Stencil-Acrilex-30x8-1125-Barra-Arabesco-2 copiar

Cadeira Nº 36

José Neres

Stencil-Acrilex-30x8-1125-Barra-Arabesco-2 copiar

Biografia

José Ribamar Neres Costa nasceu em São José de Ribamar-MA, a 17 de fevereiro de 1970. É poeta e professor. Viveu parte da infância em Brasília e Goiás, onde fez os estudos iniciais. De volta ao Maranhão licenciou-se em Letras (Português e Espanhol) pela Universidade Federal do Maranhão, onde posteriormente, atuou como professor substituto. É especialista em Literatura Brasileira, em História, mestre em Educação e doutor pela Universidade Anhanguera. Como docente, trabalha ou trabalhou em diversas instituições de ensino superior e de pós-graduação como Colégio Brasil, Centro de Ensino Universitário José Maria do Amaral, Faculdade Atenas Maranhense, Faculdade Pitágoras, Faculdade Santa Fé e Universidade Federal do Maranhão, além de haver prestado serviços para a Universidade Estadual do Maranhão, Instituto Superior Franciscano e Centro Sul Brasileiro de Pesquisa e Pós-Graduação. Colabora em jornais e revistas, como O Estado do Maranhão, Jornal Pequeno, De Repente, Literatura Conhecimento Prático e Língua Portuguesa Conhecimento Prático. É detentor de diversos prêmios e honrarias como Menção Honrosa e Honra ao Mérito, ambos concedidos pelo Instituto da Poesia Internacional; Prêmio Odylo Costa, filho, concedido pela Prefeitura de São Luís pelo livro Resto de Vidas Perdidas; Prêmio A Importância do Livro no Brasil do Século XX, concedido pela Academia Brasileira de Letras em parceria com o jornal Folha Dirigida e Medalha do Bicentenário de João Lisboa. Na Academia Maranhense de Letras ocupa a Cadeira n0 36, como sucessor de Ubiratan Teixeira.

Bibliografia

1) Negra Rosa & Outros Poemas. São Luís, 1999.

2) Poemas de Desamor, 2000.

3) A Mulher de Potifar, 2002.

4) Restos de Vidas Perdidas, 2006.

5) Montello: O Benjamim da Academia. Editora Carajás, 2008.

6) Estratégias para matar um leitor em formação, 2005.

7) O Último Desejo de Catirina, 2010.

8) Sombras na Escuridão, 2010.

9) Lousa Rabiscada, 2013. 

10) Os Epigramas de Artur, 2000. (Coautor) 

11) O Discurso e as Ideias, 2010. (Coautor)

12) O Verso e o Silêncio de Adelino Fontoura, 2011. (Coautor)

13) Maranhão na Ponta da Língua, 2011. (Coautor) 

14) Tábua de Papel, 2010. (Organizador)

15) 15 Contos+ (I e II). (Participação)

16) A Importância do Livro no Brasil do Século XXI. (Participação)

17) Poesia de Amor para Sempre, 2004. (Participação)

18) O Beijo (2000). (Participação).

19) Antologia Del’Secchi X e XI, 2000. (Participação).

20) Mil Poetas Brasileiros. (Participação).

21) Na trilha das palavras. São Luís: Editora Café e Lápis, 2015.

22) Discurso de posse na academia Maranhense de Letras, proferido pelo Acadêmico José Neres Costa. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 97, vol. 26, p. 47-72, abr., 2016.

23) Celso Magalhães: pioneiro nos estudos do folclore brasileiro. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, vol. 93, n0 30, p. 37-51, jul., 2019.

24) Azulejos em papel jornal. São Luís: Edições AML, 2019. (Crônicas)

25) A dor sangra em nossos olhos. Olinda: Livro Rápido, 2019.

26) Úrsula – Maria Firmina dos Reis. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, n0 31, p. 229-221, out./dez, 2020.

27) Pedra AnGullar. São Luís: Gráfica Valle 2019. 

 

Também é autor de diversos artigos científicos sobre Literatura, Educação e Língua Portuguesa, além de ser criador e editor do informativo Ilhavirtualpontocom, que tem como objetivo divulgar as letras maranhenses. 

 

Referências para estudo

 

1) FERNANDES, Ceres Costa. Saudação de Ceres Costa Fernandes a José Neres Costa. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 97, vol. 26, p. 73-87, abr., 2016.

 


MEMÓRIAS DE UM CASARÃO ABANDONADO

 

            Mais uma vez chega o período chuvoso à nossa Cidade. Com ele sempre volta o meu antigo temor de que cada chuva seja a última minha. Tal qual um leproso, sinto minhas partes se soltando. Sinto que cedo ou tarde darei meu último suspiro. Meu último, sonoro e dolorido suspiro. Igual ao dos meus irmãos que já se foram.

            Tenho ainda na memória meus dias de glória. Tempos longevos e irrecuperáveis. Todos acreditavam que eu seria eterno. As paredes largas, recheadas de pedras, cal e óleo de baleia, eram a garantia de uma vida longa e sem problemas. Ninguém daquele tempo acreditava que um dia eu chegaria a este estado decrépito, em que até mesmo um vento mais forte pode ser uma ameaça mortal.

            Meus primeiros donos me ergueram como símbolo de riqueza e ostentação. Quantos barões e abastados senhores de escravos não passaram pelos meus portais! Quantas conspirações políticas não foram articuladas em minhas amplas salas! Quantas negras não foram desvirginadas à força em meus escuros corredores na calada da noite! Quantas senhoras brancas não receberam seus amantes – brancos, negros ou mulatos – em meus inúmeros aposentos de luxo! Sobre tudo isso guardo um silêncio sem fim. Sou detentor de segredos que dariam fama e dinheiro a qualquer pesquisador interessado nas picuinhas de nossa cidade. Sou uma testemunha muda da História dessa gente que me destrói aos poucos em sua eterna indiferença sobre meu estado de conservação.

            Um dia, as manchetes dos jornais gritadas nas ruas me trouxeram um alento: a Cidade como um todo acabava de virar Patrimônio da Humanidade. Céus! Patrimônio da Humanidade! Isso era a minha salvação. Seria restaurado. Minhas paredes gretadas finalmente seriam reconstituídas. Meus azulejos não seriam mais roubados, não mais serviriam como souvenir para turistas e transeuntes inescrupulosos que me feriam com seus canivetes de mil e uma utilidades. Pedaços de minha vida não seriam mais cobiçados por museus da Europa, ávidos de enriquecimento de seus acervos à custa do desonesto furor dos inúmeros caçadores de raridades.

            Mas isso não passou de uma ilusão. De uma triste ilusão. Vi, consternado, alguns de meus irmãos mais bem localizados sendo restaurados. Vi ruas, becos, igrejas e calçadas sendo recuperadas… E eu sendo esquecido!… O tempo áureo voltava para uns, e a certeza da total inutilidade era evidenciada para outros. E eu estava entre os outros… Acompanhei velhos companheiros recuperarem o viço da juventude e serem reinaugurados com festas, com bandas de música, com discursos tão vazios quanto verborrágicos. E eu me senti cada vez mais solitário. Os flashes das máquinas e a luz das filmadoras não mais refletiam em minhas carcomidas paredes. A cidade ficou cega para mim.

            Vários espaços vazios começaram a aparecer nas tomadas aéreas. Eram meus irmãos abandonados que sucumbiam sob o peso dos temporais. Os tratores vinham, limpavam o terreno e poucos dias depois a Cidade era presenteada com um novo estacionamento rotativo. É… o bem-estar dos automóveis é muito mais importante que a história de um povo… Fazer o quê? É o famoso preço do progresso.

            Nuvens escuras se aproximam sinto já as primeiras gotas batendo contra o que restou de minhas telhas. Parece que uma tempestade se aproxima. Pelo rádio de um passante, ouvi que o temporal hoje será forte. Sinto que meus dias chegam ao fim. Talvez amanhã uma foto de meus escombros ilustre uma página de jornal. Semana que vem os motoristas terão mais um lugar para seus carros. Começou a chuva…

           

 

 

(NERES, José. Azulejos em papel jornal. São Luís: Edições AML, 2019, p. 19-21.)

Carrinho de compras