo, e muito melhor do que o velho.<\/p>\n<p>A express\u00e3o aqui usada, alusiva ao conhecido romance de Aldous Huxley, n\u00e3o \u00e9 uma simples figura de ret\u00f3rica. Entre a quase dezena de obras de Mohana em torno da felicidade conjugal e da educa\u00e7\u00e3o da prole, est\u00e1 presente o pedagogo, o pediatra, o psiquiatra, mas principalmente o homem integral crist\u00e3o que ele foi. Mas sua pedagogia n\u00e3o se limita aos casais e aos filhos desses casais. Tamb\u00e9m se volta, em uma quase meia dezena de livros, para o sucesso profissional de sacerdotes e de leigos. Em todos eles, a preocupa\u00e7\u00e3o com a estrutura do homem \u00edntegro e crist\u00e3o, premissa necess\u00e1ria para a constru\u00e7\u00e3o desse mundo menos desigual que nos cerca.<\/p>\n<p>De tal forma esteve Mohana impregnado da gra\u00e7a e da import\u00e2ncia de seu minist\u00e9rio apost\u00f3lico, que suas obras sobre a espiritualidade crist\u00e3 cat\u00f3lica, propriamente dita, ascende a quase duas dezenas de t\u00edtulos. Uma prova irrefut\u00e1vel do prest\u00edgio que essas suas obras paraliter\u00e1rias (e n\u00e3o as liter\u00e1rias propriamente ditas, como os romances e os dramas) v\u00eam experimentando junto ao grande p\u00fablico brasileiro \u2013 \u00e9 o elevado n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es promovidas principalmente pela editora Loyola at\u00e9 nossos dias. Como no c\u00e9lebre passo de Rui Barbosa, n\u00e3o plantou ele apenas p\u00e9s de couve com que saciasse a fome no prato do dia seguinte; mas plantou carvalhos, para darem sombra aos peregrinos dos futuros dias, por muito tempo afora.<\/p>\n<p>Por tudo isso, meus senhores e senhoras, embora n\u00e3o se tivesse ele ocupado em escrever versos, Mohana foi um poeta maior dentre os maiores de seu pa\u00eds e de seu tempo, como Deus \u00e9 o poeta maior do universo de todos os tempos. Uso aqui o termo <em>poeta<\/em> com o sentido de criador, aquele que tira algo do nada, como no antigo grego <em>poiesis<\/em>. Nesse sentido, poeta \u00e9 tanto aquele que molda a argila e esculpe as figuras do mundo, como aquele que usa as cores da natureza para pintar as coisas belas da vida; ou ainda aquele que ordena sintaticamente as notas musicais de uma can\u00e7\u00e3o para o deleite de todos.<\/p>\n<p>Poeta, sim, foi Mohana. Ele alcan\u00e7ou em plenitude sua pr\u00f3pria felicidade, procurando solidificar a paz e a felicidade de seu irm\u00e3o pr\u00f3ximo e de seu irm\u00e3o distante. Ao irm\u00e3o pr\u00f3ximo: os crist\u00e3os para os quais pregou em v\u00e1rios estados brasileiros e alguns pa\u00edses latinos; aos casais a quem aconselhava; aos pecadores, cujas fraquezas escutava em sua miss\u00e3o sacerdotal, e a quem perdoava em nome de Deus; aos exclu\u00eddos de toda sorte que lhe batiam \u00e0 porta e a quem acudia com sua bondade. A mesma sar\u00e7a ardente de sua palavra de fogo, pronunciada na condena\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as de toda ordem, transformava-a em p\u00e9talas de rosa, no sussurro dos aconselhamentos oferecidos e procurados. E tamb\u00e9m ao irm\u00e3o distante. Na impossibilidade de estar presente <em>in persona<\/em> em v\u00e1rios lugares, como santo Ant\u00f4nio, Mohana perenizou (esta \u00e9 a express\u00e3o com seu real sentido etimol\u00f3gico), perenizou sua palavra apost\u00f3lica nas obras que editou, nos discos que gravou e nas entrevistas que concedeu na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Meus Senhores e minhas senhoras, para concluir, confesso-lhes que este \u00e9 um dos dias mais felizes de minha vida. Assento-me enfim na mesma Cadeira em que j\u00e1 se assentaram os acad\u00eamicos Ant\u00f4nio da Costa Gomes, seu irm\u00e3o Jo\u00e3o da Costa Gomes, Francisco de Assis Garrido, Jo\u00e3o Miguel Mohana e Odorico Carmelito Amaral de Mattos. A seu modo, cada um deles, com sua criatividade e talento, concorreu para o engrandecimento do nome desta Casa. Consciente da import\u00e2ncia que todos tiveram na hist\u00f3ria de nossa cultura, estou certo de que n\u00e3o irei substituir a nenhum deles, mas simplesmente suceder ao derradeiro ocupante.<\/p>\n<p>Neste mundo globalizado, em que os avan\u00e7os da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica derrubam fronteiras e aproximam os homens dos mais distantes lugares, n\u00e3o importa que eu tenha resid\u00eancia e domic\u00edlio fora de S\u00e3o Lu\u00eds. Aqui retorno frequentemente com Jovita para estarmos com a nossa primog\u00eanita Norma Sueli, e tr\u00eas netos que aqui residem \u2013 Adriane, Andr\u00e9a e Rafael. Com as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Deus, at\u00e9 dezembro aqui nascer\u00e1 Vitor, nosso primeiro netinho maranhense, filho de Adriana. Nos restantes\u00a0anos de vida que Deus me conceder, procurarei estar \u00e0 altura da mem\u00f3ria de todos eles e concorrer, com a parcela que me cabe, para que o Maranh\u00e3o continue a gozar, no conceito dos demais estados da Federa\u00e7\u00e3o, do elevado conceito de que at\u00e9 hoje goza.<\/p>\n<p>Muito obrigado pela aten\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>Tenho dito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o<\/span>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o<\/span>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Filho de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 de Ara\u00fajo e Edith Raposo Martins Ara\u00fajo, nasceu a l\u00b0 de agosto de 1932, numa segunda-feira aziaga, em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, na Rua dos Afogados, esquina com a do Ribeir\u00e3o, j\u00e1 de janelas abertas para o Teatro Artur Azevedo, a cujos espet\u00e1culos teatrais assistiu (todos!) entre seus cinco e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[18],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=196"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1161,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196\/revisions\/1161"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media\/197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}