Pagina Inicial > Acadêmicos > Ocupantes

Ocupante

Sônia Almeida

  • Cadeira

    20

  • Data da Eleição

    28.04.2006

  • Data da Posse

    10.08.2006

  • Recepcionado por

    Jomar Moraes

ANTECESSOR:

Biografia

Nasceu em São Luís a 29 de março de 1956. Filha de Josely Pires Pereira e Carmelinda Corrêa Pereira. Foi aluna do Colégio Santa Teresa, nas irmãs Dorotéias, onde fez os antigos primário e ginásio.

É graduada em Letras pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, especialista em Semiologia Aplicada ao Ensino de Língua e Literatura, pela UFMA/Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ), mestra em Educação pela UFMA e doutora pela Universidade de São Paulo – USP. Na Faculdade de Educação da USP, pesquisadora do programa de Pós-Graduação, na área de Linguagem e Educação. Sua área de interesse é o texto escrito.

Em 1989, deu início a reflexões sistemáticas sobre a necessidade do ler/co-produzir. Daí nasceu o Núcleo de Leitura e Produção Textual, da UFMA. A partir de 1992, começou a desenvolver um trabalho, principalmente com alunos do Ensino Médio, nesse âmbito. Tem construído uma história na formação de professores de língua portuguesa no Maranhão, ministrando disciplinas pelo PROEB em Itapecuru, Arari, Vitória do Mearim, Santa Luzia, do Tide, Buriticupu, Vargem Grande, Alto Alegre do Pindaré, Pinheiro e São Bento. De Seus trabalhos de leitura nasceu a obra: Tribuzi, Bandeira poética de São Luís (1996) e Aula de redação: uma perspectiva transdisciplinar (2003).

Exercendo sua profissão de professora, Sonia Almeida se tornou leitora e, seguindo a indicação de obras para o exame vestibular, leu para seus alunos uma centena de obras nos últimos 15 anos, tendo, com isso, a oportunidade de refletir sobre a vida sob a ótica de muitos autores da literatura maranhense, brasileira e portuguesa: João Francisco Lisboa, Antônio Vieira, Sousândrade, Aluísio Azevedo, Artur Azevedo, Ferreira Gullar, Josué Montello, José Chagas, Nauro Machado, José Sarney, Conceição Aboud, Machado de Assis, Cruz e Souza, Marina Colasanti, Lygia Bojunga Nunes, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, José Saramago, Eça de Queirós, entre outros.

Lendo, acabou produzindo a sua obra poética onde deixa bem claro que escrever é inscrever atos de leitura. Basta ver o poema (R) Deferência que inicia o poema metalinguagem em sua obra Penumbra, publicada em 1998.

Bibliografia

Obra poética:

  • Alegorias (1992);
  • Penumbra (1998);
  • Palavra cadente (2001);
  • Há fogo no jogo (2003)

Discursos de Posse

Sr. Presidente da Academia Maranhense de Letras, dr. Joaquim Itapary,
Ilustre Acadêmico Jomar Moraes que, gentilmente, aceitou o convite para me receber nesta Casa de Antônio Lobo,

Queridas Confreiras e Confrades,
Autoridades aqui presentes,
Caros Professores,
Queridos Alunos,
Meus Amigos,
Minha Família,
Meus Filhos,
Minha Neta Beatriz (Ela só tem quatro meses, mas, no dia que for dado a ela ler este discurso, eu quero que ela saiba que eu também me dirijo a ela neste momento):

Desafiar esta ilha feita de papel talvez seja descobrir que qualquer solidão é ilusória: os fatos podem ocorrer sem que aconteçam. Podem acontecer sem que nos ocorram. Podem permanecer quando parecem ter ido. Ocorrem se nos ocorrem e, por isso, muitas vezes somos traidores em nome da memória e nos dizemos traídos por ela. Dizemos que a memória se faz dos fatos acontecidos em sua real dimensão. Mas sempre a en­feitamos com as nossas invenções. É que, muitas vezes, queríamos ver e acabamos por crer que vimos. E, por termos pensado ter visto, cremos tê-­los vivido.

Mas a ilha é uma ilusão, sobretudo agora que a chamo página. Nela, não consigo desembarcar vazia. As histórias estão aqui dentro em inevitável desordem. Chamo as palavras para ordenar o que realmente aconteceu. O que ocorreu sem ter acontecido. O que é memória. O que é invenção. Mas o que encontro agora é o limiar. O limite. O trânsito da mentirosa ordem à verdadeira desordem. Ilusória ordem da história. A vertigem da linguagem.

Penso que cheguei, mas tenho que voltar. À Ponta da Ilha. A um passado que hoje reconheço como pequenos presentes perdidos — roubados pelo tempo. E revejo o começo de uma história que aprendi a tecer no fio da palha. Lembrança das lembranças de Alzira. Talvez pudesse inventar que fosse um chapéu, um telhado ou uma cobertura. Não me lembro. Mas sei que teci. Neste caso, prefiro permanecer na abstração da coisa em si que chamo qualquer caminho, metáfora da vida — esta que nos faz voltar ao ponto da ponta. Essa volta me faz ousar desconstruir uma trilha que, em si, já é múltipla. E mágica. É que as histórias vão se compondo de um tom de encantamento, na medida em que invadem os universos do insondável e, por isso, convidam a imaginar.

Demarco as determinações que constituem este instante. Há a Academia Maranhense de Letras fundada há quase um século. Há esta Casa de Antônio Lobo. Diante dela, pensamentos que se cruzam, pensadores que por aqui permanecerão passando. A fascinante ideia da imortalidade. Um tom do universo imaginário de um ambiente que se chama livro. A sensação de perseguir o inédito trazido pela leitura. Talvez o mistério das bibliotecas, onde sempre nos falta algo que nos satisfaça nas obras completas. Insatisfação de não nos trazerem a resposta que tanto buscamos para a pergunta que nem nos fizemos. Há muitas ideias prontas e a serem feitas; muitas sensações despertadas. Há o que move. Há histórias. Memórias minadas de necessária invenção. Há a invenção que mistura conhecimento com entendimento; sapiência com sabedoria, inteligência com visão, descobrimento com revelação. Talvez por isso dois olhares a constituam em tons de Casa e de Academia. Dois tons, dois discursos fundadores, dois planos fabricados da desordem necessária que é viver.

A Academia Maranhense de Letras foi fundada nesta data, há 98 anos. Ela se constitui de quarenta membros efetivos e de outros vinte membros correspondentes.

A princípio, só no que se refere aos efetivos, sem levar em conta as sucessões ocorridas ao longo desses quase cem anos, quarenta histórias feitas de histórias lidas, lembradas e inventadas; feitas e refeitas; rascunhadas e passadas a limpo, porém, em qualquer das dimensões: vividas. Quarenta histórias que já se alternaram sem se substituírem. Cadeiras de honra.

Impregnada de todos esses tons, é de número vinte a Cadeira de que tomo posse neste momento. Ela reúne do contexto maior o que há de Casa e de Academia. Ela separa também o que a faz ser, em sua particularidade, referência eterna a Trajano Galvão, a Barros e Vasconcelos e a Conceição Aboud.

Este fio particular que ora se impõe recupera primeiramente Trajano Galvão — o patrono. Filho de Francisco Joaquim de Carvalho e d. Lourença Virgínia Galvão, Trajano Galvão nasceu a 19 de Janeiro de 1830, em Barcelo, às margens do Mea rim. Passou a infância em Cachoeira Grande, perto de Codó, criado por tios paternos, pois, logo após seu nascimento, ficou órfão de pai. Depois disso, d. Lourença casou­-se com o negociante português Antônio Joaquim de Araújo Guima­rães. Foram morar em Lisboa e de lá mandaram buscá-­lo para estudar. Trajano Galvão voltou ao Brasil, começou a estudar Direito em Olinda. Interrompeu o curso, voltou ao Maranhão, retirando-­se para o Alto Mearim, onde seus tios tinham passado a residir.

Quase obrigado por seu primo Raimundo Carvalho, voltou a Pernambuco, formou-­se em Direito, mas não esperou o tempo de trabalhar: retirou-­se novamente para o Alto Mearim, onde se casou com a prima Maria Gertrudes de Carvalho com quem teve duas filhas. Por lá ficou, voltou a São Luís por problemas de saúde, período em que ainda ensaiou ser professor. Retirou-­se ainda uma vez para a vida rústica que escolhera para si. Era simples, despretensioso, sem ambição. Gostava de viver na obscuridade e no anonimato.

Trajano Galvão teve a sabedoria de conciliar todo o gosto literário à vida rude daquele lugar, o Alto Mearim. Quase tudo do que escreveu encontra-­se na coleção que tem por título As três liras, volume publicado em 1863 por Belarmino de Matos.

O seu estilo era revelador daquela alma simples que amava viver retirado. Uma simplicidade que não se descuidava de uma forma apurada pela métrica de seus versos. O negro escravizado que fugia aos maus tratos inspirou versos de Trajano Galvão:

Nasci livre, fizeram-me escravo,
Fui escravo, mas livre me fiz.
Negro sim; mas o pulso do bravo
Não se amolda às algemas servis!
Negra a pele, mas o sangue no peito,
Como o mar em tormentas desfeito,
Ferve, estua, referve em cachões!

Negro, sim; mas é forte o meu braço
Negros pés, mas que vencem o espaço,
Assolando quais negros tufões!
Negro o corpo, afinou-se minh’alma
No sofrer, como ao fogo o
tambor; Mas altiva reergue-se a
palma Com o peso, assim eu com
a dor!
Com a língua recolhe pascendo
Tamanduá, de formigas fervendo,
Tal de açoites cingiram-me os rins;
E eu bramia qual onça enraivada,
Que esbraveja, que brame acuada
Em um circo de leves mastins.

Deste canto pulsam dores, outros cantos e outros tempos. Sons e sentidos despertam a memória nas lembranças da menina. Volto ao Teatro Artur Azevedo, nos meus tempos de Colégio Santa Teresa e ouço­-me a dizer: — De Castro Alves, O Navio Negreiro: “Era um sonho dantesco… O tombadilho/ Que das luzernas avermelha o brilho,/ em sangue a se banhar./ Tinir de ferros… estalar de açoite…/ Legiões de homens negros como a noite/ horrendos a dançar… […]/ E ri­-se a orquestra irônica estridente…”.

Inspiraram também os poemas de Trajano Galvão as mulheres negras. Tanto que traduzem a voz sensual feminina que nem a escravidão seria capaz de sufocar. Do poema A Crioula são estes os versos:

Ao tambor, quando saio da pinha
Das cativas, e danço gentil,
Sou senhora, sou alta rainha,
Não cativa, de escravos a mil!

Com requebros a todos assombro
Voam lenços, ocultam-me o ombro,
Entre palmas, aplausos, furor!…
Mas, se alguém ousa dar-me uma punga,
O feitor de ciúmes resmunga,
Pega a taca, desmancha o tambor!
Na Quaresma meu seio é só rendas
Quando vou-me fazer confissão;
E o vigário vê cousas nas fendas,
Que quisera antes vê-las nas mãos!…

Prossigo: o outro fio dessa meada recupera também Barros e Vasconcelos, o primeiro ocupante desta Cadeira. Ele nasceu a 31 de julho de 1879, em São Luís. Homem estudioso, jornalista, político e magistrado, descendente de ilustre família de distintos e magistrados íntegros. Deixou dois livros: o romance, Redenção e um Tratado de limites entre Maranhão e Piauí. Barros e Vasconcelos exerceu vários cargos: foi juiz de Direito, secretário da Fazenda, consultor jurídico, membro e presidente do Conselho do Estado, advogado do Estado na questão de limites com o Piauí, duas vezes corregedor da Justiça, sócio fundador do nosso Instituto Histórico e Geográfico e do Sindicato de Imprensa, catedrático de Geografia Econômica na Escola Superior do Comércio de São Luís, membro e presidente da comissão que organizou a Ordem dos Advogados no Maranhão. Barros e Vasconcelos era um homem fervoroso e considerava a Terra um espaço inferior, distanciada que é pela ciência da grande lei divina.

De acordo com a inevitável lei dialógica, Trajano Galvão teve seu percurso tecido por Barros e Vasconcelos e ambos, por Conceição Aboud a qual está sob o limiar da linguagem de cuja vertigem agora me apodero.

Eis a luta entre a realidade e o imaginário que se dá neste ambiente também contraditório, entre os tons de Casa e de Academia. Eis a luta entre a menina que olhava para esta Casa pelo outro lado da rua, com sua porta sempre fechada para o misterioso lado­-de-­dentro.

Eis a Casa de Antônio Lobo cujo mistério a menina nunca ousou sondar e cujas portas nunca pensou transpor. Eis-­me aqui completando o salto entre a menina que lia para Ana Pureza as histórias de Sarita na Cartilha do abc e a mulher que lê Conceição Aboud na literatura maranhense, nesta sessão solene da Academia Maranhense de Letras. No percurso geográfico, o salto entre a casa de nº 606, onde vivi, e esta de nº 84. E a mim cabe, então, apresentar Conceição Aboud:

Primeiro, Conceição Belo Neves, filha de Maria Belo Neves e Luciano Neves. Nasceu no dia dez de julho de 1925, aqui em São Luís do Maranhão. Casou-­se com Alexandre Aboud, bem sucedido comerciante maranhense, com quem foi morar no Rio de Janeiro, passando a Conceição Neves Aboud de cuja filha, Maria Júlia Neves Aboud, recebeu dois netos: Carolina e Alexandre.

Esta é, a princípio, a escritora, romancista maranhense Conceição Aboud. Uma pessoa que, para quem a conheceu, precisa ser descrita por sua beleza e vaidade; por sua paixão pela literatura; pela sua curiosidade por outras culturas, pela capacidade de viver a opulência material sem ser seduzida pelo mundo das aparências. Tudo o que se torna mais forte por se tratar de uma mulher que não fechou o olhar para o mundo, em função de viver, como era comum, a delimitação do cotidiano no espaço do casamento.

Os livros foram, para Conceição Aboud, o transporte para a vida a lhe ensinar que algumas dores podem ser guardadas para o fim; que é preciso ter menos coragem para morrer e mais para viver; que é mais difícil construir patrimônio do que se despojar dele; que o fim talvez seja sempre voltar à condição inicial

Entretanto, a imortalidade não está somente no que Conceição Aboud viveu na vida cotidiana. Não está na beleza física que esbanjou, nos enfeites valiosos que colecionou. Esse contorno também é feito para que haja contexto onde a ideologia fabricada possa se sustentar com um nome feito de outros nomes. A imortalidade está não só no que a escritora fez, mas no que ela pensou; no que ela faz pensar do que pensou; no que ela faz dizer do que falou e no que faz escrever do que escreveu. A imortalidade está mais naquilo que o escritor nos faz ser do que naquilo que ele foi. A imortalidade está na obra que o leitor eterniza nos livros lidos e irremediavelmente abertos, mesmo que fechados.

Diante disso, tarefa minha, esta: a de leitora. Encantadora consciência de que toda ideia nasce em outra que foi feita de outras e que vai para somar-­se à próxima e única, na sempre-­ilusão do singular ou do inédito. Encantadora consciência do engano de que a subjetividade é ordenada e ímpar. Encantadora busca sempre negada aos pares. Encantadora leitura. Mágica missão para a qual me preparo.

É que me preparo para invadir as metáforas construídas por Conceição Aboud. Ofício em que não garanto nenhuma gota de frieza, nem assumo o compromisso de não tomar as imagens para mim. Porque a leitora está ansiosa por iniciar a ventura de beber na fonte e saciar a sede de literatura que é a própria inquietude da vida, a própria insatisfação que me move também para Deus.

Passeio com o olhar pela obra. Entre os romances publicados, Ciranda da vida, Grades e azulejos, Rio vivo, Teias do tempo (obra premiada). Entre os não publicados: Cinza e rosa, O preço, Um amor de psiquiatra. Vejo ainda que ela produziu peças intituladas Retalhos i, Retalhos ii, Retalhos iii e Retalhos iv, cuja montagem ela mesma fazia com as pessoas da família, amigos e empregados da casa.

Passeio de novo com o olhar pelos títulos metafóricos da obra de Conceição Aboud e escolho as teias. Teias que são dela. Teias que são minhas. Teias que são nossas. Teias de toda a gente. De toda a humanidade. Teias desse universo que se chama mundo. Teias de tempo feitas do tempo de Conceição Aboud.

Começo a ler o romance Teias do tempo e eis que me encontro com uma personagem surpreendente: uma professora. Maude era seu nome. Era uma inglesa que dava aulas de inglês para adolescentes. Ela vivia uma vida misteriosa, enclausurada “no túmulo enorme do casarão”, desde a morte do marido:

Desde então não punha o pé na rua ou recebia as antigas relações. Nunca foi ao cemitério, não houve Missa de Sétimo Dia, para escândalo das beatas, por Eduardo ser católico. […]. Alguém devia fazer-lhe compras e cuidar, pelo menos da sala de aula, sempre limpa, o chão encerado.

Um dos alunos? Um velho amigo? Vizinhos nunca a viram sair, nem ninguém chegando com pacotes ao portão enorme e carcomido do sobradão. Maude não poderia viver das balas oferecidas aos alunos. Balas deliciosas. (p.10)

A professora Maude

amava alguns alunos […]. Só Diana era como se fosse sua filha!
Por quê? Por ser uma alma inquieta e complicada.[…].
[…] Conversavam sobre literatura, história, filosofavam. […].
— […] A vida, minha filha, é mais fabulosa do que qualquer ficção.
Mais terrível.[…].
— Conte, Miss Maude.[…].
— Não posso “Dáiana”. Não gosto de me lembrar do passado. Não consigo esquecê-lo, mas não posso falar nele. (p.11)

Acho a mente uma coisa incrível, infinita. Guarda lembranças de
anos e anos, sonha com o futuro, reage de mil modos. […]. A memória,
por exemplo, é uma coisa monstruosa. Esconde fatos importantes,
lembra insignificantes. Não temos memória. Ela é que nos
possui. (p.57)
O luar marcava no quarto de Maude as formas das janelas do sobradão.
(p.14)

Para o aluno Otávio, a professora não mandava. Iluminava. Maude não só lia o sentido das coisas, mas também sabia que a lembrança da felicidade era o suficiente para ser feliz. Vivia intensamente a saudade e sabia ser cúmplice dos alunos para fazê­-los ir em busca dos sonhos, enquanto ela pensava “ser feliz por ter sido feliz” (p.38). Foi assim com Diana e com Otávio, seus alunos prediletos. Otávio, homossexual que ela ajudou a fugir. Diana que amava Aluísio, um rapaz hipocondríaco que vivia trancado em casa. Era assim que se envolvia em várias vidas, quietinha naquele sobrado sombrio, onde as teias do tempo foram sedimentando o Outro, o outro lado — o Inconsciente, onde se aloja a multidão que nos faz.

Talvez porque tivesse vivido intensamente o amor, tentava manter vivo o marido morto, pelo ar intocado do quarto onde ninguém entrava. E lá vivia Maude, a enterrar-­se no sobrado sem nunca mesmo ter morrido.

Começo a ler e eis que, leitora, me encontro com a professora:

Dividia, então, as lições em duas partes: gramática e conversação. Conversação adorava. Quebrava o tédio de sua rotina no casarão. Fazia um jogo sutil e através dele ia descobrindo a vida, o temperamento, os sonhos das pessoas. Isto era seu cinema, seu teatro, sua leitura. (p.11) No final, Maude volta para a Inglaterra, para reencontrar os filhos e os netos:

Só Diana sabia que Maude partiria […]. Ao fechar a porta da sala de aulas e partir, muitos alunos passaram por sua memória e cenas, cenas muitas vezes repetidas. (p. 127)

Diana ficou com a chave do sobradão a fim de apanhar a poltrona de Eduardo. […]. Tinha medo da cadeira se desintegrar.[…]. Resolveu investigar o sobradão. Sentiu-se trêmula. Pires e pires de veneno separavam a parte habitada, dos fundos do casarão em ruínas. Teias e teias de aranha cruzavam-se e — “fantástico!” — faziam um desenho parecendo um cérebro humano. Diana não sabia, Miss Maude fora naquela sala de aula de inglês, um embrião, uma forma indefinida do que seriam mais tarde psiquiatras e psicólogos, receptáculos de fobias, sonhos, desejos, ânsias, alegrias.

Maude morreu em Londres, em 1947, de um enfarte fulminante.

Não precisou ser envenenada. (p.128)

Leio Teias do tempo de Conceição Aboud e desconstruo a metáfora que me faz ver, nas teias, o que tece um professor: sonhos, ternuras, culpas, traumas, paixões, amores e desamores dos alunos que ele vai colecionando no inconsciente. Desconstruo a metáfora do embrião gerador do que viria a ser psiquiatras e psicólogos e entro pela palavra no sentido de ser que entra pelo sentido de dizer.

É a vertigem da linguagem.

Leio Teias do tempo de Conceição Aboud e encontro, na professora que Maude foi o sentido de ensinar que é iluminar. Ser professor é ler pelo olhar do aluno. Atravessar para a vida com ele. Viver a miséria da condição humana. Brilhar enquanto as teias do tempo vão tecendo a desordem necessária e inevitável. Vejo, na sala de aula da professora Maude, minha sala de aula. Das aulas de conversação à leitura do universo. A deliciosa angústia de entrar pelo labirinto do texto.

Vejo, na aula de conversação da professora Maude, minha travessia para a vida através dos textos. E digo­-lhes o seguinte: só me apaixonei pela biblioteca quando a encontrei na alma de algumas pessoas. Lembro do início e eis a surpresa dessa experiência no depoimento de Sartre (O pensamento vivo de Sartre, 1990, p.11):

Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros. No escritório de meu avô, havia-os por toda parte: era proibido espaná-los exceto uma vez por ano, antes do reinício das aulas, em outubro. Eu ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas: em pé ou inclinadas, apertadas como tijolos nas prateleiras da biblioteca ou nobremente espacejadas em aleias de menires, eu sentia que a prosperidade de nossa família delas dependia. Elas se pareciam todas; eu foliava num minúsculo santuário, circundado de monumentos, atarracados, antigos, que me haviam visto nascer, que me viam morrer e cuja permanência me garantia um futuro tão calmo como o passado. Eu os tocava às escondidas para honrar minhas mãos com sua poeira, mas não sabia bem o que fazer com eles…

Vivi, no início, a surpresa dessa experiência também no depoimento de Lígia Bojunga. Ouçam o que ela escreveu:

Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra ir brincar em livro.

Foi também forte o meu despertar pela experiência de Clarice Lispector. Escutem:

Quando eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor! Aí eu disse: “Eu também quero”.

É a vertigem da escrita.

Aprendi com a leitura a travessia para a vida. Antes: aprendi com os livros o fundamental envolvimento com as palavras. Este relacionamento que me traz a este presente envolvido pelas teias do tempo de Conceição Aboud. Diante da metáfora, a minha história não resiste. Revela-­se. Porque é esta historicidade que dá sentido ao sentido.

Por isso, enfrento metáforas, metonímias, imagens, figuras… Gesto-­me no ventre da palavra e gero minha palavra na imagem que gira num círculo vicioso que vigia cada gesto meu de dizer e me vicia… Passeio por frases e, súbito, tropeço. Mesmo que tente seguir apressada, buscando ver rápido para já ter lido, e, quem sabe, até esquecido que li, encontro-­me entre grades de linhas, oscilando diante da imagem que me clareia e me engravida da palavra grávida de mim.

A metáfora grávida de mim feito As teias do tempo, de Conceição Aboud. Sinto, nas deliciosas balas que a professora Maude preparava para os alunos, o cheiro do chocolate quente que tem me ajudado a iluminar os meus alunos, à medida que sou iluminada por eles. Ah! Quantos alunos eu ensinei e com quantos alunos eu aprendi.

Cada um aqui tem ou deve ter tido a sua professora Maude. Há muitas maudes trancafiadas em casarões, construindo, com seus alunos, seus diálogos sobre a vida. Muitas teias de aranha cegando consciências. Dianas e otávios passeiam agora na minha lembrança. Leituras são refeitas. Textos são escritos e reescritos.

Leitura, metáfora, texto, teias. Na história da professora Maude, encontro­-me até com a mesa da minha avó: “uma mesa enorme toda marcada de carretilha, traços de tesoura. […]. Mesa marcada, sofrida e de lá saindo tanta coisa bonita…” (p.38). Sinto agora que ali minha avó ia costurando, aos meus olhos de leitora, os caminhos irregulares de suas netas. Se imaginasse quantos bisnetos teria, talvez tivesse feito uma mesa maior para costurar mais vida e ficar mais tempo conosco.

Penso que cheguei, mas tenho que voltar, pela metáfora, à Ponta da Ilha. E volto a um passado que hoje reconheço como pequenos presentes perdidos — escondidos nas teias do tempo. E, desde o começo, eu trouxe o início com que desembarquei nesta ilha. Aliás, nesta página. Trouxe comigo meu pai, Joseli Pires Pereira, presença em mim neste momento. Trouxe minha mãe, Carmelinda Correia Pereira — a ternura dos meus dias. Trouxe minhas irmãs: Alzira, Conceição, Helena, Eliane e Ana Maria. Meus cunhados. Seus filhos e seus netos. A nossa cumplicidade. Trouxe Ana Pureza, colo inesquecível da minha infância. Trouxe meu avô Dico, minha avó Zizi, meu avô Telasco, minha avó Bembém e minha avó Alzira. Minha tia Terezinha e meu tio Carló. Todos os meus tios e primos. Trouxe todos os meus amigos: os que continuam sendo e os que desembarcaram no caminho. Trouxe os meus alunos. Trouxe os meus professores e todos os autores dos livros que li e os autores dos livros que leram e os autores… Trouxe os atores. Trouxe tragédias e comédias. Trouxe o teatro e trouxe o circo. Trouxe o sentido da vida. A vertigem da linguagem: o fogo para este jogo. Mas nunca esquecerei, nestas teias, o ponto da ponta da palha com que vou tecendo os recaminhos por esta rua da Paz onde vivi.

Desembarco plural em Daniel, Rafael, Danilo e Beatriz. Desembarco com minhas noras Priscila, Rossana e Tirza. Desembarcamos na ilusão de carregar a bagagem, porque é Jesus quem carrega a nossa.

Um carvão acende sua chama, e, em outro, o fogo já virou cinza. Enquanto isso, uma semente acabou de ser plantada para ainda fazer a árvore. E assim é a vida: Trajano Galvão, Barros e Vasconcelos, Conceição Aboud e agora, eu. Assim, volto a dizer do impossível de desembarcar sozinha nesta ilha­página. Aliás, o que há nela do que possa parecer trio, é trilho, é multidão. Em todos. Em cada um de nós. Em mim. O que entrou nela foi parte do recebido com que a fabriquei. E o que dela continuará saindo é o produto.

Ninguém se esquecerá do romance Teias do tempo.

Ninguém se esquecerá mais da professora Maude: a professora que sondava a alma dos alunos para deixar fluir seus sonhos, seus medos, suas culpas, seus temores e suas ternuras.

Ninguém se esquecerá das balas deliciosas fabricadas aqui com cheiro de chocolate quente.

Ninguém se esquecerá dessa vertigem que é a linguagem. Esta aventura de poder devorar a consumidora metáfora.

Ninguém se esquecerá da nossa romancista Conceição Aboud.

Ninguém se esquecerá.

.

Textos Escolhidos

Aguarde Atualização…

Iconografia

Aguarde Atualização…