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“Contemplar a arte é uma experiência pessoal”

4 de novembro de 2017

Eliézer Moreira tem um acervo com mais de 200 obras de arte (Foto: Divulgação)

SÃO LUÍS-Dono de um dos maiores acervos particulares de pintura do Maranhão, o colecionador Eliézer Moreira reúne em seu apartamento peças artísticas que marcaram a história das artes plásticas no estado. Aposentado após uma longa carreira pública, em que ao mesmo tempo contribuiu para o fomento das artes, Eliézer Moreira atualmente mantém o Portal “Arte no Maranhão”, com intuito de divulgar a produção de pintores e escultores locais.

Autor do livro “Arte do Maranhão 1940–1990” e outras obras literárias, entre elas crônicas e memórias da vida cultural e política do estado, Eliézer Moreira foi eleito em julho de 2016, membro da Academia Maranhense de Letras (AML). “Não esperava ser indicado e eleito para assumir uma cadeira em uma entidade histórica tão respeitável”, comenta.

A lide de Eliézer Moreira pela arte local já havia sido reconhecida pelas muitas condecorações que recebeu ao longo da vida, entre elas, a Medalha Comemorativa dos Quatrocentos Anos da Fundação da Cidade de São Luís, outorgada pela Assembleia Legislativa do Estado e a Medalha João Lisboa, concedida pela Academia Maranhense de Letras.

Para apresentar uma parte de seu acervo artístico pessoal, Eliézer Moreira exporá 20 pinturas de diversos artistas maranhenses, durante a Expo Indústria Maranhão, que acontecerá de 8 a 10 de novembro, no Multicenter Sebrae (Cohafuma). Ele garante que o público do evento poderá ter uma experiência profunda ao se aproximar do trabalho de pintores talentosos que marcaram a história das artes plásticas no estado. Em entrevista, Eliézer Moreira comenta a idealização do projeto, parceria com o Sistema Fiema, a relevância de sua coleção e a importância do fomento das artes no estado.

Como surgiu seu interesse pelas artes plásticas no Maranhão?

Sempre participei da vida política e cultural do estado e aqui sempre tivemos uma visão artística do mundo. Vejo que isto se manifesta de diferentes formas, seja na poesia de nossos grandes poetas, seja no olhar dos pintores e escultores maranhenses. Veja, por exemplo, Bandeira Tribuzi, aquele homem extraordinário que marcou nossa história. Era alguém que tinha uma visão econômica, pragmática e realizadora, ao mesmo tempo em que conservava a agudez do olhar poético, expresso em seus livros com tanta expressão e plasticidade. Em São Luís, acredito que todos têm uma ligação especial com arte, aliás, todo o ser humano manifesta este elo de algum modo.

Quando o senhor começou a colecionar suas primeiras pinturas, acreditava que ela alcançaria esta dimensão?

Sempre guardei um amor especial em relação a obras de artes – pinturas, esculturas e outras. Quando iniciei minha coleção vi nisto uma manifestação deste amor e ainda o fiz com uma preocupação ao fomento das artes no Maranhão. Eu comecei a colecionar em 1976 ao vislumbrar a produção inicial de Péricles Rocha, que à época era rapaz novinho, que se metia a ser pintor. Foi um momento marcante vislumbrar o nascimento deste artista ainda em sua juventude e que hoje é um dos mais importantes nomes da pintura no Brasil. Aquele momento foi um período em que minha preocupação com a arte local se estabeleceu e em que o estado começou a investir na formação de artistas locais. Não imaginava que hoje minhas peças chegariam ao número de 249, mas celebro com felicidade esta marca.

Como está dividido o acervo?

Atualmente, tenho 29 obras, sendo 138 pinturas, 37 gravuras, 69 desenhos, 4 esculturas e 1 peça de tapeçaria, produzidas por artistas maranhenses ou radicados no Maranhão. Elas estão digitalizadas e podem ser vistas por internautas no portal Arte no Maranhão (http://artenomaranhão.com.br). Acredito que ainda iriei expandi-lo.

A chegada do Divino em Alcântara, do artista Airton Marinho, que integra o acervo de Eliézer Moreira (Foto: Divulgação)

E o portal Arte no Maranhão, quando surgiu a ideia?

Na década de 1990, lancei com o apoio do Banco do Estado do Maranhão, o livro “Arte do Maranhão 1940 – 1990”, esta obra que já se encontra esgotada, mas que foi um marco para o registro da memória artística maranhense. Tentei algumas vezes projetos para republicação do livro, o que ainda infelizmente não consegui. Até cheguei recentemente a comprar exemplares que estavam espalhados em diferentes sebos no Brasil.Vi no portal, na internet, este meio maravilhoso de comunicação, uma oportunidade para manter o objetivo do livro, que era celebrar e divulgar as artes maranhenses. O portal tem diferentes funções – além da exposição de obras de meu acervo – há listas de livros fundamentais para quem quiser conhecer a história das artes plásticas maranhenses; espaço para notícias relevantes, curiosidades e fóruns. Já iniciamos também um trabalho nas redes sociais Instragram (@artenomaranhao) e YouTube e Facebook. Lá há obras de artistas como Jesus Santos, Rogério Martins, Floriano Teixeira, Cláudio Costa, Fernando Mendonça, e outros.

Como o senhor pensou a exposição de sua coleção no projeto Arte Indústria, que acontece de quarta-feira, 8, a sexta-feira, 10?

A exposição foi um convite maravilhoso feito pelo Sistema Fiema, em especial pelo presidente Edilson Baldez, que vê a importância da exposição da arte maranhense como um canal de sensibilização para configuração de negócios. A expectativa é que a mostra apresente ao público um panorama da produção de pintores maranhenses. Serão 20 telas, de 20 artistas locais e radicados no estado – Jesus Santos, Mondego, Celso Antônio, Floriano Teixeira, Péricles Rocha, Flávio Assub, Airton Marinho e outros. São peças compostas por meio de diversas técnicas, desde a xilogravura de Airton Marinho às composições de tinta peculiares de Péricles Rocha.

Qual a situação das artes atualmente no Maranhão?

Acredito que vivemos outro momento para artes plásticas, diferente daquele em que eu participei como incentivador dentro das gestões públicas, por exemplo. O artista maranhense sempre foi um solitário, sempre produziu individualmente. Durante algum tempo, pensamos em investir nestes artistas para que rodassem o país e o mundo conhecendo a arte que estava sendo feita fora de nosso estado. Isto resultou em grandes ações e em um certo fortalecimento nas décadas de 1980 e 1990, mas sempre vimos que a gestão pública se comporta de forma muito instável quando o assunto é arte. Atualmente, precisamos voltar a investir em nossos artistas plásticos, em projetos que lhe permitam fazer intercâmbios e interagir culturalmente em outros espaços. Isto é fundamental para que as artes ganhem nova vida. A internet tem permitido e facilitado que conheçamos novas formas artísticas, mas nada substitui a experiência real e existência da contemplação da arte. Uma coisa é você ver uma pintura na tela do computador ou do celular, outra é vislumbrar uma obra de Rembrandt a um metro de distância. Repito sempre: contemplar a arte é uma experiência pessoal.

Ramalhete, de Péricles Rocha (Foto: Divulgação)