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Ocupante

Joaquim Campelo Marques

  • Cadeira

    24

  • Data da Eleição

    02.06.2005

  • Data da Posse

    20.01.2006

  • Recepcionado por

    José Sarney

ANTECESSOR:

Biografia

Nasceu a 19 de maio de 1931, em Viana-MA, Baixada Maranhense, filho do português Antônio Gaspar Marques e da vianense Sebastiana Campelo Marques.

Joaquim Campelo contava mais de três anos quando a família mudou-se para São Luís, vinda nas lanchas de Seu Aracati Campos. Fez o antigo curso primário no Colégio São Luís Gonzaga, de Dona Zuleide Bogéa, na Rua do Sol.

A partir do curso de Admissão, até o 2º ano do Colegial, estudou no Colégio Maranhense (Marista), de onde saiu no último ano e encerrou o curso médio no Colégio de São Luís,
dirigido emérito educador, professor Luiz de Moraes Rêgo. Seguiu para o Rio de Janeiro em novembro de 1951, com o objetivo de matricular-se em curso superior, visto existir àquela época em São Luís apenas a Faculdade de Direito, que ele não desejava cursar. Retornou a São Luís para cumprir estágio de aspirante a oficial, pois fizera serviço militar no NPOR (Núcleo Preparatório de Oficiais da Reserva), convocado em vista da mais do que remota possibilidade de envolvimento do Brasil na guerra da Coreia. Eram os idos de 1952. Concluído o estágio militar, a guerra estacionada no Paralelo 38 e logo encerrada com a criação de duas Coreias, voltou ao Rio de Janeiro onde fez vestibular para o curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia e para a Faculdade Nacional de Direito, ambas da Universidade do Brasil.

Já no 2º ano dessas duas escolas, de férias em São Luís, candidatou-se a uma bolsa de estudos da Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), da Fundação Getúlio Vargas, que proporcionava remuneração aos alunos pelo Ponto IV, para formação de administradores públicos. Do Maranhão foram selecionados três, o Campelo um deles, que ia manter-se no Rio de Janeiro em três escolas de nível superior duma vezada.
Corriam os anos 50, Juscelino na Presidência e nas ruas a cartilha de libertação do colonialismo capitalista, idem do terceiro-mundismo, idem das ditaduras latino-americanas etc., etc.

Metido na política estudantil, elege-se para o Diretório Acadêmico. Presidente do Diretório três mandatos (no terceiro alcançou mais de 90% dos votos), logo em abril do 3º ano incompatibiliza-se com a direção da escola, que se recusa a integrar-se no sistema de ensino superior brasileiro, do Ministério da Educação. A luta pelo reconhecimento do diploma é causa de uma “expulsão branca” do Campelo: suspensão de três meses e cancelamento da bolsa de estudos. Inviabilizava-se a continuação dos estudos. Abandona o curso e sai em busca de emprego. Na Faculdade de Direito, cancela a matrícula. Forma-se só em Jornalismo.

Trabalhava na Standart Propaganda como revisor e redator, e como redator na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil, para onde foi levado pela mão companheira de Lago Burnett. Nas horas vagas todos os dias (de noite e fins de semana), trabalhava em casa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, de quem havia sido aluno na EBAP, em 1956. Ajudava Aurélio nas correções de provas de português do Colégio Pedro II, em pesquisas e preparo de originais e revisão de provas e, principalmente, na revisão e atualização do Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa, da Editora Civilização Brasileira.

Envolveu-se no trabalho com Aurélio, tendo sido, em maio de 1966, contratado como chefe de equipe que iria elaborar um Grande Dicionário para a Editora Delta Larousse, com Aurélio na supervisão. Em setembro de 1969, rescinde a Delta o contrato com Aurélio. Nada havia sido cumprido por parte de Mestre Aurélio.
É quando Campelo sonha com fazer o dicionário com Aurélio. Convoca e convence alguns integrante da antiga equipe da Delta para a aventura.

Bibliografia

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Discursos de Posse

Eleição e investidura em Academia — e mais, em Casa de gente tão ilustre — são acontecimentos importantes para qualquer mortal.

Assim o foi, há pouco mais de meio século, sem buscar paralelo no registro para o jovem José Sarney, autor àquela altura de sua Canção inicial, e já então ativo integrante de movimentos intelectuais em São Luís, quando eleito para esta glória que “honra, eleva e consola”.

Permitam-­me recordar o caso, que naquele dia ao sabor da eleição —, que depois viriam muitas, e vencedoras! — abriu­-se em festa, lá em Pinheiro, a porta da casa do avô do promissor filho do Maranhão. No entra e sai de gente, alguém achega­se ao senhor Assuero e pergunta a razão daquele foguetório.

— Foi meu neto José que entrou para a Academia.

— O que é Academia? — indaga o curioso.

E o velho, vazado em orgulho e vera simplicidade:

— Não sei bem. Mas é coisa grande!

Pois para mim, esta noite, em minha rasteira condição menos jovem, já bem pouco promissora, garanto-­lhe ser isto coisa mais que grande. Enorme.

Pois quis a suprema vontade que nos rege, em largo gesto de bondade, que eu, do Maranhão viajado há muitos anos, volte hoje para integrar tão elevada sociedade de cultura desta nossa querida terra, e que nos enobrece.

Trago as poucas luzes que me iluminaram o caminho pregresso — talvez para que não tropeçasse em rotas de pedras plantadas surpresas muitas na vida entre os encantos da língua amada, a tal última Flor do Lácio, que esmiucei em seu rico acervo de dizeres, palavras e escritos, alegrando­-me muito ao cultuá-­la e ajudá-­la no seu bom uso e preservação no melhor do seu exercício.

Vim lá de Viana, terra de gente que esta Casa generosa acolheu antes de mim: os Lopes Antônio e Raimundo; Serra, o Astolfo; Gaspar, Carlos; Serejo, Lourival, que nos miram todos do alto da matriz.

Agora sou eu quem por aqui dentro avança no acolhimento dos senhores acadêmicos, atracando ali à porta a canoa da memória da infância carregada dos dias idos e vividos, há muito tempo, na nossa Viana.

Era ela, naqueles entões, uma cidade muito, muito pequena, terra de músico, antiguíssima cabeça de comarca, de gente pasquineira e alfinetadeira, em torno da qual cantavam limpos horizontes campos abertos.

Na seca, o perdido destino das boiadas e do cantar dos carros de bois a perder de vista e ouvidos; na cheia, o lago cobrindo tudo, campo e várzea, a vir beijar a ponta das ruas, os fundos do sobradão onde nasci, mais de dúzia de janelas, que até hoje ainda grita de longe para quem chega de barco, em azulejos amarelo­-luz, a tristeza e saudade de glória e beleza passadas.

Hoje, aquele paraíso da minha infância é quase uma ruína ecológica, como ruína está o sobrado amarelo, e como ruínas também já começam a ser estas lembranças.

São também lembranças para futura arqueologia memorial as que moram aqui perto, em outra casa acima, nesta mesma rua da Paz, onde passei a juventude.

São essas memórias, neste instante, cavalo já selado e bem arreado, para logo eu nelas voltar a cavalgar os sonhos de menino pelos campos pantaneiros da Baixada e pelas ruas acanhadas de São Luís, por entre sobrados, janelas, sacadas de ferro rendilhado, perfiladas em continência e reverência ao tempo navegado.

Hoje, a este porto e campo chego, candeia lume tíbio, mas não apagado, vela também atracada em outros portos velhos, espírito amarrado de volta ao cais nativo desta consagração.

Desejo, de logo, adiantar que, em comum acordo com a prudência de Cícero, atenderei ao que recomendava o eloquente romano a um seu discípulo de retórica: “Sede breve para agradar!”.

Penhor de ingresso na Academia Maranhense de Letras, cabe­-me a um tempo a difícil e honrosa tarefa de suceder à venerada professora Dagmar Desterro e Silva no assento ocupado anteriormente por Joaquim de Jesus Dourado e patroneada pelo imenso Henrique Maximiano Coelho Neto.

Ao percorrer a montante o rio da sucessão histórica desta agora minha Cadeira, reverencio a memória da ilustre educadora, da poeta que cantou a cidade de São Luís, a contista lírica de Dois tempos em compasso de estórias, a teatróloga de Conflito, a ensaísta lúcida Dagmar Desterro e Silva.

Guardo a imagem da conferencista que primou por vigorosa atuação no cenário da cultura maranhense, da atriz bissexta, que por várias vezes iluminou, fugaz embora, mas com talento, o palco do nosso teatro Artur Azevedo, assim como marcou forte nossas instituições e entidades culturais.

Retenho o timbre da cantora — e permito­-me lembrar nossa Dilu Melo —, da cantora também bissexta Dagmar, que tão bem interpretava composições de nossa cancioneiro, sempre, sempre driblando com heroísmo e estoicismo invulgares a Indesejada das indesejadas, que por tantos anos a cercou incruenta, martirizou-­a, e que por fim levou sem glória aquela que viveu em desterro de vida desterrada.

Não é de espantar que nas histórias de Dagmar, “nem a morte assusta seus personagens, tal o compromisso que eles têm com a vida”, assinala o nosso confrade José Louzeiro, ao louvar na autora o encarar a vida olho no olho, “com a coragem de camponesa que canta a primavera e a colheita, embora esconda no peito invernos tempestuosos”.

Lira simples e solidária tangeu Dagmar em sua expressão literária, avessa a modismos, intelectualismos, artificialismos. Com singela pureza cantou seu amor à ilha em que nasceu, celebrando ilustres e humildes, a praça Gonçalves Dias, praia do Olho d´Água, o Jenipapeiro, o bairro do Lira, os gritos da rua, o garrafeiro, o jornaleiro, o verdureiro, o camaroeiro, as crianças sem lar…

Alçou a voz da condição feminina, representando “a mulher comum”, de “história comum”, que se repete todos os dias, a todo instante, em qualquer parte. “Sou qualquer mulher”, “sou todas as mulheres”, ela declarou.

Feita de pedaços de vida as mais variadas, tal como sua personagem Leonor, no conto Uma Primavera Vem Chegando, Dagmar Desterro e Silva “era uma vida que tinha direito a ser ela mesma, que alimentava sua verdade pessoal e tinha ânsia de realização”.

Em vão, sociedade, moléstia, mesquinharias do cotidiano, “tentaram engaiolá-­la em seus propósitos e limitações. Sua alma era pássaro festivo, almejando altura e liberdade”. Brioso e frágil pássaro!…

Sucedeu Dagmar ao jornalista, romancista, cronista, contista nascido em 1904, o cearense de Beberibe Joaquim de Jesus Dourado, que também respondeu em vida pelo pseudônimo de Bernardo Doré.

Fundador da Cadeira que muito honrado irei ocupar, foi Joaquim Dourado o criador do jornal Flâmula e Cruzeiro. Coroou a vida como capelão da Força Expedicionária Brasileira, nos campos da Itália.

Abrange a produção literária de Joaquim Dourado os trinta anos que vão de 1938, quando o autor publica o livro de contos Pássaros cativos e o romance Sumaúma, a 1969, quando saem suas coletâneas de crônicas Terra dos balaios, e logo o romance Terra esquecida, e depois o último volume de contos, Uma história por dia.

Vemos, portanto, que Joaquim Dourado estreou na literatura pouco anos depois do falecimento do nosso preclaro patrono — dele, de Dagmar e meu —, membro fundador da Academia Brasileira de Letras, Henrique Maximiano Coelho Neto, nascente de preeminência inconteste nas letras brasileiras, cujo caudal, por desconhecido e controverso que seja em tempos atuais, nem por isso deixa de ser “coisa grande”.

Coelho Neto…
Remete tão augusto nome de nossas letras a uma referência mais direta em relação a mim e a muitos companheiros da época: ao Grêmio Cultural que levava seu nome, no Colégio Marista, na década de 40.

Era um grêmio literário de ginasianos, criado para estimular o amor e o respeito da e à literatura, e a despertar vocações para o gosto e exercício dela, em reuniões em que produzía mos textos, discutíamos e criticávamos as produções literárias uns dos outros, sob o olhar reitor de um irmão e de algum homem de letras desta Academia especialmente convidado às sessões semanais.

Certa feita, dia da apresentação do trabalho de um colega, à vista do convidado, ninguém melhor para acompanhar o que iria ocorrer que doutor Fernando Viana, embrulhei-me com o autor de uma crônica na discussão do uso do verbo mugir empregado como mungir em acepção que não admitia a aplicação da variante. O acadêmico presente, espírito alegre e divertido, solucionou a disputa, que ia grossa, acirrada, aventando que possivelmente o texto do companheiro com quem eu contendia apresentava ali um “pastel”, “gralha”, “gato”, o “piolho” dos tipógrafos de antanho. E, muito alegre, sábia astúcia de mestre, deu­-nos uma aula sobre erro de revisão, promovendo a pacificação dos espíritos com sua lábia prazenteira e de gente boa, fino que era.

Integrantes daquele grêmio de minha turma, lembro alguns, amigos mais estreitos, nosso inquieto e criativo homem de ciência, o ex­-prefeito Haroldo Tavares, o ministro Bento Bugarin, o nosso companheiro Antônio Martins de Araújo, filólogo de nobres jaez e raiz, o pernambucano Paulo Eugênio Sette, o professor José Luís Carvalho Bastos, Manuel José Macedo Neto, aquele talento de poeta, crítico e ensaísta da literatura abortado nas nuvens pesadas da esquizofrenia… Kleber Maciel, Antônio Jorge Martins; e mais tantos que me perdoem os que não registro, que o tempo é bandoleiro e já nos escapa.

Pois naquele Grêmio Coelho Neto vejo hoje mais um elo original a ligar­-me ao patrono da Cadeira e que me traz a estas reminiscências de teor pessoal, pelas quais peço desculpa, que devo é falar dos antecessores.

Filho de Caxias, pouco da infância passou Coelho Neto na terra natal. Aos seis anos, já se achava com os pais no Rio de Janeiro, onde um tio o iniciou nas primeiras leituras. Concluídos os estudos básicos no Imperial Colégio Pedro ii, iniciou curso de Medicina, que largou, para se matricular, em 1883, na Faculdade de Direito de São Paulo, no velho largo de São Francisco, que por sua vez abandonou, devido ao envolvimento com o ideal político dos abolicionistas e republicanos, incompatibilizado com professores conservadores, o que o levou a transferir­-se para a Faculdade de Direito do Recife, onde teve por mestre Tobias Barreto.

Àquela altura, já estava deslanchada a carreira literária que o escritor iniciara aos 17 anos se tomarmos como marco inaugural o poema No Deserto, publicado no Jornal do Comércio, em 1881.

Em 1885, transfere-­se de volta ao Rio de Janeiro, onde trava amizade com o grupo de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos, Aluísio Azevedo, Paula Ney. A par de integrar a chamada boêmia literária carioca de fins dos oitocentos, dedica-­se ao jornalismo, ligado à propaganda abolicionista liderada pela figura de José do Patrocínio, pelo nosso Joaquim Serra e tantos quantos.

Era o jovem Coelho Neto um republicano, e seu padrinho de casamento, em 1890, foi ninguém menos do que o marechal Manuel Deodoro da Fonseca, já presidente. O matrimônio, de que resultou prole de 13 filhos, assinala para Manuel Cavalcanti Proença estabilidade, ponto de partida da “ascensão de Coelho Neto”.

Em 1891, é indicado para chefiar a Diretoria dos Negócios do Estado, no Rio; em 1892, nomeado professor de História da Arte da Escola Nacional de Belas­-Artes.

Em 1893, torna-­se redator de debates no Senado Federal e, por concurso, em 1907, passa a ser lente de Literatura no prestigioso Colégio Pedro ii. Eleito deputado federal pelo Maranhão em 1909, cumpre três legislaturas, até o ano de 1921.

Respeitado tanto pelos cargos que ocupou quanto por sua copiosa obra escrita, Coelho Neto é eleito presidente da Academia Brasileira em 1926.

Nota a propósito Otto Maria Carpeaux em sua Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira: “A fama e influência de Coelho Neto eram tão grandes que a Academia Brasileira de Letras chegou a indicá-­lo para o prêmio Nobel”. O escritor exerceu ainda, entre outras inúmeras atividades, as funções de secretário-­geral da Liga de Defesa Nacional, que ele havia criado com Olavo Bilac, Miguel Calmon e Pedro Lessa. Integrou o Conselho Consultivo do Teatro Municipal do Rio. Em 1928, quando Bilac foi escolhido Príncipe dos poetas brasileiros, coube-­lhe a honraria de Príncipe dos prosadores.

Autor de 130 livros que ultrapassam o extraordinário número de 20 mil páginas, Coelho Neto honrou nossa literatura de imaginação, nossa ensaística, a dramaturgia e criação poética. Arrolar aqui todos os seus títulos, por justo que fosse, demandaria fôlego e longos minutos de leitura, de que todos nos poupamos agora.

O romance A capital federal, de 1893, é saboroso testemunho de um Rio de Janeiro de efervescência artística e intelectual coetânea aos dias em que a estética simbolista nos chega com os Broquéis, de Cruz e Sousa.

Distingo digno de ser revisitado o rico e informativo memorialismo que o prosador nos legou em Miragem, A conquista, Mano, Fogo-fátuo. Seu romance Turbilhão vê o centenário de publicação neste ano de 2006.

Faço minhas as palavras de Josué Montelo, quando diz que nesse livro Coelho Neto não ostenta

a copiosidade verbal que por vezes nos fadiga em outros dos seus grandes livros. Na pintura das pequenas vidas apagadas com que urdiu a sua história, o mestre maranhense se despoja de seus excessos e é romancista de alta categoria, merecendo de figurar entre os nossos melhores narradores.

Destaque-­se também Rei negro, romance de 1914, narrativa de relevo e coragem na denúncia das iniquidades impostas à população de cepa africana no Brasil.

Procedamos, agora, a título de curiosidade — e mesmo por ser esta época de estatísticas —, para bem aquilatar a fecundidade do autor, a um pequeno cálculo. Distribuindo-­se 130 títulos, entre peças de teatro, ensaios, romances, livros de poemas, por um período de 50 anos de vida produtiva, considerando que Coelho Neto viveu setenta anos, teremos um vulto de trabalho demandando, em média, a elaboração, por ano, de dois livros de mais de 200 páginas.

Tão prolífico e constante ia o trabalho do escritor que, na ocasião de uma convenção em que seu nome era indicado para deputado federal, ele gracejou: se não fosse aprovado retiraria a pena do brasão do Estado do Maranhão. Afinal, seus livros, postos uns sobre os outros, dariam a maior pirâmide da América Latina, comentou. Pilhéria ou não, Coelho Neto tinha suas razões.

Dono de impressionante currículo, não podemos censurá-­lo por se achar merecedor de respeito.

Permitam­-me que, neste ponto em que se fala do Coelho Neto autor de mais de uma centena de livros, registre eu a atuação que no Rio de Janeiro desempenhei como editor, embora de menos de 100 livros. Pelo menos num, além do vínculo com o Grêmio Coelho Neto, posso aspirar eu a emparelhar­-me ao grande patrono da minha Cadeira: ele, colaborador do Lello Universal; eu de minha parte, criador do Dicionário Aurélio, que elaborei num labor sofrido de quase uma dezena de anos, com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e equipe modesta.

Antes estive redator da revista O Cruzeiro, sob a direção de José Amádio e Odilo Costa Filho. No mesmo barco navegava também o querido Lago Burnett, que se afogou em seu próprio talento e na fina sensibilidade à flor da pele. Esse mesmo Lago meu chefe no Jornal do Brasil, onde mourejei por mais de vinte anos.

Como editor, criei a Editorial Alhambra. Orgulho­me dos livros que lancei, entre os quais destaco novelas de Gérard de Nerval (A mão encantada), de Leonid Andreiev (Os sete enforcados), de Mark Twain (O homem que corrompeu Haddleyburg), de Gogol o célebre O capote, de Leon Tolstoi a obra­prima A morte de Ivã Ilitich. Antes já lançara, de José J. Veiga, Os cavalinhos de platiplanto e A máquina extraviada. E muitos mais.

Daqui dos nossos, Lago Burnett, Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, José Sarney.

Outros pontos cimeiros dessa difícil, por delicadíssima, atividade — que editar não é profissão! — pus à luz a obra de Glauber Rocha, à exceção de Riveyrão Suçuarana; levei às estantes brasileiras, de Otto Maria Carpeaux, Uma nova história da música e a monumental e notável História da literatura ocidental; com Nise da Silveira, desvendaram-­se as Imagens do inconsciente.

O amor do livro levou-­me a essa aventura perigosa mas altamente nobre que exige acerado tino comercial, organização gerencial e essas coisas de caráter administrativo às quais frequentemente é infenso o intelectual. Aí foram tropeço e queda.

A propósito, cabe lembrar Manuel Muñoz, aquele espanhol dos livros e coleções em papel bíblia, que dizia do editor exigir-­se espírito de aventura, sofrer coragem de correr risco, ser intuição, inquietude e cultura. Acho que bem atendi a essas exigências. Porém tudo isso deve ser governado por um critério exato de industrial e comerciante, imposição a que não atendi, por deficiência própria.

A aventura maior da criação do Dicionário Aurélio foi um capítulo à parte, a merecer mais que um item de discurso, um livro mesmo, a que poupo todos nós agora.

Rogando desculpas, como se fora um tropeço nos degraus do pedestal da estátua em causa própria, retorno a Coelho Neto.

Polêmico em vida e depois dela, é figura emblemática em nossa literatura. Emblemática porque tipifica uma época da vida literária brasileira. Como ele mesmo se nomeava, era o último dos helenos. Em contenda memorável na Academia Brasileira de Letras, opôs­-se aos modernistas da Semana de Arte Moderna, de 1922, defendendo a cultura universal contra o prosaísmo e a gramática subvertedora do modernismo. Era autêntico nele o gosto pelo purismo da linguagem. Amante do idioma, comprazia­-se em exibir joias raras, mesmo se, por vezes, dificultasse o caminho do leitor.

Era de fato, o último dos helenos.

“Não repetir palavras, a não ser com longo intervalo”, impunha­-se ele como norma de estilo, dotado que era de vastíssimo vocabulário, calculado em 20 mil palavras, perito na sinonímia, colaborador que fora do Dicionário Lello Universal.

Mas o último dos helenos, derrotado em sua Troia, não desfrutou de honras póstumas de Heitor. Falecido em 1934, o autor de Turbilhão, talvez tenha sido, com Olavo Bilac, o autor que mais viu sua reputação de escritor desfeita pelo fervor modernista de reforma da língua literária brasileira.

As hostes seguidoras da Semana de Arte Moderna não só lhe negaram túmulo como teimaram em tripudiar, dançando sobre a sua sepultura. Resultado dessa campanha detratora, aquele que em vida fora símbolo do bem escrever, morto tornou-­se figura de escritor a ser evitado pelo excesso de palavras eruditas e pelo maneiroso torneio verbal.

Coelho Neto, sepulto há três quartos de século, aguarda ainda quem o exume com isenção. Mas o cenário para isso vai adverso, diga-­se. Seu estilo mar oceano destoa do gosto literário atual, propenso ao coloquialismo, à parcimônia léxica, ao romance reportagem. O jovem que abre um seu livro já parte do julgamento da história literária facciosa que o rotula de parnasiano obsoleto e o exclui de antologias e coleções semelhantes.

Quem na galera informatizada de bloggers e hackers, dada a abreviar os termos mais comezinhos da língua pátria, vai se dar à pachorra de verificar por que um romancista do calibre de Otávio de Farias viu em Coelho Neto o maior escritor brasileiro? Quem nesse contexto se arriscará a trilhar caminhos tidos como superados, porém densos daquilo que fomos outrora, densos de como outrora falamos, densos do que foi e é brasilidade?

Senhoras e senhoras, já chego ao termo.

Venho à Casa de Antônio Lobo muito do respeitoso, trazendo modesta e honesta bagagem de alguns feitos e desfeitos, a puxar do balaio das lembranças a despedida dos vaqueiros de um bumba meu boi, na casa de um coronel antigo, lá em Viana, nos tempos da Primeira Guerra Mundial, que minha mãe, Sebastiana de Jesus Fajardo Campelo Marques, cantava de vez em quando:

Eu já vou-me embora, Tu
não vai chorar. Só volto
aqui no teu terreiro, Se
alemão não me matar.

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Iconografia

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