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Cem Anos sem Vespasiano Ramos

26 de dezembro de 2016

Na segunda-feira completa um século da morte do poeta caxiense que é pouco lembrado em sua terra natal

Vespasiano Ramos é um grande poeta da literatura nacional (Foto: Divulgação)

No dia de 26 de dezembro (segunda-feira), o poeta Vespasiano Ramos, esquecido na sua terra, completa um século que fora encantado, pois poeta não morre se encanta. Os restos mortais de Vespasiano Ramos estão repousando no Cemitério dos Inocentes, em Porto Velho – Rondônia. Patrono da cadeira nº 32 da Academia Maranhense de Letras, da nº 40 da Academia Paraense de Letras e da nº 05 da Academia Caxiense de Letras, o caxiense Vespasiano Ramos morreu em Porto Velho (Rondônia). No estado do Norte, o escritor tem reconhecimento oficial como homem das letras. Como caxiense, João Castelo (PSDB), há muito tempo, prometeu trazer para o Maranhão os restos mortais do escritor caxiense Joaquim Vespasiano Ramos (1884-1916). A promessa de Castelo, conterrâneo e parente de Vespasiano Ramos, em visita à ACL, foi feita ao presidente da Academia Caxiense de Letras, Jacques Inandy, e aos seus confrades: Renato Menezes, Jotônio Viana, Edison Vidigal e Wybson Carvalho, entre outros presentes à estada de João Castelo à Casa de Coelho Neto.

Mas, na década de 1980, o próprio João Castelo, quando exercia a função de chefe do Executivo Estadual no Maranhão, sancionara uma Lei nº 4225, datada, precisamente, de 18 de novembro de 1980, que autorizava a trasladação dos restos mortais de Vespasiano Ramos, do cemitério da cidade de Porto Velho, para a cidade de Caxias, sua terra berço. Naquela época, o Projeto de Lei nº 055/80, fora proposto pelo então deputado estadual, também caxiense, João Afonso Barata, e, após aprovação legislativa, devidamente, encaminhado pela Assembleia Legislativa maranhense ao Poder Executivo do Maranhão. Barata justificara a Lei pela consagração pública aos homens, que, em vida, em face ao cunho cultural, elevaram o nome do Maranhão nas letras e nas artes. Porém, àquela época a imprensa e os intelectuais da Academia Maranhense de Letras, não fizeram menção alguma sobre o porquê do não cumprimento da Lei sancionada pelo então governador João Castelo. Agora, no entanto, os imortais caxienses embora ansiosos pelo cumprimento da Lei, não poderão mais trasladar os restos mortais do poeta face ao jazigo no qual repousam os restos mortais do poeta ter sido tombado pelo patrimônio cultural de Rondônia.

Túmulo ficou abandonado por alguns anos (Foto: Divulgação)

Reconhecimento em Rondônia

Que ele foi uma personalidade de alto nível cultural, conhecido em todo o Brasil e exterior, quase todo mundo sabe. O que muita gente não sabe, no entanto, é que o ilustre e saudoso poeta Vespasiano Ramos viveu os últimos dias de sua vida em Porto Velho, onde morreu (aos 32 anos de idade) e foi sepultado no dia 26 de dezembro de 1916, no legendário Cemitério dos Inocentes, na Capital rondoniense.

Até hoje é uma celebridade admirada e reverenciada por toda essa nova geração de poetas, entre os quais, citam-se: João Teixeira de Souza (JT), Francisco Matias, Matias Mendes, Emanuel Pontes Pinto, Sílvio Persivo e a sempre irreverente Yêdda Borzacov.

Poeta de um livro só, “Coisa Alguma”, com apenas três edições desde 1916, Vespasiano Ramos alcançou a imortalidade com poesias simples e cariciosa, em que tão nitidamente se refletem os seus estados de alma.

Filho de Antônio Lúcio Ramos e Leonília Caldas Ramos, nasceu Joaquim Vespasiano Ramos (Quincas, na intimidade e nas rodas boêmias), em Caxias, no Maranhão, a 13 de agosto de 1884, no largo da Igreja de São Benedito, hoje Vespasiano Ramos.

Para Matias Mendes, Vespasiano Ramos “não passou de um suave e delicado romântico, notando-se em sua poesia repassada de ternura e melancolia o vestígio daquele legado de tristeza e desalento que nos veio do século XIX”.

Entusiasmado pelas publicações de “Sombra Pagã” e de “Carvalho Guimarães”, Vespasiano Ramos retornou a São Luís onde residia seu irmão Heráclito Ramos, também poeta, com o fim de custear sua estada no Rio de Janeiro e a publicação de “Coisa Alguma”. Além do apoio, ainda ganhou a companhia do próprio irmão. E, das mãos do editor Jacintho Ribeiro dos Santos, surgiu “Coisa Alguma”, em 1916. “Tenho o privilégio de possuir um volume dessa edição”, ressalta Yêdda Borzacov, lembrando que foram impressos apenas mil volumes.

Segundo os historiadores porto-velhenses, em 1913, foi fundada a Academia Paraense de Letras. Carlos Roque, em sua Antologia da Cultura Amazônica, Vol. II, afirma que Vespasiano Ramos pertenceu a essa Instituição que, muitos anos depois criou um concurso de poesias com o nome de Vespasiano Ramos, que foi o patrono da Cadeira nº 40, da citada Academia. Elmano Queiroz, ocupante atualmente dessa Cadeira, fazendo elogio do poeta, diz que “Vespasiano cantou como cantam os passarinhos, improvisando harmonias, sem partitura escrita, mas em arroubos sutis de suave inspiração”. Um fato curioso e que, talvez, poucas pessoas saibam: em 1948, Anísio Viana, modesto caxiense, juntou algum dinheiro e veio a Porto Velho, com a finalidade única de depositar flores e acender velas no túmulo do poeta, no Cemitério dos Inocentes, deixando-se fotografar. Essa foto, segundo o professor Cid Teixeira de Abreu, se encontra no arquivo da Academia Maranhense de Letras, da qual Vespasiano Ramos é patrono da Cadeira número 32.

“A glória de um poeta vem quando ele passa a ser recitado, na rua, na praça, nas escolas, nos bares e botequins: é a glória da popularidade. E esta Vespasiano Ramos já tem”, acrescenta a historiadora, que é filha do saudoso doutor Ary Tupinambá Penna Pinheiro, que também era poeta e escritor.

Preservar os patrimônios históricos e culturais faz parte do planejamento turístico da região. Partindo deste princípio, a Superintendência Estadual do Turismo (Setur), com o apoio da Academia Rondoniense de Letras, reformou os jazigos de dois ícones da história de Rondônia.

A solenidade de restauração dos jazigos históricos do poeta Vespasiano Ramos e do major Emmanuel Silvestre do Amarante reuniu convidados, autoridades civis e militares, além de membros da Academia Rondoniense de Letras (ARL) numa tardedo mês de junho deste ano, no Cemitério dos Inocentes, em Porto Velho.

Durante a solenidade, o superintendente de Turismo, Júlio Olivar, destacou que a intenção da Setur é salvaguardar o patrimônio histórico de Rondônia. “Cemitérios são museus a céu aberto e estes túmulos são verdadeiros monumentos históricos, imprescindíveis para compreensão da nossa história, Vespasiano no mundo das letras e o major Amarante como cientista e integrante da Comissão Rondon”, destacou Júlio.

Túmulo de Vespasiano Ramos foi reformado (Foto: Divulgação)

Quem é Vespasiano Ramos…

Vespasiano Ramos, nascido na sede do município de Caxias, no largo da Igreja de São Benedito. Desde sua meninice, enquanto trabalhava no comércio da Princesa do Sertão, passava o tempo, nas suas folgas momentâneas, talhando versos em papel de embrulho, solitário em um canto da loja. Autodidata, já rapazinho sempre estava em companhia de rapazes mais velhos e de influentes intelectuais caxienses do início do século passado e só sentia-se verdadeiramente à vontade em saraus, tertúlias e assembléias literárias, pois era ali que sua alma sensível e poética enlevava-se e o seu corpo de estatura média e de pele morena esbanjava talento e causava admiração nas belas moças caxienses daquela época. Dentre seus amigos e companheiros, amigos da poesia e da boemia, podemos elencar os que lhe influenciaram imensamente: Alfredo Assis de Castro, Joaquim Luz e João Rodrigues (Fundadores do jornal a Mocidade), Carvalho Guimarães, Miguel Beleza, Milton Vilanova, Professor Melo Vilhena, Leôncio Machado Filho (Diretor do jornal O Paiz), Nereu Bittencourt, Durval Vidigal, Cromwel Carvalho (Editor do jornal O Bloco), Raimundo Costa Sobrinho (Proprietário do jornal O Maranhão) e o velho Jornalista Luís José de Mello (Diretor-proprietário do Jornal de Caxias).

Segundo Raymundo Carvalho Guimarães, da Academia Maranhense de Letras, Vespasiano Ramos escrevia para todos os jornais caxienses e maranhenses da época e “publicava os seus versos, não só sob o nome como pseudônimos diversos, entre os quais o mais popularizado o de Djalma de Jesus”. Ademais, a pesquisa histórica comprova que entre os anos de 1903 e 1916, Vespasiano Ramos colaborou significativamente como os seguintes jornais caxienses: O Zéphiro, Correio do Sertão, O Janota, O Parnaso, O Independente, O Binóculo, Jornal do Comércio, O Parthenon, A Luz, A Gruta de Lourdes, A Pena, O Mensageiro, A Renascença, O Sabiá, O Lilaz, O Caixeiro, Belo Horizonte e O Bloco.

Residência na qual nasceu e morou Vespasiano Ramos

Em 1916, Vespasiano Ramos desloca-se até o Rio de Janeiro para a publicação de seu livro “Cousa Alguma”, que foi editado por Jacintho Ribeiro dos Santos, tendo sido recebido com grande receptividade nos meios literários da Cidade Maravilhosa. Muitos intelectuais da época teceram altos elogios à grandiosa obra do jovem caxiense. Osório Duque Estrada, Carvalho Guimarães, do Jornal do Brasil, Alberto de Oliveira, Humberto de Campos, Goulart de Andrade, Felix Pacheco, Medeiros de Albuquerque dentre muitos outros intelectuais e eruditos reconheceram, então, a precocidade do autor de Cousa Alguma, bem como viram nele o herdeiro mais próximo de Gonçalves Dias.

Ainda em 1916, Vespasiano Ramos deslocou-se do Rio de Janeiro para Belém e, logo após, Manaus e, depois, Porto Velho. Consoante pesquisa de Raymundo Carvalho Guimarães, “em Porto Velho, agravou-se o seu já precário estado de saúde e na casa de João Alfredo de Mendonça, cercados dos cuidados desse grande amigo, faleceu na tarde de 26 de dezembro de 1916, com a idade de 32 anos”.

A vida de Vespasiano Ramos esteve diretamente relacionada com a paixão e com a boemia. Assim demonstram seus versos. Viveu apaixonado por um amor não correspondido. Viveu apaixonado “por um amor que consagrou a uma moça filha de uma família das mais distintas de Caxias, amor que com sua frustração o conduziu a uma vida desregrada e boêmia (…) escrevendo versos nas mesas dos botequins, esbanjando talento, e desgastando a saúde”. Todos os homens têm sua musa a lhe inspirar e, como Gonçalves Dias tinha sua Ana Amélia e, também, nós outros, Vespasiano Ramos, para a nossa felicidade tinha, a sua: Lili Bittencourt, eterno amor do poeta.

Wybson Carvalho é poeta e membro da Academia Caxiense de Letras

Fonte: O Estado do Maranhão – Wybson Carvalho