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Cadeira Nº 13

Benedito Buzar

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Biografia

 Benedito Bogéa Buzar nasceu em Itapecuru-MA, a 17 de fevereiro de 1938. É jornalista, advogado, professor e pesquisador. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Maranhão, foi subchefe do Departamento de Estudos Jurídicos e Sociais da Escola de Administração Pública, onde também foi professor titular de Ciência Política do curso de Administração Pública da Universidade Estadual do Maranhão. Na administração pública exerceu diversos cargos como chefe da Divisão de Assuntos Internos, da Divisão de Planejamento, presidente do Conselho Estadual de Cultura, assessor de comunicação do Senai, Sesi e Fiema, chefe de Gabinete da prefeitura de São Luís, Secretário Municipal de Educação e Cultura de São Luís, coordenador geral da Secretária da Cultura do Maranhão, diretor-presidente da Maratur, secretário de Estado da cultura, diretor-presidente do Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, assessor do SEBRAE-MA, gerente de articulação e Desenvolvimento da Região de Itapecuru. Como jornalista, colaboradou nos jornais O Dia, O Estado do Maranhão, O imparcial, O Debate e o Jornal, e das revistas Garota de São Luís, Projeção, Impacto e Legenda, da qual também foi secretário, além de produtor e apresentador do programa “Maré Alta” na TV Ribamar. Na política, foi eleito deputado estadual, porém, teve seu mandato cassado por ocasião da Ditadura Militar em 1964. Por sua contribuição ao Maranhão, foi agraciado com diversas medalhas por várias instituições. Foi presidente da Academia Maranhense de Letras nos biênios 2012-2014/2014-2016/2017-2018 e ocupa a Cadeira n0 13, como sucessor de Fernando Perdigão.

Bibliografia

1) Do Saneysmo ao Vitorinismo. (Memória)
2) Eleição de Chateaubriand no Maranhão. (Memória)
3) A greve de 51 – os trinta e quatro dias que abalaram São Luís. São Luís: Editora Alcântara, 1983.
4) Fiema: vinte anos de lutas e vitórias. São Luís, 1988.
5) 50 anos de Banco do Estado do Maranhão. São Luís: Sioge, 1989.
6) Politiqueiros, politicalha, politiquice, politicagem e política no Maranhão. São Luís: Sioge, 1989.
7) 100 anos de telefonia no /Maranhão. São Luís: 1991.
1) Discurso de Benedito Buzar. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, Vol. 18, p. 83-94, mar., 1998.
8) O Vitorinismo, lutas políticas no Maranhão (1945 a 1965). São Luís: Lithograf, 1998. (2ª e 3ª Ed., 1998; 4ª ed., 1999).
9) Vitorinistas e oposicionistas. São Luís: Lithograf, 2001.
10) Neiva Moreira: o jornalista do povo. São Luís: Litograf, 1997.
11) 50 Anos da Greve de 51. São Luís: Lithograf, 2001.
12) No tempo de Abdala era assim. São Luís: Foto Edgar Rocha, 2011.
13) O dia a dia da História de Itapecuru-Mirim. São Luís, 2014.
14) Centenário de Pires Sabóia. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 92, vol. 27, p. 169-171, jun., 2016.
15) Discurso de saudação a Eliézer Moreira Filho por Benedito Buzar. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, ano 92, vol. 29, p. 39-55, dez., 2016.
16) O Itapecuru de Zuzu Nahuz. São Luís, 2018.
17) As reformas do Largo do Carmo. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, nº 31, p. 155-158 out./ dez., 2020.
18) O Farol Maranhense. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, nº 32, p. 118-123 jan./ mar., 2021.
19) O Centenário de Arnaldo Ferreira. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, nº 33, p. 105-111 abr./ jun., 2021.

Além de inúmeros artigos e crônicas publicados na imprensa local.

Referências para estudo

1) COUTINHO, Milson de Sousa. Revista da Academia Maranhense de Letras. São Luís, Vol. 18, p. 95-102, mar., 1998.

2) ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS. Perfis Acadêmicos. 5.ed. Pesquisa, organização e textos de Jomar Moraes. São Luís: Edições AML, 2014.

 
SÍRIOS LIBANESES NO MARANHÃO

  Não há registros estatísticos oficiais que possam precisar a época exata da chegada dos árabes em terras maranhenses. Os Almanaques do Maranhão, publicados na segunda metade do século XIX, traziam informações preciosas acerca da vida administrativa, social, econômica e mercantil do Maranhão, mas não davam qualquer notícia sobre a presença de imigrantes de qualquer procedência em nossa província. Se alguns aqui aportaram e se fixaram, isolados ou em grupo, não deixaram vestígios de que tenham se integrado à sociedade maranhense, muito menos de terem participado de atividades comerciais. A única referência a respeito do assunto vem do médico e professor da Universidade Federal do Maranhão, Olavo Correia Lima que, na monografia Sírios e libaneses no Maranhão, publicada em 1987, cita os nomes de José Zequertevi, Miguel Mettre Heluy e José Nicolau Heluy, qualificando-os de pioneiros por terem aqui chegado em 1886. Diz ainda que “hospedaram-se no Convento do Carmo, possivelmente recomendados por alguma missão religiosa.”

  A presença dos sírios e libaneses no Maranhão só ganha registro no alvorecer do século XX, quando em números expressivos ingressam no país, oportunidade em que suas presenças são realçadas por conta de aspectos sociais e econômicos. Naquela fase histórica, o Brasil desejava mostrar ao mundo que não apenas optara por uma nova forma de governo – trocara a monarquia pela república –, como também estava interessado em modernizar suas estruturas, transformando o trabalho escravo em livre, criando seu mercado interno e deixando de ser agrícola e rural para focar-se na industrialização e na urbanização.

  São Paulo, líder desse processo, precisava de mão de obra especializada mais do que os outros estados da Federação. Em função disso, passou a ser o principal agente catalisador das correntes migratórias europeias e asiáticas. Foi para lá que acorreram os sírios e libaneses, especialmente os habilitados profissionalmente, logo aproveitados pelo emergente e promissor mercado de trabalho.

  Se parte significativa dessa corrente migratória se fixou em São Paulo, outra, bem mais reduzida numericamente, debandou para regiões menos desenvolvidas do país, a exemplo do Nordeste, onde o trabalho assalariado não tinha o vulto do praticado no Sudeste brasileiro. A despeito das dificuldades, sobretudo com relação aos meios de transporte, eles, com o sangue fenício a correr nas veias, embrenharam-se no interior do Brasil, onde passaram necessidades prementes, já que não traziam recursos substanciais para o enfrentamento das intempéries e agruras inerentes àquela aventura, que só findava quando encontravam lugar adequado para mirar e propício para ganhar dinheiro.

  Peregrinavam incessantemente pelas cidades brasileiras, quase sempre pobres e carentes, onde encontravam gente para mercadejar as quinquilharias que carreavam nas costas ou em lombos de animais. Era nesse mercado que comercializavam os mais ariados tipos de bugigangas e, com a venda delas, tiravam o sustento e o estímulo para continuar na atividade de mascate, em que se mostravam insuperáveis e ganhavam forças para perseguir os objetivos que raziam na cabeça de um dia se fixarem definitivamente em algum lugar onde pudessem prosperar e trazer dos países de origem os familiares que lá deixaram.

  André Gattas, no livro Do Líbano ao Brasil história oral dos imigrantes, afirma:

O ofício de mascate foi fundamental na definição da imagem que os brasileiros fazem do grupo imigrante libanês e serviu de instrumental para a ascensão social tanto de cada indivíduo como do próprio grupo. A mascateação tinha vantagens imediatas de dispensar qualquer habilidade ou soma significativa de recursos, não exigir mais do que o conhecimento rudimentar da língua portuguesa e possibilitar a acumulação de capital em função exclusiva do esforço individual. Depois de poucos anos de mascateação, o capital dos libaneses deslocava-se para o varejo e dali para aplicações no comércio atacadista e na indústria, constituindo um setor totalmente integrado verticalmente, em que as indústrias e os atacadistas supriam as necessidades de uma rede ampla de varejistas e comerciantes ambulantes da mesma etnia.

  Dentre os estados nordestinos que não apresentavam as características de São Paulo, cujo mercado exigia mão de obra qualificada, o Maranhão destacou-se como um dos pontos de chegada dos imigrantes árabes. Segundo pesquisas do professor Olavo Correia Lima, um grupo constituído na sua grande maioria de libaneses chegou a nosso Estado entre o fim do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. Desse grupo faziam parte os Jorge, os Murad, os Mettre, os Simão, os Salomão, os Duailibe, os Aboud, os Farah, os Ázar, os Damous, os Maluf, os Sauaia, os Buzar, os Fiquene, os Fecury, os Mouchereck, os Saback os Tajra, os Curi, os Millet, os Sekeff, os Safady, os Nazar, os Mubarack, os Abdalla, os Tomeh, os Bouéres, os Waquim, os Nahuz, os Dino, os Mattar, os Francis, os Boabaid, os Chouary, os Assef, os Zaidan, os Mohana, os Hadad, os Haickel e outros.

  Esses imigrantes aportaram no Maranhão com a férrea vontade de ganhar dinheiro e vencer na vida, fixando-se, preferencialmente em São Luís e em cidades situadas às margens dos rios Itapecuru, Mearim e Pindaré, onde se concentrava grande parte da riqueza produzida no interior, que demandava a capital do estado, o centro comercial mais importante do Estado, de onde a produção extrativa e agrícola era exportada para centros mais adiantados.

  Com exemplos de audácia e coragem, chegaram ao Maranhão, depois de passarem por momentos difíceis e adversidades de toda sorte. Malgrado isso, conseguiram ultrapassar óbices e, pela mascateação, seu negócio e fonte de renda, aproveitaram as oportunidades para acumular recursos e firmar-se como figuras de realce no meio social.

  No livro Memórias da Imigração, de autoria de Betty Loeb Greiber, Lina Saigh Maluf e Vera Cattini Mattar, encontra-se o relato dramático de um árabe em andanças pelo interior do Brasil, como mascate:

Chegava-se a cidades e fazendas onde não havia luminárias. Sem saber falar português, usava gestos, pelos quais dizia que queria comer, dormir etc. Abria caixas, mostrava as coisas que tinha para trocar, para vender, para pagar comida, qualquer coisa. Aquela gente nunca tinha visto pessoas nessas condições, falando uma língua estranha entre eles. É claro que o pessoal ficava surpreso. Alguns aceitavam, outros não aceitavam em suas casas. Os que aceitavam com maior benevolência, permitiam que chegassem até à beira da casa… Viajamos apanhando sol, apanhando chuva, dormindo ao relento, conseguindo uma esteirazinha num canto qualquer. Algumas senhoras, mais apiedadas, nos acolhiam com alguma coisa melhor. Pão, por exemplo, não se via, era só farinha, porque o próprio brasileiro ainda não sabia que era pão.

  Em depoimento a este jornalista, publicado em O Estado do Maranhão (20 de novembro de 2005), Albertina Aboud, esposa do empresário Alberto Aboud, fala da sogra, Chames Aboud, que deixou o Líbano em 1889:

Destemida e trabalhadora, em chegando ao Brasil, instalou-se com os filhos Wady e Alexandre inicialmente em São Paulo e depois Rio de Janeiro. Sem falar nada de português, a princípio, encontrou dificuldades normais de adaptação, mas não se deixou abater pelas adversidades momentâneas. A opção inicial era mascatear, ou seja, praticar o comércio informal e ambulante, no qual se deu bem e fez alguma poupança, o suficiente para mudar de ambiente e de perspectiva de vida. Trocou então o sudeste pelo nordeste do país. Sem conhecer a região, escolheu fortuitamente        o Maranhão para seu novo habita. Aportou em São Luís no limiar do novo século e disposta a fazer daqui o seu ancoradouro definitivo.

  E fez. Assim como dona Chames Aboud, procederam quase todos os libaneses que escolheram o Brasil como sua segunda pátria e decidiram viver no Maranhão. Aqui se depararam com problemas variados, principalmente o desconhecimento da língua portuguesa, mas não desistiram nem se deixaram dominar pelo pessimismo. Foram em frente: abraçaram o trabalho de mascate como meio de vida, na certeza de que um futuro radioso os aguardaria.

  Por meio dessa atividade, em que as quinquilharias eram moeda de troca, conquistaram cidades, construíram amizades, amealharam fortunas, adquiriram conceito e respeito, impondo-se na sociedade brasileira com famílias bem organizadas, e contribuíram para dar à nação que os acolheu o melhor que carregavam na alma e no corpo, sintetizados no trabalho e no caráter, o legado que trouxeram de seus países de origem.   

         

(BUZAR, Benedito. No tempo dos Abdala era assim. São luís: Foto Edgar Rocha, 2011, p. 29-34.)

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