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Causos de uma vida inteira na verve de José Sarney

21 de Abril de 2018

Ex-presidente da República e imortal da Academia Brasileira de Letras lançou, recentemente, “Galope à Beira-Mar – Casos e Acasos da Política e Outras Histórias”, livro com 319 páginas e no qual ele apresenta narrativa repleta de eventos ao longo de sua vi

José Sarney: “Não são textos de folclore nem casos de política, embora possam surgir uns e outros. São retalhos da vida” (Foto: Divulgação)

SÃO LUÍS – Autor de 121 livros, entre romances, contos, ensaios, crônicas e discursos, o ex-presidente José Sarney prova, em “Galope à Beira-Mar – Casos e Acasos da Política e Outras Histórias”, que é uma usina intelectual a todo vapor. O decano culto e observador da Academia Brasileira de Letras apresenta mais uma pérola literária reunida em 319 páginas. É uma narrativa de eventos que ele protagonizou ou observou em décadas de vida pública e já está disponível nas livrarias de São Luís.

O título é uma homenagem a um dos ritmos dos cantadores do Nordeste, cantoria da qual o escritor se declara apreciador, pois que consegue sentir o sabor de conversar na linguagem do desafio, com temas que surgem na hora, inspirados em fatos reais ou imaginários, ao toque da viola. “E então se formaram os ritmos e gêneros da arte do papear, que se faz de porta em porta, de boteco em boteco, de fazenda em fazenda, de feira em feira. Assim como essas lembranças pitorescas, que ilustram a comunicação entre amigos e ouvintes”, conta, no prefácio.

Sem pretensão analítica ou de expressar juízo de valor, os capítulos de “Galope à Beira-Mar” trazem breves relatos de um mosaico de passagens curiosas recheadas com nomes de várias personalidades: Rui Barbosa, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Ulysses Guimarães, Jânio Quadros, os presidentes militares, e por aí vai. São personagens reais que aparecem em episódios por ele vivenciados quando no governo do Maranhão e na Presidência da República. Escritores, jornalistas e padres surgem ao lado de anônimos, pois a pena leve, impecável e instigante de José Sarney vai costurando, também, histórias que ele ouviu na infância ou nas viagens que fez pelo mundo.

(Foto: Divulgação)

“Tenório Cavalcanti, famoso ‘homem da metralhadora’, uma vez, na Câmara dos Deputados, invocou uma citação, inventada, de Rui Barbosa: ‘A locomotiva da honestidade limpará os trilhos da corrupção’. Carlos Lacerda não deixou passar em branco; pegou o microfone de aparte e retrucou: – Deputado Tenório Cavalcante, Rui Barbosa nunca disse isso! Tenório Cavalcanti respondeu-lhe: – Não disse? Pois o digo eu!”.

Infância – Entre outras coisas, “Galope” evoca relatos de família, da infância em Pinheiro, da juventude em São Luís, bem como cenas do trabalho em Brasília e em vários países. “Minha avó, quando dei o primeiro choro de recém-nascido, gritou: – Nasceu José Adriano! – nome que tinha combinado com meu pai e minha que eu teria se fosse homem; se mulher, o nome seria o seu, Rita Amélia. Meu pai explicou: – Não nasceu José Adriano porque, quando Kyola começou a ter problemas no parto, fiz promessa para São José de que, se fosse homem, colocaria o nome do santo, José Ribamar. Foi a primeira vez que mudei de nome: depois passei de José Ribamar para José Sarney”, escreve na página 189, segunda do capítulo “Histórias que ouvi na minha infância e outras lembranças”.

A obra do intelectual e ex-presidente que se tornou conselheiro de seus sucessores também comprova o frescor de sua memória, pois que ele discorre sobre fatos com riqueza de detalhes, assim como fez em livros anteriores, entre eles, “O Dono do Mar”, “Marimbondos de Fogo”, “Morte das Águas” e “Saraminda”.

“Na última viagem como presidente, Juscelino foi a Portugal com uma grande comitiva para uma solenidade dos velhos tempos em que chefes de Estado, em visitas oficiais, viajavam em seus melhores vasos de guerra, comboiados por uma esquadra de navios num grande desfile naval. Ao chegar em Lisboa, para onde viajou de avião, embarcou no cruzador brasileiro Barroso, e foi recebido num grande desfile que saiu da margem do Tejo”, conta na página 58, referindo-se ao então presidente Juscelino Kubitschek.

A pena de José Sarney, o mais longevo político da história brasileira, e que no próximo dia 24 completa 88 anos, mais parece um profundo reservatório de palavras, como um cordel de sonoridades factuais. Muitas das passagens contidas na obra resultaram de escritos sem ordenamento de tempo nem de assunto, mas, inevitavelmente, uns iam puxando outros e o resultado final equivale a uma enciclopédia de memórias. “Não são textos de folclore nem casos de política, embora possam surgir uns e outros. São retalhos da vida na graça da memória que a generosidade de Deus me deu”, resume.

Algumas Histórias

As Excelências

Marco Maciel contou-me que, quando era governador, numa peregrinação pelo interior, um prefeito, ao saudar a comitiva, começou assim:

– Senhor governador do estado, senhor vice-governador do estado, senhores deputados….

E fechou a saudação:

– E todos os presentes em nível de excelência…

Mais objetivo foi, em Minas Gerais, o prefeito que saudou o chefe do Estado:

– Senhor governador, saúdo V.Exa. e todos os seus dignos sucessores!

A Quadra

Certa vez, na tribuna, estava falando o Tristão da Cunha, que era um liberal clássico e tinha, como deus, Adam Smith. Estava a falar e foi aparteado pelo Plínio Salgado.

Carvalho Sobrinho, um deputado de São Paulo que gostava de fazer quadrinhas ridicularizando os colegas, fez a seguinte quadra:

Na tribuna, Tristão da Cunha

Plínio Salgado também.

De um lado, voz de fantasma

Do outro, voz do além.

O crime

O Governador Lobão iniciara uma campanha contra a sonegação. Equipou a fiscalização com lanchas e os infratores as incendiaram.

Foi aberto inquérito no município de Cururupu. Algum tempo depois veio a denúncia:

“Autor: fogo; vítima: lancha”.

A caneta

Plácido Castello, que foi governador do Ceará, numa imagem bem popular e sertaneja, dizia:

– O poder democrático é uma caneta. Com ela se pode fazer tudo. Felicidade e infelicidade. Mas, no dia em que acaba a tinta, não escreve mais. A eleição é a tinta nova.