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Cadeira Nº 26

Carlos Thadeu Pinheiro Gaspar

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Biografia

Carlos Thadeu Pinheiro Gaspar nasceu em Viana-MA, a 5 de dezembro de 1939. Ainda criança transferiu-se com a família para São Luís, onde fez toda a sua formação educacional. É técnico em Contabilidade pela Escola Técnica de Comércio do Centro Caixeiral, bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Maranhão e licenciado em História e Geografia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Maranhão, mesma instituição onde foi professor por 16 anos. Como empresário, ao lado das atividades comerciais atuou como uma forte liderança da classe. Foi presidente da Junta Comercial do Maranhão (1976-77), vice-presidente da Confederação das Associações Comerciais do Brasil (1994-96), 10 vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão – FIEMA e do Serviço Social da Indústria – SESI; 10 vice-diretor do Serviço Social de aprendizagem Industrial – SENAI, presidente do Clube de Diretores Lojistas de São Luís (1984-88), da Associação Comercial do Maranhão (1990-94), do Conselho deliberativo do Sebrae-MA e da Federação das Associações Empresariais do Maranhão (1994-98), membro do conselho Universitário da Universidade Federal do Maranhão. Ao longo de sua trajetória, recebeu muitas distinções como a Medalha La Ravardière, a Medalha do Mérito Timbira e a Medalha da Ordem Timbira do Mérito Judiciário, do TRT-16ª Região no grau de Comendador. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, e, na Academia Maranhense de Letrasocupa a Cadeira n0 26, como sucessor de Ignacio Mourão Rangel, tendo exercido a presidência no biênio 2020-2021.

 

Bibliografia

  • Dunhsee de Abranches. São Luís, 1993.
  • Refazendo o Caminho. São Luís: Lithograf, 1993 (Crônicas).
  • Catedral de emoções. São Luís: Lithograf, 1994 (Crônicas).
  • Caminhos percorridos. São Luís, 1994 (Discursos).
  • Treze contos. São Luís: Lithograf, 1999.
  • Posse na Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, s.d.
  • O sobrado amarelo. São Luís XXX (Edição comemorativa, São Luís: Sotaque Norte, 2017)
  • O senhor Antônio Lobo: a fogueira da agonia. São Luís: Edições AML, 2009.
  • História de São Luís. São Luís: Faculdade Santa Fé, 2012 (Organizador).
  • Mário Meireles com a palavra. São Luís: Edições AML, 2016 (Organizador).
  • Efemérides maranhenses. São Luís: Edições AML, 2016 (Organizador).
  • Correspondências. São Luís: Edições AML, 2016 (Organizador).
  • Discurso de posse. In: Posse na Academia maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, s.d., p. 7-46.
  • Na casa de Antônio Lobo. São Luís: Edições AML, 2006 (Discurso de recepção a Lourival Serejo na Academia Maranhense de Letras).
  • Discurso de posse na presidência da Academia Maranhense de Letras. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, nº 31 p. 11-18, out./dez., 2020.
  • Conto mais um conto, por Carlos Gaspar. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, nº 32, p. 175,174, jan./mar., 2021.
  • Quatro estudos de Fran Paxeco. São Paulo: Fontenele Publicações, 2021. (Organizador)

Carlos Gaspar também é autor de crônicas semanais publicadas no Jornal O Imparcial há quase 30 anos, além de inúmeros discursos.

 

Referência para estudo:

  • MORAES, Jomar (Org.). Perfis acadêmicos. 5. ed. São Luís: Edições AML, 2014.
  • MEIRELES, Mário Martins. Discurso de recepção. In: Posse na Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, s.d., p. 49-63.

INCORRIGÍVEL ROMANTISMO

 

Desde a minha eleição, ocorrida no final do ano passado, para a presidência do Conselho Deliberativo do SEBRAE, tenho me dedicado a realizar uma série de viagens, principalmente a interior do Estado. Faço mesmo questão de estar presente em todos os acontecimentos sob a responsabilidade direta daquela instituição. Entendo que, assim procedendo, cumpro o dever do ofício, integralmente, o que me propicia fundamental sabê-las todas, por inteiro, para que possa prestar aos meus pares as informações que me foram solicitadas, bem como colaborar com a Diretoria Executiva do órgão, orientando, sugerindo, opinando e traduzindo a filosofia pragmática da iniciativa privada, de que sou portador.

Uma dessas visitas de trabalho, coincidentemente, foi realizada em Viana. Não escondo e até me encarrego de propalar que, dado a ser envolvido por muitas emoções, gosto de evitá-las, na preservação necessária da saúde. Esse, talvez manifestação do inconsciente, tem sido, também, um dos motivos pelos quais torno esporádicas as idas à minha cidade, onde sempre revivo momentos e acontecimentos do tempo da infância e da juventude, de significado singular para a minha alma de adulto.

Ao percorrer suas ruas e praças – estas últimas todas em abandono – e em ligeiro passeio enquanto aguardava os preparativos para o início do trabalho, imediatamente, sem que conseguisse conter o pensamento, senti-me ainda nos idos das décadas de 40 e 50. Saltaram-me aos olhos as pessoas que conheci, mas que, infelizmente, foram-se desse mundo. Destas, quase ninguém fala, como se houvessem passado despercebidas, sem deixar uma marca sequer do seu trabalho e da sua abnegação pela terra. Tem-se a nítida impressão de que a eles uma nova geração se sobrepôs, autônoma, desligada ou descompromissada com os seus ancestrais. Eu, de minha parte, jamais poderei esquecer aqueles com quem convivi, mesmo espaçadamente, mas que aprendi a admirar pelas suas virtudes próprias.

Como olvidar meu próprio avô, o Sr. Delfim, um português baixinho de vastos bigodes, bem aparados e de pontas viradas para cima, na confirmação típica da origem lusitana? E o Dr. Ozimo Carvalho, farmacêutico formado na Bahia, de saber invejável, que deu tudo de si, quer no exercício da profissão, quer nos movimentos comunitários inclusive os de caráter cultural? E o Pe. Manuel Arouche, com sua palavra vibrante de orador nato e defensor intransigente da criação do bispado de Viana? E o seu Raimundinho, como chamávamos o Sr. Raimundo Roberto dos Santos, homem negro, mas que transitava, naquela sociedade ainda bem preconceituosa, recebendo o mais digno tratamento dos seus concidadãos, pelo modo como sempre se portava em qualquer circunstância? E do Sr. Américo Fernandes, aplicado funcionário da Coletoria Federal, grande amigo e compadre do meu pai, que constantemente nos presenteava com litros de licor de jenipapo, produção própria, portanto elaborado com cuidados especiais? E dos Gomes – tio Ezequiel, o de maior afinidade com papai? Os Azevedo – tio Antônio e suas irmãs, todos do nosso coração? Os Silva – quase nenhum escapa ao nosso parentesco. Os Mendonça – Ozias, o principal deles, tabelião e profundo conhecedor das gentes e das coisas de Viana, suas irmãs igualmente amicíssimas e comadres de mamãe? Os Castro, tendo sido um deles, José, sócio do meu pai, além de Ananias, pessoa do nosso coração? E, sucessivamente, os Cutrim, os Costa, os Cordeiro, os Campelo, os Lopes, os Lauletta, os Mohana e tantos outros? Parece que, aos poucos, foram desaparecendo, deixando apenas a saudade imorredoura no coração de quem nunca se cansou de admirá-los.

Embora aparentemente ausente de Viana, clima que aprimorou as inteligências de Astolfo Serra e Antônio Lopes, não perdeu ela – constatei – no seu bairro mais antigo, as características plantadas no final do século XVIII, inspiradoras de canções e poemas, que cantam sua graça e sua formosura. Lá estão as ruas estreitas, os becos e travessas, e o casario, na área colonial, a retratar a pujança econômica experimentada na época em que o belo e enorme lago que a circunda e amoldura, foi palco de um vai e vem constante de barcos, lanchas e vapores, que faziam o intercâmbio com a capital do Estado. Lamentavelmente desabou, transformando-se em terreno baldio, fruto da insensibilidade e do desrespeito às tradições, um prédio de dois pavimentos, de dupla significação histórica, por ter servido de hospedagem a Caxias durante a Balaiada e de residência, por mais de cinquenta anos, com sua farmácia de manipulação na parte baixa, ao Dr. Ozimo Carvalho.

Também abandonado, em ruínas, existe um antigo sobradão de azulejos amarelos, pertencente à minha família, o Sobrado Amarelo, onde mamãe trouxe ao mundo sete dos treze filhos que teve. Sua imponência retrata a singeleza do mais puro estilo arquitetônico do Período Colonial, além de proporcionar uma vista ímpar e repousante, que tem como descortino os verdes campos que crescem ou diminuem ao sabor das águas do inverno, despejadas no lago, aumentando ou reduzindo o seu tamanho. Da “varandinha” ao fundo do casarão e de frente para essa paisagem indescritível, tive o privilégio de ver e gravar na memória de criança um dos espetáculos mais fascinantes do interior maranhense.

Acho que perdi o fio da meada. Ia comentar sobre o nosso SEBRAE e fui tomado por meu incorrigível romantismo, que não interessa a ninguém. Mas o certo é que, reunido com empresários de minha terra, falei à vontade, sentindo-me em casa, em família, sobre a postura que deveremos desenvolver no seio da comunidade e os benefícios que a instituição que represento pode oferecer, ajudando a formar e mudar mentalidades, contribuindo para o crescimento da renda de cada cidadão, através de uma moderna concepção de progresso.

Assim, dei por concluída a missão, e dirigi-me ao hotel onde me achava hospedado. Agasalhado em uma rede que levava comigo, dei com a luz do poste, à esquina do prédio, a invadir o meu quarto, deixando-o na penumbra. E, até a chegada do sono, fiquei a sonhar de olhos abertos, sobre o futuro auspicioso para os jovens que ali se preparavam para a vida. Que futuro lhes estará reservado?

 

(GASPAR, Carlos. O sobrado amarelo. São Luís: Sotaque Norte, 2017, p. 28-31.)

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