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Um homem de muitas histórias

19 de setembro de 2017

Completando 85 anos de idade hoje, o escritor maranhense José Louzeiro é considerado pela crítica, um dos autores mais respeitados do gênero romance-reportagem; um filme está sendo produzido para contar a sua trajetória

José Louzeiro será celebrado em documentário (Foto: Divulgação/Paula Monte)

SÃO LUÍS-Com uma vida dedicada a contar histórias de personagens marginalizados na sociedade, o escritor, jornalista e roteirista maranhense José Louzeiro completa nesta terça-feira, 85 anos de idade, com uma obra consagrada pela crítica, muito embora, ainda seja desconhecida do grande público.

Pioneiro no gênero romance-reportagem no Brasil e com uma importante contribuição para o cinema nacional (são deles, os roteiros dos filmes “Lúcio Flávio- passageiro da agonia”, “Pixote- A Lei do Mais Fraco” e “O Homem da Capa Preta”), José Louzeiro tem uma vasta obra com mais de 40 livros lançados, alguns roteiros para o cinema e passagem por diversos jornais no Rio de Janeiro, sempre como repórter policial. Como reconhecimento de sua história, está sendo produzido um curta-metragem que irá abordar sua trajetória e que deverá ser lançado ainda este ano. Trata-se do filme” José Louzeiro: Depois da Luta”, dirigido pela cineasta maranhense Maria Thereza Soares e com roteiro de Bruna Castelo Branco, editora do caderno Alternativo de O Estado. O filme tem ainda direção de fotografia assinada por Paula Monte e Paulo Malheiros, design de som de Paulo Senise, que também assina a técnica de som ao lado de Marcos Belfort, produção de set de Fernanda Oliveira e Maria Thereza Soares, edição de Aléssio Seabra e Bruno Santos, assistência de produção de Claudia Marreiros. Thiago Barbosa dos Santos participa como assistente de direção.

Segundo a roteirista Bruna Castelo Branco, o filme, que começou a ser pensado em 2012, pretende lançar luzes para a obra do escritor, incentivando os maranhenses a conhecer a obra dele. “ O que me chamou atenção quando eu dizia que estava pesquisando a obra de José Louzeiro é que muita gente, apesar de conhecer alguns dos filmes e dos livros, não tinha conhecimento de que ele era maranhense, até por ele ter se mudado de São Luís ainda muito jovem. A nossa intenção é que as pessoas reconheçam a importância dele”, destaca.

Já em fase de edição de imagens, a obra foi gravada no início deste ano no Rio de Janeiro e em São Luís. Durante a fase de captação de imagens, a equipe do filme gravou depoimentos importantes de amigos e profissionais do cinema que trabalharam com o maranhense. Cineastas como Sérgio Rezende, Jorge Duran e José Joffily foram alguns dos entrevistados para a obra no Rio de Janeiro. Em São Luís, o filme captou depoimentos do escritor Benedito Buzar, do cineasta Joaquim Haickel e de Marita Freitas, amiga de infância de José Louzeiro.

Para a diretora do filme, Maria Thereza Soares, que tem formação em Cinema e Vídeo pela Universidade Federal Fluminense e também foi aluna da escola de cinema École Nationale Supérieure Louis Lumière (Paris), um filme sobre Louzeiro é fundamental e exige muito zelo na edição. “Aos nos depararmos com a imensa quantidade de trabalhos produzidos por Louzeiro, vimos que não há como compactar em um filme de 15 minutos. Sua obra é bastante extensa e não queremos suprimir detalhes importantes dentro de uma obra tão relevante, portanto está sendo uma tarefa delicada a parte da edição do filme”, analisou.

Marita Freitas, amiga de infância do escritor, foi uma das entrevistadas do documentário (Foto: Divulgação/Claudia Marreiros)

Depoimentos

O cineasta José Joffily, que dirigiu o filme “Quem Matou Pixote? ”, contando a polêmica história do ator Fernando da Silva Ramos, protagonista do filme “Pixote- A lei do mais fraco”, assassinado pela polícia em 1987. De acordo com Joffily, a obra tem inspiração no livro da esposa de Fernando Ramos e também contou com o faro jornalístico do roteirista. “ Louzeiro foi importantíssimo durante o processo todo, por causa desse viés jornalístico dele, sempre colocando a imaginação dele sobre os fatos”, opinou.

Para a poeta e agente literária Ednalva Tavares, a obra de José Louzeiro chama atenção pela temática, por ser um mergulho no universo mais cru da realidade brasileira. “José Louzeiro sempre esteve ao lado dos fracos e oprimidos, isso é muito presente na sua obra”, contou em depoimento para o filme.

Perfil

Nascido em São Luís, José Louzeiro morou até a adolescência morando no antigo bairro Camboa do Mato, sua relação com o jornalismo começou como revisor aprendiz de O Imparcial, para em seguida atuar como repórter policial. Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1954, teve atuação em diversos jornais como O Jornal, da Cadeia dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Posteriormente, passou pelas redações da Revista da Semana, Manchete, Diário Carioca, Última Hora, Correio da Manhã (no Rio) e, em São Paulo, pela Folha e o Diário do Grande ABC. Foi repórter de polícia durante mais de 20 anos.

Autor de mais de 40 livros, nos segmentos infanto-juvenil, biografias e romance-reportagens, gênero do qual é pioneiro no Brasil, José Louzeiro ainda colabora esporadicamente com artigos em jornais e sonha com alguns livros ainda transformados em filmes como “Aracelli, meu amor”, sobre o caso da menina Aracelli Crespo, assassinada, aos 8 anos de idade, em Vitória (ES), no dia 18 de maio de 1973. A morte da menina foi contada no romance-reportagem, censurado no dia do lançamento, por falar de forma clara que os culpados pela morte eram pessoas da alta sociedade da capital do Espírito Santo. Hoje, a data da morte da garota Aracelli é lembrada como o Dia Nacional de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, graças também ao trabalho incansável de Louzeiro em denunciar o crime. “É um filme que eu ainda gostaria de fazer”, planeja.

Mais

O filme foi aprovado no II Edital do Audiovisual do Maranhão, concebido por meio de uma parceria entre Governo do Estado e Agência Nacional de Cinema (Ancine), o filme tem o apoio cultural da Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo do Estado do Maranhão (Fecomércio) e do Restaurante Thai.