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Cadeira Nº 37

Joaquim Haickel

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Biografia

Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel nasceu em São Luís, no dia 13 de dezembro de 1959. É poeta, contista, cronista e cineasta. Fundou e dirigiu a Revista e as Edições Guarnicê. Hoje dirigi a Guarnicê Produções. É advogado e empresário. Foi deputado estadual, deputado federal constituinte e secretário de estado entre 1983 e 2015. É o autor das leis de incentivo à Cultura e ao Esporte do Maranhão. Idealizou e constituiu em 1996 a Fundação Nagib Haickel, que visa promover a educação, a cultura e a cidadania. Em 2009, criou o Museu da Memória Audiovisual do Maranhão – MAVAM – dedicado a produzir, preservar e difundir a memória maranhense através de meios audiovisuais.É membro da Academia Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira n0 37, como sucessor de Nascimento Morais Filho.

Bibliografia

  • 1)     Confissões de uma caneta. São Luís: Edição do Autor, 1980. (Poemas/ Premiado no concurso cidade de São Luís.)

    2)    O quinto cavaleiro. São Luís: Edição do Autor, 1981. (Poemas) 

    3)    Garrafa de ilusões. São Luís: SIOGE/Civilização,1982. (Premiado no concurso SECMA/SIOGE/Civilização Brasileira) 

    4)    Manuscritos. São Luís: Edições Guarnicê,1983. (Poemas)

    5)    Antologia poética Guarnicê. São Luís: Edições Guarnicê, 1984. (Poemas) 

    6)    Antologia erótica Guarnicê. São Luís: Edições Guarnicê, 1985, (Poemas) 

    7)    Clara cor-de-rosa. São Luís: Edições Guarnicê, 1986. (Contos)

    8)    Saltério de três cordas. São Luís: Edições Guarnicê, 1989. (Poemas, em parceria com Rossini Corrêa e Pedro Braga)

    9)    A ponte. Editora Global/Edições Guarnicê, 1991. (Contos) 

    10) Almanaque Guarnicê. São Luís Edições Guarnicê/ Editora Clara, 2003. (Memórias sobre a Revista Guarnicê.)

    11) As melhores crônicas da Clara online. São Luís: Editora Clara, 2005. (Crônicas) 

    12) Dito e feito. São Luís: Edições Guarnicê, 2009. (Crônicas) 

    13) Discurso de posse de Joaquim Haickel. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 91, vol. 25, p. 189-210, dez., 2010.

    14) Contoscrônicas, poemas & outras palavras. São Luís: Edições Guarnicê, 2012. (Vários gêneros.)

    15) A estante e a estátua. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, n. 31, p. 159-173, dez., 2020.

    16) Amor dois graus ao sul do Equador. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, vol. 93, n. 30, p. 85-94, jul., 2019.

    FILMOGRAFIA:

     

    1)    “The Best Friend”, o amigão;

    2)     Padre Nosso;

    3)     Pelo Ouvido;

    4)     A Ponte;

    5)     Upaon-Açu, Saint Louis, São Luís;

    6)     A pedra e a palavra;

    7)     Joca e a estrela;

    8)     Balaiada – a guerra do Maranhão;

    9)     Nagib – o caboclo do Pindaré;

    10)  Haroldo – o que ousou sonhar; Redenção;

    11)  Imortais da Academia Maranhense de Letras;

    12)  Luzes, cores e formas; Radialistas Maranhenses;

    13)  A estrela e o vagalume – Carlos e Zelinda;

    14)   Velho moleque; São Luís – encantos e magias;

    15)  Guerra dos mundos no Maranhão;

    16)  Fernando Silva – O filho do Consul;

    17)  António Guimarães – O colecionador de lembranças;

    18)  Terezinha e as plantas; Moradas e Memórias;

    19)  Américo – o cazumbá;

    20)   Não é permitido sair com;

    21)  No palco com Aldo Leite;

    22)  O império de um navegador;

    23)  Maio 86;

    24)   Pelos olhos de Lindberg Leite;

    25)  Celso Antônio – Brasileiro;

    26)  Lindberg Leite – os olhos do Maranhão;

    27)  Raja na rota das emoções;

    28)  Manufatura Fashion;

    29)  A pedra enquanto  palavra – Padre António Vieira;

    30)   O Pai da Rita; Orbitas da Água;

    31)  Currupira;

    32)  Lockdown – Como não fazer um filme;

    33)  Arcanos… (entre outros.) 

REFERENCIAS PARA ESTUDO:

  • MORAES, Jomar (Org.). Perfis acadêmicos. 5. ed. São Luís: Edições AML, 2014.
  • LOUZEIRO, José. Saudação de José Louzeiro a Joaquim Haickel. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 91, vol. 25, p. 211-232, dez., 2010.
  • Almanaque Guarnicê, Edições Guarnicê e Editora Clara, 2003;
  • REIS, Eliana Tavares dos. Referencial e mediação na produção de políticas públicas para a cultura no Maranhão. São Luís: EDUFMA, 2008;
  • GRILL, Igor Gastal. As fronteiras móveis da “oligarquia” e a “elite política” Maranhense. Editora UFRGS, 2009;
  • ASSIS, Ingrid Pereira de. Descendentes de Libaneses na Política do Maranhão: Ascenção Econômica, Relações Pessoais e Afirmação Política. Mestrado em Ciências Sociais, EDUFMA, 2012;
  • Comunicação enquanto estratégia de formação e fortalecimento de elites no Maranhão. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Rio de Janeiro, RJ – 4 a 7/9/2015;
  • GRILL, Igor Gastal; REIS, Eliana Tavares dos. Elites parlamentares e a dupla arte de representar: intersecções entre “política” e “cultura” no Brasil. Editora FGV, 1 de jul. de 2017;
  • Karolline Cristine Reis. Perfis Sociais, Produção Cultural e Atuação Política dos Membros do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão – IHGM. Revista Eletrônica de Ciência Política, vol. 8, n. 2, 2017
 
 

O OBSERVADOR

Observar é um verbo que conjugo e pratico desde quando pode minha memória se lembrar.

  Quando menino eu era quieto e preferia ficar olhando tudo o que acontecia, ao contrário dos outros de minha idade que participavam de todas as atividades, quaisquer que fossem elas. Sempre fui muito seletivo.

  Nasci um pouco antes da segunda grande guerra e criei-me enquanto o mundo se reorganizava. Hoje, olhando para trás a imagem que faço do mundo de então é de um daqueles semideuses da mitologia grega, que, depois de uma ferrenha batalha, digna de um cronista como Homero, busca o aconchego da mulher amada para curar-lhe as feridas e depois de fazer amor com ela adormece, buscando na cama a melhor forma de acomodar-se, beneficiando o lado do corpo mais dilacerado pela luta.

  Era assim o tempo de minha infância, talvez por isso não tenham saído daquela geração tantos gênios da humanidade como ocorrera na geração anterior e como haveria de ocorrer na geração que nos sucedeu.

  A guerra devastou a Europa e com a Inglaterra, cereja do bolo ambicionada por Adolf, não seria diferente. Muito pelo contrário sofremos como poucos. Pior que nós só os russos em sus própria casa e os judeus na casa de todos.

  Primeiro foram as V1, depois as V2 e graças a Deus a guerra acabou antes que as V3 pudessem ser usadas, pois estas teriam nos aniquilado.

  Londres foi reconstruída e foi nesse cenário de reconstrução que me construí.

  Meu pai, que Deus o tenha, era um graduado funcionário do almirantado. Chegou a trabalhar com o velho Winston. Não eram íntimos, mas se cumprimentavam. Minha mãe, essa era uma história à parte. Filha de um ex-soldado e mineiro de carvão com uma indiana que ele conheceu na África do Sul, ela tinha olhos verdes e a pele clara. Meu pai dizia que ela descendia de um dos generais de Alexandre, o Grande. Quando adolescente, cogitei que ela pudesse ser descendente do próprio Ptolomeu, ancestral de Cleópatra.

  Na verdade, minha mãe era neta de um oficial britânico que na Índia apaixonou-se perdidamente pela esposa de um marajá… Bem, isso já é por conta da minha prodigiosa imaginação.

  Mas voltemos a minha mania de observar. Eu sempre fui um aluno aplicado, me saí bem na escola e por isso consegui inscrever-me em uma excelente universidade. Sempre fui bom com línguas. Com o inglês, língua mater, não tive maiores problemas. Estudei latim, grego clássico e sânscrito. Não satisfeito com as línguas mortas fui ávido em busca das vivas. Literal e literariamente.

  Doutorei-me nisso. Falo mandarim, japonês, árabe, russo, alemão, francês, italiano, espanhol e português, além de aranhar no hindu, suaíle, africâner e holandês. Ultimamente tenho me sentido tentado a aprender a língua dos nativos brasileiros, codificada pelos jesuítas, também conhecida por tupi geral.

  Bem, é aqui que começa realmente essa história.

  Brasil. Moro no Brasil há mais de dez anos, desde que me aposentei. Fui diplomata por quarenta anos e meu último posto foi no Brasil. Brasília é uma cidade água: incolor, em que pese sua luz magnífica; insípida, apesar das deliciosas frutas do cerrado; inodora, mesmo que a politicalha insista em putrefar por lá.

  Trabalhava de segunda a sexta, melhor que os parlamentares brasileiros que o fazem apenas terça, quarta e quinta. Meus sábados e domingos eram invariavelmente passados na maravilhosa cidade maravilhosa: Rio de Janeiro.

  Em muito pouco tempo de Brasil e conhecendo o Rio quase como um nativo, a decisão de não voltar para a fria e cinzenta Londres foi automática. Hoje sou “citizen of Ipanema”.

  Mas ainda não consegui entrar na história propriamente dita, e parece que isso ainda vai demorar um pouco mais, pois preciso desenhar melhor este cenário.

  Trabalhando no Ministério das Relações Exteriores pude conhecer o mundo e me fazer útil pelo fato de dominar várias línguas. Por isso me interessei por literatura, teatro, cinema e cultura de um modo geral. Quem se dedica a isso acaba aprendendo alguma coisa e quem sabe alguma coisa é capaz de escrever algo. Tornei-me um escritor mesmo antes da aposentadoria, mas depois dela o que antes era apenas um hobby passou a ser providencial complemento da pensão. Escrevo para um jornal inglês, um americano e um brasileiro, além de ter contrato com uma editora espanhola a quem devo entregar um livro por ano pelos próximos dez anos. Posso escrever sobre qualquer assunto que eu queira e isso é o que mais me fascina. A liberdade.

  Agora vai! Introdução feita, vamos aos “finalmentes”, como diria um dos maiores dramaturgos brasileiros, Dias Gomes, eternizado por seu impagável Odorico Paraguaçu, protótipo do político brasileiro, muito típico do Nordeste até os idos dos anos sessenta. Os de agora são bem piores, pois nada têm de hilários.

  Voltemos ao verbo observar, primeira palavra dessa história. Observar é o que faço de melhor. Observar e explorar as línguas. Mais observar…

  Observo tudo. Tenho a ótima memória e desenvolvi técnicas refinadas. Estudei formas de fazer isso com elevado grau de perfeição: aprendi a ler lábios; linguagem corporal; interpretar a expressão dos olhos; desenvolvi uma série de jogos psicológicos.

  Naquela tarde não estava nem preparado para o que aconteceria.

  Saí de casa para cobrir, para meu jornal londrino, uma das mais tradicionais festas do Carnaval carioca, a Feijoada do Amaral.

  Eu havia conhecido Ricardo e Gisela na casa de amigos comuns, juntei prazer com dever e fui.

  A feijoada é o que se pode chamar de prato-símbolo da culinária brasileira. Se fosse música seria o samba do crioulo doido. Existem outros pratos importantes, como os baianos caruru, vatapá e acarajé; o maranhense cuxá; o paraense pato no tucupi; a nordestina de todos os estados, carne de sol; a capixaba moqueca e o tradicional churrasco gaúcho… A feijoada é a soma de tudo que sobrava na cozinha da casa dos senhores de escravos e que, chegando à senzala, os negros, adicionando o feijão, tornavam-na uma comida forte, capaz de dar-lhes, incoerentemente, mais força para transformar seu suor no lucro de seus senhores.

  A Feijoada do Amaral junta o que há de melhor no que diz respeito a Carnaval fora da passarela do samba: comida, bebida, música e gente. É aqui que vamos tomar caminho transverso. Vou esquecer o samba, a bebida e o feijão e vamos falar daquela moça linda que estava lá juntamente com meia dúzia de amigas, distribuindo simpatia em forma de dança e sorriso.

  Ela chamava atenção por ser não apenas a mais bonita de todas as mulheres da festa, e olhe que havia umas três mil pessoas, sendo pelo menos três quintos de mulheres. Ela não era apenas a mais bonita, era a mais alta, a mais afinada em música e coreografia, a mais alegre e simpática.

  Não me entendam mal, por favor. Sou como já disse um observador contumaz!

  Em meio a tudo aquilo apareceu um rapaz, também alto, elegante mesmo. Não tão bom de ritmo e coreografia quanto a tal moça, seus passos eram pesados, mas ele se esforçava.

  Aproximou-se e começou tal qual uma ave do paraíso a fazer sua dança ritual de acasalamento. Pelo menos parece que era isso que ele pretendia. Ele, a princípio sem jeito, cercava a moça, dançava em torno dela… Isso durou pelo menos duas dezenas de minutos, eu de longe só observava. Depois de ter se feito notar, ele tentou fazê-la dançar consigo. A priori nada feito. Ela girou e continuou a coreografia que ela e as amigas faziam, chamando a atenção de todos. Balançava ondulando os ombros, jogava o pescoço de lado, fazendo com que o cabelo voasse da esquerda para direita e repetia os movimentos invertendo o lado.

  O rapaz não se fez de rogado e continuou sua tentativa de abordagem. Ela sempre sorria e saía de lado. Ele voltava e ela driblava como um Garrincha sem pernas tortas, de quem com certeza jamais viu um único jogo, ao contrário de mim que estava em Santiago em 1962 e o vi em ação, quando Pelé faltou aos brasileiros.

  Mulher é bicho impossível. De repente ela começou a dançar em frente a ele. Fiquei me perguntando se seria para ele.

  Nessa hora o observador tomou conta de mim completamente. Olhei os olhos dele e eles brilhavam. Havia ultrapassado o primeiro portal, o visual. Foi um simples avistamento, tal qual um OVNI. Ainda faltava muito.

  A certa altura, em meio àquilo tudo, os olhos dele cruzaram com os meus. Uma, duas, três vezes. Ele notou que eu observava. Ela, distante de tudo e de quase todos, jamais notou nada.

Ele viu meu interesse e, assim que pôde, depois de mais de hora e meia de corte, veio em minha direção e perguntou o que eu achava, ao que respondi que se ele conseguisse o que visivelmente pretendia eu custearia todas as despesas, incluídas aí jantar. Hospedagem no Copacabana Palace e até viagem para a paradisíaca Ilha de Fernando de Noronha, desde que eles permitissem que eu escrevesse sua história. Ele sorriu como quem garantisse que conseguiria e voltou para a pista de dança.

  Antes de sair, no entanto, sabedor de que sua façanha estava sendo observada, perguntou-me se achava possível seu intento. Respondi-lhe com um gesto de face, contraindo boca, queixo e fronte, acompanhados de leve flexão de ombros, abrindo levemente braços e mãos, o que para mim significava “alea jacta est”. Ele sorriu suavemente e pediu que torcesse por ele. Nessa hora, notei que ele já havia bebido mais do que devia e foi também nessa hora que deixei de observá-los. Mesmo que continuasse a olhar para eles, passei a observar o observador.

  Senti-me uma espécie de voyeur. De certa maneira me senti como um Cyrano de Bergerac moderno, tentando ensinar seu jovem amigo Cristiano a como conquistar a bela Roxane.

  Segui os passos dele e as reações dela. Isso durou mais meia hora, até que, já cansada, cedeu e permitiu que ele falasse ao seu ouvido. O segundo portal estava transposto.

  Ela de costas para mim e ele de frente cochichavam ao som ensurdecedor de marchinhas dos carnavais de outrora, segundo uma amiga saudosista.

  Voltando ao observador, já não sabia se torcia para ele conseguir ou para ela resistir. Por um instante, esqueci-me de que há muito havia feito minha opção sexual e mulheres estavam fora dela. Havia experimentado algumas vezes, mas elas não combinavam comigo. Éramos muito iguais. Mistérios demais.

  Tive apenas duas experiências relevantes, que podem ser citadas. A primeira foi com Emily Mac Gregory, quando ainda estava em Oxford. Chegamos até a nos casar, mas não poderia ter dado certo. A outra foi quando morei em Moscou. Tive um tórrido romance com Irina, uma coronel da Força Aérea Soviética, mas logo passou, como o Mirage que ela pilotava.

  De repente me via ali observando e já não mais sabia se estava interessado no prazer da observação, naquela bela mulher que normalmente não me atrairia ou no rapaz que, apesar de não ser meu tipo, passei a admirar por sua persistência e por simples contemplação… Não sei porque me lembrei de uma cena triste de Dirk Bogarde em Morte em Veneza do genial Visconti.

  Bem, se de mais nada valeu, valeu pelo menos para escrever um dos capítulos de meu próximo livro sobre a vida do Rio de Janeiro, que tenho de entregar à editora nas próximas semanas.

  Quando saí da Feijoada do Amaral, o rapaz continuava a tentar conquistar a moça.

(HAICKEL, Joaquim Nagib. Contoscrônicas, poemas & outras palavras. São Luís: Edições Guarnicê, 2012, p. 55-58.)

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