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Cadeira Nº 31

Ronaldo Costa Fernandes

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Biografia

Ronaldo Costa Fernandes nasceu em São Luís a 29 de agosto de 1952. É graduado em Letras pela UFRJ. Fez Mestrado em Literatura Hispano-Americana, na mesma faculdade, e Doutorado em Literatura Brasileira, na Universidade de Brasília. Deu aulas de literatura na Universidade Notre Dame (1977), foi chefe do Setor de Arte e Cultura da Universidade Católica de Brasília (agosto 1997 – novembro 1998). Foi Coordenador da Funarte-Brasília, de março de 1995 a janeiro de 2003. Cedido em julho de 2003 ao Senado Federal, trabalhou no Conselho Editorial da Casa até 2018. Pertence ao quadro de funcionários da Fundação Biblioteca Nacional, onde entrou em 1980 até aposentar-se em 2017. De dezembro de 1985 a janeiro de 1995, dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas, na Venezuela. Foi, durante três anos e meio, professor-convidado de Literatura Brasileira na Universidade Central da Venezuela. Na volta, produziu e apresentou, junto com Rogério Lima, 17 programas culturais de entrevista, de duração de cinquenta minutos cada, no Canal 21 da MaisTV, pertencente ao canal a cabo MAISTV. Entre os entrevistados, Eduardo Portella, Sérgio Paulo Rouanet e Benedito Nunes.  É também membro da Academia Brasiliense de Letras, cadeira XVIII, patrono Cláudio Manuel da Costa, eleito em 3 de setembro de 2004 e empossado em 16 de novembro de 2005. Recebeu, em 1996, a Medalha La Ravardière, comenda da municipalidade da cidade de São Luís, além de vários prêmios. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira nº 31, como sucessor de Josué Montelo.

Bibliografia

Livros:

  1. João Rama, romance, Ed. Codecri, Rio de Janeiro (1979).
  2. O Ladrão de Cartas, novela, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro (1981).
  3. Retratos Falados, romance, Ed. Philobiblion, Rio de Janeiro (1984).
  4. Noticias del Horto, novela, Ed. Monte Avila, Caracas, Venezuela (1991).
  5. El muerto solidario, romance, Ed. Casa de las Américas, Havana, Cuba (1991).
  6. O narrador do romance, ensaio, Ed. Sette Letras, Rio de Janeiro (1996).
  7. Estrangeiro, poesia, Ed. Sette Letras, Rio de Janeiro (1997).
  8. Concerto para flauta e martelo, romance, Ed. Revan, Rio de Janeiro (1997).
  9. Terratreme, poesia, Fundação Cultural do DF (1998)
  10. O morto solidário, romance, Ed. Revan (1998).
  11. Andarilho, poesia, Ed. Sette Letras (2000).
  12. Eterno Passageiro, poesia, Ed. Varanda (2004).
  13. O viúvo, romance, Ed. LGE (2005)
  14. Manual de Tortura, Ed. Esquina da Palavra, contos (2007)
  15. A ideologia do personagem brasileiro, Ed. UnB, ensaio (2007).
  16. A máquina das mãos, Ed. 7Letras, poesia (2009).
  17. Um homem é muito pouco, Ed. Nankin, romance (2010).
  18. Memória dos porcos, Ed. 7Letras, poesia (2012).
  19. O difícil exercício das cinzas, Ed. 7Letras, poesia (2014).
  20. Vieira na ilha do Maranhão, Ed. 7Letras, romance (2019).
  21. O apetite dos mortos, Ed. Jaguatirica, romance (2019)
  22. Balaiada, Edição Academia Maranhense de Letras (2021)
  23. O imaginário da cidade (em parceria com Rogério Lima), ensaios, Ed. da UNB/Imprensa Oficial de São Paulo, 2000.. (Organização)
  24. Narrador, cidade, literatura. In: Lima, Rogério e Fernandes, Ronaldo Costa. O imaginário da cidade. Brasília/São Paulo: Ed. da UNB/Imprensa Oficial de São Paulo, 2000. (Capítulo de livro)
  25. 25. As cidades em A rainha dos cárceres da Grécia. In: Almeida, Hugo. O sopro na argila. São Paulo: Nankin Editorial, 2004. (Capítulo de livro)
  26. Machado de Assis: servidor público. Introdução: p. IX a p. XXIV. In: GUEDES, Paulo e HAZIN, Elizabeth. Machado 1de Assis e a Administração Pública Federal. vol. 68. Brasília: Senado Federal, 2006. (Capítulo de livro)
  27. 27. História da literatura ocidental: a obra monumental de Otto Maria. Carpeaux. Introdução: p. XIX a XXXVI. In: CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Vol. 107-A. Brasília: Senado Federal. 2008. (Capítulo de livro)

Referência para estudo:

  • MORAES, Jomar (Org.). Perfis acadêmicos. 5. ed. São Luís: Edições AML, 2014.
  • ITAPARY, Joaquim. Saudação de Joaquim Itapary a Ronaldo Costa Fernandes. Revista da Academia Maranhense de Letras. Vol. 25, p. 133-142, dez., 2010.
  • NERES, José. Na trilha das palavras. São luís: Café e Lápis, 2015.
  • João Rama e suas andanças pela maldição do encantadoCAMPOMIZZI FILHO. “As fugas de mestre Rama”. Suplemento Literário de Minas Gerais. 20.10.1079, nº 681.

    KHÉDE, Sonia Salomão. Revista Tempo Brasileiro. Rio, 1980, p. 90.

    SILVA, Ivete Maria Martel da. De Lazarillo a João Rama: a permanência do pícaro. Dissertação de Mestrado – UFRJ. Rio de Janeiro, 2001.

    PONTES, Mário. “Indecisões de Rama”. In: Jornal do Brasil. Caderno B, 21 de agosto de 1979.

    • O ladrão de cartas

    ANTUNES, Nara. “A sutil metafísica do ato de viver”. In: Jornal de Brasília. Livros. 29.7.1981.

    BELLA, Josef. “Tradição e ruptura em ‘O ladrão de cartas’”. Suplemento literário de Minas Gerais. Sábado, 21.11.1981.

    BRANCO, G. Branco. “Uma história intrigante une o cotidiano ao inusitado”. In: O Globo. Domingo, 9.8.81. p. 5, 2º Caderno.

    MOSER, Gerald M. Sem título. World literature today. A literary Quarterly of the University of Oklahoma Norman. Summer 1982.d

    RANGEL, Paulo Celso. “Insólito vital”. In: Jornal do Brasil. Sábado, 18.7.1981.

    POVOA, José Liberato. Jornal O Estado de Minas Gerais, 9.11.79.

    • Retratos falados

    ALMEIDA, Hugo. “Retratos falados”. In: Jornal da tarde. Caderno de programas e leituras. 2.3.2985. p.14.

    COUTINHO, Sônia. “Atmosfera densa e torturante como em um pesadelo infantil”. In: O Globo. Segundo Caderno, Domingo, 21.10.84.

    D.D. “Retratos falados: Um marco na obra de Ronaldo”. In: Jornal do Commercio. 16.3.86.

    FISCHER, Almeida. “Retratos Falados”. In: Colóquio Letras. Lisboa. Jan. 1986, nº89, p. 121.

    FISCHER, Almeida. “O estático e o dinâmico”. In: Última hora. Brasília. 22.03.85.

    KHÉDE, Sonia Salomão. “Retratos falados de Ronaldo Fernandes”. In: Correio das Artes. Paraíba. Setembro de 1985.

    MARQUES, Oswaldino. “Retratos falados ou O antiparmênides”. In. Suplemento literário de Minas Gerais. 16,3,1985. Incluído no livro Acoplagem no espaço, São Paulo, Ed. Perspectiva.

    MATOS, Edísio Gomes. “Primeira crítica: Retratos falados”. In: Correio Braziliense, 11.11.1984.

    MOREL, Mário. “Literatura não é sabonete”. In: Jornal do Commercio. 4.11.1984.

    OLIVEIRA, Franklin. “Espelho de ambiguidades”. In: Revista Senhor. nº 186. 10.10.84.

    SALES, Herberto. “Um redimensionamento da realidade”. In: O estado de São Paulo. Página 10, ano IV, número 243.

    SILVERMAN, Malcolm. Protesto e o novo romance brasileiro. 2ª ed. Rio: Civilização Brasileira, 2000, p. 120,151.

    • Estrangeiro

    SOUZA, Paulo Melo. “Notícia do front”. In: Diário da Manhã. São Luís, domingo, 15.2.2204.

    TAVARES, Carlos. “Grito de liberdade contra os cânones literários”. In: Jornal de Brasília. 16.6.97.

  • O morto solidário

    LIMA, Rogério. “Segredo do abismo”. In: Correio Braziliense. Caderno Dois. Pensar. Domingo, 20.12.1998.

    VILARINS, Zilda Alves Bezerra. Da simples linguagem ao realismo mágico no romance O morto solidário. Trabalho de conclusão de curso apresentado à Coordenação de Letras da Faculdade Planalto-Uniplan. Brasília. 2003.

    • Andarilho

    CAGIANO, Ronaldo. “Catarse dos dilemas existenciais”. Caderno de Sábado. Jornal da Tarde. São Paulo, 16.12.2000. Reproduzido em “Poesia como catarse”. In: Jornal de Brasília. 9.10.2000.

    • Terratreme

    DICKEL, Silvana Maria Dickel. A distorção e a transfiguração na obra de Ronaldo Costa Fernandes. Trabalho de conclusão de curso apresentado à Coordenação de Letras da Faculdade Planalto-Uniplan. Brasília. 2003.

    • Eterno passageiro

    CADEMARTORI, Lígia. “Versos fugazes e eternos”. In: Correio Braziliense. Caderno Pensar. Sábado, 20.11.2004.

    SOUZA, Jeferson de. “O exílio de quem fica”. In: Jornal Rascunho. Curitiba. Novembro de 2005. p. 15.

    • A máquina das mãos

    GONÇALVES, Adelto. “O (verdadeiro) Brasil na poesia de Costa Fernandes”. In: Lusofonia. As artes entre as letras. Porto, Portugal. 1.7.2009

    MENDES, André Di Bernardi Batista. “Em estado bruto”. In: O Estado de Minas. Sábado, 4.4.2009, p. 4.

    SÁ, Sérgio de. “Ronaldo, o craque”. In: Correio Braziliense. Caderno C. Sábado, 7.3.2009.

    • O viúvo

    CAGIANO, Ronaldo. “Farol no pântano”. In: Rascunho. Maio de 2006, p. 7, nº73.

    GONÇALVES, Adelto. “O viúvo, um acontecimento literário”. In: Pravda.ru, revistas Tripov e Germina, Jornal Primeiro de Janeiro, Porto, Portugal.

    JESUS, Linda Maria de. Espaço, memória e identidade no romance O viúvo, de Ronaldo Costa Fernandes. 2016. 118 f. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Universidade de Brasília, Brasília, 2016.

    LIMA, Rogério. “Uma existência desordenada como um bazar muçulmano”. In: Novas leituras da ficção brasileira no século XXI. Org: Helena Bonito Pereira. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie. pp. 159-179.

    MONTEIRO FILHO, Edgar. “O viúvo”. In: A tribuna. Amparo, São Paulo. Sexta-feira. 26.2.2010.

    SOUSA, Salomão. “Viuvez da humanidade”. Caderno B. Jornal do Brasil, 23 de dezembro de 2005. Reproduzido no Jornal da Associação Nacional dos Escritores, novembro de 2005, e no Jornal Opção (Goiânia), 6 a 12. 11. 2005.

    TAVARES, Carlos. “Existência fraturada”. In: Correio Braziliense. Caderno Pensar. Sábado, 22.4. 2006.

    • Manual de tortura

    LIMA, Geraldo. “A inquietante narrativa de Ronaldo Costa Fernandes”. In: Correio das Artes. João Pessoa, janeiro de 2008, p. 29.

    NERES, José. “O refugo humano nos contos de Ronaldo Costa Fernandes”. In: Na trilha das palavras. Estudos literários. São Luís: Café com Letras/Academia Maranhense de Letras, 2015. pp. 71-87.

    TEIXEIRA, Ubiratan. “Quando a tortura é prazerosa”. In: O estado do Maranhão. Caderno Alternativo. Sábado, 19,8.2207.

    • Um homem é muito pouco

    MOURA, Edílson Dias. “Literatura in memoriam: sentido de legitimação histórica”. In: Literatura e Política. Seção Temathis, v. 4, nº 2.

    MOURA, Edílson Dias. “Um romance surpreendente”. In: O estado do Maranhão. s/d.

    PANIAGO, Paulo. “Romance: cidade procura um autor”. In: No compasso das letras. Brasília: Instituto Terceiro Setor, 2012, pp. 44-49 e 63-65.

    • A cidade na literatura

    LOPES, Ana Maria. “Corpo a corpo com a cidade”. In: Correio Braziliense. Caderno Pensar. Sábado, 29 de abril de 2017.

    • Memória dos porcos

    BARBOSA FILHO. Hildeberto. “Evangelho pelo avesso no livro Memória dos porcos”. In: O estado do Maranhão. Caderno Alternativo. São Luís, 14.10.2012.

    BRESCIANI, Alberto. “Poesia agora”. In: Jornal da ANE (Associação Nacional dos Escritores). Brasília, maio 2013. Ano VIII, nº 51.

    • Matadouro de vozes

    MACHADO, Carlos. “Tensa e densa poesia”. In: www.algumapoesia.com.br . Número 421, ano 17. São Paulo, 24.4.2019.

    SECCHIN, Antonio Carlos. “Ronaldo Costa Fernandes cede à sua vigorosa veia poética em ‘Matadouro de vozes’”. In: Jornal Opção. Goiânia, 23.12.2018.

    • O apetite dos mortos

    ALMEIDA, Hugo. “Vida e ficção se fundem em O apetite dos mortos”. In: saopauloreview.com.br. s.d.

    • Vieira na ilha do Maranhão

    EWERTON, Neto. “Quarentena de bons maranhenses”. In: Ewerton.neto@hotmail. Blog do jornal O Estado do Maranhão. São Luís, 21.4.2020.

    GONÇALVES, Adelto. “Romance de Ronaldo Costa Fernandes resgata os anos do padre Vieira no Maranhão”. In: Jornal Opção. Domingo, 13.10.2019.

    OLIVEIRA, Vera Lúcia. “Um imperador no Maranhão”. In: Correio Braziliense. Caderno Pensar. Sábado, 7 de setembro de 2019.

    PATRIOTA, Margarida. “Romance reconstitui a vida de padre Vieira no Maranhão”. Entrevista de rádio. Rádio Senado, 3.7.2020.

    PRADO, Wil. “Romance recria a vida de padre António Vieira na ilha do Maranhão”. In: Jornal Opção. Domingo, 29.9. 2019.

    SEREJO, Lourival. “Vieira e o romance de Ronaldo”. In: www.lourivalserejo.com.br. s.d.

    • Balaiada

    LIMA, Antonio Carlos. Amor e ódio no tempo da Balaiada. In: O Estado do Maranhão, Opinião, Sábado / Domingo, p. 5. São Luís, 24 e 25 de julho de 2021.

    OLIVEIRA, Vera Lúcia. Do Cerco do Porto à Balaiada: As guerras de Ivo. In: O Estado do Maranhão. Caderno Alternativo, Sábado / Domingo, p.2. São Luís, 3 e 4 de julho de 2021.

    MACIEL, Nahima. Revolta liberal. In: Correio Braziliense. Caderno Diversão e Arte, p. 19. Quinta-feira, 21 de outubro de 2021.

 
INÍCIO DO ROMANCE VIEIRA NA ILHA DO MARANHÃO

        Vieira sentava-se à mesa rústica e pouco eclesiástica com Bettendorff, Carcavaz e José Cintra, numa assembleia por demais extravagante para padres pouco excessivos, ausentes do vício da gula alimentada pelos gorduchos carmelitas ou os glutões mercedários. O leitão em sua frente fora doado por António Porqueiro. Não havia talhares e o arroz da terra, miúdo e fracionado, escuro, estava empapado em cuias. Vieira chegava de outra entrada longa e dolorosa pelos igarapés, lagoas, matos cerrados e rios volumosos, com mais de duzentas canoas que podiam navegar num silêncio absoluto. Para Vieira, os índios aprenderam a manha das plantas que vivem sem alarido.

– Vossa Mercê pode dar a notícia ao Conselho Ultramarino.

– Comunico ao rei as derrotas e conquistas religiosas. As seculares, só quando dizem respeito à mesma fé difundida aos gentios. Deixo-vos os fatos mundanos a quem veio ao Maranhão tratar de assuntos da terra e não da gente.

– O ouro e a prata são deveras meu ofício e meu serviço demais de profissão, mas nele vislumbro, padre, apenas o quilate verdadeiro e puro e as nuanças de variações metálicas preciosas, dados orgânicos e físicos. Sou igual a um cientista de engenharia que mede, regula, registra e calcula.

– A engenharia de obras discorda da engenharia de minas – disse Vieira. – Os homens cá colocam outra óptica e clivagem: a ambição, que não é elemento químico, mas desvario descuidoso e mau dos homens que os desejam, ruinosos e sôfregos.

O vinho era servido no barrilote que chegara de Évora. Ao menos o vinho podia ser admirado e amenizar o sal do porco assado em brasa, porque Vieira abominava a cerveja de milho que os colonos, na falta de vinho português, fabricavam em seus quintais na prática aprendida com os selvagens.

José Cintra era mineiro. Chegara ao Maranhão um ano antes e partira logo em missão com uma entrada em que Vieira não participara, mas organizara. Acompanhava Cintra outro homem de minas, português de Aveiro, estudante em Leipizing. O pobre do Castro, moço delicado, alvíssimo, de tez pálida, não suportou os odores pestíferos e acabou sucumbindo às febres malignas apesar dos cuidados médicos e os unguentos dos gentios. José passou a viajar sozinho e sem ter com quem comentar, discutir, averiguar e conferir os dados que colhia.

– Mas estou seguro, padre, de que por estas terras em que andei do Maranhão e do Pará não existe ouro ou diamante, nem outro metal tão precioso, que a terra há de se fartar apenas dos grãos que a muitos devem ser preciosos e se colhem em abundância, ao contrário de outros que perseguimos.

Padre António andava preocupado com a questão das minas. Fizera um sermão em Belém. Queria mostrar que o ouro e a prata traziam mais danos que benefícios. Mesmo sem ciência, não vira nenhum ornamento ou peça que se assemelhasse a ouro no pescoço ou nas mãos dos índios. Ou mesmo qualquer objeto nas aldeias em que tivesse posto os olhos.

– Perde Sua Majestade uma boa parte da riqueza que nossa pátria poderá arrecadar, mas pelo menos ficamos livres da cobiça, da febre delirante que transforma bons cristãos em homens doentes. Essas minas que tanto desejam e estimam, ordinariamente não as descobre, nem as dá Deus por merecimento, senão em castigo de grandes pecados.

Comentou com o pesquisador de minas suas leituras sobre Potosí.

– Vida miseranda! Eu nunca fui ao Potosí, nem vi minas; porém nos livros que descrevem o que nelas se passa, não só causa espanto, mas horror, ler a fábrica e as máquinas, os artifícios e a força, o trabalho e os perigos com que as montanhas se cavam, as betas se seguem, e, perdidas, se tornam a buscar: os encontros de pedernais impenetráveis, ou de águas subterrâneas, que rebentam das penhas, as quais, ou se hão de esgotar com bombas, ou abrir-lhes novo caminho, furando por outra parte os mesmos montes: o estrondo dos maços, das cunhas, das alavancas e de outros instrumentos de ferro, alguns dos quais têm cento e cinquenta libras de peso, com que se batem, cortam de arrancam as pedras. É uma visão do inferno! Que utilidades se têm servido a Espanha dessas catacumbas? A mesma Espanha confessa e chora que lhe não têm servido mais que a de despovoar e empobrecer.

Vieira levantara-se. Um tapuia trouxera uma bacia para que lavasse as mãos. O padre sentou-se numa cadeira perto da janela de onde se podia ver a praça de armas ou a praça maior como alguns colonos gostavam de chamar.

– Aqui campeia o diabo, senhor José Cintra, sem precisar de ouro. Incestos, corrupção, feitiçarias, hereges, um mundo de perdição.

Vieira estava absorto com a visão do terreiro à sua frente. Ali ficavam a Casa de Misericórdia ao cabo da praça, o palácio do governador e a Câmara Nova com sua enxovia debaixo para a banda do mar. Além do Colégio dos Padres da Companhia de Jesus, de Nossa Senhora da Luz, logo atrás da Sé.

– Alguns são parcos de inteligência. Às vezes penso que aqui prego no deserto, prego para as pedras antes que para os peixes, pois, se os homens têm razão sem uso, os peixes têm uso sem razão. Já as pedras – disse depositando os cotovelos no parapeito da janela – não têm nem razão nem uso próprio.

Embora a maioria da população fosse pobre, camponeses desprovidos de qualquer refino, havia na colônia muitos padres, para não falar dos civis, belgas, suíços e alemães e com eles um pouco dos costumes da terra natal.

Vieira andou pelos rios Tapajós e Tocantins, foi até o Amazonas e Pará e subiu a serra fria e nebulosa de Ibiapaba. Homem que viveu nas cortes, foi diplomata na Holanda e França, onde conheceu Mazarino, intermediou o frustrado casamento de Dom Teodósio com a grande (de tamanho) princesa mademoiselle, um virago sete anos mais que o esquálido príncipe, beato de voz sumida. Sugeriu a El-Rei comprar Pernambuco dos holandeses e utilizar-se do capital sefardita. Este homem do mundo, ao chegar em São Luís, sentiu-se em desterro […].

FERNANDES, Ronaldo Costa. Vieira na ilha do Maranhão. Rio: 7Letras, 2019.

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