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Cadeira Nº 39

Ceres Costa Fernandes

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Biografia

Nasceu em Salvador-BA, em 28 de dezembro de 1942. Aos dois anos de idade, veio com seus pais para o Maranhão. É licenciada em Letras – Inglês e Português – pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA (1974) e mestra em Letras – Pontifícia Universidade Católica – PUC-RJ (1987). Professora concursada da TVE do Maranhão (1973-82), professora concursada do Curso de Letras da UFMA (1975-96). Também na UFMA, exerceu a chefia da Divisão de Estágio Curricular (1978), o cargo de pró-reitora de graduação (1993-96) e o de assessora de relações internacionais (1997-98). No Governo do Estado, foi assessora especial de educação da Gerência Regional de São Luís (1998-2003); gestora de programas especiais do governo do estado (2003-2008), desenvolvendo os projetos “Aluno-Modelo” e “Saúde na Escola”, programa educativo de melhoria da qualidade de vida dos alunos do ensino fundamental que atingiu 130 municípios. Diretora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, de 2009 a 2014, ali realizou o Café Literário, que se tornou parte da agenda cultural de São Luís, saraus e a I e II Mostra Estadual de Literatura (MEL), 2013 e 2014. Membro do Conselho Estadual de Cultura, 2009- 2014. Recebeu muitas distinções como a Medalha Laura Rosa; Medalha do Mérito Timbira (2013), categoria cavaleiro, Governo do Estado do Maranhão; Medalha João Lisboa, 200 Anos, AML, 2012; Medalha dos 400 anos de São Luís, Assembleia Legislati¬va do Maranhão, 2012; Medalha São Luís 400 Anos – Vale, 2012; Palmas Universitárias, UFMA, 2009 ; Professora Emérita – UFMA – outubro 2012. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira nª 39, como sucessora de Pires Sabóia.

Bibliografia

1) O narrador plural na obra de José Saramago. São Luís: Edufma, 1990. (2. ed. São Luís Lithograf, 2003; 3. ed. São Luís: Edufma, 2015.)
2) Apontamentos de literatura medieval – literatura e religião. São Luís: Edições AML, 2000.
3) O último pecado capital &outras histórias. São Luís: Edições AML, 2000.
4) O último pecado capital &outras histórias, seleta. São Luís: Edigraf, 2001.
5) Seleta maranhense de contos e crônicas. São Luís: Edições AML, 2002; (Coautoria com José Chagas).
6) Surrealismo & loucura e outros ensaios. São Luís: Editora da Uema, 2008.
7) Café literário – memória. São Luís: Edições AML, 2015.
8) Contos e crônicas – livro de leitura recomendada para o vestibular de junho de 2002 da FAMA – Faculdade Atenas Maranhense, participação – organização, introdução e notas de Jomar Moraes. São Luís: Edições AML, 2002.
9) Meu amigo Nauro Machado. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, ano 97, vol. 28, nº 30 p. 131-133, out., 2016.
10) Discurso de Saudação a Ana Luiza Almeida Ferro. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, vol. 93, nº 30 p. 129-141, jul., 2019.
11) Helena de Troia. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, nº 34, p. 175-178, jul./set. 2021. (Conto)
Desde 1998, colabora com crônicas e artigos no jornal O Estado do Maranhão. Sua produção é vasta e daria para compor vários livros inéditos.

 

Referências para estudo

1) NEVES, Maria Therezade Azevêdo. No Pantheon. São Luís: Gráfica Minerva, 2019. P 115 a 127.
2) MONTELLO, Josué. Prefácio de O último pecado capital & outras histórias. São Luís: Edições AML, 2000.
3) CYNTRÃO, Sylvia Helena. Prefácio de O narrador plural na obra de José Saramago. São Luís: Lithograf, 2003.
4) FERREIRA, Sônia Baptista. [Orelha]. Apontamentos de literatura medieval – literatura e religião. Edições AML: 2000.
5) MORAES, Jomar. As cinzas das quartas-feiras. O estado do Maranhão. 12 de 2000.

 

ERA UMA VEZ UMA CASA

 

Era uma vez uma casa que ficava em uma rua estreita no Centro Histórico da antiga e provinciana cidade. Uma antiga “morada inteira” do tempo da colonização portuguesa. Quem passava na rua nem desconfiava do mundo de mistérios encantamentos que aquela simples construção encobria e só revelava aos seus moradores, melhor dizendo, aos moradores pequeninos, gente que ainda não perdeu o dom da comunicação com os mundos paralelos e seus habitantes e sabe interpretar desejos e mensagens de seres inanimados.

Na casa imensa – quem sabe em proporção ao tamanho das crianças – era fácil viver-se em épocas e espaços diversos com a simples mudança de um cômodo para outro. Podia-se retornar ao passado, ou enveredar por lugares distantes, apenas transpondo uma cancela. De repente, me ocorre que Einstein certamente teve uma casa de avó semelhante a essa, e daí – quem sabe? – pode ter surgido a inspiração para a teoria da relatividade.  Já perceberam que se tratava uma casa de avó, feita para os netos, evidentemente.  Além das crianças e de uma avó pequenina e valente, havia na casa um avô sisudo e tranquilo e várias tias diligentes e alegres.

O passado acontecia na água-furtada (quartinho pegado ao mirante, cuja janela abria-se sobre o telhado).  Como? A casa tinha mirante?  Claro, logo a condição especial requerida para as casas mágicas… Pois é, tinha mirante – aquele quarto que fica em cima das casas e serve para olhar o mar –, e, é bom deixar claro, que lá se encontrava um daqueles portais do tempo que todos sabem. Chegar ao mirante não era fácil, havia que driblar os adultos – melhor na hora do cochilo depois do almoço – e, em meio a psius, abrir a cancelinha da escada de acesso e subir.

        Já na água – furtada, num ambiente surreal iluminado por raios de sol intrometidos pelas frestas das telhas, nos quais a poeira levantada semeava lantejoulas, as crianças abriam os baús. As meninas adornavam-se com xales franjados, vestidos de seda  e antigos chapéus de palha italiana enfeitados com tules e  flores de pano amassadas. Os meninos envergavam paletós fouveiros e botas gastas.  Havia até algo parecido com um uniforme militar, de algum antepassado não nomeado – a família não tinha tradição no ramo: do lado da brava avó, eram metidos a revolucionários; do lado do tranquilo avô, eram metidos a juristas.

      Então, em algum salão de castelo do passado, começava a festa. Um duque, metido em imensas botas e com o paletó arrastando pelo chão, fazia salamaleques: A Senhora condessa aceita um picolé de morango? Não? Um cachinho de pitombas, então?  Idiota, você não sabe que as condessas só tomam chá? Enjoada. Então não gosto de condessas. Pronto.

   Trocadas as roupas, de volta ao presente, era chegado o momento máximo: o de transpor a janelinha da água-furtada e alcançar o telhado. De pé sobre as telhas, coraçãozinho pulando, vento ao peito e nos cabelos, podiam ver o mar e voar como Peter Pan. Eu sou Wendy, e eu sou Peter Pan. Não, você é o Capitão Gancho, repete isso e eu te empurro lá em baixo.

     Como era moda, ou talvez já até tivesse passado a moda – que a avó não era de dar bolas para modas – as paredes da casa ostentavam pinturas de guirlandas de flores na sala de visitas e nos quartos.  As paredes da sala de jantar, chamada de varanda, como é de costume nas casas antigas maranhenses, eram cercadas de inusitados afrescos pintados por uma tia que estudou na Escola de Belas Artes. Eram desmaiadas paisagens marítimas de barcos azuis, sobre o mar azul e ao longe um céu azul.  Deve ter sido a “fase azul” da tia pintora.

      As outras tias, jovens e alegres, não pintavam, mas tinham o curioso hábito de escrever em cadernos escolares, com a letra bem caprichada, dezenas de letras de música (em castelhano) e de recortar e colar em pesados álbuns retratos de artistas de cinema tirados das revistas que viviam a folhear.

        Dentre as crianças, a mais velha era uma menina de uns oito anos, dirigente dos brinquedos, pela sua própria condição de mais velha e pela familiaridade que tinha com os seres do mundo mágico. Dos meninos destacava-se um que tinha poderes para fazer os outros desaparecerem: quando se aborrecia com alguém, simplesmente fechava os olhos, fazia uns gestos mágicos e dizia: “desaparece”.  Deve-se dizer que isso nem sempre fazia efeito e ele ficava muito zangado, mas, sendo ele o predileto do poderoso avô, alguns habitantes da casa colaboravam a contragosto, e a mágica acabava acontecendo. A menina aprendeu essa mágica muito bem. Para comprovar o que dizemos, ela, quando ficou adulta, livrou-se de muita gente má, ou mesmo apenas chata, com esse truque. É bem verdade que as pessoas, mesmo após a mágica, continuavam ali, mas a vantagem é que ela não mais as via.

          E havia a maravilha da casa: uma pintura gigante (não sei se da autoria da mesma tia), que tomava toda a alta parede do fundo do corredor ao lado da cozinha. Representava uma fazenda, com árvores, flores, e uma estrada que começava numa cancela à frente da pintura e se perdia em curvas no horizonte. O quadro, visto da porta de entrada, parecia tão real, que visitas diziam ao avô: Bela quinta o Dr. tem aqui.

       A menina, quando se pilhava sozinha, penetrava na pintura, abria a cancela e caminhava serelepe pela estrada. Perguntava, curiosa, aos moradores dos campos e das casinhas: De quem são estas terras?  Do Marquês de Carabás, respondiam invariavelmente. Ela ansiava por saber o que havia no final do caminho. Só que a estradinha parecia não ter fim, sempre serpenteando mais além, e quando ela vislumbrava o que talvez fosse o final, lá, alguém de dentro da casa a chamava e tinha que voltar depressa ao corredor. Onde você estava, menina? Aqui, na cozinha.  Respondia, com cara de pau.

         Passou o tempo, os avós morreram, os primos se dispersaram, as diligentes tias casaram e foram ensinar aos filhos como copiar letras de música em belos cadernos e fazer álbuns de artistas de cinema. A casa foi vendida e o novo dono, não muito chegado às artes, mandou pintar todas as paredes de creme, inclusive a do fundo do corredor.

       A menina cresceu, mas guardou um hábito de que não consegue desfazer-se: quando anda pelas terras do Marquês de Carabás (como há marqueses de Carabás, no mundo!) vive à procura de caminhos que serpenteiam entre árvores e parecem nunca acabar. E digo a vocês, ela já gastou mais de um sapato de ferro e ainda não encontrou o fim de nenhum deles.

 

 

FERNANDES, Ceres Costa. O último pecado capital & outras histórias. São Luís: Edições AML, 2000, p. 58-61.

 

 

 

 

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