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Revisitando Nauro Machado

1 de agosto de 2020

Poeta maranhense que se fosse vivo celebraria aniversário neste dia 2 de agosto, é lembrado pela robustez de sua obra poética atemporal.

Nauro Machado completaria 85 anos (Arquivo)

SÃO LUÍS- Quando cursava mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal da Paraíba, pela instrumentalidade da profícua docência do mestre Hildeberto Barbosa Filho, fui apresentado à estranha e fascinantemente sedutora, poesia de Nauro Machado, poeta que, tendo iniciado o seu percurso lírico em 1958 com a publicação de “Campo sem Base”, construiu, ao longo de mais de 70 anos de ininterrupta atividade criadora, uma das mais sólidas produções no multifacetado território da poesia brasileira contemporânea.

Portador de inarredável vocação telúrica e indisfarçável apego às origens, Nauro Machado pouco arredou o pé da sua gleba natal, a Ilha de São Luís, nela erigindo, solitária e competentemente, o império monumental de uma poesia altamente diferente e singular, que, pelas suas idiossincráticas marcas, tanto retórico-estilísticas quanto conteudísticas propriamente ditas, logo transcendeu as demarcações geográficas do seu solo primevo; ganhou espacialidades mais alentadas; universalizou-se, enfim, tornando-se, meritoriamente, alvo de consagradoras recepções por parte da crítica literária especializada. Ensaístas do porte de Ângelo Monteiro, José Guilherme Merquior, Assis Brasil, Hildeberto Barbosa Filho, Antonio Olinto, Ivan Junqueira, dentre outros tantos que compõem um vasto e incontornável código onomástico, sinalizaram, com atilados estudos, para a superior dimensão estética de que se reveste a criação do grande poeta maranhense, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente e com ele privar de uma cativante e enaltecedora amizade, uma espécie de enaltecente fraternidade do espírito.

Chamando a atenção pelo caráter insólito dos títulos dos seus livros, a exemplo de “O Anafilático Desespero da Esperança” e “A Vigésima Jaula”, a que se seguiram outros dotados de similar teor de estranhamento semântico, Nauro Machado, sobre ser um poeta portador de absoluto domínio técnico na elaboração de versos impecáveis e poemas grandiosos, foi, sobretudo, um escanfandrista rigoroso da condição humana, ao devassá-la com o cortante bisturi da sua agônica sensibilidade, que, sem nenhuma concessão diplomática às suscetibilidades de algum leitor mais delicado, escancarou as dimensões mais repelentes e as vísceras mais pútridas da nossa perecível existência. Existência essa, transida entre os apelos irreprimíveis da transcendência, de um lado; e, de outro, a nossa inevitável “injúria de nos tornarmos pó”, conforme nos sinaliza o lapidar verso de Lêdo Ivo presente em seu poema: “A vã feitiçaria”.

Dessa ontológica clivagem a que todos estamos visceralmente ligados, decerto emerge aquela áspera realidade conceitual a que José Guilherme Merquior chamou de “a somatização da angústia”, e que se constitui num traço seminal do emblemático universo lírico do mestre Nauro Machado.

Poeta do ser e da linguagem, de acordo com a assertiva de Hildeberto Barbosa Filho, Nauro Machado fez da morte, Deus e o sexo, a tríade central e inabandonável do seu atormentado e sedutor périplo lírico e existencial, tudo urdido por uma linguagem dissonante, desfronteirizada, que, como poucos foi pródiga em amalgamar o sublime e o grotesco; o elevado e o baixo; a tonalidade solene e, diria Antonio Candido, a vida que, irreprimível, escorre ao rés do chão.

Pensando a partir das postulações teóricas emanadas do pensamento de Harold Bloom, não hesito em acolher Nauro Machado como um poeta forte, que, integrando a selva competitiva em que se convertem os sistemas e as histórias da literatura logrou com sobrante arte e multiplicado engenho, escrever o seu solitário e respeitado nome, ainda susceptível de ser alvo de outros olhares investigativos que, certamente, divisarão, em sua fecunda obra, novas estruturas de sentido. Mas, além de poeta excepcional, Nauro Machado também pontificou como um qualificado ensaísta, que o digam obras do porte de “Campo Ladeado”, “Moinho” e “Lavra de uma Água Mental”, “As Esferas Lineares e Província: O Pó dos Pósteros”, nas quais, na companhia de uma escrita ática e pródiga na condução de argumentações sumamente sólidas, contracenava um intelectual poderoso, impressionantemente erudito, não portador daquela erudição vazia, que não passa de um mero acúmulo de informações desconectadas, mas, sim, a que era resultado de uma mente privilegiada, capaz de amealhar uma visão integral das coisas e realidades que tecem e destecem os fios indesbordáveis do conhecimento. Conhecimento esse que, para o criador do denso livro “O Esôfago Terminal”, tinha na literatura em suas mais variadas formas de manifestação o ponto de partida e de chegada das suas mais fundas cogitações.

Na ensaística de Nauro Machado, forrada por ampla fundamentação filosófica, percebia-se, claramente, o seu interesse em cartografar, dentre outras, as produções literárias, bem como de outros campos estéticos, vicejantes no âmbito da ensolarada Ilha de São Luís, contribuindo, assim, de modo inestimável, para a compreensão do sistema literário local em suas indeslindáveis vinculações com o imaginário literário nacional.

Nauro Machado foi um dos mais autênticos homens de letras do país, um ser que viveu, quase que exclusivamente, para a literatura; que transformou todas as experiências por que passou, notadamente, as que foram timbradas pelo signo do sofrimento que nunca o abandonou, em linguagem da mais alta excelência estética. Escrevendo sobre os poetas decadentistas e simbolistas dos fins do século dezenove, numa tese que consagrou à escritora portuguesa Florbela Espanca, a ensaísta Renata Soares Junqueira sinalizou para aquelas que se constituíram nas suas marcas mais indeléveis, tanto no plano do texto quanto no plano da vida: o triunfo do artifício, a conversão da vida em arte, a perda das identidades e a ruptura dos gêneros.

Penso que tais categorias teóricas, com as devidas modulações de ênfase, agasalham-se no interior da pluridimensional obra de Nauro Machado, na medida em que, nele, no ser empírico que o habitou nas cenas e cenários da Ilha de São Luís, arte e vida parecem ter assinado um infrangível pacto de convivência, de inseparabilidade radical, de enamoramento definitivo, para o bem e para o mal, pois, lendo Nauro Machado, o que faço há anos, fico com a nítida sensação de que para o admirável criador de “Apicerum da Clausura”, a poesia, como de resto, a arte em geral, tanto pontifica como redenção quanto como danação, daí a coreografia de contrários que perpassa toda a sua contundente obra poética, diante da qual ninguém pode se postar de maneira indiferente.

Ora lógico-matemático, ora mágico delirante, de acordo com as famílias poéticas inventariadas por Hugo Friedrich em seu clássico livro “A Estrutura da Lírica Moderna”, Nauro Machado, como todo grande criador literário, é inenquadrável, emula contra o reducionismo dos rótulos, e, nas asas da sua libertária e luminosa literatura, singra os mares revoltos da palavra, mergulha no universo abismal da linguagem, perquire, diria Clarice Lispector, o selvagem coração da vida e funda a sua própria eternidade.