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Cadeira Nº 30

Alex Brasil

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Biografia

Alex Brasil nasceu a 28 de dezembro de 1954 no povoado do Saco, município de Codó. É poeta, jornalista, contista e publicitário. Iniciou seus estudos em Lima Campo, passando depois por Bacabal e Rosário, até chegar em São Luís, onde concluiu os estudos de 1º e 2º graus, no Liceu Maranhense. Fez os cursos de Jornalismo e Radialismo na Universidade Federal do Maranhão. Trabalhou no Banco do Brasil e Banco do Nordeste, depois na televisão, jornalismo e publicidade, tornando-se empresário ao criar a AB Propaganda. Foi distinguido com o título de Cidadão de São Luís, outorgado pela Câmara Municipal. Na Academia Maranhense de Letras ocupa a Cadeira nº 30, como sucessor de Antônio de Oliveira.

 

Bibliografia:

Poesia

  • Planeta vermelho. São Luís: Sioge, 1979.
  • Idade do Ouro negro. São Luís: Gráfica São Luís, 1980.
  • O sonho deve continuar. São Luís: Sistema Difusora, 1981.
  • Crepúsculo vinte. São Luís: Star Gráfica, 1982.
  • Inferno verde. São Luís: Sioge, 1983.
  • Brasil, não chores mais. São Luís: Sioge, 1985. Crianças do apocalipse. São Luís: Sioge, 1986.
  • A solidão é cinza. São Luís: Gráfica São Luís.
  • Peregrino das emoções. São Luís: Sioge, 1987.
  • Meninos de São Luís. São Luis: Gráfica Escolar, 1993.
  • Ilha verde. São Luís: Gráfica Escolar, 1995.
  • Pátria amarga. São Luís: Unigraf, 1998.
  • Razões do coração. São Luís: Unigraf, 2000.
  • Todas as estações (antologia). São Luís: Unigraf, 2003.
  • Discurso de Alex Brasil. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 91, vol. 24, p. 151-166, out., 2010.
  • com. São Luís: Lithograf, 2013.
  • Sangue azul da terra. São Luís: Edições AML, 2017.

Prosa

  • Amores perdidos. São Luís: Sioge, 1987. (Contos)
  • Lençóis proibidos. São Luís. Minerva, 2007. (Contos)
  • Quatro discursos. São Luís: Minerva, 2007.
  • Último sol nascente. São Luís: Lithograf, 2012. (Contos)
  • Contos. São Luís: Edições AML, 2021.

Referência para estudo:

  • MORAES, Jomar (Org.). Perfis acadêmicos. 5. ed. São Luís: Edições AML, 2014.
  • CHAGAS, José. Saudação de José Chagas. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 91, vol. 24, p. 167-180, out., 2010.

FLORES NEGRAS DE LUXEMBURGO

            Eu estava sozinho em Paris. Sozinho e solitário. Saí do hotel, propositadamente, sem destino. Estrangeiro em terra estranha, a cidade passou a devorar-me com sua luz de pleno maio, na manhã fria soprando minha alma desgarrada das raízes quentes dos trópicos. A mudez das pessoas que por mim passavam e a impossibilidade de diálogo em francês, davam-me a sensação da angústia da andorinha em bando porque está sem par. “Grande, grande era a cidade e ninguém me conhecia”, lembrei-me de um fado português. As lembranças gélidas de Jane gotejavam em meu cérebro entre arrulhos de pombos e as sirenes exibicionistas de uma agitada Paris, no Quartier Latin. A nossa discussão definitiva em Roma, o violento divórcio, enfim, de uma relação esgotada numa última tentativa de remendo, como se estar em Roma, mesmo na Basílica de São Pedro, nossas diferenças, já insuperáveis, pudessem desaparecer milagrosamente.

            Como tudo em Roma, meu casamento com Jane tornara-se ruína, história encerrada. Lembranças de um passado exaurido, agora arquivado, como um postal na parede de um tempo que nos pertenceu e não mais nos cabia. Durou até bastante, vinte anos, mais pela sensualidade que Jane cultivava do que pelas nossas idiossincrasias, eu sempre mais reflexivo sobre valores da arte e do espírito, enquanto ela, materialista ao extremo, apegava-se à realidade prática como fonte única da felicidade possível na vida.

            Imerso nessas recordações que me davam uma sensação de fracasso, caminhando a esmo por entre fisionomias que me pareciam rostos de filmes em preto e branco, sem que eu percebesse estava entrando no Jardim de Luxemburgo.

            O jardim reverberava as cores vivas na luz da manhã friorenta de Paris. Era um jardim à parte na paisagem ampla de Luxemburgo, onde crianças e adultos, como se estivessem num éden, caminhavam despreocupadamente, quase em silêncio, em comunhão com a paz ali escondida do burburinho lá fora em sôfrega competição cotidiana. A minha solidão agora era calma, e meus olhos em lenta curiosidade se perdiam naquela paisagem paradisíaca.

            Debruçada em solitária placidez sobre a frágil grade de fino metal, ela contemplava as flores rasteiras de coloridos simétricos tal qual um quadro vivo de Renoir. Abstraí-me da realidade geral, e, como a solidão que fita a melancolia, passei a observá-la como uma flor a mais naquele jardim.

            Eu olhava para ela, que olhava absorta aquele cromático Jardim de Luxemburgo, quase na entrada do parque, na edênica beleza que nos rodeava: um palácio, canais de águas correntes, belas estátuas, fontes e plantas ornamentais. Ela parecia-me triste, talvez por que eu estivesse triste, e nossa tristeza comungasse com a claridade fria de paris naquele oásis de sossego onde um dia Maria de Médici, talvez também triste, tivesse contemplado, com saudade de Florença, aquelas mesmas flores que ela, quem sabe, ali plantara como uma elegia à sua alma desgarrada dos afetos florentinos esquecidos na distância.

            Observei que os olhos dela se fixavam em flores que eu jamais vira; eram flores negras que se destacavam dos azuis, amarelos, lilases ou vermelhos que lembravam os expressionismos de todos os jardins em manhãs de luz. Minha alma se incorporou àquelas flores órfãs que pareciam conversar com a solidão daquela mulher melancólica a contemplá-las. Ela vestia um sobretudo azul-turquesa, deixando aparecer somente as botas em estilo sofisticado, sustentando sua silhueta longilínea composta por um gorro vinho, ressaltando a sua face alva, cabelos negros e olhos esverdeados profundos.

            Embora ela e o jardim, recortados da paisagem geral, pudessem evocar um quadro impressionista, absorvido pela cena, lembrei-me do poeta Castro Alves e, calmamente, enquanto olhava para ela, que nem sequer suspeitava de minha presença, reescrevi uma estrofe de um poema dele, que naquele momento eu não lembrava o nome: “Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores…/ Prendi meus afetos, tristonha pepita. / Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?! / Não rias, prendi-me num olhar que fita / Flores negras no Jardim de Luxemburgo.”

            Reescrevi em inglês, livremente, sem a melodia e o rigor métrico do original. Quando ela percebeu minha presença, eu já estava bem próximo dela. Estendi o papel, em silêncio. Ela não esboçou nenhuma reação de animosidade e recebeu minha oferta como quem recebe flores de um desconhecido. Leu vagamente o poema desvirtuado de Castro Alves. Em seguida, olhou-me com seus olhos esverdeados de uma deusa triste, inacessível, e murmurou, laconicamente: “Wonderful! Thank you.” Depois partiu vagarosamente, sem olhar para trás, até perder-se além dos muros do verde frio do Jardim de Luxemburgo, dissolvendo-se na imensa Paris, lá fora tão estranha a mim que a via como um plebeu que contempla um castelo entre as brumas. Só então Paris despertou meus sentimentos num vago devaneio de esperança, recomeço ou primavera.

            Quem sabe, um dia ainda voltarei a Paris só por causa daquelas flores negras do Jardim de Luxemburgo.

(BRASIL, Alex. Contos. São Luís: Edições AML, 2021, p. 71-74.)

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