{"id":189,"date":"2014-03-31T13:59:38","date_gmt":"2014-03-31T13:59:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=189"},"modified":"2019-08-09T08:19:17","modified_gmt":"2019-08-09T11:19:17","slug":"sebastiao-moreira-duarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/sebastiao-moreira-duarte\/","title":{"rendered":"Sebasti\u00e3o Moreira Duarte"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Nasceu no s\u00edtio Olho d\u2019\u00c1gua do Mel\u00e3o, munic\u00edpio de Baixio-CE, a 2 de mar\u00e7o de 1944. Filho de C\u00edcero Moreira da Silva e de Raimunda Alodias Duarte. Fez o prim\u00e1rio em Cajazeiras-PB e o secund\u00e1rio nos Aspirantados Salesianos de Recife, Carpina e Jaboat\u00e3o. Em S\u00e3o Paulo, frequentou a Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Lorena. Abandonando a vida religiosa, radicou-se no Maranh\u00e3o, a partir de 1965.<\/p>\n<p>Licenciado em Filosofia e Pedagogia, \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, onde ingressou em 1972. Mestre em Administra\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria pela Universidade do Alabama, e doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. No Brasil, exerceu atividades docentes e administrativas em universidades do Maranh\u00e3o e da Para\u00edba. Foi <em>visiting scholar <\/em>das universidades de San Diego, na Calif\u00f3rnia, e de Illinois (Urbana-Champaign), al\u00e9m de professor da Universidade do Tennesse, em Knoxville, nos Estados Unidos. Tem publicado diversos trabalhos em peri\u00f3dicos educacionais e liter\u00e1rios do Brasil e do exterior. Entre 1999 e 2001 foi um dos colaboradores da coluna Sacada, de <em>O Imparcial. <\/em>Coordenador editorial da cole\u00e7\u00e3o Maranh\u00e3o Sempre, pela qual foram publicados 24 t\u00edtulos da bibliografia maranhense, com o selo da Editora Siciliano (SP) e sob o patroc\u00ednio do Governo do Estado do Maranh\u00e3o. Atualmente presta colabora\u00e7\u00e3o editorial ao Instituto Geia, pelo qual tem trabalhado em numerosas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<ul>\n<li><strong>a)<\/strong> Poesia: <em>Novena de Natal.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: UFMA\/Prexae\/Funarte, 1977;<\/li>\n<li><em>Canto essencial.<\/em> Campina Grande: Bruxax\u00e1, 1979;<\/li>\n<li><em>Calend\u00e1rio l\u00fadico.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: Sotaque Norte, 1998.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>b)<\/strong> Ensaio: <em>O p\u00e9riplo e o porto.\u00a0 <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds: Edufma, 1990;<\/li>\n<li><em>Estudos sobre o mosaico.<\/em>\u00a0 S\u00e3o Lu\u00eds: Edufma, 1992;<\/li>\n<li><em>Epica americana<\/em>: O Guesa, <em>de Sous\u00e2ndrade, e o<\/em> Canto general, <em>de Pablo Neruda<\/em>. Urbana, IL (USA): University of Illinois (este livro, ainda in\u00e9dito, resulta de tese de doutoramento);<\/li>\n<li><em>A \u00e9pica e a \u00e9poca de Sous\u00e2ndrade.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2002.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>c)<\/strong> Cr\u00f4nica: <em>Cr\u00f4nicas de Campo Serrano<\/em>. Campina Grande: Pontaria, 1980.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>d)<\/strong> Mem\u00f3ria: <em>Do miolo do sert\u00e3o<\/em>. Jo\u00e3o Pessoa: Grafset, 1988;<\/li>\n<li>(2. ed., Bras\u00edlia, Senado Federal, 1992;<\/li>\n<li>3. ed., S\u00e3o Lu\u00eds: Sotaque Norte, 2012).<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>e)<\/strong> \u00c1lbuns Hist\u00f3ricos (com fotos de Albani Ramos): <em>Brinquedos encantados<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2003. (Ed. tril\u00edngue: port.-esp.-ingl.);<\/li>\n<li><em>S\u00e3o Lu\u00eds:<\/em> <em>Alma e hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2007. (Ed. tril\u00edngue: port.-franc.-ingl.);<\/li>\n<li><em>Maranh\u00e3o: Hist\u00f3ria, cultura, natureza<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2010. (Ed. tril\u00edngue: port.-franc.-ingl.);<\/li>\n<li><em>Alc\u00e2ntara: Alma e hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: 2011. (Ed. bil\u00edngue: port.-ingl.).<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>f)<\/strong> Tradu\u00e7\u00e3o: de John Dewey: <em>Meu credo pedag\u00f3gico.<\/em> Campina Grande: Grafset, 1980;<\/li>\n<li>de Peggy Sharpe: <em>Espelho na rua:<\/em> a cidade na obra de E\u00e7a de Queir\u00f3s. Rio de Janeiro: Presen\u00e7a, 1989;<\/li>\n<li>de Roberto Malighetti: <em>O Quilombo de Frechal<\/em>.\u00a0 Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es do Senado Federal (v. 81), 2007.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>g)<\/strong> Edi\u00e7\u00e3o de Texto, com Introdu\u00e7\u00e3o e Notas: <em>Padre Mestre In\u00e1cio Rolim,<\/em> do Pe. Heliodoro Pires. (Teresina: Gr\u00e1fica e Editora Estado do Piau\u00ed, 1991);<\/li>\n<li><em>Extrato de gram\u00e1tica grega,<\/em> do Padre In\u00e1cio de Sousa Rolim.\u00a0 Teresina: Halley, 1993;<\/li>\n<li><em>No\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria natural,<\/em> do Pe. In\u00e1cio de Sousa Rolim.\u00a0 Teresina: Halley, 1993;<\/li>\n<li><em>Virg\u00edlio brasileiro <\/em>(1\u00ba v. <em>Buc\u00f3licas<\/em> e <em>Ge\u00f3rgicas<\/em>), de Manuel Odorico Mendes, S\u00e3o Lu\u00eds: Edufma, 1995;<\/li>\n<li><em>Antologia po\u00e9tica,<\/em> de Jos\u00e9 Chagas.\u00a0 S\u00e3o Lu\u00eds: Edufma;<\/li>\n<li>Rio de Janeiro: Topbooks, 1998; <em>Tradu\u00e7\u00f5es de Voltaire<\/em> (trag\u00e9dias <em>M\u00e9rope<\/em> e <em>Tancredo<\/em>). S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 1999;<\/li>\n<li><em>Vida e obra do Padre Rolim<\/em> (contendo o <em>Extrato de gram\u00e1tica grega <\/em>e<em> No\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria natural, <\/em>do Pe. In\u00e1cio de Sousa Rolim, e <em>O educador dos sert\u00f5es<\/em>, de Deusdedit Leit\u00e3o, com pref\u00e1cio de SMD. Bras\u00edlia: Senado Federal, 2000;<\/li>\n<li><em>As armas e os bar\u00f5es assassinalados. <\/em>\u00a0S\u00e3o Lu\u00eds: Sotaque Norte, 2000; <em>A Balaiada,<\/em> de Astolfo Serra. 3. ed. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2008;<\/li>\n<li><em>Mem\u00f3rias<\/em> e <em>Mem\u00f3rias inacabadas,<\/em> de Humberto de Campos. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2009;<\/li>\n<li><em>Di\u00e1rio secreto<\/em> (2 v.), de Humberto de Campos. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2010;<\/li>\n<li><em>Comp\u00eandio<\/em> <em>hist\u00f3rico-pol\u00edtico dos princ\u00edpios da lavoura do Maranh\u00e3o<\/em>, de Raimundo Jos\u00e9 de Sousa Gaioso. 3. ed. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 201. <em>Dr. Bruxelas &amp; Cia<\/em>, de Fulg\u00eancio Pinto. S\u00e3o Lu\u00eds: Instituto Geia, 2013.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong>h)<\/strong> Discursos e confer\u00eancias: <em>Na Casa de Ant\u00f4nio Lobo<\/em> (com Jos\u00e9 Chagas). S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 1998. <em>Posse na Academia Maranhense de Letras<\/em> (com Jos\u00e9 Maria Cabral Marques). S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2002;<\/li>\n<li><em>Na Casa dos Cem Anos<\/em> (com Carlos de Lima). S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2008;<\/li>\n<li><em>Padre In\u00e1cio Rolim, ontem e hoje.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: Sotaque Norte, 2010;<\/li>\n<li><em>A Jos\u00e9 Sarney<\/em>, em seus 80 anos. S\u00e3o Lu\u00eds: Edi\u00e7\u00f5es AML, 2012.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<p>T\u00e3o finos, impercept\u00edveis, imponder\u00e1veis s\u00e3o os fios com que se fabrica o tecido da vida, e t\u00e3o ao capricho dos deuses se trama a sua urdidura, que, muitas vezes, no emaranhado deste fingimento divino, o que chamar\u00edamos livre\u00ad-arb\u00edtrio ser\u00e1 apenas a fal\u00e1cia consoladora de nos imaginarmos guiados pelos clar\u00f5es da consci\u00eancia ou tangidos pelos fulgores da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Se assim n\u00e3o fosse, minhas senhoras e meus senhores, como vos explicar, como entender eu mesmo, como ao menos intuir, na contextura mais rec\u00f4ndita de meu ser, as motiva\u00e7\u00f5es que me dirigissem \u00e0 epifania desta noite, \u00e0 converg\u00eancia dos passos que me trouxessem a este encontro, neste lugar e neste instante, em que, por vosso magn\u00e2nimo benepl\u00e1cito, senhores acad\u00eamicos, passo a ocupar, nesta Casa, a Cadeira n\u00famero 1, sucedendo, sem poder substituir, a Antenor Mour\u00e3o Bog\u00e9a?<\/p>\n<p>Casa de Ant\u00f4nio Lobo! \u2013 direi, tomando para mim, e para esta circunst\u00e2ncia, as palavras de Jos\u00e9 Sarney em sua chegada \u00e0 Academia Brasileira de Letras \u2013 nos horizontes da Prov\u00edncia, \u201cnada mais alto, aqui \u00e9 o infinito.\u201d<sup><sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">1<\/a>\u00a0<\/sup><\/sup>Pois que estamos em Atenas, esta \u00e9 a sua Acr\u00f3pole. Aqui se guarda o pal\u00e1dio a selar a perpetuidade dos valores mais nobres da cultura maranhense, a pulsa\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel de toda a sua vida espiritual.<\/p>\n<p>Compreendereis, por isso, meus confrades, que me re\u00fano ao vosso conv\u00edvio com a un\u00e7\u00e3o e a compun\u00e7\u00e3o do sacerdote em sua primeira missa, quando, no meio do altar, concentra-\u00adse a pedir ao Anjo do Senhor lhe queime os l\u00e1bios com uma brasa acesa, como ao profeta Isa\u00edas, para que se fa\u00e7a digno mensageiro\u00a0do verbo. Verbo de Deus ou verbo do homem, tudo \u00e9 verbo divino, e uma s\u00f3 miss\u00e3o e um s\u00f3 sacerd\u00f3cio \u00e9 p\u00f4r\u00ad-se a seu servi\u00e7o. Deus de tal modo sabia da eleva\u00e7\u00e3o com que distinguira o ser humano ao conceder\u00ad-lhe a d\u00e1diva da palavra, que, querendo-\u00ada para si mesmo, fez-\u00adse Verbo e fez\u00ad-se carne e habitou entre n\u00f3s. Imponho\u00adme, pois, antes de tudo, a humildade de rogar\u00ad-lhe a gra\u00e7a da devida purifica\u00e7\u00e3o, para que eu possa situar\u00ad-me \u00e0 altura de oficiar esta liturgia, em que crentes e descrentes, <em>sursum corda,<\/em> proclamamos f\u00e9 un\u00e2nime na ressurrei\u00e7\u00e3o da carne e na vida eterna. Este \u00e9 o momento taumat\u00fargico, em que, pelo milagre da imortalidade acad\u00eamica, ressurgem e se fazem presentes ao nosso chamado quatro portentos do esp\u00edrito, marcados com o mesmo signo, um a um: pois, a despeito da multiplicidade caleidosc\u00f3pica em que desdobraram os seus dias, todos se unificam no papel que exerceram ou nos pap\u00e9is que deixaram como educadores. S\u00e3o de ontem e s\u00e3o de hoje, s\u00e3o mais de hoje que de ontem, na medida em que foram menos ouvidos ou menos entendidos por seus coet\u00e2neos.<\/p>\n<p>Almeida Oliveira<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio de Almeida Oliveira, o patrono da Cadeira, \u00e9 o primeiro deles. Ainda n\u00e3o me acostumei a contempl\u00e1-\u00adlo sem assombro. Custa\u00ad-me contabilizar o cabedal de realiza\u00e7\u00f5es com que, em sua curta exist\u00eancia de 44 anos, credenciou-\u00adse \u00e0 perene gratid\u00e3o e \u00e0 rever\u00eancia de quantos, depois dele, hajam abra\u00e7ado o ideal da educa\u00e7\u00e3o. \u201cSublime engenho\u201d que recebeu \u201co toque da intelig\u00eancia sobrenatural\u201d \u2013 eis como lhe resume o perfil o meu antecessor.\u00a0 \u201cA sua fecunda atividade mental\u00a0\u00a0\u2013 testemunha Barbosa de Godois, que o conheceu em pessoa \u2013 perlustrou diversos ramos de conhecimentos, sendo dif\u00edcil afirmar\u00ad-se em qual deles mais se distinguiu, tal era a superioridade com que tratava dos assuntos a que se consagrava, com uma admir\u00e1vel dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho, por mais exaustivo que fosse\u201d.<\/p>\n<p>Nascido em Cod\u00f3, a 17 de outubro de 1843, Almeida Oliveira foi publicista, jurisconsulto, parlamentar, governador de prov\u00edncia, conselheiro e ministro do Imp\u00e9rio. Sobretudo, foi educador e pedagogista. Bacharel em Direito em 1866, pela Faculdade do Recife, foi, por breve tempo, promotor p\u00fablico em Guimar\u00e3es e, logo depois, advogado em S\u00e3o Lu\u00eds. Aplicando os dotes de sua intelig\u00eancia \u00e0 ci\u00eancia jur\u00eddica, e n\u00e3o apenas ao foro, escreveu quatro tratados de sua especialidade: <em>A assina\u00e7\u00e3o de dez dias no foro comercial e civil, <\/em>publicado na capital de Santa Catarina, em 1879 e em 1883; <em>O benef\u00edcio da restitui\u00e7\u00e3o in integrum<\/em>, sa\u00eddo no Rio de Janeiro, pela Garnier, em 1886; <em>A<\/em> <em>lei das execu\u00e7\u00f5es; coment\u00e1rio <\/em>\u00e0 <em>lei de 5\u201110\u20111885<\/em> <em>e regulamento de 23\u20116\u20111886, <\/em>tamb\u00e9m no Rio, em 1887; e <em>A<\/em> <em>prescri\u00e7\u00e3o no direito civil e comercial, <\/em>em edi\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma aos cuidados de Francisco da Cunha Machado, em 1896.<\/p>\n<p><em>Com essas obras \u2013 o julgamento \u00e9 de Antenor Bog\u00e9a \u2013 escritas em fase tumultu\u00e1ria de nosso Direito Civil, Direito que se nutria das fontes obsolescentes do Livro III das Ordena\u00e7\u00f5es Filipinas e aspirava a rejuvenescer\u2011se nas \u00e1guas lustrais da Consolida\u00e7\u00e3o das leis civis, de Teixeira de Freitas, com essas obras, Almeida Oliveira lan\u00e7ou as coordenadas daqueles institutos de Direito substantivo e adjetivo, ministrando\u00a0ensinamentos e rumos que logo se impuseram ao magist\u00e9rio jur\u00eddico e \u00e0 jurisprud\u00eancia de nossas Cortes de justi\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p>E se a mudan\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es fez perder atualidade \u00e0 bibliografia jur\u00eddica de Almeida Oliveira, suas obras pedag\u00f3gicas e seus empreendimentos educacionais permanecem, em larga subst\u00e2ncia, pelo que foram: um manifesto candente, um programa em aberto, uma carta n\u00e3o respondida, uma conta em cobran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cAp\u00f3stolo da instru\u00e7\u00e3o popular\u201d \u2013 \u00e9 como lhe chama aquele que o tomou como patrono nesta Academia.<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span>De fato, Almeida Oliveira avulta, no s\u00e9culo 19, como voz isolada a clamar contra o descaso das autoridades brasileiras pela educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O seu zelo prof\u00e9tico s\u00f3 me parece encontrar paralelo em Horace Mann, nos Estados Unidos, ou em Domingos Sarmiento, na Argentina. Extraordin\u00e1rio antecipador dos tempos, republicano da primeira hora, ainda que tenha servido em altos postos ao governo mon\u00e1rquico, as suas ideias alimentam-\u00adse na mesma fonte inspiradora daqueles dois pioneiros: escolas podem fazer\u00ad-se sem democracia, democracia n\u00e3o se faz sem escolas. O povo \u00e9 soberano: eduquemos o soberano.<\/p>\n<p>Em coer\u00eancia com tal percep\u00e7\u00e3o, j\u00e1 aos 27 anos, em 1870, Almeida Oliveira reunia\u00ad-se a outros maranhenses ilustres, para fundar, em pr\u00e9dio que hoje abriga a Assembleia Legislativa do Estado, a Sociedade 11 de Agosto, destinada a oferecer cursos noturnos gratuitos para as classes oper\u00e1rias de S\u00e3o Lu\u00eds. Contando, de in\u00edcio, com 80 s\u00f3cios benfeitores e 258 efetivos, a entidade matriculava, de in\u00edcio, 150 alunos, n\u00famero que em 1873 passava a 390, e no ano seguinte, a 449.<\/p>\n<p>\u201cA partir dessa \u00e9poca \u2013 comenta Jer\u00f4nimo de Viveiros \u2013 rara \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica ou obra de benemer\u00eancia, levada a efeito no Maranh\u00e3o, que n\u00e3o tivesse \u00e0 frente a prestigiosa associa\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0O Curso Normal, por exemplo, criado por uma lei de 1847: de governo a governo, um depois do outro discursando sobre sua import\u00e2ncia, protelavam\u00ad-se os atos que o trouxessem \u00e0 realidade material. A Sociedade 11 de Agosto toma a seu encargo organiz\u00e1-\u00adlo, ainda que n\u00e3o tenha conseguido lev\u00e1-\u00adlo adiante, at\u00e9 \u00e0 diploma\u00e7\u00e3o dos seus alunos.<\/p>\n<p>Era aquele n\u00e3o mais que um curso de prepara\u00e7\u00e3o de professoras para o ensino prim\u00e1rio, mas, para que se tenha uma ideia da altura em que desenvolvia o seu programa escolar, seja\u00ad-me permitido apresentar\u00ad-lhe o corpo docente, para que se fa\u00e7a o confronto com o rol de professores que encontramos em muitas de nossas escolas nos dias correntes: Joaquim Teixeira de Sousa, em Gram\u00e1tica e L\u00edngua Portuguesa; padre Raimundo Alves da Fonseca, em Moral, Doutrina Crist\u00e3, Pedagogia, Geografia F\u00edsica e Cosmografia; Dr. Francisco Correia Leal, em F\u00edsica, Qu\u00edmica e Hist\u00f3ria Natural; Dr. Ant\u00f4nio Jansen Matos Pereira, em Hist\u00f3ria Santa e Profana, Rudimentos de Direito Natural P\u00fablico e Economia Pol\u00edtica; Dr. Agostinho Autran, em Desenho Linear.<\/p>\n<p>Sob o patroc\u00ednio da mesma sociedade, Almeida Oliveira estabeleceu, ainda em 1872, junto com Ant\u00f4nio Enes de Sousa, uma Biblioteca Popular, cujo acervo chegou a reunir cerca de oito mil volumes. Barbosa de Godois informa: a Biblioteca<\/p>\n<p><em>durou muitos anos, mantida exclusivamente pelo Dr. Almeida Oliveira, que, ainda mesmo depois que fixou resid\u00eancia no Rio de Janeiro, continuara a sustent\u00e1\u2011la. Tendo de passar a novas\u00a0diretorias e sem a interven\u00e7\u00e3o direta do seu \u00ednclito fundador, foi essa institui\u00e7\u00e3o decaindo aos poucos, ap\u00f3s um dec\u00eanio de exist\u00eancia pr\u00f3spera, at\u00e9 que teve de extinguir\u2011se, passando os seus livros para uma antiga e j\u00e1 fechada biblioteca p\u00fablica do Estado, donde foram extraviadas n\u00e3o poucas obras, sendo as restantes destru\u00eddas pelas tra\u00e7as.<\/em><\/p>\n<p>E se, apesar de t\u00e3o prof\u00edcuas iniciativas, a Sociedade 11 de Agosto veio a desaparecer em 1882, experi\u00eancias outras de nossa hist\u00f3ria educacional mais recente servir\u00e3o para demonstrar, sem nenhum paradoxo, que talvez estivesse a\u00ed mesmo, na extin\u00e7\u00e3o daquela entidade, a prova indesment\u00edvel do m\u00e9rito de seus empreendimentos.<\/p>\n<p>\u00c0 a\u00e7\u00e3o, Almeida Oliveira logo associou a prega\u00e7\u00e3o, no af\u00e3 de acertar o passo de sua prov\u00edncia patriarcal e latifundi\u00e1ria com o progresso que, noutras fronteiras, se fazia mediante o labor de cidad\u00e3os instru\u00eddos. \u00c9 assim que seu impulso criativo se dedica ao que chamar\u00e1 de \u201cconversas p\u00fablicas\u201d, confer\u00eancias populares sobre temas de educa\u00e7\u00e3o. Em um ano s\u00f3 (1871), pronuncia e publica tr\u00eas delas: A <em>necessidade da instru\u00e7\u00e3o, A instru\u00e7\u00e3o e a ignor\u00e2ncia, A<\/em> <em>sociabilidade e o princ\u00edpio de associa\u00e7\u00e3o. <\/em>Por ocasi\u00e3o da instala\u00e7\u00e3o da Biblioteca P\u00fablica, em 1872, escreve um <em>Discurso sobre a educa\u00e7\u00e3o do sexo feminino. <\/em>Tamb\u00e9m se incluir\u00e1 em sua bibliografia pedag\u00f3gica o texto de <em>O<\/em> <em>arado <\/em>\u2013<em> carta aos lavradores maranhenses, <\/em>de 1878, porque bem entendia Almeida Oliveira que o trabalho, fonte primordial de riqueza, \u00e9 tamb\u00e9m fonte de toda cultura e, portanto, de toda educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis, para ele, \u201co maior princ\u00edpio moral que se conhece: [&#8230;] sem instru\u00e7\u00e3o e sem trabalho nada de bom pode a criatura humana fazer\u201d.<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span>E de tamanha convic\u00e7\u00e3o se acendia o seu esp\u00edrito quanto a esse ponto que, j\u00e1 nas primeiras p\u00e1ginas de sua obra fundamental, discute a quest\u00e3o da propriedade da terra, da extin\u00e7\u00e3o do cativeiro e do trabalho livre.<\/p>\n<p>A obra fundamental a que me refiro \u00e9 <em>O<\/em> <em>ensino p\u00fablico, <\/em>destinada, conforme diz seu subt\u00edtulo, <em>a mostrar o estado em que se acha e as reformas que exige a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Brasil. <\/em>Em seu ju\u00edzo sobre esse livro, afirma Barbosa de Godois que Almeida Oliveira ter\u00e1 sido, \u201cn\u00e3o haver\u00e1 exagero em dizer-\u00adse, o primeiro que, neste pa\u00eds, se ocupou do ensino p\u00fablico, com um largo descortino e profundeza de estudos pedag\u00f3gicos\u201d.<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span>De minha parte, confesso que, tanto quanto me \u00e9 dado conhecer, n\u00e3o existe no Brasil do s\u00e9culo passado nenhum escrito educacional que se lhe compare em sentido pragm\u00e1tico e abrang\u00eancia program\u00e1tica. E acrescentarei com o autor citado:<\/p>\n<p><em>Proceder a pesquisas acuradas de dados estat\u00edsticos da vida escolar no pa\u00eds, estudar o movimento pedag\u00f3gico que se operava fora daqui, investigar m\u00e9todos, aprofundar as diferentes quest\u00f5es que se agitavam no estrangeiro, em torno das escolas, e apreciar, com vivo interesse, tudo que se referia ao objetivo que o preocupava, era uma coisa que pasma haver sido levada a efeito entre n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p>Nada escapa \u00e0 percuciente investiga\u00e7\u00e3o de Almeida Oliveira. Alicer\u00e7ando na educa\u00e7\u00e3o o seu programa de reforma pol\u00edtica do pa\u00eds, ele prop\u00f5e ideias que v\u00e3o desde a obrigatoriedade, a gratuidade e a liberdade de ensino, at\u00e9 a\u00a0educa\u00e7\u00e3o mista, escolas profissionais, escolas especiais de agricultura, ind\u00fastria e com\u00e9rcio, escolas noturnas e de menores desvalidos, escolas normais, confer\u00eancias pedag\u00f3gicas, forma\u00e7\u00e3o de bibliotecas, al\u00e9m da estrutura e organiza\u00e7\u00e3o do ensino, do magist\u00e9rio, da disciplina escolar.<\/p>\n<p><em>S\u00f3 o muito amor a este fundamental problema \u2013 comento ainda uma vez com o Fundador da Cadeira numero 1 \u2013 poderia lev\u00e1\u2011lo [a Almeida Oliveira] a tanta atividade despendida nesse terreno, num meio como era o nosso, e o de todo o Pa\u00eds, nesse tempo, em que de tudo se trataria com empenho e dedica\u00e7\u00e3o, menos de instruir os filhos dos pobres, que eram exatamente os que mais necessitavam desse apoio.<\/em><\/p>\n<p>Sendo-\u00adme imposs\u00edvel apresentar o quadro todo da pequena enciclop\u00e9dia que \u00e9 <em>O<\/em> <em>ensino p\u00fablico, <\/em>n\u00e3o me contenho e tomo\u00ad-lhe de empr\u00e9stimo o seguinte trecho, que, perante este audit\u00f3rio, servir\u00e1, tamb\u00e9m, para deixar uma ideia do escass\u00edssimo p\u00fablico com que podia contar um escritor brasileiro daqueles tempos. O autor analisa o recenseamento da capital maranhense, \u201cque passa por uma das mais cultas do Imp\u00e9rio.\u201d \u201cS\u00e3o Lu\u00eds \u2013 s\u00e3o suas palavras \u2013 divide\u00ad-se em tr\u00eas freguesias de popula\u00e7\u00f5es pouco mais ou menos iguais.<\/p>\n<p><em>Dentre elas a mais importante \u00e9 sem d\u00favida a de Nossa Senhora da Vit\u00f3ria: a\u00ed est\u00e1 o com\u00e9rcio e mor parte do funcionalismo p\u00fablico. Pois bem: nessa freguesia, que tem mais instru\u00e7\u00e3o que as outras, e que deu 9.012 habitantes, foram contados 5.176 analfabetos.<\/em><\/p>\n<p><em>Como, por\u00e9m, neste n\u00famero se compreendem os escravos, que andam por 2.623, subtra\u00eddos eles, ficam, para 6.389 habitantes livres, 2.553 ignorantes n\u00e3o escravos.<\/em><\/p>\n<p><em>Ora, 2.553 s\u00e3o 39% de 6.389. Portanto, se numa cidade como a que tomei para base do c\u00e1lculo, os ignorantes d\u00e3o 39% da popula\u00e7\u00e3o livre, n\u00e3o exagero dizendo que noutras partes eles dar\u00e3o 40, 60, 70, 80 e 90%. Donde resulta que sendo 64 o m\u00e9dio entre 39 e 90 e adicionando\u2011se a esse algarismo os 16% de escravos, seguramente <\/em><\/p>\n<p><em>80% da popula\u00e7\u00e3o geral s\u00e3o ignorantes.<\/em><\/p>\n<p>E se, afinal, \u00e9 meu dever deixar estreme de d\u00favida todo o meu entusiasmo por esse livro, anuncio como um dos meus primeiros prop\u00f3sitos, nesta Academia que efusivamente me recebe, o de devolv\u00ea-\u00adlo ao leitor de hoje, em moderna edi\u00e7\u00e3o, como fonte imprescind\u00edvel \u00e0 pesquisa da Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Almeida Oliveira faleceu a 27 de outubro de 1887. Falei, ao iniciar, do assombro que me assalta o esp\u00edrito diante de seu perfil de alucinado pela causa, entre n\u00f3s ainda perdida, da educa\u00e7\u00e3o. Maior assombro me causa sab\u00ea-\u00adlo praticamente desconhecido em nossos dias. Em Cod\u00f3, sua cidade natal, nem uma rua conserva-\u00adlhe a mem\u00f3ria, e n\u00e3o ser\u00e1 o caso de fecharmos o olho a tal inc\u00faria, concedendo que os mun\u00edcipes seus concidad\u00e3os sejam mais propensos a cultuar pais de santo que pais da p\u00e1tria. Tamb\u00e9m a capital do Estado n\u00e3o lhe fez melhor imagem: passaram\u00ad-se o sesquicenten\u00e1rio de seu nascimento e o centen\u00e1rio de sua morte. Em nenhuma das duas ocasi\u00f5es, o Maranh\u00e3o lembrou\u00ad-lhe o nome sequer. Com todo rigor, cumpriu-\u00adse a seu respeito o que previu o Fundador da Cadeira:<\/p>\n<p><em>O Dr. Almeida Oliveira [&#8230;] n\u00e3o se podia iludir a respeito dos frutos que o seu livro poderia produzir. A indiferen\u00e7a, mascarada com uns lugares\u2011comuns bastante corriqueiros,\u00a0sobre a import\u00e2ncia da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica, teria de ser o \u00fanico resultado que colheria do seu fatigante trabalho. [&#8230; ]. [Algumas das] suas obras e ideias [&#8230;] seriam consideradas frutos da loucura. [&#8230;] E assim o trabalho abnegado e longo dum homem de talento e bem inspirado passou, ap\u00f3s o seu desaparecimento, por um eclipse, de que a muito custo se libertar\u00e1.<\/em><\/p>\n<p>Barbosa de Godois<\/p>\n<p>Falei de Almeida Oliveira e j\u00e1 estava a falar de Ant\u00f4nio Batista Barbosa de Godois. Este \u00e9 aquele \u00e0 dist\u00e2ncia de um lapso geracional, curto embora, mas que, infelizmente, n\u00e3o permitiu recebesse um da m\u00e3o do outro a bandeira do apostolado pedag\u00f3gico. Perdeu\u00ad-se, com isso, a oportunidade de formar-\u00adse um dos elos vigorosos que, refor\u00e7ado pela propaganda republicana, poderia formar, entre n\u00f3s, a corrente de atualiza\u00e7\u00e3o social que levasse a uma escola aberta para todos, arejada por teorias inovadoras, m\u00e9todos modernos, administradores esclarecidos, mestres numerosos.<\/p>\n<p>Barbosa de Godois, nascido em S\u00e3o Lu\u00eds a 10 de novembro de 1860, era menino quando aqui chegava Almeida Oliveira rec\u00e9m-\u00adformado no Recife. Tendo-\u00ado conhecido em sua juventude, \u00e9 a si mesmo que se descreve, quando relembra aquele cujo exemplo iluminou\u00ad-lhe o caminho:<\/p>\n<p><em>Recordamo\u2011nos com respeito e saudade da venera\u00e7\u00e3o que lhe consagr\u00e1vamos, \u2013 diz ele de Almeida Oliveira \u2013 n\u00f3s, os mo\u00e7os desse tempo, pelas suas luzes, probidade admir\u00e1vel e grande mod\u00e9stia, e a que ele correspondia com a afabilidade que lhe era peculiar, de quem se sente bem animando a mocidade no trilho das letras, sem que, entretanto, das suas palavras e feitos, transpirasse qualquer pensamento oculto de vaidade pessoal.<\/em><\/p>\n<p><em>Muitos anos depois, encontramo\u2011nos novamente. J\u00e1 ele era, ent\u00e3o, parlamentar e conselheiro da Coroa. Mas, apesar disso, era o mesmo homem de outrora, despretensioso e am\u00e1vel, delicado e servi\u00e7al \u00e0 nossa terra<\/em>.<\/p>\n<p>Veja\u00ad-se, em compara\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio Barbosa de Godois retratado nas mem\u00f3rias de Dunshee de Abranches:<\/p>\n<p><em>Esp\u00edrito moderado e cult\u00edssimo, af\u00e1vel e polido, falando sempre \u00e0 meia\u2011voz, a sua calma contrastava com a grita constante que, horas seguidas, se fazia em torno de sua mesa de redator\u2011chefe\u201d <\/em>[da Pacotilha].<\/p>\n<p>E para que fique bem \u00e0 mostra a verdadeira marca de sua personalidade, registre-\u00adse o epis\u00f3dio, ocorrido em fevereiro de 1897, quando Benedito Leite manifestara\u00ad-se, da tribuna da Assembleia Legislativa, profundamente ferido com as cr\u00edticas \u00e0 sua probidade, que, do referido jornal, lhe dirigia Barbosa de Godois. Estava rompida, conforme seria de se esperar, uma amizade que vinha desde os bancos acad\u00eamicos. E no entanto, fazendo distin\u00e7\u00e3o entre o erro e a pessoa errada, segundo recomendava Santo Agostinho, nada impediu viesse o mesmo Barbosa de Godois a ser o bra\u00e7o direito de Benedito Leite, numa das passagens mais gloriosas da Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi, ali\u00e1s, aquele governante quem emprestou m\u00e3os \u00e0s m\u00e3os do destino, para que se estampasse a imagem definitiva de Barbosa de Godois na mem\u00f3ria do futuro. Formado em Direito pela Escola do Recife, em 1884, este foi promotor p\u00fablico, jornalista, deputado, funcion\u00e1rio p\u00fablico, homem de governo. Mas o que mais lhe deu imortalidade ao nome foi, bem o sabemos, a renova\u00e7\u00e3o educacional que lhe confiou Benedito Leite, na passagem do s\u00e9culo, movimento de que resultou a reforma da Escola Normal e o funcionamento da Escola Modelo do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Com essa empreitada, o jornalista dava lugar ao pedagogo, guardando ele, no entanto, a mesma consci\u00eancia de que sua luta, nesta outra arena, seria a extens\u00e3o da campanha regeneradora que desenvolvera na imprensa, aliada ao empenho dos Novos Atenienses por despertar o Maranh\u00e3o daquela \u201ctrist\u00edssima e ca\u00adliginosa noite \u2013 como a viu e viveu Ant\u00f4nio Lobo \u2013 em que,\u00a0por t\u00e3o longo tempo, viveram imersas as suas letras.\u201d<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span>Conhecedor do ide\u00e1rio de Almeida Oliveira, Barbosa de Godois tamb\u00e9m consideraria enorme contrassenso promover a literatura numa sociedade de analfabetos. Da\u00ed que a sua bibliografia seja um duplo servi\u00e7o, \u00e0s letras e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o: <em>Instru\u00e7\u00e3o c\u00edvica; <\/em>resumo did\u00e1tico; <em>Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o, <\/em>em dois volumes; <em>Escrita rudimentar; O mestre e a escola; Higiene pedag\u00f3gica; Os ramos da educa\u00e7\u00e3o na escola prim\u00e1ria; S\u00edntese de hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o; Um programa de hist\u00f3ria; Cantos escolares <\/em>s\u00e3o obras suas, publicadas todas em S\u00e3o Lu\u00eds, durante cerca de duas d\u00e9cadas de atividade infatig\u00e1vel por parte de seu autor. Noves fora aquilo que a ordem do dia lhes subtraiu de imediata utilidade curricular, a\u00ed est\u00e3o textos did\u00e1ticos dos melhores que j\u00e1 se escreveram entre n\u00f3s e que deveriam ser consultados com todo proveito ainda em nossos tempos, em que vemos circular, sob o r\u00f3tulo de livros escolares, colet\u00e2neas inomin\u00e1veis de parvo\u00edces, e em que se aceitam e, mesmo, se publicam, at\u00e9 sob a capa de teses doutorais, par\u00e1grafos pecaminosos de ataque \u00e0 Gram\u00e1tica e ao bom senso.<\/p>\n<p>No acanhado meio que era o Maranh\u00e3o do come\u00e7o do s\u00e9culo 20, surpreende\u00adme esteja Barbosa de Godois em perfeita sintonia com os avan\u00e7os dos grandes centros civilizados no terreno da educa\u00e7\u00e3o. Cito exemplos: \u201cNa Europa, v\u00eam a ser talvez a R\u00fassia e a Dinamarca as na\u00e7\u00f5es em que as Escolas Normais t\u00eam o programa menos vasto, sendo que o da R\u00fassia rivaliza com o da E. N. do Maranh\u00e3o, tendo de menos o ensino de F\u00edsica e Qu\u00edmica e a pr\u00e1tica de ensino.\u201d [&#8230;] \u201cVisitei a Escola Modelo \u2013 escreve um ilustre visitante ao Maranh\u00e3o, Sr. J. Higgins. \u2013 Fiquei simplesmente maravilhado. Esta escola\u00a0n\u00e3o se envergonharia de se achar em qualquer centro civilizado do mundo! Lembrei\u00adme das escolas americanas, da <em>high shcool <\/em>dos Estados Unidos.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de nos indagarmos por que ontem, com tanta escassez de recursos, tanto se sabia, e hoje, com tanta abund\u00e2ncia de tudo, t\u00e3o pouco se estuda. N\u00e3o ser\u00e1 que a dissipa\u00e7\u00e3o dos meios fez perder de vista os fins da tarefa educativa?<\/p>\n<p>N\u00e3o precisarei dizer que Barbosa de Godois se consagra como um dos fundadores desta Casa. Aposentado de sua jornada gloriosa como educador entre os maiores do Maranh\u00e3o, transferiu\u00ad-se para o Rio de Janeiro, onde p\u00f4de ainda voltar ao jornalismo. Passou ao outro lado da vida a 4 de setembro de 1923. Seu nome \u00e9 um dos que mais fortemente ficaram soldados \u00e0 Hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o. Ele \u00e9 um dos raros casos de dupla imortalidade, como acad\u00eamico e como autor da letra do Hino do seu Estado natal.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Carvalho<\/p>\n<p>A Barbosa de Godois sucedeu Lu\u00eds Carvalho. N\u00e3o era maranhense: foi do Maranh\u00e3o. Nasceu em Oeiras, no Piau\u00ed, em 1880, e veio para S\u00e3o Lu\u00eds aos quatorze anos. Foi vice\u00ad-presidente da Oficina dos Novos e viu nascer a Academia Maranhense de Letras. Bacharel em Direito pelo Recife, foi advogado, pol\u00edtico, poeta, professor. Faleceu em S\u00e3o Lu\u00eds, em 1963.<\/p>\n<p>Afora o minudente roteiro biogr\u00e1fico que lhe tra\u00e7ou Antenor Bog\u00e9a, desde a vida do estudante entre Oeiras, Teresina, S\u00e3o Lu\u00eds e Recife, at\u00e9 \u00e0 faina advocat\u00edcia, o magist\u00e9rio, a dire\u00e7\u00e3o da Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds, a milit\u00e2ncia pol\u00edtica e a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, o que hoje temos de, e sobre, Lu\u00eds Carvalho \u00e9 nada ou quase nada. De Ant\u00f4nio Lobo, em <em>Os novos atenienses, <\/em>\u00e0 <em>Antologia da Academia Maranhense de Letras, <\/em>reitera-\u00adse que eram de sua lavra os livros in\u00e9ditos <em>\u00c2mbula, <\/em>de poesias, e <em>Primeiras \u00e1guas, <\/em>de\u00a0cr\u00f4nicas, contos e discursos.<em>\u00a0<\/em>Marcados por essa n\u00f3doa inapag\u00e1vel da cultura brasileira, que \u00e9 o extravio de documentos, esses escritos se perderam sem se publicarem, e nem a fam\u00edlia do autor guarda qualquer rastro de onde possam ser achados. Dele encontramos invariavelmente transcritos tr\u00eas sonetos encimados pelo t\u00edtulo No Riach\u00e3o. Por gentileza de seu filho, dr. Carlos Carvalho, obtive o recorte de um jornal, datado de 23 de mar\u00e7o de 1974, cujo t\u00edtulo n\u00e3o pudemos precisar, e onde, al\u00e9m deste antes citado, encontrei os sonetos Natal, Esquiva, Asas, e M\u00edstica, assinados por seu pai. Antenor Bog\u00e9a refere outros: Numa Noite de Inverno, Em um Cart\u00e3o Postal, Baladilha, Meus Filhos, No Bosque.<\/p>\n<p>Copio um desses sonetos, se posso contribuir para que se conserve o que ainda resta do que deixou o seu autor:<\/p>\n<p><em>ASAS<\/em><br \/>\n<em>Asas! Pudesse eu, homem, t\u00ea-las. T\u00ea\u2011las<\/em><br \/>\n<em>De ano luzindo, al\u00edgeras, de penas.<\/em><br \/>\n<em>Asas que, aflando, me levassem pelas<\/em><br \/>\n<em>Alturas, asas p\u00e1lpitas, serenas.<\/em><br \/>\n<em>T\u00ea-las assim para voar centenas<\/em><br \/>\n<em>De vezes! Ir \u00e0s nuvens brancas, v\u00ea-las,<\/em><br \/>\n<em>Ver o c\u00e9u, ver o sol, ver as pequenas,<\/em><br \/>\n<em>As pequeninas, t\u00edmidas estrelas.<\/em><\/p>\n<p><em>E subir e voar, que o espa\u00e7o \u00e9 vasto:<\/em><br \/>\n<em>Fazer de cada ponto luminoso<\/em><br \/>\n<em>Um pouso alegre, luminoso e casto!<\/em><br \/>\n<em>Viver longe dos m\u00edseros humanos,<\/em><br \/>\n<em>Viver sorrindo, como um Deus glorioso,<\/em><br \/>\n<em>Sem amor, sem pesar, sem desenganos&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Li esta e outras pe\u00e7as de Lu\u00eds Carvalho. Ouvi o seu filho. Conversei com pessoas que o conheceram de perto. Fixei o olhar sobre o bico de pena que dele nos deixou Anita Rabelo. Recolhendo impress\u00f5es que se gravaram em meu ouvido interior, creio n\u00e3o desfigurar-\u00adlhe a pessoa, desenhando-\u00ada sumariamente nas seguintes linhas: era um homem incomum, que fez op\u00e7\u00e3o preferencial pela austeridade e eleg\u00e2ncia<em> fin\u2011de\u2011si\u00e8cle\/belle \u00e9poque. <\/em>Do cultivado cavanhaque, \u00e0 Washington Lu\u00eds, ao cultivo do soneto formalmente escorreito, tudo em si e ao seu redor transmitia a certeza do fino trato, a\u00ed inclu\u00eddo o da l\u00edngua, a qual, entre outros feitos, serviu com os bons pr\u00e9stimos de sua colabora\u00e7\u00e3o ao <em>Dicion\u00e1rio <\/em>de C\u00e2ndido Figueiredo. Rigoroso por ser ass\u00e9ptico, era um asceta em tempo integral, pois eleg\u00e2ncia, para ele, era a vestimenta da probidade, express\u00e3o externa da sa\u00fade moral que se traduz em ser feliz.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7amos que um homem dessa envergadura faz falta aos nossos dias, dominados por uma avalanche, parece que intermin\u00e1vel e irremov\u00edvel, de vulgaridade privada e p\u00fablica e not\u00f3ria, prazerosa, a grosso, para o baixo ventre, lucrativa para as vendas a varejo, e, no geral, embrutecedora das consci\u00eancias.<\/p>\n<p>Antenor Bog\u00e9a<\/p>\n<p>E eis redivivo e verdadeiro aos nossos olhos Antenor Bog\u00e9a, o amigo inesquec\u00edvel, o pol\u00edtico plut\u00e1rquico, o educador da pol\u00edtica, o cientista do Direito, o mestre de b\u00edblica\u00a0sabedoria. At\u00e9 ontem o prante\u00e1vamos. Hoje, com ele nos rejubilamos, a contempl\u00e1-\u00adlo <em>sub<\/em> <em>specie aeternitatis, <\/em>pisando outra vez o tapete vermelho deste sal\u00e3o, assomando a esta tribuna, testa larga, cabelos grisalhos, \u00f3culos carregados, pronunciando o seu discurso, indicando as palavras com a ponta dos dedos, preocupado em que as v\u00edrgulas estejam todas em seus lugares, preciso e esmerado em tudo. Ele vem para nos falar, e o que mais traz consigo \u00e9 a sua enorme capacidade de ouvir.<\/p>\n<p>Quando, pela primeira vez, conheci Antenor Bog\u00e9a, eu n\u00e3o conheci Antenor Bog\u00e9a. Conheci seu filho Ricardo. Foi em meados de 1965: rec\u00e9m-\u00adsa\u00eddo do Semin\u00e1rio, eu me encontrava em Coroat\u00e1, vendendo pano a metro na loja de meu irm\u00e3o e dando aulas \u00e0 noite no Col\u00e9gio Viriato Corr\u00eaa. Era um ano de agitadas elei\u00e7\u00f5es, as primeiras depois do 1\u00b0 de Abril de 1964, quando ainda se acreditava poss\u00edvel dar uma resposta, pelas urnas, aos golpistas do novo regime. Ricardo fora procurar-\u00adme com um convite: que eu me filiasse ao Partido Democrata Crist\u00e3o. Fiz\u00ad-lhe ver que, sim, eu carregava comigo, vindo de S\u00e3o Paulo, alguma simpatia por uma agremia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, ademais do ep\u00edteto de crist\u00e3, alistava em suas fileiras, a despeito de J\u00e2nio Quadros, nomes como Carvalho Pinto, Franco Montoro, Queiroz Filho, e \u2013 por incr\u00edvel que hoje isto pare\u00e7a \u2013 Roberto Cardoso Alves, o Robert\u00e3o depois famigerado por aquela outra leitura da Ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco. Mas que entendesse o meu distinto interlocutor: eu me sentia ainda por demais calouro no curso de maranhensidade que estava iniciando, a duras penas e de forma a mais intensiva. Bem pouco lhe aproveitaria o meu contributo. Ricardo Bog\u00e9a entendeu e agradeceu. Ficamos amigos. Visitei-\u00ado bem um ano depois, em S\u00e3o Lu\u00eds, e ele ainda guardava detalhes daquele primeiro encontro. Eu nunca esqueci que ele nunca me disse, em nenhum momento, que era\u00a0filho de um candidato a vice\u00adgovernador do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda vez que eu conheci Antenor Bog\u00e9a, conheci Antenor Bog\u00e9a Filho. Est\u00e1vamos em fins de 1973, come\u00e7o de 1974. Eu era professor da Universidade do Maranh\u00e3o, prestes a participar, junto com alguns colegas da Am\u00e9rica Latina, de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Quem conhece as entranhas de nossas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sabe o que suscita a simples not\u00edcia de fatos como esse. Foram Sofia e Antenor Bog\u00e9a, ex\u00ad-bolsistas do mesmo Programa, que nos ensinaram, a mim e a quatro outros companheiros, a superar dificuldades de outra forma intranspon\u00edveis, dentro de nossa pr\u00f3pria Casa, antes, e, depois, quando ainda \u00e9ramos novi\u00e7os da cultura americana. Tive ensejo de agradecer de novo ao filho de Antenor Bog\u00e9a este gesto de fraterna aten\u00e7\u00e3o, quando aqui esteve recentemente, para entregar a um instituto de ensino parte da biblioteca de seu pai.<\/p>\n<p>A terceira vez em que conheci Antenor Bog\u00e9a foi ao Mestre Antenor Bog\u00e9a que eu conheci. Corria o primeiro semestre de 1977. A cidade de S\u00e3o Lu\u00eds preparava-\u00adse para hospedar um Encontro Nacional de Faculdades de Direito. Encarregados de organizar o evento, os professores Antenor Bog\u00e9a e Doroteu Ribeiro descobriram que na Universidade havia algu\u00e9m rec\u00e9m-\u00adchegado de uma p\u00f3s\u00ad-gradua\u00e7\u00e3o, com um diploma em Administra\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria. Presumindo que isso lhes servisse de algum valimento, convidaram-\u00adme, sem propriamente me conhecerem, a que os auxiliasse nesse encargo. Retribu\u00ed\u00adlhes com o que em mim j\u00e1 havia acumulado de venera\u00e7\u00e3o por dois luminares da ci\u00eancia jur\u00eddica em nosso meio. Recordo com a mais viva saudade a noite em que entreguei a Antenor Bog\u00e9a um esbo\u00e7o do que projet\u00e1ramos realizar, e ele, retendo os olhos sobre a mesa de trabalho, desculpava-\u00adse comigo pelo trabalho em sobrecarga de que me incumbira.<\/p>\n<p>E pe\u00e7o aos presentes entendam a como\u00e7\u00e3o irreprim\u00edvel que sinto quando rememoro um epis\u00f3dio de extrema singeleza, a que n\u00e3o haveria de conferir maior import\u00e2ncia, n\u00e3o fosse,\u00a0nesta noite epif\u00e2nica, a revela\u00e7\u00e3o, para minh\u2019alma, dos fios t\u00eanues, distintos e distantes no tempo, que se entreteceram para sustentar\u00ad-me do Alto e me conduzirem at\u00e9 a esta culmin\u00e2ncia: numa tarde, no velho pr\u00e9dio da Reitoria da Universidade onde se estabelecera a comiss\u00e3o organizadora do Encontro, deparo, logo ao chegar, o professor Antenor Bog\u00e9a ocupado em ler uns escritos, de autoria de algu\u00e9m que, da forma como ali se assinava, era desconhecido para ele.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 este Moreira Duarte?<br \/>\nCom o pudor de uma freirinha em primeiros votos, respondo\u00adlhe:<br \/>\n&#8211;\u00a0Sou eu, professor.<br \/>\nSil\u00eancio longo, pesando toneladas. E a voz de Antenor Bog\u00e9a:<br \/>\n&#8211;\u00a0Voc\u00ea me empresta este seu caderno de versos?<br \/>\nEntre mais constrangido e mais surpreso, concordei com seu pedido.<\/p>\n<p>Os dias se passaram, espa\u00e7amos nossas reuni\u00f5es, realizou\u00ad-se o Encontro programado, e o Mestre n\u00e3o me devolvia meus pap\u00e9is, nem falava mais neles. Que destino tomara aquela produ\u00e7\u00e3o primig\u00eania? Como dirigir\u00ad-me a Antenor Bog\u00e9a? Revejo-\u00ado na Faculdade de Direito e, num \u00e1timo de viol\u00eancia interior, deponho a coura\u00e7a da timidez:<br \/>\n&#8211;\u00a0O Sr. ainda se lembra daqueles poemas?<br \/>\nSim, como n\u00e3o? Levei\u00ados \u00e0 Academia, li alguns deles numa sess\u00e3o, entreguei\u00ados a Jomar Moraes, no Sioge<sup>*<\/sup>.<\/p>\n<p>Imaginemos juntos o frio que me atravessou a espinha \u00e0quela not\u00edcia. Cumpria\u00ad-me enfrentar Jomar Moraes. Transcorridos alguns meses e nada me falando o Diretor do Servi\u00e7o de Imprensa e Obras Gr\u00e1ficas do Estado sobre a publica\u00e7\u00e3o do meu livro, que mensagem deveria eu colher de seu sil\u00eancio? Jomar, municiado de compet\u00eancia insubstitu\u00edvel, exercia, como ainda hoje, as fun\u00e7\u00f5es de severo curador das Letras no Maranh\u00e3o. Eu n\u00e3o arregimentava coragem para admir\u00e1-\u00adlo sen\u00e3o a dist\u00e2ncia. Meu apre\u00e7o \u00e0 sua autoridade intelectual combinava-\u00adse com seu temperamento nada afeito a f\u00e1ceis concess\u00f5es amigueiras, de modo a n\u00e3o me permitirem mais que uma chamada telef\u00f4nica, <em>cum timore et<\/em> <em>tremore.<\/em> E que expressivo se torna o verbo ser, portugu\u00eas, na inflex\u00e3o de frases em tudo e por tudo intraduz\u00edveis:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Jomar, e que tal lhe pareceu a minha poesia?<br \/>\n&#8211;\u00a0\u00c9&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o morreu ali mesmo mais um med\u00edocre versejador de prov\u00edncia, porque, um ano e pouco depois, este foi nascer na Para\u00edba, para onde eu havia sido recambiado como professor visitante. Mas as palavras de Jomar Moraes, sem que valessem uma maldi\u00e7\u00e3o de Montezuma contra a minha obra, acompanharam\u00ad-me o bastante para me proibirem de tornar conhecido, na cidade de S\u00e3o Lu\u00eds, a n\u00e3o ser de m\u00e3o a m\u00e3o, entre poucos amigos, meu <em>Canto essencial, <\/em>em cuja capa, ademais de tudo, a editora cometeu a obscenidade de imprimir o rosto enorme e inteiro de seu autor, que melhor ficaria coberto por uma folha de parreira, como a respeito de Papini disse Agrippino Grieco.<\/p>\n<p>E embora sabedor de que n\u00e3o acrescentei, com isso, nenhuma joia a esta Academia, trouxe-\u00adlhe aquele livrinho como presta\u00e7\u00e3o de entrada, porque j\u00e1 n\u00e3o posso ver como acaso ou sucesso gratuito tenha reca\u00eddo sobre os meus ombros perenizar, com minha presen\u00e7a vis\u00edvel, a presen\u00e7a constante e invis\u00edvel de Antenor Bog\u00e9a em sua Casa. Serei o primeiro a reconhecer a supina despropor\u00e7\u00e3o que discerne as minhas for\u00e7as e a miss\u00e3o que me espera. Mas indago de que mensageiro divino haveria eu jamais de receber, algum dia na vida, o sopro prenunciador que me preparasse \u00e0 fiel execu\u00e7\u00e3o de tal mandado. Ao mesmo tempo, pela meridiana clareza de simetria entre o epis\u00f3dio ocorrido h\u00e1 mais de vinte anos e o fato que nesta solenidade se concretiza, como recusar-\u00adme a creditar s\u00f3 e t\u00e3o s\u00f3 \u00e0 bondade de Antenor Bog\u00e9a \u2013 \u00e0 sua inumer\u00e1vel bondade humana e \u00e0 bondade em que do outro mundo ele continua a multiplicar-\u00adse entre os seus \u2013 a outorga que ele me fez desta nova incumb\u00eancia, e que, de onde estiver ele bem o saber\u00e1, eu jamais saberei cumprir \u00e0 altura?<\/p>\n<p>Quando o mundo perdeu o papa Jo\u00e3o XXIII, eu, ainda no Semin\u00e1rio, li, sobre o grande morto, um dos paneg\u00edricos que mais me impressionaram, recortado de uma revista italiana que guardo at\u00e9 hoje. O t\u00edtulo dizia s\u00f3: \u201cEra bom\u201d.<\/p>\n<p>Isto foi Antenor Bog\u00e9a. Creio que toda a sua biografia se resume em n\u00e3o mais que duas palavras: aquelas com que, nos <em>Atos dos ap\u00f3stolos, <\/em>S\u00e3o Pedro descreve a trajet\u00f3ria de Cristo entre os homens: <em>Pertransiit benefaciendo <\/em>(At. 10, 38) \u2013 passou fazendo o bem. Se estivesse em meu poder, sugeriria fosse esse o epit\u00e1fio do meu antecessor. Consideremos, a prop\u00f3sito, a cita\u00e7\u00e3o shakespeareana em que ele compendia a vida de Barbosa de Godois: \u201cTudo o que for necess\u00e1rio ao bem do homem, tudo o que nos for dado como encargo n\u00f3s o faremos com a gra\u00e7a de Deus, da melhor forma poss\u00edvel, na \u00e9poca pr\u00f3pria e no tempo certo\u201d.<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span>A\u00ed est\u00e1, no estabelecimento desses valores, nem carece lembr\u00e1-\u00adlo, Antenor Bog\u00e9a esculpindo-\u00adse a si mesmo. Na verdade, ao longo dos mais de trinta anos que acumulo de vida maranhense, posso assegurar que nunca ouvi de ningu\u00e9m o mais m\u00ednimo coment\u00e1rio restritivo \u00e0 sua pessoa, e tal unanimidade n\u00e3o \u00e9 gra\u00e7a f\u00e1cil de alcan\u00e7ar-\u00adse em nosso <em>piccolo mondo <\/em>provincial, como estamos inteirados de saber desde o famoso serm\u00e3o do padre Ant\u00f4nio Vieira.<\/p>\n<p>Mas Antenor Bog\u00e9a n\u00e3o se contentou simplesmente em querer bem e ser benquisto por todos: calibrando\u00ad-se mais e mais na tend\u00eancia para a bondade que era de seu natural, como uma esp\u00e9cie de sabedoria cong\u00eanita, coordenou, de dentro de si, suas convic\u00e7\u00f5es mais arraigadamente cat\u00f3licas, para exercitar-\u00adse em inteira bondade na arena do servi\u00e7o p\u00fablico e da pol\u00edtica, como se encarnasse o papel de um Mahatma Gandhi ou um Alcides de Gasperi maranhense.<\/p>\n<p>Nascido em Graja\u00fa, no dia 8 de outubro de 1909, filho de Abra\u00e3o Fernandes Bog\u00e9a e Francisca Mour\u00e3o Bog\u00e9a, Antenor Am\u00e9rico Mour\u00e3o Bog\u00e9a guardaria sempre a impregna\u00e7\u00e3o do barro calcado por seus p\u00e9s na inf\u00e2ncia interiorana, passada entre a cidade natal e Vit\u00f3ria do Mearim. Chamado a S\u00e3o Lu\u00eds em atendimento \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de estudante, aqui frequentou as classes de sua tia Zuleide Bog\u00e9a e de Jer\u00f4nimo de Viveiros. Aos vinte anos, fez-\u00adse aluno da Faculdade de Direito de S\u00e3o Lu\u00eds, de onde saiu bacharel em 1932.<\/p>\n<p>Era a \u00e9poca de levantes, golpes, intentonas, movimentos insurrecionais que jovens tenentes, com o apoio e aplauso de grande massa populacional, ateavam como fogueiras de sul a norte do Brasil, inconformados com o atraso em que se arrastava o pa\u00eds. Os ideais revolucion\u00e1rios despertaram em Antenor Bog\u00e9a as for\u00e7as at\u00e1vicas da milit\u00e2ncia pol\u00edtica, como ele mesmo afirma:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o atingira a maioridade e nem adquirira capacidade eleitoral, e j\u00e1 me identificava com o grupo juvenil inconformado com os rumos da pol\u00edtica nacional. Lembro\u2011me, como se fora ontem, do otimismo sadio com que o nosso grupo, no internato do Instituto Viveiros, em 1925, acompanhava a marcha epopeica da Coluna Prestes\u2011Miguel Costa, no mediterr\u00e2neo brasileiro. Rememoro o entusiasmo com que recebi a not\u00edcia da presen\u00e7a na terra maranhense, atrav\u00e9s de Carolina, das tropas revolucion\u00e1rias comandadas por Siqueira Campos, Juarez T\u00e1vora, Cordeiro de Farias, Jo\u00e3o Alberto, e Djalma Dutra.\/ Confraternizava ao depois com os caravaneiros da Alian\u00e7a Liberal, cultivava a amizade de Tarqu\u00ednio Lopes Filho e Carlos Augusto de Ara\u00fajo Costa, e penetrava em 1930, atrav\u00e9s de P\u00e1dua Resende, no labirinto da conspira\u00e7\u00e3o que culminou, nesta capital, com a Revolu\u00e7\u00e3o de 8 de outubro daquele ano.<\/em><\/p>\n<p>Por esses caminhos, antes mesmo de terminar a Faculdade, era o jovem Antenor nomeado auxiliar de gabinete da Junta Governativa Revolucion\u00e1ria do Maranh\u00e3o e, ainda em 1930, investido prefeito de sua cidade natal. Em 1932, assume\u00ad-se promotor p\u00fablico da comarca de Graja\u00fa, por ato do interventor Seroa da Mota. Oito anos depois, por decreto de Paulo Martins de Sousa Ramos, estar\u00e1 \u00e0 frente da 2\u00aa. Promotoria P\u00fablica de S\u00e3o Lu\u00eds. Mais adiante, passa a servir \u00e0 Imprensa Oficial, primeiro como Diretor da Divis\u00e3o de Imprensa e, em seguida, como Diretor do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda.<\/p>\n<p>Viviam\u00ad-se, em especial naqueles anos trinta, horas de exalta\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, de exuber\u00e2ncia verbal, de gesticula\u00e7\u00e3o demasiada. Reis Perdig\u00e3o, personagem presencial de muitas cenas vividas neste per\u00edodo, lembra a parcim\u00f4nia de palavras e a aten\u00e7\u00e3o concentrada com que, em contraste com a vig\u00eancia circunstante, Antenor Bog\u00e9a redigia notas de servi\u00e7o ou, por essa \u00e9poca, com o pseud\u00f4nimo de Juca Burity, entregava ao <em>Di\u00e1rio da Tarde <\/em>reportagens e cr\u00f4nicas liter\u00e1rias, escritas com apuro de linguagem e s\u00f3bria eleg\u00e2ncia de estilo.<\/p>\n<p>Foi, na certa, por esse timbre de seu car\u00e1ter que Paulo Ramos persuadiu\u00ad-se em cham\u00e1-\u00adlo do Departamento de Imprensa para confiar\u00ad-lhe a 1\u00aa. Delegacia de S\u00e3o Lu\u00eds e, em 1942, a Chefatura de Pol\u00edcia. Intensificam\u00ad-se os la\u00e7os de amizade entre os dois homens p\u00fablicos: em 1943, Antenor Bog\u00e9a \u00e9 feito secret\u00e1rio particular daquele interventor e chefe de gabinete do governo estadual. E antes de resignar o cargo, Paulo Ramos nomeia\u00ad-o Procurador Adjunto do Estado.<\/p>\n<p>Novos ares respiram-\u00adse pelo Brasil afora, a partir de 1945, com a euforia do fim da Guerra e com a queda de Get\u00falio Vargas. Desencantado com os desvios getulistas \u00e0 proposta que o atra\u00edra duas d\u00e9cadas antes, Antenor Bog\u00e9a aceita o convite de seu vizinho Alarico Pacheco e, filiado \u00e0 UDN, disputa uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte de 1946, para a qual \u00e9 eleito como representante das Oposi\u00e7\u00f5es Coligadas do Maranh\u00e3o. No Congresso ordin\u00e1rio em que se converteu a Constituinte, debate projetos de legisla\u00e7\u00e3o criminal que o tornam conhecido e respeitado por especialistas como Roberto Lyra e Nelson Hungria. De sua folha de servi\u00e7os nesse per\u00edodo, destacam\u00ad-se sua presen\u00e7a na Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito sobre atividades delituosas da Ditadura e sua atua\u00e7\u00e3o como vice\u00ad-presidente da Comiss\u00e3o Permanente do Servi\u00e7o Militar. O que, por\u00e9m, mais sobreleva seu destemor c\u00edvico e sua isen\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi o voto que emitiu contra a cassa\u00e7\u00e3o do mandato dos parlamentares do Partido Comunista Brasileiro a 7 de janeiro de 1948, acompanhada da serena e segura defesa de sua posi\u00e7\u00e3o apresentada na tribuna da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Os seus m\u00e9ritos reconduziram-\u00adno, em nova elei\u00e7\u00e3o, a representar o povo do Maranh\u00e3o no Congresso Nacional, nas elei\u00e7\u00f5es de outubro de 1950, compondo outra vez o grupo das Oposi\u00e7\u00f5es Coligadas, junto com Paulo Ramos, Clodomir Millet e Jos\u00e9 Neiva. Eram os anos pesados do vitorinismo, cujas armas e manhas, \u00e0 \u00e9poca, pensava-\u00adse fossem as mais terr\u00edveis que jamais os maranhenses enfrentariam. Em sua trincheira indormida, Antenor Bog\u00e9a obriga-\u00adse a dif\u00edcil manobra, quando, em 1954, divergindo do Diret\u00f3rio Regional da UDN, funda o PDC maranhense, lan\u00e7ando-\u00adse outra vez candidato \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados. Sua resist\u00eancia de peito aberto ao despotismo provincial rendeu-\u00adlhe s\u00f3 a supl\u00eancia ao posto pretendido, mas n\u00e3o abdicou de suas posi\u00e7\u00f5es este educador dos costumes pol\u00edticos de sua terra: voltou em 1962, disposto a pleitear o Senado, junto com Clodomir Millet, contra Vitorino Freire e Sebasti\u00e3o Archer. A fraude eleitoral n\u00e3o haveria de permitir-\u00adlhe qualquer vantagem. Mas \u2013 lembra-\u00ado Benedito Buzar\u00a0\u2013 a tranquila intrepidez de sua apela\u00e7\u00e3o aos tribunais armou o gatilho do recenseamento eleitoral que, sob o Regime Militar, disparou o tiro certeiro e final contra o mandonismo vitorinista no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>O novo mapa que o militarismo imp\u00f5e \u00e0 pol\u00edtica brasileira a partir de 1964 obriga a irrevers\u00edveis modifica\u00e7\u00f5es e a acirradas disputas no cen\u00e1rio maranhense. Vitorino Freire, amigo dos generais no poder, obt\u00e9m intervir no Diret\u00f3rio maranhense do PSD e rompe com Newton Bello. Este, vendo\u00ad-se sem legenda, costura uma alian\u00e7a com o PDC, da qual saem candidatos Ant\u00f4nio da Costa Rodrigues e Antenor Mour\u00e3o Bog\u00e9a, respectivamente, a governador e vice\u00ad-governador do Estado. A imprensa e os pol\u00edticos n\u00e3o assimilam tal acordo. Chegava ao fim a carreira pol\u00edtica de um dos nossos mestres de conc\u00f3rdia e benqueren\u00e7a.<\/p>\n<p>O que, no entanto, vale fixar como s\u00edntese de toda a caminhada de Antenor Bog\u00e9a pela espinhenta vereda da pol\u00edtica \u00e9 esta lei fatal: ele fez oposi\u00e7\u00e3o quando a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia chegar ao governo e esteve com o governo quando o governo n\u00e3o podia mais ganhar elei\u00e7\u00e3o. Esse comportamento, que faria muito pol\u00edtico de hoje torcer o nariz ou apodar como ingenuidade de um cora\u00e7\u00e3o bondadoso, era, na verdade, outro comando que a Antenor se lhe impunha dos refolhos da alma e, por isso, n\u00e3o poderia ceder a exce\u00e7\u00f5es: a \u00e9tica, o agir de modo a oferecer o pr\u00f3prio procedimento como norma para todo o universo da moralidade humana.<\/p>\n<p>Vejamos como, ao referir-se a seu antecessor, Antenor Bog\u00e9a explicitava os princ\u00edpios por que se guiava a si mesmo:<\/p>\n<p><em>Longe, bem longe se situava Lu\u00eds Carvalho daquela \u00e1rea conspurcada em que bacorejam os pol\u00edticos oportunistas, praticantes da filosofia su\u00edna da \u2018engorda\u2019 na pocilga das \u2018facilidades\u2019; longe, muito longe se punha de outra conviv\u00eancia n\u00e3o menos vitanda: a dos simuladores, peritos em embair com um sorriso estudado, ruminando a \u2018rasteira\u2019 eliminat\u00f3ria, o parceiro ambicioso ou de maior capacidade. Ainda mais distante se colocava ele de outra s\u00facia: a dos fraudadores leigos ou togados que, estimulados pelo coniv\u00eancia de escal\u00f5es judici\u00e1rios de maior hierarquia, arruinaram e perverteram o processo eletivo em numerosos setores do Estado, agora e s\u00f3.<\/em><\/p>\n<p>Renunciando \u00e0 pugna pela educa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, Antenor Bog\u00e9a volta-\u00adse, com maior vigor, \u00e0 pol\u00edtica da educa\u00e7\u00e3o, como professor de Direito. Direito Penal, que, por onde andou, foi essa a sua ins\u00edgnia de identifica\u00e7\u00e3o, desde quando, ainda em 1944, foi nomeado catedr\u00e1tico junto \u00e0 velha Faculdade de S\u00e3o Lu\u00eds, at\u00e9 aos congressos internacionais de criminalistas, em que integrou a Comiss\u00e3o Oficial Brasileira; \u00e0 presid\u00eancia da Sec\u00e7\u00e3o Maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil, para a qual, eleito em 1959, foi reeleito sucessivas vezes, chegando \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m por diversas vezes, da sua Faculdade de Direito; do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, do Conselho Estadual de Cultura, e \u00e0 vice\u00ad-presid\u00eancia da Academia Maranhense de Letras.<\/p>\n<p>Seu legado bibliogr\u00e1fico situa\u00ad-se, de toda coer\u00eancia, na \u00e1rea que ocupou <em>magna pars <\/em>em sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de viver: o humanismo jur\u00eddico, de que se embebem ensaios como aquele Do Concurso de Agentes na Chamada Criminalidade Animal, inclu\u00eddo nos <em>Estudos de direito e processo penal, <\/em>em homenagem a Nelson Hungria; e o humanismo da forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, que t\u00e3o bem se documenta em sua mais extensa produ\u00e7\u00e3o no campo das Letras: <em>Encontro com o passado.<span style=\"font-size: 8.80000019073486px;\">\u00a0<\/span><\/em>Neste livro, que \u00e9 um di\u00e1rio do cruzeiro que ele e sua esposa, Francisca Martins Bog\u00e9a, fizeram atrav\u00e9s do Mediterr\u00e2neo, em 1979, verifica-\u00adse o cruzamento, em cuidadosa anota\u00e7\u00e3o, dos vest\u00edgios de um duplo passado: do passado hist\u00f3rico que serviu de ber\u00e7o \u00e0 cultura ocidental, e do passado pessoal que deu vida e alento ao grande educador. Como ele o diz:<\/p>\n<p><em>Muitas recorda\u00e7\u00f5es de leituras de nossa juventude \u2013 recorda\u00e7\u00f5es passadas de certa nostalgia \u2013 vieram \u00e0 tona de nossa consci\u00eancia, naquela temporada de cruzeiro. Porque, em verdade, ao nos pormos em contacto com os locais ou cidades visitadas, assomava \u00e0 nossa mem\u00f3ria, por espont\u00e2neo processo de associa\u00e7\u00e3o de ideias, um qu\u00ea de misteriosa emo\u00e7\u00e3o ao rememorarmos os grandes filhos daquelas paragens.<\/em><\/p>\n<p>E se o estilo \u00e9 o homem, Antenor Bog\u00e9a \u00e9 sempre igual a si mesmo em cada p\u00e1gina que escreveu. Conheci-\u00ado como uns dos poucos que restaram de uma grande gera\u00e7\u00e3o de maranhenses, sempre atentos, com vigilante disciplina, em manter dist\u00e2ncia m\u00ednima entre o falar e o escrever, entre a linguagem formal e a informal. Sem ter tido com ele a intimidade de um disc\u00edpulo, deduzo de seus escritos o desvelo pelo apuro da forma, pelo <em>mot juste,<\/em> ainda que o fosse desencavar de fontes as mais remotas, arcaicas at\u00e9, da l\u00edngua. E se o homem \u00e9 o estilo, veja-\u00adse na inteireza da palavra a integridade daquele a quem o Maranh\u00e3o acostumou-\u00adse a\u00a0chamar de \u201creserva moral\u201d, com a ressalva de que a express\u00e3o tantas vezes gasta e descabida para tanta gente, \u00e9, no caso de Antenor Bog\u00e9a, o reconhecimento da obra de todo consumada que ele deixou como patrim\u00f4nio \u00e0 sua terra e a sua gente.<\/p>\n<p>Esqueci-\u00adme de dizer que meu \u00faltimo encontro com Antenor Bog\u00e9a deu\u00ad-se quando, ele j\u00e1 enfermo, e sem que eu jamais me sonhasse oficiante desta cerim\u00f4nia, promovi-\u00adlhe a edi\u00e7\u00e3o do ensaio <em>Periculosidade: sua aferi\u00e7\u00e3o e consequ\u00eancias penais<\/em>, que abre recente colet\u00e2nea de escritos em homenagem \u00e0 sua pessoa, a Jos\u00e9 Maria Ramos Martins e a Doroteu Ribeiro.<\/p>\n<p>Estas, minhas senhoras e meus senhores, as quatro figuras excelsas cuja mem\u00f3ria \u00e9 confiada \u00e0 minha guarda neste Silogeu. Diante deles, sinto\u00ad-me, como aquele fil\u00f3sofo medieval, um an\u00e3o em ombros de gigantes. Concordarei com Fernando Pessoa: \u201cEu sou do tamanho do que vejo, e n\u00e3o do tamanho de minha altura\u201d, e proclamarei que h\u00e1, nesta noite, um descompasso invenc\u00edvel entre o meu eu e a minha circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A pergunta que andei fazendo, senhores acad\u00eamicos, por noites e dias passados, na prepara\u00e7\u00e3o dos votos \u00e0 divindade do Verbo que, em vossa presen\u00e7a, estou a proferir, foi sobre o sentido transcendente do vosso gesto generoso, acolhendo\u00ad-me ao vosso conv\u00edvio. Mas \u00e9 o meu desmerecimento que d\u00e1 maior subst\u00e2ncia \u00e0 vossa magnanimidade.<\/p>\n<p>Apenas, se pode a minha palavra ajudar a refazer as misteriosas andan\u00e7as que houveram de convergir para esta noite, permiti\u00ad-me contar-\u00advos outro epis\u00f3dio de minha vida, em\u00a0que mais um fio entremostra-se em sua t\u00eanue tessitura: em 1969, transcorridos j\u00e1 quatro anos de tiroc\u00ednio em meu aprendizado do Maranh\u00e3o, tive que mudar\u00ad-me para S\u00e3o Paulo, por uns seis meses. Minha demora parecia longa demais \u00e0 minha fam\u00edlia, e eis eu me apresso em voltar a S\u00e3o Lu\u00eds. \u00c0 noite de minha chegada perdido e achado entre os meus, s\u00f3 no dia seguinte pude me dar conta que havia esquecido no aeroporto do Tirirical o principal de meus apetrechos de viagem. Corremos a apanh\u00e1\u00ad-lo. Eram os tempos terr\u00edveis da luta armada contra a Ditadura Militar. N\u00e3o sei que perigo inspirou a quem o meu esquecimento. Sei que o paguei caro: minha mala havia sido violada, nela estando a faltar, junto com algumas pe\u00e7as de vestu\u00e1rio, todos os livros que eu trazia. Os livros, e mais dois \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos, que reuniam tudo, exatamente tudo, que eu pudera acumular de recorda\u00e7\u00f5es pessoais, desde a primeira foto de minha inf\u00e2ncia, passando pelas do tempo de Semin\u00e1rio, at\u00e9 \u00e0s da \u00faltima semana em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Seria como se uma for\u00e7a imperscrut\u00e1vel e inamov\u00edvel estivesse me obrigando a varrer do meu eu profundo todo e qualquer rastro de vida anterior \u00e0 maranhense. Para aprender o Maranh\u00e3o, eu deveria partir literalmente do zero, plantar\u00ad-me outra vez, nascer-\u00adme de novo.<\/p>\n<p>E os meus livros? Olho em torno: sobre a mesa, em casa, estava o \u00fanico que me restara e que eu trazia como leitura de bordo, comprado num \u201csebo\u201d, na breve parada no Recife. Em sua p\u00e1gina de rosto, atravessando-\u00ada em linha ascendente de um lado a outro, lia\u00ad-se com toda clareza o nome do primeiro possuidor, de quem at\u00e9 ent\u00e3o eu nunca ouvira falar: Ant\u00f4nio Lobo. Entreguei recentemente esse livro \u2013 a vida de Alphonse Daudet, escrita por seu filho L\u00e9on \u2013 a Jomar Moraes, que materializa aos nossos olhos o grande maranhense que deu seu nome a esta Casa.<\/p>\n<p>Meus confrades, sei que uma elei\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 feita de aclama\u00e7\u00e3o e conclama\u00e7\u00e3o. A primeira deve durar pouco, pois que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. A conclama\u00e7\u00e3o ser\u00e1 para a vida\u00a0inteira, para que resulte perene mais que o bronze a monumentalidade da obra comum.<\/p>\n<p>Mas uma elei\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 tamb\u00e9m um encontro de gera\u00e7\u00f5es. Na Academia Maranhense de Letras dou\u00ad-me como representante e prestador de contas daquela gera\u00e7\u00e3o que foi tangida do outro Nordeste pela seca de 1958 e encontrou um o\u00e1sis nas terras verdes dos cocais maranhenses. Meu irm\u00e3o mais velho foi o primeiro de nossa fam\u00edlia, e como seguindo, sem o saber, as pegadas dos nossos av\u00f3s paternos, que foram sepultados em Bacabal, em 1942, l\u00e1 se estabeleceu e nos trouxe a todos, depois, da cidade de Cajazeiras, na Para\u00edba. Hoje, paraibanos, cearenses, cearenses da Para\u00edba, como eu mesmo, paraibanos do Rio Grande do Norte, como os irm\u00e3os Claudino, somos todos do Maranh\u00e3o. Cada um, como p\u00f4de, tirou, vem tirando, o seu curso de maranhense, na vida da escola ou na escola da vida. Com an\u00e9is nos dedos ou calos nas m\u00e3os, derramando suor nos mais variados campos da atividade humana \u2013 no com\u00e9rcio, na ind\u00fastria, na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, no magist\u00e9rio, na magistratura, na pol\u00edtica, ou no duro cotidiano do lavrador, do trabalhador bra\u00e7al, do ajudante de pedreiro, do mascate an\u00f4nimo \u2013 deram, t\u00eam dado, tudo de si para o engrandecimento de seu novo ch\u00e3o. Pois como disse o maior de todos n\u00f3s, o cantador Jos\u00e9 Chagas:<\/p>\n<p><em>Quem pelo mundo se<br \/>\nerra e morre e nasce de<br \/>\nnovo \u00e9 filho de cada<br \/>\nterra e \u00e9 filho de cada<br \/>\npovo.<\/em><\/p>\n<p>A um dos soldados que empunhava a bandeira para finc\u00e1\u00ad-la ao ch\u00e3o, no tope da ilha de Iwojima, no Jap\u00e3o, durante a Segunda Guerra Mundial, perguntaram-\u00adlhe como pudera chegar \u00e0quelas alturas. Ele respondeu com outra pergunta:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o viram o batalh\u00e3o que eu trazia atr\u00e1s de mim?<\/p>\n<p>\u00c9-me imposs\u00edvel nomear a quantos, vindos desde aqueles \u00e1rduos anos cinquenta, sustentaram-\u00adme com seu exemplo e sua bravura, e hoje postam-\u00adse a meu lado, tomando-\u00adme o bra\u00e7o para que eu n\u00e3o desfale\u00e7a nos umbrais deste Cen\u00e1culo. E eu cometeria uma incivilidade, se, declinando o nome de alguns, esquecesse outros tantos que, por igual direito, mereceriam ingresso comigo neste ambiente. Estou certo, no entanto, que todos se sentir\u00e3o homenageados, se cito o nome daqueles que, entre n\u00f3s, mais nos replenaram o cora\u00e7\u00e3o com o orgulho de termos renascido maranhenses. Para a unanimidade de nosso reconhecimento, e para representar a todos, cito o exemplo dos irm\u00e3os Valdecy e Jo\u00e3o Claudino Fernandes, capit\u00e3es de um grupo empresarial que emprega hoje cerca de quinze mil pessoas, maranhenses em sua grande maioria.<\/p>\n<p>Acima de tudo, por\u00e9m, minhas senhores e meus senhores, eu n\u00e3o seria eu mesmo, se, para concluir, n\u00e3o elevasse a mente aos c\u00e9us num gesto de gratid\u00e3o que n\u00e3o tem como se conduzir pelo estreito estu\u00e1rio das palavras.<\/p>\n<p>Invoco genuflexo os meus orix\u00e1s mais \u00edntimos, que me un\u00adgiram com os \u00f3leos sacramentais das primeiras b\u00ean\u00e7\u00e3os, que me tra\u00e7aram o roteiro, me aben\u00e7oaram o caminho, me guiaram os passos nas curvas da noite escura.<\/p>\n<p>\u201cPorque o sangue de Cristo jorrou sobre os meus olhos, a<\/p>\n<p>minha vis\u00e3o \u00e9 universal, e tem dimens\u00f5es que ningu\u00e9m sabe\u201d \u2013 direi com o poeta. Estou em Deus e na mat\u00e9ria, e uno e m\u00faltiplo, revisito o menino muito pobre que fui, no estorricado mundo sertanejo, e que um dia, no Orat\u00f3rio Festivo do Padre Manuel Alves dos Santos, em Cajazeiras, na Para\u00edba, encontrou em Jo\u00e3o Bosco e em Maria Auxiliadora o Mestre e a M\u00e3e dos anos mais sagrados de sua forma\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Bosco, o sacerdote Jo\u00e3o Bosco, o italian\u00edssimo Dom Bosco, que, no s\u00e9culo passado, soube fazer-\u00adse moleque de rua com os moleques de rua para ganhar-\u00adlhes as almas, o S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco da Congrega\u00e7\u00e3o Salesiana, o \u00fanico de todos os santos da Igreja Cat\u00f3lica a ser canonizado como educador, \u201cpai e mestre da juventude\u201d. Maria Auxiliadora, a Virgem dos sonhos de Dom Bosco, que o fez humilde, forte e robusto como empreendedor e pioneiro, que o escolheu arauto de sua bondade, pregoeiro de sua prote\u00e7\u00e3o maternal. A Dom Bosco e \u00e0 Virgem M\u00e3e Auxiliadora, com a f\u00e9 de quem n\u00e3o precisa mais acreditar porque viu, sentiu, apalpou a materialidade dos fatos, entrego em prim\u00edcias o pouco que pude amealhar para esta celebra\u00e7\u00e3o. Eles fundiram p\u00e9talas de ip\u00ea no ouro de meus dias. A eles, e somente a eles, que anteviram\u00adna em des\u00edgnios inef\u00e1veis e a foram tecendo por fios impercept\u00edveis, ao longo do tempo, pertence essa noite incompar\u00e1vel e o j\u00fabilo que nela se cont\u00e9m, \u201cesta gl\u00f3ria que fica, eleva, honra e consola\u201d.<\/p>\n<p>O inef\u00e1vel sente-\u00ado s\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o: ficam de fora as emo\u00e7\u00f5es indescrit\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o<\/span>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Aguarde Atualiza\u00e7\u00e3o<\/span>&#8230;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Nasceu no s\u00edtio Olho d\u2019\u00c1gua do Mel\u00e3o, munic\u00edpio de Baixio-CE, a 2 de mar\u00e7o de 1944. Filho de C\u00edcero Moreira da Silva e de Raimunda Alodias Duarte. Fez o prim\u00e1rio em Cajazeiras-PB e o secund\u00e1rio nos Aspirantados Salesianos de Recife, Carpina e Jaboat\u00e3o. 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