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Cadeira Nº 28

Turibio Santos

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Biografia

Turíbio Soares Santos nasceu em São Luís, a 7 de março de 1943. Ainda criança, ele e sua família passaram a residir no Rio de Janeiro. Por influência e incentivo dos pais seguiu carreira de músico e teve como professores Antonio Rebelo e Oscar Cáceres. Ainda jovem, iniciou a carreira internacional, percorrendo os cinco continentes e contando com um repertório majoritariamente composto por obras da música brasileira, e adquirindo um prêmio em Paris na ORTF em 1965. Contou também com boas avaliações dos críticos do periódico The New York TimesLe Figaro, entre outros. Estudou na França, na Inglaterra (com Julian Bream) e Espanha (com Segovia), morando por vários anos em Paris, onde foi professor do conservatório. Desenvolveu uma carreira de sucesso tanto no universo erudito quanto no popular, tanto no Brasil quanto no exterior. Em 1986, foi convidado para a direção do Museu Villa-Lobos, função que realizou até 2010. Também foi responsável por criar os primeiros cursos de violão na UFRJ e também na UNIRIO, além de ter fundado em 1983 a Orquestra Brasileira de Violões. Considerado pela crítica e pelos especialistas internacionais um dos maiores violonistas clássicos da atualidade, ao longo de sua carreira, acumulou uma discografia de mais de setenta álbuns. Entre as homenagens já recebidas, foi condecorado com o grau de oficial da Ordem do Cruzeiro do Sul e da Légion d’Honneur. É membro da Academia Brasileira de Música, que já presidiu, e na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira n0 28, como sucessor de José Chagas.

 

Bibliografia

  • Violão amigo – Cantigas de Roda do Vol. 1. Editora Zahar.
  • Violão Amigo. Vol. 2. Editora Zahar, 2000.
  • Violão amigo. Vol. 3. Editora Zahar, 2000.
  • Caminhos, Encruzilhadas e Mistérios…. Editora Artviva, 2014. (Autobiografia)
  • A encruzilhada do violão na trajetória de Villa-Lobos. Academia Brasileira de Letras em 12 de jul., 2016. (Conferência)
  • Discurso de posse na Cadeira n0 Revista da Academia Maranhense de Letras. Ano 92, vol. 28, p. 13-24, out., 2016.

Referência para estudo:

  • SANTOS, Turíbio. Caminhos, Encruzilhadas e Mistérios…. Editora Artviva, 2014.
  • DUARTE, Sebastião Moreira. Discurso de saudação a Turíbio Santos. Revista da Academia Maranhense de Letras. Ano 92, vol. 28, p. 25-42, out., 2016.

DISCURSO DE POSSE NA CADEIRA N0 28 

            A Cadeira que ocuparei tem como patrono Luís Antônio Vieira da Silva (1828-1889), que recebeu o título de visconde em 5 de janeiro de 1889. Descendente de família maranhense de profundos, arraigados e tradicionais vínculos telúricos com a nossa terra, nasceu, ocasionalmente, em Fortaleza, capital do Ceará, quando seu pai ali exercia distintas funções públicas. Casado em segundas núpcias com a maranhense Maria Gertrudes da Mota de Azevedo Correa, exerceu vários cargos políticos, tendo sido nomeado Presidente da Província do Piauí em 1871. Faleceu poucos dias antes da Proclamação da República.

            Foi a Cadeira fundada por Antônio Carvalho Guimarães, político em tempo integral no mais nobre sentido dessa palavra hoje tão desgastada. Desde cedo radicou-se no Rio de Janeiro, onde atuou como jornalista e como maranhense permanentemente ocupado e preocupado com os problemas do Maranhão. Senador da república e digno da qualificação de maranhense profissional que para si reivindicava Viriato Corrêa, tem comigo esta afinidade: antes de tornar-se Membro Efetivo, Carvalho Guimarães foi, como eu, Membro Correspondente desta Academia. Com seu passamento veio a Cadeira 28 ser engrandecida e iluminada por essa potência poética e grandeza de caráter que se chamou José Francisco das Chagas, paraibano, porém muito mais maranhense de que a maioria de todos os maranhenses. Devo confessar que assumo esta Cadeira com muito orgulho e felicidade, mas também com muita prudência. Não que eu tenha medo da Academia ou dos Acadêmicos, pois faço parte da Academia Brasileira da Música desde sete de março de 1994 e da qual já fui presidente durante quatro anos. Mas a Academia Maranhense de Letras superou meus sonhos. A realidade às vezes vira sonho e meus pais, quem sabe, onde estiverem, podem estar sonhando comigo e com todos nós neste momento.

            Meu amigo João Pedro Borges, fantástico violonista e parceiro de longa data, foi meu fiel conselheiro junto com Jomar Moraes e Luiz Felipe Andrés nesta caminhada para a Cadeira 28. Devo aos seus bons conselhos minha reserva de valentia para estar aqui. Mas São Luís sempre correu atrás de mim como se quisesse exibir seus filhos ilustres. Artistas (João do Vale, Ferreira Gullar) diplomatas e romancistas, (Josué Montelo adido cultural na França e nos Estados Unidos, o embaixador Araújo Castro), políticos, entre eles José Sarney, presente em vários episódios da minha carreira artística. Um deles ocorreu em São Luís.

            Convidado por ele para realizar um recital no Palácio dos Leões, qual não foi o meu espanto ao ver estampado num jornal da cidade esta manchete: “José Sarney, assim como John Kennedy convidou Pablo Casals para tocar na Casa Branca, convida Turíbio Santos para um recital no Palácio dos Leões!”.

            Outro episódio foi surpreendente para mim. Contratado por uma companhia de combustíveis para um recital na Sala Villa-Lobos em Brasília, fui informado que o presidente Sarney estaria presente no evento. No dia do concerto, estava sendo velado o corpo do ex-presidente Garrastazu Médici e aguardava-se no Rio de Janeiro a chegada do presidente Sarney.

            Os organizadores do concerto me avisaram que ele não viria e concentrei-me no programa. Tremenda surpresa! Chegaram inúmeros repórteres querendo me entrevistar, pois José Sarney decidira não ir ao velório e estava se dirigindo para a Sala Villa-Lobos. Foi dia dez de outubro de 1985 e a firma de combustíveis era a Ipiranga Petróleo. O produtor do concerto Luís Macedo, da MPM Publicidade. O presidente veio e junto com sua querida Marly comemoramos ao final do recital.

            Fernando Bicudo, na sua passagem por São Luís, convidou-me para a reinauguração do Teatro Arthur Azevedo e incentivou-me a escrever uma obra para a ocasião. Assim nasceu a Suíte Teatro do Maranhão, que estreei em sete de dezembro de 1993, com seus movimentos Rua das Hortas. Limpa Banco, Seresta de Gonçalves Dias, Valsa de Arthur Azevedo e Dança dos Aflitos. Aliás, nesse mesmo mês assumia a Cadeira 38 da Academia Brasileira de Música no Rio de Janeiro.

            A Suíte Teatro do Maranhão sofreu algumas alterações nos seus movimentos e títulos, mas trouxe-a de volta para comemorar minha posse na Academia Maranhense de Letras e também algumas obras ligadas a São Luís como a Catedral, de Barrios, e arranjos inspirados em Jackson do Pandeiro e seus parceiros, inclusive João do Vale.

            A música, seja ela qual for, é uma linguagem do planeta Terra. Aqui não habita o silêncio impressionante encontrado nas explorações espaciais. Domina a seresta eterna das marés oceânicas, a sedução dos ventos, a fúria das tempestades, o romper dos vulcões, o canto dos pássaros, o rugir das feras, os sussurros dos amantes e finalmente nós, habitantes nem sempre bem-comportados deste planeta, procurando desesperadamente nos apossar deste fabuloso acervo sonoro. Beethoven, Villa-Lobos e Stravinsky são magníficos exemplos.

            A vida de um músico é isso: a busca de um universo onde o som concentra e produz mais magia. Músicos são privilegiadas testemunhas desse espaço paralelo. Os escritores, poetas, professores, pintores, atores, e todo tipo de artista e de arte só podem existir na sua fantástica tarefa de dar sentido a vida no planeta, e mais, no Universo!

            Essa quantidade de sons contrasta com a veemente exortação do silêncio que emana do Desterro e do Mirante. Da música embutida nas palavras mágicas de José Chagas e do seu poder infinito de emoção e convencimento da nossa língua natal. Da sua distribuição poética na nossa cidade que abençoa as pedras, as baratas e as prostitutas.

            Recorro ao poeta:

 

            O Desterro é um velho bairro

            que fica para o lado do tempo

            situado entre a fé e o vício

            lá onde moram sombras

            pagando o aluguel do medo

            e onde o tempo despeja a massa de seus dias

            para montar sua usina de memórias eternas.

 

            O Desterro é mais que um bairro

            porque é toda a cidade

            menos o resto dela

            que não passa de um crescer indevido

            para aquilo que o tempo plantou

            em telhados longos

            como em planícies abertas

            a rebanhos azuis.

 

            E ainda o poeta:

 

            O mirante levanta a sua crista

            como um galo do tempo sobre a aurora

            e o seu silêncio é um canto que despista

            uma inaudível comunhão sonora

            caída sobre a paz de uma conquista

            de pedra e sombra, eternidade e hora,

            e do mais que o mirante faz que exista,

            enquanto esse silêncio se elabora,

            para manter-se dia e noite à vista

            de tudo quanto chega e vai embora,

            mas sem que o bairro neste chão resista

            ao que o mirante exige na demora

            de quem só por dever passa em revista

            a própria solidão que o apavora.

           

            O amor de José Chagas diante da beleza pura do som interior da linguagem poética, nos comove e nos une numa oração de gratidão aos Canhões Silenciosos. Estimula também a gratidão que tenho ao violão, que me fez percorrer muitos sonhos e continentes, à minha musa e querida Marta, a Júlio e Beto assim como a Sandra, Ricardo e Manuela no começo da longa caminhada.

            Esse também é meu sentimento pelo carinho e cuidados cm que fui convidado a participar desta encantadora Academia, seu presidente Benedito Buzar e seus membros, que junto com minha família e amigos, carimbaram o selo definitivo de São Luís na minha vida.

            Muito obrigado!

 

(SANTOS, Turíbio. Discurso de posse na Cadeira n0 28. Revista da Academia Maranhense de Letras. Ano 92, vol. 28, p. 13-24, out., 2016).

 

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