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Ocupante

José Maria Cabral Marques

  • Cadeira

    38

  • Data da Eleição

    23.11.2000

  • Data da Posse

    06.04.2001

  • Recepcionado por

    Milson Coutinho

ANTECESSOR:

Biografia

Nasceu em São Luís, a 17 de setembro de 1929. Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Luís e em Serviço Social pela Escola de Serviço Social da antiga Universidade do Maranhão. Doutorou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Recife – UFPE e fez mestrado em Ciência Política, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa.

Fez ainda os cursos de Filosofia Jurídica, de Direito Político e de Teoria Geral do Estado, todos pela Universidade de Mogúncia, Alemanha; de Planejamento Educacional, patrocinado pela ONU/Unesco-Ilpes-CEPAL, Buenos Aires; Estágio em Administração de Rádio e TV Educativos, sob a supervisão do Institut Pédagogique National, Paris; em Capacitação de Recursos Humanos, no Centro Interamericano do Instituto de Relações Humanas, Universidade de Loyola, New Orleans, Estados Unidos; Foi Visiting Scholar em Estudos e Pesquisas, no Centro de Estudos Latino-Americanos, da Universidade da Flórida, Gainesville, Estados Unidos.

Participou dos seguintes congressos, conferências, ciclos de estudos e seminários: A Sociedade Brasileira no Fim do Século XX, seus rumos e perspectivas, Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro; Seminário da União dos Estudantes ­– D.V.S., Berlim; Segundo Seminário Brasileiro de Televisão Educativa, Rio de Janeiro; Sétimo Encontro Ibero-Americano de Educação Superior a Distância, Universidade Salgado de Oliveira – Universo, Rio de Janeiro; Quinto Congresso Internacional de Educação, São Paulo; O Mercosul e a União Europeia no Quadro Mundial, Associação de Direito e Economia Europeia, Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; Soberania e Integração, Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; Segunda Conferência Nacional de Tecnologias Educacionais, Ministério da Educação e Conselho de Reitores de Universidades Brasileiras, São Paulo; Sexto Seminário Latino-Americano de Teleducação Universitária, Fundação Konrad Adenauer, Caracas;. Seminario Latino-Americano de Teleducación para Directivos de Teleducación e Quarto Seminário Intenacional de TV Educativa, Fundação Konrad Adenauer e Ministerio de Educación Nacional da Colômbia, Bogotá; Sexta Reunião Trienal da Associação Internacional de Reitores de Universidades, San José, Costa Rica; Oitava Reunião Trienal da IAUP, Guadalajara, México; Quinto Congresso da OUI, Mérida, México; Segunda Reunião do Conselho de Reitores das Universidades de Língua Portuguesa – AULP, Maputo, Moçambique; Reunião Trienal da Associação Internacional de Reitores de Universidades – IAUP, Kioto, Japão.
Cabral Marques foi, por concurso, escriturário do Instituto dos Industriários – IAPI, São Luís; oficial de administração do IAPI, Aracaju, Sergipe; promotor público e juiz de direito no Maranhão; procurador autárquico do IAPI, São Luís; professor de Introdução à Ciência do Direito, Faculdade de Direito da Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

Exerceu os seguintes cargos:

a) Setor Público:

No Maranhão: Secretário de Estado da Administração; da Fazenda (interino); da Educação e Cultura; do Trabalho e Ação Social. No Amazonas: Secretário da Educação e Cultura; Presidente da Fundação Educacional do Amazonas; Presidente da Fundação Cultural do Amazonas; Presidente da Fundação Televisão Educativa do Amazonas.
b) Setor Privado:

Diretor-geral do Departamento Regional do Sesc e do Senac, no Maranhão; diretor-geral da Associação Brasileira de Teleducação – ABT, Rio de Janeiro.
c) Instituições Universitárias públicas e privadas:

Diretor interino da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade do Maranhão (católica); Vice-reitor da Universidade do Maranhão (católica); reitor da Universidade Federal do Maranhão – UFMA; vice-diretor-geral, cumulativo com o exercício do cargo de diretor-geral das Faculdades Integradas – Ceuma; reitor do Centro de Ensino Universitário do Maranhão – Uniceuma; diretor-geral da Faculdade do Vale do Itapecuru – FAI, Caxias-MA.

 

d) Associações Universitárias:

– no Brasil: Presidente (interino), vice-presidente e membro do Diretório Executivo do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras – CRUB, Brasília.

– no exterior: 1º vice-presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa – AULP, Lisboa; membro do Conselho Consultivo e presidente interino para o Brasil da Organização Universitária Interamericana – OUI, Québec; presidente, interino, do Capítulo Brasileiro da Associação Internacional de Reitores de Universidade – IAUP, Guadalajara, México; vice-presidente para o Brasil e membro do Conselho Assessor da Presidência do Conselho Interamericano para o Desenvolvimento Econômico e Social – CUIDES, Little Rock, Estados Unidos;. 1º vice-presidente da AULP, Lisboa.

Recebeu ainda as seguintes medalhas: Simão Estácio da Silveira, da Câmara Municipal de São Luís; do Mérito Timbira, do Governo do Estado do Maranhão; Olavo Bilac, da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Pará; Benjamin Constant, do Centro Regional de Educação e Cultura, Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro; Prado Júnior, do Instituto de Educação, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro; Brigadeiro Falcão, da Polícia Militar do Estado do Maranhão; Mérito Judiciário Desembargador Antonio Rodrigues Vellozo, do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão; Mérito Educacional Professora Ana Maria Saldanha, do Conselho Estadual de Educação, Estado do Maranhão; Comemorativa do 20° ano de criação da Universidade Federal de Alagoas; Comemorativa do 20° ano de criação da Universidade Federal do Pará; Sousândrade do Mérito Universitário, no Grau Ouro, da Universidade Federal do Maranhão; Comemorativa Dr. José Viana Vaz, do 80º aniversário de fundação do Curso de Direito da UFMA; Almyr Moraes Corrêa do Mérito Profissional, no Grau Ouro, do Rotary Club de São Luís.

No Exterior foi agraciado com os seguintes títulos: Cidadão Honorário, pela cidade de Nova Orleans, Estados Unidos; Doutor honoris causa,  pelo Rhode Island College, Providence, Estados Unidos; Medalha de Prata Comemorativa do 1º Centenário de Fundação da Escola de Minas do Colorado, Estados Unidos; Professor honoris causa, da Universidade de Arkansas, Little Rock, Estados Unidos; Diploma de Embaixador da Boa Vontade (Arkansas Traveler), do Governo do Estado de Arkansas, Estados Unidos; Ordem das Palmas Acadêmicas, no Grau de Oficial, do Ministério da Educação Nacional, França; Ordem da Instrução Pública, no Grau de comendador, da Presidência da República de Portugal; Medalha de Prata Comemorativa dos 450 anos de fundação da Universidade Julius Maximilian, Würzburg, Alemanha; Diploma de Visitante Distinguido, Presidência do Município de Zapopan, México; Diploma de Reconhecimento por Relevantes Serviços Prestados, da Diretoria da – IAUP.

Bibliografia

O Pensamento do Reitor Cabral Marques expresso em palavras (discursos). São Luís: UFMA, 1988; José Sarney (70 anos), um perfil de sua história (depoimento). São Luís: Editora Alcântara, 2000; Discurso de Posse na Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, 2001; Memórias. In Memórias de Professores. Histórias da UFMA e outras histórias. São Luís: UFMA, 2005; História Oral do Exército: História Oral do Projeto Rondon (depoimento). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2007.

Tem, inéditos, um livro de poemas e monografias de Ciência Política.

Discursos de Posse

ATRAÇÃO E REPULSÃO de Adelino Fontoura

Eu nada mais sonhava nem queria
que de ti não viesse, ou não falasse;
e como a ti te amei, que alguém te amasse
coisa incrível até me parecia.
Uma estrela mais lúcida eu não via
que nesta vida os passos me guiasse,
e tinha fé, cuidando que encontrasse,
após tanta amargura, uma alegria.
Mas tão cedo extinguiste este risonho,
este encantado e deleitoso engano,
que o bem que achar supus, já não suponho.
Vejo, enfim, que és um peito desumano;
Se fui ter junto a ti, de sonho em sonho,
Voltei de desengano em desengano.

SONETO de Artur Azevedo, dedicado a Adelino Fontoura, após a morte do poeta.

Em dura rocha a fibra de amianto
Nasce, viceja, estende-se, subsiste,
Porém, femíneo coração resiste
Da poesia ao langoroso encanto.

É que ontem vi passar, pálida e triste,
A moça injusta que adoravas tanto…
Não tinha os olhos túmidos de pranto
Aquela a quem debalde amor pediste.

Desses olhos, um dia, bem no fundo,
Num flamejar de brilhos inquietos,
Viste fantasma de um desdém profundo.

Vingado estás daqueles olhos pretos,
Ela, a tua musa, ficará no mundo
Órfã dos teus esplêndidos sonetos.

Excelentíssimo senhor Presidente da Academia Maranhense de Letras:

Excelentíssimos senhores acadêmicos, a quem, pela primeira vez, tenho a satisfação de saudar na condição de confrades.

Sei que, ao iniciar este ato de minha investidura como titular de uma das cátedras deste venerando Cenáculo, violei regras de oratória aqui consagradas pela tradição.Peço-­lhes perdão pela infração cometida. E isto porque, se assim o fiz propositadamente, não foi pelo desejo de afrontar os usos e costumes, que aqui têm peso e apreço singulares. Foi o recurso de que me vali para começar prestando minhas homenagens a essa figura extraordinária de homem de letras que foi Adelino da Fontoura Chaves, nascido no dia 30 de março de 1859, no povoado Axixá, hoje município do mesmo nome, neste Estado.

O soneto, há pouco ouvido, de estilo camoniano, bem caracteriza a sua grande paixão amorosa não correspondida. Ele é um dos que justificam por que o autor está incluído entre os melhores poetas líricos do Brasil. Tamanha admiração me inspira Adelino Fontoura, que não hesitei em iniciar o seu louvor oferecendo a todos os que me ouvem uma poesia de sua lavra. Suas composições desse gênero são antológicas; foram recitadas nos saraus lítero­-musicais, reproduzidas nas seções especializadas de jornais e de revistas e incluídas nas melhores seletas poéticas.

Falarei da obra de Adelino Fontoura e de circunstâncias relevantes de sua vida, sem a preocupação de demarcar aquela e estas.

O patrono da Cadeira nº 38 tinha uma personalidade bem singular. Com alguma frequência, dizia ou fazia as cousas diferentemente do que dele se podia esperar. Dava a impressão, fora do seu platônico amor, que se comprazia em contrariar. Para pôr em relevo essa faceta da personalidade do poeta, basta lembrar o que escreveu Aluísio Azevedo, seu conterrâneo, quando ambos já residiam no Rio de Janeiro:

[…] Diz abruptamente o que pensa sobre qualquer assunto ou sobre qualquer sujeito […]
Por isso algumas pessoas veem nele um bicho; outras pretendem ver um grande espírito de contradição.
Eu vou com os últimos. Fontoura é um imenso espírito de contradição.
Ele deixa transparecer o seu talento, porque supõe que com isso desagrada.
No dia em que se convencesse que o desejavam inteligente, ele se fingiria estúpido.

Não lhe agradava sempre ter que acatar as convenções sociais!

Por essa razão, nada melhor, para evocar essa “alma apaixonada e sentimentalista profundo,” do que surpreender o seleto público, aqui presente, com um inusitado prelúdio de discurso acadêmico de posse.

Excelentíssimas autoridades, senhoras e senhores, meus convidados, meus queridos familiares:

Comecei com versos. Gosto de poesia. Quando era ainda muito jovem, foi noticiado que Margarida, filha da poetisa Júlia Lopes de Almeida, iria recitar poesias no Teatro Artur Azevedo. No dia e hora anunciados, lá estava eu, de terno e gravata, sentado na primeira fila. Imaginei deleitar meus ouvidos com a declamação e meus olhos com uma mulher jovem e bonita. Na minha imaginação ela seria bela como as musas dos poetas. Minha surpresa e desagrado vieram juntos. Uma senhora de idade, gorda, trajando um vestido, modelo do início do século, cheia de babados, entrou no palco. Minha primeira reação foi retirar-­me. Certamente não iria gostar do espetáculo. Não tive coragem de sair e me detive. Sentado bem à frente, muito próximo ao palco, fiquei pensando que todos iriam ver­me sair e dizer: “Esse menino não sabe apreciar bons espetáculos!”. Foi bom ter ficado. Ainda hoje recordo o êxtase que se apossou de mim. Margarida começou a recitar divinamente. De repente, todo o meu ser ficou reduzido à dimensão dos ouvidos. Não falava, estava imóvel e absorto; creio até que prendi a respiração para não perturbar o espetáculo. Parecia que eu estava a sós com aquela voz.

Adelino Fontoura

Vou falar sobre um jovem poeta maranhense, que viveu e morreu no século 19.

Adelino da Fontoura Chaves, ou, simplesmente, Adelino Fontoura, teve uma trajetória de vida impressionante, apesar de breve. Seus pais, Antônio Fontoura Chaves e Francisca Dias Fontoura, eram pessoas de parcos recursos financeiros. Ainda menino, deixou-­os em Axixá e veio tentar a vida aqui na capital. Empregou-­se como caixeiro na Praia Grande. Aos dez anos de idade, em São Luís, conheceu o também caixeiro Artur Azevedo, quatro anos mais velho, de quem se tornou grande amigo pela vida a fora.

Alguns anos depois, tentou usar seus talentos, atuando numa companhia recifense de teatro; esta se apresentava em cidades do Norte. Na capital pernambucana, além de ator, foi colaborador em um periódico satírico, Os Xênios. Ao deixar a companhia de comédia, alistou-­se na Polícia Militar, segundo uns; segundo outros, alistou-­se no Exército. Aos vinte anos, mudou-­se para o Rio de Janeiro. Lá, foi procurar Artur Azevedo, que trabalhava como amanuense na Secretaria de Agricultura. Adelino estava à busca de emprego. Confessou ao amigo sua paixão pelo teatro. Escarmentado com o que lhe acontecera no Maranhão, não queria mais ser ator; preferiria ser ponto, contrarregra, copista de papéis ou secretário. Naquele mesmo dia, saíram os dois percorrendo os teatros da cidade à procura de emprego. Não tiveram sorte, não havia um sequer disponível.

Como bem lembra Artur Azevedo, Adelino Fontoura em “nem um instante perdeu aquele quase angélico bom-­humor, que era o enlevo de quantos com ele conversavam ou o liam”. Mantinha o humor, ainda que “atormentado constantemente pela falta absoluta de recursos pecuniários”. E acrescenta: “Ninguém sabia rir como ele, disse acertadamente, num artigo escrito com lágrimas disfarçadas, Valentim Magalhães”.

Reproduzo, para deleite dos que me ouvem, o quase anedótico diálogo do nosso teatrólogo maior com o vate ora lembrado.

O fato ocorreu depois da busca de emprego nos teatros do Rio: Encontramo‑nos dias depois: – Sabe? – disse‑me ele – empreguei‑me ontem. – Sim? Em que teatro? – Num teatro de modas e novidades: no armarinho [do sr. C.], à Rua da Quitanda. – Parabéns, se está sa tisfeito. – Satisfeitíssimo: desempreguei‑me hoje. – Oh!… – Que quer v.? Decididamente não me reconcilio com o diabo do comércio!

Um outro momento, de que se tem registro da verve e das desditas de Adelino Fontoura, ocorrera anos antes, ainda no Maranhão:

Novamente, recorro a Artur Azevedo, que relata o primeiro encontro dos dois no Rio de Janeiro, quando conta por que Adelino não queria mais ser ator. Ocorrera que uma senhora da alta sociedade ludovicense fora processada criminalmente, porque seviciara um menino, seu escravo, o qual, em consequência, falecera. Um conceituado médico local, para evitar que a ilustre dama fosse condenada, forneceu um atestado, registrando ancilóstomo como a causa mortis. Foi o bastante para aquele profissional virar chacota na boca do povo. A estudantada do Liceu aproveitou bem a oportunidade para, também, fazer suas troças. Nas paredes da cidade, de repente, escrita a carvão, lia-­se ancilóstomo.

Uma companhia de comédia estava na cidade com a peça Os médicos. E Adelino fazia parte do elenco. A certa altura do espetáculo, quando ele auscultava um “paciente”, para identificar-­lhe a doença, levantou a voz e perguntou seriamente: “Não será um ancilóstomo?”. Foi o bastante para a plateia prorromper numa gostosa e uníssona gargalhada. Resultado: quando Adelino já se retirava do teatro, dois soldados prenderam-­no por ordem do dr. chefe de polícia, tudo sem qualquer explicação. O ator, nosso conterrâneo, saiu muito ressabiado do episódio.

O talento de Adelino Fontoura brotou, na sua plenitude, no Rio de Janeiro, quando surpreende “em si uma tendência flagrante para as belas letras”. Álvares de Azevedo Sobrinho comenta que Adelino, “antes de tudo, foi um grande, um riquíssimo poeta. Ele tinha uma imaginação poderosa e levantada e conhecia melhor do que ninguém os segredos da arte”. Antes, já destacara Aluísio Azevedo: “Sabe fazer versos e, quando alguém o desagrada, ele ataca seis adjetivos e oito advérbios explosivos, que atordoam o adversário. De resto, um caráter perfeito. Tem garras ferinas no estilo, mas penugens angélicas no coração…”

É na imprensa que se revelam os primeiros sinais de sua inteligência privilegiada. Em 1880, é admitido por Manuel Carneiro na Folha Nova, onde estreita relações com Hugo Leal. O pai desse amigo era Antônio Henriques Leal, escritor e maranhense ilustre, “em cuja casa (Adelino) encontrara paternal hospitalidade”. Eu acrescentaria: onde encontrou uma sobrinha do autor do Panteon maranhense, e por ela apaixonou-se perdidamente. Essa jovem tornou-­se sua misteriosa musa inspiradora. Nunca, porém, se permitiu revelar-­lhe o segredo aninhado em seu coração: além de franzino, cabeça redonda e grande, nosso poeta não tinha posses nem títulos, e passava grandes privações…

Lopes Trovão, proprietário de O Combate, consagrado à propaganda republicana, iniciou­-o na grande imprensa. Foi aí, e nessa ocasião, que o nosso bardo escreveu o terceiro capítulo de um romance, O imbroglio, em parceria com vinte autores, e publicou poemas seus.

Esse jornal deixou de circular. E Ferreira de Meneses, em 1882, convidou-­o para ser redator da Gazeta da Tarde, que acabava de fundar, isto porque “lhe apreciara o talento invulgar n’O Combate”. Redator da Gazeta, escreveu também na Gazetinha. Segundo Artur Azevedo, ambas “são o repositório dos melhores escritos em prosa e verso” de Adelino.

A Gazeta da Tarde, posteriormente, foi adquirida por Jo sé do Patrocínio e Adelino Fontoura foi mantido na função de redator. Sua reputação continuou crescendo a ponto de, em pouco tempo, ser distinguido com a missão de correspondente do jornal em Paris.

No dia 1º de maio de 1883, Adelino Fontoura embarcou no vapor Gironde. Seu destino final era a capital francesa. Antes dessa data, por ser íntimo da casa de Henriques Leal, vira sua musa enamorar­-se e casar­-se com outro homem. Por coincidência, os recém­-casados, em lua de mel, viajaram no mesmo dia e no mesmo vapor em que o poeta era passageiro. Pode-­se imaginar a angústia e o desespero de Adelino ao ver a bordo “as naturais expansões de amor daquela mulher, que era seu único amor, ligada a outro homem, seu legítimo esposo”.

De Paris, enviou bem elaboradas matérias, onde havia “esplêndidas revelações da nota poética que sempre dava a todos os seus escritos”. Dessas, são citadas, como primorosas, a descrição da data nacional, o l4 de Julho, e o estudo sobre a vida e obra do poeta Victor Laprade e do historiador Henri Martin, por ocasião do falecimento desses dois grandes nomes da Literatura Francesa.

Na opinião de Jerônimo de Viveiros, Adelino, sobre aquela data magna francesa, “descreveu ponto por ponto da cidade de Paris, procurando todas as recordações históricas […], que mais parecia[m] uma tela esplêndida, onde se refletiam os acontecimentos narrados em escrito feito currente calamo”.

O longo tempo da travessia do Atlântico, sua decepção e frustração amorosas, o inverno da França, a vida boêmia que tivera e as dificuldades financeiras pelas quais passou, minaram-­lhe a saúde.

De Paris viajou para Portugal em busca de melhora da saúde. José do Patrocínio foi encontrá-­lo, na expectativa de convencê­-lo a embarcar de volta para o Brasil. Contudo, Adelino faleceu no dia 2 de maio de 1884, no Real Hospital de São José, em Lisboa. Seus restos mortais jazem na carneira nº 5.244, no Cemitério Oriental, na capital lusitana.

Nas histórias da literatura brasileira, que cada um escreveu, Sílvio Romero, José Veríssimo, Ronald Carvalho, nenhum deles menciona sequer a existência de Adelino Fontoura. Em Panorama da literatura brasileira, de Afrânio Peixoto, todavia, é contemplado, bem como em Obras‑primas da lírica brasileira, de Manuel Bernardes e Edgar Cavalheiro. Fora do país, Victor Orban inscreveu­-o na sua Littérature brésilienne.

A obra de Adelino Fontoura foi produzida por um talento despreocupado, que a deixou dispersa ao longo do seu caminho. Acredito que não supôs morrer tão cedo. Seus amigos e admiradores fizeram várias tentativas para reunir-­lhe a obra: Artur Azevedo, Coelho Neto, Alberto Faria, Escragnolle Dória e Alberto de Oliveira. A Revista da Academia (números 93 e 117) publicou as suas poesias conhecidas. Pelo centenário de seu nascimento e por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, Múcio Leão garimpou as pedras preciosas, cuidando da organização e anotação em cada uma delas; e publicou, no suplemento Autores e Livros, cerca de quarenta poesias e alguns trabalhos de prosa. Isso permitiu-­lhe comentar a vida e a obra do poeta, quando saiu, em 1955, o volume Dispersos, na série Inédita, da Coleção Afrânio Peixoto.

O número de fontes bibliográficas sobre esse vate maranhense vem crescendo, o que significa um reconhecimento, embora tardio. Seu talento versátil revelou­-se também em quintilhas. E ainda mereceu de Josué Montello o título de Mestre do Triolé.

Quando a Academia Brasileira de Letras surgiu, em 1897, Adelino Fontoura, 12 anos depois de sua morte, foi lembrado para ser o patrono da Cadeira nº. 1, por iniciativa do fundador desta, Luís Murat. Ivan Lins que, anos depois, foi ocupante dessa cadeira, diz: “A impressão deixada por Adelino na roda boêmia que frequentou foi de tal ordem […] que os organizadores da Academia acharam perfeitamente cabível fazê-­lo patrono da cadeira fundada pelo vate de Ondas”. Agora, declino eu os nomes: organizadores da estirpe de um Medeiros de Albuquerque, Lúcio Mendonça, Machado de Assis e Joaquim Nabuco deram o aval para essa indicação consagradora. Aliás, diga-­se, repetindo Afrânio Peixoto, que foi um seguro de vida literária com que o aquinhoaram.

Adelino Fontoura, não há dúvida, teve uma vida que me surpreende. Para mim, é um gênio. Nascido em um povoado do interior do Maranhão, com apenas instrução primária, muito pobre, sem qualquer linhagem fidalga ou elevada posição social, morrendo aos 25 anos de idade, sepultado longe da pátria, sem ter publicado um livro sequer, impôs-­se intelectualmente no Rio de Janeiro e veio a ser patrono da Cadeira n° 1 da Academia Brasileira de Letras.

O que se escreveu na Pacotilha, no primeiro aniversário de falecimento daquele de quem ora fazemos o panegírico, bem serviria para ser o seu epitáfio:

Na aurora da existência, tendo criado para si uma reputação invejável de jornalista e poeta, pela perícia inexcedível com que manejava a pena e pela facilidade com que do seu estro divino irrompiam as rimas entre fulgurações esplêndidas de imagens cinzeladas no fundo de sua imaginação, foi ele mais um maranhense cuja memória faz honra a esta província.

Nós, seus conterrâneos em geral, ainda não conhecemos tudo sobre Adelino Fontoura. Lembro­-me que Afonso Taunay, o sucessor de Luís Murat na Academia Brasileira de Letras, apenas citou o nome de Adelino “sem tecer qualquer comentário”.

Ele enfrentou uma vida de adversidades e venceu a morte com a força do seu talento. Adelino Fontoura a tudo sobreviveu. Nem a vida nem a morte conseguiram pô­-lo no anonimato.

Apesar disso, cumpre ter sempre lembrado o apelo de Álvares de Azevedo Sobrinho, em 1890:

Não deixemos esquecer inteiramente o nome de Adelino Fontoura. Procuremos os meios necessários para encontrar os seus trabalhos, escavemos as bibliotecas, os folhetos, os almanaques, as coleções de jornais e façamos um ramalhete das flores de seu talento.

Ao empossar­-me na Cadeira que tem o artista de Atração e Repulsão como patrono, creio ser do meu dever assumir, perante esta distinta assembleia, o compromisso de contribuir, na medida das minhas possibilidades, para tornar mais conhecido e admirado esse poeta maranhense.

Diferentemente de Adelino, tive a fortuna de residir com meus pais até os vinte e cinco anos de idade. Eles tiveram um papel importante na minha vida, eu diria decisivo.

Minha mãe, apesar do pouco tempo disponível, depois dos afazeres domésticos, lia muito. Fazia economia com o dinheiro das despesas da casa e comprava romances em fascículos. Presumo que poucas pessoas, das que aqui estão, sabem que se vendia nesta cidade, de porta em porta, nos bairros pobres, romances em fascículos. Ela me incutiu o gosto pela leitura, contando-­me, por exemplo, histórias do lendário rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, d’Os três mosqueteiros; e trechos de Os miseráveis, de Victor Hugo. Ela me iniciou, a seu modo, na literatura universal. Creio que isso me fez ser encontrado muitas vezes, na minha adolescência e mocidade, nesta Casa de Antônio Lobo, quando aqui funcionava a Biblioteca Pública. Com certeza, vinha guiado pela mão invisível de minha mãe, para ler os livros que eu não podia comprar: O tesouro da juventude, clássicos da literatura e até livros didáticos. Esta é a razão por que lhe rendo uma especial homenagem post mortem, na véspera de seu aniversário de nascimento.

Hoje, depois de tantos e muitos anos, volto a esta Casa não mais como leitor assíduo, mas como o mais novo membro desta confraria intelectual que generosamente me aceitou. Agradeço a todos a eleição e a oportunidade do convívio fraterno e amigo que me oferecem, para aqui cultivar as cousas da inteligência, do coração, do espírito.

 Franklin de Oliveira

A Cadeira em que vou sentar­-me foi fundada, em 1948, por José Ribamar de Oliveira Franklin da Costa. O nome literário Franklin de Oliveira foi proposto pela criatividade de Dante Costa e Joel Silveira, seus amigos, no Rio de Janeiro. Franklin não queria usar o nome inteiro nem um fragmento de nome, como chega a confessar. Posteriormente, é certo, passou a chamar-­se, legalmente, Franklin de Oliveira.

Louvo o fundador da Cadeira nº 38 pela escolha do patrono. Eu sei que ele as leu, assim como eu as li, as severas críticas de Humberto de Campos quando, com sua verrina, trata das obscuridades e dúvidas na história e evolução das duas academias, a Francesa e a Brasileira. E aí, traz à baila os “ilustríssimos desconhecidíssimos” intelectuais, referindo-­se, entre outros, ao patrono da Cadeira nº. 1 da Academia Brasileira de Letras, ao qual negava mérito para ser patrono.

Quem escolheu Adelino para patrono, na Academia Brasileira, foi o fundador da cadeira, Luís Murat. Fê-­lo cerca de doze anos depois da morte daquele poeta. Eram amigos. Conheceram-­se mutuante no plano intelectual, que os aproximou. Se a indicação foi obra do sentimento, sem nenhuma dúvida o foi, ao mesmo tempo, da inteligência. O fundador da cadeira sabia bem avaliar suas decisões; era, além de filósofo, homem de grande cultura, literária e clássica. Ivan Lins, um dos seus sucessores na Cadeira nº 1, confirmando essas qualidades intelectuais, disse ainda a respeito de seu antecessor: era “íntimo de Homero, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Platão, Hesíodo, Píndaro, Shakespeare, Dante, Vítor Hugo e Augusto Comte”.

Quando Franklin de Oliveira indicou Adelino Fontoura para patrono da Cadeira de que irei ser titular, fez-­lhe um reconhecimento público, a exemplo de Luís Murat. Foi com esse gesto de grandeza rara, com a marca de intelectual brilhante, que Franklin de Oliveira resgatou a memória do poeta nascido à margem esquerda do rio Munim, para ser sempre lembrado entre nós, assim como é lembrado em sua terra natal pela rua que tem seu nome. É o sentimento de justiça, no episódio revelado, sem dúvida, uma das características da personalidade desse homem de imprensa, cronista, redator político, crítico literário e escritor erudito.

Não quero ressaltar-­lhe, hoje, apenas o sentimento de justiça; quero ressaltar­-lhe, também, o sentimento de solidariedade humana. Franklin de Oliveira era um inconformado com a miséria e o sofrimento humanos. Isso explica suas andanças diárias pelos bairros pobres de São Luís, acompanhando o dr. Odorico Amaral de Mattos, que se fizera apóstolo da infância desvalida desta cidade. Creio que os sentimentos de solidariedade e de justiça e esse conhecimento da realidade através de suas peregrinações pelos bairros, levaram-­no à opção política pelo socialismo. Para ele, era a solução dos problemas sociais. Creio, também, que José Maria dos Reis Perdigão, revolucionário devoto, deve ter-­lhe reforçado as convicções socialistas, quando trabalharam no Diário da Tarde.

Nasceu, esse nosso ilustre conterrâneo, em São Luís, aos 12 dias de março de 1916, e deixou sua terra natal aos 22 anos, para fixar-­se no antigo Estado da Guanabara, hoje, novamente Rio de Janeiro.

Enquanto aqui conviveu com sua família, aprendeu teoria musical com o maestro Pedro Gromwell e violino com Henrique Blum. O fato não é surpresa, porque seus pais, Waldimir Franklin da Costa e Guiomar Oliveira da Costa, eram amantes da boa música. Um quinteto doméstico, “todas as noites, após o jantar, executava as partituras de preferência da família”. Ao piano, a filha Ibana; com o bandolim italiano, a mãe, e com três violinos, os filhos Heitor, Danúzio e Franklin. Certamente, esse registro pode explicar a razão por que Franklin de Oliveira irá assinar uma coluna sobre música no Correio da Manhã.

Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente Franklin de Oliveira. Conheci seu irmão Gastão e sua irmã Guiomar, minha colega de turma ginasial, hoje freira da Congregação de Santa Doroteia, em Belém do Pará.

Franklin fez seus primeiros estudos no Colégio São Luís Gonzaga, concluindo o curso secundário no Liceu Maranhense. “Na sua vida literária foi estimulado pelos seus mestres Nascimento Moraes, Ruben Almeida, Mata Roma, Alcides Costa…”, mestres de várias gerações, inclusive da minha. Antônio Lopes foi, todavia, seu mestre de maior influência: chegou a matricular-­se na Faculdade de Direito somente “para usufruir mais intensamente o convívio [com ele]”.

Posso imaginar a atração intelectual exercida por Antônio Lopes na mocidade maranhense. Para mim, o curso de Direito somente teve dimensão e apaixonante grandeza, porque fui aluno dele em Introdução à Ciência do Direito. Um sábio, que me ajudou a encontrar o prazer na leitura da Teoria do Direito e do Estado, da Filosofia e da Sociologia Jurídicas.

Após essa breve digressão sobre o grande mestre Antônio Lopes, volto a tratar de Franklin de Oliveira. Sua vocação para o jornalismo cedo revelou­-se: aos treze anos já era redator d’A Tribuna, jornal de seu tio Agnelo Costa. Ainda em São Luís, militou, ao lado de grandes nomes da imprensa: em O Imparcial, com Antônio Lopes; na Folha do Povo, com Tarquínio Lopes Filho; na Pacotilha, com Nascimento Moraes; no Diário do Norte, novamente com Antônio Lopes, e no Diário da Tarde, com Reis Perdigão, que restaurava a tradição do jornalismo doutrinário.

Pertenceu ao Cenáculo Graça Aranha, onde continuou aperfeiçoando seus pendores literários. Seu pai, primo-­irmão do poeta Vespasiano Ramos, incutira-­lhe o gosto pela literatura. Depois, buscou conhecer os autores maranhenses. Com eles teve intimidade devido a suas leituras e pesquisas na famosa biblioteca particular de Wilson Soares; o acesso a ela foi-­lhe propiciado por José Neves de Andrade, seu amigo.

Em fins de março de 1938, com Manoel Caetano Bandeira de Mello, partiu, a bordo do Comandante Ripper, para a antiga capital federal, onde passou a residir. Abandoncias vou o curso jurídico em que aqui ingressara.

Lá, com o artigo Riso e Ternura da Hungria, estreia suas atividades literárias no semanário Dom Casmurro, dirigido por Álvaro Moreyra. Começa a fazer seu círculo de amizades, que conta, entre outros, com Joel Silveira, Jorge Amado, Marques Rebelo, Victor Nunes Leal e Cândido Portinari; depois ampliado com a participação de Millôr Fernandes, Hélio Fernandes, Herberto Sales e Nelson Rodrigues.

Suas afinidades intelectuais levaram­-no a aproximar­-se de maranhenses como Josué Montello, já festejado escritor; como Araújo Castro, destacado diplomata e “profundo conhecedor da Literatura Inglesa”; como Ignacio de Mourão Rangel, figura proeminente como estudioso da economia nacional; como Viegas Neto, que, na imprensa paulista, iria destacar­-se como comentarista político.

Com a militância anterior no jornalismo diário, foi-­lhe fácil ingressar nas redações da imprensa carioca. Destacou­-se em A Notícia, O Radical, Diário da Noite, Boletim Mercantil, Correio da Manhã; e manteve seções nas revistas O Cruzeiro (Sete Dias), A Cigarra (Imagens do Instante Perdido), Letras e Artes (As Horas Antigas), e, por último, na revista Senhor/Isto É.

Para obter o emprego em A Notícia, foi submetido a um difícil concurso: teve de escrever um editorial sobre a invasão da Tchecoslováquia por Hitler; um artigo sobre a situação econômico­-social do Brasil e, por último, uma crônica literária e uma croniqueta de abertura da coluna social. Quinze dias depois, recebeu a notícia de sua aprovação.

O Correio da Manhã era um nicho de intelectuais do porte de Antônio Callado (redator-­chefe) e Álvaro Lins (editorialista). Quando este foi fazer a campanha presidencial de Juscelino Kubitschek, teve por substituto Franklin de Oliveira, que revezava com Otto Maria Carpeaux na assinatura da crítica literária. Nosso intelectual e conterrâneo exerceu ali, também, a função de principal redator político por escolha direta de Paulo Bittencourt, o dirigente principal daquele jornal.

Foi redator-­chefe, numa das fases mais difíceis daquele matutino: a época dos governos militares. Parece que estou ouvindo o jornalista Carlos Tavares a dizer­-lhe: […] “porque conservou o espírito insubornável, mesmo nos momentos mais amargos – o da perseguição política e da deserção dos amigos – você teve amigos a seu lado e foi a sua coragem que os reteve”. Desejo agregar, agora, às virtudes da justiça e da solidariedade, um novo valor destacado da personalidade de quem ora teço o encômio: a coragem perante a vida, a forte resistência à adversidade. Sabe­-se que essa qualidade herdou-­a do pai, Waldimir Franklin da Costa.

Creio que o nosso homenageado era um grande sentimental e um temperamental. Não dava lugar para a pequenez de emoções.

Cândido Campos, quando dirigia A Notícia, levava o pessoal da redação, diariamente, para um verdadeiro almoço em uma confeitaria em frente ao jornal. Franklin não acompanhava o grupo. Certa feita, o chefe perguntou a Franklin, por que não ia ao rega­bofe. A resposta veio curta, embora delicada: “Porque não quero”. Cândido Campos não gostou e disse-­lhe que gente orgulhosa e altiva com ele não trabalhava. Foi o bastante para Franklin imediatamente levantar-­se, vestir o paletó e deixar o emprego. Por trás daquele temperamento indomável, estava a defesa do direito à liberdade de escolha. Tempos depois, Cândido Campos redimiu-­se, convidando o “orgulhoso e altivo” para um jantar especial em sua casa; ao final, disse-­lhe: “O seu lugar em A Notícia está lhe esperando. Quero vê­-lo lá, amanhã, na hora habitual”.

Trabalhava em O Cruzeiro, quando Assis Chateaubriand, diretor-­presidente dos Diários Associados, foi lançado candidato a senador pelo Maranhão. Franklin foi chamado para apoiar o dono da revista em que trabalhava; recusou-­se, por entender que a candidatura fora imposta e era produto de arranjos políticos. As consequências vieram. Não puderam demiti-­lo, por proibição legal, pois tinha cerca de doze anos de casa. Mas as intimidações não cessaram. Cortaram-­lhe a coluna que escrevia. Dava­-se, ainda, curso a avisos de que teria de mudar de profissão, porque Chateaubriand, como retaliação, faria tudo para que ele não mais conseguisse emprego em qualquer jornal carioca. Apesar da força das pressões, não se dobrou. Mas as partes chegaram a um acordo de demissão “amigável” e justa, com os oportunos préstimos de Victor Nunes Leal.

De outra feita, quando era editor internacional do Diário da Noite, recebeu notícia, vinda de São Luís, de que a senhora sua mãe estava em coma, pois tivera um derrame cerebral. Só lhe faltava licença do serviço para viajar pelo hidroavião que o traria a esta capital. O primo, José Serra, empresário no Rio de Janeiro, iria financiar­-lhe a compra da passagem. Foi, então, direto ao gabinete do editor­-chefe, Carlos Eiras, a quem contou o que estava ocorrendo e disse que queria permissão para viajar, sem ônus para o jornal. Ouviu um grosseiro e sonoro não. Reagiu e gritou-­lhe alguns palavrões. E viajou. Por trás daquela reação, estava outro sentimento profundo: a exigência de respeito ao ser humano e do atendimento às suas necessidades básicas.

Mas há, em contraposição, fatos que denunciam seu lado sentimental intensamente cultivado. É isso que explica por que João Guimarães Rosa escreveu um poema (Grande Louvação Pastoril à Linda Lygia Maria), para celebrar o nascimento da neta de Franklin de Oliveira. Isso denota o imenso lado afetivo que alimentava entre amigos. Li a dedicatória de um livro de sua autoria, onde expressa a lhaneza de trato a entes queridos: “Ao trio da

Poesia – Arlete, Nauro, Frederico – com o abraço muito afetuoso…”

Era um excelente profissional da pena, com intensa e fértil atividade.

Em tudo quanto escreveu, e que se eleva, pela soma, à casa dos milhares, entre crônicas, editoriais, artigos, resenhas, ensaios breves, verbetes de enciclopédias e trabalhos especialmente elaborados para livros, Franklin de Oliveira pôs sua alma e seu coração. E mais que isso: pôs a força admirável de seu talento e o peso incomum de sua erudição, que era rara, pela vastidão que dominou. Ia da literatura à música, das artes plásticas à sociologia, à economia e à política, no elevado sentido de promover o bem comum.

O cronista, que rapidamente conquistou a admiração nacional com uma seção, publicada em O Cruzeiro, logo reuniria esses trabalhos no volume intitulado Sete dias. A fantasia exata, que viria depois, é um conjunto de percucientes ensaios sobre literatura e música, assim como segue a mesma linha seu livro Viola d´amore.

O inconformado social, que ele foi, clama sua revolta em A tragédia da renovação brasileira, quando denuncia a miséria dentro do progresso, nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Mantém­-se ele na mesma linha de pensamento em Revolução e contrarrevolução e em Rio Grande do Sul: um novo Nordeste.

O homem de cultura, que era ao mesmo tempo intelectual militante, faz uma candente denúncia, um libelo, ainda hoje atual, em Morte da memória nacional, que é um veemente manifesto contra o descaso com que são tratados os valiosos bens do nosso patrimônio cultural.

Vale a pena mencionar outros livros de sua autoria: Literatura e civilização; Euclydes: a espada e a letra; A Semana de Arte Moderna na contramão da história e outros ensaios; A dança das letras: antologia crítica.

Escreveu O morto e o vivo na revolução brasileira, que é um ensaio de sociologia política. Os originais, ainda em fase conclusiva, foram apreendidos pelo DOPS, na residência do autor, em 9 de abril de 1964. Nunca foram restituídos.

Quando exercia elevadas funções na Petrobras, teve, por suas ideias e posições políticas, seus direitos políticos cassados por dez anos pela Revolução de 64. Retornou ao jornalismo e foi trabalhar em O Globo. Após a edição do Ato Institucional No 2, o ministro da Justiça quis impedir, com determinação expressa, os jornalistas cassados de exercerem sua profissão. Roberto Marinho, corajosamente, naqueles difíceis tempos, não aceitou o arbítrio que atingia nosso conterrâneo e garantiu-­lhe o trabalho. Com a anistia, o emprego na Petrobras foi reconquistado.

Uma vez voltou a São Luís, para tentar eleger-­se deputado federal pelo Maranhão. Não conseguiu o número de votos maior que o último dos eleitos. Nunca mais tentou.

Seu talento e valor intelectual foram várias vezes reconhecidos e premiados os seus méritos.

Eu mesmo, quando reitor da Universidade Federal do Maranhão, propus ao Conselho Universitário, e este aprovou por unanimidade, fosse concedida a ele a Medalha Sousândrade do Mérito Universitário, a mais alta condecoração daquela Casa de Saberes.

O Conselho de Literatura do Museu da Imagem e do Som, unanimemente, concedeu-­lhe o Prêmio Golfinho de Ouro de Literatura do Estado do Rio de Janeiro.

A Academia Brasileira de Letras, em 1982, por unanimidade de votos, conferiu-­lhe o Prêmio Machado de Assis.

A secção paulista da União Brasileira de Escritores designou­-o para proferir conferência no V Congresso Nacional dos Escritores Brasileiros, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina. O tema sobre o qual discorreu foi A Missão Social do Escritor.

A Mesa Redonda sobre Graciliamo Ramos, que a Editora Ática levou a efeito em São Paulo, teve a sua participação, a de Antonio Candido, de Alfredo Bosi e de José Carlos Garbuglio.

Ao lado de José Guilherme Merquior e Affonso Romano de Sant’Anna, participou da Comissão Julgadora do Concurso de Literatura do Estado do Paraná, em 1981.

No dia 6 de junho do ano passado, faleceu Franklin de Oliveira, aos 84 anos, no Rio de Janeiro. Jomar Moraes, presidente desta Casa de Intelectuais, fez um desejável registro do passamento do fundador da Cadeira nº. 38, no jornal O Estado do Maranhão. Com a natural elegância de quem bem escreve, anota que o fato “não teve, na grande imprensa, o destaque merecido. Notas sumárias de revistas semanais, registros ligeiros e tópicos nas seções de obituário foram tudo o que a grande imprensa entendeu dever a quem muito a engrandeceu”.

Concordo com o nosso Presidente quando, no citado artigo, invectiva o descaso com as cousas e as pessoas que contribuem para a construção cultural deste país:

[…] a pressa dos dias que vivemos e a acachapante superposição de figuras que desfilam na mídia com um brilho que tanto satura quanto é fugaz, parece haver instaurado o império do descartável que arquiva ou ‘deleta’ das atenções gerais valores efetivos e, por todos os motivos, dignos do tratamento que lhes vem sendo progressivamente negado.

Ao lado desse e de outros momentos de censura, lembra, com propriedade e oportunidade, que “Franklin deixou uma obra que responde por sua permanente lembrança entre nós, e que servirá também de testemunho de sua atuação positiva na cena cultural brasileira de seu tempo”. Reapresenta, também, o testemunho da qualidade e singularidade do trabalho do nosso conterrâneo, invocando a palavra erudita do saudoso José Guilherme Merquior, um indiscutível grande valor da intelectualidade brasileira.

Palavras finais

Desculpem­-me, senhoras e senhores, a demora em concluir. Não é tarefa fácil falar sobre a vida de intelectuais cuja memória nós devemos cultuar. O que acabo de apresentar é apenas uma síntese da riqueza intelectual de duas vidas. De acordo com disposição do Regimento Interno desta Academia, o novo acadêmico, ao empossar-­se, apreciará, obrigatoriamente, a personalidade e a obra do patrono de sua Cadeira e de seu antecessor imediato.

Volto a frequentar esta Casa, que frequentei na minha adolescência, quando aqui funcionava a Biblioteca Pública.

Naquele tempo, sentia-­me feliz, porque satisfazia as minhas necessidades intelectuais e espirituais. Hoje, senti vontade de voltar para satisfazer, em plano bem elevado, aquelas mesmas necessidades. Que bom que meus agora confrades me acolheram. Lisonjeado e muito honrado aqui estou, reencontrando antigos companheiros de outras frentes de trabalho. Espero tudo fazer para não decepcionar. E tudo fazer, como já vem sendo feito pelos que aqui chegaram antes de mim, para o crescimento continuado do papel da Academia Maranhense de Letras na cultura deste Estado; isto é, o de reencontrar, no tempo, a Atenas Brasileira em sua grandeza e apogeu.

Agradeço este momento a Deus, a meus pais (in memoriam), a meus mestres, a minha esposa e filhos. Agradeço aos confrades desta Oficina de Intelectuais. Agradeço a presença das autoridades, que deram mais brilho a esta solenidade. Agradeço aos parentes e amigos, inclusive às sobrinhas de Franklin de Oliveira, Sílvia e Cláudia Helena, que aqui vieram compartilhar comigo o prazer e o orgulho de ser membro da Academia Maranhense de Letras.

É o que gostaria de dizer-­lhes nesta noite para mim festiva, de Poesia e Prosa.

 

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