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Ocupante

Sálvio Dino Jesus de Castro e Costa

  • Cadeira

    32

  • Data da Eleição

    16.07.1998

  • Data da Posse

    16.07.1999

  • Recepcionado por

    Benedito Buzar

ANTECESSOR:

Biografia

Nasceu em Grajaú-MA, a 5 de junho de 1932. Fez o curso secundário no Colégio de São Luiz, da capital maranhense, e bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Luís, onde participou de movimentos estudantis e literários.
Ingressou muito jovem no jornalismo, como revisor e repórter dos Diários Associados. Advogado, atuou em numerosos júris populares no interior e na capital do Estado, e foi o autor do projeto de criação, no interior do Estado, da primeira Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil- Seção do Maranhão, núcleo instalado em Imperatriz, e do qual foi conselheiro.
Líder estudantil, foi atuante membro da União Maranhense dos Estudantes Secundários-UMES; pertenceu ao Parlamento Escola da Faculdade de Direito e foi eleito orador oficial do Centro Acadêmico Clodomir Cardoso, da referida instituição de ensino superior.
Vocacionado para as atividades políticas, elegeu-se, em 1954, vereador de São Luís e, em 1962, conquistou seu primeiro mandato de deputado estadual, havendo sido cassado em 1964, sob a acusação de atividades subversivas. De volta à Assembléia Legislativa do Estado, foi distinguido, em 1977, pelo Centro Social Estudantil Maranhense, com o título de Melhor Deputado Estadual desse ano. Foi prefeito municipal de João Lisboa-MA em 1989 e 1997.
Presidente, por dois mandatos, da Associação dos Municípios da Região Tocantina-AMRT e da Associação dos Municípios do Sul do Maranhão-AMSUL. Exerceu diversos cargos em comissão no Governo do Estado do Maranhão.
Membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras e seu vice-presidente em 1991/92.

Bibliografia

a) contos: Nas barrancas do Tocantins (1981).
b) poesia: Semeando manhãs (1985); Luzia, quase uma lenda de amor (1990).
c) estudos biográficos: Quem passar por João Lisboa (1989); Clarindo Santiago: o poeta maranhense desaparecido no rio Tocantins (1997).
d) crônicas: Verde sertões e vidas. São Luís: 1999.
e) história: Raízes históricas de Grajaú (1974); Onde é Pará, onde é Maranhão? São Luís: Sioge. 1990; O perfil histórico do rio Tocantins (1992); A Faculdade de Direito do Maranhão (1918-1941), São Luís: Edufma, 1996; Leões: um palácio de histórias, lenda, mitos & chefões. São Luís: Sioge.1997.

Discursos de Posse

DISCURSO DE POSSE

Minhas Senhoras, Meus Senhores:

Desejo de vero sentir, evocar, no pórtico deste pronunciamento, para o qual suplico a benevolência de todos, uma parábola, de sabor esfíngico, que bem espelha a grandeza de espírito dos homens que exercitam a palavra com maestria.

Essa pequena fábula, o ilustre escritor e jornalista Edmilson Sanches recolheu­-a de cadernos amarelecidos e deu-­lhe uma nova roupagem, tal qual o exímio ourives que manipulando o ouro fino transforma-­o em bela obra de arte.

O jovem discípulo aprisionou um pequeno pássaro entre as mãos. Colocou­-se atrás do seu mestre e falou­-lhe: – Mestre, tenho um pássaro nas mãos. O Senhor, que sabe todas as respostas, diga­-me: ele está vivo ou morto?

Se o mestre respondesse: está vivo, o discípulo esmagaria o pássaro e o exibiria morto. Se a resposta fosse: está morto, ele libertaria o pássaro que voaria frente ao mestre, agora desmoralizado.

O que falar, o que dizer?

O que se deve dizer em um momento tão festivo, quando nossa alma embriagada de forte emoção deixa-­se dominar pela mais feliz das ilusões do outono existencial de que vivemos, o sonho dourado da imortalidade acadêmica?

Da genialidade de Rui Barbosa colho esta sábia lição:

Embora as maiores instituições humanas se alienem, ou enxovalhem, resta-nos sempre uma, tão nova nos lábios de Gladstone, como nos de Péricles: a instituição divina da palavra.

Tão divina, realmente, é a instituição da palavra que através dela, no princípio, Deus criou os céus, a terra e tudo o que neles há. Tão extraordinário é o poder verbal que desde os memoráveis tempos dos profetas, passando pela grandiosidade helênica e a arrancada do novo mundo decorrente das ousadas conquistas marítimas, pedras sobre pedras desabaram, no entanto, a palavra, os versos do maior monumento literário da língua portuguesa, Os Lusíadas, embora parecessem frágeis, de pouca resistência, jamais deixaram de existir, são eternos como a casa bíblica que não desaba, pois é construída sobre a rocha.

Santo Agostinho, o incomparável teólogo das bem­-aventuranças, agrupando as palavras do Senhor no quadro de reflexões sobre o Sermão da Montanha, ensina­-nos que, sendo Cristo a rocha, edificar sobre o Cristo significa pôr em prática uma dinâmica visando à grande escalada da montanha da redenção do homem.

Perdoem­-me um registro todo pessoal. Nos idos de 1964, estive por largos dias no cárcere militar ao lado do poeta Bandeira Tribuzi e do saudoso jornalista Vera­-Cruz Marques. Pois bem. Do primeiro, o sempre querido Tribuzi, ouvi certa manhã uma marcante lição, como todas dadas pelo inolvidável homem de letras maranhense: “Toda causa está associada ao espírito, a termos como eloquência verbal, luta libertária. Jamais deve-­se desassociá-­la, sob pena de cair-­se em retumbante fracasso”.

Por outro lado, Darcy Ribeiro, um dos intelectuais mais brilhantes da América Latina, confessa eloquentemente: “Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando e lutando, como um cruzado pelas causas que me comovem”.

Os mestres têm razão. Desde o Gênesis, quando Deus tirou do verbo todas as coisas materiais e seres viventes, passando por ciclos históricos que se perderam nas madrugadas dos tempos, as grandes causas associadas ao bom combate de que fala o apóstolo Paulo têm sido a estrela polar que ilumina os nossos caminhos, na busca eterna por melhores dias de vida compatíveis com a dignidade cristã.

Daí o porquê de Von Lhering, em notável ensinamento, sustentar que todas as grandes conquistas que a história registra foram alcançadas à custa de lutas ardentes, na maior parte das vezes continuadas através de séculos.  Minhas senhores, Meus senhores:

Todo esse encadeamento de ideias leva­-me ao relato de caráter esfíngico de que falei no início.

Quando o discípulo pensava que o mestre nada tinha para dizer, este então fala: “Meu caro jovem, o destino do pássaro está em tuas mãos. Pensa e age como quiseres”.

Numa ocasião tão solene como esta, onde se pensa que a noite é nossa e é para nós a festa dos luminares da cultura, confesso que uma força irresistível me leva a dizer alto e a bom som: também sou um homem de causas. Sim. Ao longo de minha vida pública, muito embora com voos de pequeno alcance, tendo a palavra como bússola maior, sempre defendi nobres causas, todas voltadas para a grandeza de nossa terra e o sentir de nossa gente.

Volto as vistas para o passado. Mergulho no fundo do poço de minha alma de raízes sertanejas. Jamais me esqueci de minhas origens telúricas. E foi lá no sertão de dentro, em época longínqua, no velho e histórico Grajaú, que embalou meus doces sonhos de menino, que abracei a causa primeira, de tantas arrojadas outras que iria enfrentar ao longo de minha vida.

Tão doce e saudosa quadra primaveril, assim tento descrevê-­la no meu poema Perfume de Reminiscências:

Um tempo de
cheiro de primeiras
chuvas, De
chapadas floridas
Frutas maduras
Terra molhada
Aroma da natureza
Folha machucada
Arapucas armadas
Brejos fartos
Mergulho em fontes fundas
descendo gementes… sonoras…

Vejo­-me menino de calças curtas. Era uma manhã ensolarada, de raios energizantes. Dirigia­-me para a escola. Na esquina de uma praça, os meus olhos de criança, olhos de menino ingênuo, assistiram a uma cena revoltante que através dos tempos jamais sairia de minha retina.

Um homem salta por cima do balcão de uma casa comercial. Com um gesto corajoso e inesperado dirige-se aos soldados que conduziam um preso espancando-­o impiedosamente: “Um homem se prende. Não se bate nem mesmo num animal. Levem-­no com respeito…”.

Aquela corajosa intervenção foi aprovada com vivos aplausos pelas pessoas que presenciavam tão chocante cena. Revejo­-me colocando os livros em cima de uma calçada alta e também batendo palmas em um espontâneo gesto de solidariedade humana. Esta foi a primeira causa dentre tantas outras que iria abraçar, com sacrifício até mesmo de minha liberdade pessoal. Creio ser também oportuno revelar o nome do autor de tão marcante façanha. Chamava-­se José Raposo Gonçalves da Silva. Sim. Refiro­-me ao sempre saudoso jornalista Amaral Raposo, que tanto honrou as letras maranhenses, bem como as tradições de civismo da nossa gente.

Ainda nos verdores de meus anos, outra nobre causa muito marcou minha vida pública. Passava eu pela edilidade ao lado de figuras de escol como Mata Roma, Casemiro Carvalho, Mário Silva, Teixeira Mota e João Itapary. Vereador cheio de sonhos, logo vim a saber que em São Luís não existia na área do ensino público municipal sequer um ginásio. Entendia que tal situação era uma vergonha para todos nós. Quebrei lanças na África do meu entusiasmo de jovem. Criei, por lei, um estabelecimento de ensino público de nível secundário à altura de atender às necessidades da clientela escolar, principalmente a de baixa renda dos bairros são-­luisenses.

O sonho se transformou em realidade. Tenho o dever de ressaltar a excelente assessoria técnica que à época me foi prestada, de maneira espontânea, pelo meu querido amigo, o poeta e jornalista Manuel Lopes, um dos expoentes maiores desta Egrégia Casa de Cultura.

Ao longo de minha caminhada sempre batida pelo sol do bem servir, abracei muitas outras nobres causas, das quais muito me orgulho, guardando-­as com o maior carinho.

No entanto, dentre tantas, há uma que nas dobras do tempo me deixou profunda ferida. Tenho a certeza de que a levarei comigo para a última morada, quando o destino assim o determinar.

Eram jovens. O espírito povoado de idealismo. Exerciam o mandato outorgado pela soberana vontade popular. Defendiam teses então consideradas avançadas no contexto de uma civilização agônica, dominada pelas rivalidades e conflitos e no quadro de um país oprimido por tensões e crises sociais.

A pregação não se constituía invenção de neófitos no campo político. Maritain, um dos maiores filósofos de nossos tempos, já exaltava um novo regime de predominância social, no exato entendimento da importância de uma participação mais ampla de todos para o aperfeiçoamento do Estado Democrático de Direito.

Não foram entendidos. Nos primeiros arrancos do regime militar que subjugou toda a nação, eles foram as primeiras vítimas de um iníquo e revoltante processo de cassação.

Óbvio que estou me referindo ao companheiro de causas, ao irmão de ideal, o meu querido compadre Benedito Buzar e a mim próprio, ambos vítimas de uma teratológica decisão que enodoou até o sagrado direito de defesa, comezinho princípio que se encontra inserido mesmo nas Constituições dos povos menos civilizados do mundo.

Sr. Presidente!

O meu saudoso mestre Antenor Bogéa, quando de sua investidura nesta venerável Casa, disse com propriedade:

Não ignoro que o ritual de posse, em solenidades […] como esta, prescreve que o orador recipiente é quem analisa a vida do acadêmico recipiendário. Todavia a evocação sentimental de minha vita anteacta, no seu profundo subjetivismo é obra tão pessoal que só eu próprio poderia realizá-lo no rápido bosquejo autobiográfico aqui feito.

Parafraseando o inolvidável conterrâneo, registro que o bosquejo autobiográfico ora feito decorre de uma irresistível evocação emotiva, tão pessoal que é imperativo que eu mesmo o faça em profundo sentir, arrancado do alforje da memória.

A Responsabilidade da Cadeira Nº 32

Passo agora a fazer uma avaliação sobre a responsabilidade que assumo nesta noite de luminosidade intelectual.

A Cadeira em que tenho a honra de ser empossado foi fundada com a intenção de homenagear um filho de Caxias, nascido com a sina de brilhar no mundo da poesia.

O meu ilustre antecessor, Raymundo Carvalho Guimarães, nos disse que a escolha do patronato pela poetisa Mariana Luz prende­-se a razões sentimentais, visto como, além de admiradora, manteve estreitas relações literárias com Vespasiano em Caxias.

Recebo, portanto, como um legado patrimonial da melhor qualidade, a Cadeira com o signo da poesia, uma vez que quem a cinzelou foram dois inspirados ourives das letras poéticas, nascidos na ribeira do fecundo Itapecuru, historicamente, como sabemos, berço de figuras cimeiras do altar da cultura maranhense.

Oh! Vespasiano Ramos!

Como e quando simbolicamente o conheci?

Nos meus tempos de adolescente a minha saudosa mãe Maria José de Castro e Costa guardava, com muito carinho, um caderno amarelecido pelo tempo. Certa feita, abrindo-­o, recitou para mim uma poesia que jamais sairia de minha cabeça. Era o famoso soneto Samaritana, uma das joias mais finas da lavra do vate caxiense. Tal caderno ainda hoje o guardo, herança materna das mais gratificantes.

O segundo encontro com o festejado autor de Sulamita deu­-se nos tempos de colegial. Era um fim de ano letivo. Terminava o curso à época chamado de científico no Ateneu Teixeira Mendes. Prova oral de literatura. Quem nos examinava era o respeitável professor Ruben Almeida. Todos nós tremíamos na base só em olhar o famoso mestre de cabelos bastos e grisalhos.

O examinador olhou­me demoradamente e com um ligeiro sorriso irônico nos lábios soltou a pergunta:

– Meu jovem, você é capaz de declamar uma poesia de algum poeta maranhense?

E eu à queima­roupa:

– Sou, professor.
– Pois então diga o nome do poeta e declame.

Sem maiores rodeios disse que o poeta se chamava Vespasiano Ramos e logo passei a declamar o célebre soneto – Samaritana. lembro-­me como se fosse agora, eu de olhos meio fechados e concentrando-­me, com medo de errar, declamando:

Piedosa e gentil Samaritana
Venho de longe, trêmulo, bater
em vossa humilde e plácida
cabana pedindo alívio para o
meu viver.

Sou perseguido pela sede insana
do amor que anima e nos faz
sofrer:

Tenho sede demais, Samaritana.
Tenho sede demais: quero beber.

Fugis, então ao mísero que
implora o saciar da sede que o
consome o saciar da sede que o
devora?

 Pecais, assim, Samaritana! Vede:
filho, dai de comer a quem tem
fome…  filho, dai de beber a quem
tem sede…

Entre o sorriso aberto do velho mestre que me deu a nota 10 e as palmas de alguns colegas deixei a sala e acompanhado da alguns outros, do chamado time da pesada, fomos comemorar a grande e inesperada vitória, em um daqueles conhecidos bares da época, ali no velho Canto da Viração.

Vespasiano Ramos!

O melhor trabalho sobre a sua obra deve-­se ao escritor Walfredo Machado (seu conterrâneo).

E é seu biógrafo maior quem nos conta passagens pirotescas do filho de Antônio Lúcio Ramos e dona Leonília Caldas Ramos, nascido em Caxias a 13 de agosto de 1884 no largo da igreja de São Benedito.

Diz­-nos ele que bem cedo Vespasiano evidenciou sua vocação literária. Com 13 anos foi trabalhar no comércio como caixeiro de balcão. A um canto da loja, em momentos de descanso, ele lia livros e mais livros e escrevia em folhas de papel de embrulho os seus primeiros versos.

Nas festas públicas e reuniões familiares de Caxias, os rapazes faziam pulsar os corações das moças recitando ou escrevendo-­lhes emocionantes pensamentos repassados de amor e romantismo. Vespasiano, com seu modo insinuante e afável, fascinava as almas femininas com o enlevo de seus versos.

Não há dúvidas de que Caxias daquela época era um meio deveras pequeno para um poeta que sonhava alcançar voos mais altos. Busca São Luís. Colabora em jornais escrevendo poesias e crônicas. Daí segue para Belém, onde passou a maior parte de sua vida. Por esse tempo encontrava-­se na capital paraense seus conterrâneos Humberto de Campos, Maranhão Sobrinho e Alfredo de Assis. Juntos fundam a revista Alma Nova. Em Belém todos simpatizavam com o poeta que vivia declamando pelos bares e confeitarias.

A existência atribulada e aflita do poeta não o prende na cidade das mangueiras. Dali parte para Manaus, onde o acolheram bem, pois já o admiravam pela leitura de suas poesias. O seu espírito errante o chama para outras terras. Já no Rio de Janeiro, com a ajuda do seu irmão, em maio de 1916, consegue publicar o seu único livro intitulado Cousa alguma.

Como não poderia deixar de ser, a sua obra é bem recebida pela crítica. Figuras eminentes das letras nacionais não lhe negaram rasgados elogios. Volta para a sua amada Caxias. Logo busca o Amazonas donde vinham notícias sedutoras do alto preço da borracha e lucrativos negócios. Busca Porto Velho sempre carregando em sua bagagem sonhos e poesias. Seu estado de saúde é grave. Aproxima-se o Natal. Pedem-­lhe que faça uma poesia sobre a data maior da cristandade. Um amigo toma o lápis e papel e o poeta, improvisando, dita a sua última poesia, denominada Prece, na qual revê a sua fé cristã.

Desse belo soneto transcrevo os dois últimos tercetos, que, na verdade, são de um realismo impressionante:

Prometes voltar! Não voltes, Cristo:
Serás preso, de novo, às horas
mudas, Depois de novos e divinos
atos.

Porque, na terra, deu-se apenas isto:
Multiplicou-se o número de Judas
E vai crescendo a prole de Pilatos.

Minhas senhoras e meus senhores:

Como traçar o perfil de Vespasiano Ramos? Em que árvores de influências literárias ele se abrigou? A que escola poética era filiado?

O mestre Antônio Lopes observa:

O seu verso não tinha o crepitar de incêndio e o tropel de batalhas que vibram na poesia de Corrêa de Araújo, nem o requinte bizarro dos sonetos desse grande sonetista que era Maranhão Sobrinho. Mas tinha naturalidade como nenhum dos outros a possuía. Os versos de Corrêa de Araújo exaltam o cérebro; os de Maranhão Sobrinho embriagam os sentidos; os de Vespasiano Ramos vão direto ao coração, o poeta preexcelente do amor.

O elemento amor. Daí sim, tem de partir toda e qualquer análise da vida e da obra do poeta caxiense.

Nos versos de tradição medieval, o poeta extravasa seu estado de espírito: ora de alegria, ora de dor, ora de profunda nostalgia. Este estado d´alma bem aparecia na cantiga popular ingênua, espanhola ou portuguesa com forte carga de musicalidade.

Donzelas pálidas, rostos seráficos, olhos verdes, saudades, amor não correspondidos são heranças dos trovadores.

Vem daí a onda do lirismo exacerbado, base dos sonetos amorosos de Petrarca, o novo modelo imitado inclusive por Camões. Nessa escala poética, a amada é considerada um ser superior, alvo de um endeusamento exagerado. Aí o predomínio do sentimento, saudade, beleza, paixão, amor decorrente da ausência, da perda e até da morte, de modo impulsivo – estimula a inspiração e os poetas compõem belos poemas.

Lúcia Miguel Pereira, figura de relevo no pensamento crítico nacional, cita como exemplo dessa situação poética o nosso vate maior, Gonçalves Dias. Diz ela que no autor de Leito de Folhas Verdes a imaginação não igualava a sensibilidade nem o poder criador, a simpatia. Foi menos um poeta das coisas e dos fatos do que um poeta da vida. A morte e o amor são os seus grandes temas. Temas eternos dos grandes poetas. A melhor parte de sua obra, a definitiva, é autobiográfica – e a vida do poeta foi toda voltada para o amor. Esse amor que buscou sem nunca encontrar, ligava-­o mais ao sacrifício que ao prazer.

Ainda que o seu grande amor, Ana Amélia Ferreira do Vale, cunhada de seu amigo Teófilo Leal, lhe tivesse sido dada, talvez Gonçalves Dias continuasse a sofrer, pois o amor era para ele o irmão da morte e das lágrimas que só vive inteiramente na adversidade.

Minhas senhoras e meus senhores:

Como definir o estilo de um jovem, boêmio, andarilho, que adorava fazer poesias em papel de embrulho sobre balcões?

Humberto de Campos, que o conheceu bem de perto, afirma que ele procurou na poesia uma consolação generosa para os momentos de intimidade com sua alma, nas horas não dissipadas em sua vida boêmia, torturado sempre por um grande amor sem esperança. E acrescenta: “A vida do autor de Cousa alguma foi toda de sofrimento e poesia. Ele foi o lirismo feito homem”.

E o corte lírico, no dizer do nosso mestre Josué Montello, revela o homem que sente, que sofre, que se defronta com seus reveses e faz do verso a sua consolação e o seu refúgio.

Vespasiano foi, sim, um obcecado pelo mito do amor em todas as formas de expressão. Em certos momentos do seu versejar, em longos poemas, atinge o êxtase em busca de uma mulher idealizada e que jamais poderá ser alcançada. Então ele apela agindo momentos de verdadeira loucura amorosa que o levam a cair em profundo estado de depressão.

É a escalada, como observa Lúcia Miguel Pereira, em que o amor para o poeta não passa de um irmão do desespero, da dor, das lágrimas… que só consegue sobreviver na adversidade.

Há realmente perfeita similitude entre o lirismo exacerbado dos dois citados poetas maranhenses.

No episódio referente aos encontros casuais com as suas bem-­amadas, Gonçalves Dias com Ana Amélia em Lisboa e Vespasiano Ramos com Lili Bitencourt em São Luís, pode-­se sentir o fio condutor do desesperado estado d´alma que os arrebatou em tal ocasião Será que ambos quando avistaram as suas eternas musas se igualaram no desequilíbrio emocional? Será que, sob o incontrolável impulso do amor ou do íntimo de cada um, sentindo a necessidade de sofrer mais ainda os transes e sofrendo-­os, como exímios artistas do verso, conseguiram produzir dois dos mais belos e tocantes poemas líricos que ainda hoje enriquecem o patrimônio literário brasileiro?

Ninguém sabe ao certo! O que se sabe é que razão tem, e de sobra, o imortal autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, ao afirmar: “Ainda uma vez adeus, exclama Gonçalves Dias, e todos nós sentimos confranger-­nos o coração de saudade”.

Realmente faz­-nos tremer de emoção esses versos arrancados d´alma do poeta eternamente apaixonado:

Enfim te vejo! – enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.

Não é outro o nosso estado de espírito ao ouvir a tormentosa paixão do outro inspirado poeta caxiense, para quem o amor era irmão do desespero, ao avistar a musa de sua vida:

Procuro te esquecer,
Procuro te esquecer, um só momento
Mas, Ah! como te dar o esquecimento,
Sem deixares de ser, Sem deixares
de ser meu pensamento!
Desgraçada a paixão que me inspiraste.
Desgraçado de mim que te amo ainda!

Minhas senhoras e meus senhores:

Quando da apreciação crítica do livro Cousa alguma, o renomado filólogo e poeta João Ribeiro considerou Vespasiano Ramos o herdeiro da lira lírica de Gonçalves Dias.

Entre nós, o festejado e querido autor de Samaritana vive esquecido.

No momento em que tomo pose na Cadeira 32, aproveito o ensejo para fazer uma sugestão no sentido de que se proceda à trasladação dos restos mortais de Vespasiano do cemitério de Porto Velho para a sua cidade natal e lá sejam colocados na praça pública que tem o seu nome. Tenho certeza de que o povo caxiense jamais deixará de participar de tão justa e merecida homenagem a um dos seus maiores cantores.

No mundo de hoje tão agredido nos seus valores morais e éticos, tão abalado em sua economia, falar­-se em veneração ao passado, em caras tradições culturais, é de fato pregar no Saara.

Mas, devemos sempre reafirmar que a sociedade não somente vive em função de bens materiais, riquezas mundanas e patrimônios físicos. Ela também cresce e se engrandece em razão de seus valores éticos, de seus bens imateriais, de sua cultura, da inteligência e o saber de seus filhos.

Coelho Neto, o eterno príncipe dos prosadores brasileiros, dizia com acerto:

Reconstroem-se as cidades destruídas, refazem-se as muralhas, restauram-se edifícios, mas um povo que perde a sua língua desaparece. Que resta dos etruscos? que ficou dos fenícios? Lendas… A Grécia e Roma subsistem nos seus poetas e pensadores!

Meus prezados confrades!

Muito já se tem dito sobre as hercúleas lutas que a mulher enfrentou ao longo dos tempos para ter a sua plena equiparação ao homem em seus direitos civis e sociais.

Sua luta tem sido árdua. O movimento pioneiro feminista é conhecido com o some de sufragista. Em nosso país, desde o século 19 que já se ouviam vozes no Parlamento advogando a participação da mulher no governo, através do voto. Um dos grandes batalhadores foi José Bonifácio, o Patriarca da Independência.

Mais tarde, com a reforma constitucional de 1926, a mulher conquistou o seu direito de voto e por via de consequência o direito de ser votada, sendo eleita para a Constituinte Federal a primeira parlamentar brasileira, a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz. Em nosso Estado, em 1935, para a Assembleia Constituinte Estadual foram eleitas as professoras Rosa Castro e Zuleide Bogéa.

O meu ilustre antecessor registra que:

Foi o Maranhão o primeiro estado brasileiro onde a mulher se identificou como escritora e poetisa e foi a Academia Maranhense de Letras a primeira que recebeu a mulher no seu seio, com a eleição em 1948 de Mariana Luz. A Cadeira nº 26 foi ocupada por Laura Rosa. Muitos anos depois é que Rachel de Queiroz, em 1978, conseguiu quebrar as amarras que vedavam à mulher eleger-se para a Academia Brasileira de Letras.

A fundadora da nossa Cadeira, Mariana Luz, nasceu e passou toda a sua vida na cidade de Itapecuru, sempre integrada como professora normalista à causa do ensino da juventude. Poetisa, escritora, teatróloga, teve intensa colaboração na imprensa gonçalvina. Lembro­-me como se fosse hoje: em 1956 eu integrava o centro acadêmico Clodomir Cardoso, da Faculdade de Direito do Maranhão, na qualidade de seu orador oficial. Entidade estudantil de vanguarda, ao lado do Orbis Clube, editamos o livro de poesias Murmúrios, de autoria da festejada poetisa conterrânea, que também deu valiosa contribuição na luta que a mulher sempre enfrentou para conquistar o seu justo lugar ao sol.

Outro ocupante da Cadeira Nº 32 foi Félix Aires, nascido em 14 de janeiro de 1904, no município de Buriti Bravo. Fez o curso primário em sua terra natal, tendo ainda estudado em Caxias. Em 1926, mudou-­se para São Luís, com a família, ingressando no serviço público. Tendo vocação para as letras, logo se engajou na vida literária, colaborando na imprensa e participando ativamente no processo de fundação da famosa Academia dos Novos, semente maior deste Sodalício ao lado dos seus ilustres companheiros Astolfo Serra, Travassos Furtado, Virgílio Domingues, Vicente Maia, Sá Vale, Manoel Sobrinho, Ruben Almeida, Raymundo Carvalho Guimarães e muitos outros intelectuais da época.

A sua condição de servidor público afastou-­o do Maranhão por largos anos, mas por onde passou deixou um brilhante rastro de homem de letras, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Trovas.

Em 1977, o poeta veio a São Luís a fim de fazer o lançamento do livro O Maranhão na poesia popular.

Aqui faleceu na madrugada de 16 de novembro de 1979, recebendo as justas homenagens desta Academia.

O Antecessor

Minhas senhoras e meus senhores:

Tenho diante dos meus olhos a figura simpática, comunicativa, de conversa agradável do querido por todos, Raymundo Carvalho Guimarães. Nossa amizade nasceu na década de 70, quando eu trabalhava na assessoria jurídica do professor Pedro Neiva de Santana, ilustre e saudoso governador do Maranhão. Carvalho Guimarães gostava de passar por mim na sala de serviço, onde mantínhamos bons momentos conversando sobre fatos históricos e literatura, assuntos de sua predileção. Sempre me incentivava a fazer uma profunda pesquisa a respeito de um vulto histórico que fora brutalmente assassinado quando das lutas da nossa Independência.

Referia­-se ao major Francisco Paula Ribeiro, no seu entendimento competente comandante do Regimento Militar nos Pastos Bons de outrora, a quem devemos a bem sucedida demarcação de limites territoriais entre o Maranhão e o velho Goiás. Recomendava­-me que procurasse ler os seus livros Viagem ao rio Tocantins pelos sertões do Maranhão, Descrição do território de Pastos Bons nos sertões do Maranhão e Memórias das nações gentias que presentemente habitam o continente do Maranhão, obras de alto fôlego do militar intelectual que ainda hoje são de grande valia para todo e qualquer estudo sobre o processo de conquista, ocupação e colonização do sul maranhense.

Muitas águas passaram pela ponte do tempo.

A minha migração para o Tocantins dele distanciou­-me por longo tempo. Logo integrei­-me na valorosa plêiade de intelectuais que sem medir esforços deu vida à Egrégia Academia Imperatrizense de Letras. E foi daí que passei a escrever os trabalhos sobre os homens, as coisas e as belezas naturais que deram um relevo todo especial à história passada nas barrancas do Tocantins.

Na obra rara A Carolina ou a definitiva fixação de limites entre as províncias do Maranhão e de Goiás, de autoria do renomado Cândido Mendes de Almeida, encontrei com riqueza de detalhes os lances do assassínio do desditoso militar lusitano. A histórica ilha da Botica no rio Tocantins, onde aconteceu a capitulação das forças portuguesas, já consegui (re)descobri­-la, assim como outros locais da ribeira onde ocorreram outros renhidos combates das chamadas Guerras da Independência.

Hoje, juntamente com os ilustres escritores, professor João Renôr de Carvalho e Adalberto Franklin, este último da Academia Imperatrizense de Letras, estamos compilando documentos e as importantes obras que dão a dimensão histórica da figura do major Paula Ribeiro. Brevemente, em forma de livro, pretendemos resgatar a vida e os feitos de um homem do Brasil Colônia que muito contribuiu, traçando rumos e fincando balizas, para que o Maranhão hoje ocupe o lugar de alto relevo no cenário nacional.

Destarte estamos transformando em realidade o velho sonho do ilustre autor de Buriti Bravo, nesga do sertão. Carvalho Guimarães sempre foi merecedor do maior apreço entre todos aqueles que o conheceram bem de perto.

Por isso é que o nosso querido e festejado poeta maior, José Chagas, estrela cintilante da constelação gonçalvina, ao recebê-­lo nesta augusta Casa disse:

Quando o conheci mais profundamente, fiquei admirado de ver como esse homem, de múltiplas e variadas atividades, tantas vezes secretário de prefeitura, tantas vezes coletor estadual, tantas vezes inspetor fiscal de rendas e ora chefe do Posto Fiscal do Maranhão em Teresina tinha tempo para discorrer sobre literatura e interessar-se de modo tão vivo pelos trabalhos literários da terra.

Eis aí o retrato completo, perfeito, sem retoques do meu antecessor de saudosa memória que, por certo, orgulha e sempre orgulhará a sua terra natal, seus familiares, em particular o seu querido filho e nosso prezado amigo, o conceituado médico Jairo Guimarães, que tanto brilho e honradez tem trazido à edilidade são-­luisense.

Hoje temos a honra de comemorar o centenário de nascimento desse ilustre maranhense a quem substituo na Cadeira Nº 32. Para ele, a saudade que temos de sua presença e a palavra da veneração por tudo quanto representou em nossa vida pública e cultural.

A Chegada

Longe já está se tornando a minha caminhada. Perdoem­-me se os cansei. É que a noite de tantas luzes deu­-me mais energia para, como diria Fernando Pessoa, com os olhos fixos no horizonte, não sentir a febre em mim navegar. Chego numa hora em que dentre tantas crises que nos afetam, uma abala bem de perto a todos nós que fazemos e vivemos o mundo das letras.

Na hora presente, de fato, a disputa acirrada entre os instrumentos de comunicação de massa enfraquece a força do livro a tal ponto que o hábito da leitura decresceu a olhos vistos em todos os setores da atividade humana.

Em abono a essa assertiva trago a lume o sábio entendimento do mestre Josué Montello:

A televisão, num país em que ainda se lê muito pouco, e em que são exíguas as tiragens dos nossos livros, preencheu com a imagem e o som o espaço mental vazio, daí decorrendo o seu prestígio instantâneo, e que deu a muita gente a impressão de que o televisor viera suplantar o livro como veículo de informação, de arte e de saber.

O fenômeno, no entanto, tem foros universais. Leyla Perrone-­Moisés, emérita professora da USP, diz­-nos que a luta hoje é entre a cultura e a descultura pura e simples. A cultura de massa, sobre a qual os artistas modernos depositavam esperanças de renovação de formas e técnicas, de democratização, ampliação e educação do público, tornou-se industrial em escala planetária, e, como tal, fornecedora de produtos padronizados segundo uma demanda de baixa qualidade estética, que ela ao mesmo tempo cria e satisfaz.

Mas será que tão palpitante temática se esgota no desabafo, talvez, ocasional, em um momento de emocionalismo de ilustradas figuras que se constituem em autênticos e invejáveis bens culturais do país?

Creio sinceramente que não.

“A literatura ainda tem futuro. A biblioteca ainda não foi destruída. E nós leitores e escritores, aqui estamos para ler, eleger e prosseguir”, como nos alerta com otimismo a própria professora Leyla Perrone.

E foi exatamente essa mensagem que eu tive a felicidade de ouvir quando de minha recente estada em Brasília.

No Senado Federal, assisti a uma palestra da mais alta valia proferida pelo presidente da Biblioteca do Congresso dos EUA, professor James Billington, sobre o tema A Biblioteca Histórica e o Futuro Eletrônico.

Segundo ele,

Bibliotecas virtuais não significam o desaparecimento dos livros. A Internet pode aumentar a acessibilidade a acervos antes restritos a poucos acadêmicos e pesquisador, mas não conseguirá substituir o livro enquanto agente ativador da imaginação.

Ao encerrar a palestra, o presidente da Biblioteca do Congresso Americano aconselhou a todos nunca confiar em alguém que tem um computador e não adora livros, pois esse tipo de pessoa revela uma arrogância que despreza a memória humana acumulada.

Fico, ficamos satisfeitos, quando vemos o mestre Josué Montello bem falar em “equilíbrio entre a leitura e a imagem instantâneas”, como já está ocorrendo nos países em que o livro voltou a existir como instrumento de saber imprescindível, inclusive para a própria televisão.

Por tudo isso, alegro­-me quando entro numa livraria e vejo alguém procurando os últimos lançamentos do respeitável autor de Os tambores de São Luís. Também é motivo de orgulho ver­se O dono do mar sendo lançado no mundo inteiro e agora indo para a 7ª edição, festejada obra do escritor José Sarney!

Como é lisonjeiro e gratificante para nós outros leitores, poetas e escritores ver as últimas obras de Benedito Buzar, Luís Augusto Cassas, José Chagas, Nauro Machado, Mário Meireles, Jomar Moraes e tantos outros literatos maranhenses, serem procuradas com interesse em nossas livrarias!

Tenho certeza de que a nossa Academia de Letras, guardiã histórica do patrimônio cultural do Maranhão, agora neste momento difícil de transição em que vive o mundo da informação e das letras, jamais deixará de abraçar tão nobre causa: a defesa dos nossos valores espirituais mais altos e a luta sem fronteiras contra a agonia da arte e da literatura.

E em tão renhida luta, aqui nesta luminosa trincheira serei um humilde soldado. Mas uma soldado no inteiro perfil daquele traçado pelo inolvidável Coelho Neto, dirigindo-­se ao nosso governador Benedito Leite em uma memorável carta de agradecimento por ter sido eleito representante maranhense na Câmara Federal:

Fazendo votos pelo seu restabelecimento e pronto regresso à Pátria, aqui fico atento ao seu aceno, como soldado que só pede o posto de maior risco, não porque se julgue o mais bravo, senão para que prove ser dos mais dedicados.

Muito obrigado.

DISCURSO DE RECEPÇÃO por Benedito Buzar

O saudoso confrade Arnaldo Ferreira costumava dizer que quanto seria fácil e cômodo ingressar nas Academias de Letras, não fora a obrigação dos discursos de posse. Daí a maldosa afirmação de que a “Academia se resume no discurso de posse”, com a qual me recuso a concordar.

Para quem ingressa nos quadros acadêmicos, o discurso de posse é algo transcendental e sublime, na medida em que o empossado terá de expressar as emoções que invadem a sua alma e o seu corpo, bem como registrar a responsabilidade que assume perante a instituição.

Também para os que, em nome da Academia, vão saudar o empossado e dar-lhe as boas vindas, o encargo é extraordinariamente delicado e complexo porque, além de interpretar o sentimento de seus pares caberá realçar o seu perfil, sua história de vida, seus conhecimentos intelectuais e o nível de cultura por ele alcançado, condições que o habilitam a integrar a entidade.

Para este que vos fala, a tarefa de recepcionar Sálvio Dino Jesus de Castro e Costa, a mim confiada pela vontade expressa do empossado e endossada pelo presidente Jomar Moraes, além de delicada e complexa, reveste-se de singularidade especial: é sobremodo gratificante e efetiva.

Por quê? – haveria alguém de perguntar. Segundo o escritor Josué Montello, existem dois tipos de pergunta. Uma, que formulamos para que sejamos esclarecidos; outra, que apenas formulamos para nos regozijar com as respostas que já conhecemos. No caso específico, a resposta encontra razão de ser no esclarecimento, o que, de pronto, passo a fazê-lo.

Faço, então, um recuo no tempo, busco o passado e evoco tempos idos e vividos, embora não tão longínquos, em que eu e o empossado percorremos juntos. Deolindo Couto, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, dizia que: “quando se vivem instantes supremos, tudo o que passou aflora suavemente à lembrança, e em tudo, até os menores contrastes e coincidências, se descobrem motivos de encantamento”.

Nessa viagem ao passado, vou encontrar o sentimento de afetividade e de afinidade que me une a Sálvio Dino. Transporto-me para o limiar dos anos 60 e encontro o lugar em que tudo começou: a Assembléia Legislativa do Maranhão, para onde o empossado e eu fomos eleitos pelo sufrágio popular, direto e secreto, no pleito de outubro de 1961, para o mandato de deputado estadual. Sálvio, se elegeu pelo Partido Democrata Cristão; eu, pelo Partido Social Progressista, ambos integrados ao bloco das Oposições Coligadas.

Aportávamos ao Poder Legislativo nu fulgor de nossa mocidade. Eu, ainda estudante da gloriosa Faculdade de Direito de São Luís; ele, já bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, com larga experiência na política secundarista e universitária, pois fora presidente do Grêmio Recreativo e Cultural do Colégio de São Luiz, membro do Centro Acadêmico Clodomir Cardoso, da Faculdade de Direito, integrante do Parlamento-Escola e fundador do jornal Voz Universitária, atividades essas que, por sua atuação e desempenho, o credenciaram nas eleições de 1954 a concorrer a uma cadeira à Câmara Municipal de São Luís, elegendo-se vereador e exercendo o mandato com inexcedível brilho.

Foi considerado pela imprensa o melhor daquela legislatura, pelos projetos e propostas apresentadas, destacando-se, entre outros, a criação do ginásio municipal, a obrigatoriedade de aulas inaugurais nos colégios do Município, a elaboração do Plano Urbanístico de São Luís, a concessão de 50 por cento de desconto para os estudantes nos transportes coletivos, a criação da Secretaria de Agricultura e adoção da nomenclatura das ruas da Capital.

No plenário da Assembléia Legislativa, começamos a forjar uma sólida amizade. Ali, unidos pelos mesmos ideais e irmanados em torno de objetivos comuns, que se consubstanciavam na luta travada no Brasil e no Maranhão contra o subdesenvolvimento e o atraso econômico e social e a favor do fortalecimento do nacionalismo, da conquista da soberania e do florescimento da cidadania.

Em pouco tempo, esses sentimentos extrapolaram do âmbito político para o convívio familiar, fato que fez com que eu e Solange recebêssemos de Sálvio e de Rita o honroso convite para sermos padrinhos de Flávio, uma criança que, anos depois, seria uma figura estelar da justiça brasileira, pelo seu comportamento, seu talento, sua dignidade e sua probidade.

Senhor Presidente, autoridades e convidados, Machado de Assis recomendava, como presidente da Academia Brasileira de Letras, que não se deve deixar de fora quem, com os méritos reconhecidos, bate à sua porta.

A recomendação machadiana, com respeito a Sálvio Dino, foi seguida à risca pela Academia Maranhense de Letras. Na verdade, esta Casa poderia ter-lhe aberto as portas há mais tempo, mas dessa tardança não tem culpa a instituição, mas sim o próprio empossado, que só recentemente manifestou o desejo de fazer parte de sua confraria, ele que, desde os idos da mocidade, nos bancos escolares, mostrava pendores para as letras, vivia nas redações dos jornais de São Luís a escrever artigos, produzir matérias de qualidade literária, bem como usava sua eloquência para a difícil arte de falar em público, geralmente de improviso. Daí o apelido, aliás bem apropriado, de “Guriatã de Atenas”, o que lhe reserva o direito de ser incluído na galeria dos consagrados tribunos de nosso parlamento estadual, ao lado de Lino Machado, Neiva Moreira, Erasmo Dias, José Baima Serra, Bernardo Almeida, Orlando Leite e José Bento Neves.

Mas o que fez Sálvio Dino, ao longo da vida, para que a Casa de Antônio Lobo não titubeasse abrir-lhe as portas, a fim de que, nesta noite aureolada, sob os aplausos dos acadêmicos e o testemunho dos convidados, entrasse para o nosso convívio?

Vejamos. Após cumprir o mandato de vereador à Câmara Municipal de São Luís, Sálvio Dino tomou uma decisão irrevogável: exercer, em toda plenitude, a profissão de advogado. Antes, porém, de assumir as atividades advocatícias, publicou em 1959 o seu primeiro livro: Um Moço na Tribuna, onde estão registrados, sob o calor da emoção e do vigor da juventude, os discursos proferidos nos meios universitários e na edilidade, nos quais revelava seu desconforto com as incertezas e as dúvidas que permeavam o cenário político no Maranhão.

Num pronunciamento, como paraninfo da turma de concludentes do Ginásio Gomes de Sousa, em 1957, em sua terra natal, Grajaú, ele, com 25 anos, não escondia a revolta diante das mazelas da sociedade: “Se metermos a mão na consciência, esta nos declarará com presteza que vivemos num ciclo em que reina a imoralidade em toda a sua pujança, onde políticos safados, mal intencionados e incompetentes, contrabandistas, peculatários, assaltadores dos cofres públicos, chefes desonestos e tantos outros maus patriotas, enriquecem rapidamente, enquanto o povo brasileiro a cada dia sofre mais”.

Encontrava-se, pois, em pleno desempenho da profissão que abraçara, quando recebeu convite do deputado Clodomir Millet, então candidato a governador do Maranhão, nas eleições de 1960, para defender os interesses das Oposições Coligadas na região tocantina. Ali, pôde sentir de perto e ver com os próprios olhos a coação policialesca, a cobrança arbitrária dos impostos e a submissão humilhante do homem do interior aos potentados.

Se já era um descontente e insatisfeito com a situação pela qual passava o Maranhão, mais indignado ficou ao deparar-se com aquela triste realidade. Prometeu a si mesmo que se engajaria na luta do povo tocantino, com o propósito de amenizar as suas adversidades e o seu sofrimento.

Com efeito, passou a desencadear ações que, pelo conteúdo social e político, ecoaram em toda região, ela que atravessava, em face da construção da estrada Belém-Brasília, um processo de efervescência social e de transformação econômica. Contra ele, incontinenti, desencadearam-se ameaças e pressões, oriundas de setores governamentais e de segmentos privados. Em vez de recuar, ganhou mais energia para continuar a luta, que tinha como pano de fundo o conflito entre grileiros e posseiros.

Quando maior era a luta em torno desse objetivo, eis que se aproximaram as eleições para a renovação dos mandatos parlamentares. Estimulado pelas forças que defendia, decidiu participar das eleições proporcionais de 1962. Apesar dos dissabores, das dificuldades e das intimidações, elegeu-se deputado estadual, com expressiva votação. Assumiu o mandato em 1963 e fez da tribuna parlamentar o instrumento de combate à opressão e aos desmandos governamentais.

Na Assembléia Legislativa, juntou-se a mim e ao inesquecível e talentoso Ricardo Bogéa, e começamos a nos impor e a imprimir à atuação parlamentar nova linha de conduta ética e de conteúdo político.

Vivia-se uma época em que eram preconizadas, para resolver os problemas nacionais, as reformas de base. O Maranhão, naquele contexto, não poderia ficar distante do grande clamor popular que sacudia o País. Resolvemos, então, no plenário da Assembléia, levantar e discutir questões até então insólitas, que não agradavam o governo estadual, este que, repousava suas raízes no clientelismo e no nepotismo, filhos diletos da estrutura carcomida que dominava o Maranhão.

Pelas nossas vozes, os protestos contra as iniqüidades sociais e o atraso econômico, se, por um lado, ganhavam corpo e ressonância popular, por outro, irritavam os áulicos e os detentores do poder, que passaram a nos intimidar e a nos rotular de radicais, comunistas e agitadores.

Não demorou muito tempo e surgiu a oportunidade de sermos expurgados da vida pública. O movimento militar, deflagrado em abril de 1964, deu ensejo a que um plano maquiavélico fosse articulado no Maranhão. Antes mesmo que as forças ditas revolucionárias editassem os famigerados Atos Institucionais, a represália e a vindita vieram à superfície, por iniciativa da maioria governista, que avocou para a Assembléia a competência de cassar mandatos eletivos.

Diante da adoção de atos atentatórios à Constituição e ao Regimento, os situacionistas, depois de consultarem o IV Exército, a 25 de abril de 1964, decretaram a perda de nossos mandatos, por “exercício de atividades comunistas”, materializando-se assim, segundo parecer brilhante e saudoso mestre do Direito, Antenor Bogéa, “um ato ilegal e arbitrário, porque praticado contra expressos dispositivos constitucionais”.

Extinto o mandato de deputado, Sálvio Dino, desprotegido e exposto às agruras daqueles tempos de repressão, passou a ser alvo permanente de perseguições e ameaças, que culminaram em prisão e no cerceamento de seus direitos de cidadão. Sem esmorecer, porque era um homem de fibra, viveu meses no exílio branco, durante os quais, para provar a sua inocência, alcançou o Tribunal Superior Militar, que o inocentou dos atos que lhe eram imputados.

Sem condições de atuar na vida pública, cujas portas para ele se fecharam, para sobreviver e sustentar a família, teve de retornar às atividades advocatícias.

Naqueles anos de chumbo, Sálvio Dino e os membros de sua geração, que se encontravam banidos da cena político-partidária, passaram a fazer da Praça João Lisboa um lugar de encontro, onde conversavam e debatiam sobre assuntos, que embora censurados ou proibidos, estavam na ordem do dia, preferencialmente de natureza política ou cultural. Por isso, os que participavam desses encontros, via de regra, realizados sob a proteção de uma árvore, logo apelidada de “Urucuzeiro”, eram sempre olhados com desconfiança pelos adeptos ou defensores da ditadura.

Senhor presidente, autoridades e convidados. Dez anos depois de cassado, Sálvio Dino partia para uma nova e desafiadora empreitada. Ainda que a ditadura continuasse a espargir ferro e fogo contra os que haviam participado de atividades políticas anteriores ao golpe militar, ele, não deixava de pensar em reconquistar, pelas urnas, o direito de voltar à cena político-partidária, da qual fora ejetado ao arrepio da lei.

De acordo com o sociólogo alemão Max Weber, existem dois tipos de políticos: os que vivem dela e os que vivem para ela. Inserido na segunda categoria webriana, Sálvio filiou-se ao Partido Democrata Social e registrou-se candidato a deputado estadual. Mais realista que o rei, o Tribunal Regional Eleitoral, no afã de prestar serviços aos detentores do poder, indeferiu o registro de sua candidatura. Inconformado com esdrúxula decisão do TRE, bateu às portas do Tribunal Superior Eleitoral, que mandou, registrá-lo candidato, por unanimidade.

Nas eleições de 1974, mais uma vez, a região tocantina não o decepcionou e o reconduziu ao Poder Legislativo, para a legislatura de 1975 a 1979, no curso da qual, além de apresentar projetos de fundamental importância para os servidores públicos estaduais, levantou a voz para, reiteradamente, questionar problemas do meio ambiente, principalmente para impedir a devastação dos babaçuais, bem como discutir o polêmico assunto referente aos limites territoriais entre o Maranhão e o Pará, que se arrastava desde o século passado e que resultou na formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, da qual foi o relator, tendo desaguado na assinatura de um protocolo entre os governadores do Maranhão, Nunes Freire, e do Pará, Aloysio Chaves, tendo o presidente da República, Ernesto Geisel, como árbitro, na demarcação das fronteiras entre os dois estados.

Considerado o melhor deputado daquela legislatura, nem por isso garantiu sua recondução ao Poder Legislativo no pleito seguinte. Na condição de suplente, em 1980, foi convocado para exercer o mandato, tornando-se vice-líder do governo.

Novamente, submeteu-se ao crivo do eleitorado nas eleições de 1982 e 1986. Em ambas, as urnas foram-lhe favoráveis e na Assembléia dedicou-se com afinco às questões que diziam respeito à instalação no Maranhão do Projeto Carajás, apresentando propostas para torná-lo viável e proveitoso à sociedade maranhense.

Nos anos em que ele marcou presença no Poder Legislativo estadual, quando atuou bravamente no plenário e nas comissões técnicas, bem como assoberbado com problemas advindos da assistência aos municípios e aos eleitores, exatamente, nesse período, Sálvio Dino escreveu e publicou diversos livros.

Parece que a atividade política o estimulava à criação literária, o que nos leva concluir não haver qualquer incompatibilidade entre as funções políticas e o exercício da atividade intelectual.

Dessa fecunda época emergiram, de sua lavra, as seguintes obras: Nas Barrancas do Tocantins, que escritores do porte de José Sarney e Lago Burnett, saudaram efusivamente.

Sobre ela, Sarney afirmou: “O livro de Sálvio Dino, com as histórias de Aninha, Isabel Baleiro, Mané e João de Deus, com provérbios e cantigas do sertão, oferecerá aos faisqueiros dos garimpos da história política deste Maranhão um repositório ameno e auspicioso, partido de um homem que gosta das letras e da política”. De Lago Burnett, recolho este depoimento: “A vocação, por muito tempo contida, para narrar o que via e o que sentia, em sua trajetória política, teria de vir à tona, mais cedo ou mais tarde. Veio, afinal, sob a forma de novela, esta que Sálvio Dino ora apresenta ao público e que é a forma mais adequada que ele encontrou para denunciar uma situação de injustiça social”.

Em seguida, ele nos deu Onde é Pará Onde é Maranhão, a respeito do qual o confrade Milson Coutinho disse categoricamente: “Trata-se de um livro saído da pena do escritor da melhor safra contemporânea. É um estudo que mergulha no fundo do garimpo da questão dos limites entre os estados do Maranhão e do Pará, pendência essa que, de resto, arrasta-se ao longo de meio século”.

Logo depois, o empossado nos ofereceu o livro de poesia Semeando Manhãs, sobre o qual o confrade Manoel Lopes assim se manifestou: “Poemas de se ler e de se ouvir, denunciando que, para não fugir à regra, um maranhense a mais acaba de cair nas armadilhas do fascinante exercício de lidar com as palavras e com as musas”.

São também dessa fase os opúsculos Grandeza da Terra na Glória do seu Povo; A Trilogia da Emoção; A Devastação do Meio Ambiente Importa na Destruição da Raça Humana; Raízes Históricas do Grajaú; A Conciliação entre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Econômico; A dinâmica Ocupacional dos Espaços Físicos do Maranhão; A Nova República; Perfil de Amaral Raposo, em que se reconhece o valor intelectual do autor, que exterioriza em letra de forma as meditações de conteúdo cultural que lhe povoam o espírito indomado, retratando o que viu e o que sentiu sobre a realidade maranhense.

Mas quem pensa que Sálvio Dino, após cumprir quatro mandatos na Assembléia Legislativa, e de nos legar um conjunto considerável de livros, decidiu abandonar definitivamente a carreira política, esquivando-se da vida pública, equivocou-se literalmente.

Como se ressurgisse das cinzas, em 1987, cheio de sonhos e de entusiasmo, voltava a reencontrar-se com o eleitorado. Em vez do cargo legislativo, buscava agora o posto executivo, valendo-se do processo eleitoral.

Se no cargo legislativo tratou de apresentar projetos e propostas e valeu-se do verbo e da tribuna para combater e reprovar as injustiças, na função executiva procuraria o pragmatismo. Poria em ação sua operosidade natural, para criar, construir e comandar.

Para a construção desse objetivo, retornou aos pagos, que nunca lhe faltaram nos embates eleitorais: a região tocantina, mais precisamente o recém-criado município de João Lisboa, onde venceu duas eleições majoritárias, elegendo-se prefeito em 1987 e 1996.

Revela notar, contudo, que nessa travessia pelas águas nem sempre tranqüilas do Executivo, Sálvio Dino não abandonou o ofício de escrever. O mesmo fenômeno que tomou conta de seu espírito, quando fazia parte da Assembléia Legislativa, também assomou quando esteve à frente da prefeitura de João Lisboa, o que nos permite asseverar que ele faz parte da escola do escritor José Sarney, ou seja, ao mesmo tempo em que faz política faz literatura.

Se como deputado estadual deixou um saldo positivo de livros, na condição de gestor municipal, nada menos do que três obras emergiram dessa forja: Luzia Quase Uma Lenda de Amor, Um Palácio de Histórias, Lendas, Mitos e Chefões: e Clarindo Santiago, o Poeta Maranhense Desaparecido no Rio Tocantins, sem esquecer de ressaltar sua participação efetiva e semanal no jornal O Estado do Maranhão, onde, num claro estilo de cronista, escreve sobre assuntos do cotidiano, em linguagem límpida, harmoniosa e objetiva.

Sobre Luzia Quase Uma Lenda de Amor, o saudoso confrade Bernardo Almeida e o poeta José Chagas encarregaram-se de exaltá-lo. Enquanto Bernardo dizia que Sálvio “serviu-se da poesia para exaltar o amor, a beleza e a coragem daquela mulher extraordinária, para projetá-la e torná-la tangível”, José Chagas afirmava:“Sálvio, através de seu poema, faz com que esse amor se incorpore à saga de Bequimão, como o testemunho poético-romântico de uma fidelidade grandiosa que se contrapõe à tradição de que o herói foi vítima”.

A respeito de Um Palácio de Histórias, Lendas, Mitos e Chefões, falou o inolvidável Nonnato Masson: “Sálvio Dino conta a história do Palácio dos Leões de forma didática. Conta as lendas e as superstições e descreve as assombrações que deslizam nas suas salas e salões”.

Quanto a Clarindo Santiago, o Poeta Maranhense Desaparecido no Rio Tocantins, o senador Edison Lobão, no prefácio, escreveu; “O escritor Sálvio Dino fez um excelente trabalho de pesquisa e redacional para narrar a saga de Clarindo Santiago, o poeta e jornalista maranhense, desaparecido no rio Tocantins.  Sálvio teve o mérito de pincelar das sombras, para conhecimento das novas gerações, um vulto importante de nossa história”.

Senhor presidente, senhoras e senhores. No exórdio do meu discurso busquei o auxílio de Arnaldo Ferreira para mostrar o quão difícil é a tarefa que a Academia concede aos seus membros de falar nas solenidades de posse. Esforcei-me e fiz o que estava ao meu alcance para retratar, com pinceladas bastante vivas, a figura de Sálvio Dino, que alcançou o reconhecimento de sua geração e da sociedade, como político e intelectual.

Diante desse reconhecimento, a glória acadêmica poderia parecer um título a mais, para adorno ou enfeite da biografia do empossado. A esse respeito, vale evocar o vulto perene de Viriato Corrêa que classificou os tipos de escritores que buscam a imortalidade: “Há os que vão para a Academia e para lá levam seus títulos; e os que vão ali buscar um título. Os primeiros com o pleno conhecimento da Casa, tratam de honra-lhe as tradições, com a sua assiduidade e o seu convívio, enquanto os segundos, já enfeitados com a glória, que não mereciam, se fazem esquivos, retraídos, limitando à tesouraria da instituição o seu relacionamento acadêmico”.

Louvando no pensamento de Viriato Corrêa, ouso afirmar que Sálvio Dino insere-se na primeira classificação do escritor maranhense. Ele ingressa na Casa de Antônio Lobo não em busca de projeção pessoal para enriquecer sua biografia, até porque ela já se encontra pontuada de referências e marcos edificantes e indeléveis, quer como político, quer como intelectual.

Por seu passado e por seu presente, em que sua personalidade de exaltado homem público sobreleva-se em toda magnitude, vem dar uma inestimável contribuição à Academia Maranhense de Letras e participar ativamente das discussões levantadas, com relação às letras e às artes, neste saudável e fraterno ambiente, onde se pratica o jogo da controvérsia sem que a instituição nada mais seria do que uma oficina de tédio próprio para o bocejo semanal dos acadêmicos.

E porque o classifiquei como exaltado homem público, não custa lembrar o diplomata e escritor Joaquim Nabuco, que deixou para a história uma frase que até os dias correntes mantém-se em evidência, pelo que contém de atualidade e de verdade: “Não se pode fazer as revoluções sem os exaltados, mas não se pode governar com eles”.

De certa forma, Sálvio Dino contraria o pensamento do notável brasileiro, na medida em que se encontra plenamente registrada nas páginas da vida pública do Maranhão, ora como oposicionista, ora como governista, a marca de sua exaltada paixão política, mas nunca resvalada para o plano dos ressentimentos ou de ódios.

Se nas hostes das Oposições, destacou-se pelo arrebatamento com que se entregava às causas dos que clamavam por justiça social, nas fileiras situacionistas, em momento algum, deixou-se contaminar pelo comodismo ou pelos afagos irresistíveis do poder. Ao contrário, a têmpera de homem combativo e destemido, herdado geneticamente dos antepassados, sempre esteve presente nos atos e ações que o conduziram à gerência dos negócios públicos, que tratou de administrar com dignidade e probidade.

Pois bem, é este Sálvio Dino, o exaltado que deu certo na oposição e no governo, que não perdeu a fama de exacerbado na advocacia e na política, que manteve a chama de inflamado no exercício dos cargos legislativos e executivos, e de incandescente poeta e prosador, que hoje aqui ingressa, mais comedido que nos tempos de juventude, não apenas para conviver fraternalmente com os que o elegeram por unanimidade, mas pugnar pelos princípios que sempre defendeu ao longo do tempo, pois a Academia Maranhense de Letras, ainda que alguns possam imaginar ou supor, não é uma instituição acomodada, passiva ou indiferente aos acontecimentos que emergem aqui e alhures.

Ela foi, é e sempre será uma trincheira de defesa da cultura do Maranhão, e uma tribuna viva e permanente onde são debatidas questões que dizem respeito ao engrandecimento das instituições, ao soerguimento dos princípios democráticos e ao engajamento dos que se dispõem à erradicação dos males que afligem a sociedade brasileira.

Por isso, acredito piamente que, neste ambiente, Sálvio Dino, impregnado dos elevados e nobres sentimentos que lhe são inerentes, encontrará estímulo, incentivo e motivação para cultuar o passado, no que ele apresenta de primoroso e relevante, e ainda se preocupar com os terríveis problemas do presente, sem esquecer o futuro, para o qual envidará esforços para torná-lo ou vê-lo menos adverso, menos incerto, mais promissor e cheio de esperanças.

Meu dileto amigo, compadre e confrade Sálvio Dino: no epílogo desta oração, só me resta dizer-lhe estas palavras: seja bem-vindo, e não permita que a imortalidade atropele ou arrefeça aquela que, entre as virtudes que lhe vem de berço, talvez seja a mais pura e verdadeira: a exaltação do espírito.

 

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