{"id":1072,"date":"2014-02-24T12:18:54","date_gmt":"2014-02-24T12:18:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/?p=1072"},"modified":"2017-09-10T12:32:22","modified_gmt":"2017-09-10T15:32:22","slug":"jose-neres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/jose-neres\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Neres"},"content":{"rendered":"<div id=\"tab1\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Biografia<\/h1>\n<p>Filho de Jos\u00e9 Furtado da Costa e de Maria Raimunda Neres Silva, Jos\u00e9 Neres nasceu em S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar em 17 de fevereiro de 1970 fez estudos iniciais em Bras\u00edlia e Goi\u00e1s (Luzi\u00e2nia), locais onde passou a inf\u00e2ncia. De volta ao Maranh\u00e3o, cursou Letras Portugu\u00eas e Espanhol (UFMA), especializou-se em Literatura Brasileira (PUC-MG) e depois fez mestrado em Educa\u00e7\u00e3o (UCB). Trabalha ou j\u00e1 trabalhou como professor de l\u00edngua (portuguesa e espanhola) e literatura (brasileira, espanhola, hispano-americana e maranhense) nas seguintes institui\u00e7\u00f5es de ensino: Col\u00e9gio Brasil, Centro de Ensino Universit\u00e1rio Jos\u00e9 Maria do Amaral, Faculdade Atenas Maranhense, Faculdade Pit\u00e1goras, Faculdade Santa F\u00e9 e Universidade Federal do Maranh\u00e3o, al\u00e9m de haver prestado servi\u00e7os para a Universidade Estadual do Maranh\u00e3o, Instituto Superior Franciscano e Centro Sul Brasileiro de Pesquisa e P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Neres \u00e9 detentor dos seguintes pr\u00eamios e honrarias: Men\u00e7\u00e3o Honrosa e Honra ao M\u00e9rito, ambos concedidos pelo Instituto da Poesia Internacional; Pr\u00eamio Odylo Costa, filho, concedido pela Prefeitura de S\u00e3o Lu\u00eds pelo livro Resto de Vidas Perdidas; Pr\u00eamio A Import\u00e2ncia do Livro no Brasil do S\u00e9culo XX. Concedido pela Academia Brasileira de Letras em parceria com o jornal Folha Dirigida e Medalha do Bicenten\u00e1rio de Jo\u00e3o Lisboa, concedida pela Academia Maranhense de Letras, al\u00e9m de ser patrono e paraninfo de diversas turmas de formandos em cursos superiores.<\/p>\n<p>Como pesquisador, Jos\u00e9 Neres sempre teve interesse por assuntos ligados \u00e0 literatura, principalmente a maranhense, \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o e aos estudos lingu\u00edsticos. No mestrado, orientado pelo professor Afonso Celso Tanus Galv\u00e3o, desenvolveu pesquisa sobre os processos metacognitivos e autorregulativos na aprendizagem de estudantes de pr\u00e9-vestibulares e sobre estudo deliberado.<\/p>\n<p>Em 2014, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras, ocupando a cadeira 36, deixada vaga pelo falecimento do grande intelectual Ubiratan Teixeira, e ser\u00e1 recebido pela professora e acad\u00eamica Ceres Costa Fernandes em 20 de mar\u00e7o de 2015.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab2\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Bibliografia<\/h1>\n<p>Al\u00e9m de colaborar em jornais e revistas, como O Estado do Maranh\u00e3o, Jornal Pequeno, De Repente, Literatura Conhecimento Pr\u00e1tico e L\u00edngua Portuguesa Conhecimento Pr\u00e1tico, publicou tamb\u00e9m os seguintes livros: Negra Rosa &amp; Outros Poemas (1999), Poemas de Desamor (2000), A Mulher de Potifar (2002), Restos de Vidas Perdidas (2006), Montello: O Benjamim da Academia (2008), Estrat\u00e9gias para Matar um Leitor em Forma\u00e7\u00e3o (2005), O \u00daltimo Desejo de Catirina (2010), Sombras na Escurid\u00e3o (2010) e Lousa Rabiscada (2013). \u00c9 coautor de Os Epigramas de Artur (2000) e O Discurso e as Ideias (2010) (ambos com Dino Cavalcante), O Verso e o Sil\u00eancio de Adelino Fontoura (2011), (Com Jheysse Lima Coelho e Viviane Ferreira) e Maranh\u00e3o na Ponta da L\u00edngua (2011) (com Lindalva Barros), al\u00e9m de organizar o livro de ensaios T\u00e1bua de Papel (2010).<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Neres \u00e9 tamb\u00e9m autor de diversos artigos cient\u00edficos sobre Literatura, Educa\u00e7\u00e3o e L\u00edngua Portuguesa, al\u00e9m de ser criador e editor do informativo Ilhavirtualpontocom, que tem como objetivo divulgar as letras maranhenses.<\/p>\n<p style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m dos livros individuais e em parceria, o escritor tamb\u00e9m escreveu pref\u00e1cios para diversas obras e participa dos como colaborador dos seguintes livros: 15 Contos+ (I e II), organizado por Helena Frenzel (2012 e 2013); A Import\u00e2ncia do Livro no Brasil do S\u00e9culo XXI, organizado por Maria de Lourdes de Aguiar Freire (2006); Poesia de Amor para Sempre (2004); O Beijo (2000); Antologia Del\u2019Secchi X e XI (2000) e Mil Poetas Brasileiros, organizado por Tony Carr\u00e9 (1995).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab3\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Discursos de Posse<\/h1>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE\u00a0POSSE<\/h5>\n<p>O grande teatr\u00f3logo e pensador espanhol Pedro Calder\u00f3n de la Barca, em uma de suas mais felizes frases disse que <em>\u201cLa vida es sue\u00f1o y los sue\u00f1os sue\u00f1os sue\u00f1os son\u201d<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que vida e sonhos est\u00e3o intimamente interligados. Os sonhos alimentam a vida, dando \u00e0s pessoas uma raz\u00e3o a mais para prosseguir nos \u00edngremes e tortuosos caminhos que s\u00e3o percorridos dia ap\u00f3s dia. Ao mesmo tempo, a vida tamb\u00e9m impulsiona os sonhos, trazendo para estes um pouco desse tempero cotidiano sem o qual o ato de dormir seria algo t\u00e3o somente biol\u00f3gico e, talvez, desprovido dessa magia que nos ajuda a despertar no dia seguinte com a certeza \u2013 ou pelo menos com a esperan\u00e7a \u2013 de que o novo dia ser\u00e1 bem melhor do que o anterior.<\/p>\n<p>Como \u00e0s vezes nossos sonhos e nossa vida parecem estar em rota de desencontro, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que a vida simplesmente vivida n\u00e3o nos basta e que a vida \u201cs\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel reinventadas\u201d, como nos ensinou a grande escritora Cec\u00edlia Meireles. E como reinventar essa vida? E como viver al\u00e9m dos reflexos impostos pela natureza? \u00c9 nesse espa\u00e7o t\u00e3o t\u00eanue e para muitos impercept\u00edvel que entram os sonhos, as artes, a vida reinventada, a fic\u00e7\u00e3o, a poesia, enfim, a Literatura.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Meus caros amigos aqui reunidos nesta noite de festa, de recorda\u00e7\u00f5es, de alegrias e de reflex\u00f5es, desde que realizei o sonho de ser eleito para esta ilustre Casa, no dia 30 de outubro de 2014, muitas pessoas me cumprimentam pelas ruas chamando-me antecipada e erroneamente de imortal. Imortal&#8230; Essa palavra soa estranha e at\u00e9 certo modo de forma ir\u00f4nica para quem com alguns meses de nascido, ainda sem nem mesmo ter consci\u00eancia do que seria vida, arte ou sonho, ouvia a not\u00edcia de que seguramente as pr\u00f3ximas horas seriam as \u00faltimas para aquele ser pequenino que mal chegava ao mundo e j\u00e1 recebia uma vela e muitas ora\u00e7\u00f5es. Contrariando a l\u00f3gica que corria de boca em boca, aquela crian\u00e7a p\u00e1lida, magra e quase sem for\u00e7a conseguiu a sua primeira grande vit\u00f3ria: sobreviveu!<\/span><\/p>\n<p>Mas um mergulho alguns meses antes desse epis\u00f3dio acima narrado mostra que aquele garoto parecia fadado a contrariar o senso da l\u00f3gica e a nadar contra as correntezas das muitas adversidades. O menino \u00e9 fruto do enlace nunca oficializado entre um pescador \u2013 Jos\u00e9 Furtado da Costa \u2013, \u00a0que durante o dia jogava a rede ao mar e dali tirava o alimento com o qual nutria o corpo e\u00a0 alimentava os sonhos daquela fam\u00edlia que dele dependia, e que durante diversas noites alugou seu sono na condi\u00e7\u00e3o de guarda noturno, ficando acordado para que muitas pessoas pudesses repousar tranquilamente e sonhar;\u00a0 e de uma professora leiga _ Maria Raimunda Neres Silva \u2013 \u00a0que mal havia completado a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, mas que se desdobrava para dar o m\u00ednimo de educa\u00e7\u00e3o a seus filhos e aos filhos daqueles que a ela confiavam o ensino e a\u00a0 aprendizagem das primeiras, e possivelmente \u00fanicas, letras \u00e0queles meninos e \u00e0quelas meninas que se nutriam de p\u00e3o, peixe, carinho, esperan\u00e7as\u00a0 e de sonhos.<\/p>\n<p>Estar aqui hoje, senhores e senhoras, ingressando na Casa de Ant\u00f4nio Lobo, na mais alta esfera da intelectualidade de meu Estado, parece tamb\u00e9m ser um ato de transgress\u00e3o daquele garoto que pouco aproveitou dos carinhos dos pais biol\u00f3gicos e que cedo encontrou em outro lar o recanto adequado para nutrir o corpo e o esp\u00edrito e, principalmente, para despertar naquele menino o gosto pela leitura e pela palavra escrita.<\/p>\n<p>O novo lar era formado por uma tia \u2013 Geny Furtado da Costa \u2013, exemplar dona de casa, e um padrinho \u2013 Lu\u00eds Bartolomeu Ferreira \u2013, que ganhava a vida colorindo o mundo na profiss\u00e3o de pintor de paredes e que nas raras horas vagas era tamb\u00e9m compositor e apreciador da boa m\u00fasica, al\u00e9m de voraz leitor de romances policiais. Foi nesse mundo colorido que o garoto continuou sua sina de desafiar o pr\u00f3prio destino. Os olhos m\u00edopes demoraram muito a perceberem as verdadeiras formas por detr\u00e1s dos vultos. Na escola, a letra dos professores era reproduzida pelo movimento das m\u00e3os dos mestres no quadro de giz. Os ouvidos atentos e as m\u00e3os \u00e1geis eram duas maneiras mais eficazes de acompanhar os conte\u00fados ministrados nas aulas. A mem\u00f3ria era o substituto ideal para o pouco alcance dos olhos. Em diversos momentos de sua vida, aquele menino teve que buscar for\u00e7as e esperan\u00e7as no mundo dos sonhos, pois o mundo real, se n\u00e3o lhe fechava a cara, tamb\u00e9m pouco lhe sorria.<\/p>\n<p>Mas esses poucos sorrisos e as poucas oportunidades foram transformados em vit\u00f3rias pelo garoto. Vieram os estudos b\u00e1sicos, os secund\u00e1rios, o curso superior, os cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o <em>lato<\/em> e <em>stricto sensu<\/em>. As p\u00e1ginas lidas foram aos poucos se transformando em palavras escritas. A imagina\u00e7\u00e3o, as observa\u00e7\u00f5es e as discuss\u00f5es acad\u00eamicas ganharam forma de artigos, resenhas, livros, estudos acad\u00eamicos e cient\u00edficos, cursos ministrados, palestras proferidas, participa\u00e7\u00f5es em bancas, mesas- redondas, eventos de todos os n\u00edveis. Aos poucos, gra\u00e7as a seus textos e a sua obstina\u00e7\u00e3o pelas palavras escritas, o garoto t\u00edmido deixou o anonimato, pelo menos em uma parte de sua prov\u00edncia, e tentou transformar seus sonhos outrora quase imposs\u00edveis e delirantes, verdadeiras quimeras do absurdo, em voos.<\/p>\n<p>Lembrando o poeta Luiz Guimar\u00e3es J\u00fanior, posso inclusive dizer que<\/p>\n<p>Meu sonho \u00e9 como a canoa<\/p>\n<p>que voa, voa, voa e voa<\/p>\n<p>nas \u00e1guas do ribeir\u00e3o.<\/p>\n<p>Para tudo voltar para o mar, seja o mar de Maranh\u00e3o, seja o mar de S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar, cidade onde nasci, mas onde infelizmente n\u00e3o me criei.<\/p>\n<p>E um desses sonhos inacredit\u00e1veis \u00e9 este que hoje sai da abstra\u00e7\u00e3o e entra na biografia do menino que se tornou adulto, constituiu fam\u00edlia, teve filhos, lutou, sofreu, ganhou e perdeu, mas nunca desistiu. Entrar para o quadro de membros da Casa de Ant\u00f4nio Lobo \u00e9 um sonho acalentado por muitos, mas concretizado por poucos. Ent\u00e3o vivam os sonhos. Vivamos os sonhos. Fa\u00e7amos de cada um deles um degrau na longa escada que \u00e9 nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Hoje, esta noite de festa e de alegria \u00e9 tamb\u00e9m de saudades e de pesar, pois para que eu ingressasse nesta Casa, um amigo, infelizmente, teve que cessar sua atua\u00e7\u00e3o e deixar uma vac\u00e2ncia que jamais poder\u00e1 ser preenchida. As pessoas s\u00e3o insubstitu\u00edveis e, conforme lembrou em sua cr\u00f4nica de estreia no jornal O Estado do Maranh\u00e3o, o nobre amigo, colega de longas conversas e doravante tamb\u00e9m confrade Sebasti\u00e3o Moreira Duarte, pode haver sucess\u00e3o de pessoas, mas nunca a substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa forma, o teatr\u00f3logo, contista, jornalista e romancista Ubiratan Teixeira, meu antecessor nesta cadeira 36, jamais ser\u00e1 substitu\u00eddo e a cerim\u00f4nia de hoje n\u00e3o \u00e9 um ato de substitui\u00e7\u00e3o de uma pessoa por outra, mas t\u00e3o somente um momento de sucess\u00e3o, uma cerim\u00f4nia solene na qual o passado e o presente se encontram, e, por alguns momentos, andam de m\u00e3os dadas rumo a um futuro incerto. Em momentos como este, os patronos e antigos ocupantes das cadeiras desta Casa se reencontram em discursos, palmas e alegrias, deixam o inc\u00f4modo vazio do sil\u00eancio e voltam a reinar em uma Casa que foi e que sempre ser\u00e1 de cada um deles.<\/p>\n<p>\u00c9 com muito orgulho, ent\u00e3o, que assumo agora a responsabilidade de trazer novamente \u00e0 luz das recorda\u00e7\u00f5es os nomes, os feitos, as obras e um pouco da vida dos ilustres nomes que dignificaram esta cadeira que de hoje at\u00e9 o \u00faltimo segundo da minha vida ocuparei.<\/p>\n<p>TASSO FRAGOSO<\/p>\n<p>Comecemos falando do homem que foi escolhido como patrono desta trig\u00e9sima sexta Cadeira da Casa de Ant\u00f4nio Lobo, o general, historiador e escritor Augusto Tasso Fragoso, augusto no nome e augusto tamb\u00e9m nas a\u00e7\u00f5es que marcaram sua vida. Falemos um pouco sobre nosso patrono.<\/p>\n<p>Filho enlace do portugu\u00eas Joaquim Coelho Fragoso com a brasileira Maria Cust\u00f3dia de Sousa Fragoso, Augusto Tasso Fragoso veio ao mundo em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o no dia 28 de agosto de 1869. Possivelmente motivado pelo pai, que era um homem voltado n\u00e3o apenas para o com\u00e9rcio, mas tamb\u00e9m para os aspectos culturais, o futuro general, desde a juventude se viu inclinado tanto \u00e0 vida militar quanto \u00e0s letras, principalmente \u00e0 historiografia.<\/p>\n<p>Em sua terra natal, o jovem Tasso Fragoso foi alfabetizado e come\u00e7ou a penetrar no mundo das palavras escritas e tamb\u00e9m nos traumas dos castigos f\u00edsicos, sendo raramente elogiado por seus muitos acertos durante as chamadas argui\u00e7\u00f5es e severamente punido nas raras vezes em que a resposta desejada pelo seu sempre lembrado professor Pires n\u00e3o acudia \u00e0 mem\u00f3ria. As quase sempre injustas palmatoradas recebidas durante seus primeiros estudos n\u00e3o fizeram dele um homem rancoroso ou desejoso de vingan\u00e7a. Ao contr\u00e1rio, fez com que aquele rapaz desenvolvesse forte senso de justi\u00e7a e o enorme desejo de defender os mais fracos, sentimentos que iriam acompanh\u00e1-lo durante toda a vida.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma d\u00e9cada e meia vivendo em sua cidade de nascimento, era hora de expandir seus horizontes. Ingressou nas for\u00e7as armadas e entre 1885 e 1889 estudou na Escola Militar, institui\u00e7\u00e3o na qual se graduou em Artilharia. Logo depois ingressou na Escola Superior de Guerra, onde se bacharelou em Matem\u00e1tica, Ci\u00eancias F\u00edsicas e Engenharia Militar. Nessa \u00e9poca tamb\u00e9m, al\u00e9m de travar amizade com Euclides da Cunha e C\u00e2ndido Rondon, entrou em contato com as ideias de Benjamim Constant, de quem se tornou disc\u00edpulo e a quem se referia como o maior mestre de todos os tempos, segundo informa\u00e7\u00e3o de Francisco de Paula e Azevedo Pond\u00e9, que fez bel\u00edssima homenagem ao General durante as comemora\u00e7\u00f5es de seu centen\u00e1rio de nascimento.<\/p>\n<p>As atua\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares de Tasso Fragoso foram de vital import\u00e2ncia para a Hist\u00f3ria do Brasil. Em variados momentos, ele apareceu de forma decisiva quando o povo precisava de sua interven\u00e7\u00e3o, de sua for\u00e7a e de sua coragem de enfrentar situa\u00e7\u00f5es quase sempre adversas. Antes mesmo de ser graduado como oficial, ele j\u00e1 participava com sucesso de uma miss\u00e3o militar que culminou com a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em 1889. Seu nome come\u00e7a ent\u00e3o a ganhar proje\u00e7\u00e3o nacional, levando-o a ser indicado pelo Maranh\u00e3o para compor o quadro dos deputados respons\u00e1veis pela elabora\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1891. Ele n\u00e3o aceitou tal incumb\u00eancia, assim como tamb\u00e9m recusou, logo depois, ser intendente (cargo equivalente hoje a prefeito) do ent\u00e3o Distrito Federal.<\/p>\n<p>Cinco anos ap\u00f3s a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, durante a Revolta da Armada, que tentava anular os poderes pol\u00edticos de Floriano Peixoto, Tasso Fragoso foi gravemente ferido, mas mesmo sem estar totalmente recuperado, reapresentou-se ao quartel para continuar cumprindo suas obriga\u00e7\u00f5es para com a P\u00e1tria. Embora tenha recebido diversas indica\u00e7\u00f5es para exercer cargos executivos e administrativos no Governo, Tasso Fragoso quase sempre decidia por declinar os convites quando considerava que n\u00e3o poderia contribuir tanto quanto queria com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Ap\u00f3s muita insist\u00eancia, acabou assumindo alguns cargos p\u00fablicos, como, por exemplo, intendente do Departamento de Obra e Via\u00e7\u00e3o Geral, chefe da Casa Militar no governo de Venceslau Br\u00e1s, chefe do Estado-Maior do Ex\u00e9rcito brasileiro e ministro do Supremo Tribunal Militar.<\/p>\n<p>Contudo, o momento mais lembrado da longa trajet\u00f3ria militar do patrono da cadeira 36 da Academia Maranhense de Letras foi quando, em 1930, integrou, juntamente com outros militares, a junta governativa militar provis\u00f3ria que dep\u00f4s o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica Washington Lu\u00eds e impediu que o candidato eleito J\u00falio Prestes assumisse a presid\u00eancia. No meio desse tumultuado momento hist\u00f3rico, Augusto Tasso Fragoso chegou a assumir o cargo de presidente do Brasil no curto per\u00edodo compreendido entre 24 de outubro e 03 de novembro daquele hist\u00f3rico ano de 1930, entregando depois o cargo a Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio \u00e9 descrito pelo respeitado historiador Pedro Calmon, no sexto volume de sua famosa obra <em>Hist\u00f3ria do Brasil<\/em>, com as seguintes palavras:<\/p>\n<p>Alguns generais, desgostosos com a pol\u00edtica oficial e pessimistas em face a seu insucesso, desejavam evitar que o pa\u00eds se dividisse em dois ex\u00e9rcitos que se destroem, como nos Estados Unidos da Am\u00e9rica nos tempos de Lincoln. Um deles, por ventura o de maior renome, Tasso Fragoso, acreditava na derrota do governo. (&#8230;) Consultado antes por Lindolfo Collor, dissera repugnar tomar arma contra a legalidade, mas lhe faltava entusiasmo para ajud\u00e1-la. (CALMON, 1963, p. 2275).<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, pode causar espanto que um homem de armas possa ter sido escolhido para patronear uma cadeira de uma das institui\u00e7\u00f5es culturais mais antigas do Brasil, como esta nobre Academia Maranhense de Letras, tamb\u00e9m conhecida como Casa de Ant\u00f4nio Lobo. Esse espanto tamb\u00e9m foi declarado pelo pesquisador Ant\u00f4nio Noberto, quando tomou posse no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, na cadeira 43, tamb\u00e9m patroneada, pelo ilustre general e pol\u00edtico maranhense. Contudo, todos os que come\u00e7am a se debru\u00e7ar sobre a vida e obra desse homem de armas e de letras s\u00e3o logo levados pela admira\u00e7\u00e3o. Lembro-me tamb\u00e9m que assim que fui eleito para esta Casa, o sempre amigo e agora tamb\u00e9m confrade Sebasti\u00e3o Moreira Duarte, ao me indagar sobre quem seria o patrono deste assento a que doravante ocuparei, me disse com sua voz de tenor: \u201cVoc\u00ea vai se encantar com a hist\u00f3ria desse homem\u201d. Outro amigo acad\u00eamico, o escritor e desembargador Lourival Serejo, na primeira reuni\u00e3o da Academia a que compareci ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, me mostrou um pequeno quadro na parede e me disse apontando para um selo que comp\u00f5em o conjunto: \u201cVeja, ali est\u00e1 Tasso Fragoso, um dos poucos maranhenses que foram homenageados pelos Correios com um selo comemorativo\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas por sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar que Augusto Tasso Fragoso foi lembrado para patronear uma cadeira nesta Casa, mas tamb\u00e9m por suas incurs\u00f5es no campo das letras, mais notadamente no territ\u00f3rio da historiografia. Al\u00e9m de colabora\u00e7\u00f5es com artigos em revistas de cunho acad\u00eamico provavelmente desde a segunda metade dos anos oitenta do s\u00e9culo XIX, nosso militar-escritor tamb\u00e9m escreveu dois importantes livros que comentam em analisam momentos da Hist\u00f3ria do Brasil. Em 1922, pela Imprensa Militar, ele publicou <em>A Batalha do Passo Ros\u00e1rio<\/em>, livro no qual \u201cabordou o maior choque militar jamais travado em territ\u00f3rios brasileiros, durante a Guerra Cisplatina, em 20 de fevereiro de 1827\u201d, conforme explica o historiador M\u00e1rio Maestri (2012) em um dos raros artigos cient\u00edficos dedicados ao escritor maranhense. N\u00e3o se contentando em narrar e comentar os fatos, Fragoso aproveitou parte do seu livro para propor um estudo mais aprofundado sobre a hist\u00f3ria militar no Brasil.<\/p>\n<p>Mas seu trabalho de maior f\u00f4lego foi <em>Hist\u00f3ria da Guerra entre a Tr\u00edplice Alian\u00e7a e o Paraguai<\/em>, publicado em 1934 pela Imprensa do Estado Maior do Ex\u00e9rcito. Esse trabalho \u00e9 tido at\u00e9 hoje como uma esp\u00e9cie de paradigma para a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria cr\u00edtica da vida militar brasileira. Partindo de exaustivas pesquisas em fontes documentais oriundas dos quatro pa\u00edses envolvidos no conflito, o general, que era visivelmente influenciado pelas ideias positivistas, analisa os fatos que desencadearam o conflito, bem como os reflexos disso nas rela\u00e7\u00f5es entre os pa\u00edses envolvidos.<\/p>\n<p>Depois de ocupar diversos cargos p\u00fablicos, de exercer importantes pap\u00e9is na vida pol\u00edtica brasileira e de ter seu nome citado entre as mais importantes personalidades de sua \u00e9poca, Tasso Fragoso continuou dedicando seu tempo \u00e0 na\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ser compulsoriamente aposentado por haver completado setenta anos de idade, vindo a falecer seis anos depois, exatamente no dia 20 de setembro de 1945, n\u00e3o sem antes deixar para a posteridade outros trabalhos historiogr\u00e1ficos de sua lavra, como \u00e9 o caso de <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha<\/em>, <em>Os Sofismas e as Contradi\u00e7\u00f5es do Doutor Max Fleiuss<\/em> e <em>Franceses no Rio de Janeiro<\/em>.<\/p>\n<p>Por sua atua\u00e7\u00e3o no campo da Hist\u00f3ria, bem como por sua erudi\u00e7\u00e3o e respeito aos m\u00e9todos hist\u00f3ricos da \u00e9poca, Tasso Fragoso passou a ser conhecido como pai da Hist\u00f3ria Militar Cr\u00edtica no Brasil, seus trabalhos, mesmo que hoje pouco divulgados, s\u00e3o importantes fontes de pesquisa sobre a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social brasileira.<\/p>\n<p>Com esses breves coment\u00e1rios sobre a vida e a obra desse valoroso intelectual maranhense, acredito que todos os presentes j\u00e1 devem estar convencidos de sua import\u00e2ncia para as letras brasileira e de sua merecida escolha para patronear a cadeira 36 desta Academia.<\/p>\n<p>BACELAR PORTELA<\/p>\n<p>O fundador e, consequentemente, primeiro ocupante desta citada cadeira foi o m\u00e9dico, professor, pesquisador e escritor Jo\u00e3o Bacelar Portela.<\/p>\n<p>Nascido na cidade de Santa Quit\u00e9ria, no dia 16 de junho de 1906, filho do casal Viriato Oliveira dos Santos e Rosa Bacelar Portela, o jovem Jo\u00e3o Bacelar Portela, seguindo os passos de tantos outros meninos de sua \u00e9poca, cedo teve que emigrar para a capital piauiense, a fim de iniciar seus estudos prim\u00e1rios.<\/p>\n<p>Conclu\u00eddos os estudos iniciais, ele regressou \u00e0 terra natal e foi trazido para S\u00e3o Lu\u00eds, onde foi matriculado no Semin\u00e1rio Santo Ant\u00f4nio. Mas seu esp\u00edrito inquieto, questionador e voltado para o mundo das ci\u00eancias parece n\u00e3o ter se adaptado \u00e0s r\u00edgidas normas estabelecidas por aquela secular institui\u00e7\u00e3o de ensino.<\/p>\n<p>Apaixonado pelos n\u00fameros, o jovem Bacelar Portela alimentou o sonho de graduar-se em Engenharia, chegando a frequentar o curso por um ano, contudo, atendendo a pedidos da fam\u00edlia, voltou-se para a \u00e1rea da sa\u00fade e cursou a Faculdade de Farm\u00e1cia por dois anos, com o intuito de depois transferir-se para Medicina, que passou a ser seu foco de estudo. Por\u00e9m, algumas altera\u00e7\u00f5es na Legisla\u00e7\u00e3o da \u00e9poca serviram como entrave a seus objetivos. Ele teve ent\u00e3o que prestar novo exame para ingressar naquele curso superior da Escola de Medicina da Praia Vermelha, institui\u00e7\u00e3o pela qual se formou em 1932.<\/p>\n<p>Aproximadamente tr\u00eas anos ap\u00f3s colar grau, Bacelar Portela contraiu n\u00fapcias com a senhora Maria Alice Abreu, com quem teve cinco filhos \u2013 Delzita, Maria Y\u00eadda, Edna, Edenir e Jo\u00e3o Filho.<\/p>\n<p>Contudo, o fato de dedicar-se com afinco \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 carreira medica n\u00e3o apagou naquele homem o interesse pelas letras, pelo magist\u00e9rio e por outras \u00e1reas do conhecimento, com, por exemplo a matem\u00e1tica e o estudo da obra de grandes vultos de nossas letras.<\/p>\n<p>O magist\u00e9rio foi um dos caminhos seguidos por esse intelectual maranhense que nunca se contentava com os conhecimentos adquiridos e sempre buscava aprender mais e mais. O casamento entre o senso de pesquisador e o dom do magist\u00e9rio fez com que ele concorresse a vagas de professor em diversas institui\u00e7\u00f5es de ensino. E para lograr os resultados desejados, lia, pesquisava, escrevia e defendia suas teses.<\/p>\n<p>Para concorrer ao posto de catedr\u00e1tico de Fisiologia da Escola de Farm\u00e1cia e Odontologia da capital maranhense, escreveu a tese intitulada <em>Da Fun\u00e7\u00e3o dos Canais Semicirculares<\/em>, trabalho esse que foi publicado em forma de livro em Teresina, no ano de 1941, e que foi muito elogiado por intelectuais como Domingos Vieira Filho, que comentou haver sido a referida tese alvo de diversas discuss\u00f5es \u201cpelo ousado dos princ\u00edpios\u201d, sendo seu autor \u201csaudado com efus\u00e3o nos meios cient\u00edficos do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m com a finalidade de concorrer a outra c\u00e1tedra, desta feita para a disciplina No\u00e7\u00f5es de Psicologia Geral e Psicologia Educacional, que ele escreveu outro de seus importantes trabalhos, a tese <em>A No\u00e7\u00e3o de Espa\u00e7o<\/em>, que tamb\u00e9m foi muito elogiada e ainda hoje pode servir como refer\u00eancias para os estudos sobre as variadas percep\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Outro trabalho de relevo do Doutor Bacelar Portela \u00e9 um livro publicado em 1975, pela Editora da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, sobre a vida e a obra do grande matem\u00e1tico maranhense Joaquim Gomes de Sousa. Possivelmente a paix\u00e3o pelas ci\u00eancias exatas e pela trajet\u00f3ria dos grandes homens de nossa hist\u00f3ria tenham feito Bacelar Portela dedicar grande parte de sua vida a buscar refer\u00eancias e a estudar a vasta produ\u00e7\u00e3o intelectual daquele genial maranhense que causava espanto por suas dedu\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Homem bastante requisitado para confer\u00eancias e palestras, Bacelar Portela n\u00e3o se esquivava de suas responsabilidades como m\u00e9dico, professor, pesquisador e pai de fam\u00edlia. Mesmo assim encontrava tempo para desenvolver diversos trabalhos voltados para variados campos do saber humano. Lutando para dar maior visibilidade aos valores de nossa terra, ele muito discursou sobre nossas letras e escreveu ensaios sobre autores como Nina Rodrigues, Nauro Machado, Gon\u00e7alves Dias e Jos\u00e9 Nascimento Morais, al\u00e9m de produzir um at\u00e9 hoje lembrado e estudado ensaio intitulado: <em>Psicologia Geral do Ind\u00edgena: processo de matura\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do \u00edndio no contexto de sua cultura<\/em>, trabalho que at\u00e9 hoje desperta muito interesse por seu pioneirismo.<\/p>\n<p>Por seu engajamento cultural e por sua brilhante intelig\u00eancia, Bacelar Portela acabou sendo eleito, no dia 1\u00ba de julho de 1950, para a cadeira 36 da Academia Maranhense de Letras, e tomou posse cerca de cinco semanas depois, no dia 10 de agosto, sendo recebido por Achilles Lisboa. A data da posse de Bacelar Portela \u00e9 emblem\u00e1tica para esta Casa por ser anivers\u00e1rio do grande poeta Gon\u00e7alves Dias e tamb\u00e9m data oficial da funda\u00e7\u00e3o desta Academia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de digno membro da Academia Maranhense de Letras, nosso escritor recebeu muitas outras honrarias, como, apenas para citar algumas: membro do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, Cavaleiro da Ordem de S\u00e3o Silvestre, Professor Em\u00e9rito da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e membro titular do Col\u00e9gio Brasileiro de Cirurgi\u00f5es, al\u00e9m de haver sido agraciado com a Medalha Gon\u00e7alves Dias por esta Academia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Bacelar Portela faleceu em 31 julho de 1978. No dia seguinte, os principais jornais do Estado comunicavam em not\u00edcias sint\u00e9ticas a grande perda. Todos elogiavam a bela trajet\u00f3ria intelectual do acad\u00eamico e tra\u00e7avam um breve perfil biobibliogr\u00e1fico do falecido escritor. Sete dias ap\u00f3s o passamento do intelectual maranhense, o colunista Wady Sauaia publicou em <em>O Imparcial<\/em> uma bela cr\u00f4nica na qual relembrava algumas passagens pitorescas da vida de Bacelar Portela, destacando seu talento nato para a medicina e para o magist\u00e9rio. Depois disso a morte de nosso escritor foi eclipsada pela not\u00edcia do passamento do Papa Paulo VI. Atualmente, como lembra o poeta e ensa\u00edsta Nauro Machado, Bacelar Portela tem seu nome injustamente relegado ao esquecimento.<\/p>\n<p>Para concluir esse breve esbo\u00e7o biobibliogr\u00e1fico desse not\u00e1vel maranhense, transcrevo aqui um cromo liter\u00e1rio criado por Fernando Viana em que descreve o primeiro ocupante desta cadeira.<\/p>\n<p>Levando em conta o apaixonado arroubo<br \/>\nCom que outrora abusou da Poesia,<br \/>\nAchou-se o cirurgi\u00e3o, \u00e0 revelia,<br \/>\nDentro do Trianon de Ant\u00f4nio Lobo<\/p>\n<p>Profissional consciente, ativo e probo,<br \/>\nFirmou-se com vigor na cirurgia,<br \/>\nE, entre os maiores cirurgi\u00f5es do globo,<br \/>\nH\u00e1-de seu nome figurar um dia.<\/p>\n<p>Estatura me\u00e3, sorriso franco<br \/>\nTraz, de harmonia com o cabelo branco,<br \/>\nNo rosto vivo, o olhar mordaz e arguto.<\/p>\n<p>Vov\u00f4 mo\u00e7o de an\u00fancio de elixir,<br \/>\nFuma tanto que se h\u00e1-de concluir<br \/>\nQue vive pendurado num charuto&#8230;<\/p>\n<p>UBIRATAN TEIXEIRA<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m com carinho e admira\u00e7\u00e3o que come\u00e7o a falar agora de meu antecessor, o m\u00faltiplo intelectual Ubiratan Teixeira, um homem que fez da pr\u00f3pria vida um tablado e que fez da palavra sua grande arma de combate contra tudo aquilo que ele julgava injusto.<\/p>\n<p>Filho do casal Raimundo de Ara\u00fajo Teixeira e Rosa Sanches Pereira Teixeira, Ubiratan Pereira Teixeira nasceu em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o no dia 14 de outubro de 1931. Ainda na inf\u00e2ncia, perdeu parte da fam\u00edlia biol\u00f3gica, que foi vitimada pela tuberculose, sendo ent\u00e3o criado por uma tia e pelo marido desta. Em um depoimento, ele comentou que \u201capesar de ter tido uma inf\u00e2ncia e uma adolesc\u00eancia cercadas de mimos e cuidados especiais, arte e literatura n\u00e3o tinham guarida com o sargento Vi\u00e9gas\u201d.<\/p>\n<p>O contato com as letras e com as artes em geral veio do conv\u00edvio com mestres dos melhores col\u00e9gios da cidade na \u00e9poca: Jardim Decroly, onde fez os estudos iniciais, e Col\u00e9gio S\u00e3o Lu\u00eds, onde come\u00e7ou amizade com o professor Luiz Rego e com muitos outros intelectuais. Como n\u00e3o podia dedicar-se \u00e0 leitura de forma expl\u00edcita, tinha que recorrer a diversos subterf\u00fagios para poder mergulhar no mundo da leitura. Foi escondido, ent\u00e3o, que aos dez ou doze anos leu o primeiro livro que marcou sua vida:\u00a0 <em>Dom Quixote de la Mancha<\/em>, de Miguel de Cervantes. Depois vieram in\u00fameras outras leituras, cursos, gradua\u00e7\u00f5es e uma forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica s\u00f3lida, mas em constante constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da leitura para a escrita foi um passo natural para aquele homem que bebeu na fonte de mestres como Ant\u00f4nio Martins de Ara\u00fajo, Jo\u00e3o Mohana, Fernando Moreira, Luiz Rego e muitos outros que contribu\u00edram para que aquele rapaz simples se tornasse um dos mais respeitados escritores das letras maranhenses.<\/p>\n<p>O que tamb\u00e9m contribuiu para que Ubiratan Teixeira moldasse seu estilo foram as lides com o jornalismo. Em sua vida profissional, ele escreveu sobre praticamente tudo e acabou se especializando na cr\u00edtica voltada para a arte, escrevendo sobre cinema, artes pl\u00e1sticas e, principalmente, teatro e literatura.<\/p>\n<p>Seu talento o levou a concorrer a uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, na vac\u00e2ncia ocasionada pelo passamento de Jo\u00e3o Bacelar Portela. Seguindo os rituais para ingresso nesta Casa, ele foi eleito no dia 07 de dezembro de 1978 e tomou posse no dia 04 de outubro do ano seguinte, sendo recepcionado Bernardo Almeida, em concorrida cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Acredito que todos os que est\u00e3o aqui presentes conheceram Ubiratan Teixeira, que era carinhosamente chamado de Velho Bira pelos companheiros e admiradores, ent\u00e3o antes de passar para o estudo da obra de meu antecessor, recorro novamente a um membro da fam\u00edlia Viana, desta vez ao consagrado poeta e romancista Waldemiro Viana, que, em poucos versos, tra\u00e7ou um perfil de nosso homenageado. Aqui est\u00e1 um trecho do soneto dedicado ao autor de <em>Vela ao Crucificado:<\/em><\/p>\n<p>\u00c0 vontade ao pregar no anfiteatro,<br \/>\ndebochado, brig\u00e3o, quase niilista,<br \/>\nadora uma postura antielitista<br \/>\ne \u00e9 o bambamb\u00e3 das artes do Teatro.<\/p>\n<p>Contista, novelista, jornalista,<br \/>\nmilh\u00f5es de <em>istas<\/em> e o diabo a quatro<br \/>\napesar do semblante tenso e atro<br \/>\nnas conversas atrai, seduz, conquista.<\/p>\n<p>\u00c9 esse um interessante retrato em 3 x 4 de um homem que conquistava com sua conversa franca e com seu jeito despojado de cerimonialismo.<\/p>\n<p>Conforme veremos a seguir, a obra de Ubiratan Teixeira \u00e9 vasta e bastante diversificada, indo do conto \u00e0 literatura infanto-juvenil e passando por teatro, novela e mem\u00f3ria. Em cada p\u00e1gina escrita, Ubiratan Teixeira deixava suas digitais em forma de um estilo inconfund\u00edvel que valorizava as classes menos favorecidas na prosa de fic\u00e7\u00e3o sem esquecer as mais delicadas e elaboradas obras de arte nos ensaios e cr\u00f4nicas sobre a cultura em geral.<\/p>\n<p>Eis aqui, elencadas suas obras publicadas:<\/p>\n<ul>\n<li><em>Pequeno Dicion\u00e1rio de Teatro<\/em> \u2013 (1972) \u2013 ampliado e relan\u00e7ado em 2005 com o t\u00edtulo de <em>Dicion\u00e1rio de Teatro<\/em><\/li>\n<li><em>Sol dos navegantes<\/em> (1975) \u2013 conto<\/li>\n<li><em>Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica para o 1\u00ba grau<\/em> (1975) \u2013 obra t\u00e9cnica<\/li>\n<li><em>Hist\u00f3rias de amar e morrer<\/em> (1978) &#8211; conto<\/li>\n<li><em>Vela ao crucificado<\/em> (1979) \u2013 conto \u2013 Reeditado em 2010 com acr\u00e9scimo da pe\u00e7a teatral (adaptada por W\u00edlson Martins) e do roteiro cinematogr\u00e1fico (elaborado por Frederico Machado)<\/li>\n<li><em>Caminho sem tempo<\/em> (1979) \u2013 teatro<\/li>\n<li><em>O Banquete<\/em> (1986) \u2013 novela<\/li>\n<li><em>Bento e o boi<\/em> \u2013 (1987) teatro<\/li>\n<li><em>O teatro que fiz, o espet\u00e1culo que vivi<\/em> (1989) \u2013 mem\u00f3ria<\/li>\n<li><em>B\u00fali-B\u00fali<\/em> (1992) \u2013 literatura infantil<\/li>\n<li><em>A Ilha<\/em> (1998) \u2013 novela<\/li>\n<li><em>Pessoas<\/em> \u2013 (1999) \u2013 contos<\/li>\n<li><em>Labirintos<\/em> (2009) \u2013 Novela<\/li>\n<li><em>Di\u00e1rio de Campo<\/em> (2010) \u2013 cr\u00f4nicas<\/li>\n<li><em>Bastidores<\/em> (2012) \u2013 cr\u00f4nicas<\/li>\n<\/ul>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, meu primeiro contato com Ubiratan Teixeira veio atrav\u00e9s das p\u00e1ginas dos livros. Era o ano de 1987. Eu era estudante do curso de Constru\u00e7\u00e3o Civil da antiga Escola T\u00e9cnica Federal do Maranh\u00e3o, que depois teve sua identidade alterada para Centro Federal de Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica (Cefet) e atualmente se chama Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia (Ifma). Mesmo fazendo um curso no qual os c\u00e1lculos eram um imperativo, sempre que podia eu estava na biblioteca da institui\u00e7\u00e3o, vasculhando as prateleiras em busca de algo para ler. Um dia, quase por acidente, meus dedos \u00e1vidos de novidades tocaram a capa de um pequeno volume intitulado <em>O Banquete.<\/em><\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, eu acabava de regressar ao meu torr\u00e3o natal e ainda me sentia um estrangeiro na pr\u00f3pria terra. Procurava conhecer ent\u00e3o o terreno onde pisava a partir de incessantes leituras das obras dos autores locais. Lia tudo o que passava diante dos meus olhos, mas confesso que me senti incomodado diante daquela narrativa pouco convencional. O livro foi lido em algumas horas, mas a sensa\u00e7\u00e3o de desconforto diante daquelas inusitadas cenas me acompanhou durante semanas. Posso dizer que foi esse livro de Ubiratan Teixeira que abriu caminho para que eu mergulhasse mais profundamente na produ\u00e7\u00e3o em prosa de nosso Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Anos depois, j\u00e1 estudando Letras na Universidade Federal do Maranh\u00e3o, assaltou-me a certeza de que n\u00f3s mesmos, maranhenses de nascimento ou por ado\u00e7\u00e3o, desconhec\u00edamos nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Havia (e ainda h\u00e1) um f\u00e9rtil terreno vazio a ser explorado com rela\u00e7\u00e3o aos estudos das letras de nosso Estado. Comecei ent\u00e3o a colecionar recortes de jornais que falassem sobre obras, autores e momentos liter\u00e1rios de minha prov\u00edncia. Eis que novamente Ubiratan Teixeira cruza com meu caminho&#8230;<\/p>\n<p>Um dos primeiros jornais que guardei era uma reportagem sobre as dificuldades encontradas por um escritor em nosso Estado. Ilustrando o texto estava uma imensa foto de Ubiratan Teixeira diante de uma m\u00e1quina de escrever. Como pano de fundo, uma estante com livros, livros, muitos livros. Mal sabia eu que alguns anos depois, aquele escritor t\u00e3o estimado sairia das p\u00e1ginas dos jornais e se tornaria uma realidade diante de meus olhos em eventos, lan\u00e7amentos de livros, palestras, feiras liter\u00e1rias, festivais de literatura e bate-papo com estudantes.<\/p>\n<p>Quando em 2005 para 2006, conquistei, com o livro <em>Restos de Vidas Perdidas<\/em>, o pr\u00eamio Odylo Costa, filho no Concurso Cidade de S\u00e3o Lu\u00eds, novamente Ubiratan Teixeira aparecia diante de mim em forma de jurado. Somente alguns meses depois do resultado divulgado soube que ele havia sido um dos avaliadores, o que me deixou deveras honrado e que, ao meu ver, valorizou ainda mais o pr\u00eamio por mim recebido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos contatos pessoais com o Ubiratan ser humano, tive na condi\u00e7\u00e3o de estudioso da literatura maranhense in\u00fameros momentos com o Ubiratan de papel, em forma de livros e de artigos de jornal. Li avidamente muitos de seus trabalhos sem ter a menor ideia de que hoje estaria aqui, no mesmo local onde o vi pela \u00faltima vez, fazendo-lhe esta homenagem.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, obra de Ubiratan Teixeira \u00e9 vasta e variada, indo desde trabalhos t\u00e9cnicos at\u00e9 obras voltadas para o p\u00fablico infanto-juvenil, passando por contos, novelas, romances, pe\u00e7as de teatro, cr\u00f4nicas e depoimentos. Cada p\u00e1gina sua era temperada com um estilo pr\u00f3prio, reconhec\u00edvel \u00e0 dist\u00e2ncia pelos admirados de seus textos.<\/p>\n<p>Como cronista, Ubiratan Teixeira atuou durante d\u00e9cadas na imprensa maranhense, produzindo uma infinidade de textos sobre in\u00fameros assuntos, mas com prefer\u00eancia pela discuss\u00e3o sobre a vida intelectual de nossa cidade. Ele era um cr\u00edtico \u00e1cido e feroz do abandono cultural n\u00e3o s\u00f3 da Ilha, mas de todo o Estado. Reclamava com frequ\u00eancia da falta de assist\u00eancia aos artistas e produtores culturais e derramava-se de felicidade quando via que algum projeto estava dando certo. Contudo, infelizmente esses arroubos de alegria n\u00e3o eram t\u00e3o constantes em suas p\u00e1ginas, pois o que imperava e ainda impera em nossa terra \u00e9 o abandono dos artistas e produtores culturais e o olvido por parte de algumas das autoridades constitu\u00eddas.<\/p>\n<p>Em seus contos, nosso escritor optou por dar voz aos desvalidos, \u00e0s pessoas que tiveram sua dignidade e at\u00e9 mesmo a cidadania negadas por um processo social e hist\u00f3rico que se repete ao longo dos tempos. Basta lembrar o conto <em>Vela ao Crucificado<\/em>, uma brilhante met\u00e1fora das condi\u00e7\u00f5es desumanas de uma fam\u00edlia que se v\u00ea sem ter o que fazer diante de uma situa\u00e7\u00e3o indesejada da morte de um de seus filhos. Nessa breve, mas contundente passagem, o narrador n\u00e3o se limita a contar uma hist\u00f3ria, mas sim busca levar o leitor a uma reflex\u00e3o sobre a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o desumana em que vive uma parcela da sociedade. Na obra, pessoas, insetos, mis\u00e9ria e sofrimento se mesclam simbioticamente, formando um todo compacto em que prevalece a desesperan\u00e7a em dias melhores.<\/p>\n<p>Ainda com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 narrativa curta, aproveito tamb\u00e9m para destacar o conto <em>Cinderela do Lix\u00e3o<\/em>, que se encontra enfeixado no volume <em>Pessoas<\/em>, de 1999. Como o pr\u00f3prio t\u00edtulo j\u00e1 indica, trata-se da hist\u00f3ria de algu\u00e9m que sobrevive \u00e0 margem da sociedade. O conto \u00e9 narrado por um homem que se autodenomina um Predador e que naquela noite sai \u00e0 ca\u00e7a de sua v\u00edtima. No decorrer da narrativa, dois universos sociais se bifurcam e depois se fundem: de um lado est\u00e1 o jornalista que deseja saciar sua libido nas jovens carnes de uma garota bela e aparentemente ing\u00eanua. Do outro, est\u00e1 o mundo-c\u00e3o que se descortina nas cidades assim que as pessoas voltam para suas casas depois de um dia de trabalho. Quando esses dois universos paralelos se encontram, algu\u00e9m tem que sair perdendo. E Ubiratan Teixeira demonstrava em seus contos que quem perde \u00e9 a sociedade como um todo.<\/p>\n<p>Em suas novelas, o prosador maranhense preferia uma forma mais arrojada de narrar as hist\u00f3rias perpetradas, que podem at\u00e9 parecer absurdas em alguns trechos para quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado com os meandros da fic\u00e7\u00e3o moderna, mas que mant\u00e9m um forte tra\u00e7o de coer\u00eancia quando vistas no conjunto. A mistura de eventos inusitados dentro de situa\u00e7\u00f5es veross\u00edmeis e a fragmenta\u00e7\u00e3o do enredo desnorteiam o leitor e muitas vezes exigem uma leitura mais atenta de determinados trechos. \u00c9 o que acontece, por exemplo, em <em>O Banquete<\/em> e <em>A Ilha<\/em>. O pr\u00f3prio autor, ciente de que sua obra poderia despertar d\u00favidas, adverte que:<\/p>\n<p>Os menos avisados podem ser tentados a incluir esta hist\u00f3ria no g\u00eanero fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: no que cometer\u00e3o uma injusti\u00e7a de avalia\u00e7\u00e3o \u00e0 rica vida cotidiana desta fant\u00e1stica cidade de S\u00e3o Lu\u00eds e arredores. A come\u00e7ar pelos personagens, todos carinhosamente resgatados do dia-a-dia de nossa vida cultural, e das loca\u00e7\u00f5es por onde essa gente se movimenta. No meu entender raras cidades brasileiras guardam um acervo de lendas t\u00e3o ricos como S\u00e3o Lu\u00eds. (TEIXEIRA, 1998, p\u00e1g. 5)<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o de Ubiratan Teixeira para o teatro parecia ser sua maior fonte de orgulho. Ele adorava contar e escrever sobre sua atua\u00e7\u00e3o no palco, nos bastidores ou na elabora\u00e7\u00e3o de seus textos. Algumas obras desse autor s\u00e3o essenciais para qualquer pessoa que pretenda conhecer um pouco da produ\u00e7\u00e3o teatral no Maranh\u00e3o. \u00c9 o caso do pequenino, mas muito interessante <em>O teatro que fiz; o espet\u00e1culo que vivi<\/em>, que traz uma radiografia do movimento teatral em S\u00e3o Lu\u00eds a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, e do depoimento cedido a Aldo Leite para compor o livro <em>Mem\u00f3rias do Teatro Maranhense<\/em>. Esse depoimento, por sinal, ajuda a completar as ideias iniciadas no volume anteriormente citado.<\/p>\n<p>Indiscut\u00edvel tamb\u00e9m \u00e9 a import\u00e2ncia de seu <em>Pequeno Dicion\u00e1rio de Teatro<\/em>, que depois se avolumou e recebeu o t\u00edtulo de <em>Dicion\u00e1rio de Teatro<\/em>, ao ser reeditado pelo Instituto Geia, em 2005. O livro, desde sua primeira edi\u00e7\u00e3o, em 1972, mereceu elogios de diversos profissionais ligados \u00e0s artes c\u00eanicas. Esse trabalho traz uma diversidade de termos t\u00e9cnicos e j\u00e1 se tornou uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para estudantes e professores. Segundo palavras da escritora e pesquisadora Arlete Nogueira da Cruz, esse livro \u00e9 bem mais que uma cole\u00e7\u00e3o de verbetes, transformou-se em um documento sobre a arte em geral.<\/p>\n<p>Sabedor de que reunir cr\u00f4nicas publicadas em jornais ao longo de d\u00e9cadas \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua, Ubiratan Teixeira, quase no final de sua jornada, reuniu v\u00e1rios de seus textos sobre teatro em dois livros: <em>Di\u00e1rio de Campo<\/em> e <em>Bastidores. <\/em>Nessas duas obras, o leitor encontra muito mais que textos sobre a produ\u00e7\u00e3o e a representa\u00e7\u00e3o c\u00eanica no Maranh\u00e3o. Encontra o testemunho de um homem que n\u00e3o apenas registrou a hist\u00f3ria de uma \u00e9poca, mas que tamb\u00e9m que viveu e que ajudou a construir essa pr\u00f3pria hist\u00f3ria do teatro em nossas terras durante mais de meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Para terminar esses breves coment\u00e1rios sobre a obra de meu antecessor, falarei um pouco de uma de suas facetas menos conhecidas, a de autor de obra voltada para o p\u00fablico infantil. Seu \u00fanico livro publicado nesse g\u00eanero foi <em>B\u00fali-B\u00fali<\/em>, com ilustra\u00e7\u00f5es de Jesus Santos. O livro \u00e9 uma alegoria que versa sobre assuntos diversos, como fam\u00edlia, leituras, amizade, transforma\u00e7\u00f5es e morte. Em determinado momento o narrador come\u00e7ou a entender que:<\/p>\n<p>Neste mundo em que vivemos tudo tem um come\u00e7o e tem um fim para os nossos olhos. Comecei a sentir que tudo o que \u00e9 um dia muda. (TEIXEIRA, 1992, p. 24).<\/p>\n<p>Ele tinha raz\u00e3o, tudo muda. Mesmo com a sa\u00fade abalada, Ubiratan Teixeira continuou produzindo suas cr\u00f4nicas e alegrando seus admiradores. At\u00e9 que o guerreiro das palavras silenciou.<\/p>\n<p>Lembro-me de que fiquei aquele final de semana inteiro lendo e escrevendo, sem acesso ao r\u00e1dio, televis\u00e3o ou \u00e0 internet. Na segunda-feira, como de costume, acordei cedo, e comecei a me preparar para mais uma semana de trabalho. Ao abrir o jornal, a not\u00edcia era p\u00e9ssima: Ubiratan Teixeira havia falecido.<\/p>\n<p>Era ainda muito cedo e minhas aulas s\u00f3 come\u00e7ariam depois das nove. Decidi ent\u00e3o ir pela \u00faltima vez ao encontro daquele homem casmurro e brincalh\u00e3o ao mesmo tempo. E foi aqui, neste mesmo sal\u00e3o, que me despedi de Ubiratan Teixeira, do lado f\u00edsico apenas, pois suas palavras e suas obras acompanhar\u00e3o para sempre seus leitores e seus admiradores. E eu, senhores e senhoras, sou um dos leitores e admiradores dessa vasta obra.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 Universidade Federal do Maranh\u00e3o, dirigi-me \u00e0 sala de aula. Naquele espa\u00e7o ainda vazio, lembrei-me daquela fotografia de Ubiratan diante da m\u00e1quina de escrever. Liguei o computador e escrevi um artigo de despedida para aquele grande teatr\u00f3logo, cronista e prosador. Mas n\u00e3o poderia ser um texto comum. Ele merecia algo que trouxesse tudo o que ele mais amava e tudo por que ele lutou durante sua jornada. Ent\u00e3o escrevi o breve texto intitulado <em>Um Espet\u00e1culo Chamado Ubiratan<\/em>, que dias depois saiu publicado em O Estado do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o permiss\u00e3o a voc\u00eas para ler essa pequena cr\u00f4nica, na qual em dez curt\u00edssimas cenas, repasso um pouco do que foi aquele homem que fez de sua vida um palco voltado para as letras. Eis o texto:<\/p>\n<p>As letras maranhenses perderam um grande escritor. Ubiratan Teixeira foi um homem dedicado \u00e0 vida cultural da cidade e que fez de sua vida uma grande obra de arte. Como forma de homenagem, colocamos a seguir um esbo\u00e7o de um espet\u00e1culo que j\u00e1 aconteceu e que nunca mais vai se repetir. As dez cenas a seguir s\u00e3o apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o de um leitor e admirador que sentir\u00e1 falta dos textos, do estilo e das ironias refinadas desse cultor das palavras.<\/p>\n<p>Cena 1 \u2013 (Um quarto iluminado. Pessoas entram e saem. Sussurros) As cortinas da vida se abrem e, sob um raio de luz, aparece no palco da vida a crian\u00e7a que ser\u00e1 registrada com o nome de Ubiratan Teixeira. Sil\u00eancio total. O sil\u00eancio \u00e9 cortado por um forte vagido de crian\u00e7a. Depois, festa e alegria.<\/p>\n<p>Cena 2 \u2013 (Uma rua de um bairro. Muitas crian\u00e7as em cena.) O garoto cresce, leva uma vida de menino solto pelos bairros de sua inf\u00e2ncia e juventude. Encanta-se com as primeiras leituras. Encontra ref\u00fagio nas palavras. Aos poucos percebe que viver \u00e9 mais que respirar, andar, correr. Descobre que viver \u00e9 tamb\u00e9m sonhar, produzir e lutar por dias melhores.<\/p>\n<p>Cena 3 \u2013 (Em sala de aula) O adolescente rebelde procura nas palavras uma forma n\u00e3o apenas de sobreviv\u00eancia, mas sim uma raz\u00e3o de viver. Recebe elogios de diversos mestres e percebe que seu caminho est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 paix\u00e3o pelo texto escrito. O teatro aos poucos vai entrando em sua vida.<\/p>\n<p>Cena 4 \u2013 (Uma sala de espelhos. Ubiratan anda de um lado para o outro, inquieto) Para muitos, o jovem sonhador, de forma alucinada, divide-se entre as reportagens, as cr\u00f4nicas, as pol\u00eamicas jornal\u00edsticas, a fam\u00edlia, o teatro, os estudos, os amigos e sua paix\u00e3o por sua esposa.\u00a0 Mas, na verdade, ele n\u00e3o se dividia. Ele se multiplicava para doar-se a tudo e a todos, para ser pai, esposo, profissional, pesquisador e amigo.<\/p>\n<p>Cena 5 \u2013 (Ubiratan diante de sua m\u00e1quina de escrever, cercado de livros) O escritor ganha vulto. Os livros come\u00e7am a aparecer: Pequeno dicion\u00e1rio de Teatro, Sol dos navegantes, Hist\u00f3ria de amar e morrer, Vela ao crucificado, Caminhos sem tempo, O banquete, Bento e o boi, O teatro que fiz; o espet\u00e1culo que vi, B\u00fali-B\u00fali, A Ilha, Pessoas, Dicion\u00e1rio de Teatro, Labirintos, Di\u00e1rio de campo e Bastidores.<\/p>\n<p>Cena 6 \u2013 (Sal\u00e3o da Academia Maranhense de Letras \u2013 V\u00e1rias cenas em sequ\u00eancia aleat\u00f3ria) Ubiratan toma posse na Academia. Faz seu discurso. Re\u00fane-se com os confrades. Recebe pr\u00eamios e homenagens. Lan\u00e7a livros. Assiste a eventos. Sempre acompanhado da esposa, da fam\u00edlia e de diversos amigos.<\/p>\n<p>Cena 7 \u2013 (Um p\u00e1tio de escola) Ubiratan Teixeira conversa com estudantes. Conta passagens de sua vida. Ri com os jovens. Responde a diversas perguntas. Reclama sobre a invisibilidade do autor maranhense. Incita a juventude a ler, a pesquisar, a estudar.<\/p>\n<p>Cena 8 \u2013 (Um tablado de teatro) O teatr\u00f3logo e diretor Ubiratan Teixeira orienta seus atores. Faz a marca\u00e7\u00e3o das cenas. Repete as falas. Reclama das falhas percept\u00edveis apenas a seus olhos e ouvidos treinados pelo tempo e pela experi\u00eancia de quem viveu v\u00e1rios anos ligado \u00e0s artes dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Cena 9 \u2013 (Diante da mesa de trabalho) O articulista escreve sua cr\u00f4nica semanal. Vocifera contra a enfermidade que o devora. Consulta um dicion\u00e1rio. Volta a escrever. O papel em branco \u00e9 seu desafio di\u00e1rio. Coloca o ponto final na cr\u00f4nica e a envia para o jornal. Levanta-se. Olha ao redor. Abre a porta e sai pela porta da frente, de onde emana um jorro de luz. Miss\u00e3o cumprida.<\/p>\n<p>Cena 10 \u2013 Lentamente as luzes se apagam, as cortinas descem. Luzes. Ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aplausos!<\/p>\n<p>Para concluir, pois sei que muito j\u00e1 me alonguei, devo dizer que me sinto honrado por ingressar nesta nobre Casa, assim tamb\u00e9m como me sinto honrado em pertencer a uma gera\u00e7\u00e3o que fez da literatura uma das raz\u00f5es de sua vida. Hagamenom de Jesus, Ant\u00f4nio Ailton, Bioque Mesito, Ricardo Le\u00e3o, Dino Cavalcante, Samarone Marinho, Lindalva Barros, Jorgeane Braga, Dyl Pires, Geane Fiddan, Geraldo Iensen, Marcos F\u00e1bio Belo Matos, L\u00facia Santos, Bruno Azev\u00eado, eu e muitos outros que come\u00e7aram suas incurs\u00f5es no mundo das letras nos anos 90 do s\u00e9culo passado somos herdeiros de grandes nomes como Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, Jos\u00e9 Chagas, Jo\u00e3o Mohana, Arlete Nogueira da Cruz, Salgado Maranh\u00e3o, Ribamar Galiza, Concei\u00e7\u00e3o Aboud Neves, Josu\u00e9 Montello, Ferreira Gullar, Lucy Teixeira, Sebasti\u00e3o Moreira Duarte, Sonia Almeida, Cl\u00f3vis Ramos, Dagmar Dest\u00earro,\u00a0 Jomar Moraes, Nascimento Moraes Filho, Lu\u00eds Augusto Cassas, Ubiratan Teixeira, Jos\u00e9 Maria Nascimento, \u00a0Raimundo Fontenelle, Paulo Melo Souza, Celso Borges, Rossini Corr\u00eaa, Alberico Carneiro, Waldemiro Viana, Jos\u00e9 Ewerton Neto e de tantos outros que n\u00e3o caberiam nestas p\u00e1ginas, mas que nos serviram como modelo de intelectuais que tanto lutam e lutaram para que nossa terra fosse reconhecida como lugar de arte e de cultura.<\/p>\n<p>Ao entrar para esta Casa, trago comigo o agradecimento a tantas gera\u00e7\u00f5es que me servem e me serviram como fonte de conhecimento. A todos o meu muito obrigado.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>CALMON, Pedro. <em>\u00a0Hist\u00f3ria do Brasil<\/em>. 2 ed. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1963. v. VI.<\/p>\n<p>CRUZ, Arlete Nogueira da. <em>Sal e Sol<\/em>. Rio de Janeiro: Iago, 2006<\/p>\n<p>MAESTRI, M\u00e1rio. Tasso Fragoso e a Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a: hist\u00f3ria e ideologia. In: <em>Revista O Olho da Hist\u00f3ria<\/em> n\u00ba 18. Salvador, jul-2012.<\/p>\n<p>NOBERTO, Ant\u00f4nio. Discurso de posse do escritor Ant\u00f4nio Noberto na cadeira de n\u00famero 43 do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o, patroneada por Tasso Fragoso. In: <em>Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Maranh\u00e3o<\/em>, n\u00ba 39, S\u00e3o Lu\u00eds: IHGM, dez-2011.<\/p>\n<p>VIANA, Fernando [Feliciano Ventura]. <em>Passarela e outros perfis<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: AML\/SIOGE, 1991.<\/p>\n<p>VIANA, Waldemiro. <em>Passarela do centen\u00e1rio e outros perfis<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds: AML, 2008.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">DISCURSO DE RECEP\u00c7\u00c3O por\u00a0Ceres Costa Fernandes<\/h5>\n<p>Escritor e professor Jos\u00e9 Neres Costa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A minha primeira palavra ser\u00e1 de agradecimento pelo j\u00fabilo que me trouxe vosso carinhoso convite. Por conhecer-vos, n\u00e3o hesitei em aceitar o desafio, o privil\u00e9gio de abrir-vos as portas e dar-vos as boas-vindas na hora \u00edmpar do vosso encontro com esta Academia. Faz-se mister reconhecer que, nesta hora, a minha fun\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas simb\u00f3lica. Estas gloriosas portas foram, na verdade, abertas pelo vosso talento, pela cultural e multiforme bagagem que trazeis convosco: as obras editadas, as alongadas pesquisas e os estudos efetuados, e, principalmente, na aprecia\u00e7\u00e3o, na cr\u00edtica e divulga\u00e7\u00e3o dos numerosos autores maranhenses a quem tendes dedicado grande parte da vossa, n\u00e3o t\u00e3o longa, mas intensa vida intelectual, obras \u00a0que agora vos acompanham nesta chegada vitoriosa..<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eis-me aqui para saudar-vos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minhas Senhoras, Meus Senhores,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recebemos, em nosso conv\u00edvio, o jovem escritor, intelectual e educador Jos\u00e9 Neres Costa, a quem saudamos agora como o mais novo membro da Academia Maranhense de Letras e, tamb\u00e9m, como o benjamim entre seus pares.\u00a0 O rec\u00e9m-chegado ter\u00e1 a \u00e1rdua miss\u00e3o de suceder, n\u00e3o substituir, figuras das mais proeminentes deste sodal\u00edcio, o m\u00e9dico, escritor, cientista e professor Bacelar Portela, membro fundador de v\u00e1rios cursos da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, e o nosso querido Ubiratan Teixeira, dramaturgo, contista e cronista, dos maiores desta Casa, \u00faltimo ocupante da Cadeira n 36.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhoras e Senhores<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o tenhamos, por\u00e9m, cuidados, os legados culturais e liter\u00e1rios deixados por eles permanecer\u00e3o enriquecendo esta Casa e a cultura maranhense. O jovem que chega para ocupar a Cadeira n\u00ba 36, patroneada por Tasso Fragoso e ocupada por seus antecessores, ter\u00e1 a obriga\u00e7\u00e3o estatut\u00e1ria e o compromisso moral e afetivo de preservar-lhes os feitos. Para que a imortalidade acad\u00eamica se consubstancie e sejam agregados os antigos valores aos novos.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u201cA imortalidade n\u00e3o \u00e9 patrim\u00f4nio dos acad\u00eamicos, mas da Academia\u201d, diz<\/em> Otto Lara Rezende, na sua ora\u00e7\u00e3o de posse da Academia Brasileira de Letras. E, na mesma ora\u00e7\u00e3o, advoga que: \u201c<em>a renova\u00e7\u00e3o<\/em> se <em>fa\u00e7a sempre sem precipita\u00e7\u00e3o e sempre sem preconceito de qualquer esp\u00e9cie, inclusive sem o receio do que \u00e9 novo, como nova sempre nova e inovadora, h\u00e1 de ser a juventude\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O desconhecimento da hist\u00f3ria das academias, particularmente da Academia Maranhense de Letras, leva pessoas alheias a essas institui\u00e7\u00f5es a cultivarem a concep\u00e7\u00e3o err\u00f4nea de que existe uma idade acad\u00eamica, uma idade obrigat\u00f3ria de amadurecimento biol\u00f3gico para os candidatos serem aceitos na conviv\u00eancia irm\u00e3 dos confrades. N\u00e3o nos \u00e9 desconhecido que quando acontece o amadurecimento liter\u00e1rio, o ponto exato em que o escritor est\u00e1 modelado, depurado no crisol da atividade intelectual, pronto para o reconhecimento, a idade biol\u00f3gica muitas vezes est\u00e1 em descompasso com o amadurecimento do seu talento. Cada ser humano tem o seu momento de desabroche. Graciliano Ramos, Giuseppe Lampedusa, Abgar Renault, entre outros, s\u00f3 mostraram o melhor de sua literatura em idade um tanto distante da juventude; outros compuseram suas melhores obras, mal sa\u00eddos do per\u00edodo extenso que cobre hoje a adolesc\u00eancia. Quem duvidar\u00e1 disso ao ler as obras de juventude de Gon\u00e7alves Dias, Castro Alves, Rimbaud e Alu\u00edsio Azevedo, dentre tantos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhoras e Senhores,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a fun\u00e7\u00e3o primordial das academias \u00e9 defender e preservar a cultura de um povo, desempenhar o papel de sua guardi\u00e3; \u00e9 verdade tamb\u00e9m que temos o dever, acad\u00eamico, e n\u00e3o academicista, de promover e apoiar a renova\u00e7\u00e3o\u00a0 da nossa l\u00edngua e dos valores liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>Diz-nos M\u00e1rio Meireles, na <em>Antologia da Academia Maranhense de Letras<\/em>, quando da celebra\u00e7\u00e3o do seu cinquenten\u00e1rio \u2013 1908 \/1958 \u2013, a respeito do contexto liter\u00e1rio e cultural em que foi fundada a \u00a0AML:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na pen\u00faltima e quinta, na fase do decadentismo, que (se) fixa entre os anos de 1894 e 1932, \u00e9 que nasce a Academia Maranhense de Letras, como n\u00facleo propulsor da energia que se fazia necess\u00e1rio concentrar para a consecu\u00e7\u00e3o do ideal objetivado.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Fundam-na, em sess\u00e3o que se realizou \u00e0s 19 horas do dia 10 de agosto de 1908, na Biblioteca P\u00fablica do Estado, ent\u00e3o funcionando no pr\u00e9dio que hoje \u00e9 sede pr\u00f3pria do sodal\u00edcio (<\/em>aqui entre estas paredes)<em>, Ant\u00f4nio Lobo, diretor do estabelecimento, Ribeiro do Amaral, Barbosa de God\u00f3is, Domingos Barbosa, Corr\u00eaa de Ara\u00fajo, Vieira da Silva, Astolfo Marques, Alfredo de Assis, Xavier de Carvalho, Godofredo Viana, maranhenses todos, e Fran Paxeco, portugu\u00eas e Clodoaldo Freitas, piauiense. <\/em>(grifos nossos)<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Fato deveras curioso a notar: o grupo era majoritariamente composto de jovens, o mais idoso, Ribeiro do Amaral, o primeiro presidente, contava com a provecta idade de 55 anos. O mais jovem, Vieira da Silva, somava apenas 21 anos! A maioria situava-se entre a faixa dos 20 aos 30 anos.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia ao acolhimento da juventude n\u00e3o se esgotou \u00e0 \u00e9poca da funda\u00e7\u00e3o. Bem mais adiante, registramos alguns dos nossos mais relevantes nomes, que tamb\u00e9m ingressaram na Academia Maranhense de Letras, no vigor da juventude: Jos\u00e9 Sarney, 22 anos, Jomar Moraes, 29 e Josu\u00e9 Montello, 31; e note-se, nenhum deles, \u00e0 \u00e9poca, alcan\u00e7ou a l\u00e1urea por meio\u00a0 de \u00a0influ\u00eancia pol\u00edtica ou financeira\u00a0 que, de resto, n\u00e3o as possu\u00edam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhoras e Senhores,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O menino Jos\u00e9 Ribamar Neres veio a nascer na mesma cidade do santo de seu nome.\u00a0 Mas o nome e o lugar de nascimento, ao contr\u00e1rio do que se espera que eu o diga, n\u00e3o lhe conferiu predestina\u00e7\u00e3o alguma. Neres n\u00e3o cria ra\u00edzes na cidade m\u00e1gica das romarias. Seria arrancado dali com apenas dois meses de nascido. Acompanhando a fam\u00edlia, interna-se pa\u00eds adentro, com seus padrinhos, que o tomam para criar, e que, seguindo a tend\u00eancia da \u00e9poca, v\u00e3o para Bras\u00edlia, cidade nascente, buscar oportunidades de trabalho..<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, cursa a alfabetiza\u00e7\u00e3o e inicia os estudos b\u00e1sicos no Centro de Ensino n\u00ba 02, no Gama. O tempo das boas oportunidades de trabalho v\u00e3o se esgotando no Distrito Federal e a fam\u00edlia segue em busca de um novo eldorado. Muda-se para Luzi\u00e2nia &#8211; Goi\u00e1s. L\u00e1, nos col\u00e9gios Estrela Dalva e Alceu de Ara\u00fajo Roriz, o menino estuda at\u00e9 a s\u00e9tima s\u00e9rie. Ap\u00f3s esse tempo, retorna a S\u00e3o Lu\u00eds, lugar onde termina o ensino b\u00e1sico e se encerra o p\u00e9riplo familiar.<\/p>\n<p>Quando o talento existe, o valor porventura determinante da biografia \u00e9 desimportante. Mas, sutis desvios de percurso embutidos no destino podem conduzir a uma n\u00e3o imediatamente percebida epifania a iluminar uma voca\u00e7\u00e3o. Conta-me Jos\u00e9 Neres que, no Distrito Federal e em Luzi\u00e2nia, foi alfabetizado e estudou os primeiros textos, n\u00e3o com as cartilhas tipo \u201cIvo viu a uva\u201d, mas com poemas de Cora Coralina e depois Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e M\u00e1rio Quintana. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Quantas crian\u00e7as tiveram coincidente o in\u00edcio da sua educa\u00e7\u00e3o com o encontro da arte?<\/p>\n<p>N\u00e3o ter\u00e1 sido isso fundamental no despertar liter\u00e1rio do menino que fez em S\u00e3o Lu\u00eds cursos t\u00e9cnicos, desde o antigo segundo grau, pensou em ser engenheiro e matem\u00e1tico, e depois achou o seu caminho no estudo de Letras?<\/p>\n<p>Seguindo a sua escolha, Neres faz o Curso de Letras na Universidade Federal do Maranh\u00e3o, seguido de Especializa\u00e7\u00e3o em Literatura Brasileira, na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais e, j\u00e1 mirando o magist\u00e9rio, outra de suas voca\u00e7\u00f5es despertadas, faz o Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o na Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Ele lembra o primeiro livro lido: <em>\u201cA Tulipa Negra\u201d, de Alexandre Dumas, <\/em>pai, <em>aos oito anos.\u00a0 <\/em>Depois desse livro (diz ele) n\u00e3o parei mais de ler<em>. \u201cDe l\u00e1 para c\u00e1 foram in\u00fameros os autores lidos. Alguns n\u00e3o deixam de frequentar minhas leituras como \u00e9 o caso de Neruda, Borges, Cort\u00e1zar, Camus, Guimar\u00e3es Rosa, Isabel Allende, Rubem Fonseca, Gullar, Augusto dos Anjos Josu\u00e9 Montello, Mia Couto&#8230; Sempre gostei de ler e escrever, a par de jogar futebol,.\u201d \u00a0<\/em>Outra paix\u00e3o confessa, importante saber, desde que Neres\u00a0 n\u00e3o \u00e9 de confessar muita coisa<em>. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 <\/em>O gosto pelo ensino surge, talvez, ele n\u00e3o afirma, com a ajuda que prestava aos colegas desde muito cedo. Apaixonado pela leitura e pela matem\u00e1tica, era-lhe f\u00e1cil e prazeroso assumir o papel de professor. Jos\u00e9 Neres nasceu professor como quem nasce m\u00fasico ou pintor. Curiosamente, s\u00f3 vai despertar para isso no decorrer do Curso de Letras.<\/p>\n<p>A\u00ed, come\u00e7a o p\u00e9riplo de Jos\u00e9 Neres, ministrando aulas em diversos col\u00e9gios de ensino m\u00e9dio, at\u00e9 fixar-se, em 2001, na Faculdade Atenas Maranhense \u2013 FAMA, onde \u00e9 professor em\u00e9rito e, a partir de 2013, na Universidade Federal do Maranh\u00e3o, como professor substituto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recebeu Pr\u00eamios e t\u00edtulos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2102 &#8211; Medalha do Bicenten\u00e1rio de Jo\u00e3o Francisco Lisboa, Academia Maranhense de Letras.<\/p>\n<p>2006 \u2013 A Import\u00e2ncia do livro no Brasil do S\u00e9culo XXI, Academia Brasileira de Letras\/folha Dirigida.<\/p>\n<p>2005 \u2013 Pr\u00eamio\u00a0 Odylo Costa, filho (contos), Prefeitura de S\u00e3o Lu\u00eds<\/p>\n<p>1994 \u2013 Honra ao M\u00e9rito (Poema), Instituto de Poesia Internacional.<\/p>\n<p>1994 \u2013 Men\u00e7\u00e3o Honrosa (conjunto de poemas), Instituto de Poesia Internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Membro de corpo editorial da revista \u00c1gora Ateniense (desde 2010) \u00a0e Revista de Letras da FAMA (desde 2004).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Livros publicados:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lousa rabiscada \u2013 artigos reunidos. S\u00e3o Lu\u00eds, 2013; <\/em><\/p>\n<p><em>Maranh\u00e3o na ponta da l\u00edngua: palavras e express\u00f5es maranhenses, <\/em>com Lindalva Barros. S\u00e3o Lu\u00eds 2011;<\/p>\n<p><em>O \u00daltimo desejo de Catirina. <\/em>Edi\u00e7\u00e3o digital.<em> S\u00e3o Lu\u00eds, 2010; <\/em><\/p>\n<p><em>Sombras na escurid\u00e3o<\/em>, contos, edi\u00e7\u00e3o digital, S\u00e3o Lu\u00eds, \u00a02010;<\/p>\n<p><em>Montello, o Benjamin da Academia, Ed.Caraj\u00e1s, 2008;<\/em><\/p>\n<p><em>50 Pequenas trai\u00e7\u00f5es. Contos Edi\u00e7\u00e3o do autor, S\u00e3o Lu\u00eds, 2007;<\/em><\/p>\n<p><em>Restos de vidas perdidas. Ed. Caraj\u00e1s, 2003;<\/em><\/p>\n<p><em>Estrat\u00e9gias para matar um escritor em forma\u00e7\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Lu\u00eds, 2005<\/p>\n<p><em>Negra Rosa e outros poemas. <\/em>\u00a0Cancioneiro. 2 ed. S\u00e3o Lu\u00eds, 2003.<\/p>\n<p><em>Poemas de desamor. S\u00e3o Lu\u00eds 2003;<\/em><\/p>\n<p><em>A mulher de Potifar. S\u00e3o Lu\u00eds, 2002;<\/em><\/p>\n<p><em>O discurso e as ideias, com Dino Cavalcante. S\u00e3o Lu\u00eds,<\/em> 2002.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acrescentemos aos j\u00e1 editados mais de uma centena de artigos e ensaios publicados em jornais, que est\u00e3o a merecer edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dos trabalhos editados, na inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o tornar demasiado o vosso tempo, destacarei apenas tr\u00eas, que muito me agradam.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/strong>\u00a0De Jos\u00e9 Neres, contista, escolhi e vos apresento o livro<em> 50 pequenas trai\u00e7\u00f5es<\/em>, na linha minimalista de Dalton Trevisan, influ\u00eancia confessa do autor. Sua leitura lembra tamb\u00e9m as perip\u00e9cias dos contos do Decameron de Boccaccio, pelas situa\u00e7\u00f5es divertidas, permeadas de sensualidade e fina ironia.. \u00c9 interessante notar que as trai\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre femininas. As mulheres s\u00e3o as protagonistas e revelam-se bem mais espertas que os homens, a quem enganam. Os contos m\u00ednimos narram mais situa\u00e7\u00f5es que hist\u00f3rias. Neres consegue captar, usando linguagem r\u00e1pida, concisa e ir\u00f4nica, sentimentos, desvios de personalidade, desejos escusos e paix\u00f5es. Minicontos exemplares com desfechos no cl\u00edmax da narrativa, como se quer de contos bem feitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0ATR\u00c1S DA PORTA<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cinicamente, dizia para a esposa:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Mulher minha tem \u00e9 que ficar em casa. N\u00e3o anda em festa, n\u00e3o. Eu posso sair e voltar na hora que quiser, entendeu?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ela concordava com a cabe\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; E tem mais, quando eu chegar, nada de perguntar onde eu estive ou com quem eu sa\u00ed. Certo?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ela assentia com a cabe\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; Finalmente, quando eu for para as farras, deixarei minha alma atr\u00e1s da porta para te proteger. O que vou usar com as outras mulheres \u00e9 o corpo. Certo?\u00a0 A minha alma ficar\u00e1 aqui, atr\u00e1s da porta&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um dia sentiu-se mal na festa. Voltou mais cedo para casa, No quarto do casal, encontrou apenas a alma da esposa dependurada atr\u00e1s da porta, bem ao lado da dele.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De Jos\u00e9 Neres, poeta, apresento-vos, <em>Negra Rosa e outros poemas, <\/em>o belo cancioneiro, composto de oito cantos, que narra a lenda envolvendo a profecia da negra virgem, predestinada a matar o touro negro com uma estrela na testa, o Rei D. Sebasti\u00e3o encantado. Nua, com um punhal de prata na m\u00e3o, descal\u00e7a na areia branca, em noite de lua cheia, ela golpear\u00e1 o touro e, em vencendo essa luta, libertar\u00e1 \u00a0todo o seu povo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Canto VI:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>OURO E PRATA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Linda negra Rosa,<\/p>\n<p>A religi\u00e3o<\/p>\n<p>Mudar n\u00e3o posso<\/p>\n<p>N\u00e3o posso ter teu<\/p>\n<p>Belo corpo n\u00e3o,<\/p>\n<p>Mas posso viver<\/p>\n<p>No teu cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Libertar escravo<\/p>\n<p>\u00c9 matar patr\u00e3o,<\/p>\n<p>N\u00e3o posso viver<\/p>\n<p>Sem meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Toma ouro e prata,<\/p>\n<p>Salva teu irm\u00e3o,<\/p>\n<p>Sei o que \u00e9 viver em escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Adeus, vou embora,<\/p>\n<p>N\u00e3o volto mais n\u00e3o,<\/p>\n<p>Leva prata e ouro<\/p>\n<p>E meu cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 foi escravo<\/p>\n<p>Do teu olhar n\u00e3o<\/p>\n<p>Pode ter patr\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do ensa\u00edsta e pesquisador, destaco, <em>Montello, o benjamin da academia<\/em>. S\u00e3o Lu\u00eds, Caraj\u00e1s, 2008. Trata-se de um ensaio, resultante de longa e acurada pesquisa sobre a vida do escritor Josu\u00e9 Montello, uma das admira\u00e7\u00f5es e influ\u00eancia liter\u00e1ria. O ensaio concentra-se na trajet\u00f3ria que Josu\u00e9 percorreu, de desconhecido escritor de prov\u00edncia a membro prestigiado e o mais jovem, na ocasi\u00e3o do seu ingresso na Academia Brasileira de Letras. N\u00e3o sem antes adentrar a nossa pr\u00f3pria Academia.<\/p>\n<p>Pesquisa viva, texto de linguagem instigante, escrito a modo de romance de a\u00e7\u00e3o, leva o leitor a seguir com interesse os passos de Josu\u00e9 (diga-se, a bem da verdade, cuidadosamente planejados pelo pr\u00f3prio, como ele bem o confessa), rumo \u00e0 Academia Brasileira de Letras, um dos seus bem demarcados objetivos de vida.<\/p>\n<p>O texto de Jos\u00e9 Neres romantiza a narrativa, prende o leitor interessado no desfecho, mesmo que o final seja de todos consabido. Mant\u00e9m o suspense at\u00e9 o momento em que, vitorioso, Josu\u00e9 Montello assume a Cadeira n\u00ba 29 da ABL com apenas 37 \u00a0anos e confirma o assinalado no \u00a0t\u00edtulo da obra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhoras e Senhores,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da bagagem cultural multiforme de professor de Letras, poeta, contista, cr\u00edtico liter\u00e1rio, pesquisador e ensa\u00edsta, que carrega nosso homenageado, ressalto a import\u00e2ncia dos seus textos de cr\u00edtica liter\u00e1ria, publicados na m\u00eddia, que tratam dos escritores maranhenses, principalmente dos escritores recentes. O conhecimento e estudo destes nomes, dos escritores que produziram e produzem suas obras escritas a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, praticamente inexistem na hist\u00f3ria da Literatura Maranhense, ressaltando-se pouqu\u00edssimas e honrosas exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os textos escritos por Neres, que chegam quase a duas centenas, refletem uma dedica\u00e7\u00e3o certamente decorrente de seu of\u00edcio como professor e \u00a0do incans\u00e1vel leitor e estudioso da literatura brasileira e da \u00a0literatura \u00a0maranhense.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Neres estuda e ensinando aprende, conforme nos ilumina Guimar\u00e3es Rosa. Mas n\u00e3o se contenta em ser mestre e aprendiz. Quer dividir esta aprendizagem com muitos e prolongar a sua sala de aula nos peri\u00f3dicos e atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e virtual, lidando com a delicada mat\u00e9ria da cr\u00edtica liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Entendemos que o escritor Jos\u00e9 Neres Costa est\u00e1 empreendendo uma cruzada em prol do reconhecimento e leitura dos autores maranhenses contempor\u00e2neos, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, semelhante \u00e0 que se empenhava, no passado, Ant\u00f4nio Lobo.<\/p>\n<p>Prefaciando o livro <em>Vida e obra de Ant\u00f4nio Lobo, de <\/em>Jomar Morais, Jos\u00e9 Sarney o chama de \u201c<em>agitador de ideias, animando com a vibra\u00e7\u00e3o do seu talento, as coisas do esp\u00edrito, na S\u00e3o Lu\u00eds do seu tempo<\/em>.\u201d Ant\u00f4nio Lobo foi professor secund\u00e1rio, bibliotec\u00e1rio, ensa\u00edsta e critico liter\u00e1rio. O intelectual que d\u00e1 nome a nossa Casa, e um dos l\u00edderes do movimento de jovens intelectuais que fundou a Academia Maranhense de Letras em 1908.<\/p>\n<p>Permitam-me ilustrar o que digo, com este excerto, retirado de uma confer\u00eancia proferida, em 1939, por Assis Brasil, denominada Recorda\u00e7\u00f5es de Ant\u00f4nio Lobo,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diz Assis Brasil:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 ego\u00edstas que guardam consigo o que aprendem para sua exclusiva utilidade ou sem utilidade alguma. Constitui, ao contr\u00e1rio, prazer verdadeiro para Ant\u00f4nio Lobo transformar as suas palestras em li\u00e7\u00f5es ou informa\u00e7\u00f5es que t\u00eam o precioso cond\u00e3o de interessar e prender pela simplicidade e clareza com que ele exp\u00f5e, parecendo que apenas relembra o que o auditor j\u00e1 conhece. Aquilo que, de mais sugestivo ou cientificamente proveitoso colheu na leitura dos \u00faltimos livros e revistas que recebeu da Europa. <\/em>(Alfredo de Assis Castro. IN <em>Lobo Ant\u00f4nio. Os novos atenienses \u2013 orelha. 3 ed.<\/em> S\u00e3o Lu\u00eds: AML\/ADUEMA, 2008<em>).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhoras e Senhores,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sentindo a falta de fortuna cr\u00edtica sobre o autor para compor esta pe\u00e7a, falta que assola os escritores maranhenses contempor\u00e2neos, e sobrelevando\u00a0 o grande n\u00famero de textos de Jos\u00e9 Neres espalhados,\u00a0 e ainda n\u00e3o reunidos em livro, brilho ainda somente entrevisto, atrevi-me a pedir ao nosso poeta maior, Nauro Machado, cora\u00e7\u00e3o de perene acolhimento aos intelectuais jovens, a quem d\u00e1 for\u00e7a e lidera, t\u00e3o acess\u00edvel e humilde monstro sagrado, como se grande n\u00e3o fora, uma aprecia\u00e7\u00e3o do nosso jovem escritor Jos\u00e9\u00a0 Neres, por quem temos uma amizade e admira\u00e7\u00e3o conjunta. E, sem nada combinarmos, a aprecia\u00e7\u00e3o \u00e9 a que vos apresento a seguir:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em>Diz Nauro Machado: \u201c<em>O que interessa sobremaneira no escritor-professor Jos\u00e9 Neres, dono de um estilo s\u00f3brio e de uma escorreita flu\u00eancia vocabular, al\u00e9m da imparcialidade dos seus trabalhos ensa\u00edsticos, \u00e9 o estudo minucioso das caracter\u00edsticas a cada um dos escritores por ele analisados e como que pretendendo dar uma continuidade, futuramente \u00e0quilo feito, em sua \u00e9poca, por Ant\u00f4nio Lobo, em livro sugestivamente chamado Os novos atenienses, dedicado, todo ele, \u00e0 literatura escrita exclusivamente por maranhenses: o que ele, Neres, tem feito atrav\u00e9s de nossos peri\u00f3dicos, sempre escrevendo sobre os livros aqui lan\u00e7ados e por ele considerados de valor.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>Acredito que Jos\u00e9 Neres desenvolver\u00e1 ao longo do tempo, pelo seu valor inquestion\u00e1vel, e profundo conhecimento dos que aqui forjaram e forjam uma obra a ratificar a grandeza do que literariamente ainda somos, um painel radioso para a expectativa do grandioso futuro que nos aguarda..<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Interessante \u00e9 que ambos, eu e Nauro, fomos buscar no divulgador dos talentos da sua \u00e9poca, Ant\u00f4nio Lobo, o par\u00e2metro para definir o que tenta fazer\u00a0 o jovem escritor que agora nos chega com a literatura maranhense que \u00e9 produzida na contemporaneidade..<\/p>\n<p>Esse trabalho tamb\u00e9m merece do acad\u00eamico e pol\u00edgrafo, Ronaldo Costa Fernandes, outra refer\u00eancia da literatura maranhense da atualidade, v\u00e1rias vezes premiado, nacional e internacionalmente, a aprecia\u00e7\u00e3o e o reconhecimento, diz ele:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jos\u00e9 Neres vem se revelando um pesquisador da literatura maranhense, contribuindo para que a nossa express\u00e3o liter\u00e1ria tenha mais amplitude e chegue a um n\u00famero maior de leitores. \u00c9 um trabalho \u00e1rduo, que certamente dar\u00e1 ainda mais bons frutos, que amadurecer\u00e3o ao longo dos anos, decantados pela experi\u00eancia e arg\u00facia. Jos\u00e9 Neres \u00e9 uma dessas figuras do meio cultural maranhense que merece incentivo por seu tiroc\u00ednio, intelig\u00eancia e escrita \u00e1gil e incisiva.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Neres segue a linha de amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o da sala de aula, como um servi\u00e7o que os professores podem e devem oferecer \u00e0 comunidade. Esse desejo de difundir nossa cultura liter\u00e1ria \u00e9 claramente expresso pelo novel acad\u00eamico, em entrevista \u00e0 Maranharte:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando era garoto, quase n\u00e3o ouvi falar das grandes figuras do Maranh\u00e3o. Sabia quase nada da minha terra. Ao voltar, j\u00e1 quase adulto, encantei-me com as maravilhas as quais n\u00e3o pude aproveitar na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia. Comecei ent\u00e3o a pesquisar e cada vez percebia que quem foi criado aqui tamb\u00e9m pouco sabia. Li tudo o que pude e comecei a colecionar reportagens de jornais e revistas. <\/em><\/p>\n<p>Revela com emo\u00e7\u00e3o e entusiasmo na voz: \u201c<em>A parte cr\u00edtica<\/em> <em>\u00e9 uma necessidade. <\/em>Diz ele, <em>Fico pensando que se explora t\u00e3o pouco os nossos escritores com pouqu\u00edssimos mergulhos na cr\u00edtica. Ent\u00e3o tento ocupar um espa\u00e7o, que parece que ningu\u00e9m quer o de estudar nossos autores contempor\u00e2neos.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minhas Senhoras e meus Senhores,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 consabido que o pragmatismo e a lei do menor esfor\u00e7o sempre foram a mola propulsora das inova\u00e7\u00f5es e do progresso.<em> A posteridade, diz Emile Faguet, s\u00f3 aprecia os escritores sucintos; \u201cla posterit\u00e9 n\u2019aime que les \u00e9crivains concis\u201d. <\/em><\/p>\n<p>E sabem quem cita esta frase? Algum escritor p\u00f3s-moderno? N\u00e3o, Fernando Pessoa, \u00a0no seu ensaio <em>Da Literatura moderna: IN Obra em prosa. Ed Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1990, p 488. <\/em>Ensaio sem data, mas, provavelmente escrito em 1925.<\/p>\n<p>E prossegue Pessoa:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0A fama, no referente aos poetas menores e aos prosadores menores, estreitar-se-\u00e1 de antologia para antologia. Dagora a cem anos ser\u00e1 imposs\u00edvel lan\u00e7ar uma edi\u00e7\u00e3o completa de Byron, ou de Shelley ou de Goethe, o poeta, ou de Hugo. Mesmo as modernas sele\u00e7\u00f5es deles ser\u00e3o cada vez mais podadas pela tens\u00e3o e pela tempestade do tempo [..]. <\/em><\/p>\n<p><em>Cada na\u00e7\u00e3o ter\u00e1 os seus grandes livros fundamentais e uma ou duas antologias do restante. A competi\u00e7\u00e3o entre os mortos \u00e9 mais terr\u00edvel do que a competi\u00e7\u00e3o entre os vivos; os mortos s\u00e3o mais numerosos. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Fernando Pessoa concorda com o caminho que nos aponta Faguet, o caminho que a literatura, da\u00ed por diante, seguiria, como premoni\u00e7\u00e3o dos nossos tempos urgentes. Repito: A posteridade s\u00f3 aprecia os escritores concisos.<\/p>\n<p>O professor Jos\u00e9 Neres Costa acompanha os \u201dtempos urgentes\u201d, a tend\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o virtual como meio de expandir os seus trabalhos.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 <\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Queiramos ou n\u00e3o, na era das tecnologias, em que as inova\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas facilitam a comunica\u00e7\u00e3o verbal, a leitura de livros \u00e9 menos atrativa que a comunica\u00e7\u00e3o virtual.<\/p>\n<p>\u00c9 o pr\u00f3prio Neres quem nos fala de suas preocupa\u00e7\u00f5es a esse respeito:<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Por notar que havia um v\u00e1cuo de estudos e coment\u00e1rios sobre a literatura Maranhense no mundo virtual, resolvi tamb\u00e9m criar um blog, um site e o jornal virtual (Ilhavirtualpontocom), um mens\u00e1rio digitalizado que j\u00e1 est\u00e1 na vig\u00e9sima segunda edi\u00e7\u00e3o e que serve para divulgar as letras maranhenses em todo o mundo e ao mesmo tempo serve para estimular nos estudantes e demais colaboradores o interesse pelo estudo das obras e autores de nosso estado.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>\u00a0Jos\u00e9 Neres vai mais a fundo na busca da conquista de leitores para a literatura maranhense: desenvolve um projeto de pesquisa, financiado pela Faculdade Atenas Maranhense \u2013 FAMA \u2013 denominado Sistema Liter\u00e1rio Maranhense: Hipertexto e Hiperm\u00eddia, no qual a preocupa\u00e7\u00e3o dos pesquisadores \u00e9 pesquisar o cen\u00e1rio liter\u00e1rio maranhense; organizar o esp\u00f3lio de escritores do estado do Maranh\u00e3o em site da Internet e uma cole\u00e7\u00e3o em suporte eletr\u00f4nico (CD_ROM hipertextual e hiperm\u00eddia), na tentativa de trazer \u00e0 tona a figura de escritores consagrados pela hist\u00f3ria da literatura, bem como a de alguns escritores pouco conhecidos no meio acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acad\u00eamico Jos\u00e9 Neres Costa,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Numa feliz coincid\u00eancia, v\u00f3s que saudastes Josu\u00e9 Montello como o mais jovem dentre seus pares, no livro <em>Montello, o benjamim da Academia, <\/em>nos chegas para compor nossa confraria tamb\u00e9m na condi\u00e7\u00e3o de benjamim. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o que muitos dos nossos j\u00e1 usufru\u00edram e agora \u00e9 vossa. O tempo passar\u00e1 e, certamente, daremos entrada a outro e mais outro benjamim, o que nos \u00e9 prazeroso, porque significa renova\u00e7\u00e3o, permeada pela perman\u00eancia e const\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Viriato Corr\u00eaa, no discurso de recep\u00e7\u00e3o de Josu\u00e9, chama aten\u00e7\u00e3o para a idade de seu recipendi\u00e1rio :<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Senhor Josu\u00e9 Montello, na Academia, a vida come\u00e7a aos quarenta. Os que entraram aqui com idade inferior que a vossa representam a minoria. S\u00e3o muito poucos e servem para mostrar que, nesta casa, apesar dos cabelos brancos dos homens que a comp\u00f5em, se tem confian\u00e7a e se tem f\u00e9 na mocidade, desde que ela venha carregada de brilho, de flores e de frutos, como a vossa&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em>Fa\u00e7o minhas estas doces palavras de Viriato e digo: chegastes aqui por vosso brilho, flores e frutos. \u00c9-me prazeroso abrir-vos as portas desta Casa. A minha palavra \u00e9 a palavra de todas as confreiras e confrades.<\/p>\n<p>Sede bem-vindo. Entrai \/ e tomai assento\/ entre os companheiros,\/ confrade Jos\u00e9 \/Neres Costa.<br \/>\nSede bem-vindo. Entrai \/ e tomai assento\/ entre os companheiros,\/ confrade Jos\u00e9 \/Neres Costa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab4\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Textos Escolhidos<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CR\u00d4NICAS<br \/>\nMEM\u00d3RIAS DE UM CASAR\u00c3O ABANDONADO<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mais uma vez chega o per\u00edodo chuvoso \u00e0 nossa Cidade. Com ele sempre volta o meu antigo temor de que cada chuva seja a \u00faltima minha. Tal qual um leproso, sinto minhas partes se soltando. Sinto que cedo ou tarde darei meu \u00faltimo suspiro. Meu \u00faltimo, sonoro e dolorido suspiro. Igual ao dos meus irm\u00e3os que j\u00e1 se foram.<\/p>\n<p>Tenho ainda na mem\u00f3ria meus dias de gl\u00f3ria. Tempos longevos e irrecuper\u00e1veis. Todos acreditavam que eu seria eterno. As paredes largas, recheadas de pedras, cal e \u00f3leo de baleia, eram a garantia de uma vida longa e sem problemas. Ningu\u00e9m daquele tempo acreditaria que um dia eu chegaria a este estado decr\u00e9pito, em que at\u00e9 mesmo um vento mais forte pode ser uma amea\u00e7a mortal.<\/p>\n<p>Meus primeiros donos me ergueram como s\u00edmbolo de riqueza e ostenta\u00e7\u00e3o. Quantos bar\u00f5es e abastados senhores de escravos n\u00e3o passaram pelos meus portais! Quantas conspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o foram articuladas em minhas amplas salas! Quantas negras n\u00e3o foram desvirginadas \u00e0 for\u00e7a em meus escuros corredores na calada da noite! Quantas senhoras brancas n\u00e3o receberam seus amantes \u2013 brancos, negros ou mulatos \u2013 em meus in\u00fameros aposentos de luxo! Sobre tudo isso guardo um sil\u00eancio sem fim. Sou detentor de segredos que dariam fama e dinheiro a qualquer pesquisador interessado nas picuinhas de nossa cidade. Sou uma testemunha muda da Hist\u00f3ria dessa gente que me destr\u00f3i aos poucos em sua eterna indiferen\u00e7a sobre meu estado de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia, as manchetes dos jornais gritados nas ruas me trouxeram um alento: a Cidade como um todo acabava de virar Patrim\u00f4nio da Humanidade. C\u00e9us! Patrim\u00f4nio da Humanidade! Isso era a minha salva\u00e7\u00e3o. Seria restaurado. Minhas paredes gretadas finalmente seriam reconstitu\u00eddas. Meus azulejos n\u00e3o seriam mais roubados, n\u00e3o mais serviriam como souvenir para turistas e transeuntes inescrupulosos que me feriam com seus canivetes su\u00ed\u00e7os. Peda\u00e7os de minha vida n\u00e3o seriam mais cobi\u00e7ados por museus da Europa, \u00e1vidos de enriquecimento de seus acervos \u00e0 custa do desonesto furor dos in\u00fameros ca\u00e7adores de raridades.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o passou de uma ilus\u00e3o. De uma triste ilus\u00e3o. Vi, consternado, alguns de meus irm\u00e3os mais bem localizados sendo restaurados. Vi ruas, becos, igrejas e cal\u00e7adas sendo recuperadas&#8230; E eu sendo esquecido!&#8230; O tempo \u00e1ureo voltava para uns, e a certeza da total inutilidade era evidenciada para outros. E eu estava entre os outros&#8230; Acompanhei velhos companheiros recuperarem o vi\u00e7o da juventude e serem reinaugurados com festas, com bandas de m\u00fasica, com discursos t\u00e3o vazios quanto verborr\u00e1gicos. E eu me senti cada vez mais solit\u00e1rio. Os flashes das m\u00e1quinas e a luz das filmadoras n\u00e3o mais refletiam em minhas carcomidas paredes. A cidade ficou cega para mim.<\/p>\n<p>V\u00e1rios espa\u00e7os vazios come\u00e7aram a aparecer nas tomadas a\u00e9reas. Eram meus irm\u00e3os abandonados que sucumbiam sob o peso dos temporais. Os tratores vinham, limpavam o terreno e poucos dias depois a Cidade era presenteada com um novo estacionamento rotativo. \u00c9&#8230; O bem-estar dos autom\u00f3veis \u00e9 muito mais importante que a hist\u00f3ria de um povo&#8230; Fazer o qu\u00ea? \u00c9 o famoso pre\u00e7o do progresso.<\/p>\n<p>Nuvens escuras se aproximam. Sinto j\u00e1 as primeiras gotas batendo contra o que restou de minhas telhas. Parece que uma tempestade se aproxima. Pelo r\u00e1dio de um passante, ouvi que o temporal hoje ser\u00e1 forte. Sinto que meus dias chegam ao fim. Talvez amanh\u00e3 uma foto de meus escombros ilustre uma p\u00e1gina de jornal. Semana que vem os motoristas ter\u00e3o mais um lugar para seus carros. Come\u00e7ou a chuva&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O INC\u00d4MODO SIL\u00caNCIO<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Geralmente, as pessoas reclamam do excesso de barulho a incomodar as boas e reconfortantes noites de sono. Quando se trata de uma festa ou de qualquer outro evento mal programado, \u00e9 comum que um vizinho menos festeiro pegue o telefone e fa\u00e7a uma den\u00fancia an\u00f4nima para uma esp\u00e9cie de Disk-Sil\u00eancio. Em boa parte dos casos o problema \u00e9 prontamente resolvido, e as pessoas incomodadas podem desfrutar de seu tranq\u00fcilo e restaurador sono.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 algo que incomoda muito mais que o barulho das festas: o sil\u00eancio cultural que envolve todo o nosso estado. E isso, infelizmente, uma simples den\u00fancia n\u00e3o tem o poder de solucionar.<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o \u00e9 nacionalmente conhecido por oferecer ao Brasil como um todo nomes de ineg\u00e1vel valor art\u00edstico. Na m\u00fasica, nas letras, nas artes pl\u00e1sticas ou em qualquer outra forma de express\u00e3o art\u00edstico-cultural h\u00e1 sempre um ou mais nomes de personalidades maranhenses a constar da lista dos mais significativos expoentes da pl\u00eaiade. Contudo, quando se trata de divulgar seus valores dentro do pr\u00f3prio Estado, parece que o ad\u00e1gio popular que diz que \u201csanto de casa n\u00e3o faz milagres\u201d \u00e9 levado bastante a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Pouco parece importar se todos os anos dezenas de livros s\u00e3o publicados, se v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o organizadas, se alguns CDs s\u00e3o lan\u00e7ados e se in\u00fameras palestras s\u00e3o proferidas. Os artistas, com muito esfor\u00e7o, conseguem alguns espa\u00e7os na m\u00eddia, mas a divulga\u00e7\u00e3o se limita \u00e0 indica\u00e7\u00e3o do local e da data do evento, seguidos de alguns coment\u00e1rios bem gerais e, normalmente, isentos de qualquer senso cr\u00edtico. Passada a euforia da exposi\u00e7\u00e3o de seu trabalho ao p\u00fablico, o artista novamente se v\u00ea relegado ao limbo do ostracismo. O sil\u00eancio que paira sobre sua produ\u00e7\u00e3o intelectual supera em muito os esfor\u00e7os despendidos para a divulga\u00e7\u00e3o da mesma. Por causa disso, n\u00e3o \u00e9 incomum encontrar pessoas de promissor talento que deixaram de publicar seus trabalhos e que trocaram a alegria das experi\u00eancias art\u00edsticas pela dor da decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em casos assim, engavetar projetos torna-se o meio mais simples de evitar o constrangimento de se ver sozinho com a fam\u00edlia e alguns poucos amigos no meio de um sal\u00e3o, durante uma solenidade projetada para dezenas de pessoas. Quando o dono do evento j\u00e1 tem um nome consolidado ou tem contatos com a m\u00eddia, consegue uma boa divulga\u00e7\u00e3o, concede entrevistas \u00e0 imprensa e tem alguns poucos minutos de gl\u00f3ria, mas nem isso \u00e9 garantia de p\u00fablico. Mesmo quando h\u00e1 um bom n\u00famero de pessoas presentes \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, ao show ou ao lan\u00e7amento, fica sempre presente na cabe\u00e7a do artista a quase certeza de que uma semana ap\u00f3s a festividade seu nome continuar\u00e1 t\u00e3o esquecido quanto antes.<\/p>\n<p>Folheando os jornais di\u00e1rios, qualquer leitor poder\u00e1 encontrar uma grande quantidade de p\u00e1ginas destinadas ao colunismo social, \u00e0s festas de uma elite economicamente dominante, aos resultados dos jogos&#8230; e quase nada destinado aos aspectos culturais e \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de ideias verdadeiramente relevantes. Mais uma prova de que as futilidades do dia-a-dia s\u00e3o bem mais importantes que as tentativas de produzir algo que contribua com a forma\u00e7\u00e3o geral do povo.<\/p>\n<p>Infelizmente, enquanto muitos vivem preocupando-se com os ru\u00eddos das festas e das casas de espet\u00e1culos \u2013 algo f\u00e1cil de ser resolvido \u2013 a maioria das pessoas dorme tranquilamente embaladas pelo assombroso sil\u00eancio cultural que serve, ao mesmo tempo, de v\u00e9u, m\u00e1scara e\u00a0 mortalha para um povo que\u00a0 outrora se orgulhava de\u00a0 poder passear de cabe\u00e7a erguida por um estado que tinha como capital uma agora quase esquecida Atenas Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9&#8230; Esse tipo de sil\u00eancio realmente incomoda! E como incomoda&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>UMA NOVA RECEITA DE MULHER<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As apenas muito bonitas que me perdoem, mas, em pleno s\u00e9culo XXI, t\u00e3o somente o fato de ser muito bela n\u00e3o \u00e9 mais o fundamental.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que por tr\u00e1s de pele e cabelos sedosos haja tamb\u00e9m uma poderosa massa encef\u00e1lica sempre pronta para resolver os in\u00fameros problemas do cotidiano, sempre pronta para aprender e para ensinar, sempre preparada para cuidar do corpo sem descuidar do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que as curvas bem delineadas escondam bem mais que horas e mais horas de academia, de intermin\u00e1veis sess\u00f5es de <em>step<\/em> e de <em>jump<\/em>, mas que tragam tamb\u00e9m as marcas das indispens\u00e1veis preocupa\u00e7\u00f5es com a sa\u00fade f\u00edsica e mental.<\/p>\n<p>\u00c9 essencial que por baixo das camadas de cosm\u00e9ticos haja estampado um pleno sorriso de felicidade e o brilho de um olhar que, mesmo sem maquiagem, fa\u00e7am as pessoas perceberem\u00a0 que o interior\u00a0 pode muito bem superar o exterior, quando as marcas do tempo n\u00e3o mais puderem ser disfar\u00e7adas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode esquecer tamb\u00e9m que os estudos constantes, os cursos feitos e os livros lidos fazem parte de uma bagagem invis\u00edvel que n\u00e3o cabe em nenhuma bolsa ou <em>n\u00e9cessaire<\/em>, mas que, nas horas decisivas, deixam claro se uma mulher ir\u00e1 passar para a posteridade por seus feitos, por suas ideias ou se apenas teve massa e ocupou lugar no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 de extrema import\u00e2ncia ter a consci\u00eancia de que pernas grossas ou finas, longas ou curtas, bem delineadas ou n\u00e3o, com o sem celulite levam sempre para algum lugar ou para lugar algum, dependendo das ordens recebidas de um c\u00e9rebro que foi ou n\u00e3o trabalhado para estar sempre alerta \u00e0s constantes mudan\u00e7as que podem alterar rotas e caminhos, e que podem transformar o roteiro aparentemente mais curto em estrada esburacada sem qualquer perspectiva de um ponto de chegada.<\/p>\n<p>\u00c9 primordial tamb\u00e9m que a mulher saiba que, em nosso mundo competitivo, cada ponto de chegada possa transformar-se em um novo ponto de partida, pois ningu\u00e9m deve contentar-se com o simples fato de chegar a algum lugar, mas sim deve alegrar-se com a possibilidade de recuperar as for\u00e7as para empreender novas jornadas navegar por mares nunca antes navegados, em busca de novos espa\u00e7os e de novas perspectivas.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 de vital import\u00e2ncia que a mulher nunca deixe de lado a sensibilidade, o poder de administrar o tempo, a capacidade de tirar das dores um sorriso, o desejo de vencer os obst\u00e1culos \u2013 por maiores que eles possam parecer, a coragem de enfrentar as adversidades muitas das vezes armada apenas com o senso de justi\u00e7a e com a indestrut\u00edvel armadura da feminilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como se v\u00ea, neste novo s\u00e9culo, os aspectos pl\u00e1sticos podem at\u00e9 ajudar, mas n\u00e3o s\u00e3o mais os requisitos \u00fanicos para que as mulheres possam orgulhar-se de serem as guerreiras do lar, do trabalho, da sociedade&#8230; da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CONTOS<br \/>\nO BRINDE<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A bem da verdade, \u00e9 preciso dizer: meu pai nunca deixou que nos faltasse comida. Sempre tivemos at\u00e9 mais que o necess\u00e1rio para uma vida confort\u00e1vel. O que nosso pai n\u00e3o nos dava em palavras, afagos e carinhos, ele nos dava em comida e sorrisos. N\u00e3o consigo me lembrar da voz dele. N\u00e3o consigo esquecer seu sorriso meigo de dentes perfeitos. Falava pouco. Sorria o suficiente para encantar com seu sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u201cPai, t\u00f4 com fome!\u201d. Era a frase que ele mais ouvia dos filhos. Tr\u00eas ao todo: eu, minha irm\u00e3 e meu irm\u00e3o mais velho. Nosso pai nada falava. Sorria. Ia \u00e0 geladeira e preparava algo bem gostoso para todos. Com\u00edamos e beb\u00edamos felizes.<\/p>\n<p>Mas isso foi antes da grande crise.<\/p>\n<p>A grande crise chegou e abalou a todos. Papai se esfor\u00e7ava ao m\u00e1ximo para manter a casa. Mam\u00e3e, sempre alheia a tudo, come\u00e7ou a perceber que a despensa ia ficando vazia. Ela falava menos que papai, com o defeito de nunca sorrir. Mas da voz dela eu me lembro. Era voz de sofrimento.<\/p>\n<p>A frase continuava a mesma: \u201cPai, t\u00f4 com fome\u201d. A comida vinha em quantidade menor, mas sempre vinha. A diferen\u00e7a era que papai j\u00e1 n\u00e3o nos acompanhava durante as refei\u00e7\u00f5es. Depois mam\u00e3e tamb\u00e9m parou de sentar-se \u00e0 mesa conosco. A crise aumentava. Mas era diminu\u00edda pelo sorriso de meu pai.<\/p>\n<p>A geladeira estava vazia, mas a fome continuava. Papai, com o olhar, chamou mam\u00e3e para a cozinha. Ouvimos o choro dela. Sentido. Distante. Mas minutos depois esquecemos tudo com a vis\u00e3o de um belo bife, bem passado. Papai parou de aparecer para n\u00f3s. Vez ou outra, apenas botava a cabe\u00e7a para fora pela porta da cozinha e dava um sorriso. Mas agora era um sorriso triste, dolorido.<\/p>\n<p>A carne servida n\u00e3o deixava que sent\u00edssemos a aus\u00eancia de nosso pai. Um dia nossa m\u00e3e nos serviu apenas uma sopa com pouca carne e muito osso. Reclamamos. Amea\u00e7amos chamar papai para resolver o problema. Quer\u00edamos carne. Est\u00e1vamos acostumados era com carne, n\u00e3o com osso. Mam\u00e3e suspirou fundo e foi para a cozinha.<\/p>\n<p>\u201cFilhos&#8230; Venham c\u00e1!\u201d A frase imperativa, mas quase inaud\u00edvel, vinha de uma voz j\u00e1 quase esquecida. Nosso pai, depois de muito tempo, falava de novo. Entramos alegres e cozinha e paramos de s\u00fabito. Sentado em uma cadeira perto do fog\u00e3o estava papai. Ou melhor, o que restava dele. Apenas a cabe\u00e7a se mexia, lentamente. O pulm\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o eram vis\u00edveis atrav\u00e9s do esqueleto que teve quase toda a sua carne cortada, congelada, frita, assada, cozida&#8230;<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o precisou dizer mais nada. Compreendemos tudo. De seus l\u00e1bios tristes brotou um sorriso. O \u00faltimo sorriso que ele dividiu conosco. Mam\u00e3e pegou uma ta\u00e7a de cristal. A \u00faltima que restava e levou-a at\u00e9 a cabe\u00e7a de papai. As l\u00e1grimas dos dois se misturaram e gotejaram na ta\u00e7a. Ele olhou para n\u00f3s, triste, mas com a satisfa\u00e7\u00e3o estampada no rosto. Mam\u00e3e, fez um gesto de brinde em dire\u00e7\u00e3o ao esqueleto de papai, para si pr\u00f3pria e depois em nossa dire\u00e7\u00e3o. Abriu a geladeira e ali guardou para sempre as l\u00e1grimas dos dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voltamos para a sala e nunca mais reclamamos da sopa de ossos que nos mantinha vivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>DEVASTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Imposs\u00edvel esquecer a primeira vez que vi Flora. Ela estava \u00e0 beira do rio. Solit\u00e1ria. Vestida com muitos grilos e rar\u00edssimas borboletas. Sobre seu sexo, repousava um buqu\u00ea de espinhadas e secas rosas, ladeadas por ramos de sensitivas e camomila. Silenciosa, ela mastigava mecanicamente um restinho de sonho. Suas m\u00e3os eram galhos ressequidos, mas suas unhas tinham ainda a maciez de perfumadas p\u00e9talas. Os grilos cobriam seu corpo. Deixavam pouco espa\u00e7o para as multicoloridas borboletas.<\/p>\n<p>Aproximei-me devagar. Com olhar experiente, vi que aquele terreno ainda era f\u00e9rtil. Ela murchava a cada tentativa de toque. Pacientemente, espantei um a um os grilos. As borboletas encontram o caminho de volta, cobrindo o corpo de cores e alegrias. Cautelosamente, afastei os ramos de sensitivas e os de camomila. Livrei-a das ressequidas rosas e vi que um jardim se escondia por tr\u00e1s dos espinhos. Um jardim. Uma fonte de n\u00e9ctar com aroma de jasmim, s\u00e2ndalo e alecrim ao mesmo tempo. Provei o mel que emanava daquela fonte. As m\u00e3os ganharam vi\u00e7o de verdejantes folhas e as unhas atingiram consist\u00eancia suficiente para arranhar minhas costas enquanto eu depositava nela a semente guardada para aquele momento.<\/p>\n<p>A cada encontro, Flora se renovava, alimentava-se de sonhos novos e o sorriso voltava a sua face. As borboletas esvoa\u00e7am pelo seu corpo, deixando entrever, em breves relances, suas perfeitas formas. O vento levava seu perfume para toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Saciado, depois de tanto me afogar na seiva que ela abundantemente me oferecia, fiz o que sempre fora meu costume: procurei outros campos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quem chegou depois de mim jura que ali nunca houve flores, nunca houve perfume, que ela jamais sorriu e que jamais uma borboleta pousou sobre aquele ressequido corpo. Pois os que tentaram espantar os grilos que a cobriam s\u00f3 encontraram um tronco coberto de percevejos e, cobrindo o ventre, sedosas folhas de urtiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>ARTIGOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PARA APRENDER MAIS<\/strong><\/p>\n<p>Sempre que se aproxima o per\u00edodo avaliativo nas institui\u00e7\u00f5es de ensino, p\u00fablicas ou particulares, diversos estudantes desaparecem da esfera social sob o pretexto de \u201cestudar para a prova\u201d.<\/p>\n<p>Tal express\u00e3o, tantas vezes repetida ao longo dos tempos, pode ser indicativa de pelo menos duas situa\u00e7\u00f5es: 1) o aluno prestou aten\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado das aulas, revisou seus apontamentos, leu bastante sobre os assuntos ministrados&#8230; E, agora, na reta final da unidade de ensino, pretende apenas aprimorar seus conhecimentos a fim de superar a si mesmo, talvez buscando aprimorar alguma expertise; 2) o estudante tem consci\u00eancia de que, por algum motivo, n\u00e3o conseguiu assimilar as li\u00e7\u00f5es e, \u00e0s v\u00e9speras da prova, sabedor de que precisa de uma boa nota, procura recuperar o tempo perdido e alcan\u00e7ar a pontua\u00e7\u00e3o pretendida, mesmo que n\u00e3o tenha aprendido o suficiente.<\/p>\n<p>Infelizmente, pelo que se nota, h\u00e1 a preval\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o 2 sobre a 1. Quase sempre, o imediatismo de \u201ctirar uma boa nota\u201d, independentemente do grau de aprendizagem ou pelo menos de reten\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados ministrados pelos professores, ocupa mais a mente dos alunos do que o fato de aprender ou n\u00e3o. Para muitos, passar \u00e9 mais importante que saber algo.<\/p>\n<p>No entanto, tomando alguns simples cuidados e com mudan\u00e7as de h\u00e1bito, \u00e9 poss\u00edvel conseguir boas notas e obter altos graus de aprendizagem ao mesmo tempo. O simples fato de prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s aulas, eliminando as conversas paralelas e as digress\u00f5es, j\u00e1 ajuda a potencializar os efeitos do estudo.<\/p>\n<p>Se, al\u00e9m de dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s explica\u00e7\u00f5es do professor, o estudante conseguir autorregular-se para revisar diariamente o que foi visto na aula anterior, o percentual de assimila\u00e7\u00e3o dos conhecimentos j\u00e1 aumenta consideravelmente. Meia hora por dia de estudo deliberado para cada disciplina estudada por dia de aula far\u00e1 uma grande diferen\u00e7a no final de um bimestre letivo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas revis\u00f5es sistem\u00e1ticas, \u00e9 preciso tamb\u00e9m ir al\u00e9m do que foi ministrado pelo professor, investindo em mais leituras, pesquisas em outras fontes e contato com filmes e document\u00e1rios que tratem do mesmo assunto. Formar grupos de estudo para dirimir d\u00favidas, trocar informa\u00e7\u00f5es e ampliar conhecimentos tamb\u00e9m \u00e9 uma boa op\u00e7\u00e3o para complementar a aprendizagem. Contudo, em todos os encontros do grupo, deve-se manter o foco no objeto de estudo, a fim de evitar que assuntos alheios aos temas abordados tomem conta das conversas.<\/p>\n<p>A velha desculpa da falta de tempo para estudar pode desaparecer com um mapeamento dos momentos dispon\u00edveis durante o dia, ocupando os hor\u00e1rios ociosos ou destinados a tarefas que podem ser postergadas. Dessa forma, com planejamento, \u00e9 poss\u00edvel utilizar intervalos entre as tarefas para atualizar leituras ou pelos menos revisar t\u00f3picos. Outra sugest\u00e3o \u00e9 baixar \u00e1udios ou v\u00eddeos com palestras e aulas sobre os temas em quest\u00e3o para v\u00ea-los ou ouvi-los durante a execu\u00e7\u00e3o de tarefas cotidianas que permitam, como filas de banco, trajetos em coletivos ou salas de espera. Alguns tempos podem ser remanejados sem que se abra m\u00e3o dos hor\u00e1rios de trabalho ou de divers\u00e3o com familiares e amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estas s\u00e3o apenas algumas sugest\u00f5es simples, mas que podem potencializar os estudos, fazendo com que as informa\u00e7\u00f5es adquiridas em sala de aula deixem de ser algo circunstancial e passem a fazer parte do cotidiano do aluno. Ent\u00e3o, quando o ato de estudar deixa de ser algo pontual, com o objetivo \u00fanico de fazer uma prova, aumenta a autonomia intelectual do educando e, proporcionalmente, favorece a percep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel tirar boas notas a partir do que foi realmente aprendido e n\u00e3o apenas decorado para uma avalia\u00e7\u00e3o e esquecido no dia seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>SEMPRE \u00c9 TEMPO DE APRENDER<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A aluna chama o instrutor da academia e se queixa de que ela n\u00e3o consegue fazer determinado exerc\u00edcio. Ele olha para ela, solta um leve sorriso e diz que ela j\u00e1 passou da idade de aprender a executar aquele movimento. Segundo ele, as pessoas s\u00f3 conseguem aprender at\u00e9 determinada idade e, depois disso, \u00e9 imposs\u00edvel adquirir novos conhecimentos. Recomenda que ela n\u00e3o fa\u00e7a mais aquele exerc\u00edcio, d\u00e1 um outro risinho e vai para um canto da academia digitar mensagens em seu celular.<\/p>\n<p>A cena acima n\u00e3o foi inventada. Ela \u00e9 ver\u00eddica e aconteceu, como fica claro, em uma academia, mas, infelizmente, \u00e9 reproduzida, todos os dias, em diversos locais: universidades, escolas, centros de idiomas, ruas, mercados, shoppings, etc. algumas pessoas pensam que existe uma idade limite para a aprendizagem e que depois de determinado tempo de vida a capacidade de assimilar e processar novas informa\u00e7\u00f5es acaba.<\/p>\n<p>O instrutor do epis\u00f3dio acima descrito, al\u00e9m de agir com deseleg\u00e2ncia para com sua aluna, tamb\u00e9m demonstrou certo despreparo t\u00e9cnico no que se relaciona com o processo de ensino e aprendizagem. Ele, de alguma forma, acabou reproduzindo o senso comum que confunde etapas de desenvolvimento com idade certa para aprendizagem. O ser humano passa por diversas fases de desenvolvimento intelectual, f\u00edsico e locomotor, mas, em todos os momentos est\u00e1 predisposto a aprender.<\/p>\n<p>Claro que pode haver momentos em que estar em uma fase espec\u00edfica do desenvolvimento pode favorecer ou dificultar o aprendizado de determinados assuntos e facilitar ou n\u00e3o a assimila\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou cognitivas espec\u00edficas, mas isso n\u00e3o significa que algu\u00e9m possa estar impossibilitado de continuar aprendendo. Ou seja, o fato de haver uma ou v\u00e1rias limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou cognitivas para a intelec\u00e7\u00e3o de determinado tipo de conhecimento n\u00e3o equivale a dizer que algu\u00e9m n\u00e3o possa aprender algo que deveria haver aprendido em uma etapa anterior de seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que geralmente entra a interven\u00e7\u00e3o de um bom profissional da educa\u00e7\u00e3o, devidamente amparado pelos conhecimentos e t\u00e9cnicas fornecidos pela pedagogia e, mais modernamente, pela andragogia. As pessoas n\u00e3o aprendem da mesma forma e nem no mesmo ritmo que as outras e, mesmo recebendo as mesmas aulas e os mesmos impulsos, tendem a buscar solu\u00e7\u00f5es diferentes para problemas tidos como comuns a todos os aprendizes.<\/p>\n<p>Dessa forma, com um bom acompanhamento de um profissional de educa\u00e7\u00e3o, com a observ\u00e2ncia dos est\u00e1gios de desenvolvimento e com o respeito aos ritmos individuais de processamento dos conhecimentos adquiridos, as possibilidades de aprendizagem fogem ao mero aspecto temporal e ganham uma outra dimens\u00e3o que vai al\u00e9m dos escalonamentos et\u00e1rios do aprendiz.<\/p>\n<p>Outro aspecto relevante na aprendizagem \u00e9 saber quais s\u00e3o os objetivos que devem ser alcan\u00e7ados ap\u00f3s a se\u00e7\u00e3o de estudos ou de treinamento. O ato de aprender deve ser paulatino e constante. As metas a serem atingidas, os resultados almejados e os efetivamente alcan\u00e7ados deveriam ser claros tanto para o professor\/instrutor quanto para o aprendente, com o uso tamb\u00e9m de t\u00e9cnicas que incentivassem o educando a passar para a etapa seguinte sabendo onde falhou e como deve fazer para compensar suas defici\u00eancias. Contudo isso nem sempre acontece.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voltando para o instrutor da academia&#8230; Por estar mais preocupado com a mensagem do celular que com os objetivos de sua aluna, por n\u00e3o tentar saber em qual est\u00e1gio ela estava e nem atentar para sua condi\u00e7\u00e3o anterior ao chamado e tamb\u00e9m por n\u00e3o estar preparado para faz\u00ea-la sentir-se motivada a seguir na tentativa de superar os pr\u00f3prios limites, ele preferiu recomendar que ela estagnasse em sua trajet\u00f3ria a tentar faz\u00ea-la ver que os obst\u00e1culos podem servir como fonte de supera\u00e7\u00e3o. E ele acabou perdendo uma \u00f3tima oportunidade de mostrar a sua aluna que existe, sim, um tempo para aprender, e que aquela era a hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>POEMAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 01 \u2013 M\u00c9NAGE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Na cama, \u00e9ramos sempre tr\u00eas:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Eu, voc\u00ea e a solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Cada um esperando sua vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 2 &#8211; QUEDA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quando d\u00e1diva se tornou d\u00favida e d\u00edvida,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A beling\u00eanua pobre menina escorregou nas escolhas,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Segurou-se em ilus\u00f5es&#8230; c\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 03 \u2013 DE-CIS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Acuado entre o caos e os c\u00e3es,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Rasguei a roupa da esperan\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E fiz uma orgia com mil ilus\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 04 \u2013 INSANIDADE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">No meio da viol\u00eancia insana<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Uma m\u00e3e clama, um homem reclama<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E a clara inoc\u00eancia arde em chama&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 05 \u2013 URGENTE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sempre \u00e9 mais ou menos assim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quando algu\u00e9m diz: \u201cQuero muito falar contigo\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quase nunca \u00e9 algo bom para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 07 \u2013 D\u00daVIDA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Para descobrir n\u00e3o sei o que fa\u00e7o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se a diferen\u00e7a de gatinha para galinha<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00c9 uma linha ou um tra\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TR\u00cdSTICO 08 &#8211; AZAR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Que sujeito esdr\u00faxulo que sou!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tentei matar a d\u00favida<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E a d\u00edvida me cercou!&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"tab5\" class=\"info_tabs\">\n<h1>Iconografia<\/h1>\n\n\t\t<style type=\"text\/css\">\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 25%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-1072 gallery-columns-4 gallery-size-thumbnail'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j01-2.jpg'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j01-2-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j05.jpg'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j05-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j02.jpg'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j02-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j03.jpg'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j03-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><br style=\"clear: both\" \/><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j04.jpg'><img width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.academiamaranhense.org.br\/inf_aml\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/j04-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" loading=\"lazy\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl>\n\t\t\t<br style='clear: both' \/>\n\t\t<\/div>\n\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia Filho de Jos\u00e9 Furtado da Costa e de Maria Raimunda Neres Silva, Jos\u00e9 Neres nasceu em S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar em 17 de fevereiro de 1970 fez estudos iniciais em Bras\u00edlia e Goi\u00e1s (Luzi\u00e2nia), locais onde passou a inf\u00e2ncia. 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