Notícias

Novas tempestades

21 de janeiro de 2017

Romance “Maria da Tempestade”, do padre maranhense João Mohana, foi reeditado pela Academia Maranhense de Letras, que deverá lançar a obra em março, logo após o recesso da entidade

Livro “Maria da Tempestade” ganha nova edição (Foto: Flora Dolores / O ESTADO)

O clássico romance do padre João Mohana, já esgotado há algum tempo, ganha uma nova edição, sob o selo da Academia Maranhense de Letras (AML). “Maria da Tempestade” foi apontado como um dos melhores livros do gênero no Brasil na década de 1950. Agora a publicação, cujo lançamento deverá ocorrer em março, ganha sua 9ª edição.

Para o presidente da AML, Benedito Buzar, o livro é de grande importância para as letras maranhenses e brasileiras. “‘Maria da Tempestade’ teve uma grande repercussão, é de uma grandeza extraordinária e um dos melhores romances da época. Decidimos reeditar por tudo isto e também pelo fato de as edições estarem esgotadas”, diz Buzar.

João Mohana era membro da Academia Maranhense de Letras e ocupou, naquela entidade, a cadeira nº 3. Foi médico e sacerdote. Nasceu em Bacabal em 15 de junho de 1925 e escreveu obras literárias como o romance “O outro caminho” – que representou o Brasil na coleção internacional “Gli operai della vigna” e duas peças de teatro: “Belas e fortes” e “Inês e Pedro e Abraão e Sara”. Publicou ainda muitos trabalhos voltados para a espiritualidade e orientação existencial, entre os quais se encontram diversos livros destinados a casais.

Benedito Buzar ressalta o talento do sacerdote para o romance, embora tenha escrito apenas dois livros gênero: “Maria da tempestade” e “O outro caminho”. “Arrisco dizer que se não tivesse focado sua literatura na religião e orientação a casais, seria, com certeza, um dos grandes romancistas deste país”, pondera Buzar.

João Mohana, Arlete Nogueira da Cruz e Nauro Machado (Foto: Arquivo)

Maranhenses

No prefácio da publicação, a escritora e também membro da AML, Sonia Almeida, reforça que o livro tem, como um de seus méritos, tocar a memória de São Luís e reproduzir perfis e tipos maranhenses. “Pelo romance, João Mohana transforma as dores do mundo em ficção (…) vive, que sabe, a experiência de se livrar da condição humana, que cultiva a aparência e a vaidade. Paralelamente a um modelo de família castrador, cria situações pelas quais algo se faz negação da mediocridade. E acontece a revolução que também nasce primeiro no universo interior de alguma existência”, destaca em seu texto.

Antes desta edição da AML, “Maria da Tempestade” havia sido lançado pela Agir Editora, responsável pela oitava edição. Benedito Buzar explica que a 9ª edição foi possível graças ao projeto de edições e reedições de livros que a instituição apresentou à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo, aprovado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O patrocínio é do grupo Mateus.

João Mohana foi um grande romancista brasileiro (Foto: Arquivo)

Enredo

Em estilo novelístico o romance de João Mohana recria o cenário e o contexto de uma época em que os valores familiares tradicionais eram colocados acima dos ideais de independência e liberdade afetiva. Nesse horizonte se descortina a trama de uma história cuja vontade de realização de uma vida, revela-se no conflito com tais valores verticalmente estabelecidos.

Ambientado em São Luís no início dos anos 1900, o livro traz a história de Bárbara Macedo Sena, filha mais nova e única mulher de seis filhos do casal Godofredo e Elisa. Desde pequena era criada de forma a obedecer aos rigorosos preceitos da educação familiar.

Certo dia, Bárbara encontra com Guilherme e inicia uma paixão. No entanto, seus pais não concordam com o namoro por ele ser um rapaz pobre e cuja profissão não lhe garantia um sustento satisfatório. A situação se agrava quando Guilherme se envolve numa briga que terminaria num assassinato cometido por um colega seu. A compra de juízes faz com que Guilherme seja condenado a dez anos de prisão. Sob o risco de ser mandado para São Paulo, Bárbara se casa com ele na prisão, com a ajuda de seu confidente e especial orientador espiritual, Pe Tarjet.

Após vários percalços, sofre, aos sete meses de gravidez, um aborto após ter ingerido morfina na noite das dores do parto, visando um efeito calmante. Narrado em primeira pessoa, a obra traz muitas críticas à sociedade da época.

João Mohana autografando os livros (Foto: Divulgação)