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Impressões sobre o poeta maranhense Nauro Machado

11 de maio de 2019

Arlete Nogueira, personagem mais que importante na cultura do Maranhão, publicou “Impressões sobre Nauro Machado”, uma homenagem afetuosa e justa ao companheiro de tantos anos

O Poeta Nauro Machado

Neste começo de ano que se anuncia difícil, pesado, penumbroso, recheado de tantas mortes, tantas catástrofes, recebo um presente inesperado e lindo, daqueles de deixar a gente de bem com a vida: um volume de ensaios, estudos diversos, cartas, críticas, artigos reportagens, sobre um dos maiores poetas brasileiros da atualidade, o maranhense Nauro Machado. Da têmpera de alguns de seus contemporâneos que trouxeram glória para o estado que os viu nascer, e continuando a inspiração de dois importantes sanluisenses do último século, José Chagas e Ferreira Gullar. Arlete Nogueira, personagem mais que importante na cultura do Maranhão, cronista, poetisa, romancista, contista, ensaísta, critica literária, animadora cultural (que mais?) publicou este “Impressões sobre Nauro Machado”, uma homenagem afetuosa e justa ao companheiro de tantos anos. Desde a capa do livro (mais de seiscentas páginas, meus amigos!) já a imagem do poeta, entre angustiado e sério, ao modo de sua grande, enorme, poesia. Mas na última página, a foto de Nauro risonho, sentado em mesa na livraria da Praia Grande, muito mais a imagem que dele guardei, há uns anos, no Rio de Janeiro.

O livro contém nada menos que 131 textos relativos à obra de Nauro, à pessoa de Nauro, alguns estudos que podemos considerar definitivos sobre o que foi a obra de uma vida inteira dedicada à poesia, de um intelectual para quem escrever versos nunca foi diletantismo nem desejo de aparecer, como sói acontecer frequentemente em nossos meios literários. Mas antes, uma séria, profunda, bela, reflexão sobre o fazer poético e em seu questionamento sobre as grandes questões que enfrentamos os seres humanos nesta nossa breve passagem sobre a terra. Que somos, finalmente, por que a vida, por que a morte, por que a poesia, e esse desejo de nos dizer, de acrescentar uma pedra à construção do mundo, quando somos efêmeros, sozinhos “na correnteza da vida”? Apaixonado por sua cidade, o poeta percorre seus becos e ruas, vê seus defeitos, suas misérias, a decadência do que restou de seus áureos tempos, a cidade à sua imagem, “sempre disponível” e, como ele, carregando “a dor de ser”.

Discorda de Pessoa, “toda alma aqui é pequena”. Sofre pelas injustiças que abrigam esses casarões, essas ruínas, entre as quais vive “a miséria que sem dó se infinitiza na dor”. Como falar dessas coisas? Ele escreve. Tem plena consciência da luta com as palavras que lhe impõe a poesia. Pois “ser poeta é duro e dura e consome toda uma existência.” Neste livro organizado por Arlete, outros companheiros de ofício, poetas e criticos, entre os mais importantes do Brasil, analisaram os livros de Nauro Machado, uniram-se ao seu testemunho no questionar o mistério da vida, o mistério da morte, o dilema colocado pelas palavras com as quais buscamos falar o que a linguagem comum não alcança. Leram os poemas de Nauro, interrogaram os poemas de Nauro, analisaram a escrita justa, sensível e inteligente que percorre a totalidade de uma obra empenhada em servir a literatura. Que nela apostou a vida, ciente de que, como afirmou outro grande poeta, Rainer Maria Rilke, a poesia é a pátria do dizível. Obrigada, Arlete, obrigada Nauro por ter escrito, por ter existido.

*Luzilá Gonçalves Ferreira é romancista e membro da Academia Pernambucana de Letras.