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“Canções de roda nos pés da noite”, de Nauro Machado

22 de outubro de 2016

O poeta Marcus Accioly assina o artigo transcrito, publicado no dia 22 de setembro de 2016, no Jornal do Comércio de Pernambuco, sobre o último livro do poeta maranhense Nauro Machado
Nauro Machado faleceu em novembro de 2015 (Foto: Divulgação)

Nauro Machado faleceu em novembro de 2015 (Foto: Divulgação)

Marcus Accioly é membro da Academia Pernambucana de Letras, ocupando a cadeira deixada por João Cabral de Melo Neto, é um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX. Formado em Direito pela PUC/UFPE, é pós-graduado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, onde leciona Teoria Literária.

Exerceu, entre outras funções públicas, a de coordenador Cultural do Nordeste/Ministério de Educação e Cultura (gestão de Eduardo Portella), de chefe da 4ª Superintendência Regional da Secretaria de Cultura da Presidência da República (gestão Sergio Paulo Rouanet) e a de secretário Executivo do Ministério da Cultura (gestão Antônio Houaiss).

Marcus Accioly pertenceu ao Conselho Federal de Cultura e ao Conselho Nacional de Política Cultural do Rio de Janeiro e ocupou outros cargos relevantes na área cultural de seu estado e do país. Publicou 14 livros e tem mais 10 inéditos. Recebeu 12 prêmios literários e pertence à Geração 60, mesma Geração do poeta Nauro Machado, de quem foi grande amigo.

Nauro Machado
Marcus Accioly

Recebo, na Ilha de Itamaracá, o primeiro livro do poeta Nauro Machado que me chega sem sua assinatura. “Canções de roda nos pés da noite” – da Editora Contracapa, ilustrado pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos, traz a dedicatória da sua esposa – a poeta Arlete Nogueira da Cruz – que diz: “Ao querido amigo (…) esta lembrança de Nauro que, tenho certeza, ele a mandaria para você”.

Nauro nasceu em 2 de agosto de 1935 e se foi em 28 de novembro de 2015. Como o dia e mês do seu nascimento coincidem com o da minha mãe, não fomos só amigos, fomos irmãos. Quantas vezes estivemos no Maranhão e no Amazonas, viajando de barco a Alcântara, ou pelo Rio Negro? O nosso elemento era a água. Nauro não foi, é um grande poeta do Brasil. Deixou 41 livros de poesia publicados e 5 inéditos.

É a vocês – Luísa e Júlia – netas de Nauro, a quem o livro é oferecido, que quero explicar, sem desapontá-las. Embora esteja escrito (entre parêntesis) na página de rosto – “Poemas infantis” – as maravilhosas canções de Nauro não são infantis. Se fossem, ele não as escreveria – “Sou um homem órfão / desse menino / que não morreu” – ou: “Olhando Deus / já pelo sol / além dos astros / com guarda-chuva / a proteger-me / de sujas lágrimas”, Nauro deixou, para vocês, Júlia e Luísa, um dos seus livros mais íntimos e mais belos, mas não o escreveu para vocês. Se me perguntam, mesmo que zangadas: “Então, para quem foi que ele escreveu?” Eu respondo com apenas três palavras: “Para ele mesmo.” Daí não ter se dirigido a vocês, no corpo do poema, mas à sua geração: “Não esperem nada também / dos sóis que em mim se puseram / nem esperem muito de mim, / companheiros deste século.”

Vocês discordarão com uma estrofe: “Olhando com sua irmã / a vida bela, tão bela, / a cantar pela manhã, / como quem abre a janela…” Contudo, insistirei com o último argumento da dedicatória de Antoine de Saint-Exupery, a Léon Werth, no “Pequeno Príncipe”: “Eu dedico então este livro à criança que essa pessoa grande já foi.”

Sim, Júlia e Luísa – embora pelo avesso – se é um livro de “poemas infantis”, não são para vocês hoje, mas para vocês quando tiverem a idade da “Canção para os setenta e três anos”: “Onde este velho se curva / a me chamar de poeta.” Se duvidam de mim, perguntem ao próprio Nauro que é, agora: “Um imenso pássaro / pousado na árvore / da eternidade.”