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Domingos sem Jomar

20 de agosto de 2016

Jomar Moraes orgulhava-se de um acervo com títulos raros (Foto: Arquivo/Flora Dolores)

Jomar Moraes orgulhava-se de um acervo com títulos raros (Foto: Arquivo/Flora Dolores)

A primeira vez que compareci ao encontro das manhãs de domingo, na casa de Jomar, fui levado por Carlos Gaspar. Tornei-me, deste então, assíduo frequentador desses encontros, dos quais participaram Joaquim Haickel, Joaquim Itapary, Mont’Alverne Frota, Ewerton, Lino Moreira, Ceres Fernandes, Milson Coutinho, alguns visitantes ocasionais, como Campelo, Ronaldo, Ney Bello e Sálvio Dino, e muitos outros. Por último, já éramos poucos, mas estávamos lá, para falar de livros, literatura, política, projetos e do assunto do dia.

Jomar tinha o cuidado de recolher, numa agenda, as assinaturas de todos os presentes. Passamos a chamar tais encontros de Jomingos. Num período de exagero, chegamos até a lavrar atas, registrando os comentários literários mais importantes.

No meio da sua imensa biblioteca, ele conduzia nossas conversas e emitia seus comentários, ouvia os nossos, e sucediam-se os assuntos.

Quando eu chegava de uma viagem, gostava de levar alguns livros adquiridos para fazer inveja a ele. Como todo bibliófilo – ele chegava a ser um bibliomaníaco –, Jomar ficava triste quando não possuía um livro novo. Mas, quase sempre, ele revidava meu atrevimento: ou trazia o mesmo livro que eu mostrava ou outro mais valioso. Então, quem ficava com inveja era eu.

Na minha busca pelo conhecimento da vida e obra de Aluísio Azevedo, ele era um aliado, participando do meu entusiasmo a cada descoberta que fazia sobre um novo lançamento de algum romance desse escritor maranhense.

Intrigava-se muito ouvi-lo, nos últimos meses, fazer projetos de novas edições e reedições, como se ele não estivesse doente e não contasse com a hipótese de morrer tão cedo. Às vezes, eu me precipitava e recomendava-o a deixar as reedições de autores antigos e cuidar de reeditar os seus que estavam esgotados. O resultado é que deixou de reeditar Apontamentos de Literatura Maranhense e o Guia de São Luís do Maranhão, sem contar O Homem-Dicionário, ainda inédito, sobre a vida de César Marques, tema da sua dissertação de mestrado em História.

A paciência, a obstinação e o talento de Jomar Moraes em preparar um livro para publicação eram impressionantes: cuidava dos mínimos detalhes, com olhar incisivo. Mesmo com a deficiência visual que o acometeu nos últimos tempos, ele valia-se de uma enorme lupa e trabalhava, trabalhava, trabalhava. Alheio ao computador, escrevia em sua velha máquina de datilografia.

A História e a Literatura maranhenses perderam um grande apóstolo. E a Academia Maranhense de Letras, um fervoroso membro. Assim como ele denominou César Márques de “o homem-dicionário”, podemos chamá-lo de “o homem-Academia”, tanta era sua dedicação àquela Casa, resguardando os rituais e seu prestígio, até seus últimos dias.

Em seu velório, parei para fixá-lo e, então, veio-me a impressão de que ali estava um morto feliz, por estar descansando no interior da Casa que tanto amou, tudo conforme as regras que ele recomendava.

Não haverá mais domingos nem as reuniões de quintas-feiras com Jomar, mas a memória que deixou nos fará sempre lembrá-lo pela sua dedicação à Casa de Antônio Lobo e o seu trabalho em proveito da cultura maranhense.