Titulos à Venda

Catedral de Emoções – crônicas

Autor: Carlos Gaspar

Antes que o acaso levasse Proust a tirar de uma taça de chá toda a sua Combray, a memória voluntária do autor de Em busca do tampo perdido oferecia-lhe apenas esparsas lembranças de um passado quase morto. Afinal, num dia de inverno, a mãe vendo que o filho tinha frio; ofereceu-lhe chá e deu-o com um bolinho chamado madelaine. É o próprio escritor quem descreve: ”… no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com migalhas de bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim (…) qualquer coisa que teriam desancorado a uma grande profundeza; não sei, aquilo sobe lentamente, sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas” . Proust pergunta, ansioso, se essa recordação chegará a superfície de sua clara consciência. Ela chega e ele a descreve assim: “De súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o pedaço de made- laine que nos domingos de manhã em Combray (…) minha tia Leôncia me oferecia depois de o ter mergulhado no seu chá da índia ou de tília”. Assim, logo que Proust reconheceu no gosto do bolo, molhado no chá que a mãe lhe dera, o mesmo gosto do bolo no chá da tia Leôncia, eis que a casa cinzenta, toda ela, e, com a casa, a cidade, desde a manhã ã noite, todas as flores, a boa gente da aldeia e suas moradias, a igreja de Combray e seus arredores, tudo que, segundo o romancista, tomou forma e solidez, forjando sua extraordinária obra, saiu – ele mesmo o disse – daquela taça de chá.


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