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Ocupante

Ronaldo Costa Fernandes

  • Cadeira

    31

  • Data da Eleição

    19.08.2006

  • Data da Posse

    13.09.2007

  • Recepcionado por

    Joaquim Itapary

ANTECESSOR:

Biografia

Nasceu em São Luís a 29 de agosto de 1952. Filho de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. É graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez Mestrado em Literatura Hispano-Americana, na mesma instituição de ensino, e Doutorado em Literatura Brasileira, na Universidade de Brasília. Deu aulas de literatura na Universidade Notre Dame (1977), na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFFOM), foi chefe do Setor de Arte e Cultura da Universidade Católica de Brasília (agosto de 1997 a novembro de 1998) e trabalhou na Secretaria Especial da Presidência da República, no Palácio do Planalto, em 1985. Pertence ao quadro do Ministério da Cultura, desde 1980. Foi Coordenador da Funarte-Brasília, de março de 1995 a janeiro de 2003. Cedido nesta época ao Senado Federal, trabalha no Conselho Editorial da Casa.

Durante nove anos, dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas, na Venezuela. Foi, durante três anos e meio, professor-convidado de Literatura Brasileira na Universidade Central da Venezuela. Produziu e apresentou, junto com Rogério Lima, 17 Programas Culturais de Entrevista, com duração de 50 minutos cada, no Canal 21 da MAISTV, pertencente ao canal a cabo MAISTV. Entre os entrevistados, Eduardo Portella, Sérgio Paulo Rouanet e Benedito Nunes.

É também membro da Academia Brasiliense de Letras, cadeira XVIII, patrono Cláudio Manuel da Costa, eleito em 3 de setembro de 2004 e empossado em 16 de novembro de 2005. Recebeu, em 1996, a Medalha La Ravardière, comenda da municipalidade da cidade de São Luís.

Bibliografia

João Rama (romance). Rio de Janeiro: Codecri, 1979; O Ladrão de cartas (novela). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981; Retratos falados. (romance). Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984; Noticias del horto (novela). Caracas: Monte Avila, 1991. El muerto solidario (romance). Havana: Casa de las Américas, 1991; O narrador do romance (ensaio). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996; Estrangeiro (poesia) Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997; Concerto para flauta e martelo (romance) Rio de Janeiro: Revan, 1997; Terratreme (poesia) Fundação Cultural do DF, 1998; O morto solidário (romance). Revan, 1998; Andarilho (poesia). Sette Letras, 2000; Eterno passageiro (poesia). Varanda, 2004; O viúvo (romance). LGE, 2005. Manual de tortura (contos). Esquina da palavra, 2007; A ideologia do personagem brasileiro (ensaio). UnB, 2007; A máquina das mãos (poesia). 7Letras, 2009;  Um homem é muito pouco (romance). Nankin, 2010; Memória dos porcos (poesia). 7Letras, 2012.

Organização de livro

O imaginário da cidade (ensaios). UNB/Imprensa Oficial de São Paulo, 2000. Parceria com Rogério Lima.

Capítulo em livro

Narrador, cidade, literatura. In: Lima, Rogério e Fernandes, Ronaldo Costa. O imaginário da cidade. UNB/Imprensa Oficial de São Paulo: Brasília/São Paulo, 2000; As cidades em A rainha dos cárceres da Grécia. In: Almeida, Hugo. O sopro na argila. São Paulo: Nankin Editorial, 2004. Machado de Assis: servidor público. Introdução: p. IX a p. XXIV. In: GUEDES, Paulo e HAZIN, Elizabeth. Machado de Assis e a Administração Pública Federal. vol. 68. Brasília: Senado Federal, 2006; História da literatura ocidental: a obra monumental de Otto Maria Carpeaux. Introdução: p. XIX a XXXVI. In: CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Vol. 107-A. Brasília: Senado Federal, 2008.

Prêmios:

Revelação de Autor – APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), 1979. Com o livro João Rama; Guimarães Rosa (Governo do Estado de Minas Gerais), 1981. Livro O ladrão de cartas; Prêmios com o livro O morto solidário: Casa de las Américas, Havana, 1990; Cidade de Belo Horizonte (Prefeitura de BH), 1991; Otavio de Faria, da União Brasileira de Escritores, 1992. Prêmio OK, da Fundação Luís Estêvão. Brasília, na categoria Poesia, com o livro Estrangeiro (1997); Finalista do Prêmio Jabuti-98 com o livro Concerto para flauta e martelo; Austregésilo de Athayde, de ensaio, para o livro O narrador do romance (1997), da UBE (União Brasileira de Escritores); Prêmio Bolsa de Literatura, categoria Poesia, da Fundação Cultural do Distrito Federal (1998), pelo livro Terratreme; de poesia João Cabral de Melo Neto,da UBE, pelo livro Eterno passageiro (2004); Poesia, da Academia Brasileira de Letras, 2010, pelo livro de poemas Memórias dos porcos. Comissão Julgadora: Lêdo Ivo, Affonso de Arinos de Melo Franco e Alberto da Costa e Silva.

Discursos de Posse

O que dizem as portas? Qual a linguagem das portas? Há portas de boca fechada. Muitas — como as bocas fechadas — trazem segredos. Há portas que estão quase sempre abertas. As portas públicas pertencem à espécie das portas quase sempre abertas. Outras portas são híbridas e só se abrem ao toque dos conhecidos. Há portas que olham. Muitas têm o olhar esquivo, cerrado, duro. A porta desta Academia sempre me foi, quando criança, uma porta de olhar esquivo. Uma porta de olhar rijo e agudo. Contudo, embora militar e imperial, esta porta sabia falar outras linguagens, porque era uma porta mágica. E as portas mágicas têm sua algaravia. Hoje, estar aqui, transpor o umbral daquela porta de Mil e uma noites, que escondia segredos, é ingressar num mundo mágico.

Sinto­-me honrado de ocupar a Cadeira cujo patrono é Raimundo Lopes, essa figura gigantesca. É dele O torrão maranhense, um dos primeiros livros sobre a geografia da região. Livro escrito ainda em sua vida juvenil. Publica­-o em 1916. Mais tarde, começam a aparecer no Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, os capítulos do que viria compor o volume Uma região tropical, livro que a inteligência luminosa de Joaquim Itapary chamou de “obra rara, que enriquece e valoriza como poucos a bibliografia maranhense”. Nesse livro estão o homem e seu meio, as questões sociais, econômicas e históricas. Uma região tropical é uma extensão e aprofundamento do livro inicial. É dele ainda a condenação das queimadas, sua consciência ecológica tão moderna que o faz nosso contemporâneo e até mesmo visionário ao escrever em Uma região tropical:

Como em todo o país, a formação das culturas parte da abusiva usança das queimadas, que fazem arder, num dia, trechos valiosos de florestas esplêndidas. Anda-se pelo interior e, à beira das veredas, de repente, abre-se o claro de uma roça, com pedaços de troncos carbonizados pelo chão. Os fazedores de desertos continuam a incendiar florestas, e tudo está muito bem…

Raimundo Lopes é pioneiro na descoberta de sambaquis, chamados pelos caboclos de estearias ou cacarias, no vale do rio Pindaré, que remontavam há dois mil anos a.C. Esta descoberta transforma Raimundo Lopes num desbravador e, feito inédito, aponta em terras americanas as primeiras habitações lacustres no continente. Assim como é dele também a importante descoberta do sambaqui da Maiobinha, que foi classificada como sítio de alta relevância por órgão federal por demais conhecido na área do patrimônio.

Trabalhou mais tarde, no Museu Nacional. Na década de 30, passou a dar aulas na Rádio mec sobre geografia, o que resultou no livro Antropogeografia — suas origens, seu objeto, seu campo de estudo e tendências. Anotando suas palestras transmitidas pela Rádio Ministério da Educação, Raimundo Lopes, ainda no leito de hospital, chega a ditar antes do coma final, apresentação à matéria do que seria seu livro Antropogeografia, volume em que o autor alarga suas pesquisas e amplia sua inteligência científica para questões antropológicas de cunho universal, embora em cada capítulo tenha reservado espaço para observações sobre seu país.

Membro da Academia Maranhense de Letras, do Ins titu to Histórico e Geográfico do Maranhão e da Sociedade de Geo grafia do Rio de Janeiro, Raimundo Lopes sempre será lembrado como o sábio que estudou a vida do homem maranhense, sua formação humana, seu meio físico, seu solo e sua geografia, sua antropologia e sua arqueologia.

Morre em 1941, depois de uma vida de ensino e pesquisa. Uma vida dedicada ao entendimento da história e geografia maranhenses não feitas pelos vultos ou por acidentes famosos, mas pela pesquisa minudente do passado do homem maranhense.

Passemos a meu ilustre antecessor: Josué Montelo. Em Os tambores de São Luís, a ambientação épica se mescla com o drama individual de Damião. Ali está a saga do negro escravo no Maranhão e, por extensão, no Brasil Império. O horror da escravidão coloca a famosa frase do homem como lobo do homem num exemplo maior de degradação do homo sapiens. Josué Montelo, assim como o Graciliano de São Bernardo, soube agregar o fator humano e psicológico ao grande drama coletivo. Ao mesmo tempo em que descreve o regime escravocrata em suas minúcias, com a lupa do historiador meticuloso, Josué também se adentra na psique de Damião, sua angústia individual, seu percurso cruel de negro forro que não encontra lugar na sociedade dos brancos. A saga individual de Damião é de grande força narrativa. Um personagem que supera o ambiente, impõe-­se pela inteligência e cultura, mas definha e encurrala­se, escorraçado pelo meio mesquinho e amesquinhante. De certa forma, diria que Montelo construiu uma fábula. Sua narrativa realista, que se aproxima dos grandes narradores do século xix, é verdadeiramente verossímil e aposta tanto na realidade que, em certo sentido a supera, a narrativa passa a ser, inclusive porque está em outra época, uma narrativa de cunho quase mítico. Josué Montelo, que com sua extensa obra, poderia ser classificado de o Balzac maranhense, também poderia levar outro título, com este Os tambores de São Luís. O do autor da Damiíada, ou seja, o poema homérico do negro brasileiro em sua epopeia de salvar um povo. Damião, assim como Ulisses, participa de uma verdadeira guerra dos quilombos. A partir da volta à fa­zenda onde era escravo, Damião empreende uma verdadeira viagem de retorno a sua casa. A casa de Ulisses era Ítaca. A casa de Damião é uma casa coletiva: o reencontro do negro com sua raça livre. Observe­se que durante todo o périplo de uma noite, Damião é perseguido por uma identidade sonora: os tambores de Mina que lhe dão a identidade afro­brasileira. Todo o livro é uma sequência de lutas e de conquistas, de sereias que encantam e ilhas que na verdade são armadilhas como o clero e o magistério, de polifemos que o querem destruir. Dois tempos como na epopeia: o tempo do narrado e o tempo do narrador. Embora não haja o absurdo e o maravilhoso de Homero, existe aqui o homem em luta contra os elementos da natureza e das forças sociais que o fazem herói de sua raça. Para aqueles que estranham a comparação entre o romance de Josué Montelo e a Odisseia, de Homero, lembremos que o Ulisses, de James Joyce, que se pretende uma narrativa homérica valeu-­se de apenas um dia do personagem Leopold Bloom para construir sua epopeia moderna.

O romance histórico não tem sua pertinência se não tocar em temas contemporâneos. Esta é a grande virtude e defeito do romance histórico. Se não for bem realizado, soa como coisa antiga, ultrapassada. Há de haver no bom romance histórico o diálogo com dois tempos: os problemas que afligem os de hoje com a trama e o tema de que trata a narrativa. Nesse sentido, Josué Montelo realizou muito bem seu projeto estético ao construir Os tambores de São Luís. O problema social da discriminação racial ainda está presente na agenda das discussões do Brasil de hoje.

Quando criticaram Umberto Eco por colocar no romance O nome da rosa, ambientado na Idade Média, problemas que não tinham sido aventados naquela época e que pertenciam às inquietações de hoje, Eco respondeu que não entendia o romance histórico de outra maneira, já que a reconstrução de uma época pura e simples de nada valia se não contivesse o germe do permanente e da inquietação do leitor moderno. Eterno e moderno parecem ser as duas palavras chaves do romance histórico.

Em Noite sobre Alcântara, Josué faz do romance um retrato de uma decadência de uma cidade. Na verdade, Natalino, o major Natalino, herói da Guerra do Paraguai, que retorna à cidade natal é uma metonímia da cidade e a cidade, por sua vez, é a grande personagem da história. Natalino e Alcântara tanto se imiscuem que a infertilidade de um é a improdutividade de outra. Aqui está a cidade abandonada, entregue às suas ruínas e a seu passado faustuoso, às lembranças de tempo de bonança. Na figura balzaquiana do personagem comprador de antiguidades, o judeu Davi Cohen, Josué caracteriza a avidez dos que vivem da decadência alheia. Cohen não é apenas um comerciante, mas um personagem ávido por bens materiais que para seus antigos proprietários representavam valores afetivos e toda uma cultura doméstica que a ganância de Cohen, símbolo quem sabe do capital despersonalizado, desconhece. Junto com Os tambores de São Luís, neste livro Josué mapeia o imaginário maranhense de determinada fase da nossa cultura. Mostra o estágio da economia agrária que levaria a uma industrialização que tarda a chegar. Mostra um Maranhão, por outro lado, rico e majestoso em sua história e nos caminhos e descaminhos de sua cultura. O incêndio final na casa de Cohen vem fechar definitivamente um ciclo. O incêndio na casa do judeu não apenas acaba com suas peças valiosas ou de arte, mas também coloca cinza e ponto final, na passagem do século xix para o xx, em sua festa de Ano Novo, quando os velhos habitantes retornam para a festividade, o incêndio na casa de Cohen, dizia eu, queima as últimas quimeras de um retorno a uma cidade que há muito deixou de existir.

É também simbólico o fato de Natalino, que se considerava estéril, descobrir, ao final da vida, que tinha gerado um filho. É simbólico porque o filho de Natalino também sugere o renascimento de Alcântara. Não mais com o fausto anterior, mas como promessa de outra vida, da continuidade da existência, da passagem do Natalino velho ao filho novo, ou ainda no plano simbólico, da velha e aristocrática Alcântara a uma promessa de uma vida que não se encerrou com a improdutividade da cidade que vivia da atividade agrária e da escravatura.

Este grande polígrafo dividiu-­se entre a ensaística e a prosa de ficção. E ainda teve tempo de engajar-­se na vida cultural do Rio de Janeiro e do Maranhão ao ocupar cargos públicos como o da Presidência da Biblioteca Nacional, reitor da Universidade Federal do Maranhão, presidente da Academia Brasileira de Letras. Como ensaísta também foi magistral. Estudou, entre tantos autores, Machado de Assis, a ponto de se tornar um dos seus maiores críticos. Um crítico apaixonado, um crítico passional e nada imparcial. Seu amor ao Bruxo de Cosme Velho não se restringiu apenas aos estudos da obra machadiana, mas também em sua escritura. Há algo de machadiano em Josué Montelo, principalmente em A noite sobre Alcântara. Autor de vasta obra, com uma fornida bibliografia, Josué Montelo não é apenas orgulho do povo maranhense que o via como grande escritor, representante da nossa terra. Josué Montelo era também, além de glória local que se tornou nacional, um mestre da arte de conviver, de orientar novos escritores, de representar a classe daqueles autores que sabem, como Machado de Assis, exercer a arte do gregarismo. Não nos deixa apenas obra vária e centenária, mas um exemplo de convivência e do papel do escritor no mundo contemporâneo.

Retorno à porta inicial que se abriu não por intermédio de mãos. Mas da vontade dos meus confrades. Hoje é uma porta que solicita a convivência e não limita dois mundos: o mundo da rua e a assembleia desta Casa. É hora também de agradecer o carinho da irmã, que sempre teve gestos generosos para o irmão. Ceres é mais que irmã e amiga escritora. Ceres tem a siamesa mania de querer bem o irmão. É hora de render agradecimento a quem sempre me incentivou, desde o primeiro livro, como Ubiratan Teixeira, inteligência privilegiada e olhos perdulários de elogios amigos. E à minha mãe, pois sem ela não estaria aqui.

Minhas senhoras e meus senhores, é hora de agradecer a todos os acadêmicos que em mim votaram por transformar uma porta tão enigmática e inalcançável em entrada para a fraternidade da inteligência e a inteligência do fraterno convívio. É hora de agradecer ao Maranhão, terra tão pouco ouvida no concerto dos Estados brasileiros, mas tão imensamente presente em mim que ouso dizer que sou feito de carne, de ossos e de Maranhão.

 

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