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Cadeira Nº 11

Ewerton Neto

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Biografia

Nasceu em Guimarães, MA, em 4 de abril de 1953, sendo o segundo filho de Juvenil Amorim Ewerton (desembargador) e de Teresa de Jesus Martins Ewerton.

Iniciou os estudos no Colégio Municipal Urbano Santos, de Guimarães, onde permaneceu até 1959 quando se transferiu para o Colégio Henriques Leal, em São Luis. Após prestar exame de admissão ao ginásio, matriculou-se no Colégio Maristas, em 1963, onde estudou até ser aprovado no vestibular de Engenharia Civil da Universidade Estadual do Maranhão, UEMA, em 1971.

               Dois anos após iniciar os estudos de Engenharia Civil transferiu-se para Volta Redonda, Estado do Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Engenharia Metalúrgica pela Universidade Federal Fluminense, em julho de 1976.

Experiência Profissional

               Trabalhou de setembro de 1976 até novembro de 1977 como engenheiro de Alto Forno, na Cia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda, RJ.

Transferiu-se para a Cia Siderúrgica Belgo-Mineira, João Monlevade, MG, onde, no período de dezembro de 1977 a fevereiro de 1979 trabalhou como engenheiro assistente do Chefe de Divisão de Refratários.

Em outubro de 1979 foi contratado pela Usina Siderúrgica da Bahia, Salvador, BA.  Lá permaneceu como Chefe de Divisão de Forno Elétrico até 1988.

Em junho de 1988 retornou a São Luis, quando iniciou sua atividade profissional no Consórcio de Alumínio do Maranhão, ALUMAR, onde permaneceu até 2006, quando se aposentou e abandonou suas atividades ocupando então o cargo de Consultor de Engenharia de Processo e Qualidade.

Após aposentar-se concluiu, em 2006, o Curso de Pós-Graduação em Letras e Literatura, da Faculdade Atenas Maranhense, FAMA.

Em 2007 concluiu o curso de Pós-Graduação em Jornalismo Cultural, da Universidade Federal do Maranhão, UFMA.

         Desde que se transferiu para São Luis exerceu atividade jornalística regular, inicialmente no jornal O Imparcial e, depois no jornal o Estado do Maranhão, escrevendo crônicas, como colaborador. A partir de 2008 assumiu o espaço Hoje é dia de… no Caderno Alternativo, jornal O Estado do Maranhão, aos sábados, em substituição  ao consagrado cronista, poeta, e também acadêmico  José Chagas.

Bibliografia

Iniciou-se nas letras com a publicação de um poema na antologia Esperando a missa do galo do escritor e acadêmico José Nascimento Moraes, edições Sioge, em 1978.

Em 1979 publicou seu primeiro livro, Estátua da noite, de poesias, editado pelo Sioge.

Em 1985 teve o conto Um dia na Copa do Mundo de 1954, premiado em segundo lugar no concurso nacional de minicontos, da revista Manchete, de circulação nacional, sobre copas do mundo de futebol.

Em 1993 seu romance O prazer de matar foi premiado e editado pelo SIOGE. Em 1999 o romance foi reeditado pela editora Revan, Rio de Janeiro, com o título de O ofício de matar, ocasião em que  foi resenhado por importantes veículos de divulgação literária nacional , como o Caderno Prosa e Verso, do jornal O Globo, Rio; Caderno Ideias do Jornal do Brasil; revista Bravo etc.

Em 1994 sua novela A ânsia do prazer foi premiada na categoria novela do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luis e editada pela entidade promotora do concurso, FUNC (Fundação Cultural da Prefeitura de São Luis).

Em 1995 seu livro Cidade aritmética, de poesias, obteve o prêmio Sousândrade do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luis e foi publicado pela FUNC.

Em 1996, sua novela infanto-juvenil O menino que via o além foi premiada e editada pela FUNC. Em 2001 foi reeditada pela Editora  Escrituras de São Paulo, ocasião em que foi considerada altamente recomendável para leitura pela seleção anual da Fundação Nacional do Livro Infanto- Juvenil.

Em 1998 teve publicado o livro de contos A morte dos Mamonas Assassinas e outros contos, premiado no concurso da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, SECMA.

Em julho de 2000 foi vencedor do prêmio literário Marianela Vasconcelos, pelo conjunto de poesias, promovido pelo Concelho Municipal de Sever do Vouga, Portugal.

Em 2004 seu conto Volte ao meu romance, recebeu menção honrosa no concurso nacional Paulo Leminski, da Universidade de Toledo, no Paraná e foi incluído na antologia nacional dos melhores contos do concurso.

Em 2007 classificou-se em segundo lugar no concurso da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, SECMA, na categoria romance, com o livro O infinito em minhas mãos, editado em 2009.

Em 2007 classificou-se em primeiro lugar na categoria contos do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luis com o livro Ei, você conhece Alexander Guaracy?, publicado em  dezembro de 2009.

Em Novembro de 2008, uma terceira edição de 10000 exemplares do livro O menino que via o além foi adquirida pela Secretaria de Cultura de Belo Horizonte para compor o acervo das bibliotecas do Ensino Público, após licitação para a qual concorreram grandes nomes da atual literatura infanto-juvenil e clássicos tradicionais.

Em janeiro de 2010 o conto de sua autoria Também as ondas recebeu menção honrosa e foi selecionado pelo 19º concurso de contos Luis Vilela, Ituiutaba, MG, para fazer parte de uma antologia nacional com os dez melhores contos do concurso publicada em 2011.

                   Em 2011 seu conto Pequeno dicionário de paixões cruzadas recebeu menção honrosa na edição 22º do Concurso Paulo Leminski e foi selecionado para uma antologia dos melhores contos do concurso que será publicada em 2013.

Discursos de Posse

Exmo. Presidente da Academia Maranhense de Letras, Dr. Lino Moreira; ilustres acadêmicos, senhoras e senhores:

Navegar é preciso, viver não é preciso.
Viver não é preciso?

Estes versos, que escutei pela primeira vez na juventude, cantados por Caetano Veloso, impressionaram-­me com o que possuíam de presságio, de misterioso e indecifrável por trás de uma melodia que volta e meia pulsou em meus ouvidos, ao longo de toda a minha viagem de vida. Como todos os senhores sabem, a vida é uma viagem.

Peço ajuda ao poeta Manuel Caetano Bandeira de Melo, que hoje tenho a incumbência, não de substituir, que isso é impossível, mas de honrar a glória, ocupando um espaço que até hoje foi seu, que me ajude a interpretar a sedução que senti. E ele me responde na poesia A Voz do Poema, inspirado por sua vez, numa leitura de Natalia Thimberg para um poema de Camões:

O que se encontra no verso é como a
nota Da pauta musical para leitura.
Somente a voz que lê a partitura,
Pelo tom que lhe dá lhe traça a rota
Quem diz o poema sente de onde
brota A música onde o poema se
enclausura.

Está, pois, desvendado o fetiche. O verso enclausura-­se na música, ao mesmo tempo em que a liberta. Sabe-­se que são poucos os poetas, mesmo os grandes, que são capazes de explicar a poesia. Manuel Caetano Bandeira de Melo, como acabamos de ver, é um deles.

Explicado o encantamento que se descobre no repente de um verso que nos atravessa a alma, resta a segunda parte do enigma. Quer dizer então que viver não é preciso?

Partamos em busca da explicação ao mesmo tempo em que chamo a atenção de todos para lembrar que, como já deu para perceber, também aqui estamos fazendo uma viagem, senhores, este discurso é também uma jornada e sou eu quem está tendo a ousadia de tentar conduzi­-los.

Recorro ao que descobri. Os versos, como desde cedo deduzi, não são de Caetano Veloso. Existem dúvidas sobre a origem dos mesmos, há gente quem sustente que esses versos seriam de Camões, talvez por ter sido ele um poeta-­navegador. Outros acreditam que tenham sido de Fernando Pessoa porque ele ajudou a tornar mais famosa ainda a frase quando escreveu:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
Navegar é preciso; viver não é preciso.
Quero para mim o espírito dessa frase,
Transformada a forma para a casar como eu
sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida: nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, Ainda que
para isso tenha de ser o meu corpo (e a
minha alma) a lenha desse fogo.

Tudo indica, no entanto, que estão mais próximos da verdade os que a atribuem a Pompeu, general romano que viveu nos anos 106­48 a.C. Ele dizia aos marinheiros que, amedrontados, recusavam-­se a viajar durante a guerra: Navigare necesse; vivere non est necesse, ou seja: Navegar é preciso, viver não é preciso. Assim, dessa forma: dura, precisa, contundente e, com a delicadeza reclamada séculos após pelo guerrilheiro Che Guevara quando concebeu outra frase que se tornou emblemática: “É preciso ser duro sim, porém sem jamais perder a ternura”.

Toda a ternura, delicadeza, emoção, presságio e contundência que existem nesses versos eram também caracteres presentes nos poemas de Manuel Caetano Bandeira de Melo onde também vamos encontrar, vez por outra, recorrência à simbologia marítima para tangenciar os limites da realidade. No livro Após a solidão de certas horas, ele diz:

Porém, como voltar se já os
navios no mar que os trouxe
foram incendiados? Como
não enfrentar os desafios
que por mim mesmo foram
provocados?

No seu primeiro livro de sonetos, O mergulhador, vamos encontrar também, no poema que deu título ao livro, esta evocação:

Sobre ti te susténs e sobre o arame
Em distâncias que imagens emudece
O mar, imenso apelo que te chame
Não apaga o corpo que desaparece
[…]
Embebido nos próprios movimentos
A dançar sobre linhas paralelas
Formada pelos fictícios traços
Passam as vagas levadas pelos
ventos, Mas fica sobre a cinza de
outras telas O corte do teu corpo
nos espaços

Era, portanto, Manuel Caetano Bandeira de Melo também um poeta­-navegador que fazia uso frequente das representações simbólicas nas viagens — e mergulhos — que fazia pelos rumos da sua escrita. Pela facilidade com que recorria a signos da realidade cotidiana sem se ater aos mitos literários tradicionais, Bandeira de Melo torna mais fácil a quem quer que seja a tarefa de dimensionar seu gênio quando nos coloca sempre um verso pronto como uma boia salvadora para qualquer ilação que se faça, um porto seguro para ancorar os nossos navios quando for maior a sede de navegar pela interpretação das águas turvas da arte e da poesia.

Essa fusão entre simbolismo e precisão, peculiar a seus versos, é, sem dúvida, do mesmo teor daquele com que iniciamos esta viagem, a ponto da interpretação de muita gente ter enveredado pela opção de tentar entender o verso inicial pelo sentido da precisão, antes até do que da necessidade ou premência. Para estes quando o poeta, o cantor ou alguém diz “Navegar é preciso, viver não é preciso”, não estaria se referindo à conotação do necessário, do urgente, mas à do acerto e da competência. Isso é compreensível. Porque o ato de navegar tem a obrigação da precisão, só são capazes de encarar e sobreviver aos mares revoltos aqueles que navegam com precisão e objetividade. Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral e outros grandes navegadores só chegaram ao seu objetivo por causa disso. A vida, nesse aspecto, difere do mar, ela não é infalível, infalível é a morte, a vida tem imprevisibilidades, inconstâncias, sortes, azares e futuros caoticamente atravessados em nossos caminhos. Viver é absurdo, já disse Clarice Lispector, enquanto o grande compositor de sambas Paulinho da Viola recomendava prudência em relação às viagens da vida: “Faça como o velho marinheiro que diante do nevoeiro leva o barco devagar”.

Mais uma vez, nesse ponto de nossas reflexões podemos nos socorrer do farol sempre generoso de Manuel Caetano Bandeira de Melo para nos referenciarmos em nossa viagem. Ele diz:

A vida é absurda e absurdo, é dela
o sentimento que me assalta e
quanto mais lhe alguma trama
urdo o seu sentimento mais me
falta Ao rumor do mistério sempre
surdo
Qual um outro oceano de onda em
alta Pairasse sobre a terra onde me
aturdo Ao plano de onde a mente
nunca salta.

O que já parece ser suficiente, a esta altura de nossa viagem, para nos deixar pouca dúvida a respeito da genialidade contida em seus desataviados, mas contundentes versos. A viagem dos amantes das letras ou não, através dos seus versos, será sempre uma aventura precisa, como acentuou o crítico consagrado Antônio Olinto ao dele dizer: “Dir­-se­-á que na fase clássica do modernismo Manuel Caetano Bandeira de Melo se impõe como um dos herdeiros do simbolismo. O subjetivismo denso, transfigurando sempre, mesmo quando a realidade é física e direta, não invalida a logicidade”.

Logicidade esta que carece também estar presente na viagem que fazemos juntos e que deve ser a mais breve possível para não enfadarmos os viajantes.

Tranquilizem-­se, pois. Tenho certeza de que não perdemos o rumo mesmo enlevados e emocionados pela poesia deste grande poeta que agora sobrepaira entre nós. Estamos ainda, com certeza, navegando nas mesmas águas a que se refere outro poeta, este francês, simbolista e igualmente grande Stefhane Mallarmé, quando dizia:

Navegamos, ó meus fraternos amigos
Eu à proa, vós a popa
Numa pompa que topa
Uma onda de raios e de invernos.

Pois a vida, repito, é uma viagem e navegá-­la, é sina maior do que a própria vida. Não seria essa, de tantas explicações, a mais perfeita para o verso cantado por Caetano Veloso, nesse belíssimo fado chamado de Os Argonautas? Se a vida é um breve sonho no intervalo de dois sonos profundos, cabe ao navegador torná­-la infinita no breve momento em que ela se passa, pois quem tem o leme do infinito em suas próprias vidas é o donatário dos seus momentos; cada um, quer queira quer não, é o maior navegador de si próprio. Vidas temos todos, navegadores somos todos, mas bons navegadores são poucos, como o foram com perfeição Castro Alves, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, e Artur Rimbaud, e repito uma vez mais, Manuel Caetano Bandeira de Melo, juntando ao poeta aqui homenageado alguns poetas de vida tão breve, mas de viagens infinitas.

Recordo neste instante de minha infância e revejo a minha mãe, minha tia ou outra pessoa, me perguntando o queria ser quando crescesse. Eu respondia então que queria ser chofer de lancha. É que morávamos no bairro do Desterro, eu tinha cinco ou seis anos, e das janelas de nossa casa era fácil vermos, de bem perto, as lanchas que chegavam. Nessa época, não havia o aterro do Bacanga e, até bem perto das casas do Desterro que hoje ficam no limite das ruas que hoje fazem parte do patrimônio histórico, atracavam barcos e lanchas. Anos mais tarde, mais crescido, mas ainda fascinado pelo mar eu mudei um pouco o tom. A essas alturas já morava no interior, em Guimarães, e não via mais lanchas tão de perto. Então quando perguntado eu dizia agora que queria ser oficial da marinha. Como ao invés disso me tornei engenheiro metalúrgico e escritor é de se acreditar que a criança já iniciara, sem escrever ainda uma página sequer, a viagem por mares nunca dantes navegados que é a sina de todo aquele que se pretende escritor, quando recria seus mundos.

Não sabia ainda que já cumpria esse tipo de viagem, quando, anos mais tarde devido às novas funções do meu pai, ex-­promotor e agora juiz de Direito, nos transferimos de Guimarães para São Luís. Nessa época, quando eu saltava do bonde Gonçalves Dias na praça João Lisboa, seguia rumo ao Desterro onde meu pai e meus avós mantinham um comércio de variedades e uma pequena fábrica de gelo. De longe, ao saltar, eu via a estátua de João Francisco Lisboa. Então eu deparava com a figura solene de um homem que devera ter sido muito ilustre para ter virado estátua o que, para mim tinha o dom de incompreensíveis razões entre o misterioso e litúrgico, como coisas da Igreja e das divindades. Ora, as estátuas, como aprendi depois, são representações solenes de uma vida, são memórias estratificadas não de peles e ossos, mas de uma viagem bem construída. A criança, embora não soubesse o porquê, no seu inconsciente infantil já suspeitava, provavelmente. Pois não se fazem estátuas a torto e a direito. Poucas memórias existem por aí, dignas de serem estratificadas em mármore. A criança jamais saberia a essa altura de sua viagem, que muitos céus, muitos portos, arrecifes, e tempestades após, estaria ancorando com a sua nave neste porto chamado Academia Maranhense de Letras, neste exato momento para homenagear quem, a partir desta noite, passa a ser meu glorioso patrono. A estátua, que foi transformada em símbolo, se desfazendo novamente para que possamos ver mais uma vez, ainda que rapidamente, a paisagem da criança e do homem.

João Francisco Lisboa que, segundo Josué Montelo foi o nosso mais importante prosador na geração que precedeu a de Machado de Assis e Rui Barbosa, nasceu em 22 de março de 1812 na fazenda de seus avós maternos, situada na freguesia de Nossa Senhora das Dores do Iguará, terras do atual município de Pirapemas, localidade sujeita então à jurisdição de Itapecuru-­Mirim (na época chamada de Itapicuru ou Itapucuru).

Estudou as primeiras letras em São Luís e voltou para Pirapemas até retornar em definitivo para a capital, onde se dedicou ao saber, sob a tutela do professor de latim Francisco Sotero dos Reis. No principal de sua formação era um autodidata, o que significa que a sua sina de navegador já tinha norte próprio determinado pelo talento, conforme acentuou o historiador Mário Meireles sobre o período compreendido entre 1832 e 1868:

Dentre os prosadores a figura maior é, sem dúvida, a de João Lisboa, historiador, publicista, sem títulos universitários e simples discípulo de Sotero dos Reis, que também não os têm: não obstante, o mais lúcido espírito e o estilista do seu tempo, na opinião crítica de Ronald Carvalho.

Cumpre destacar que nessa época o Brasil não contava com nenhuma universidade, os cursos jurídicos eram ministrados apenas em Pernambuco e São Paulo e os de Medicina na Bahia e Rio de Janeiro. Por essa razão os estudantes da Província eram enviados para esses centros ou para a Europa a fim de matricularem-­se na velha universidade de Coimbra o que sucedeu, entre outros, com o poeta Gonçalves Dias.

Era, portanto, muito difícil viajar pelas páginas do saber. Era árdua a vida, a ponto de ser preciso viajar sempre, com ou sem metáforas. Basta dizer que somente em 31 de outubro de 1821 chegou a São Luís a primeira tipografia, mecanismo este que facilitaria e muito, para João Lisboa cumprir seu destino literário. Sim, porque o jovem João Lisboa abraçou de pleno coração, disposto a vencer ventos e procelas, o ofício do jornalismo definindo também a sua opção política que, neste breve discurso, não cabe citar nem comentar. Trabalhou em sucessivos periódicos até chegar ao que se considera o ápice do seu trabalho jornalístico e literário, o Jornal de Tímon que, lançado em primeira edição a 25 de junho de 1852, expunha uma notável peculiaridade. Tinha 100 páginas e era inteiramente redigido por ele, João Francisco Lisboa. Ou seja, não era um jornal no sentido em que hoje temos esse arauto essencial das liberdades democráticas, era um livro. Não era apenas um livro, era um manancial, era um repositório de grandes ideias, um convite aos debates e reflexões, enfim, era uma viagem.

Jornal de Tímon por quê?
Ele assim o explica nessa primeira edição:

O leitor me perguntará a que propósito o nome Tímon? Que sou eu? Esse nome pertenceu na Antiguidade a um homem singular e estranho que, azedado pelas injustiças e ingratidão, votou um ódio tão entranhável ao gênero humano, e de tal maneira os rejeitava entregues aos crimes e aos vícios, que se pagava mais do desprezo que da estima dos homens.

Portanto, o nome Tímon deveu-­se à escolha de um homem que no passado grego foi o símbolo da virtude, o célebre Tímon de Atenas, também cognominado O Misantropo, cabendo aditar que João Francisco Lisboa, pela retidão do seu caráter, por sua intolerância em face da corrupção dos costumes, foi de uma certa forma também, 0 Tímon desta nossa Atenas.

A receptividade alcançada pelo Jornal de Tímon — escrito, como já dissemos, por um homem só —, excedeu a todas as expectativas. O autor labutava na Província, o que não impediu que seu nome passasse a ser conhecido na capital do Império, onde recebia elogiosas referências, a ponto de Francisco Otaviano ter escrito sobre ele no Correio Mercantil, órgão da imprensa do Rio de Janeiro:

O seu livro, apesar de traços epigramáticos é um testemunho histórico de um merecimento tão transcendental que um dos nossos colegas de mais espírito conversando há alguns dias em um grupo de jornalistas da Câmara disse que ainda duvidava que aquele livro fosse, em semelhante gênero, uma publicação brasileira.

A publicação do Jornal de Tímon proporcionou, em seguida, a João Lisboa o ingresso no Instituto Histórico e Geográfico e Brasileiro, sediado na cidade do Rio de Janeiro. A proposta foi apresentada por ninguém menos que Gonçalves Dias, também historiador e que residia na capital do Império. Nesse tempo a instituição contava com o patrocínio do próprio imperador dom Pedro ii, que comparecia a quase todas as sessões.

Desnecessário dizer que neste ponto de sua viagem literária João Francisco Lisboa já fazia parte de uma plêiade que constituía o grupo de escol que legou a São Luís o título de Atenas Brasileira.

Em 1855 empreendeu sua última e definitiva viagem física, primeiro até o Rio de Janeiro e depois a Portugal com a esposa e a filha adotiva. A febre amarela o apanhara e já ameaçava a sua trajetória de vida que, como diriam os navegantes, começava a fazer água, embora a literária continuasse a pleno vapor, já que, em Lisboa, começou a preparar a coleta de informações documentais sobre o padre Antônio Vieira com as quais escreveu uma importante biografia do grande e imortal jesuíta.

Às duas horas da madrugada de 26 de abril de 1863 exalou seu ultimo suspiro longe do Maranhão e do seu país. Seu corpo foi conservado em um caixão de chumbo, depositado na igreja de São Paulo e transferido para o mausoléu do negociante Sebastião José de Abreu, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Quando foi transladado um ano depois para São Luís partindo de Lisboa aqui chegou em 24 de maio de 1864 no brigue Angélica 1 que entrou na baía de vergas cruzadas em sinal de luto, tendo sido acompanhado nessa homenagem pelos navios que se encontravam surtos no porto. A bordo vinham os restos mortais de João Lisboa, e a bela homenagem deve tê­-lo alcançado em espírito, pairando sobre as águas, em pleno gozo de sua aventura póstuma quando, segundo a frase navegar é preciso, viver não é, ele continuou navegando pelos rios da eternidade, pois agora seu talento o tornara imortal.

Quando a criança que eu fui se deparou pela primeira vez com a estátua de João Lisboa, que foi inaugurada em 1916, quatro anos depois, portanto, do festejo do centenário do seu nascimento, eu ainda não tinha consciência da glória que transforma seres em pedras e depois em símbolos. Ainda não imaginara que a depender das viagens que alguém faz, pode se perpetuar ou não. Que a eternidade é apenas a cota que sobra do ato do viver bem navegado, mas que a aventura escolhida por ele para chegar a isso que, no seu caso foi bem sucedida, é na maioria das vezes para aquele que se propõe ao ofício da escrita, apenas uma aventura vã e dolorosa.

Que espécie de aventura é essa, a de escrever por mares sempre nunca navegados, tendo como bússola, apenas a solidão? Isso, ao final de contas, principalmente nos dias de hoje, dos big brothers, do forró eletrônico, das calcinhas pretas e da desenfreada procura por quinze segundos de fama na televisão, vale a pena? Quanto e quando vale?

Existem coisas certamente muito mais prazerosas na vida do que escrever, tais como jogar futebol, namorar, ver shows, curtir as praias e viajar de avião ou de carro, contemplando deliciosas paisagens ao invés de viajar pelas profundezas do ser e dos seres, esta tão longa viagem de si para si mesmo de que falava Fernando Pessoa. Lutando e brigando com as palavras, ontem com uma caneta, depois com uma máquina de escrever e hoje com um computador, em eterna viagem solitária como quem perdeu o rumo da vida. Por que perder-­se na ilha solitária das páginas como um Robinson Crusoe, que nunca encontrará seu retorno?

Disse um escritor norte­-americano que a única vantagem de ser escritor é que ninguém o chama de burro por ganhar tão pouco. Existem outras? Sei que alguns dirão, muitos ganham muito dinheiro, estão aí o Paulo Coelho e o Chico Buarque para provar isso. Esquecem de que Chico Buarque ganha muito dinheiro com livros porque é cantor e Paulo Coelho porque é mago como ele próprio não se cansa de dizer. Talvez, ou certamente, um mago mágico que tirou um livro da cabeça como um coelho da cartola.

E a imortalidade? Mas a imortalidade, da forma em que são forçados a praticarem os escritores de hoje surge da forma mais dolorosa possível que á da sobrevivência heroica, esse dom de não morrer ganhando tão mal e tão pouco. Como dizia um amigo, todo escritor é imortal, independentemente do seu sucesso e talento, já que seu exercício é a imortalidade no sentido da sobrevivência a todo instante. Se ainda não morreu até agora, é sinal de que não morrerá nunca.

Porém, se um escritor escrever um livro, um só que seja e este vier a ser lembrado por gerações vindouras não se saberá efetivamente se ele um dia se foi, pois para uma correta indagação seria necessário perguntar de qual dos mundos ele se terá ido, do mundo real ou daquele que ficou em seu livro E, desta vez, ninguém obterá resposta.

E, se quisermos, uma outra vantagem, quer queiram quer não, é a possibilidade de um dia poder estar aqui numa Academia de Letras, neste caso especial a Academia Maranhense de Letras, um clube ao qual pertenceram de uma forma ou outra, Erasmo Dias, José do Nascimento Morais, Manuel Caetano Bandeira de Melo e muitos outros, entre eles Sousândrade, patrono de uma Cadeira desta Casa, e Gonçalves Dias, patrono maior desta Academia. Como não almejar pertencer a um clube desses? Esses homens ilustres acima citados estiveram ou estão não porque foram ricos ou pobres, bonitos ou feios, alegres ou tristes, mas pelo que escreveram, pelos seus livros.

Vim pelos meus livros, falava­-me um dia emocionado, na minha juventude, Erasmo Dias ao recordar a frase de um grande escritor frente ao Prêmio Nobel.

Pelos seus livros aqui chegou também José Ribeiro de Amaral que foi fundador desta Cadeira. Seu livro Fundação do Maranhão, essencial a todo aquele que queira conhecer a história do nosso Estado e que foi há pouco reeditado num esforço gigantesco e conjunto dos membros desta aml e das instituições maranhenses reapareceu (e reaparecerá muitas vezes) por motivo da celebração do próximo quarto centenário da fundação da cidade de São Luís. A seu respeito escreveu Mont’Alverne Frota, mestre e acadêmico que aqui se encontra:

Ribeiro do Amaral passou a vida entre livros e jornais. O pioneirismo dos franceses na fundação da cidade que tanto amava, estava pra ele sedimentado em provas irrefutáveis. A vida de Ribeiro do Amaral foi uma comprovação desse empenho de ir buscar água na fonte cristalina da verdade histórica.

Pelos seus livros Vencidos e degenerados, Neurose do medo e Contos de Valério Santiago também esteve aqui, antes do já citado Manuel Caetano Bandeira de Melo, José do Nascimento Morais, sobre quem escreveu Josué Montelo:

Na redação, noite alta, Nascimento Morais tinha o seu método de escrever. Escrevia numa ponta de mesa, de vez em quando parava, deixava a cabeça cair sobre o braço, dormia, levantava a cabeça, retomava a composição, sem precisar ler o que ia para trás, e assim prosseguia até encher o número de laudas necessário para completar meia página de jornal.

E, acrescentou também sobre o livro Neurose do medo:

No entanto, é em Neurose do medo que minha memória reencontra a mais bela página do romancista Nascimento Morais. Faz mais de trinta anos que a li e, ainda hoje, é como se estivesse vendo a hora matinal que serviu de cenário ao crime que sua pena de mestre descreveu.

Recapitulo aqui, os luminares que pertencem à história da Cadeira que hoje passo a ocupar:
Patrono: João Francisco Lisboa.
Fundador: José Ribeiro do Amaral.
Antecessores: José do Nascimento Morais e Manuel Caetano Bandeira de Melo.
Pelos seus livros, também chegou aqui este navegador. Vim pelos meus livros, mas não posso esquecer que vim também pelas muitas pessoas a quem sou grato nessa trajetória das letras e da vida.

Vim por Nascimento Morais Filho que há pouco tempo nos deixou e que foi quem primeiro publicou um poema meu, acreditando no jovem que tentava se iniciar na literatura e lhe entregara para apreciação um poema que, generosamente, foi agraciado com a sua inclusão numa antologia sobre o Natal, Esperando a Missa do Galo. Vim por Jomar Moraes, escritor e mestre, cuja viagem de vida se confunde com a desta própria Academia, e que pela primeira vez acreditou no potencial do jovem e publicou o meu primeiro livro: o volume de poesias chamado A estátua da noite, com capa do meu irmão Ivanildo Ewerton, que era também artista plástico. Que leu meu primeiro romance O prazer de matar, indicou-­o a José Louzeiro e me incentivou a concorrer pela primeira vez a um concurso, do qual saí vitorioso. Vim por Erasmo Dias, escritor de cuja convivência privei em encontros memoráveis, regados à alguma cerveja (talvez mais que algumas) no qual grupos de jovens se reuniam para discutir literatura e cultura em geral e que doou-­me a quantificação mais próxima que jamais encontrei, da equação possível da melhor sensibilidade artística, inclusive quando, por generosidade ou não, se emocionou até as lágrimas com o primeiro poema que lhe mostrei e que se chamava justamente A Chamada.

Vim pelo meu avô José Ewerton, de quem herdei o nome, que era marinheiro na verdadeira acepção da palavra, que começou pobre e fez comércio de pesca, buscando no mar a fonte do seu progresso e depois veio a ser prefeito de Guimarães e depois de Cedral. Vim pelas minhas avós Assunção e Tiló. Pela minha mãe Teresa que, sem instrução superior, doou­-se por inteira à obrigação de formar seus filhos. Pelo meu pai Juvenil Ewerton que navegou com brilhantismo pela área jurídica, onde se tornou desembargador, mas nunca deixou a veia artística herdada do pai e que se fez músico e conhecedor profundo da melhor música popular brasileira. Vim pelo meu falecido irmão que aqui estão e sempre me ajudaram nesta trajetória, pelo meu irmão que está em Salvador, pela sobrinha, parentes e minhas duas netinhas, pelos escritores amigos e professores que me trouxeram sempre ideias e horizontes novos, e enfim, por todos aqueles que tantas vezes fizeram com que esta caravela não soçobrasse apesar dos ventos transformados em tempestades que nem sempre sopram a favor.

E vim pelos meus livros. Recordo da frase de outro escritor que dizia que a feitura de um livro é o fenômeno mais equivalente que um homem pode sentir da criação feminina do ser humano. O humorista Ziraldo, por sua vez, dizia que o nome desse ato sublime da gestação do ser não devia ser parto, mas fico. Afinal de contas, a criança não está partindo, mas chegando.

Nesse ponto final de minha viagem, ao mesmo tempo em que lhes agradeço pela companhia, espero que me desculpem se por acaso os enfadei nesta viagem de palavras. Ao sentir que também estou partindo e ficando, partindo por que estou chegando ao final desta viagem e ficando porque a generosidade dos acadêmicos que me elegeram está me fazendo incluir em seu glorioso convívio, não posso e nem quero disfarçar a minha embriaguez. Essa embriaguez não é de bebida e sequer é de vitória posto que tenho a convicção de que a ninguém deve ser concedida a possibilidade de disputar consigo mesmo a própria viagem de vida. Somos os únicos capazes de derrotar a nós mesmos, como bem sabiam os marinheiros. Esta é a embriaguez da chegada a um porto ansiosamente esperado. A embriaguez de que falava o grande poeta simbolista francês Mallarmé, com cujas palavras os convido a fazerem comigo um último brinde.

Minha embriaguez me faz arauto
Sem medo ao jogo do mar alto
Para erguer, de pé, este brinde:
Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim
de um branco afã de nossas velas.

 

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