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Cadeira Nº 27

Magson Gomes da Silva

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Biografia

Félix Alberto Lima nasceu em Presidente Dutra-MA, a 27 de março de 1967. É jornalista, publicitário, cronista e poeta. Depois de passar sua infância no município maranhense de Barra do Corda, chegou a São Luís em 1979. Estudou no colégio Zoé Cerveira e depois no Colégio Dom Bosco. Em São Luís, atuou em projetos culturais, curadoria de exposições e ingressou no jornalismo. O Estado do Maranhão e o Estado de S. Paulo foram suas primeiras experiências em periódicos. Depois vieram as crônicas e as poesias. Na Academia Maranhense de Letras ocupa a Cadeira n0 25, como sucessor de José Louzeiro.

    Bibliografia

    • Almanaque Guarnicê. São Luís: Editora Clara, 1983.
    • Maranhão Reportagem. São Luís: Editora Clara, 2002. (Organizador)
    • As melhores Crônicas do claraonline. São Luís: Clara Editora, 2005. (Coautor)
    • O que me importa agora tanto. Rio: Editora 7Letras, 2014.
    • Guajá, a odisséia dos últimos nômade São Luís: EDUFMA, 2015.
    • Um pouco mais de mil palavras. São Luís: Clara Editora, 2017.
    • Maio oito e meia: crônica de uma geração em movimento. São Luís: Editora Clara, 2017.
    • Chagas em pessoa. São Luís: Edições FUNC, 2005. (Coautor)
    • Jomar Moraes, o encantador de palavras. São Luís: Edições AML, 2018. (Coautor e organizador)
    • Filarmônica para fones de ouvido. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2018.
    • Discurso de Posse de Félix Alberto Lima. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: edições AML, vol. 93, nº 30, p. 201-220, jul., 2019.
    • Nas profundezas desses olhos rasos. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2021.

    Referência para estudo:

    • BELLO FILHO, Ney de Barros. Discurso de Saudação a Félix Alberto Gomes Lima. Revista da Academia Maranhense de Letras. Vol. 93, no 30, p. 223-235, jul., 2019.

    EU NÃO, NÓS

      Aquele homem de chapéu de palha na cabeça, malvestido, pele suada e gestos largos falava diferente. O timbre da voz e o discurso eram diferentes. Uma oitava acima, falava com emoção sobre campesinato, reforma agrária, sangue na luta pela posse da terra, grilagem e revolução. Bem, articulado, usava as palavras mais simples, às vezes desconexas, e tropeçava na gramática, mas ganhava a plateia pelo discurso inflamado. Setembro de 1985. O Grêmio Estudantil Coelho Neto, do Colégio Maristas, convidara alunos de outras escolas para o debate com os candidatos à prefeitura de São Luís. Era a primeira eleição para prefeito com o carimbo de Nova República, depois de 20 anos de regime militar. Na plateia do auditório da escola estavam secundaristas ávidos por embates, informações e festa.

      O homem que falava pelos cotovelos para um auditório abarrotado de jovens, vestidos – a maioria – em uniformes de escolas particulares, como o próprio Maristas, Dom Bosco, Meng, Santa Teresa e Batista, era Luiz Vila Nova, trabalhador rural e líder comunitário que trazia do campo a mão calejada e a voz embargada de indignação. Ganhara na conversa a simpatia de muitos ali sentados para ouvi-lo, como Gilberto Lago, Flávio Dino, Carlos Macieira, James Magno, Lúcio Santos, Carvalho Neto, Luiz Filho, Darlan Andrade, Márcia Maia, Froz Sobrinho, Ney Bello Filho, Sergei Medeiros, Eri Castro, Manoel Matos, George Góes Freire, Érico Cordeiro, Cândido Hermes, Jadiel Oliveira, Josy Maia, Adriana França, Artur Bouéres, Rômulo Brandão, Washington Torreão, Celijon Ramos, Roberto Moreira, Igor Lago, Marcellus Ribeiro, Roberto Mathias, eu e tantos outros. A maioria sequer votaria naquela sexta-feira, 15 de novembro – o voto facultativo aos 16 anos só seria instituído nas eleições de 1989.

      Escolas particulares de São Luís, como Maristas, Santa Teresa e Dom Bosco, viviam sob grande influência da Igreja Católica – os dois primeiros mantidos por congregações religiosas de padres e freiras, respectivamente. E a Igreja Católica no Brasil, até meados da década de 1980, era inseminada pelas ideias da Teologia da Libertação e pelos trabalhos das chamadas Comunidades Eclesiais de Base. Ou seja, boa parte da igreja, ao fazer opção pelos “pobres e oprimidos”, alimentava simpatia pela esquerda. “O Maristas funcionava como certo laboratório, uma usina geradora de jovens interessados em política, com forte influência da esquerda. A escola não só permitia a realização de debates políticos, como também estimulava; e não só acolhia essas ideias, como induzia para o caminho mais progressista”, argumenta Flávio Dino.

      Vila Nova era um ilustre desconhecido para grande parte da cidade e concorria à prefeitura de São Luís pelo Partido dos Trabalhadores (PT), agremiação criada havia cinco anos no calor das greves do ABC paulista. No centro da disputa pelo controle da capital maranhense estavam figuras já conhecidas da política, como Jaime Santana (PFL), Jackson Lago (PDT), Haroldo Sabóia (PMDB), Manoel Ribeiro (PTB) e também Gardênia Gonçalves (PDS), que encarnava o legado político do ex-governador João Castelo. Além de Vila Nova, corria por fora na campanha o advogado Emanoel Viana, pelo PMN. A Igreja Católica, com indisfarçável sutileza, manifestava suas preferências por Haroldo Sabóia, Jackson Lago e Luiz Vila Nova.

      A “Força Total” de Jaime Santana, não obstante o apoio ostensivo do presidente da República José Sarney, do governador Luiz Rocha e do prefeito Mauro Fecury, fora fragorosamente atropelada no voto pelo jingle de Billy Blanco criado para a candidata Gardênia, eleita para o mandato de 1º de janeiro de 1986 a 1ª de janeiro de 1989. O camponês ficou em quinto lugar, mas deixou uma semente qualquer plantada.

      Alguns daqueles da plateia deixavam para trás o terceiro ano científico das escolas e levavam para a universidade fragmentos da revolução anunciada nos livros da Editora Vozes e no tom grave de Vila Nova. 1986, o Ano Internacional da Paz anunciado pela Organização das Nações Unidas, seria o primeiro rito mais intenso que reverberaria pelo resto de nossas vidas. O mundo, em plena catarse da Guerra Fria, já não era o encanto das experiências compartilhadas com pudor na cantina do colégio e da anistia para os amores mal resolvidos em sala de aula. Havia uma revolução velada dentro da gente. Cada um a cultivava a seu modo e risco: na militância do movimento estudantil, na dúvida persistente (a novidade da dialética), nas noites de lua e catuaba, na anarquia ou na poesia… A universidade que nos aguardava era a aventura da descoberta e da desconfiança, o templo das provações.

    (LIMA, Félix Alberto.Eu não, Nós. In: Maio oito meia: crônica de uma geração em movimento. São Luís: Editora Clara, 2017, p. 15,16.)

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