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Ocupante

Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel

  • Cadeira

    37

  • Data da Eleição

    02.07.2009

  • Data da Posse

    02.10.2009

  • Recepcionado por

    José Louzeiro

ANTECESSOR:

Biografia

Nasceu em São Luís no dia 13 de Dezembro de 1959. Filho de Nagib Haickel e Clarice Pinto Haickel. Poeta, contista, cronista e cineasta, fundou e dirigiu a Revista Guarnicê, que circulou em São Luís entre 1983 e 1986, as Edições Guarnicê em 1983 e a Guarnicê Produções em 1984. Entre 1983 e 1990, editou livros de vários escritores maranhenses e de outros Estados.

Político, em 1982 elegeu-se deputado estadual, tendo sido naquela legislatura o deputado mais jovem do Brasil. Formou-se bacharel em Direito pela UFMA (1985). Elegeu-se deputado federal constituinte em 1986, onde em 1988 foi o relator discordante do projeto de emenda da pena de morte.

Ocupou os cargos de secretário-adjunto de assuntos políticos de 1991 a 1993 e de educação entre 1993 e 1994. Voltando ao parlamento maranhense, foi primeiro secretário da Assembleia Legislativa do Estado entre 2002 e 2003 e de 2011 a 2014 foi secretário de esportes do Governo do Estado do Maranhão.

Empresário do setor de radiodifusão, possui diversas emissoras de rádio e televisão.

Idealizou e constituiu a Fundação Nagib Haickel, que visa a promover a educação, a cultura e a cidadania, e o Museu da Memória Audiovisual do Maranhão – Mavam, dedicado a preservar e difundir a memória maranhense através de meios audiovisuais.

É desde 2006 membro da Academia Imperatrizense de Letras ocupando a Cadeira Nº 9 e a partir de 2011, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, onde ocupa a Cadeira Nº 47.

Enquanto deputado foi o autor de diversas leis importantes, entre elas as Leis de Incentivo à Cultura e ao Esporte de nosso Estado.

Em 2010 resolveu não mais se candidatar a deputado, mas continua escrevendo, e produzindo e dirigindo filmes.

saiba mais sobre Joaquim Haickel:

http://www.blogsoestado.com/joaquimhaickel/2014/09/09/joaquim-haickel-por-joaquim-haickel/

http://www.blogsoestado.com/joaquimhaickel/2014/10/23/a-pedidos-o-multiplo-joaquim-elias-nagib-pinto-haickel/

Bibliografia

Confissões de uma caneta, edição do autor, 1980, contos, premiado no concurso cidade de São Luís; O quinto cavaleiro, edição do autor, 1981, poemas; Garrafa de ilusões, SIOGE/Civilização,1982, premiado no concurso SECMA/SIOGE/Civilização Brasileira; Manuscritos, Edições Guarnicê,1983, poemas;Revista Guarnicê, Edições Guarnicê, semanário artístico e cultural publicado de 1983 até 1986;Antologia poética Guarnicê, Edições Guarnicê, 1984, poemas; Antologia erótica Guarnicê, Edições Guarnicê, 1985, poemas; Clara cor-de-rosa, Edições Guarnicê, 1986, contos; Saltério de três cordas, Edições Guarnicê, 1989, poemas, em parceria com Rossini Corrêa e Pedro Braga; A ponte, Editora Global/Edições Guarnicê, 1991, contos; Almanaque Guarnicê, Edições Guarnicê: Editora Clara, 2003, memórias sobre a Revista Guarnicê; As melhores crônicas da Clara on Line, Editora Clara, 2005, crônicas; Dito e feito, Edições Guarnicê, 2009, crônicas; Contos, crônicas, poemas & outras palavras, Edições Guarnicê, 2012, vários gêneros.

Filmografia

“The Best Friend”, O amigão, Guarnicê Produções, 1984, curta metragem, em super 8, de 5 minutos de duração, experimental/mímica, conquistou os prêmios de melhor filme do júri popular e melhor filme de cineasta maranhense do júri oficial, no festival de cinema e vídeo realizado pela UFMA em 1984; Padre Nosso, Guarnicê Produções, 2008, curta metragem de 3 minutos, ficção, em sua versão de 1 minuto foi vencedor do concurso de filme para celular da Oi em 2009; Pelo ouvido, Guarnicê Produções/Mutante Filmes, 2008, curta-metragem de 18 minutos, ficção, selecionado para mais de 120 festivais e ganhador de 19 prêmios em alguns destes. A Ponte, Guarnicê Produções/Dupla Criação, 2011, curta-metragem de 8 minutos, animação; Upaon-Açu… Saint Louis… São Luís…, Fundação Nagib Haickel/Guarnicê Produções/Dupla Criação, 2012, curta-metragem de 12 minutos, animação sobre a fundação de São Luís; Academia da memória – homens e imortais, Academia Maranhense de Letras/Fundação Nagib Haickel/Guarnicê Produções/Play Vídeo, 2013, série de vinte e quatro documentários com quase 9 horas de duração, sobre alguns dos membros da AML. A pedra e a palavra, Fundação Nagib Haickel/Guarnicê Produções/Mutante Filmes, 2013, documentário em longa-metragem, 90 minutos sobre a vida e a obra do padre Antônio Vieira.

saiba mais:

www.guarnice.com

www.fundacaonagibhaickel.org.br

Discursos de Posse

DISCURSO DE POSSE

Meu nome é Joaquim. Mas eu também me chamo Nagib, e é o meu duplo — ou antes, é aquele de quem sou du­plo — o meu pai Nagib Haickel a quem primeiro contemplo neste salão, esperando por mim, sentado ali, na fila da frente, entre aquelas duas mulheres maravilhosas: minha mãe, Clarice, e minha filha Laila. O presidente desta cerimônia autoriza meu discurso de posse na Academia Maranhense de Letras. Eu me levanto. Meu pai não se contém: antes que eu chegue à tribuna, ele já está de pé, aqui, diante de mim. Eu ainda não começo a falar e o velho me arrebata a palavra, dedo em riste, enchendo o mundo com o seu vozeirão:

— Só porque tu escreve umas coisinhas por aí tu acha que é escritor, é? Tu acha que é poeta? Poeta coisa nenhuma! Tu nem bebe! Poeta é Zé Chagas, poeta é Nauro, que metem grogue. Escritor é Jomar, que aprecia as cervejas louras e as mulheres morenas. Tu nem sabe o que é bebida, rapaz! Como é que tu pretende saber o que é poesia?

Neste recinto solene, senhores acadêmicos, minhas senhoras e meus senhores, aquele que orgulhosamente se intitulava um “caboclo do Pindaré, acostumado a comer tapioca e mandubé” repete uma repreensão das mais severas que dele recebi. O caso foi há muito tempo: eram os idos de 1984. Ele andava aborrecido com minha preferência em ficar fazendo a revista Guarnicê, ao invés de tomar conta dos negócios da família. Sua fúria transbordou, quando eu e Paulinho Coelho nos esquecemos de fechar o registro geral da água, no velho depósito de cimento que Nagib Haickel tinha pelas bandas do Desterro. Depósito inundado, cimento molhado, prejuízo contabilizado.

Como todo mundo sabe, meu pai não fazia por menos em termos de emoção e muitas vezes se obrigava ao papel de ator em lances cheios de dramaticidade. Na verdade, porém, ele estaria felicíssimo neste momento, rindo em seu próprio íntimo, com o bom humor que lhe fez a fama, e saboreando dentro de si o contentamento de perder a parada para o filho:

— Esse menino chegou mais longe do que eu podia imaginar. Para quem tinha extrema dificuldade em ler, para quem não sossegava um só instante, o lucro foi grande. Pois não é que ele conseguiu enganar a todos esses acadêmicos, gente culta e instruída?

Era assim que meu pai fingia que pensava, mas não era assim que ele pensava, de fato. O seu orgulho só encontraria repique no júbilo deste seu duplo, aceito membro da Academia Maranhense de Letras, acolhido por figuras da envergadura do presidente José Sarney e amigos de Nagib que foram professores de seu filho, como José Maria Ramos Martins, Alberto Tavares, José Joaquim Ramos Filgueiras, José Carlos Sousa Silva e Sebastião Moreira Duarte. Ele também se sentiria em casa, ao contabilizar o número de velhos amigos seus da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados, com quem seu filho irá conviver, como Benedito Buzar, Sálvio Dino, Evandro Sarney, Joaquim Itapary, Neiva Moreira e Edson Vidigal. Com toda certeza, Nagib Haickel brincaria com seu querido amigo Mílson Coutinho e com o também desembargador Lourival Serejo, recomendando­-lhes que tomem conta desse “menino”, sentindo-­se também envaidecido de ver seu filho compartilhar a mesa com amigos dele como Ubiratan Teixeira, Carlos Gaspar, Hélio Maranhão, Mont’Alverne Frota, Carlos de Lima, Américo Azevedo Neto, Ivan Sarney, Waldemiro Viana, Laura Amélia e Manuel Lopes. Não sei ao certo se ele teve o prazer de conhecer José Louzeiro, Lino Raposo Moreira, Sônia Almeida, Joaquim Campelo, Antônio Martins, Clóvis Sena, Ceres e Ronaldo Costa Fernandes, Alex Brasil, Magson da Silva, José Ewerton e Ney Belo Filho, uns porque cedo foram morar fora do Maranhão, outros porque, sendo de outra geração e de outro meio, não tiveram contato com ele. Em especial, quando visse aqui José Chagas e Jomar Moraes, contra os quais me comparou em total desvantagem para mim, Nagibão sorriria desconcertado, franziria a testa, morderia os lábios, choraria miudinho e escondido: tamanha é a glória desses nomes, que dela, por simples contágio, algum tanto sobrará para seu filho.

Minhas senhoras e meus senhores:

A Cadeira que, a partir de hoje, chamarei minha na Academia Maranhense de Letras é de Inácio Xavier de Carvalho e Ribamar Pereira e pertenceu sucessivamente a Luís Viana, Amaral Raposo e Nascimento Morais Filho.

Inácio Xavier de Carvalho, nascido em 1871, deixa dúvida se era apenas uma pessoa. Nesta Casa foi fundador e é patrono. Ao mesmo tempo e por igual, é do Maranhão, é do Amazonas e é do Pará. Andou ainda por Minas Gerais e encontrou, por fim, a imortalidade no Rio de Janeiro, em 1944, próximo de completar 73 anos de idade. Formado em Direito pelo Recife, em 1893, exerceu-­se como magistrado, jornalista, poeta, professor de literatura. Pelo que, de sua lavra, se sabe esparso em periódicos e publicações circunstanciais, será correta a conjectura de que ainda falta reunir escritos seus deixados nesta sua cidade natal, assim como em Manaus, onde se demorou pouco, e em Belém, onde permaneceu por mais tempo.

Sua obra compõe-­se de apenas três títulos, que a poucas páginas se estendem: Frutos selvagens,Missas negras e Parábolas para bolas. Frutos selvagens é de São Luís, Missas negras é de Manaus,Parábolas para bolas é de Belém.

Frutos selvagens é de São Luís, 1894: “um dos poucos resultados positivos da época de efervescência vivida [aqui] entre fins do século xix e princípios do século seguinte” — segundo avaliação de Jomar Moraes.

Parábolas para bolas é do Pará, 1919, e é logo aqui arrolado, por suas características, que não nos ocupam em maior análise. Não se trata de livro em sentido próprio: é apenas um folheto de 32 páginas, composto de seis pequenas narrativas alegóricas, cinco sonetos e uma ode a Rui Barbosa (recitada pelo autor, num comício em Belém, por ocasião da campanha civilista daquele candidato à Presidência da República), textos a que só a ironia e o desapontamento com a política conferem sentido de unidade.

Missas negras é de Manaus, 1902, e constitui, desta vez, não apenas o que de melhor escreveu o poeta Inácio Xavier de Carvalho, mas também uma fotografia das mais vivas de uma época em transição, de intervalência e sobreposição de estéticas, de esgotamento e ânsia sem rumos, tempo de maré vazante, à espera da sizígia que, entre nós, por amor de nosso isolamento, tardaria ainda por bem meio século, até a geração de Tribuzi e Gular. Xavier de Carvalho realiza obra de mimetismo tardio, não só em relação às matrizes francesas em que se inspira, mas em face ao simbolismo retardatário de portugueses e brasileiros. Os 37 poemas que fazem as suas “Missas Negras sem hóstias e sem vinho” povoam-­se de Revoltas Supremas, Crenças Apagadas, Risos Pretos, Pecados Brancos, Alvas Grinaldas, Mágoas, Quimeras, Desventuras, Bando Esquelético de Crenças, Sonho Nu de Descrente, Estranhas Rotas, Másculas Derrotas — substantivos e adjetivos todos em maiúsculas, conforme exigia o tributo da importação provinciana a que o poeta se obrigava. O título Missas negras lembra o de Missal, de Cruz e Sousa, poema (em prosa) de nove anos antes, e aparece quando já mortos o próprio Cruz e Sousa, Mallarmé, Antônio Nobre e Verlaine. Mas, em que pese a essa nota de rebate epigônico, nem por isso deixou Inácio Xavier de Carvalho de pagar sua conta pela luz com que pretendeu iluminar a “tristíssima e caliginosa noite” — como lhe chamou Antônio Lobo — na qual “o Maranhão ressonava […] num fundo sono, próximo da morte”, conforme o viu e sentiu Humberto de Campos. Até a mais afinada inteligência que por então nos restava, o mesmo Antônio Lobo, não o compreendeu, tanto quanto é verdade que a inteligência brasileira — Machado de Assis incluído — não fez boa recepção à literatura representada pelo aluvião finissecular de nossos pós-­românticos, simbolistas, impressionistas, decadentistas. Em carta escrita, em 1908, ao jornalista Sebastião Sampaio e a qual deu muito o que falar, eis em que termos o Mestre maranhense exara a sua crítica aMissas negras:

[…] livro filiado à corrente simbolista, tal como andou em geral compreendida e praticada no Brasil, isto é: consistindo quase que essencialmente no culto exagerado do disparate, na ideia e na forma. E foi exatamente essa preocupação de escola que, a meu ver, prejudicou sensivelmente o trabalho do poeta, sem dúvida alguma, de produzir obra muito mais valiosa, se em tempo se houvesse libertado dos esterilizantes empecilhos que tal preocupação irresistivelmente lhe opôs à elaboração estética.

A bem de Antônio Lobo, o mais vigilante e atualizado de nossos intelectuais, diga-­se que sua percepção de literatura pautava-­se, como a de qualquer um naqueles tempos, pelo figurino francês, mas não absorvia os padrões renovadores sugeridos, da mesma França, já desde as Flores do mal, de Baudelaire.

A mal de seu temperamento enfermiço, para quem a polêmica constituía uma espécie de compulsão erógena, leve-­se em conta que sua apreciação sobre Inácio Xavier de Carvalho se faz em clima de mútua desavença, veiculada pelos jornais Pacotilha, O Maranhão e Diário do Maranhão, da capital maranhense, e engatilhada pela Folha do Norte, de Belém do Pará, conforme nos diz Carlos Gaspar em trabalho recém-­publicado sobre Antônio Lobo.

A contenda ocorreu no ano de 1907 e teve como causa imediata a chegada, a São Luís, do jornalista fluminense Rafael Pinheiro, vindo do Pará para aqui fazer conferências sobre assuntos variados. Antecipou-­o, no entanto, a notícia de seus desentendimentos com homens de letras do Estado vizinho, fato bastante para deixar de sobreaviso os intelectuais desta terra, e mais ainda, na percepção de alguns, porque seria Antônio Lobo quem lhe daria as boas-­vindas e o apresentaria aos maranhenses. Sobre uma conferência, programada com pompa e circunstância para ser pronunciada no teatro local, com a presença do governador Benedito Leite, Agostinho Reis, redator da Pacotilha, informa ao jornal de Belém que alguns bilhetes de entrada haviam sido distribuídos gratuitamente, com a finalidade de preencher cadeiras vazias no salão do evento.

Os efeitos da notícia, desfavoráveis ao visitante e a seu anfitrião, foram glosados por Inácio Xavier de Carvalho, editorialista d’O Maranhão e propiciam fazer­-se um close sobre o cotidiano das duas figuras envolvidas na querela, de seus pequenos interesses e da vida pequena de São Luís naquela primeira década do século xx, e bem assim sobre o que, de literatura, se criava nesta Província naqueles tempos. Diz Antônio Lobo:

O autor das Missas negras tem um talento especial para troçar e descompor em verso. Mas também é só: tirando isso, o rapazinho [o tal “rapazinho” contava já 36 anos de idade] é de uma imperícia de fazer dó, quer se exprima em linguagem métrica, quer não. […]. Na prosa é o mesmo descalabro e a mesma lástima. Se o moço se quer exprimir em linguagem sem metro e sem rima, ou é para se dar ao desfrute ou para dizer tolices. […].

“Ora, Sr. Antônio Lobo! Que pretensão a sua!” — a de um “espírito nulo e acanhado”, […] “coreico ou paranoico”, […] “um doente físico” […], o quanto basta para torná-lo irresponsável pelo que diz e escreve.

Xavier de Carvalho nega a crítica de seu oponente, lembrando que Guerra Junqueiro o saudou como “camarada literário” e que sua poesia foi recebida amigavelmente no mundo das letras por José Veríssimo, Artur Azevedo, Medeiros e Albuquerque, etc.

Interessante para bem retratar o espírito da época é perderem ambos tempo e papel em agressão recíproca, a propósito de um terceto de Missas negras, em que o verbo ladrar é usado como transitivo direto:

E em complemento após da Glória Tua

Ficarás lá por cima como a Lua

E eles embaixo como o cão que a Ladra!

Antônio Lobo, escritor da velha cepa, não percebeu que a transgressão à regência verbal é o que enriquece e dá força ao verso de seu adversário. Dois anos depois dessa polêmica, ele ainda reafirma a mesma incompreensão da estética simbolista e, sobre a poesia de Inácio Xavier de Carvalho, emite a mesma opinião expressa a Sebastião Sampaio. São suas palavras em Os novos atenienses:

I. Xavier de Carvalho é, incontestavelmente, uma organização poética de primeira ordem. De um alto poder de idealização e de expressão estética, sabe, aos seus temas emotivos, aplicar com maestria todos os recursos técnicos da sua arte. A única falha que teríamos a lamentar na sua obra, se acaso aqui tentássemos exercer a crítica, seria exatamente o malbarato de tão belos requisitos artísticos, no cultivo do verso simbolista, tal como andou compreendido pelos sibilinos e intraduzíveis decadistas franceses e pelos seus dignos imitadores brasileiros.

Na verdade, o que há para se lamentar em Xavier de Carvalho é que ele tenha chegado tarde e repetitivo, o que, só por isso, não implica inferioridade literária. Sonetista exímio, algumas de suas criações mereceriam acolhida franca em qualquer antologia da língua vernácula. Sua poesia revela uma tentativa de introspecção que transcende ao seu próprio eu, para desvelar a alma humana em angústia universal. Os tempos que se anunciam serão de Freud, Joyce, Pound, Proust. Inácio Xavier de Carvalho tem o pressentimento da mudança. Poderemos dizer não apenas que sua obra, mínima, ficou pelo meio do caminho, mas que ele é todo um meio de caminho. Epígono por um lado, é mal e mal percebido como o prógono que poderia ter sido: culpa da Província que tardou tanto em abrir os sentidos para os paradigmas da modernidade.

De fundador da Academia e titular da Cadeira Nº 9, Inácio Xavier de Carvalho foi transformado em patrono da Cadeira Nº 37, fundada por José de Ribamar dos Santos Pereira.

Não podendo encarnar­-me na voz do barítono que foi Ribamar Pereira, para aqui solfejar as 217 poesias que, segundo Mário Meireles, deixou musicadas o primeiro ocupante da Cadeira 37 — algumas inclusive traduzidas para o francês, o espanhol e o italiano — eu me desculparei por lhe fazer apenas rápido aceno biobibliográfico.

Nascido em São Luís em 17 de setembro de 1898, estudou primeiras letras no famoso Instituto Rosa Nina. Poeta, jornalista, teatrólogo, orador. Bacharel em Direito pelo Pará, foi assistente judiciário do proletariado e 1º promotor público da capital, no Maranhão; consultor jurídico da Caixa de Aposentadorias e Pensões de Serviços Públicos dos Estados do Piauí e Maranhão; representante, no Maranhão, da Casa dos Artistas, da Associação do Teatro Nacional e da Associação de Cronistas de Arte. Colaborou assiduamente na imprensa de São Luís, do Acre, Belém (Folha do Norte), Fortaleza, Recife (Jornal Pequeno), Bahia (A Tarde), São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro. Foi professor catedrático da Academia de Comércio do Maranhão, da Escola de Agronomia do Maranhão, da Faculdade de Direito do Maranhão e de outros estabelecimentos secundários em São Luís. Membro, também, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Faleceu a 23 de abril de 1959.

Sobre Luís Viana, muito não direi, para não me arriscar a cometer erros perante familiares e parentes seus, que ainda agora nos circundam. Nascido a 29 de setembro de 1889, duas ilustres casas de São Bento entroncam-­se em seu nome: a dos Lobatos e a dos Vianas. De rápidos apontamentos biográficos que dele colhemos, entende­-se que foi excelente em tudo: como estudante, professor, médico, jornalista, educador, homem de letras, cientista, administrador público. A esse respeito, façamos leitura das palavras de quem o conheceu e sucedeu nesta Casa, Amaral Raposo:

Se quisermos definir, com justiça e justeza, a vida científica, a vida literária de Luís Viana, cumpre-nos afirmar haver sido ele um pêndulo de ouro, oscilando sem hiatos e sem pausas, durante mais de meio século, entre a paixão absorvente do estudo e o fanatismo incessante do ensino.

Mais do que tudo, ele foi mestre. Mestre consumado em nossa língua, foi, igualmente, em italiano, em francês, em inglês e alemão, tal como atestam quantos mais íntima e frequentemente o conheceram. […].

Quanto ao perfil humano daquele meu antecessor, nada melhor que recolher o testemunho de quem faz, na vida acadêmica, a sequência da linhagem humana e intelectual de Luís Viana, o romancista Waldemiro Viana:

De tio Luís, me fica na memória um retrato paradoxal: enquanto meu pai, seu irmão mais novo, Fernando Viana, me falava do seu extremo rigor (ao ajudar meu avô na educação dos cinco irmãos), na condição de primogênito, a calar os mais novos ante um simples franzir de cenho, eu, que já o conheci no ocaso de sua vida, guardo dele a lembrança de um doce velhinho, extremamente culto, a dar-nos, bonachão, qualquer explicação sobre qualquer assunto, cuja dificuldade desaparecia face à aula ministrada. As disciplinas de sua predileção eram Português e História Natural. A esse respeito, por sinal, lembro de uma entrevista que concedeu à tv Difusora (a única, àquela época), por ocasião de sua posse na Cadeira 37 da Academia Maranhense de Letras. Perguntado sobre o porquê dessa preferência, respondeu, orgulhoso: “História Natural, por natural propensão; Português, por ser maranhense”.

Iniciou suas atividades literárias com o livro de crônicas lançado no Rio, O Dia, do qual não tenho quaisquer notícias. Foi articulista de vários periódicos maranhenses, em destaque o jornal Pacotilha, do qual chegou mesmo à direção.

Poeta esparso, deixou uns quantos sonetos, de lavra rebuscada e métrica perfeita. Tive oportunidade de ler­-lhe uns contos eróticos, ainda na flor da idade, aos doze, treze anos, que me serviram como incremento para fantasias de toalete.

Sucedeu-­o Amaral Raposo,

um dos últimos abencerragens que enfrentam com denodo os sarrabulheiros do idioma […]. Enfant terrible… garoto levado da breca… Fascinado, desde jovem, pela grandeza do estilo ruibarbosiano, tudo o que lhe tem saído da pena irrequieta e candente reflete, tem refletido sempre a influência do grande baiano.

É o que dele afirma Fernando Viana, que lhe deu as boas-­vindas na Cadeira No 37 desta Casa.

E é, outra vez, ao filho de Fernando Viana, a quem mais uma vez invoco, para falar da figura humana que fez companhia inesquecível a muitos dos presentes, mas a quem, por um lapso de geração, não cheguei a conhecer: Depõe Waldemiro Viana:

A desenxabida revista de origem americana Seleções do Reader’s Digest, de leitura quase obrigatória em certa fase da vida de todos nós, sessentões, trazia um quadro fixo intitulado Meu Tipo Inesquecível, onde um escritor qualquer escrevia sobre alguém que o impressionara sobremaneira.

Se eu tivesse que escrever nessa seção, o meu tipo inesquecível certamente seria o genial jornalista, poeta, articulista e — sobretudo — irascível gozador Amaral Raposo.

Tenho-lhe, viva, na retina a imagem: meia altura, físico de anti-atleta, era meio barrigudo, braços finos, amareloso, olhos esbugalhados, beiçola decaída a sibilar assobios completamente desafinados, cabeleira rareando e em perpétuo desalinho. Tinha por característica o hábito de emitir, após a ingestão da dose de conhaque usual, uma espécie de gorgolejo esquisito, que o identificava à distância.

Humor cáustico, para cada situação tinha uma contundente crítica. Recordo-me de uma situação constrangedora por que passei, quando, aluno do 3º Científico do Colégio São Luís, fiquei entre dois fogos, por ocasião do lançamento de um livro didático pertinente à matéria, do meu professor de Português de então.

Na apresentação da obra, esse professor cometeu a infelicidade de iniciá-la com a expressão: “Dos teclados de minha máquina..”. Foi o quanto bastou para Amaral Raposo, impiedoso, num artigo de jornal, massacrar o pobre coitado, naquele seu humor ferino, a indagar quantos teclados terá a máquina desse mentecapto? E a dar-se ao trabalho de ler detidamente a obra, somente para criticar-lhe os erros gramaticais.

E eu é que, em classe, suportava as diatribes do mestre, que tinha pleno conhecimento da minha amizade com o seu implacável crítico. Tocava um violão divino, mas uma execução sua geralmente gerava polêmica e descontentamento. Isso porque, perfeccionista, não admitia qualquer ruído externo, quando da execução de seus solos. Dispersivo, muito pouco ficou da obra do genial poeta de Só. Somente as piadas, blagues, observações cáusticas que o notabilizaram, e respostas prontas, que confundiam (ou desmoralizavam) o inquiridor… como, por exemplo, aquela dada a uma senhora, já um pouco além de balzaquiana, que o atormentava com insistentes elogios (o poeta era avesso a eles) e que, a certa altura, perguntou-lhe, coquete:

— Quantos anos o senhor me dá, poeta?

A resposta seca e um tanto ríspida:

— Nenhum, dona: a senhora já tem muitos!

Volto­-me, por fim, a desdizer o que disse Afrânio Peixoto e repetiu José Sarney, que um acadêmico são dois discursos, o segundo dos quais ele não poderá mais ouvir. José do Nascimento Morais Filho marcou de tal modo a sua passagem pelo cenário maranhense da segunda metade do século xx, que é difícil o imaginarmos desaparecido, sem mais nem menos, de nosso convívio, sendo bom examinarmos se ele não se acha camuflado em meio a esta audiência, prestando atenção a este segundo discurso a seu respeito, conferindo palavra por palavra de seu sucessor na Casa à qual um dia ele voltou as costas para sempre.

A seu modo, ele também terá sido “um garoto levado da breca”, podendo intuir-­se, quase, venha esse timbre a firmar-se como identidade da Cadeira No 37 neste carrancudo Cenáculo da Inteligência Maranhense. Um “aloprado”, não tivesse essa palavra sofrido a deformação semântica causada pela apropriação indébita de sentido que dela fez o presidente da República. Se não — com a única exceção de Graça Aranha, no famoso episódio de sua conferência na Academia Brasileira, em 1924 —, de qual outro “aloprado” há notícia de rompimento com uma instituição que, para não poucos, é a capa, ou a carapaça, com que se cobrem e se escondem em sua espera e passagem para os umbrais da imortalidade?

Na Igreja do Velho Regime, o gesto supremo de coragem para o sacerdote era atirar a batina às urtigas, abandonar as obrigações sagradas do culto. À moda antiga, o homem de Deus tornado aos hábitos de simples cidadão era apontado como apóstata, palavrão mais pesado que o de herege ou cismático, denúncia de infidelidade pública e permanente, defecção imperdoável, tipo especial de sacrilégio equivalente à morte em vida, e o qual dificultava por demais — se não mesmo impossibilitava de todo — os atos e práticas da vida comum: contrair matrimônio, exercer uma profissão, ser aceito em sociedade.

De que outra imagem poderemos nos valer para, em comparação, pesar e medir a “aloprada” coragem de Nascimento Morais Filho, quando se arrebatou do propósito de largar para sempre a companhia de seus pares na Academia Maranhense de Letras? A apostasia era um absurdo na teologia do catolicismo. A renúncia continua sendo um absurdo na metafísica das academias. Ainda hoje diz o Regimento desta Casa, em seu art. 46: “É perpétuo o título de acadêmico”. E mesmo com a vigência da Constituição de 1988, cuja garantia de liberdade associativa obrigou a reescrever­-se a norma interna acadêmica, eis o que foi acrescentado ao caput de referido artigo:

2º O acadêmico que renunciar […] terá seu nome excluído de todos os registros da Academia, passando a figurar como período de vacância aquele em que pertenceu à Instituição.

§ 3º Verificada a hipótese prevista neste artigo, será considerado antecessor do novo acadêmico eleito o antecessor imediato do que houver renunciado.

Decreta-­se nesses parágrafos a sentença de morte do acadêmico, medida decerto copiada dos regulamentos militares, pois só nos quartéis se encontrará paralelo a tamanho rigor, quando alguém é expulso de suas fileiras.

Observe­-se que, para melhor análise, estamos distinguindo e separando o ato do fato: a renúncia e a causa da renúncia. A renúncia foi uma demonstração livre, consciente e voluntária de estoicismo suicida. Mas, para Nascimento Morais Filho, foi a pena de prisão perpétua para garantir a própria liberdade. Essa, a causa remota de sua drástica decisão. Ele disse em um de seus livros:

Liberdade

foi o que a natureza programou para o meu ser:

— a ordem

a que obedecem as minhas células.

E mais adiante:

limpei com o povo

a minha consciência!

de povo

tonifiquei meu ser!

agora, canto:

— liberdade! liberdade! liberdade!

Não importando esmiuçar­-se nenhuma causa remota da ruptura de meu antecessor com a Academia, transpareça, ao invés, a motivação imediata que lhe acendeu razões para isso: o capricho por assegurar à velha Confraria a essência de sua pureza genética. Que o sacrifício de José do Nascimento Morais Filho assim seja visto e assim se guarde como lição pelos tempos a vir. A esta centenária Oficina convergem homens e mulheres que, bem ou mal, forcejam, sobre tudo e primeiro que tudo, pela expressão artística através da escritura. Mais que simples diferença específica no quadro genérico dos que malham a palavra na forja de seu labor cotidiano, é esse o seu apanágio supremo. Elevando-­se a tal plano a vigilância dos guardiães desse templo, não há confundir­-se zelo com prurido, ou escrúpulo com teimosia. A pedagogia dessa cláusula pétrea foi legado e é cobrança deixada pelos Doze Fundadores, conforme deduzimos pelo exemplo de Antônio Lobo, no relato de Carlos Gaspar, já mencionado.

Mas não foi sem exercitações antecedentes que a trajetória de Nascimento Morais Filho culminou com a sua morte neossocrático-­acadêmica nesta outra velha Atenas. “Eu sou um lutador”. A frase tantas vezes repetida por seu ilustre pai e que até ontem líamos colada ao busto daquele grande jornalista, na praça do Panteon, a seu filho também é repassada, através da bagagem cromossômica, como súmula de sua agitada biografia.

José do Nascimento Morais Filho nasceu em São Luís, a 15 de julho de 1922. “Sua forte vocação de agitador de ideias” — eu repito palavras de seu primo Jomar Moraes — “revelou­se muito cedo, quando, na liderança de um grupo de jovens com a participação de figuras consagradas da cultura maranhense, fundou e dirigiu a Centro Cultural Gonçalves Dias, sem dúvida o mais importante movimento cultural de São Luís na década de 40”,20 de que fizeram parte Ferreira Gular, Bandeira Tribuzi, Lago Burnett, Dagmar Desterro, Vera-­Cruz Santana, José Filgueiras, José Bento Nogueira Neves e outros mais.

Fala um de seus colegas daquelas priscas horas, Lago Burnett:

Sempre considerei Zé Morais e Bandeira Tribuzi os polos fundamentais de nossa geração. Morais nos ensinou a cultivar os clássicos; Tribuzi, sem desprezá-los, nos acenou com a viabilidade de novos rumos. Mas ambos tinham, e ainda têm, a visão social do caso literário. Ambos sabiam e sabem que não se faz literatura sem povo, porque, em última instância, é para o povo que a arte se destina e é do povo que ela nos chega, em estado bruto.

A formação desse líder haverá de ter sucedido de forma tumultuária como o correr de seus dias. A exuberância de seu espírito não lhe terá deixado tempo e paciência para a realização de estudos intensivos, sistemáticos e aprofundados em qualquer campo de saber. Em mais de um de seus livros, ele mesmo deixa esculpido o próprio perfil intelectual: “Por natureza, formação e tradição de família: poeta, prosador e professor. / Por acaso: Fiscal de Rendas do Estado do Maranhão” — função que também, “por acaso” fê-­lo encontrar e conhecer o outro Nascimento Morais Filho: o “folquelorista” (sic).

Sua obra versificada compreende: Clamor da hora presente, que, da estreia em 1955, chegou a quatro edições, até 1992; Azulejos, de 1963; e Esfinge do azul, de 1972, com segunda edição em 1996, títulos todos extraídos na capital maranhense. Considerada sob a mira da eternidade, como o deverá ser a partir de agora, e vista em conjunto, será produção que não convida a uma aposta de permanência: é obra de leitor de poesia, criação ao rés da palavra, palavra ao rés do chão, ademais de tributária de intenções que suplantam a realização poética, tais como a retórica do libelo político e a denúncia engajada. Sabe­-se o quanto é difícil escapar a esse ardil, sobretudo nos tempos de juventude, e quando se luta e se labuta em esquinas miseráveis do planeta, onde muitas vezes se pratica a literatura com intenção de tocar fogo no mundo. Mas também é sabido que a poesia comprometida — particularmente a poesia de partido — exige uma sobrecarga inventiva apenas alcançada por raros poetas de alto nível: Castro Alves, Maiakovski, Neruda, Gular. Pois não basta a emoção: é necessário que a emoção seja recolhida em silêncio — lembra­-nos há quase dois séculos o crítico inglês.

Ouçamos, a propósito, uma voz que veio de longe, na qual palavras de entusiasmo e estímulo entremeiam-­se à percepção sincera — sempre respeitosa e amigável — sobre os versos de meu antecessor. Escreve­-lhe da Bélgica Gaston­Henry Aufrère (Carta de 1o de outubro de 1955):

Acabo de receber o seu livro: Clamor da hora presente e muito agradeço ao amigo. Li os seus poemas com muito prazer, porque eu assim sou poeta d’avant­-garde que não fica indiferente ao andar das castas laboriosas do mundo. Saúdo no meu amigo um jovem poeta do povo, um desta falange dos escritores progressistas que têm a coragem de suas ideias e escreve a sua mensagem em nome do povo e dos trabalhadores, espoliados pelos capitalistas.

[…].

Talvez a poesia de meu amigo não tenha sempre o voo sublime que convém. Não importa! O que conta é a ideia!

E noutro lugar, depois de afirmar que o nosso Zé Morais levanta o seu Clamor “em trombeta épica”: “Quando a poesia de Morais Filho estiver purificada de algumas banalidades e lugares comuns, haverá de estar no nível da de um Maiakovski e de um Ritsos, e o Brasil terá um grande poeta”.21

Podemos adivinhar o que responderia o destinatário de tal mensagem a seu correspondente e a todos os demais leitores: “Prefiro ser o último, sendo eu, a querer ser o primeiro, sendo outro” — é esse um de seus Pensamentos, colhido em lista do livro Esfinge do azul.

Versos de Nascimento Morais Filho serviram de letra para a música de compositores como Ribamar Fiquene, Antônio Vieira, Lopes Bogeia e José de Ribamar Passos (Chaminé), mistura intersemiótica que certifica, de per si, seu desejo de ser simples e direto, no intuito de alcançar o ouvinte comum, deixando à vista o quanto seus escritos se entendem com a linha da oralidade.

E foi essa preocupação com a oralidade, com auscultar o coração de sua gente e com ele sintonizar­-se, que o levou à cultura popular. São de sua lavra neste campo: Pé de conversa, de 1957, O que é o que é?, de 1972, e Cancioneiro geral do Maranhão, 1º v., de 1976. Seu entusiasmo pelo folclore o fez conceber projetos grandiosos, não realizados: uma Enciclopédia do folquelore (sic) maranhense, umCancioneiro geral do Maranhão, de que saiu, em 1º volume, uma coletânea de nossas quadras poéticas tradicionais, apanhadas de antigos periódicos e da voz do povo, trabalhos que, no tocante à sua terra, ele pretendia corressem em paralelo ao empreendimento de Câmara Cascudo para todo o Brasil.

Sua atividade multifária o fez pesquisador muito a seu modo, sem maiores desvelos metódicos e com a indisciplina própria de seu temperamento. Por seu esforço em procura de papéis velhos do passado maranhense, fez reeditar o livro A metafísica da contabilidade comercial (1986), de Estêvão Rafael de Carvalho, e o jornal O Bentevi (1986), indispensável para quem se dedique a rastrear a história da Balaiada. Muito especialmente, o Maranhão e o Brasil lhe ficarão para sempre devedores por ele haver ressuscitado o nome de Maria Firmina dos Reis, promovendo­-lhe a edição fac-­similar do romance Úrsula e fragmentos de outros escritos da notável escritora conterrânea. Como acontece, compreensivelmente até, com muitos estudiosos que exageram na paixão por seus achados, Nascimento Morais Filho sobrevalorizou o próprio feito. Por sua singularidade e seu pioneirismo, Maria Firmina dos Reis há de constar necessariamente na história da cultura maranhense, na sociologia de nossas ideias, de nossas práticas sociais, e não bem de nossa literatura. “Poetisa medíocre e ficcionista desimportante” — a avaliação é de Jomar Moraes — “Maria Firmina dos Reis não tem, mesmo nos limites da literatura maranhense, a significação que recentemente pretenderam atribuir­-lhe”.22

Mas quem, tendo vivido no Maranhão da década dos 80, desconhece o movimento insistente, resistente e renitente, que foi o Comitê de Defesa da Ilha de São Luís? Difícil inventar iniciativa mais ao gosto de José do Nascimento Morais Filho, de sua opção ideológica, pela qual ele cresceu, sobrepujou-­se de suas humanas proporções, agigantou­-se como paladino da causa ecológica, da qual, àqueles tempos, mal se tinha notícia. O gigante assim constituído vestiu-­se em pele de leão e deitou a sua ira sobre o deserto de nossa indiferença. O poeta arrebatou­-se em fúria de profeta, passou a alimentar­-se de gafanhotos, voltou-­se furibundo contra uma poderosa multinacional e contra o governo que lhe fazia concessões, no mínimo, desnecessárias e descabidas. E não esqueçamos que ainda andava em vigência o governo fechado do Regime Militar. Nada o intimidava. Ele soube arregimentar adeptos, sobretudo entre os mais jovens, atacou, foi contra­-atacado, fez comícios, passeatas, manifestos, bradou aos quatro ventos, bateu às portas dos tribunais e, perdendo, sagrou-­se campeão. Não importa se quase três décadas depois, parecem demasiadas ou infundadas as suas invectivas, se a indústria pesada que ele pesadamente acusava tem ganho até prêmios internacionais por seu cuidado no manejo ambiental em São Luís. Perguntemos: como seriam as coisas, se tão veemente não houvesse sido o seu protesto? Chuvas de ácido sulfúrico não caíram ainda sobre a velha Upaon-­Açu, graças a Deus. Mas o que poderia ter feito uma grande empresa cujo objetivo maior e primeiro que todos é o lucro, e à qual demos tudo ou quase tudo, se o brado de Nascimento Morais Filho não se cristalizasse no tempo e no espaço, levado em eco pela viração que sopra nesta Ilha sobre nossas cabeças e nossas consciências, advertindo­-nos que, também no plano ecológico, o preço da liberdade é a eterna vigilância?

Grande Zé Morais! Que responsabilidade a minha: refazer os laços que rompeste com a tua Casa, Casa da família Morais, de teu pai, de teu irmão, de teu primo, reunir­-te aos teus pares, que tanto ganharão por teu convívio… Reavivar e reviver os teus ideais de liberdade, manter aclamada e acolhida a causa pela qual tanto te empenhaste. De onde estiveres, assiste­-me, dá­-me as forças que tiveste, para que eu também me agigante a mim mesmo e seja fiel a teu compromisso.

Em minha toada de chegança a este recinto lembrei meu pai. Permitam­-me agora que eu a encerre, prestando homenagem à outra pessoa, uma das quais mais quero bem nesta vida. Dona Clarice Pinto Haickel, minha mãe que completa exatamente hoje 80 anos, — idade que não acredito poderei alcançar — e essa é a razão de eu haver escolhido esta data para oficialmente ingressar neste templo sagrado.

A cerimônia desta noite é o presente que um filho deposita jubilosamente nas mãos de sua mãe, porque a ela lhe pertence, todo, inteiro.

Mãe, meu presente para ti, nesse teu aniversário, é a honra e o reconhecimento que homens e mulheres da Academia Maranhense de Letras demonstraram a teu Jotinha por eventuais méritos seus. Méritos, se os tenho, devo-­os ao Deus que me ensinaste a honrar e respeitar e, depois dele, a ti, mais que a ninguém, pois tudo que sou, tudo que alcancei nessa vida, devo a ti. Ao que me ensinaste, ao que me possibilitaste aprender, às cortinas e portas que abriste para que eu pudesse ir, sem jamais me distanciar de teu carinho e de teu amor.

Que presente poderia dar para alguém que fez tudo por mim. Que além de me fazer por amor a um homem, me criou, quase que a sua imagem e semelhança?

Eu cresci, sou grande, mas todo esse meu tamanho é pequeno para conter o amor e a gratidão que tenho por ti, pois de nada adiantaria as oportunidades que meu pai me proporcionou se não viesse junto com elas a tua doçura e a tua bondade.

Poderia continuar aqui falando a noite toda, as mesmas Mil e uma noites em que lias para mim, antes de dormir. Se mais não falo, é porque a emoção não me deixa — e porque emoções oceânicas não cabem no estreito estuário da palavra.

Por fim, mesmo incorrendo em blasfêmia, tenho certeza que meu bom e misericordioso Deus me perdoará por mais isso… “a ti, toda honra e toda a glória, agora e para sempre…”.

 

DISCURSO DE RECEPÇÃO por José Louzeiro

Caros amigos, ilustres confrades desta nossa tão querida Academia Maranhense de Letras, sabiamente conduzida por Lino Moreira, sucessor dos valorosos intelectuais Joaquim Itapary e Jomar Moraes, que tantos e importantes trabalhos já desenvolveram em benefício desta Casa:

Este dia 2 de outubro de 2009 passa a ser, para mim, um dia de extrema importância, pois aqui estou para recepcionar o querido amigo e agora confrade Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel, a quem conheço desde os tempos da revista Guarnicê, aventura bem sucedida de criar em nossa terra, no começo dos anos 80, uma revista que falava de arte, literatura, cinema e cultura, de modo geral.

Mas, antes disso, gostaria de poder dizer-­lhes das recordações que tenho deste lugar. Neste mesmo prédio funcionou a Biblioteca Pública do Estado, e era para cá que eu vinha, aluno do Colégio São Luís, do professor Luís Rego, fazer minhas pesquisas e exercícios de Geografia, que a professora Maria Freitas passava e a que exigia aplicação. Aqui chegando, neste casarão cheio de livros, passei a contar com a ajuda de um funcionário da Casa, que era o poeta Correia da Silva, membro desta Academia, e com quem muito aprendi. Ele era filho de dona Seluta, pessoa admirável, que vivia seus dias a lavar e engomar, mas tirava um deles por semana para fazer as entregas nas casas da sua clientela. Meu pai lavava suas camisas de punhos duplos com ela. Era parte de sua indumentária de diácono da Igreja Presbiteriana, ali na praça da Alegria, cujo pastor titular era Benedito Aguiar.

Ao voltar a esta Academia, senhor presidente, meus ilustres confrades, minhas senhoras e meus senhores, sinto­-me tomado pela emoção. É como se estivesse retornando à minha própria casa, que ficava na Camboa do Mato, onde havia uma fábrica de fiação e tecelagem, que empregava quase todas as pessoas da região, principalmente as mulheres.

Mas hoje minha função não é falar de mim, nem do passado desta cidade que tanto amo, e, sim, receber para nosso convívio um jovem admirável por seu talento, por seu caráter, por seu temperamento franco e alegre. Por sua literatura leve, coloquial e cinematográfica. Homem conhecido por não fugir das polêmicas, por defender suas ideias com unhas e dentes, e por sempre colocar a arte e a cultura de nossa terra em primeiro lugar. Falo de Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel.

Quero primeiramente agradecer ao Joaquim por ele ter me distinguido dentre tantos confrades para saudá-­lo neste dia tão importante. Penso que ele fez isso não apenas por sermos bons amigos, mas também como gesto simbólico, para distinguir especificamente o segmento artístico e literário a que tanto ele quanto eu estamos mais ligados: a literatura voltada para o audiovisual, para a televisão, para o cinema documental e ficcional.

Joaquim Haickel deve ser exaltado por seu talento literário multifacetado, ora como contista, ora como poeta, ora como articulista, e agora, mais recentemente, também como cineasta premiado dentro e fora de nosso país.

Joaquim se destaca em um cenário no qual figuram personagens marcantes de nossas letras e de nossa cultura. Nomes como os de bons cronistas, renomados poetas e pesquisadores obstinados, como é o caso de companheiro Ubiratan Teixeira que, sozinho, fez um dicionário de teatro e de suas personalidades, coisa essa que no Rio seria obra de uma numerosa equipe. E o que é melhor: a edição é primorosa, do Instituto geia que tem publicado obras da maior relevância e alta qualidade gráfica, e conta com a supervisão do nosso também confrade Sebastião Moreira Duarte.

Entre os poetas, que por aqui desenvolvem seus trabalhos, eu ouso mencionar alguns que são de altíssima relevância, como Laura Amélia Damous e Arlete Nogueira da Cruz, Ceres Fernandes, Alex Brasil e mestre Nauro Machado. Há o fertilíssimo Luís Augusto Cassas, Salgado Maranhão, o saudoso Bandeira Tribuzi e o clássico José Chagas, sem nos esquecermos de Roberto Kenard e Celso Borges, parceiros de Joaquim na revista Guarnicê.

Entre os ficcionistas de primeira linha estão José Sarney, com sua obra­prima, Saraminda, Ivan Sarney, com o inesquecível Chapéu de couro e palha, e o jovem José Ewerton Neto, conquistador de prêmios. Entre os pesquisadores temos que lembrar Jomar Moraes e Lino Raposo Moreira, responsáveis pela bem cuidada 3ª edição do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, de César Augusto Marques. Jomar elaborou o trabalho crítico, numa belíssima edição, Lino incumbiu­-se do índice remissivo da importante obra.

Outros renomados estudiosos da nossa História são Carlos Gaspar, Mílson Coutinho e o admirável historiador que é Carlos de Lima.

Se os nossos escritores são ignorados pelos críticos do sul do país, azar deles, dos críticos, pois isso significa, além de preconceito, limitação cultural e, por que não dizer, mental.

Esta nossa cidade continua a ser um celeiro de pensadores e grandes mestres da arte de escrever. E entre os expoentes da nova geração de intelectuais, é para mim prazeroso aqui estar para falar de um dos mais expressivos deles: Joaquim Haickel, agora membro desta Academia.

Conheci Joaquim Haickel na lide das letras e da cultura, na época do Guarnicê, mas foi Ivan Sarney quem nos aproximou ainda mais, através de nossa paixão comum, o cinema. Queríamos implantar em São Luís um polo de cinema e, reunidos, numa dessas noites agradáveis, na casa de um amigo, lançamos a ideia, que não vingou.

Mas, sendo Joaquim Haickel um transformador de sonhos em realidade, jamais tirou de mira a intenção de criar um polo de cinema nesta nossa querida cidade.

Eu vinha de maravilhosas experiências no cinema. Havia feito os roteiros cinematográficos de Lúcio Flávio, o passageiro da agonia e Infância dos mortos, que resultou no filme Pixote, ambos baseados em romances de minha autoria e dirigidos no cinema pelo argentino Hector Babenco.

Ivan já havia feito repetidas experiências com o saudoso Super­8 e Haickel era apenas um cinéfilo de primeira linha. Já vira quase todos os filmes exibidos no país.

Nosso novo confrade é o primeiro filho de Clarice e Nagib Haickel e nasceu no dia 13 de dezembro de 1959. Sonhador, romântico, aventureiro, apaixonado, corajoso, honrado. Devotado a dois verbos essenciais: pensar e fazer.

Joaquim nasceu em uma época de muita efervescência. Uma época que deu seus frutos no que viria a se constituir na maravilhosa geração dos anos 60 e 70, com sua rebeldia, seu culto à juventude, a opção pela imagem. Foi quando a televisão, recém-­chegada nesta capital, tomou de assalto os lares e as noites dos ludovicenses. Joaquim é, em sentido próprio, o primeiro daquela geração a renovar as forças criativas desta instituição.

O novo acadêmico estudou nos colégios Pituchinha, Batista e Dom Bosco. Formou­-se em Direito pela Universidade Federal do Maranhão.

Seu primeiro livro, escrito entre 1975 e 76, só foi lançado em 1980. Intitula­-se Confissões de uma caneta, contos premiados no concurso Cidade de São Luís.

Em 1981, lançou O quinto cavaleiro, poemas. Em 1982, premiado no concurso Secma/Sioge/Civilização Brasileira, lançou o livro de contos Garrafa de ilusões. Também em 82, Joa quim Haickel e Celso Borges, coadjuvados por Roberto Ke nard, Ivan Sarney, Ronaldo Braga e pelo irmão caçula de Joaquim, Nagibinho, produziram e apresentaram o programa Em Tempo de Guarnicê, levado ao ar todas as terças-­feiras pela então jovem Mirante fm. Foi um programa pioneiro e de sucesso que falava de literatura, arte, cultura e tocava a música feita, com muita competência, no Maranhão. Esse programa de rádio foi o embrião do que viria ser, logo em seguida, a mais importante revista cultural maranhense daquele tempo.

Manuscritos, seu segundo livro de poemas, quarto até então, foi lançado em 1983, quando também ele começou a editar a revista Guarnicê, que foi publicada até 1986.

Gostaria de ler para vocês quatro dos poemas feitos por Joaquim nessa época, textos que, para alguns, são na verdade minicontos, e que acredito estarem entre os melhores, não só entre os de sua lavra, mas de seu tempo:

CARRACA

Quando se tira

mais do que se põe

o poema vira escultura.

SER MENINO

Arriar o calção

e mijar o mundo.

PADRE-NOSSO

No lugar onde nasci, o padre, três horinhas, saía pela sacristia

e cruzava a Praça Cursino Rabelo

— nome do avô do ex-prefeito.

Toalha branca no pescoço, saboneteira na mão, quixotesco, ia

banhar-se na casa da viúva Sibá

— dona da padaria.

Seis horas, já banhado e paramentado, rezava a Missa: Em

nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…

“amante”.

AMBULANTE

Maria Rita armava barraca na mureta da

Praça Benedito Leite e vendia: doistão de

pernas grossas; duas coxas macias, ancas

graciosas e luzidias como as da égua Esmeralda,

caso de amor de seu Dico.

Cintura de umbigo tufado — culpa da parteira

dona Maria José do Bom Parto.

Peitos ainda durinhos, mas já querendo

murchar de tanto freguês apalpar.

Pescoço de bailarina, cabelos de espanhola, olhos de moça-

-virgem e andar de brincar ganzola.

Maria Rita armava barraca e vendia…

Em 1984, Joaquim e seus comparsas lançaram a Antologia poética Guarnicê. Em 1985, a Antologia erótica Guarnicê. Em 86, o livro de contos Clara cor de rosa. Depois de uma pausa editorial, em 89, ele reúne poemas em Saltério de três cordas, juntamente com Rossine Correia e Pedro Braga dos Santos.

Mas foi só em 1990, segundo o próprio Haickel, que amadureceu o seu primeiro livro (“os outros haviam sido apenas ensaios do que viria”): coletânea de contos lançada pela Editora Global, A ponte, foi bem recebida por Artur da Távola e Nelson Werneck Sodré, a quem presenteei um exemplar do livro de Joaquim. Nelson reconheceu nele o talento inato dos bons contadores de história, como disse em carta endereçada a Joaquim. A Artur, que seria colega de Joaquim na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, coube prefaciar A ponte. Lá ele diz:

Joaquim Haickel é um facundo. Na vida como na literatura. Raros escritores são, na arte, o que na vida são. E sua facúndia existencial estica-se para a literatura. É um célere, um devorador… A mistura de velho árabe sábio com garoto levado, que lhe marca a tipologia e o temperamento, aparece nos contos… Sua literatura imita-lhe a vida. E sua vida (ah! que alívio) é venturosa. Sim, enfim, senhores, eis que surgiu alguém naturalmente feliz e que do fundo da alegria de viver é capaz de encontrar a tragicidade, o espanto, a parada sensível. E assim como se atira a viver, sem tréguas, lamúrias ou timidez, vai criando e devorando vivências e personagens com apetite invejável.

No posfácio de A ponte, Rossine Correia mostra mais uma vez o Joaquim inventor de realidades tão verossímeis, que são capazes de enganar até os mais argutos:

Quanto a mim, viciado em leitura a ponto de já haver sofrido a acusação de gostar mais dos livros do que dos homens, nem sempre descobri o caminho da fonte, quiçá por amor a muitos deles, chegando a ser logrado pelo autor de A ponte. Acontece que lera um conto sobre a Coluna Prestes, narrado por um certo Tério Tino, testemunha ocular daquela aventura. Encontrando o escritor em uma manhã de sol tropical, entre ladeiras e sobrados, lhe perguntei como e onde poderia entrevistar o tal personagem, que ele, em uma nota de pé de página, dissera estar vivo, com 70 anos, num asilo de mendicidade em São Luís. Como eu poderia perder a oportunidade de conhecer um herói popular, vivo e mendigo, relacionado à Coluna Prestes? Percebendo que eu, um historiador, confundira totalmente as fronteiras da verdade e da fantasia, Joaquim Haickel explodiu em uma gargalhada…

Passando ao campo da cinematografia, Joaquim produziu o filme The best friend, O amigão, que conquistou os prêmios de melhor filme do júri popular, e melhor filme de cineasta maranhense do júri oficial, no Festival Guarnicê de Cinema e Vídeo, realizado pela Universidade Federal do Maranhão em 1984. Naquele mesmo ano, participou de um concurso de roteiros para cinema, promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da ufma, no qual mereceu menção honrosa. Mas, para ele, o mais importante daquele evento foi o comentário de um dos jurados, José Chagas, hoje seu confrade, que confessava não estar preparado para ler um roteiro apresentado da forma técnica como aquele fora apresentado. Chagas disse mais: tinha certeza que ali havia uma história com potencial incrível para ser contada em forma de filme. É que Joaquim havia comprado um livro de Doc Comparato sobre como fazer roteiro para cinema e televisão e preparou a adaptação de um conto seu, com roteiro técnico, marcação de câmera, iluminação e sequência, não se atendo apenas ao argumento literário e à sinopse cinematográfica. Tratava-­se de A Vingança, que está em seu livro Garrafa das ilusões. Joaquim tentou realizar o respectivo filme, mas não o conseguiu, por dificuldades técnicas e porque, naquela época, não havia no Maranhão uma atriz com desprendimento e desnudamento bastantes para desempenhar determinado papel desprovida de qualquer pano.

Mas Joaquim é incansável: descansa carregando piano. Dorme com um olho aberto, para não perder o momento que passa.

Em 2003, na comemoração dos vinte anos da revista Guar nicê, a Clara Editora e as Edições Guarnicê publicaram o Almanaque Guarnicê, espécie de ensaio-­entrevista­-reportagem, a cargo de Félix Alberto Lima, na qual vem narrada a trajetória do semanário e de seus idealizadores. Também em parceria com a Clara Editora, Joaquim lançou naquela ocasião uma coletânea de seus melhores artigos publicados no site Clara on Line.

E como já está demonstrado que a sua invenção através da imagem cinematográfica está associada às artes de sua criação literária, façamos a passagem de um terreno para outro, com o que lançaremos mais luzes sobre o perfil multifário de Joaquim Haickel.

A modo de aperitivo, assinalemos que o inquieto e indisciplinado Joaquim valeu-­se da ajuda de diversos amigos para fazer em Paço do Lumiar, em 2008, o curta­-metragem Padre Nosso, de 58 segundos, baseado em um poema de sua autoria.

Curiosa traquinagem, porém, foi a do primogênito de Nagib Haickel, a qual culminou com a realização, também em 2008, de um antigo sonho seu: roteirizar, produzir e dirigir um filme, baseado no conto Pelo Ouvido, por ele escrito nos anos 80 e publicado em seu livro A ponte. Esse conto foi dado a público pela primeira vez de modo insólito e singular, como não raro ocorre com fatos e façanhas da história pessoal desse habilidoso carcamano Haickel.

Contemos o fato pela palavra de Félix Alberto Lima:

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu veio a São Luís ministrar uma oficina de conto para jovens poetas, escritores, jornalistas e universitários maranhenses. Organizado por Teresa Nascimento e Telma Rego, o evento contou com a participação de Antônio Carlos Alvim, Raimundo Garrone, Wilson Marques, Paulo Melo Sousa, Luís Inácio, Moisés Matias e Marilda Mascarenhas, entre outros.

Uma semana de exercícios literários e leitura de textos de Machado de Assis, Lígia Fagundes Teles, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, etc. Cada dia um conto indicado por alguém da oficina, com uma posterior rodada de comentários.

No penúltimo dia do curso, Joaquim Haickel sugeriu a leitura em grupo do conto Pelo Ouvido, de David Linch, o diretor e roteirista norte­-americano. Lido o conto na oficina, a maioria do grupo — inclusive o próprio Caio Fernando Abreu — reconheceu, escancaradamente, traços cinematográficos que ligavam o texto a experiências anteriores do soturno diretor de Veludo azul, Coração selvagem e Twin peaks. O conto, ambientado em Georgetown, bairro de Washington, tem como personagens Churck e Kate.

No dia seguinte, o constrangimento foi geral. Soube­-se que o conto Pelo Ouvido era de Joaquim Haickel, e não de David Linch.

Transmudado para o código da imagem em movimento, Pelo Ouvido foi selecionado para mais de 120 festivais de cinema, no Brasil e no exterior. Mencionemos alguns: o 12º Los Angeles Latino International Film Festival, o 34º Festival de Cine Ibero­americano de Huelva, o Festival des Films du Monde, do Canadá, o Festival International du Film d’Amour da Bélgica, o European Independent Film Festival 2009, o Festival Internacional de Filme Independente de Hamburgo, o 30º Festival Internacional del Nuevo Cine Latino­americano de Cuba, o 3º New Beijing International Movie Week.

Quanto a prêmios, em específico, Pelo Ouvido ganhou nada menos que doze até agora, entre eles o de melhor filme, no 17º Concurso Iberoamericano de Cortometrajes de Cartagena, na Colômbia; o de melhor diretor, no Boston International Film Festival, nos Estados Unidos; o prêmio especial do júri, na Mostra de Cinema Latino-americà de Catalunya, na Espanha.

É que, ao ser transposto para o cinema, o relato de Pelo Ouvido ganhou vida e se transformou numa peça de rara profundidade psicológica, sem falar nas qualidades técnicas que o trabalho, em imagens e sons, alcançou.

Se Joaquim quisesse fazer um longa-­metragem, era só estender um pouco a magnífica atuação do talentoso casal de atores Eucir Sousa e Amanda Acosta. Bastaria aliviar a mão pesada e crítica de contista-­roteirista e deixar no corpo do filme o que acabou por figurar apenas no making-of constante do respectivo dvd.

Nesse trabalho de Haickel, o que surpreende é a sutileza com que ele trabalha a relação da jovem executiva de vendas, saudável e bonita, com o marido escultor e poeta, surdo e cego, que lhe tem amor intenso e é correspondido. Mas, para que a relação seja perfeita, ela tem que escutar as cantadas que outro obstinado admirador lhe passa, de que ela gosta e a que dá corda, sem jamais se encontrar com ele. Em certo momento, estando na cama, esculpida pelas mãos suaves e sequiosas do marido, ela telefona para o admirador e se relaciona com o seu parceiro real, ouvindo as palavras do amante virtual como se fossem as do amado presente. O momento é tocante, a invenção extraordinária: numa história de amor em que nada parecia haver de inovador, Joaquim Haickel consegue dar a volta por cima, descobrindo um caminho novo, admiravelmente inusitado. A fala do amante invisível orienta a mulher para melhor relacionar­-se com o marido, em sua sepultura viva de eterno silêncio.

É simplesmente genial. Posso dizer que Joaquim Haickel é artista dotado de grande capacidade de avaliação dos sentimentos humanos, e eu aqui estou para recebê­lo também como ficcionista, como um senhor inventor de histórias, de estilo enxuto, de linguagem cuidadosa e esmerada.

Mas não para nisso a ansiedade inventiva do guerrilheiro palestino que a partir de agora arma sua partida no oásis de nosso convívio. Joaquim tem projetos literários engatilhados: lançará até o final de novembro deste ano o livro Dito & feito, seleção das crônicas que tem publicado aos domingos no jornal O Estado do Maranhão, nos últimos quinze anos.

Para 2010, quando completará trinta anos do lançamento do seu primeiro livro, Joaquim pretende nos presentear com uma obra incomum. Chamar­-se-­á Múltiplo de quatro e reunirá o melhor de sua produção. Serão contos, poemas, crônicas, roteiros de cinema, discursos proferidos na Assembleia Legislativa do Maranhão, entrevistas, fotografias.

Em 2011, preparemo-­nos para a leitura de alguns de seus discursos políticos em A palavra quando acesa (o título é uma homenagem ao poeta José Chagas, de quem o tomou emprestado). Para 2012, antes de o mundo acabar, teremos o que, segundo o próprio autor, será sua obra definitiva, e na qual Joaquim Haickel falará de sua maior paixão, o cinema. Refiro-­me a 365 filmes para não precisar de psicanálise, que Joaquim começou a escrever a mais de dez anos, reunindo comentários de películas a que assistiu. Não será simplesmente uma lista dos melhores filmes, segundo a opinião do autor, mas sua apreciação quanto a filmes que o ajudaram a formar seu cabedal de instrução e cultura, e ainda serviram para que ele consolidasse seu código moral e, sobretudo, para que ele não precisasse recorrer a qualquer dos seguidores de Freud, Jung ou Lacan.

Joaquim costuma dizer que se sente uma espécie de filho de Alexandre Dumas, pois se identifica profundamente com as personagens, as histórias e os sentimentos de honra e lealdade emanados do universo literário do grande folhetinista francês.

Certa vez, a uma pergunta sobre seu livro de cabeceira, Joaquim respondeu que eram dois livros que falavam de príncipes. Pela ascendência árabe do entrevistado, o entrevistador imaginou que um desses livros deveria ser As mil e uma noites, mas Joaquim respondeu­-lhe que os dois títulos eram O príncipe e O pequeno príncipe, “principalmente” — ele completou — “por causa do capítulo xvii do livro de Nicolau, que discute o que seria melhor que fossemos, amados ou temidos, e por aquela conhecida frase do livro de Antoine que nos faz lembrar para sempre que somos eternamente responsáveis por quem cativamos”.

Cabe ainda registrar aqui que o novo confrade da Cadeira Nº 37 é desportista e grande incentivador dos esportes como forma de inserção social. Ele foi vice-­presidente da Confederação Brasileira de Tênis e da Associação Desportiva Mirante, além de ter conquistado, pessoalmente, diversos títulos em modalidades como tênis, vôlei e basquete.

Projetos de responsabilidade social a encargo de Joaquim têm sido desenvolvidos pelo Instituto de Cidadania Empresarial do Maranhão — ice, de que é membro-­fundador. Mas seu empreendimento mais obstinado consiste em consolidar a Fundação Nagib Haickel, entidade sem fins lucrativos, que pretende acionar uma rede de televisão educativa via satélite voltada para o ensino formal e para a difusão cultural, a qual contará com duas geradoras de tv, uma em São Luís e outra em Imperatriz. A mesma Fundação também implantará, em breve, o Museu da Memória Audiovisual do Maranhão — mavam, incumbido de preservar a memória de nossa gente e de nossa terra por meios audiovisuais. Para tanto, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional já está restaurando, com recursos da União, conseguidos pelo deputado Joaquim Nagib Haickel junto à bancada federal maranhense, um prédio, doado por ele, onde funcionava uma das empresas de seu pai e onde funcionará o Museu.

Observem bem como se movimenta este dínamo­-gente que leva o nome de Joaquim Haickel. Trabalhando com as mãos e com o espírito, imbuído da paciência dos beduínos na aridez do deserto, ele lutou, sofreu, resistiu, até chegar à implantação do magnífico projeto que vai acabar realizando o nosso velho sonho do polo de cinema de São Luís, desenvolvendo-­o em torno do Museu.

Falei há pouco que Joaquim Haickel representa bem a geração da imagem viva que, em nosso meio, se difundiu a contar da segunda metade dos anos 60. Outros fatores, no entanto, explicam-­lhe a preferência pelo movimento, alimentada pelo caleidoscópio de talentos que é a sua personalidade em ação.

Joaquim diz que, disléxico, foi salvo por sua professora particular, Terezinha, escolhida cuidadosamente por dona Clarice. Era uma jovem dedicada e delicada, talvez fosse capaz de lidar com o temperamento elétrico do filho de Nagibão, tido por todos como desassossegado por demais. A mestra notara que seu aluno obtinha melhor aproveitamento nos estudos quando ela se punha ao seu lado em condições de igualdade nas tarefas escolares, fazendo-­o superar as dificuldades de leitura e o déficit de atenção, lendo para ele e com ele os livros ilustrados da biblioteca doméstica, despertando-­lhe, por essa maneira, a curiosidade e a aventura do saber.

A esse primeiro influxo educativo, some­-se o exemplo de seu tio postiço, Stênio, irmão de mãe Tetê e mãe Loló, um incomparável pedagogo que, invariavelmente, todos os sábados e domingos, levava o futuro cineasta e seu irmão ao cinema. Pode-­se dizer que o que mais aprendeu Joaquim foi de tanto ouvir e tanto ver.

Fiz antes, também, rápida menção ao deputado Joaquim Haickel. Foi outra aprendizagem, por osmose ou simbiose. O acadêmico de hoje relembra que, menino, adorava ficar ouvindo as conversas dos mais velhos. Participava, assim, desde pequeno, da vida política e empresarial de seu pai, em meio a políticos do interior do Estado e a empresários da capital. Vez por outra, o velho Nagib tinha que arregalar os olhos na direção do filho, código cujo significado era “te sossega, rapaz!”. Muitas vezes o gesto não adiantava de nada e o pai tinha que recorrer a dona Clarice: — Mãe, chama Joaquim, que ele já está aqui ouvindo conversa de gente grande.

Dividido entre os estudos e a diversão, aquele rapaz só veio a trabalhar em 1978, quando passou a assessor na Assembleia Legislativa, onde seu pai era deputado estadual. Naquele ano participou decisivamente da campanha eleitoral. No ano seguinte iria morar em Brasília, já seduzido pelo Parlamento, ao qual servia seu pai, então deputado federal. De volta a São Luís, passou a ser oficial de gabinete do então governador João Castelo. Recebia os políticos com atenção e cortesia, tratava a todos com simpatia e deferência. Mas, certo dia, cansado de apenas abrir portas, pediu para trabalhar com o chefe da Casa Civil, José Burnett, político experiente de quem se tornou aprendiz.

Assim foi e foi. Joaquim procurou aprender com os melhores: primeiro que todos, seu pai, que não conseguiu transferir-­lhe o jeito “caboclo” de ser, mas que, pelo contágio e pelo exemplo, lhe entregou algumas das principais ferramentas da vida — lealdade, honradez, coerência, simplicidade — e alguns de seus maiores defeitos — ansiedade e desassossego; com seu tio Zé Antônio, exemplo do que um prefeito deveria fazer e de como um deputado jamais poderia agir; com Clodomir Milet, um lorde, discreto, culto; com José Burnett, quase cego dos olhos, mas com privilegiadíssima visão política; com Ivar Saldanha, um pragmático convicto; com Pedro Neiva de Santana e Haroldo Tavares, tio e pai de sua namorada de então: o primeiro, senhor de uma elegância e de uma ironia tão bem engomada quanto seus ternos de linho tropical; o outro, um gênio planejador, magnífico sonhador; com Nunes Freire, a rudeza doce e honesta; com Castelo, presença e energia; com Alexandre Costa, leal tenacidade; com Lobão, conciliador, diplomático; e, fora de série, com José Sarney, a quem sempre cuidou de observar e analisar milimetricamente, na tentativa de aprender com ele tudo o que fosse política ou com política se relacionasse, tudo o que nela se deveria fazer e principalmente deixar de fazer.

Apoiado na popularidade que o pai deputado esbanjava por todo o Maranhão, Joaquim Haickel elegeu-­se para a Assembleia Legislativa estadual em 1982, o mais jovem em todo Brasil naquela legislatura. Eleito em seguida deputado federal Constituinte em 1986, foi relator da Comissão de Direitos e Garantias Individuais, responsável, entre outros encargos, pela apreciação do projeto que visava instituir a pena de morte no Brasil. Seu parecer, vencedor, posicionava-­se contrário ao projeto do notório deputado Amaral Neto. Foi em uma audiência pública naquela comissão que nos reencontramos. Joaquim que tinha apenas 27 anos, e já convivia com Ulisses Guimarães, Afonso Arinos, Roberto Campos, Florestan Fernandes, Nelson Jobim, José Serra, Delfim Neto, Artur da Távola, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, para citar alguns nomes.

Acrescentemos, como detalhe, o instrumento inovador de que Joaquim lançou mão, para convencer os seus pares quanto à inconveniência da pena de morte na legislação brasileira. Consciente de viver em tempos nos quais uma imagem vale por mil palavras, ele fez uma edição resumida do filme O caso dos irmãos Naves, famoso erro judicial de Minas Gerais, apresentou­-o à Comissão que votaria o tal indesejado projeto, e esperou o resultado. Sua tese prevaleceu sem maiores percalços.

Proveniente de emenda aglutinadora do relator da comissão de sistematização, pois vários constituintes apresentaram projeto semelhante, é também da autoria de Joaquim, a frase que abre diariamente os trabalhos nas duas casas do Congresso Nacional: “Sob a proteção de Deus e em nome do povo brasileiro, declaro aberta essa sessão”.

Por indicação de Ulisses Guimarães, o congressista maranhense representou a Câmara dos Deputados no Congresso Americano de Jovens Líderes Mundiais, de 1987, juntamente com Aécio Neves, Henrique Eduardo Alves e César Cals Neto, e em viagem diplomática à China, em 1988. Ao fim desse mandato, não se candidatou a nenhum cargo eletivo, mas foi convidado pelo então governador Edison Lobão para secretariá­-lo na pasta de Assuntos Políticos, a mesma em que, mais de uma década antes, fora aprendiz de Burnet. Depois, foi para Secretaria de Educação. Afastou­-se dos cargos públicos de 94 até 98 para dedicar­-se às suas empresas de radiodifusão: fm e tv Maranhão Central, espalhadas por mais de 50 cidades do Estado. Naquela época plantou a semente do que viria a ser a Fund ação Nagib Haickel.

Em 1998, candidatou-­se e elegeu­-se o deputado estadual mais votado do seu partido, mas, daquela vez não pôde contar com a preciosa ajuda de seu pai, que falecera no dia 7 de setembro de 1993, como presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão.

Joaquim é detentor da medalha Manuel Bequimão da Assembleia Legislativa do Maranhão, da medalha do Mérito Timbira do Governo do Maranhão, e da medalha Barão de Mauá, do Ministério dos Transportes. Cidadão honorário dos municípios de Pindaré­-Mirim, Santa Inês, Itapecuru­-Mirim, São Domingos do Maranhão, São Benedito do Rio Preto, Vitorino Freire, seu currículo se enriquece também com a Cadeira Nº 9 da Academia Imperatrizense de Letras, para a qual foi eleito em 2006, tendo como patrono o eminente Tucídides Barbosa e fundador e único ocupante, até então, o professor, escritor e humanista Vito Milesi.

O Poder Legislativo do Maranhão continua a contar com Joaquim Nagib Haickel como representante de sua gente. Lá ele tem exercido cargos dos mais importantes, como o de primeiro secretário da Casa e membro efetivo da Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final.

Em 2008, apresentou e fez aprovar, na Assembleia Legislativa, um projeto de resolução que institui no Maranhão, a exemplo do que há em outros Estados, um prêmio de incentivo ao cinema maranhense.

Declaradamente apaixonado por sua bela Jacira, o que não esconde de ninguém, ele não para, e continua fazendo planos para amanhã, sem deixar de realizar hoje aqueles que foram projetados ontem.

Quando lhe perguntei sobre qual seria sua obra mais importante e em qual das vertentes de sua vida mais se sentia realizado, ele me respondeu: “Minha melhor e mais bela obra é minha filha Laila. O melhor Joaquim Haickel é a pessoa, o amigo: é aí onde eu mais me realizo, é daí que provém tudo que sou e que faço”.

Na última vez em que estivemos juntos no Rio de Janeiro, onde Joaquim foi apresentar o seu filme Pelo ouvido em um importante festival de cinema, ele estava com as mãos sobre a mesa, e Selton, filho do Serginho — que hoje é as minhas pernas — lhe perguntou o que significavam aquela tatuagem em seu antebraço esquerdo. Joaquim sorriu e disse para o menino que, como ele é extremamente hiperativo, que era um poema. Selton arregalou os olhos: — Como assim!? Aí só tem sinais! Pois bem, depois que ele traduziu para mim e para o Selton aquele intrincado código contendo 22 símbolos gráficos — tendo que esmiuçá­-lo para mim, pois pouco ou nada eu pude ver em seu braço, já que estou ruim das vistas — depois que ele explicou o que estava escrito ali, nessa hora eu soube como melhor definir Joaquim Haickel, e tenho certeza que vocês concordarão comigo, depois que ouvirem o que está tatuado em seu braço, e que passo a ler agora:

*,;.:…!?§&@1#>=$%+×≠±∞

Chame atenção. Faça uma pausa. A entonação demonstra sua intenção, seu pensamento, seu sentimento. Depois, uma pausa maior, que puxe outra ideia ou relacione duas. Agora uma pausa ainda maior. Uma parada. Cite, exemplifique. Faça suspense, insinue… Surpreenda. Pergunte. Depois, mude de assunto — isso sempre funciona. Valorize os coadjuvantes: eles são mais importantes & necessários do que parecem. Comunique-se. Não se esqueça dos números: eles são indispensáveis. Nem das equações: nada funciona sem elas. Maior? É sempre igual a valor! O contrário nem sempre é verdadeiro. Não se esqueça. Todo inteiro é feito de partes. Adicione! Multiplique! Fazer a diferença é mais ou menos feito… O Infinito.

Esse é verdadeiramente o Joaquim Haickel a quem hoje recebemos como membro desta Casa — e a quem, para tomar posse do que lhe pertence por todos os méritos, aplicamos o maior castigo: “nunca antes nem depois neste país”, nós o vimos, ou veremos calado e quieto por tanto tempo… E sem o celular ao ouvido.

E eu que, por falar muito, sou o causador disso, proclamo-­o, depois de tudo, o mais novo herói de nossa comunidade…

 

 

Textos Escolhidos

AS PROVAS DO MÚLTIPLO

Quando, a 2 de outubro de 2009, Joaquim Haickel tomou posse na Academia Maranhense de Letras, José Louzeiro, que o recebia, não se limitou a fazer-lhe a resenha da obra realizada, mas surpreendeu a audiência ao revelar os planos de trabalho futuro do confrade: tornou-se público o compromisso, com firma reconhecida em cartório o mais apropriado, de que, já em 2010, na celebração dos trinta anos do lançamento de seu primeiro livro, Joaquim Haickel presentearia seus leitores com nova publicação – reunindo contos, crônicas, poemas, falas em voz alta, roteiros para cinema, penséesdetachées,entrevistas, fotografias, histórias em quadrinhos… – na qual o formato insólito deveria ajustar-se ao campo vasto do conteúdo, a numeração das páginas partindo de cada capa para se encontrar no meio do livro, tipos, cores e desenhos diversificados marcando o começo de cada segmento, etc.Seria a mostra, com textos inéditos, do que o Autor produzira sob diferentes meios de expressão, ao longo do tempo.

Nem tudo cumprido como programado, aquele plano se implementa neste agora, quando sua cidade completa 400 anos. Por essa circunstância,será visto como encerrando o percurso de três décadas passadas e abrindo novo horizonte às promessas do jovem acadêmico para os próximos trinta anos.

Aconteceu, então, que, por demais confiado em qualificações que o escrevente destas linhas tem por de menos, o projetista da obra entregou-lhe numeroso e variado material para a preparação dos originais. A bem considerar, porém, este amanuense mais não fez que passear osolhos sobre as páginas por ele compostas, delas extraindo deleites de primeiro leitor. Emretribuiçãopela deferência, apenas contribuiu com alguma proposta no ordenamento dos textos e na disposição das partes.

Segundo a profecia de José Louzeiro, intitular-se-ia Múltiplo de quatro este novo produto da esfuziante criatividade de Joaquim Haickel. Mas os leitores e leitoras concordarão que aqui não estão quatro composições, nem mesmo uma partitura em quatro movimentos.Temos, na verdade, um livro-rio, que recebe afluentes de águas diversas e curso distinto, a correr livre pelo estuário da forma artística. É um livro comemorativo – e essa é a marca que diversifica, unifica e justifica o conjunto. Sua diferença em relação a coletâneas do gênero está em que o Autor não bateu o mofo de odres velhos para neles deposita rvinho novo. Evitando requentar edições antigas, revisitou a memória para reinventar outro registro dos próprios feitos, créditos e débitos de sua formação multifária, a marca atávica de suas origens carcamanas, suas ações, emoções e decepções, a saudade que recolheu por onde passou, a gratidão que distribui por onde anda,sua aversão ao solene, a solidez de sua alegria e a leveza de sua ironia, marcas mais destacáveis de sua inteligência irrequieta. Joaquim Haickel é jocoso e espontâneo,sem deixar de ser sério e sincero, consciente, a um só tempo, da força destroçadora do humor, e da ineficácia – ética e política, inclusive – que subjaz a toda pretensão demolidora que se apresente de cara fechada e rancorosa. Ele lembraria, com o herético-ortodoxo Chesterton, que há muita seriedade em ser engraçado.

Juntam-se, assim, neste volume as provas do criador múltiplo, de que já falamos em outro rincão de sua obra. Não hesitando em mostrar-se por inteiro – e daí, por certo, a coerente corpulênciadeste livro – Joaquim Haickel nada deseja esconder a seus novos leitores, a quem parece dizer: “Conheçam-me”, e a seus velhos amigos, a quem reafirma: “Reconheçam-me”.

A poética do filho de Nagib Haickel se manifesta numa variedade de gêneros que leva a recarregar lembranças de seu pai – o Nagibão inesquecível ao afeto dos maranhenses –e a originalidade de sua Meruoca, o armazém sem portas dos anos 70, em São Luís do Maranhão, aberto 24 horas, e no qual nada faltava ao gosto dos fregueses. Em traço simétrico, abre-se aqui a Meruoca artística de Joaquim Haickel, bazar de profusão semiótica, páginas em convite aberto à pluralidade de apetites de seus leitores: “Sirvam-se, irmãos!”

 

São Luís do Maranhão, março de 2012

Sebastião Moreira Duarte

 

O MÚLTIPLO JOAQUIM HAICKEL

Apraz-me bastante, verdadeiramente bastante me apraz lançar algumas palavras acerca desse mundaréu de palavras que meu confrade e prezado amigo Joaquim Haickel reuniu sob o título abrangente de Contos, Crônicas, Poemas& Outras Palavras, a maior parte delas, postas a cumprirem seu papel expressional sem outro auxílio que os inerentes a elas mesmas, seja no vasto campo da denotação, pois sem ele não resta base para lavrar nem muito menos palavrar, seja na via bem mais estreita e seletiva da conotação bem sucedida, de onde se ascende à plenitude plurissignificativa propiciada pelas sinestesias.

Também há palavras submetidas a uma função ancilar, posto que “falam” a serviço ou por sugestão das imagens que animam a última parte do livro, intitulada Histórias em Quadrinhos.

Privilegiado pela variedade poliédrica de seus diversos talentos, Joaquim Haickel, poeta, articulista, contista, cineasta, quadrinista, desportista, hábil articulador político, entusiasmado promotor cultural, é bem um homem dos sete (ou mais) instrumentos, dotado de inegável capacidade para bem executá-los. Se necessário, simultaneamente.

Desde os anos juvenis de Joaquim Haickel, acompanho sua trajetória, entre dinâmica e frenética. Homem de muitos negócios e também de não poucos ócios, de cálculos realísticos e de sonhos generosos, mal saído das calças curtas, aglutinou em torno de sua despretensiosa liderança de um grupo de jovens que promoveram, no início dos anos 80, o movimento cultural em Tempo de Guarnicê, que agitou em programas de rádio, em edição de revistas, jornais, livros, quadrinhos e o escambau.

Logo depois o jovem promotor cultural estreou-se como deputado à Assembleia Legislativa do Estado, estágio preparatório para aos 26 anos de idade, conquistar uma cadeira de constituinte nacional. Com seu retorno posterior a reiterados mandatos de deputado estadual, imaginei que o militante intelectual sucumbira às premências e solicitações do político engajado nas lutas partidárias.

Enganei-me, felizmente. E tanto foi assim que aconteceu, que posso hoje repetir, porque envolto no mesmo frescor de quando o redigi, há cerca de 25 anos, este trecho que encerra o longo verbete MARANHÃO, da Enciclopédia de literatura brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (1970): “o movimento cultural Guarnicê reúne jovens poetas e prosadores, publica um suplemento literário, edita livros, produz filmes, sob a liderança de Joaquim Haickel”.

 

Jomar Moraes

 

CONTOS

O CADARÇO

1

O amor aparece na sua vida quando você menos espera, e nem sempre ele se apresenta de uma forma que você o reconheça ou compreenda.

* * *

A primeira vez que seus olhos se cruzaram foi por puro acaso.

Ela não conseguiu impedir que caísse no chão uma bolsa imensa, Louis Vuitton, que tentava equilibrar sobre uma mala, e ele, que ia passando, gentilmente, juntou-a e entregou a ela olhando-a firmemente nos olhos. Ela sorriu suave, timidamente agradecida.

Puxava numa das mãos a elegante mala de viagem e com a outra segurava carinhosamente uma pequena réplica de si mesma.

Atencioso, passou a mão carinhosamente na cabeça da garotinha e cumprimentou a mãe com um aceno de cabeça. Ela fez um movimento idêntico e disse-lhe thankyou, com uma voz grave que combinava com seu tipo nórdico. Grande como Greta Garbo, elegante como Ingrid Bergman e linda como Cláudia Schiffer.

Mais atrás vinha um homem trazendo uma mala igual à dela e uma outra criança, cópia fiel da primeira, só que um menino.

2

O saguão de um aeroporto é um microcosmo admirável. Lá podemos ter, de graça, magníficas aulas de antropologia, de sociologia, de psicanálise, e até mesmo um rápido curso de sedução no mais perfeito estilo pirandelliano.

* * *

Ele foi pro seu lado e ela para o dela. Iam para lados diferentes, em voos diferentes. Distintos, diferentes.

Ao chegar ao balcão de atendimento, ele notou que havia uma senhora muito nervosa. É que ela iria viajar de avião pela primeira vez. Ele se pôs a conversar com ela em seu rudimentar italiano, aprendido primeiro com Giuliano Gemma e depois, já mais refinado, com Marcelo Mastroianni.

Depois de uns vinte minutos, ele conseguiu tranquilizar a nonna. Com isso, ganhou a gratidão da moça da companhia aérea que lhe deu um upgrade para a classe executiva, o que lhe renderia mais do que o simples conforto. Na verdade, lhe deu a possibilidade de vê-la mais uma vez, mas isso ele ainda não sabia.

3

Ao contrário dos saguões, toda sala vip é igual. Num ambiente mais restrito, as pessoas não se põem tão à vontade, não são tão naturais. Com a maioria das pessoas é assim.

* * *

Quando ele chegou lá, ela já estava. Ela o olhou primeiro e não parou de olhá-lo. Olhou-o dos pés à cabeça. Observou seus sapatos, o jeito dele falar ao celular, como colocava o braço apoiado no balcão da lanchonete. Observou o seu sorriso, ora discreto, ora incontido. Só então ele a viu. Viu e olhou. Olhou e viu que ela o via e não lhe tirava os olhos. O acompanhava para onde fosse.

Ele notou que ela observava particularmente os seus pés, seus sapatos. Lembrou-se de seu primo Luís, que tinha uma estranha fascinação por pés femininos. “Será que as mulheres também têm esses fetiches?” – interrogou-se.

4

Os olhos são sempre o começo e o final de tudo. Sem eles a vida não é completa. Falta algo, falta alma, falta uma janela pra se debruçar. A palavra também é muito importante. A língua, a linguagem… Uma porta para se sair ou entrar.

* * *

Constantemente seus olhos se cruzavam. Ele começou a jogar. Ia para um lado e via se ela o acompanhava com os olhos. E ela acompanhava. Resolveu então ir ao banheiro. “Será que ela vai me acompanhar?” Para sua tristeza, só os olhos dela o acompanharam.

Ao voltar, viu que ela falava ao telefone. O idioma, a princípio quase inaudível, lhe parecia familiar. Aos poucos foi notando que as palavras eram mastigadas, mordidas, mesmo que no caso dela isso fosse feito com certa doçura. Depois teve certeza que aquela era a língua de Goethe, de Schopenhauer e de Nietzsche.

5

 

As atitudes fazem a diferença entre os homens. O difícil é saber quando e como devemos tomá-las.

Há quem deixe que as coisas aconteçam naturalmente, e elas até acontecem satisfatoriamente.Esses são uns poucos afortunados. Tem os que se deixam direcionar pelos acontecimentos e quebram a cara. Estes são a grande maioria. Uma quarta parte é formada pelos que controlam os acontecimentos e invariavelmente também quebram a cara. Há, no entanto, os que tentam controlar as coisas e conseguem. Estes são poucos, pouquíssimos.

* * *

Ele criou coragem para tomar uma atitude. Foi novamente à lanchonete e pediu uma coca. De repente sentiu um aroma conhecido e, ao virar-se, viu que ela estava bem ao seu lado. Seu perfume a denunciou. Ele o sentira desde seu primeiro encontro, no saguão.

J’adore!– disse ele, como quem nada quisesse.

Pardon…– ela respondeu em um perfumado francês.

Your smell…Your perfume… Is…J’adore!

Are you a perfumist?

No.I’m a writer.

Ela fez um ar de genuína admiração e disse que era um prazer conhecê-lo. Ele agradeceu e retribuiu a gentileza. Ela pagou os dois sucos de laranja que pedira para seus filhos e foi-se, não sem antes cumprimentá-lo com um sorriso um tanto insinuante, ao que ele retribuiu da mesma forma.

Mesmo que sempre odiasse atrasos aéreos, ele daria qualquer coisa para que o tempo mudasse e todos os voos daquela noite fossem atrasados em pelo menos duas horas.

6

O final é sempre reservado ao que há de melhor, mesmo que o melhor não seja aquilo que nós quiséssemos.

* * *

Os olhares deles continuaram a se cruzar por mais uns trinta rápidos, mas intermináveis minutos, até que ela pegou suas coisas e o filhinho pela mão e dirigiu-se para a saída. Mais na frente ia o cavalheiro com a menininha.

Ao passar por ele, que estava sentado, de pernas cruzadas, observando tudo, disse-lhe em um inglês germânico:

– Tome cuidado… Seus olhos são muito perigosos… Acabam não deixando nenhuma saída para uma mulher curiosa como eu…

– Ah! Seus sapatos são muito bonitos… Mas cuidado, não vá cair… Seu cadarço está desamarrado…

E ela se foi, com um olhar meigo e um sorriso maroto.

 

 

SHITAKE

(em três tempos)

AO CELULAR

 

– Alô! Meu bem?… Estou morrendo de vontade de comer aqueles deliciosos cogumelos salteados que você faz…

– Você tá onde, querida?

– Saindo do trabalho.

– Então passa no supermercado e compra o shitake fresco. Compra também alho e cebola em flocos; pimenta calabresa e rosa; sal defumado; canela e noz-moscada pra ralar; e ervas de Provence. Aproveita e compra um vinho, pra combinar.

– Já estou com água na boca!

–Estarei no flat em quarenta e cinco minutos.

– Chego logo depois.

– Precisa de mais alguma coisa?

– … Preciso sim… Sua boca gostosa!

Sua, boca gostosa…

Sua boca, gostosa.

Gostosa, sua boca!

Boca, sua gostosa…

 

NO MSN

 

– tô desejando aquele seu shitake.

– quando?

– agora!

– pra hj?

– claro…

– aí tem azeite, pimenta e sal?

–não sei… azeite e sal sim…

– frigideira grande, tem?

– mas pimenta… não sei não

– tem… vc já esqueceu da frigideira?

– manda comprar pimenta, cebola e alho… eu levo o shitake.

– hum… já tô babando…

–vc quer ou não?

– claro que quero…

– o q mais vc quer?

– o q mais precisa?

– sua boca gostosa…

– ela me acompanha aonde vou…

– sua boca, gostosa…

– …entaonao preciso comprá-la

– gostosa, sua boca…

– entendi… rsrsrrs…

– boca, sua gostosa…

–hummm…

– gostosa, sua boca…

– ok, ok, ok…ela estará lá…a boca, a gostosa, a sua…

– minha o q?

– não sei…rsrsrsrrsrs… deixa pra lá… vai estar td lá…

 

NO TWITTER

 

Vou fazer shitake pra vc hj!

Traz azeite, cebola, alho, pimenta e sal

Vinho eu tenho

Vou precisar tbm de sua boca gostosa

Gostosa, de sua boca!

 

CRÔNICAS

FASE DE SUBLIMAÇÃO

Muito cedo descobri que, em algum lugar em meu cérebro, havia um dispositivo que fazia que eu não agisse de determinada maneira, que me censurava, e que fazia que eu simplesmente redirecionasse minhas energias para outras coisas, fazia que pensasse, idealizasse, sonhasse, vivenciasse, mas não fizesse, não realizasse aquele intento previamente censurado, mas ainda assim essa tal engrenagem fazia que eu sentisse o prazer advindo daquela energia, fazia que eu conseguisse sentir prazer como se tivesse realizado meu intento primordial. Foi assim que comecei a escrever muito cedo, foi assim que busquei os esportes, foi assim que me apaixonei pelo cinema. Hoje vejo que foi também assim que optei pela política.

Depois descobri que, em algumas circunstâncias, isso também servia de adiamento, procrastinação, maturação e até, de certa forma, como planejamento de algo que eu desejava realizar e que, através daquele instinto poderoso, eu apenas treinava para quando chegasse a hora de colocar em prática. Talvez por isso, tudo em minha vida tenha acontecido de forma mais arrumada, mais planejada e natural.

Muito tempo depois de conhecer tal sintoma, de identificar com precisão suas circunstâncias, seus efeitos e até algumas formas correlatas e análogas de seu desenvolvimento em minha vida, lendo sobre psicologia, descobri tecnicamente, cientificamente, de que se tratava.

A palavra usada para designar tal função de nosso inconsciente, para nomear esse nosso instinto, é tão esclarecedora que não precisa de maiores aprofundamentos para seu entendimento. Trata-se da sublimação, que em química significa mudança do estado sólido para o estado gasoso ou vice-versa, sem passar pelo estado líquido. Palavra que no dicionário está assim descrita: Sublimação – 1. Tornar sublime; purificar, enaltecer, exaltar. 2. Tr. dir. Elevar à maior perfeição. 3. Pron. Tornar-se sublime; enaltecer-se, engrandecer…

No âmbito da psicanálise, esse fenômeno, a sublimação, é o processo inconsciente que consiste em desviar a energia da libido para novos objetos, de caráter útil, Mecanismo de defesa do eu, através do qual alguns impulsos, desviados de seu objeto primitivo, são integrados na personalidade que os investe em objetos equivalentes de valor social. Segundo Freud, sublimação é a fonte da nossa cultura. Só produzimos arte, ciência e tudo o mais, porque deixamos nossa energia canalizada para isso, porque não podemos ou pelo menos não devemos sair por aí matando, roubando, mentindo…

Em suma, sublimar um desejo, uma ação, é, por uma atitude consciente ou semiconsciente, deixar de realizar esse desejo, mas sentir-se como se o tivesse realizado.

Estou passando por uma fase dessas em minha veia artística. Tenho sublimado muitas ideias, tenho armazenado energia para uma realização que ainda não consigo identificar, mas sei que ela está por aqui em algum lugar, dentro de minha cabeça, rondando, espreitando, esperando uma oportunidade.

A coisa é tão séria, que comecei a fazer uma lista de ideias de poemas, crônicas, contos, roteiros, ou mesmo de algumas mudanças neles. Só para citar alguns: há pelo menos três anos venho observando que com frequência tenho engolido a letra e quando estou escrevendo. É como se o e não existisse, principalmente em alguns casos. Por exemplo, acabei de voltar à linha anterior para colocar o segundo e o terceiro e na palavra escrevendo, pois meus dedos, guiados por meu cérebro, os eliminaram. Dá um bom ensaio, não acham?

Tenho comigo, desde a primeira vez – eu devia ter doze anos – em que assisti ao filme Sansão e Dalila,com Victor Mature e HedyLamar, a tese de que a força de Sansão jamais esteve em seus cabelos, mas sim em seu amor, da mesma maneira que sua fraqueza não consistia em simplesmente ser careca, mas sim na decepção pela traição de sua amada.

Tenho sentido muita vontade de falar sobre o que aconteceu e continua acontecendo no Haiti. Preciso dizer o que penso e o que sinto sobre a segunda fundação do Estado maranhense, agora com essa nova arrancada para o progresso.

Da mesma forma, tenho sentido muita vontade de escrever sobre alguns amigos meus, pessoas de quem gosto, com quem tenho afinidades, que são caras para mim como Paulo Nagem, Antônio Carlos Barbosa, Fernando Sarney e Edinho Lobão, que são quase como irmãos. Paulo Coelho, Celso Borges, Érico Junqueira Ayres e Roberto Kenard, de quem sinto tanta falta (deles e do tempo em que éramos muito, muito felizes). Heloísa Collins, amiga para sempre. Cristina Tavares, meu primeiro amor verdadeiro. Ivana Farias, com quem aprendi muito do que sei e com quem fiz minha melhor história: Laila.

E queria falar também de outros amigos: Nelson Frota, espécie de primo mais velho, precoce. Falar de Gonçalvinho e da inveja boa que tenho de sua competência e do orgulho que sinto de sua simplicidade prestativa; de Benjamin Alves, de quem nem sou tão íntimo, mas que consegue ser tão elegante que me sensibiliza. Falar de Zeca Brás, que vota em mim há vinte e oito anos, e principalmente de Hélio Sales, um pequeno amigo em estatura física, pois mede pouco mais de um metro de altura, mas que é um gigante em lealdade, que, mesmo em meio à traição da qual fui vítima no município de Pio XII, me ligou e disse que não deixaria de me apoiar, pois via em mim uma boa pessoa e o melhor deputado para o representar.

Bem, um dia desses, quando passar essa fase de sublimação, vamos falar de todos esses assuntos. Por enquanto, sublimemos.

 

MEU PRESENTE DE CINQUENTA

 

O texto a seguir foi escrito por mim ano passado, por ocasião de meu aniversário de cinquenta anos, quando fiz uma espécie de balanço de minha vida e resolvi dar a mim mesmo um presente para comemorar aquela data tão simbólica. O presente seria eu me reconciliar com qualquer pessoa a quem pudesse ter magoado, a quem pudesse ter ferido, de quem eu pudesse de um modo ou de outro ter me distanciado.

 

Sempre me achei um sujeito de muita sorte, pois tenho muitos e bons amigos. Amigos que fiz durante toda a vida, por todos os lugares por onde passei.

Meus amigos são como faróis iluminando meu caminho, orientando minha viagem, minha vida. São como portos seguros onde posso ancorar meu barco quando precisar me reabastecer ou fugir de um vendaval.

A existência de cada um desses meus amigos, todos verdadeiros, mesmo aqueles com quem não convivo diariamente, me garante a existência de um ombro, de um abraço, de uma palavra de incentivo ou de um alerta, e até de um puxão de orelha, num caso de precisão.

Cultivei meus amigos como faz um agricultor em seu campo. Semeei desde muito cedo, adubei, reguei, combati as pragas.

Faço amigos desde antes do tempo em que estudava no Pituchinha. Fiz amigos no Colégio Batista, e depois os cultivei no Dom Bosco. Fiz amigos no grupo de lobinhos e escoteiros Dezoitão, na academia de judô do major Vicente, e fiz também muitos amigos no bairro do Outeiro da Cruz e no Sacavém, meninos com quem eu jogava futebol na infância e a quem ainda hoje encontro pela vida e me sinto orgulhoso de ter convivido com eles. Amigos do tempo do sítio do Angelim, do Lítero, do Jaguarema. Amigos da época da Seleção Maranhense de Basquetebol, da Associação Desportiva Mirante, da Federação Maranhense e da Confederação Brasileira de Tênis. Grandes amigos das peladas de futebol na praia do Olho d’Água. Amigos que fiz quando fui morar em Brasília, no bloco J da 202-Norte e no Clube de Unidade Vizinhança. Amigos do cursinho pré-vestibular, da universidade, do curso de Direito. Amigos que cultivei quando fui trabalhar com meu pai, em suas empresas, amigos que continuei fazendo quando fui trabalhar como chefe de gabinete do então governador João Castelo, para sair de lá fazendo amigos Maranhão a fora, como deputado estadual, eleito pela primeira vez em 1982. Amigos dos movimentos culturais, do Guarnicê, da Jornada Maranhense de Cinema, da Mirarte, do Circo Voador… Uns e Outros amigos Párias.

Nunca parei de fazer amigos, nunca deixei de conviver bem com as pessoas. Fiz muitos amigos na Assembleia Nacional Constituinte, e fiz muito mais ainda quando passei pelas Secretarias de Assuntos Políticos e de Educação.

Meus colaboradores, os empregados de minhas empresas, são meus amigos. Orgulhoso, digo sempre que jamais tive uma causa trabalhista que não tivesse sido resolvida de forma amigável.

Voltei a me eleger deputado estadual e continuei fazendo amigos. Estes não são apenas meus eleitores, são muito mais: são pessoas que me conhecem, convivem comigo e me têm como seu amigo verdadeiro, pessoas que confiam em mim, que me respeitam, não apenas como deputado, mas como cidadão, como pessoa.

Fiz amigas em todas as mulheres que passaram por minha vida. Foram amigas em todos os sentidos, até mesmo aquelas com as quais o tempo ou o relacionamento foram fugazes. São amigas até mesmo aquelas que a distância e as circunstâncias tenham nos afastado.

Fiz mais do que confrades, fiz bons e grandes amigos tanto na Academia Maranhense de Letras quanto na Imperatrizense.

Tenho muita sorte, porque se, por um lado tenho muitos amigos, tenho pouquíssimos desafetos, já que inimigo não contabilizo nenhum.

Tenho adversários políticos, pessoas e grupos aos quais me oponho política ou eleitoralmente, mas dentre esses não há nenhum por quem eu nutra ódio ou que tenha por mim esse sentimento.

Tem acontecido de alguns políticos resolverem se afastar de mim por motivos inconfessáveis, mas isso faz parte do jeito deles serem e agirem, nada tem com a amizade que dediquei a eles, muito pelo contrário: esse é o imposto que temos que pagar para permanecermos com os verdadeiros amigos ao nosso lado.

Nestes cinquenta anos de minha vida, são poucos aqueles dos quais eu me afastei ou que de mim tenham se afastado. Talvez duas ou três pessoas, em cinquenta anos de vida, possam ser apontadas como exemplo de quem tenha de mim se apartado.

 

Quando escrevi o texto acima, não vi motivo para publicá-lo. Escrevi para meu deleite, para meu prazer. Hoje, um ano depois, esse texto se impõe como reafirmação de minha condição de pessoa feliz e de sorte, por ter os amigos que tenho e por não ter muitos desafetos.

Mesmo aqueles que se afastaram de meu convívio, mesmo aqueles que me abandonaram ou que tenham se sentido por mim abandonados, mesmo aqueles, continuam tendo em mim uma amizade latente, capaz de como fênix ressurgir das cinzas.

Exemplo disso foi o que aconteceu no ano passado mesmo, quando me reconciliei com uma importante figura de nosso mundo cultural, da qual tinha motivos para me afastar, mas a quem descobri motivos mais que suficientes para me reaproximar e manter uma sincera e respeitosa amizade.

Segundo um bom e velho amigo meu, a prova maior da minha disponibilidade e capacidade para ser realmente amigo é o fato de ter amigos comuns que, se não são inimigos, têm grandes dificuldades de convivência ou interesses bastante antagônicos. E mais ainda, consigo ser amigo deles o suficiente para manter verdadeiramente essas amizades, servindo, sempre que possível, a um e a outro, como farol ou porto seguro.

 

POEMAS

 

TATUAGEM

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Chame atenção.

Faça uma pequena pausa. Sua entonação demonstra sua intenção, seu pensamento.

Depois, uma pausa maior, que puxe outra ideia ou relacione duas.

Agora uma pausa ainda maior. Uma parada.

Dê um exemplo:

Faça suspense, insinue…

Surpreenda;

Pergunte.

Depois, mude de assunto– isso sempre funciona.

Valorize os coadjuvantes, eles são mais importantes & necessários do que parecem.

Comunique-se.

Não se esqueça dos números, eles são indispensáveis.

Nem das equações. Nada funciona sem elas.

Maior?

É sempre iguala valor. O contrário nem sempre é verdadeiro.

Não se esqueça. Todo inteiro é feito de partes.

Adicione!

Multiplique!

Fazer a diferença

é mais ou menos… Infinito.

 

POEMA DITADO, DEITADO, AO LADO DELA

 

O vento açoita a janela

e o sol começa

a invadir pelas frestas.

 

Bem-te-vis e curiós

entoam o que lembra

uma melodia de Vivaldi.

 

Agarrada a mim

ela não para de tremer

pede pra eu não parar

e diz que gosta.

 

Asmática,

ensaia uma tosse

mas a hipófise vence os brônquios.

 

De que mais precisa um homem?

Vento, sol, passarinhos.

Uma mulher linda,

de pele branca.

Uma rosa tatuada,

nome de filme.

Doida para aprender

o que se faz

e como ver.

 

Luz artificial?

Pra quê?

 

Tudo lá fora

e ela comigo

aqui dentro,

aqui dentro.

 

Qualquer coisa a mais

é excesso.

 

LINGUAGEM

 

Fala!

Fela!

Fila!

Fola!

Fula!

E o coração dela foi parar na virilha…

Depois caiu para o joelho

que tremia.

 

MOBÍLIA

 

Só os móveis permanecem lá

impávidos

imóveis

compondo o cenário previamente desenhado para o espetáculo.

Os personagens principais mudam

mas não mudam os serventes

não mudam os garçons

nem as arrumadeiras.

Mudam os cães que não mudam,

latem

e a caravana passa.

 

SOBRE AQUELA NOITE

 

Eu poderia começar falando de sua boca e de seus beijos…

Poderia continuar falando de suas coxas e de seus seios…

E só poderia terminar falando de seu sexo e de seus jeitos…

Mas de tudo, naquela noite, o que houve de melhor,

foi que depois de tudo, depois do banho,

ela tirou a toalha na qual estava enrolada

e com ela secou meu rosto, meus ombros, meu peito e minhas costas.

Depois se ajoelhou, e com olhos e reverência de uma gueixa

enxugou minhas coxas, minhas pernas e meus pés.

 

O SONHO DE ONTEM

 

Elegante,

falante,

galante…

Não lembro direito, mas não esqueço jamais.

Flores,

vinho,

coisas pra beliscar,

música,

dança,

conversa ao pé do ouvido.

Sorriso infantil,

olhar denunciador,

seu corpo fala por ela,

vibra(literalmente vibra)

ao som da flauta de Euterpe

e da lira de Terpsícore.

No colo dela,

em seu decote,

descortino o mundo e desço…

Montes,

vasta pradaria,

vales,

um rio feito de suor…

Precipício…

Mergulho.

Quando emergi estava nas costas dela,

em sua nuca

e aos seus ouvidos fechei a noite.

 

REFAZENDO AQUELE SONHO

 

De mim só me lembro estar elegante.

Terno escuro, camisa clara, gravata de seda…

Dela, não esquecerei de nada,

jamais…

Era um sonho…

Seu vestido longo de cetim,

seus olhos cor de mel,

sua boca carnuda.

Um aroma de sedução no ar…

Vinho,

conversa ao pé do ouvido,

música,

coisas pra beliscar,

inclusive seu braço pela fresta da cadeira.

Dança…

Seu corpo juntinho ao meu

encaixados como pérola e ostra

ondulavam.

Seu olhar era denunciador,

seu rosto e seu corpo falavam por ela…

Tudo que aconteceu naquela noite

depois da hora em que a vi…

preferi esquecer…

Agora, distante em tempo e espaço

me imagino,

me quero em seu colo.

Mergulho em seu decote,

nele descortino o mundo e desço…

Encontro montes,

uma vasta pradaria,

vales,

um rio feito de suor…

Precipício…

Mergulho nele.

Quando emergir

quero estar de novo

nas costas dela,

imprensando-a contra a parede,

mordendo sua nuca,

lambendo seu pescoço,

e aos seus ouvidos

quero fechar a cortina de outra noite

e ver outro dia nascer.

Mais tarde,

depois do café,

ler pra ela esse poema

e fazê-la sentir ciúme

imaginando que refiz meu sonho

com outra mulher.

 

NUM QUADRO DE MONET

 

Na velhice

só me restará entrar

num quadro de Monet.

 

Desenhar

uma casinha

de sapé;

 

À beira

de um lago

em Giverny;

 

E me pôr

a ouvir

os pássaros

da memória

a cantar.

 

DISCURSOS & PRONUNCIAMENTOS

DISCURSO DE POSSE NA

ACADEMIA IMPERATRIZENSE DE LETRAS

(27 de abril de 2006)

Como novo ocupante da Cadeira nº 9 da Academia Imperatrizense de Letras, cabe a mim, como de praxe, em meu discurso de posse – que não deverá ser longo – falar um pouco do Patrono deste posto, da vida e obra de seu último ocupante, e de mim mesmo.

Antes de começar, no entanto, gostaria de citar uma frase daquele que, para mim, é o Pai da Ideia, o filósofo Platão, evocado por Vito Milesi na abertura de sua apresentação de Thucydides Barbosa:“Aquele que durante a vida amou o saber e adornou sua alma com virtudes como a Temperança, a Justiça, a Liberdade e a Veracidade, este deve esperar tranquilo a hora da partida para o outro mundo, porque ele não parte, mas chega à imortalidade.”

Para falar de Thucydides Barbosa, busquei subsídios em ninguém menos que Vito Milesi, que, por sua vez, apoiou-se nas palavras de um grande amigo de meu pai e meu professor na Faculdade de Direito de São Luís, o Dr. Eloy Coelho. Ele nos diz que a primeira informação a respeito de Thucydides Barbosa é a de que “se trata de um sertanejo, autodidata, observador e com vocação para a cultura. Entusiasta pela cidade, a então vila de Santo Antônio de Balsas, nela viveu um grande período, exercendo cargos como o de funcionário público da área fazendária, prefeito municipal e seu representante como deputado estadual em quatro legis­la­turas consecutivas”.

Não vou relatar aqui toda a vida de Thucydides Barbosa, principalmente porque esta não deve ser uma solenidade longa. Em breve faremos editar e distribuir, com a devida permissão desta Casa e dos colegas empossados nessa ocasião, Maria Helena e José Herênio, a íntegra destes nossos pequenos discursos.

Entretanto, direi mais duas coisas que, muito curiosamente me ligam a este nosso personagem. Ele, que nasceu na cidade de Loreto, no dia 8 de julho de 1885, veio a falecer em São Luís, no dia 5 de novembro de 1959, aos 74 anos de idade, exatos trinta e oito dias antes de minha mãe sentir as dores do parto e me presentear com a luz da vida, permitindo-me que viesse cá pra fora, pra este mundão de meu Deus.

As coincidências continuam: em 1925, Thucydides Barbosa, como prefeito de Balsas, foi testemunha ocular e personagem da passagem da Coluna Prestes pelo sertão do Maranhão. O professor Eloy Coelho comentava possuir fotocópia do original datilografado de Subsídios para a história do Maranhão,em que há um capítulo – 18 páginas – datado de junho de 1956, ededicado a um episódio que está entre os mais significativos de nossa história republicana.

Ao saber desses dois fatos – que o meu patrono faleceu dias antes de eu nascer, e que participou de um evento sobre o qual eu escreveria uma pequena história sessenta anos depois do acontecido – após ler o que Thucydides escreveu sobre a passagem da Coluna Prestes no Maranhão, minha mente de cronicontista– adjetivo com que me qualifica meu mestre Sebastião Moreira Duarte – sentiu-se motivada a escrever uma pequena história de realismo mágico, na qual um velho e sábio político, amante das artes e da cultura, antes de partir na direção da Luz que o esperava, aguardou quase quarenta dias, até que um bebezinho nascesse e ele lhe soprasse ao ouvido:“Prepara-te; temos um encontro marcado”… Só depois disso, ele subiria.

Décadas depois, eu, aquele bebê já homem feito, tentava colocar no papel o meu incompreensível fascínio pela Coluna Prestes, por seus componentes destemidos, heroicos e gloriosos, por sua passagem nas terras do sul do Maranhão. É quando, mais uma vez, aquele velho e sábio político me sopra ao ouvido, como já o fizera antes. Desta vez, o que eu deveria escrever.

Nosso terceiro encontro estava, a partir de então, marcado para cá, para hoje, para esta ocasião.

Mas, para que isso acontecesse foi preciso que o destino, através do querido amigo Livaldo Fregona e das especiais amigas Edna Ventura e Maria Helena, conspirassem, fazendo que a cadeira de nº 9 desta Casa ficasse para mim. Agradeço muito a vocês, por esse outro magnífico presente.

Se meu encontro com Thucydides Barbosa pode ser considerado cármico, com Vito Milesi deve ser considerado sentimental.

Há algunsanos, o que me trouxera aqui fora a paixão por uma mulher, a maravilhosa Jane Carneiro… No convívio com sua família, no início da década de 80, ouvi falar, pela primeira vez, em Vito Milesi, mas nunca imaginei que fôssemos nos desencontrar tanto. O que é uma pena, pois tenho certeza que seríamos grandes amigos e nos daríamos muito bem.

É incrível como a presença de Vito Milesi é tão marcante nesta Casa. Sinto-me até como se o conhecesse pessoalmente, pela forma como vocês, as pessoas que conviveram com ele, falam sobre sua personalidade, sua vida e seus feitos. A sua presença se impõe de forma doce e delicada, mas com uma força e uma pujança que só se vê em espíritos iluminados.

Não vou falar sobre a obra literária e cultural de Vito Milesi. Todos sabem de sua importância. Quero falar de outra importância sua, algo que descobri no primeiro dia em que entrei neste prédio e conversei com alguns de vocês. Vito Milesi representa a argamassa, o concreto, produto utilizado na construção e inventado pelos romanos, antepassados do Menino de Roncobello, província de Bérgamo, norte da Itália, nascido a 13 de maio de 1931, e que veio para o Brasil como missionário em 1955, e para Imperatriz em 1979.

Vito Milesi me lembra muito Franco Jasiello, outro italiano que veio para o Brasil, infelizmente para Natal, no Rio Grande do Norte. Jasiello, como Milesi, foi, para os que viviam em seu entorno, um farol, como o colosso de Rodes.

Há uma última coisa sobre Vito Milesi que gostaria de ressaltar. Quando fui escrever este pequeno discurso, pedi ao Livaldo que me enviasse subsídios para que bem o fizesse. No final do texto sobre o Vito, vi escrito: Não deixaherdeiros brasileiros”. Imediatamente liguei para o Livaldo para confirmar a informação e refutá-la peremptoriamente. Somos todos nós, herdeiros de Vito Milesi.

Por fim, de mim nada falarei, a não ser o fato de estar aqui para servir, mais do que para ser servido. Também reconheço ser muito egoísta, a ponto de ter inventado um dispositivo psicossocial deque me utilizo, e que me faz sentir mais prazer servindo ao invés de ser servido. É simples, é só descobrirmos o prazer que há em ver a felicidade estampada nos rostos das pessoas à nossa volta, felicidade proveniente de nosso trabalho, nosso respeito, nossa dedicação, nosso companheirismo, nossa amizade.

É por isso e para isso que eu estou aqui.

Muito obrigado.

 

DISCURSO DE POSSE NO INSTITUTO HISTÓRICO

E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO

(13 de setembro de 2011)

Senhora Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, Professora Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo,

Ilustres Sócios,

Minhas senhoras e meus senhores:

 

Bem, gostaria que vocês soubessem que eu sempre quis, pelo menos uma vez na vida, subverter a ordem, e vou fazer isso agora, agradecendo em primeiro lugar aos de corpo e alma presentes.

Refiro-me a Excelentíssima Presidente, Telma Bonifácio e ao meu particular amigo Leopoldo Vaz, pelo convite que me fizeram para ingressar nesta entidade.

Sinto-me muito honrado pelo convite.

Igualmente agradeço aos demais diretores e associados deste Instituto, pela carinhosa acolhida.

Aqui irei conviver com queridos amigos como Elizabeth Rodrigues, Manoel dos Santos Neto, Nivaldo Macieira, João Francisco Batalha, Edomir Oliveira, José Marcio Leite, entre tantos outros com quem a partir de agora poderei estreitar laços de sincera amizade.

Agradeço também a todos que me distinguem, nesta noite, com sua presença e sua paciência.

Minhas palavras agora são de respeito e reconhecimento, pois tenho a honra de suceder nesta Casa a Kalil Mohana, ilustre professor, homem carismático e batalhador, que lutou pela vida até o seu último suspiro. Pessoa extremamente afetuosa, sempre com a preocupação de estimular a juventude, Kalil Mohana gostava de refletir sobre os mistérios e as peculiaridades da consciência humana. Gostava de analisar os sentidos da vida, usando para isso aquilo que ela tem de mais verdadeiro: os exemplos da história, da filosofia e da humanidade.

Esse valoroso maranhense, que faleceu em São Luís no dia 24 de dezembro de 2010, era filho de Miguel e Anice Mohana, libaneses e cristãos maronitas que se mudaram para o Brasil, dentre outros motivos, em razão da perseguição dos turcos islamitas contra os de sua crença em um Líbano sitiado.

Resolveram se estabelecer consecutivamente nas cidades de Coroatá, Bacabal e Viana, sendo que nesta última foi o local onde Kalil nasceu no dia 10 de novembro de 1935.

Cursou o Primário e o Ginásio no Colégio Marista. Já o Científico, no Ateneu Teixeira Mendes e no São Luís. Fez os cursos de Geografia, História e Didática na Faculdade de Filosofia, semente da Universidade Federal do Maranhão.

Lecionou no Maristas, na Escola Normal do Estado, em vários cursinhos Pré-Vestibular, na Federação das Escolas Superiores sendo dos fundadores da Universidade Estadual do Maranhão, onde foi catedrático durante vários anos.

Formou sucessivas gerações de maranhenses, e conheceu o mundo inteiro por meio de suas viagens. Realizou aproximadamente 130 viagens: cerca de 35 com alunos do Colégio Maristas, e mais de 90 com formandos universitários, sem contar as que fez sozinho.

Além de membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, ele ocupava a cadeira de nº 8 da Academia Vianense de Letras, patroneada por seu irmão, o médico, escritor e padre João Mohana.

Autor de diversas obras, dentre elas o livro Viajando e educando: As grandes viagens, o meu antecessor nesta Cadeira era oriundo de família tradicional maranhense, composta por sete irmãos: João, Alberto, Laura, já falecidos; e Ibraim, Julieta e a professora Olga Mohana, ainda entre nós.

De todos, Kalil era o mais receptivo e inquieto. Bom amigo e aconselhador, passar-se à tarde pela Rua Afonso Pena e não encostar-se na Casa Mohana para bater um bom papo não tinha sentido, pois ele estava sempre lá, pronto para recepcionar e trocar ideias com os inúmeros amigos que conquistou ao longo de vida.

Sobre Kalil e a família Mohana, há um fato que devo citar: passei os primeiros anos de minha vida vivendo praticamente na casa de minha avó paterna, Maria Haickel, que ficava na Rua da Saúde, uma travessa da Afonso Pena. Quase todos os dias ela me levava para tomar benção para tia Anice, mãe de Kalil. É que para os libaneses, os amigos mais queridos são como parentes, como irmãos mesmo.

Na Casa Mohana, eu era tratado como um principezinho, tanto pelo padre, que mais tarde seria decisivo em minha opção pela literatura, como pelo vibrante Kalil, mas principalmente por Julieta que era amiga de minha tia, Rose Mary.

Hoje, aqui, tenho a nítida sensação de suceder um parente, um tio, um primo bem mais velho.

 

Senhoras e senhores:

Não posso deixar de fazer o registro de que, antes do professor Kalil, dois outros ilustres intelectuais – Domingos Chateaubriand e Domingos Vieira Filho – ocuparam esta Cadeira nº 47, patroneada por Joaquim Serra, que também é o patrono da Cadeira nº 21 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de José do Patrocínio, e da de nº 12 da Academia Maranhense de Letras.

Não há como negar o espírito universal das obras de meu xará, Joaquim Serra, o qual, em suas crônicas maravilhosas no SemanárioMaranhense e em outros jornais, sempre relacionava a economia com o progresso, e o trabalho com a técnica.

Sua peça Quem tem boca vai a Roma faz-nos pensar na velocidade com que as ondas eletromagnéticas levam o som e a imagem pelos meios modernos de comunicação, e também a facilidade com que aquele e outros maranhenses aprendem línguas estrangeiras.

Joaquim Serra era filho do dono do imenso sobrado que ficava no Largo de São João, que ficou conhecido como Palácio das Lágrimas, pois uma linda escrava que servia na casa, pareceu, ao dono, ser a assassina, por envenenamento, de seus dois filhos menores, irmãos de nosso patrono. Como o caso não foi esclarecido, a escrava foi enforcada. Quando a verdade foi descoberta, o pai de Serra, Leonel, enlouqueceu.

Mas nosso mentor na Cadeira 47 não se tornou abolicionista apenas para fazer justiça póstuma à negra bela que seu pai mandou executar. Tudo leva a crer que meu homônimo desejava para o Maranhão a solução encontrada por São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul: a imigração estrangeira.

Joaquim Serra conhecia bem os progressos da Revolução Industrial, assim como seus malefícios trabalhistas. Era humanista como Cândido Mendes, César Marques e Sousândrade. Pensava numa economia forte, grande produção, mas com produtividade: ou seja, o máximo de frutos, com o menor esforço possível. Aliás, essa é a filosofia da computação e da eletrônica modernas.

Ele escreveu também a peça O salto de Leucade. Leucade, como sabem, é uma ilha grega com um alto penedo, de onde eram atirados ao mar os condenados à morte. Assim, Joaquim Serra sonhou com a velocidade horizontal em Quem tem boca vai a Roma, e com a vertical em O salto de Leucade. Com certeza, o grande maranhense pensava na escrava inocente enforcada, ao escrever essa peça.

Joaquim Serra nasceu em São Luís, no ano de 1838, e faleceu no Rio de Janeiro em 1888, ano da abolição da escravatura e com quase dois anos a menos que a idade que tenho hoje.

Já Domingos Chateaubriand, no íntimo, talvez pensasse como La Fontaine. O poeta via na zoologia e na entomologia, parábolas da vida humana, em seus aspectos belos ou sombrios.

Domingos Vieira Filho estudava o folclore como alguém que analisa a alma do povo.

Falar de Serra e Chateaubriand faz lembrar de dois outros ilustres membros desteInstituto: os professores Ronald de Carvalho e Mário Meireles.

Enquanto Ronald de Carvalho ensinou Geografia, apontando para a História, Mário Meireles ensinava História, focando a base física das civilizações. A História e a Geografia entrosam-se, abraçam-se, influenciam-se, revelam mutuamente seus segredos.

Lendo-se as crônicas de Joaquim Serra, seus poemas, ou suas peças de teatro, mesmo as humorísticas, temos diante de nós um espírito inteligente, culto, otimista, ao mesmo tempo profundamente brasileiro e internacional, cultuador dos direitos humanos e desejoso de ver a democracia reinar de direito e de fato sobre a imensa nação brasileira.

Há um forte laço que une Serra e Vieira. É notável o fato de que, em pleno século XIX, Joaquim Serra era um fervoroso amigo da raça negra, e de se admirar que Domingos Vieira Filho, na década de 50 do século XX, escreveu algo tão notável e reivindicador para seu tempo, em relação ao prestígio dos irmãos de pele de João do Vale.

No livro Folclore sempre, Vieira Filho, professor de Geografia Humana, comenta que em São Luís do Maranhão os brancos aceitam sem reserva a competição do negro e sua consequente ascensão social.

Em Serra, encontra-se a mesma elegância física, mental e literária de Vieira.

Domingos Vieira Filho tanto trabalhou pela cultura do Maranhão, que sua atuação fez surgir a Secretaria de Estado da Cultura, sucessora ampliada dos órgãos culturais que ele dirigiu.

Em seus escritos, ele cita autores de muitos países e dá sempre a origem dos fatos que estuda e não apenas a etimologia dos nomes.

Dizem que o semblante reflete a pessoa. Os títulos dos livros são como os semblantes dos escritores, revelando sua alma.

É notável o fato de Serra ter intitulado dois de seus escritos assim: Epicédio à Morte de Odorico Mendes, e A Capangada. Capangada é um termo bastante popular, e epicédio é uma flor erudita do vocabulário, usada para designar uma ode fúnebre.

Em outros livros, como Um coração de mulhere Os melros brancos,vemos que o mesmo Joaquim Serra, que foi um enamorado, um apaixonado, vergastava com classe os espertalhões e finórios, como podemos observar no uso e no sentido do termo melro.

Pietro de Castellamare era um de seus pseudônimos, o que revelava seu espírito jocoso e internacional. Traduziu muitos poetas franceses e praticava verdadeira exegese, pois não se cingia à tradução literal: muitas vezes usava expressões um pouco diferentes do original, para ser mais fiel ao pensamento do autor. Algo como, traduzindo o português de Portugal para o brasileiro, a melhor versão de rapariga ser moçadonzela.

Joaquim Serra nasceu quando espocou a revolta da Balaiada, pouco antes de ser declarada a maioridade de Dom Pedro II.

Como se sabe, Serra traduzia fluentemente do francês, conhecia o alemão, sabia latim, usou um pseudônimo italiano, estava por dentro de toda a etimologia grega de nossa língua culta e bela.

Em São Luís, era comum ouvirem-se pelas ruas e praças conversas em grego, latim, francês e alemão. Em sua fazenda de Itapecuru, Gomes de Sousa lia Goethe, no original. Sousândrade ensinava grego. Sotero era exímio em línguas.

Assim se explica porque Joaquim Serra possui um estilo tão atávico, um pensamento tão claro, uma pedagogia tão didática no escrever, conversar, planejar e agir.

Explica-se muito mais: por que aquela São Luís era chamada de Atenas Brasileira.

 

Meus caros amigos:

Estou muito feliz, honrado e emocionado. Vivo um momento importante em minha vida, um momento muito gratificante, pois a Geografia sempre me fascinou e a História sempre foi o meu maior fator de aprendizado para a vida.

Acredito piamente que nós não somos apenas nós, mas sim, nós e mais as nossas circunstâncias e nossas consequências, nós e a época em que vivemos, nós e as viagens que fazemos, os mares que singramos, as histórias que lemos e aquelas que escrevemos.

Entusiasmo-me com a época em que vivo, assumo-ade pleno e com ela me identifico. Mas devo dizer que adoraria ter, como tenho certeza que todos vocês também, uma máquina do tempo, que me permitisse passar a limpo, se não todos, mas muitos dos acontecimentos da História.

Sobre mim há pouco a dizer, mas que fique registrado – para que no futuro, quando alguém, quem sabe, for pesquisar quem teve a honra de representar Joaquim Serra e suceder Domingos Chateaubriand, Domingos Vieira Filho e Kalil Mohana na Cadeira 47 deste Instituto – que Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel era o primogênito de Nagib Haickel e Clarice Pinto Haickel, e pai de Laila Farias Haickel, e quando aqui tomou posse, era o amantíssimo marido de Jacira, mais bela que a lua cheia, mais doce que o mel, mais forte que o jatobá.

Que se diga que esse dito Joaquim era membro das Academias Imperatrizense e Maranhense de Letras, e que tentava, com afinco e dedicação, ser contista, poeta, cronista e cineasta.

Que se diga que esse maranhense, por mais de trinta anos, militou na Política, ora como Deputado Estadual, ora como Deputado Federal e Constituinte, ora como Secretário de Estado. Que sempre soube a hora certa de entrar e de sair de cena.

Que, por fim, se diga, principalmente por quem for um dia suceder este Joaquim, que ele foi acima de tudo um homem feliz, que teve a sorte de fazer o de que gosto e de gostar do que fez. Um homem para quem as jornadas foram passeios, e as guerras nada mais que juvenis jogos de basquete.

Balzac dizia que “é um sinal de mediocridade ser-se incapaz do entusiasmo”. Eu não desejo ser medíocre e “como jamais se faz algo de grande sem entusiasmo”, no pensar de Ralph Emerson, eu vivo com entusiasmo os momentos que me rodeiam, envolvo-me e faço parte deles sempre fugindo da solidão.

Nos idos do ano de 1682, Bartolomeu Bueno da Silva, hoje conhecido como o Anhanguera, afirmava como bandeira de sua vida: “Ou encontro o que procuro, ou morrerei na empreitada”.

Sou discípulo desse pensamento e herdeiro dessa vontade, e é talvez por isso que tenha chegado até aqui. É também por isso que vou continuar com vocês até onde a nossa história nos levar.

Muito obrigado.

NA SESSÃO DO DIA 15 DE DEZEMBRO DE 2010

(Discurso de despedida da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão)

O Sr. Deputado Joaquim Haickel – Sr. Presidente, senhoras e senhores deputados, minhas senhoras e meus senhores, com esse discurso encerro hoje um capítulo de minha vida.

Despeço-me deste mandato que muito possivelmente poderá ser o último que exercerei nessa augusta Corte legislativa.

A menos que mude a forma de se fazer eleições em nosso estado, a menos que se mude a legislação eleitoral de nosso país, não pretendo mais me candidatar a mandato eletivo direto, salvo no caso de tentar representar o meu partido, o PMDB, o nosso estado e o nosso país no Parlamento do Mercosul.

A minha trajetória nessa Casa iniciou-se quando eu tinha 18 anos, em 1978, e passei a compor seu quadro de assessores, cargo que exerci até 1979, quando meu pai tomou posse como deputado federal e fomos morar em Brasília.

Quando voltei a morar no Maranhão, passei por um magnífico estágio como oficial de gabinete do governador João Castelo. Depois fui requisitado pelo Chefe da Casa Civil de então, José Burnet, para funcionar como seu chefe de gabinete. Ali dei continuidade a meu aprendizado político, iniciado quando eu ainda era muito criança e acompanhava meu tio José Antônio Haickel e meu pai em suas primeiras campanhas políticas.

Comecei a aprender política ouvindo e vendo. Eu vi e ouvi muitas conversas políticas. E o melhor disso é que elas tinham como protagonistas, entre outras, figuras da estatura de Henrique de La Roque, Clodomir Milet, Alexandre Costa, Pedro Neiva de Santana, Nunes Freire, Ivar Saldanha e, é claro, José Sarney.

De lá para cá, tudo aconteceu muito rápido, como num sonho. Um sonho intenso, emocionante, eletrizante, cheio de aventuras, como um filme com final feliz, graças aos produtores, aos diretores, aos atores, graças à família que tive a sorte de possuir e aos amigos que tive o privilégio de conseguir durante essa jornada.

O tempo, o momento, é um fator importante em toda história e nessa não poderia ser diferente. Meu tempo aqui foi magnífico. Ingressei na política em uma época sensacional, convivi com pessoas fantásticas e pude aprender com elas tudo aquilo que pratico hoje.

Já tive a oportunidade de comentar que a legislatura de 1983 a 1987 nessa Casa foi uma grande legislatura, quem sabe a melhor da segunda metade do século XX, ou até mesmo de todo ele, e eu tenho orgulho de dizer que fiz parte dela, que eu era o mais jovem entre os deputados de então. Naquela legislatura, eu fui o mais jovem deputado estadual de todo o Brasil.

Eu era um neófito, como bem me adjetivou em um antológico discurso o deputado Carlos Guterres. Em tom pejorativo, certo de que eu não sabia o significado da palavra e achando que eu iria me ofender com a forma agressiva com que ele discursava, dirigindo-se a mim, esbravejando e gesticulando.

Realmente fiquei atônito: “Carrinho” era amigo de meu pai, era pessoa de dentro de minha casa! Achei estranha a forma como ele me tratou, mas como eu não sabia mesmo o que significava a palavra neófito, achei melhor não retrucar, mas devo ter ficado com uma cara esquisita e sem graça. Controlei-me e não devolvi a aparente agressão. Depois, no final do discurso, ele me explicou sorrindo que neófito era alguém novato, inexperiente, que eu não me ofendesse com aquilo, que aquele era meu batismo de tribuna, que eu havia sido aprovado no teste e aceito naquela irmandade.

Já disse antes e repito agora: participar daquela legislatura me serviu como um mestrado, pois o que mais tinha no plenário de então eram mestres, dos quais citarei apenas alguns: José Bento Neves, Gervásio Santos, Celso Coutinho e Raimundo Leal.

Se no meu primeiro mandato fui logo fazendo mestrado, o seguinte me valeu como doutorado. Ter sido deputado federal constituinte e ter podido participar da discussão, elaboração e votação de nossa Carta Constitucional foi para mim o mesmo que ter frequentado os bancos da mais prestigiosa universidade do planeta. Lá não tive apenas colegas, tive professores, pois muitos deles eram autores de livros nos quais estudei, como Afonso Arinos de Melo Franco e Florestan Fernandes.

Além disso, pude me tornar amigo de pessoas extraordinárias como Artur da Távola, Wladimir Palmeira, Aécio Neves, Roberto Campos, Michel Temer, Nelson Jobim, Delfim Netto e Sandra Cavalcante, e ter sido colega de dois futuros presidentes da República: Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva.

Faço esse relato, porque, em momentos de despedida, precisamos lembrar do caminho percorrido e dos amigos que nele encontramos.

Deixei de ser candidato em 1991, porque queria ajudar meu pai a realizar o sonho de ser presidente desta Casa. E o fiz. Ele foi, mesmo que por breves sete meses, o suficiente para ter marcado época e se tornado um dos mais benquistos e respeitados presidentes da história deste Parlamento, tanto para seus pares quanto para os funcionários, que ainda hoje, 17 anos após sua morte, ainda se lembram dele com carinho e saudade.

Quando resolvi que não mais seria candidato a deputado, minha mulher me perguntou duas coisas: se eu estava preparado para isso, e de que mais eu sentiria falta quando não fosse mais deputado.

Alguém pode imaginar que sentirei mais falta do poder que emana do cargo e dos salamaleques decorrentes dele. Dos convites para as solenidades, das pompas e circunstâncias. Dos proventos. Mas quem me conhece – e me conhecer não é difícil – quem me conhece, como minha querida amiga Helena Heluy, sabe que eu não sentirei falta de nada disso. Do que sentirei falta mesmo é desse plenário. Dessas tribunas, dessas bancadas, dessas cadeiras, desse corredor central por onde caminhei quilômetros, entre uma conversa e outra, entre um acordo e uma votação, entre uma questão de ordem e um aparte.

Vou sentir falta do convívio com os colegas deputados, vou sentir falta do convívio com os funcionários desta Casa.Alguns deles estão comigo nessa lida desde 1983, quando pela primeira vez entrei aqui como deputado.

Sentirei falta dos olhares de cumplicidade e aquiescência das taquígrafas, as primeiras a interpretarem minhas palavras. Sentirei falta das conversas ou mesmo das discussões com Verde, Gonzaga, Bráulio e Maneton sobre o funcionamento da Casa. Sentirei falta do bate-papo gostoso, antes do início das sessões, com jornalistas e radialistas que cobrem nosso trabalho. Sentirei falta dos excelentes colaboradores da Consultoria Legislativa, entre os quais citarei apenas Lula e Aristides.

Sentirei muita falta, sim! Sentirei falta de tudo. Do que é bom e até do que não é tão bom, como a tensão causada pelo acaloramento dos debates, das discussões. Sentirei falta até do descontrole de alguns colegas.

Em minha modesta opinião, os últimos quatro anos foram os mais difíceis jamais vividos em nosso estado. Nessa Casa, sentimos os reflexos e os efeitos disso.

Pessoalmente, para mim, foram anos de grande realização, tanto profissional quanto pessoal.

Sinto que cumpri a contento minha missão enquanto parlamentar. Nos últimos anos, eu fui membro titular das duas mais importantes comissões permanentes dessa Casa, a de Constituição e Justiça e a de Orçamento e Finanças. Presidi as mais importantes comissões especiais desta legislatura, uma que atualizou a nossa Constituição e outra que reformou nosso Regimento. Além disso, apresentei importantes requerimentos, indicações, projetos de resolução e de lei, entre os quais os que implantam em nosso estado o incentivo à cultura e ao esporte. Se nada mais tivesse feito em toda minha vida como parlamentar, ter feito apenas isso teria sido suficiente.

A partir do ano que vem, sem a minha presença nem a do Deputado Edivaldo Holanda nesse plenário, o Deputado Ricardo Murad passará a ser o mais antigo deputado deste Parlamento, pois nós três somos os últimos remanescentes da legislatura de 1983-87. Peço a ele que, ladeado pelo deputado Arnaldo Melo, que tem o maior número de eleições consecutivas nessa Casa do Povo, e a outros colegas que continuarão por aqui, que façam o possível, e tentem fazer até o impossível, para que o Legislativo maranhense seja um poder do qual o nosso povo realmente se orgulhe.

Nesses 28 anos de vida pública, tentei fazer isso, tentei fazer com que, se não todo o povo de meu estado, pelo menos aquele povo que me confiou a procuração de representá-lo, pudesse se orgulhar de mim, de meu trabalho, de minhas ações.

Gostaria de poder dirigir uma palavra de agradecimento a todos os funcionários dessa Assembleia Legislativa, individualmente, a um por um, pelo carinho para comigo durante todo esse tempo. Mas como isso me seria impossível, dirijo-me simbolicamente a minha comadre Alda, que começou a trabalhar aqui comigo 28 anos atrás: obrigado por tudo que você, que vocês fizeram por mim nesses anos que passamos juntos.

Gostaria de me dirigir aos meus colegas deputados, também de um a um. Isso não é possível. Por isso espero que os não citados sintam-se representados pelos que nominarei:

Deputado Rubens Júnior: V. Exa., que hoje é o mais jovem e na legislatura que vem não mais o será, faça com que a confiança e o respeito de seus eleitores possam simbolizar o sentimento de todo nosso povo. Aja com sabedoria, com paciência, com pertinácia, com consciência, com coerência, todas essas coisas muito fáceis de relacionar em um discurso, mas muito difíceis de colocar em prática no dia a dia da política. Dizendo isso a V. Exa.,dirijo-me também aos novos deputados que tomarão posse em 1° de fevereiro de 2011.

Gostaria de me dirigir conjuntamente às deputadas Cleide Coutinho, Eliziane Gama, Graça Paz e Fátima Vieira, que me prestigiaram de maneira muito especial nesses quatro anos, recorrendo a mim sempre que tiveram alguma dúvida, sempre que precisaram de alguma informação ou necessitaram de algum aconselhamento. Muito obrigado pela confiança que demonstraram em mim. Ter-lhes ajudado, dentro de minhas modestas possibilidades, muito me honrou.

Ao deputado Carlos Braid, a quem chamo de tio, que era amigo-irmão de meu pai, tão próximo dele, que foi praticamente em seus braços que meu pai faleceu, obrigado pelas luzes de sua vivência.

Deputado Milhomem, de quem fui o primeiro-secretário naquela Mesa Diretora que começou a mudar os destinos desse poder, fazendo com que ele passasse a ser mais ouvido e mais respeitado, fazendo com que os deputados, individualmente, fossem realmente valorizados, com que esse Poder passasse a ter a representatividade que a Constituição lhe reservou e que há muito não era exercida. Esse Deputado Milhomem, que não é uma pessoa fácil, e ele não faz mesmo muita questão de sê-lo, nesses anos de convivência, sabendo eu dar os descontos devidos, tem servido de modelo para mim. Olhando para ele, consigo intuir qual deveria ser a posição e a reação de meu pai, que se parecia um pouco com ele. Muito obrigado, Tatá.

Deputado Marcelo Tavares, meu amigo pessoal, mas com quem não me alinho eleitoralmente. Ele presidiu essa Assembleia por dois anos, e o fez sempre de maneira correta, sem jamais ultrapassar o limite da moral, e de quem sempre cobrei apenas um melhor e mais efetivo funcionamento da Casa, desse prédio e de todos os mecanismos de que ele dispõe e que faz dele, hoje, o melhor prédio público de nosso estado, mas que ainda carece de vida, de identidade, de operacionalidade.

Gostaria de me dirigir também aos funcionários de meu gabinete, na pessoa de meu assessor-chefe,Waldimir Filho, o Vadeco. Eles, nesses anos todos, me deram o suporte indispensável para que eu realizasse o meu trabalho. Muito obrigado por tudo.

Para o final fica o agradecimento aos meus amigos prefeitos, vereadores, chefes políticos, cabos eleitorais, líderes comunitários, pessoas do povo, que em algum momento estiveram comigo: dos municípios que contribuíam para as minhas eleições com uma imensa votação, como São Domingos ou Primeira Cruz, até municípios onde obtive uma pequena votação, como Icatu ou Guimarães.

Muito obrigado pela confiança dispensada a mim. Saibam que, enquanto seu deputado, sempre procurei fazer o melhor em defesa dos seus interesses.

A amizade, o carinho, a confiança e o respeito que vocês em mim depositaram nesses anos de convivência serão sempre honrados por mim.

Um grande estadista disse uma vez que na política só existe a porta de entrada. Que dela não há saída. É verdade. O político verdadeiro, aquele que faz política por convicção, por idealismo, nunca deixa a política,e como acredito que eu seja um dessa espécie, que parece estar em extinção, não vou sair da política, apenas não exercerei mandato eletivo.

Quando comecei esse discurso, disse que com ele encerrava um capítulo de minha vida, que era uma espécie de despedida, mas agora depois de quinze laudas com letras no corpo 16 e em espaço dois, ao chegar ao final de minha fala, vejo que ela se transformou na verdade em um grande agradecimento, por isso acredito que o melhor a fazer agora seria dizer simplesmente obrigado.

Muito obrigado mesmo. Muito obrigado a todos. Muito obrigado por tudo.

 

FRASES

Um homem está apaixonado quando

deixa de pensar em tudo o que deseja fazer com todas

e só pensa no que quer fazer com uma.

***

A verdade é como a gravidade. Elas sempre impõem sua força.

***

A decolagem é o começo do pouso.

***

É preciso ter muita coragem para querer ser feliz de verdade,

para enfrentar as dores que se interpõem entre nós e ela.

***

A sensação plena do poder é diretamente proporcional

a capacidade de se desejar apenas e tão somente

aquilo que realmente se pode conseguir.

***

A morte, normalmente, nos absolve da grande maioria

de nossos pequenos pecados.

Dos grandes, a absolvição vem pelo castigo da vida eterna.

***

Ao conseguirmos tudo o que queremos,

descobrimos que ainda nos falta alguma coisa.

***

O pessimista, quando se pergunta se é feliz, responde que não.

O realista conclui que o poderá ser, às vezes.

O otimista não tem tempo de se indagar tal coisa.

***

A vaidade maior não é se achar bonito, ou inteligente, ou rico.

A maior de todas as vaidades é reconhecermos nossas deficiências.

***

De pouco adianta a viscosidade vermelha e nobre do sangue familiar, comparado ao impuro, sem cor e honrado suor fraternal

conseguido no corpo a corpo de uma renhida luta.

***

De tanto guardar algumas coisas, acabei ficando somente com a sua lembrança.

***

Quando você estabelece o tipo de verdade que quer ouvir,

nesse momento você estabelece que o que você quer ouvir

pode ser uma grande mentira.

***

No final vamos acabar descobrindo que todos os personagens,

de qualquer história, de uma forma ou de outra, uns mais, outros menos, têm sua cota de culpa e de responsabilidade

no desfecho do enredo que protagonizam.

Seja como ator principal ou como mero figurante,

uma coisa é certa:

a parte maior da culpa cabe sempre a quem detém o poder,

a quem manda, ou a quem delega esse mandato.

Dessa culpa ninguém pode fugir.

***

Antes eu pensava que a vida era uma mera questão de contabilidade.

Era só colocarmos as coisas em suas devidas colunas de créditos e débitos.

Hoje, acredito que, além de balanço contábil,

devemos fazer também uma boa auditoria,

e até, em alguns casos, contratarmos uma competente consultoria.

***

A arte é a única coisa que não é corroída pelo tempo.

***

Quando se encontra o que se procura

as outras ofertas perdem o seu valor.

***

O melhor político não é necessariamente o mais poderoso,

o mais popular, o mais financiado.

O melhor político é aquele que sabe usar melhor

os instrumentos que estejam ao seu dispor,

causando o menor dano possível.

 

ROTEIROS CINEMATOGRÁFICOS

FILÓ DO MALAQUIAS SUMIU

Baseado no conto de mesmo nome

Colaboração

Arturo Saboia

* * *

Roteiro

Créditos iniciais do filme

01 – Interna / Dia / Delegacia de Polícia

 

TRAVELLINGnuma pequena sala de delegacia de aparência bastante decrépita e desorganizada. Há papéis espalhados pelas mesas, os ventiladores funcionam parcamente e as paredes apresentam elevado estágio de arruinamentoe há marcas de cupim em diversas localidades da sala.

Um homem, 40 anos, franzino e trajando um terno surrado, está sentado em sua escrivaninha situada no meio da sala e fala ao telefone. Sua camisa está banhada em suor e seu rosto transpira, de modo a torná-lo ainda mais reluzente. Ele se utiliza de uma pasta de processo para se abanar e espantar as moscas, que insistentemente se aproximam dele.

 

Delegado

(enfadado, falando ao telefone)

…A senhora está me dizendo que no momento da compra, o papagaio já não movia nenhuma pena…?

Espera.

Delegado

…Voar então, nem pensar…

Espera.

Delegado

…Hmm…Imagino que seja inútil eu perguntar se esse papagaio balbuciava alguma palavra!

Espera.

Delegado

…Sei… Duro como pedra…

Espera.

Delegado

…É, minha senhora… Lamento dizer que essa compra definitivamente não foi um bom negócio.

Espera.

Delegado

… Vai ficar difícil fazer alguma coisa, nesse caso! Uma hora dessas, esse sujeito que lhe vendeu o papagaio já deve estar bem longe!

Espera.

Delegado

(exaltado)

Epa!!! Calma aí, minha senhora… Assim a senhora já está me faltando com o respeito!

Espera.

Delegado

A senhora se acalme, que vou ver o que eu consigo fazer! Todas as providências possíveis serão tomadas imediatamente! Não se preocupe! Passar bem!

 

O Delegado bate com força o telefone no gancho e suspira profundamente, olhando circunspectoa sua sala, no mais completo estado de marasmo. (Obs.: a câmera faz o trajeto do olhar). Ele olha para uma gaveta acoplada à sua escrivaninha e retira um calhamaço de papéis. No meio dessa pilha de papéis, ele retira uma revista, em cuja capa vemos uma mulher nua, e começa a folheá-la, enxugando com um lenço o suor que escorre de seu rosto.

 

Voz OFF

Bom dia!

O Delegado, num susto, tenta repor desajeitadamente a revista na gaveta de onde a retirara, e olha para o sujeito baixo e franzino, Malaquias, aparentando uns 60 anos, parado no limiar da porta de sua sala.

Delegado

Bom dia! Pois não?

Em que posso ajudar?

Malaquias

É aqui que eu devo dar queixa de um desaparecimento?

Delegado

(surpreso)

E foi quem que desapareceu?

Malaquias

Foi a Felomena, dotô Delegado… Eu acho que a velha Felomenaindoidou de vez!

O Delegado se levanta, demonstrando bastante interesse no assunto, e se aproxima de Malaquias, de modo a fazer com que ele se sente.

Delegado

(ensimesmado e aparentando grande satisfação)

Um desaparecimento?! É real?! Finalmente um caso digno de minha altura e competência!

Os olhos do delegado brilham de alegria, e depois ele parece voltar a si.

Malaquias está sentado em frente à mesa do Delegado, e este, por sua vez, retorna à sua cadeira. Os dois ficam sentados frente a frente.

Delegado

Como é mesmo seu nome?

Malaquias

Malaquias Bento da Cruz, ao seu dispor.

Delegado

Pois muito bem, seu Malaquias, sou o Delegado Juca. Conte-me melhor essa história da Felomena!

 

Malaquias se compraz ao começar a falar de Filó.

Malaquias

Ah, dotô, a Filó tinha os quadri mais bunito de todo o município, e a pele da Filó, dotô, era macia como seda. Adorava alisar ela, e ela adorava. Ficava toda trêmula. E os óios, os óios da Filó…dotô, eram de um negro todo especiá. Posso jurar que ela nunca foi traiçoeira, não! Nunca foi arisca!

O Delegado escuta atentamente Malaquias não consegue disfarçar seu contentamento.

Malaquias

Dotô! Quando me alembro da língua de Filó, fico todo arrepiadim… ela gostava de passar a língua in meu pescoço, no meu gurgumim traseiro…

Malaquias fecha os olhos, embalado pela evocação de suas lembranças.

Malaquias

Aquele rebolado dela não me sai da cabeça em nenhum instante! Aquele seu reboladinho…Era como se calçasse sandália alta e um vestido justo! Seu bailado era de uma belezura! Meu Deus!!

O Delegado agora fica visivelmente constrangido com as palavras e expressões sensuais de Malaquias. Levanta-se de sua cadeira,interrompendo-lhe o relato.

Delegado

Eu sou um grande adepto da precisão meticulosa dos relatos, para elucidar os casos mais difíceis que sempre se apresentaram em minha extensa e meritória carreira servindo à comunidade, seu Malaquias! Mas eu prefiro que o senhor me poupe desses detalhes mais íntimos. O tempo “ruge”. Conte-me logo como foi que a Dona Felomena desapareceu.

 

Malaquias se encolhe na cadeira tomado por uma grande sensação de desalento.

 

Malaquias

Ela tomou dori, dotô, sumiu que nem deixou rastro!

Delegado

Mas ela foi embora e nem disse nada?

Assim sem mais nem menos?

Malaquias

Pois é… Uma coisa eu sei, dotô: ela deu nos pé onte, antes daquela chuvarada… Essa é a única forma de se explicar…desde então eu só fico pensando na Filó e começo a ficar com uma vontade…montar nela, naquele seu corpo macio e gostoso…

Delegado

(cortando-o peremptoriamente)

Esse parte pode pular, seu Malaquias. Temos que agir logo, se ela foi embora ontem, não deve estar muito longe! O senhor não tem ideia de onde ela possa estar? Um irmão, uma tia, um parente?

Malaquias

Não, não… Ela só tinha eu nesse mundo, a tadinha…

Delegado

Mesmo assim vamos achá-la pro senhor. O senhor deve estar sentindo muito a sua falta, não?

Malaquias

E como tô, dotô…

O Delegado se aproxima de Malaquias, infla o peito em gesto altivo e varonil, e diz com uma voz que beira a solenidade, levantando um dos braços como se estivesse brandindo uma espada. Seu discurso vai gradativamente se inflando de empolgação.

Delegado

Mas o senhor pode ficar tranquilo, seu Malaquias, eu prometo pro senhor, juro pela bênção de Deus que logo você terá de novo sua Filó em seus braços. O mundo inteiro irá se emocionar com esse reencontro de vocês! Eu a trarei de volta, custe o que custar! Nada irá me acabrunhar diante de tão intrépida e auspiciosa aventura. Tal qual um infante que se lança em epopeias jamais contadas pela mais exímia das narrativas, para resgatar a mais tenra das donzelas acossada em tão rude e ríspido mundo que não é digno de sua tamanha ternura e singeleza!

Malaquias olha-o com um olhar atabalhoado, e o Delegado, percebendo sua súbita empolgação, tenta, de forma um tanto envergonhada, se recompor.

 

Malaquias

Muito bem, dotô! Agradeço muito! Principalmente se tudo isso que o senhor disse aí é pra trazer minha Filó de volta!

A coitada não comeu e deve estar morrendo de fome!

Delegado

O senhor tem razão, seu Malaquias! Devemos correr contra o tempo! Dê-me licença um instante, que eu vou colocar o senhor em contato com meu pessoal, pra que o senhor dê uma descrição mais detalhada de Dona Felomena!

 

O Delegado se dirige a um canto da sala, onde se um encontra uma antiga parafernália eletrônica.

Delegado

Atenção, todas as viaturas! Atenção, todas as viaturas! Câmbio!

Ele puxa o fone e fala.

Não há nenhum retorno, apenas um pouco de estática.

(Irritado)

Ô Tonhão e Maneco! Magote de sem-vergonhas! Atende logo isso aí!

Voz OFF

Na escuta, Chefe! Estávamos no encalço de um ladrão de bicicleta aqui no mercado, Chefe!

Delegado

Deve ser o Chiquinho da Gorda! Depois a gente pega ele! O caso é o seguinte: temos aqui uma denúncia de desaparecimento. Pode ser que tenhamos em nossas mãos o primeiro sequestro de nossa região! O denunciante vai dar a descrição da desaparecida!

 

Voz OFF

Positivo! Na escuta!

 

O delegado passa o microfone para Malaquias.

Delegado

A palavra é toda sua, seu Malaquias.

 

Malaquias se aproxima do microfone e se ajeita no banco. Faz um gesto para o Delegado para saber se já pode começar. O Delegado anui com a cabeça, na expectativa.

Close num dos rádios de viatura da Polícia. Ouvimos apenas a voz em off de Malaquias.

Malaquias

Bem, pessuá, minha Filó é maiada, branca e marrom. Tem chifre curto, é robusta e gorda. É holandesa. Tem quase uma tonelada. É meiga, sensível. Tenho pressa de encontrá ela…ham, sim…ia me esquecendo, ela tá precisando de um reforço contra a aftosa, e também passar bicarbonato de sódio nas tetas que a Claudete feriu em sua última refeição… Claudete é uma bezerra que a mãe morreu e a Filó cuidou dela.

 

FIM

 

O VISITANTE

Baseado no conto de mesmo nome

Colaboração

Francisco Colombo

Roteiro

1. INT. NOITE. BAR.

Ambiente lotado. Grupo de Pagode tocando. Mulheres e homens cantam e dançam, fumam e bebem. Pedidos são feitos. Garçons andam de um lado pro outro. Carregam bandejas cheias e vazias, trazem contas. O balcão está apertado.

João, aproximadamente 40 anos, é um desses garçons. Camisa branca e calça escura, ele é magro, um tipo comum, cabelos curtos. Nem bonito e nem feio, mas com algo que atrairia uma mulher. Encosta-se no balcão, faz um pedido e aproveita para descansar a bandeja. Está abatido, talvez pelo cansaço do trabalho. Enxuga-se com uma toalhinha. Olha para o relógio de pulso.

 

2. INT. NOITE. COZINHA / SALA.

A casa é pequena, simples, mas toda arrumada. Faltam muitos eletrodomésticos. Tudo está em seu devido lugar.

Maria está sozinha, à espera de João. Ela é jovem, tem pouco mais de 25 anos. Bonita, tem também um corpo escultural. Veste-se apenas com um baby-doll barato. Está descalça. Abre a geladeira velha e toma água. Vai para a sala e se deita no sofá. Olha para o teto. Levanta e liga a televisão, também bastante velha.

 

3. INT. NOITE. SALA.

A televisão continua ligada. Maria está cochilando no sofá. O baby-doll já não cobre tão bem o belo corpo, insinuando as curvas sensuais. Ouve-se o ruído de chaves e da porta batendo, fechada. João aparece e contempla a mulher apenas com a luz da televisão. Liga a luz da sala, desliga a TV e pega a mulher nos braços. Ela sorri levemente, e os dois vão para o quarto.

 

4. INT. DIA. SALA.

Maria está varrendo a sala. Ouve-se uma batida à porta. Gritam o nome de João, que ainda está deitado no quarto.

O homem, do outro lado, é Abel, um interceptador de mercadorias roubadas, que as revende por preços mais vantajosos. Jovem, tem aproximadamente 30 anos. Atraente, veste-se bem e tem os olhos esverdeados.

Maria

Quem é?

Abel

É o Abel. Quero falar com João. Ele está?

Maria

Está sim, mas ainda…

João

Pode abrir, Maria. Deixa ele entrar!

Maria abre a porta. Abel agradece apenas com um aceno. Aproveita e aprecia Maria por inteiro e entra, chamado por João.

João

Entra,rapá. Aqui.

Maria acompanha Abel com o olhar, ainda segurando a vassoura. Ele dá uma última olhada antes de entrar no quarto. Ela desvia o olhar.

5. INT. DIA. QUARTO.

João

E aí, cadê o som?

Abel

Pois é. Foi por isso que vim aqui. A merreca não deu!

João

Qual é, meu? Tu passa três semanas, nada de som, e ainda quer mais dinheiro? Puta que pariu. Que papo mais torto!

Abel

É a crise… O dinheiro vira fumaça… Mas me diz uma coisa: quem é essa morena aí, toda certinha, que abriu a porta pra mim? Ela dá uns traços de Elsa!

João

Porra, é a minha mulher, cacete!

Abel

Hummmmmm… Casado? E a velha Elsa?

João

Carta fora do baralho. Fala baixo que Maria é prima dela.

Abel

Caminho livre então? Maravilha!

João

Nada disso! Com o casamento, ela foi promovida. Agora é a minha amante oficial!

Abel

Pô, João, tu quer todas? Mas daquela vez que tu queria o relógio, a gente fez jogo na Elsa, né? Ou tu tá esquecido agora?

João

Isso é passado. O que importa agora é o futuro.

Abel

Futuro? Então tá bom. Tenho um proposta pra ti. Te dou o som, sem necessidade de mais grana. Tu ainda leva uma televisão. Novinha, que essa aí deveria tá num museu! Topa?

João

Claro, porra!

Abel

Mas agora vem a minha pedida! Eu não quero mais a Elsa. Quero essa tua mulher.

João

Tu tá doido, cara? Vá se foder! Claro que não…

Abel

Rapá, eu sei que tu é um negociante. É preciso agarrar as oportunidades. Pra tu ver que não tô de brincadeira, ainda de dou mais uma geladeira, dessas grandonas, duplex! A tua tá baleadona. Tua patroa vai adorar…

João

Porra, Abel, tu é foda! Desse jeito fica difícil… Cara, eu topo, mas quero mais duzentinho… tenho que pagar umas dividas!

Abel

Agooooraaaaaaaaaaa!!!

João

Como é que tu vai fazer? Tem que ser de um jeito que não dê problema!… E nada de deixar minha mulher toda marcada como tu fez com a Elsa, porra.

Abel

Não te preocupa. Vai ficar tudo limpeza!

6. INT. NOITE. SALA.

Maria está à vontade em casa. Usa apenas baby-doll e calcinha. Calçada apenas com um chinelo. Batida à porta. Maria, sonolenta, se aproxima.

Abel

João, abre aqui. Sou eu.

Maria, com um leve sorriso, entreabre a porta.

Maria

João não tá! Já foi pro trabalho.

Abel

Eu sei. Foi por isso que vim.

Abel tira do bolso um canivete tipo suíço. Maria vê a arma e permanece imóvel. Já não sorri. Ele empurra a porta e entra, para depois fechá-la. Corta uma das alças do baby-doll. Ela apenas mira os olhos de Abel. Abel acaricia os ombros de Maria. Beija-lhe o pescoço. Maria fecha os olhos. Abel guarda o canivete no bolso. Abel toca um dos seios de Maria. Beija a boca. Primeiro, timidamente. Depois, com mais intensidade. Abel se ajoelha. Beija os pés de Maria, sobe pelas pernas. Levanta-se e toma-a nos braços. Já sabe o caminho do quarto e é para lá que vai.

 

7. INT. NOITE. BAR.

João está trabalhando. Sua muito. Enxuga-se. O movimento no local é grande. Olha repetidamente para o relógio. Aproxima-se do balcão. Faz o pedido. Enxuga-se novamente. Joga a toalha no balcão. Suspira. Pede água. Toma um gole. Põe o copo no balcão e olha de novo o relógio. Apanha a tolha e caminha em direção a um cliente, que numa mesa, o chama. Ele vai à mesa. Princípio de discussão.

 

8. INT. NOITE. QUARTO.

A janela está aberta. Lençol no chão. Roupas também. Abel está deitado com Maria, sorridente. Abel a acaricia. Levanta-se, veste-se vigiado pelo olhar de Maria, que junta o lençol e cobre-se. Trocam um último olhar. Abel vai embora. Maria fecha os olhos. (Obs.: as cenas 7 e 8 podem ser alternadas na montagem, o que causaria um efeito de suspense).

 

9. INT. NOITE. SALA.

Maria está na sala, de baby-doll. Uma das alças, a que fora cortada, agora com um nó. Som de chaves abrindo a porta. João entra, desconfiado. Maria chora.

 

João

O que foi, mulher?

Maria

Um homem veio aqui. Pensei que fosse alguém conhecido, a voz pareceu familiar. (Soluça).

João

E aí? Aconteceu alguma coisa?

Maria

Ele empurrou a porta e entrou. Rasgou a alça da minha camisola.

(Volta a chorar).

João

Quem? Quem foi o desgraçado? Ah, se eu não mato esse vagabundo!

Ele te fez alguma coisa?

Maria

Ele… ele me forçou… ele me forçou…

João

E como é esse desgraçado. Vamos, mulher, diz logo. Peraí, vamo na Polícia.

Como ele é?

Maria

Eu não sei direito! Tava escuro.

João

Como não sabe? Que porra é essa? Não olhou pro homem? Não viu a cara dele?

Maria

Não. Não consegui ver nada. Fiquei cega… Ai, meu Deus!… Acho que ele tava com um capuz, uma máscara.

João

O olho do filho da puta, não viu nem o olho dele?

Maria

Vi. Isso eu vi… Era, parece que era… avermelhado. Parecia duas brasas!

João

Como assim? Vermelho? Não era preto? Azul? Verde, sim, verde?

Maria

Não. Era vermelho. Tenho certeza que era vermelho.

Maria o abraça. João é carinhoso. Maria sorri. João sorri.

João

Vai lá, Maria. Te arruma. Vamo na Delegacia.

10. INT. DIA. SALA.

Batida à porta. João e Maria estão na sala, sentados no sofá, assistindo à velha televisão. Os dois trocam olhares. Maria levanta e abre a porta.

 

Entregador

Aqui é que mora o Seu João e a Dona Maria? O Abel mandou entregar umas coisas pra eles…

FIM

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