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Cadeira Nº 22

José Sarney

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Biografia

José Sarney de Araújo Costa nasceu em Pinheiro-MA a 24 de abril de 1930. Graduado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (1953), foi deputado estadual por três legislaturas sucessivas, Governador do Estado do Maranhão (1965-1970), senador da República pelo Maranhão (1971-79 e 1979-85), vice-presidente da República (1985), presidente da República (1985-90), senador da República pelo Amapá em três legislaturas sucessivas, presidente do Senado Federal (1995-97; 2003-05 e 2009-2013). É o mais longevo político brasileiro, com 60 anos consecutivos de mandatos eletivos e com o maior tempo de mandatos no Senado Federal (39 anos). No jornalismo, foi Redator dos jornais O ImparcialCombateJornal do DiaJornal do PovoO Estado do Maranhão, Diretor do Suplemento de Letras e Artes de O Imparcial, em São Luís do Maranhão (1947-1980). Colaborou nos jornais Diário de Pernambuco e Correio do Ceará, nas revistas Clã (Ceará), Região (Pernambuco), e Ilha (Maranhão) (1948), no Jornal do Brasil, de O Globo, nas revistas Senhor e o Cruzeiro; na Folha de S. Paulo (1982-85 e, durante 20 anos consecutivos, de 1991 a 2011) e O Estado do Maranhão. É membro da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, da Academia Brasiliense de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa, Doutor Honoris Causa em universidades nacionais e estrangeiras. É detentor de inúmeras condecorações e honrarias concedidas por instituições nacionais e estrangeiras. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira n0 22, como sucessor de Correia da Silva.

Bibliografia:

  • A Canção Inicial.São Luís: Afluente, 1952. (2.ª ed. São Luis: Edições AML, 2001. Poesia.)
  • Norte das Águas. São Paulo: Martins Editora, 1969. (2.ª ed. Com estudo de Josué Montello, Léo Gilson Ribeiro e Lucy Teixeira. Rio de Janeiro: Artenova, 1980. 3.ª ed. Lisboa, Ed. Livros do Brasil, 1980. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1993. 5.ª ed. São Paulo: Ed. Siciliano, 2001. 6.ª ed. São Paulo: Ed. Siciliano, 2003.Contos.)
  • Marimbondos de Fogo. Rio de Janeiro: Artenova, 1978. (2.ª ed., Lisboa: Bertrand, 1986. 3.ª ed., Rio de Janeiro: Alhambra, 1987. 4.ª Ed. São Paulo: Siciliano, 2002. Poesia.)
  • Falas de bem-querer: discursos e crônicas. Brasília: Artenova, 1983
  • 10 Contos Escolhidos. Brasília: Editora Horizonte, 1985.
  • Brejal dos Guajas e Outras Histórias. Rio de Janeiro: Editora Alhambra, 1985.
  • O Dono do Mar. São Paulo: Siciliano, 1995. (2.ª a 11.ª edição. São Paulo: Ed. Siciliano, 1996 a 2005.Romance.)
  • Sexta-feira, Folha. São Paulo: Siciliano, 1994.
  • A Onda Liberal na Hora da Verdade. São Paulo: Siciliano, 1999.
  • Saraminda.. São Paulo: Siciliano, 2000. (Edição fixada. São Paulo: Ed. Siciliano, 2005.Romance.)
  • Saudades Mortas… São Paulo: Editora ARX, 2002. (Poesia)
  • Canto de Página – Notas de um Brasileiro Atento.  São Paulo: Ed. ARX, 2002.
  • Crônicas do Brasil Contemporâneo. São Paulo: A Girafa, 2004. 2 vols.
  • Tempo de Pacotilha. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. (Coleção Austregésilo de Athayde, v. 20)
  • Vinte anos de Democracia. Brasília: Senado Federal, 2005.
  • Vinte anos de Democracia 2. Brasília: Senado Federal, 2005.
  • Semana Sim, Outra Também (Crônicas do Brasil Contemporâneo).São Paulo: Ed. ARX, 2006
  • A Duquesa vale uma Missa.São Paulo: Ed. ARX, 2007.
  • Crônicas do Brasil Contemporâneo. Vol. VII. Rio de Janeiro: Ediouro,2008.
  • O imperador Antônio Vieira. Brasília: Senado Federal, 2008.
  • Maranhão: sonhos e realidade. São Luís: Edições Fundação José Sarney, 2010.
  • Esperanças e certezas do Maranhão. Brasília: Senado Federal, 2011.
  • Senado: 185 anos. Brasília, 2011.
  • Galope à beira-mar: casos e acasos da política e outras histórias. Rio de Janeiro: Leya, 2018.

Traduções:

 

  • Norte das águas.

Romeno: Apele de Miazänoapte. Tradução de Micaela Ghitescu. Bucareste: Ed. Univers, 1986. Inglês: Tales of Rainand Sunlight.Tradução de Vera Hallam, introdução de Antônio Olinto. Londres: Editora Wyvern-Sel, 1986. Alemão: Die sihnedes Alten Antão. Tradução de Curt Meyer-Clason. Munique: Editora Piper, 1987. Russo: Moscou, 1988. Chinês: Shangai, 1988. Espanhol: edição venezuelana (bilíngue): Presidencia de la Republica, Monte Avila Editores, CA, 1988. Edição mexicana: Tradução de Neusa Wohlgemuth de Hidalgo, Alina Reis de Bistrain e Cleide Bacil de León. México: Editora Fondo de Cultura Económica, 1988; 2.ª edição, 1989. Edição em búlgaro: 1989. Edição em francês: Paris: Stock, 1989.

 

  • 10 Contos Escolhidos.

Italiano: Cristallidi Sali – Gente e legende del Maranhão. Palermo: Renzo e Rean Mazzone Editori, 1988. El Concejal Bertoldo y otros cuentos (seleção de 3 contos). Prólogo de C. E. Zavaleta e tradução de Edgardo Rivera Martinez. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1987.

  • O Dono do Mar

Francês: Capitaine de lamerocéane. Tradução de Jean Orecchioni. Prefácio de Jorge Amado. Paris: Hachette, 1997. Romeno: Stapânulmari. Tradução de Micaela Ghitescu. Bucareste: Editura Fundatiei Cultural e Române, 1997.
Edição mexicana: El dueño del mar. Tradução de Francisco Cervantes. México: Fondo de Cultura Económica, 1997. 2.ª edição, 1999.Grego: Tradução de Katepina Baaxakh. Atenas, 1999. Árabe: Sayedel Bihar. Tradução de Dar Alfarabi. Beirute: Lebanese Printing CO, 1999.Inglês: Master of the Sea. Tradução de Gregory Rabassa. Nova York: Ali form Publishing, 2005.

 

  • Saraminda

Edição mexicana: México: Fondo de Cultura Económica, 2001.Romeno: Bucareste: Vis Print, 2001.Francês: Paris: Quai Voltaire, 2002; Folio, 2003.Húngaro: Budapeste, 2004.Coreano: Seul, 2004.

Também é de sua autoria uma grande quantidade de discursos, conferências e ensaios.

 

 

Referências para estudo:

  • MOARES, Fátima (coord). José Sarney, 70 anos: um perfil da sua história. São Luís: Alcântara, 2000.
  • BASTOS, Oliveira (coord). Sarney: o outro lado da história. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001
  • ECHEVERRIA, Regina. Sarney: a biografia. São Paulo: Leya, 2011.
  • SCUOTTO, Lais (coord). José Sarney: o poeta e defensor da liberdade. [S.l.:s.d.]
  • SENADO FEDERAL. Modernidade no Senado Federal; Presidências de José Sarney. Brasília: Senado Federal, 2012.
  • ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS. José Sarney: o homem e a palavra. São Luís: Edições AML, 2020.
  • GUTEMBERG, Luiz. José Sarney: democrata e humanista. Brasília: Obrito News, 2001.
  • DUARTE, Sebastião Moreira. A José Sarney em seus 80 anos. São Luís: Edições AML, 2012.

O DONO DO MAR (FRAGMENTO)

1

            Não era dia nem noite no porto do Mojó. Era o lusco-fusco da madrugada.

            Quando Antão Cristório chegou para embarcar, a maré ainda não tinha deixado marcas na areia, estava plena, morta, pronta para começar a vazante. Ele caminhava, os pés de pato, abertos, triangulares, aqueles dedos grandes e espalhados, plantados no chão, esmagando a terra e deixando amassados profundos na marcados passos. Seu corpo era íntegro, atarracado, forte, rijo, braços longos, as mãos soltas, balançando descompassadas. Os sulcos dos músculos, nítidos, dividiam braços e antebraços, coxas e pernas, peito e barriga. Estava com o velho chapéu de palha e o calção de pescar esfiapado e encardido pelo sol do mar. Tinha o rosto largo, nariz achatado queixo retraído, a tez queimada, cor de barro, curtida de sol e maresia.

            – Bom dia, capitão Cristório – saudou Bertolino.

            – Capitão? Capitão é a puta que pariu, todo mundo sabe que sexta-feira eu não gosto que me chamem capitão – respondeu seco e firme, sem alterar nem mesmo o tremer da vela enrolada que carregava no ombro, a caminho da sua biana.

            – Mas capitão!… – tentou explicar Bertolino.

            – Eu já disse que não gosto que me chamem capitão, na sexta-feira. Vai de novo à puta que pariu. E se repetir, corto a língua.

            Era assim. Claro e duro. Bertolino engoliu o desaforo. Sabia que as palavras ali não eram coisas sem rumo. De logo, eram fatos. Correu sangue muitas vezes nas areias do Mojó. Tudo sempre começava como no mar. Um pé-de-vento, um pé de conversa, uma tempestade.

            Cristório tinha motivos para odiar as sextas-feiras. Foi numa sexta-feira que seu filho Jerumenho fora assassinado. Chegara de uma pecaria, cansado, triste, e apenas tinha deitado quando ouviu a voz do primo Garatoso, chamando:

            – Capitão Cristório, capitão Cristório?!… Aconteceu a pior das desgraças, uma desgraça grande…

            Ele não sabia se era sonho ou se era verdade. Começava a dormir. Mas a voz insistiu, no tom do desespero:

            – Capitão Cisrtório, capitão Cistório…

            Sabe Deus o ocorrido naquela noite. Os tempos estavam longe, mas dava para recordar. Brigas de festas, brigas de amor. Jerumenho, vinte anos, saúde e força, nas noites de São João. Cantava o bumba-meu-boi e todos dançavam. Maria Dina puxa o cordão, vem noite, vêm três noites, e a brincadeira continua. Há um fresco-fresco que todos gostam. Cheiro de mulher, de cabeça e de escuro. O baile avança, avança o desejo, e Dina vem toda arretada. Esfrega-se aqui, busca homem acolá e é toda querendo entregar-se, desejo e alegria. Jerumenho sai, balança, vai de esperto e cai no rumo do esconderijo.

            – Vem, Dina.

            Ela vem. É tudo que se pensa e deseja. Jerumenho, nas suas forças, força. E vai e vem. E vem e vai. Ela geme. Bem perto estão a festa e o marido, é tudo alegria, e ela quer conhecer o desconhecido.

            Jerumenho sempre lhe dizia palavras de bem-querer:

            – Flor cheirosa da noite. Lua de agosto. Deus te fez e Deus te conserva.

            Ela ouvia, despertava seu instinto de mulher e via aquele corpo sempre corpo desejando seu corpo. Sentia de tudo nas palavras atravessadas e nas sugestões das mãos macias.

            Naquela noite, tudo aconteceu como acontece. O destino. Saiu um xote, pega para cá, rodopia para lá e depois vem o diabo de querer corpo com corpo. Ardia a lamparina de morrão. Uma luz amarela, dessas que saem do bico grande e ganham as alturas iluminando as noites de tudo se querendo.

            – Vamos embaralhar as partes? Vamos?

            Ela não ouviu nada, e ouviu tudo, e foi saindo, saindo de lado – e de repente estavam no mato, era um chão de folhas. As estrelas e o desejo. Boca com boca, boca de boca, parte com parte. Cheiro com cheiro. E o amor nascia, de carne, e um só.

            Jerumenho saca o mastro, Maria Dina levanta os panos e as estrelas brilham no céu da noite. O campo está aberto. Mulher, fêmea e terecô. Vai e vem, bate no chão, deita, levanta e desce. Se esfrega e renova. É a posse, o milagre pleno dessas noites doces. O gozo do gosto do corpo.

            Não se sabe por artes de que diabo, Carideno, marido dela, acompanhou a caminhada. E, no meio de tudo, Jerumenho sente a peixeira larga nas costas e o frio de uma quentura de estranho sol, e a vida vai saindo com o sangue que corre. Dina o abraça abraçando a noite e a morte, e ele perde o mastro e o silêncio.

            Não tardou a começar a gritaria:

            – Morreu gente, tem sangue ali, em sangue!

            Vai grito, vai curiosidade e vai se saber o que não se sabe, atrás do acontecido que aconteceu.

            É o amor e é a morte. Ronca o bumba-meu-boi:

                        Te levanta boi e vem, bate as patas também.

                        Se a dona da casa trepa, as filhas trepam também…

                        Já urrou, já urrou que eu vi,

                        Todas as três eu já comi..

            Era a noite dos cordões de bumba-meu-boi com as mais floridas guarnições. Jerôncio, o Cazumbá do folguedo, já dissera antes da saída da rapaziada:

            – Hoje vai ter ranger de dente!

            Nas noites de sexta-feira é preciso olhar as estrelas, elas são azuis e ás vezes amarelas. Cavalgam bodes e cavalos nos vazios dos buracos escuros do céu. Ali habitam os demônios.Eles olham a Terra e se encontram para descobrir um lugar onde colocar a mão da desgraça, que flutua com o sereno e a tarrafa da noite no fim do dia.

            Há um silêncio profundo. As formigas andam devagar. Os galhos das imbaúbas estão parados. O povo corre para saber o que há no grito daquele mistério:

            –Trepou e não gozou… – foi o que disse uma mulher que olhava a cena.

            Jerumenho repousava numa poça de sangue. Braços abertos, noite fechada. Foi quando Garatoso saiu e foi avisar o velho Cristório. Mal andou, parou e ficou no meio do aminho porque ouviu uma voz:

            – Não diz a meu pai que eu não lutei. Eu estava preso. Era o feitiço da Dina. E eu somente vi o luminar da noite daqueles cabelos.

            – Quem fala?

            – Sou eu. Jerumenho.

            – Estás morto!

            – Estou morto, mas vendo a vida, e dela me afastando.

***

Na casa ao lado, beira de estrada, ouvindo o vozerio, Zeferina, sitiante no lugar, acordava. Via uma sombra, que lhe fala entre sinais e luzes:

— Quem é?

 

— Sou eu.

— Quem?

— Jerumenho.

— Estás no mar com Tandito, meu filho?

— Não, estou na morte. Quero que me dês um pedaço de renda, cheia de quadrados de flores, para eu fazer uma trança de desejo para Dina, mulher de Carideno.

— Onde estás?

— No mundo das muruanas. Voando.

— Deixa o pecado. És alma?

— Não, sou gente.

— Não te vejo.

— Nunca. Eu não sou mais.

A noite avança e é tudo sortilégio — e ao longe se cantam e dançam as cantigas de boi que encantam as noites de mistério.

***

— Capitão Cristório, venha depressa…

— Com que diabos você me chama assim? Já vou. E saiu de casa para o terreiro da frente.

— Mataram Jerumenho!

— Que notícia desgraçada é essa?

— Mataram.

— Onde?

— No Baile do Faustino.

Cristório ficou calado. Testa franzida, dentes cerrados, entra em casa. Jerumenho era seu companheiro de mar. Era ele que se pendurava na iça, acompanhava seus silêncios, enrolava a rede de pescar. Crescera dentro da canoa, tantos eram os dias e as noites que passaram juntos, desde menino. Cristório baixou a cabeça, vestiu a camisa de pano cru, apertou o cinto de corda, pôs o chapéu e saiu amassado:

— Vamos, primo Garatoso. Deus mandou, eu obedeço.

Chegaram. Um bocado de gente cercava o corpo. Já havia velas acesas debaixo do pé de tamboril, onde eles foram juntar-se. O sangue escorria da ferida nas costas e pelo chão. Não dava para ver o rosto de Jerumenho, que estava de bruços. Cristório pediu um lençol. Foram buscar. Enrolou o corpo do filho, carregou-o no ombro e tomou o caminho de casa. Ali chegou. Grande era o silêncio. Saíra sem avisar ninguém. Parou em frente de casa, o corpo quente nas costas. Só então gritou pela mulher:

— Camborina, acorda! Camborina, Camborina! — a voz era firme e seca, assim como a ordem para lançar o arpão.

Algum tempo ficou esperando. A porta se abriu. Camborina, na quase escuridão, sem saber o que era, perguntou:

— Que peixe é esse que tu trazes nas costas?

— É o corpo do teu filho Jerumenho.

Um grito de dor invadiu a noite. Ele entrou, pousou Jerumenho na mesa da cozinha e repetiu:

 

— Deus mandou — e acrescentou com raiva: — Merda!

Começaram as lamentações, as rezas e a tristeza. A notícia correndo e os amigos chegando. Iniciaram o trato das coisas dos defuntos: caixão, roupa e cova. Cristório à frente de tudo. Fazia as coisas como se estivesse arrumando os apetrechos para embarcar. Seguiram-se os costumes do lugar. Cristório não tinha lágrimas. De vez em quando chegava perto do corpo, levantava o lenço que cobria o rosto, olhava, desviava o olhar e saía.

Colocou água no fogo, misturou água quente com água fria, pegou os panos velhos, começou a limpar o cadáver do filho. Retirou as calças de mescla azul.

— Peço que todos saiam! — deu ordem para os filhos e vizinhos.

E recomeçou o ritual. As mãos corriam na carne nua, deslizando carinho pela pele. Lavou-lhe os pés. Virou o corpo com cuidado. Ainda sangrava. Colocou um pedaço de pano no ferimento. Foi ao quarto e abriu o saco de roupas do rapaz, lavadas e enroladas com cuidado, penduradas na escápula das redes de dormir. Escolheu uma calça de brim cáqui e uma camisa branca. Achou que devia levar o calção velho, de muitas pescarias. Camborinachorava, beijava o filho morto e implorava a Deus. O pranto escorria na casa como se fosse chuva nas calhas. O vento era uma brisa forte que sacudia o velho pé de caju, florido e de galhos derramados pelo céu e pelo chão, no quintal das árvores verdes onde dormiam as galinhas-d’angola.

Cristório voltou. O corpo estava coberto por um lençol, que ele puxou. Olhou bem o filho como se fosse uma primeira vez. Os dentes apareciam ligeiramente, numa boca que se entreabria. Pegou-lhe os lábios e puxou três vezes. Limpou-lhe o rosto uma vez mais. Beijou-lhe a testa. Os olhos estavam fechados e as mãos caíam descoordenadas para fora da mesa.

Viu-lhe os músculos. Começou a farejar-lhe o corpo todo. Levantou os braços, puxou os cabelos das axilas. Apertou o pano molhado para que escorresse a água suja. Molhou- o de novo no caldeirão. Lavou-lhe demoradamente o mastro, as virilhas, as entrecoxas, as pernas. Amaciou e ordenou-lhe os cabelos, apertou-lhe as mãos e cruzou-as sobre o peito. Começou a prepará-lo. Camborina quis ajudá-lo.

— Não! — gritou. — Quero fazer só!

Desenrolou a calça e começou a vestir o morto. Primeiro de um lado, depois de outro. Lembrou-se do calção e retirou tudo. Pegou o calção velho de pesca que ele usava na canoa e vestiu-o. Puxou o cordão da cintura, apertou e amarrou. Recomeçou a tarefa das calças. Depois, foi a vez da camisa. Levantou o corpo. Abraçou-o, e só então pediu a Camborina:

— Veste a camisa. Antes limpa o resto de sangue que está na mesa.

Colocou-lhe os braços nas mangas. Pôs a camisa para dentro da calça, foi fechando os botões devagar, até a gola.

Juntou-lhe os pés, amarrou um ao outro com um pedaço de pano e fez o mesmo com as mãos sobre o peito. Foi ao quarto, trouxe um pente, passou nos cabelos e parou no topete. Era um cabelo castanho, nem liso nem crespo. Queimado de sol, cheirando a suor e calor. Um arrocho subiu-lhe à garganta. Penteou Jerumenho mais uma vez. Beijou-lhe o rosto. De seus olhos não saíam lágrimas. Foi à cozinha e trouxe uma faca e um rolo de embira. Mediu o corpo três vezes. Calculou um palmo além dos pés. Outro palmo além da cabeça. Pegou a faca, cortou a embira e falou forte:

— Garatoso, leva a medição. O tamanho do caixão é este.

Cobriu-o com o lençol. Voltou, puxou um banco e sentou-se. Ali ficou o resto da noite e o dia que veio, sem beber nem comer. Sem mexer um músculo até a hora do enterro na tarde daquele dia que continuava sendo aquela madrugada.

 

Em O Dono do Mar         

(SARNEY, José. O Dono do Mar. Romance. São Paulo: Siciliano, 1995, p. 9- 13)

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