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O canto dos exilados

18 de novembro de 2017

Livro foi organizado e prefaciado por Arlete Nogueira da Cruz (Foto: Divulgação)

 

SÃO LUÍS- Uma vida apenas é insuficiente para um verdadeiro artista, por isso ele se desdobra em cada criação sua, assume em cada uma delas uma face nova, insuspeita, com a qual ele leva a cabo o seu destino, que é ser todos e ninguém a um só tempo, para assim alcançar a eternidade. Entanto, não apenas ao artista cabe a tarefa da imortalidade. Ela é compartilhada com cada indivíduo que, por qualquer que seja a razão, entre em contato com sua obra e veja nela algo de sua própria face e de sua própria essência, levando a obra de arte consigo, vida afora, continuando, assim, a vida do seu criador. E é isso que encontramos no belíssimo estudo que Franklin de Oliveira dedica ao grande escritor Josué Montello, intitulado A Saga Romanesca de Josué Montello.

Organizado e prefaciado pela escritora Arlete Nogueira da Cruz, a quem devemos essa histórica publicação, o livro é uma das pérolas do ensaísmo literário brasileiro, e põe a nu a obra de um dos maiores romancistas da literatura brasileira do século XX e, certamente, o maior prosador da literatura maranhense do último século. Com uma linguagem clara e um estilo elegante, tão comuns ao autor de Morte da Memória Nacional e de A Fantasia Exata, e eivado de uma erudição solidamente firmada, Franklin de Oliveira nos apresenta os cantos mais íntimos da obra de Josué Montello, descobrindo em seus romances faces que até então eram ignoradas tanto pelo grande público quanto pelos críticos mais exigentes.

Filho da mesma geração e da mesma terra do autor de Os Tambores de São Luís, ninguém melhor do que o grande ensaísta maranhense para reconhecer na obra de Josué Montello os elementos que garantem a sua imortalidade. A crítica verdadeira, já nos tinha ensinado Machado de Assis, deve estar munida de dois elementos essenciais: a ciência e a consciência. A esses dois, Franklin acrescentou um terceiro: a sensibilidade. E é devido a essa sensibilidade e a um certo sentimento de pertencimento ao mesmo barro do qual se formou o autor de Cais da Sagração, e a uma erudição sob muitos aspectos espantosa, que Franklin de Oliveira consegue nos revelar um romancista muito acima das convenções da crítica literária profissional. Há uma certa inteligência do coração, e foi com ela que o ensaísta chegou aos recantos mais longínquos da obra montelliana para nos dar, como um presente, os tesouros que lá encontrou.

Assim, desponta perante nossos olhos um romancista que, ao falar de sua terra e de sua gente, fala de todas as terras e de todas as gentes, seguindo à risca a famosa frase do grande russo Tolstoi, que nos assegura que pintamos o mundo ao desenharmos a nossa aldeia. E é isso que faz a obra montelliana, como nos confessa Franklin de Oliveira. Nela, os homens comuns de São Luís são símbolos de todos os homens e sofrem as mesmas glórias e as mesmas tragédias, como o provam Damião, personagem do romance Os Tambores de São Luís e Mestre Severino, do romance Cais da Sagração. Ambos criações da vasta galeria montelliana, esses personagens trazem em si toda a força e profundidade alcançadas pelo seu criador e configuram, por vezes, um elemento pioneiro em nossas letras, como é o caso de Mestre Severino e do romance ao qual pertence. Como bem nos chama atenção Franklin de Oliveira, Cais da Sagração é um romance inovador nas letras maranhense e brasileira, por ter o mar como cenário e como tema, sobretudo em um país continental como o nosso, cujo mar é parte fundamental de sua paisagem. Igualmente inovador, e não só na literatura brasileira mas também na literatura portuguesa, é o romance O Silêncio da Confissão, que é, segundo o grande ensaísta, o introdutor entre nós dos thrillers (história de suspense). Somente esses dois aspectos já seriam suficientes para colocar o auto de A Décima Noite na galeria dos grandes prosadores de língua portuguesa.

O Maranhão de Josué Montello, assegura-nos Franklin, é um Maranhão que busca a sua identidade, continuando uma saga iniciada no século XIX por outro romancista, Aluísio Azevedo, o qual, ao contrário de Montello, direcionou sua análise para as forças sociais que moldam a conduta humana. E, nessa busca para saber suas origens, acaba se reconhecendo. É um Maranhão acima dos modismos de toda sorte e dos velhos clichês que o cercam, e que desponta tão universal como os artistas que nele nasceram.

Obra concisa, mas de profundidade admirável, A Saga Romanesca de Josué Montello é um exemplo tanto da grandeza e do talento do romancista de Noite Sobre Alcântara quanto da inteligência, sensibilidade e erudição de Franklin de Oliveira, sem dúvida nenhuma um dos maiores intelectuais que o Maranhão e o Brasil já tiveram, e que infelizmente sofre de injusto esquecimento por parte de nossa intelligentsia. Vozes exiladas, mas que mesmo assim insistem em seu canto, o estudo de Franklin é uma prova da verdadeira cultura maranhense, prova essa que Arlete Nogueira da Cruz faz vir à tona, para a nossa alegria e alento, justamente em uma época na qual sofremos tanto com a estultice generalizada que tomou conta de nossa vida intelectual. É um livro obrigatório para todos aqueles que amam a cultura em seu sentido mais pleno, e uma chance de poder, ao conhecer o universo de um dos maiores escritores de nossa terra, continuar a vida desse genial criador e, assim, também continuar a nossa própria vida.