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Cadeira Nº 23

Luiz Phelipe Andrès

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Biografia

Luiz Phelipe Andrès nasceu a 20 de fevereiro de 1949 em Juiz de Fora-MG, e faleceu em São Luís do Maranhão, a 05 de dezembro de 2021. É graduado em Engenharia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1972) e mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco (2006). Radicado no Maranhão desde 1977, foi Secretário de Estado da Cultura do Maranhão e dedicou-se ao Programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico de São Luís, do qual foi coordenador por 27 anos. Criou o Estaleiro Escolar do Sítio do Tamancão, foi responsável pelo Setor de Pesquisa e Documentação do programa de Preservação e Revitalização do Centro Histórico e coordenador do Projeto de Restauração e Transcrição Paleográfica de 166 exemplares remanescentes da Coleção dos Livros da Câmara de São Luís dos séculos XVII, XVIII e XIX; também coordenou a pesquisa contendo o primeiro inventário dos principais monumentos arquitetônicos e da arte sacra de São Luís, Alcântara e Rosário, que resultou na publicação do livro Monumentos históricos do Maranhão.  Coordenou a Unidade Executora Estadual – UEE do Programa BID/PRODETUR do Maranhão e foi o coordenadorgeral do Projeto São Luís – Patrimônio Mundial para apresentação do Dossiê à UNESCO para obtenção do título. Foi contratado pela Fundação Sousândrade como Assessor Especial; Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNDB-Unidade de Ensino Superior Dom Bosco, Conselheiro do Conselho Consultivo do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Gestor Geral da Unidade Vocacional Estaleiro Escola.Na Academia Maranhense de Letras ocupou a Cadeira nº 23, como sucessor de José Filgueiras.

 

Bibliografia:

  • Monumentos históricos do Maranhão. São Luís: Edições SIOGE, 1979. (Coautoria)
  • São Luís, História e Magia. In: Arte no Maranhão – 1940/1990. São Luís: BEM, 1994.
  • Centro histórico de São Luís, Patrimônio Mundial. São Paulo: Audichromo Editora, 1998. (Coautoria)
  • Desenho urbano. In: Anais do II0 SEDUR Seminário sobre desenho urbano do Brasil. Brasília: CNPq/FINEP/PINI, 1986.
  • São Luís, Cidade dos Azulejos. Revista do ICOMOS-BRASIL. ICOMOS-BRASIL, 2000.
  • Apresentação. In: São Luís, preto e branco em cores. São: Luís: Vale do Rio Doce, 2002.
  • Apresentação. In: LIMA, Carlos de. Caminhos de São Luís (ruas, logradouros e prédios históricos). São Paulo: Editora Siciliano, 2002.
  • Centro histórico de São Luís – Maranhão: patrimônio mundial. UNESCO/CEF, 2002. (Coordenação geral)
  • Embarcações do Maranhão. In: 10 catálogo do Seminário do Patrimônio Naval Brasileiro. Rio de Janeiro: Museu Nacional do Mar, 2005.
  • A arquitetura maranhense e a economia do algodão. In: Arquitetura na formação do Brasil. Rio de Janeiro: Representação da UNESCO no Brasil, 2006.
  • Embarcações do Maranhão. Velejar e Meio ambiente. Jan., 2007.
  • São Luís. In: Guia de Arquitetura e paisagem São Luís Ilha do Maranhão e Alcântara. Junta andalucía/Embaixada da Espanha/ Prefeitura de São Luís, 2008.
  • O Centro antigo. In: Guia de Arquitetura e paisagem São Luís Ilha do Maranhão e Alcântara. Junta Andalucía/Embaixada da Espanha/ Prefeitura de São Luís, 2008.
  • Introdução Histórica e Temas Maranhenses: o Estaleiro-Escola e as embarcaçõees do Maranhão. In: Guia de Arquitetura e paisagem São Luís Ilha do Maranhão e Alcântara. Junta Andalucía/Embaixada da Espanha/ Prefeitura de São Luís, 2008.
  • Reabilitação do Centro Histórico – Patrimônio da Humanidade. São Luís: Foto Edgar Rocha, 2012.
  • Discurso de posse na Academia Maranhense de Letras, proferido pelo acadêmico Luiz Phelipe Andrès. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, ano 92, vol. 26, p. 91-119, abr., 2016.

 

Referências para estudo:

  • MORAES, Jomar (Org.). Perfis Acadêmicos. 5. ed. São Luís: Edições AML, 2014.
  • MOREIRA, Lino Raposo. Saudação de Lino Raposo Moreira a Luiz Phelipe Andrès. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, ano 92, vol. 26, p. 121-131, abr., 2016.

PINTURAS MURAIS DO SOBRADO DA PRAÇA DO COMÉRCIO

 

            1982 foi o ano das descobertas mais importantes do Projeto Praia Grande. O Sobrado da Praça do Comércio é um desses casarões assombrosos. O bairro da Praia Grande não guarda mais nem uma nesga de areia que lembre de longe o aspecto de uma praia. Mas o velho edifício, sugere sim, um grande navio ali ancorado para sempre. Como um daqueles que restam na maré recuada, num fundo seco onde outrora existiu um mar.

            Em 1982 nossa equipe de desenhistas começava os levantamentos deste maior sobrado do bairro. Estávamos iniciando a elaboração do projeto de recuperação e adaptação para a Pousada Restaurante-Escola, proposta conveniente para assegurar a recuperação do imóvel e garantir atividade capaz de gerar vida e movimentação em todos os horários.

            Os trabalhos se iniciaram pelo que se convencionou chamar de “levantamento físico” da edificação. Esta denominação técnica sempre me sugeriu a possibilidade de “levantamentos espirituais”. Por que não? Estes antigos prédios com sua história e passado, ao que tudo indica, possuem uma alma impregnada nas velhas paredes de pedra e barro.

            Quando menino, me lembro de que no quintal de terra de minha casa às vezes descobria um rastro luminoso, sinuoso pelo chão. Fascinado, eu seguia a pista às vezes até encontrar sua autora. Uma lesma não maior que três centímetros, que deixava um rastro de luz no chão opaco e sujo. Um pequeno milagre da natureza capaz de produzir uma gosminha fluorescente.

            De determinados ângulos aquele rastro se tornava mais ou menos brilhante dependendo da incidência da luz. Podendo mesmo desaparecer. Muitos nãos depois, no porão do velho sobrado ficava imaginando se não existem outros e outros rastros deixados pelos seres vivos.

            Alguns deles quase imperceptíveis ou completamente, ou que só possam ser percebidos em determinadas condições de temperatura e pressão. Em certos momentos se podem pressentir sons e sombras. Ruídos de madeira seca de assoalhos ou de uma antiga aldrava ou dobradiça de porta movimentada pelos ventos.

            Dava para imaginar quantos escravos, escondidos num canto escuro numa pausa de trabalhos forçados, tentaram em algum momento de desespero se lembrar de sua infância na distante África, de onde foram capturados e trazidos à força para esta terra.

            Nosso trabalho na verdade consiste na tomada das medidas de cada cômodo, de forma que se possa desenhar o todo do edifício, registrando de forma bastante fiel sua configuração naquele momento. São as plantas baixas, cortes e fachadas, alçados e planos como se pode também denominar.

            Isto implica em entrar na edificação até ao fundo de seus recônditos porões, inclusive naqueles socavões mais úmidos e escuros, esticando uma trena e medindo a dimensão de cada parede, de todos os vãos, barrotes, assoalhos, entressolhos, aferindo alturas, larguras, espessuras.

            Percorre-se a velha carcaça como mergulhadores no encontro dos destroços de um velho galeão naufragado. Às vezes se está perscrutando porões escuros com os riscos de se deparar com assustadoras aranhas caranguejeiras ou os perigosos escorpiões, ou as partes mais externas e altas do telhado, o que permite sempre estar em pontos pouco frequentados.

            Estas características tornam este um trabalho, ao mesmo tempo extenuante e interessante. Sujeito ao calor dos ambientes pouco ventilados e ao contato com todo tipo de fungos, bolores e odores. Mas também uma aragem pura e renovadora pode ser tomada do alto de um telhado de onde se descortina uma vista privilegiada, de onde se tem a visão de uma perspectiva nova da cidade, um ângulo inusitado da paisagem urbana. Uma vista de telhados seculares. Uma vista que costuma ser um privilégio de alguns poucos afortunados gatos de telhado ou mesmo do vampiro da Praia Grande que já se dizia existir naquela época.

            Dois terços do sobradão já pertenciam ao Estado e esta era a parte mais degradada. Eis que surge uma descoberta interessante. Num dos cômodos do pavimento térreo justamente naquele da esquina do prédio que ainda pertencia a particulares, surgem os vestígios de nossa primeira descoberta de arqueologia histórica importante.

            Sinais de uma pintura de grande porte escondida sob camada de tintas brancas de antigas caiações. Pensamos logo em paisagem urbana pelo pouco que podíamos ver aparecendo em alguns trechos em que as pinturas de fora se descascaram. Veio a imprensa, publicaram a notícia.

            Mas o dono do imóvel, então em litígio com o estado resolveu bloquear o acesso dos pesquisadores e mais não pudemos verificar na época. O dono do prédio chegou mesmo a repintar de branco as partes descascadas com intuito de não mais ser aborrecido com esse tipo de interesse, já que o Governo não aceitava pagar o quanto ele pretendia para vender o imóvel.

            Lacrou a sala novamente dando-lhe uma função de depósito de gêneros alimentícios. Sacos de arroz e farinha foram empilhados e encostados onde então já se sabia existiam vestígios de antiga pintura mural. Mas nada podíamos fazer então.

            Quatro anos depois o governador Epitácio Cafeteira pôs fim ao impasse e desapropriou o imóvel que àquela altura de tão abandonado já havia desabado em sua maior extensão, mas felizmente não aquele canto onde se revelavam os vestígios de pintura.

            Aí já com a posse do imóvel iniciou-se a obra de recuperação e investigação das paredes. Mas o reboco, prejudicado pela condição geral de degradação do sobrado estava ameaçando se desprender. Se isto ocorresse estaria tudo perdido, pois junto com o reboco viria abaixo a pintura.

            Assim distribuímos orientação aos operários. Ninguém poderia entrar naquela sala e tocar naqueles rebocos de equilíbrio tão instável, até que viessem de fora os especialistas em restauração de pinturas murais para avaliar o que fazer.

            Enquanto isso, aguardávamos a contratação de uma empresa de restauro da Bahia, chefiada por Orlando Ramos um especialista no assunto. Um belo dia cheguei pela manhã para visitar a obra que avançava nas outras alas do sobrado e fui recebido por um mestre de obras muito aflito. Pela gagueira e nervosismo dele e os pedidos antecipados de calma senti que algo grave tinha acontecido e ele queria me mostrar. Foi me conduzindo em direção a sala lacrada e proibida e fiquei ansioso neste trajeto já prevendo o pior. No caminho ele me explicava cheio de dedos que ficara a noite toda de plantão na obra forçado pela fala de um dos vigilantes que não compareceu. Neste período de insônia segundo ele, deu-lhe uma “curiosidade” muito forte, irresistível mesmo, para saber o que se escondia sob a camada de tinta branca e ele havia passado a noite descascando com uma “gilete” a grossa pintura branca.

            Gelei com aquela desobediência e imaginei o estrago que isto poderia ter causado ao nosso tesouro. Mas neste momento entramos na sala e ele me mostrou que nem um fragmento de reboco havia desabado pela ação de sua “curiosidade” noturna.

            E lá estava em quase toda a extensão da parede acima de um metro de altura uma pintura inteira que a primeira vista representava uma cidade na margem de um rio onde se viam embarcações ancoradas. Emocionado com aquela visão, mas preocupado com as consequências e possíveis danos daquele gesto impensado de nosso afoito mestre de obras, orientei para que ninguém entrasse na sala temendo que a ação tivesse contribuído para desestabilizar ainda mais o reboco. Mesmo porque a remoção da camada de pintura havia deixado falhas e manchas onde a tinta não havia sido removida por inteiro. Afinal, do que estava feito não se podia mais recuar.

            Por coincidência no dia seguinte estávamos recebendo a visita do prof. dr. Rafael Moreira que acabara de chegar de Portugal onde se tornara um grande especialista e professor em História da Arte da Universidade Nova de Lisboa.

            Rafael, cujo pai fora proprietário da empresa de comércio chamada Moreira Sobrinho, outrora instalada no porto da Praia Grande, havia retornado desde muito criança a Portugal terra de origem de sua família.

            Ele vinha atraído pelo conteúdo dos livros da Câmara de São Luís as raridades encontradas em 1982. Rafael pesquisador emérito, havia ensinado à nossa equipe de alunos de história como realizar e de forma tecnicamente correta a transcrição paleográfica daqueles manuscritos.

            Ele foi o primeiro a quem sigilosamente mostrei, logo no dia seguinte, a pintura revelada pela ação do nosso mestre de obras. Senti que Rafael teve um impacto ao avistar a imagem na parede descascada! Pareceu haver sido tomado de profunda emoção.

            – Mas isto é a Praça do Comércio de Lisboa! Exclamou assombrado.

            Para resumir a história, Rafael não só identificou o que representava aquela imagem como fez os estudos científicos desta reveladora e importante descoberta.

            Algum tempo depois a partir de suas orientações e com as diligências do então Secretário da Cultura Benedito Buzar, viabilizara-se os recursos da Fundação Calouste Gulbenkian de Portugal, que posteriormente garantiram a restauração da pintura mural que até hoje está ali como um dos mais importantes documentos que justificam e dão razão à influência do estilo pombalino na nossa arquitetura.

            Segundo seus estudos aquela é uma pintura que reproduz o projeto da Praça do Comércio de Lisboa elaborado por Carlos Mardel o arquiteto líder da equipe que venceu concurso público para a rápida reconstrução de Lisboa após haver sido destruída pelo terremoto de 1755.

            E graças a esta descoberta no centro histórico de São Luís, o Terreiro do Paço ou Praça do Comércio, o logradouro mais importante de Lisboa, pode finalmente receber a pintura com a cor identificada como “amarelo de Nápolis” preferida de Pombal nas obras de reconstrução da cidade.

            A obra de restauro foi inaugurada em 1993, a notícia publicada em importantes jornais de Lisboa e a pesquisa de Rafael Moreira nos relatórios da Fundação Culbenkian.  

 

(ANDRÈS, Luiz Phelipe Carvalho de Castro. As pinturas murais do sobrado da Praça do comércio. In: Reabilitação do Centro Histórico – Patrimônio da Humanidade. São Luís: Foto Edgar Rocha, 2012, p. 174,175.)

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