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Cadeira Nº 17

Ivan Sarney

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Biografia

Ivan Sarney Costa nasceu em São Luís, a 13 de maio de 1946. É artista plástico, cineasta, teatrólogo, poeta, contista e jornalista. É bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão e técnico em Administração de Empresas pela Escola de Administração Pública do Estado, atualmente incorporada pela universidade Estadual do Maranhão. Estudioso da cultura popular maranhense, colabora na imprensa de São Luís. É cofundador e presidente da Sociedade dos Amigos de São Luís e Alcântara e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Até 1990 foi titular da 2ª Diretoria Regional da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da Fundação Nacional Pró-Memória, com jurisdição sobre os estados do Maranhão e Piauí e integrou o Conselho Estadual de Cultura em dois mandatos. Como político, foi vereador por São Luís em dois mandatos. É detentor da Medalha do Mérito Timbira, do Governo do Maranhão, e João Lisboa, do Conselho Estadual e Cultura. Na Academia Maranhense de Letras, ocupa a Cadeira n0 17, como sucessor de Barcelar Viana.

Bibliografia

1) O sótão. São Luís: FUNC, 1979. (2ª. ed. São Luís: Edições AML, 2021; teatro.)

2) Meia-morada coração. São Luís: Sioge, 1980.

3) Chapéu de couro. São Luís: FUNC, 1981. (Este título, refundido, foi editado com o título chapéu de couro e palha. São Paulo: Global, 1987; contos.)

4) Discurso de Ivan Sarney. Revista da Academia Maranhense de Letras. São luís, ano LXXI, nº 16, p. 13-18, ago. 1986.

5) Na boca da noite. São Paulo: Global, 1988.

6) São Luís uma ilha bela por natureza. São Paulo: Global, s.d.

7) Amando a Cidade. São Luís, Discursos parlamentares, vol. 1, 1993.

8) Uma cidade no tempo. São Luís: Minerva, 2007.

9) O congresso das Garças. São Luís: Edições AML, 2016. (Crônicas)

 

Referências para estudo

1) VIEGAS NETO, João  Alexandre. Saudação de Viegas Neto. Revista da Academia Maranhense de Letras. São luís, ano LXXI, nº 16, p. 19-26, ago. 1986.

2) BRASIL, Alex. Crônica de um amor anunciado. In: SARNEY, Ivan. O congresso das Garças. São Luís: Edições AML, 2016.

3) ______. A dialética do ser. In: SARNEY, Ivan O sótão. São Luís: Edições AML, 2ª ed. 2021.)

4) MACHADO, Nauro. Um testemunho de humana beleza. In: Uma cidade no tempo. São Luis: Minerva, 2007

 

O CONGRESSO DAS GARÇAS

 

            Quem caminha no circuito da Lagoa da Jansen já pode registrar, desde dezembro, as centenas de garças que ali estão fazendo morada, como um brinde de final de primavera e já, agora, no início deste verão.

            Elas estão para a Lagoa, como o sol está para as manhãs de vento farto que ali impera; como o próprio odor da Lagoa está para as narinas dos que ali caminhamos. Estão para meus olhos como o branco está para a paz, necessária aos homens. Estão para o verão como estiveram para a primavera, entre o encanto das formas, dos perfumes e da policromia das flores.

            A própria manhã está para a Lagoa como as garças estão para os meus olhos e para os olhos de Janaína que divide comigo as caminhadas, as emoções e o encanto de amar, que vai adoçando nossos dias.

            Atento, ao ritmo das formas, registro a crescente profusão das garças, na Lagoa, desde o mês de outubro, sob o domínio absoluto da primavera. A garça que me encantava, que reinava absoluta num espaço cativo daquelas águas, foi cedendo lugar a um bando de pequenas garças e de gaivotas mescladas de branco, mas sem a mesma elegância, que foram pontilhando de movimento e ondas as águas da lagoa.

            É como se aquele espaço, na amplidão do verde denso das árvores de mangue que ali restaram, emergindo das águas, tivesse sido o local escolhido por elas para a reprodução. E assim sendo, o milagre da vida se multiplicou em formas e cores, compondo esse espetáculo da lagoa no alvorecer, e já no início da manhã.

            A princípio, elas reinavam dispersas, em pequenos bandos, e se alinhavam e acasalavam entre as folhagens do manguezal que ali esplende. Depois foram multiplicando seus bandos e a dimensão ocasional que os caracterizava.

            Agora estão espalhadas por quase toda a Lagoa, quase sempre, em bandos, quase sempre lindas em suas formas, em seus voos, em seus grasnados, em todos os gestos com que afirmam suas presenças e expõem o domínio do espaço que ocupam, para embevecer e caçar.

            O congresso das garças é como tenho nominado, a mim mesmo, esse encontro tão vasto e diverso dessas aves pernaltas, na lagoa. Como um encontro anual, previamente combinado, ao qual nenhum pudesse faltar. E por isso tivessem vindo. E por isso ali estão, enchendo de beleza e vida a Lagoa e a cidade.

            As festas de Natal e Ano Novo também podem ser motivo para explicar esse fenômeno. O retorno das garças que ali nasceram terá acontecido, então, para reencontrar familiares que ali, porventura, ainda vivem.

            Por isso, é possível também que muitas delas tenham retornado, para sentir o cheiro, o gosto do ar, da terra, das águas onde tiveram o privilégio de abrir os olhos e de aprumar as asas para a luta e a liberdade de viver.

            Meus sentimentos de poeta vão suscitando as razões, independente do que possa o conhecimento de um biólogo explicar, mostrando à luz da ciência a causa desse fenômeno, as razoes dessa paisagem inusitada que a cidade exibe, como brinde ao Ano Novo.

            Independe de mim o encanto da manhã, pontilhada de garças e gaivotas. Independe do biólogo o fenômeno da multiplicação dessas aves, na lagoa, perpassando a primavera, e neste início de verão. Independe da manhã a presença das graças na lagoa. Apenas a lagoa é necessária, com os organismos vivos que a compõem, com a biodiversidade de peixes, de caranguejos, de siris e camarões que ali também se reproduzem e afloram para a vida.

            Algumas garças, no afã de mostrar-se aos olhos dos caminhantes, deram-se agora ao hábito de subir em árvores de mangue, de buscar os galhos mais altos e visíveis, para se portarem quase como estátuas vivas, garbosas, ressaltando sua brancura e delicadeza de linhas, ao verde vegetal do mangue que as acolhe.

            Por conta desse espetáculo, a Lagoa esplende em vida. E a vida que esplende na Lagoa vai dando lições aos que passam, apressados, na tarefa matinal de cuidar de nossos corpos, de nossa mente, de nosso espírito, e compor uma harmonia única, para ser energia aos outros, para nos elevarmos ao metafísico, para habitarmos um mundo melhor.

            Os veículos de comunicação de massa não viram, não veem a lagoa e o esplendor da paisagem que ostenta agora. E fatos como esses devem ser fotografados, divulgados, comunicados a todos como uma celebração à vida, como um lenitivo à alma, nestes tempos de tantas barbáries.

            Possivelmente, algumas pessoas não veem, também, esse espetáculo sublime que a natureza está nos oferecendo, todas as manhãs. Algumas, não veem porque não querem ver. Outras, porque não conseguem ver, ocupadas com as outras cenas que o cotidiano vai produzindo, ante nossos olhos de susto, de incredulidade, de medo, de contemplação.

            É muito mais fácil ver aquilo que já vimos, em situações pretéritas, e já conseguimos registrar como bom ou mau, como belo ou feio, como importante ou não, em nossa escala de valores. Não precisamos fazer exercícios quaisquer, de interpretar aquilo que os novos cenários estão pondo, diante de nós, mesmo quando isso nos diz respeito absoluto ou relativo.

            O espetáculo que as garças estão produzindo, em profusão, vindas dos mais diversos locais, quase como um compromisso de família, no final do ano, merecem mais que contemplação; merecem embevecimento e reflexão sobre a vida gregária das espécies vivas que, em última instância, envolve a nossa própria vida, como uma necessidade vital de perpetuação da espécie humana.

            Bem-vindos ao congresso das garças que acontece na Lagoa, desde dezembro. Por isso, bom dia ao Sol! Bom dia ao dia! Bom dia às gaivotas e às garças! Bom dia aos passarinhos que saúdam nossa passagem. Bom dia aos amigos de caminhada, ainda que nem respondam, ao passarem por nós. Tenham todos, um bom dia, porque a vida esplende em nós e amanhã será sempre um novo dia, com novas e luminosas esperanças.      

         

 

(SARNEY, Ivan. O congresso das Garças. São Luís: Edições AML, 2016, p. 25-29.)

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